Uma Questao Pessoal - Kenzaburo Oe

  • View
    221

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of Uma Questao Pessoal - Kenzaburo Oe

  • 8/17/2019 Uma Questao Pessoal - Kenzaburo Oe

    1/142

  • 8/17/2019 Uma Questao Pessoal - Kenzaburo Oe

    2/142

    DADOS DE COPYRIGHT

    Sobre a obra:

    A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.

    É expressamente proibida e totalmente repudíavel a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo

    Sobre nós:

    O Le Livros e seus parceiros disponibilizam conteúdo de dominio publico e propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer  pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.link  ou em

    qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link . "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais

    lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a

    um novo nível."

    http://lelivros.link/ http://lelivros.link/ http://lelivros.link/parceiros/ http://lelivros.link/ http://lelivros.link/ http://lelivros.link/

  • 8/17/2019 Uma Questao Pessoal - Kenzaburo Oe

    3/142

  • 8/17/2019 Uma Questao Pessoal - Kenzaburo Oe

    4/142

     

    uma questão pessoa

  • 8/17/2019 Uma Questao Pessoal - Kenzaburo Oe

    5/142

    1.

    Lá estava o mapa da África, em exposição no mostruário. Vistoso, belo como um cerv africano. Bird deixou escapar um suspiro abafado. Enfiadas em uniformes e com as part expostas do corpo arrepiadas de frio, as vendedoras da livraria não lhe deram atençã Entardecia. Como o corpo de um gigante recém-falecido, a atmosfera em volta da Ter fora perdendo aos poucos o calor daquele início de verão e se resfriara por completo. A pessoas pareciam querer recuperar das sombras do subconsciente a memória do calor d dia, cujo resquício a pele ainda retinha, e suspiravam desoladas. Junho, seis e meia d

    tarde. Ninguém mais suava na cidade. Exceto sua própria mulher, que àquela altura estar transpirando intensamente por todos os poros do corpo desnudado. Estendida sobre u lençol de borracha e com os olhos fortemente cerrados, perdiz atingida em vôo e em plen queda. Gemendo de dor, tomada de angústia e ansiedade.

    Bird estremeceu e observou melhor os detalhes do mapa. O oceano ao redor da Áfric era do mesmo azul do céu lavado das madrugadas de inverno. Melancólico de provoc lágrimas. As latitudes e longitudes não haviam sido traçadas mecanicamente, com o auxíl de um compasso, por exemplo. Eram imprecisas mas belas, porque executadas à mã Traços grossos, em tinta negra. O continente propriamente dito parecia o crânio de u homem com a cabeça inclinada. A cabeça gigantesca parecia contemplar com afeição Austrália dos coalas, das gazelas e dos cangurus. A África em miniatura, com a distribuiç demográfica do continente, impressa na parte inferior do mapa, era como uma cabeça d cadáver começando a decompor-se; outra, mostrando as vias de comunicação, era um cabeça escalpelada com finas artérias à mostra. Aquelas duas pequenas Áfricas sugeria morte violenta.

    — Quer que retire o atlas do mostruário?— Não, o que eu quero não é este. Estou procurando os mapas rodoviários da Áfric Ocidental, da África Central e da África Meridional, os mapas Michelin — disse Bird.

     A vendedora se agachou em frente a uma estante cheia de mapas Michelin de todos tipos. Começava a vasculhá-los apressadamente quando Bird,  revelando-se conhecedo acrescentou:

    — São os mapas de número cento e ointenta e dois e cento e oitenta e cinco. O que Bird examinava entre suspiros era uma das páginas de um espesso atlas mundia

    Respeitável, encadernado em couro, uma peça de antiquário. Ele já verificara o pre

  • 8/17/2019 Uma Questao Pessoal - Kenzaburo Oe

    6/142

    daquele volume luxuoso semanas antes. Valia umas cinco vezes seu salário de professor d cursinho. Contando as receitas de sua atividade secundária como intérprete, poderia obtê- em três meses de trabalho. Mas precisava sustentar a si próprio, à mulher e ao ser que e breve viria ao mundo. Era um chefe de família.

     A vendedora separou dois conjuntos de mapas de capa vermelha e os depositou sobre balcão. Tinha mãos pequenas e sujas e dedos feios. Lembravam as patas de um camale

    agarradas a um tronco ressequido. Bird viu o logotipo Michelin por entre os dedos dela:homem batráquio de borracha rodando um pneu estrada afora provocou nele o sentimen de que a compra dos mapas era uma tolice. Porém aqueles mapas teriam um uso práti importante. Bird perguntou sobre o outro mapa, o da edição luxuosa do mostruário, pe qual continuava interessado.

    — Por que o atlas está sempre aberto no mapa da África? Cautelosa, a vendedora preferiu não responder. Por que ele estaria sempre aberto na página da África?, Bird se perguntava.

    Preferência da vendedora, por achar aquela página a mais bonita do livro? Talvez. Mas mapa de um continente mutável como o africano se desatualiza com muita rapide Provoca a caducidade de qualquer atlas. Deixar o atlas aberto na página da África ser pura e simplesmente, proclamar a obsolescência da obra inteira. Que mostrassem o map de um continente politicamente estabilizado, sem a mínima possibilidade d desatualização. Mas qual deles? O continente americano, ou seja, o norte-americano?

    Bird interrompeu suas conjecturas para pagar pelos dois mapas de capa vermelha, depo

    avançou na direção da escada, passando cabisbaixo entre a estátua de bronze de ummulher nua e rechonchuda e uma árvore plantada num vaso. O baixo-ventre da estátua d bronze estava lustroso e úmido, ensebado pelas mãos dos carentes de sexo. Brilhava com um nariz de cachorro. Quando estudante, também ele costumava alisar aquela barriga a passar. Agora, não tinha coragem nem de olhar o rosto da mulher de bronze. Vira o médic e as enfermeiras, de mangas arregaçadas, lavando e esfregando os braços com desinfetant E, nua, estendida ali ao lado, sua mulher. O médico tinha braços peludos.

    Bird atravessou o congestionado setor de revistas do andar térreo. Enfio

    cuidadosamente o embrulho contendo os mapas no bolso externo do paletó, protegendo enquanto caminhava. Pela primeira vez, comprava mapas de uso prático como aqueles.

    Quando vou conseguir pisar o solo africano? Erguer o rosto, ver o céu da África atrav das lentes dos óculos escuros? Chegará mesmo esse dia? Ele não acreditava. Quem sab neste exato momento, eu não tenha perdido para sempre essa chance? Quem sabe nã estou dando adeus à única e última oportunidade da minha juventude? Mas fazer o quê?

    Inconformado, empurrou com violência a porta da livraria e saiu para a rua, para lusco-fusco da tarde. Início de verão, pairava no ar uma nebulosidade, fruto da poluiçã aliada às sombras do crepúsculo. A vitrina exibia livros de capa dura recém-importados. L

  • 8/17/2019 Uma Questao Pessoal - Kenzaburo Oe

    7/142

    no alto, um eletricista que trocava lâmpadas de néon pulou e caiu agachado diante de Bir Ele recuou, assustado, e se deteve, observando a própria imagem refletida no vidro d ampla vitrina às escuras. Estava envelhecendo com a rapidez de um corredor de cur distância. Bird, vinte e sete anos e quatro meses. Recebera o apelido aos quinze anos d idade e desde então nunca deixara de ser Bird. Flutuando desajeitadamente à superfície d lago escuro da vitrina, como um afogado. Bird, baixo e magro, a própria imagem d

    pássaro. Seus amigos haviam engordado assim que se formaram e começaram a trabalhaAté os magros teimosos haviam deixado de sê-lo depois do casamento. Bird, contud continuara magro. Só o ventre estava um pouco mais saliente. Andava sempre encurvado de ombros encolhidos. Não mudava de posição nem quando estava parado. Jeito de velh desses que um dia foram atletas.

    Não só os ombros encolhidos lembravam as asas dobradas de um pássaro. O própr rosto era o de um pássaro. Nariz afilado e liso, fortemente encurvado, com o aspecto de u bico de ave; olhos inexpressivos, com um brilho duro de goma-laca, que se arregalavam

    vez em quando como se estivessem apavorados. Lábios finos e rijos, sempre cerrados. linha da face e do queixo formava um ângulo muito agudo. Cabelos avermelhados, subind ao céu como uma labareda. Aos quinze anos, Bird já era assim. Nada se alterara aos vint Até quando, aquele jeito de pássaro? Faria parte da espécie humana cujo rosto e físico conservam irremediavelmente imutáveis dos quinze aos sessenta? Sendo assim, estar fadado a conviver com aquela imagem da vitrina pelo resto da vida. Idéia realmen angustiante e repulsiva, que lhe dava náuseas. Pássaro decrépito e cansado, cheio de filho

    o seu futuro...Foi aí que, do fundo daquele lago escuro, surgiu uma mulher de aspecto positivamen estranho. Corpulenta, de ombros largos, tão alta que sua cabeça ficava acima do reflexo d cabeça de Bird. Com a sensação de que havia um monstro às suas costas Bird finalmente voltou, na defensiva. A mulher estava agora diante dele, com ar indagador, examinando com atenção. Bird devolveu o olhar, mas percebeu que pouco depois a ansiedad estampada no rosto dela era afastada por um sopro de indiferença. Ela esboçara um contat com algum intuito. E de repente se dera conta de que Bird não correspondia bem ao tip

    presumido. A essa altura ele já perceber