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Disciplina de CULTURA E SOCIEDADE CULTURA E PRODUÇÃO CULTURAL Osvaldo Luís Meza Siqueira

Unidade1 1 CultSociedade AVA

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Disciplina de

CULTURA E SOCIEDADECULTURA E PRODUO CULTURAL Osvaldo Lus Meza Siqueira

Todos os direitos desta edio reservados Universidade Tuiuti do Paran. Nenhuma parte deste material poder ser reproduzida e transmitida sem prvia autorizao.Diviso Acadmica: Marlei Gomes da Silva Malinoski Diviso Pedaggica: Analuce Barbosa Coelho Medeiros Margaret Maria Schroeder Diviso Tecnolgica: Flvio Taniguchi Neilor Pereira Stockler Junior Projeto Grfico e Editorao Eletrnica Neilor Pereira Stockler Junior

Material de uso didtico

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) Biblioteca Sydnei Antonio Rangel Santos Universidade Tuiuti do Paran

Universidade Tuiuti do Paran Reitoria Luiz Guilherme Rangel Santos Pr-Reitoria de Planejamento e Avaliao Afonso Celso Rangel dos Santos Pr-Reitoria Administrativa Carlos Eduardo Rangel Santos Pr-Reitoria Acadmica Carmen Luiza da Silva

Disciplina de CULTURA E SOCIEDADE

1 Bimestre Unidade 1.1

CULTURA E PRODUO CULTURAL

Osvaldo Lus Meza Siqueira

NOTAS SOBRE O AUTORPossui graduao em Licenciatura em Histria pela Universidade Tuiuti do Paran (1999) e especializao em Metodologia do Ensino de Histria pela Faculdade Internacional de Curitiba (2001) . Atualmente professor da Universidade Tuiuti do Paran, professor da Sociedade de Ensino Unificado, professor da Escola Social Madre Cllia e professor do Grupo Educacional UNINTER. Tem experincia na rea de Histria , com nfase em METODOLOGIA DO ENSINO DE HISTRIA.

ORIENTAO PARA LEITURA

Citao Referencial

Destaque

Dica do Professor

Explicao do Professor

Material On-Line

Para Reflexo

APRESENTAOA Universidade Tuiuti do Paran, em 2011, iniciou a insero, nos currculos acadmicos dos cursos de graduao, de componentes curriculares unificador. O objetivo foi ampliar o sentido de universalizao do conhecimento, dando aos alunos da Universidade o mesmo encaminhamento didtico, metodolgico e filosfico para componentes curriculares de formao geral mediadas em EAD estruturados nos bimestres que compem o semestre letivo. Compreendeu-se que mais do que a formao especialista o acadmico deve estar para ler, interpretar, interagir e somar com a sociedade e seu contexto profissional.

Objetivos Criar interatividade e autonomia em pesquisa e grupos de discusses entre os acadmicos e os tutores Facilitar o alcance de conhecimentos complementares, colaborando com a formao acadmica. Inspirar e qualificar profissionais ao desenvolvimento. Integrar relaes. Possibilitar diversificao das formas de aprender e ensinar, tornando o egresso TUIUTI colaborativo e capaz de gestar seus conhecimentos. Para cada bimestre sero organizadas quatro unidades de aprendizagem (UNA), tendo como objetivo a construo do conhecimento do aluno. Os contedos so distribudos de forma sequencial, com intervenes avaliativas ou apenas interativas possibilitando a contextualizao do assunto.

Unidade 1 Unidade 2 PRIMEIRO BIMESTRE Unidade 3 Unidade 4 Texto Bsico Vdeo Aula

Atividades avaliativas (frum, questionrio descritivo ou objetivo, vdeos, imagem, entre outros).

Leitura Complementar

Unidade 1 Unidade 2 SEGUNDO BIMESTRE Unidade 3 Unidade 4 Texto Bsico Vdeo Aula

Atividades avaliativas (frum, questionrio descritivo ou objetivo, vdeos, imagem, entre outros).

Leitura Complementar

As intervenes interativas so as de checagem de compreenso do ambiente e do sistema, no so atribudas notas ou conceitos, porm ajudam na apropriao do ambiente pelo aluno e aproximam o contato entre esse e os tutores e professores. As intervenes avaliativas so os fruns, questionrios (descritivos ou objetivos), vdeos, provas presenciais e demais formas de mensurar a apropriao do conhecimento pelo aluno. As intervenes avaliativas se daro de duas formas:

No ambiente virtual de aprendizagem (AVA) - que somaro 4,0 pontos do Bimestre - sendo um ponto, preferencialmente para cada UNA; Por provas presenciais - As avaliaes presenciais somaro 6,0 pontos do Bimestre e acontecero ao trmino dos estudos das UNAs do Bimestre.Texto Bsico: o contedo do curso em formato PDF, disponibilizado ambiente virtual de aprendizagem CEAD, para ser impresso, se assim preferir. Atividades: Todas as atividades so descritas dentro dos mdulos ou unidades com as devidas orientaes. Leitura Complementar: So leituras extras, onde o aluno pode aprofundar o seu conhecimento sobre o contedo do seu curso, inclusive o aluno ter disponvel para acesso a biblioteca virtual PEARSON, com mais de 5.000 ttulos disponveis.

Recursos ComplementaresNo ambiente virtual de aprendizagem cead.utp.edu.br, voc poder tirar as dvidas referentes a cada aula com seu tutor, participar de fruns e enviar e-mails consultando a equipe sobre sua dvidas. Voc dever consultar o tutor de aprendizagem sobre dvidas de contedo e o tutor de acompanhamento sobre seus acessos ao ambiente e funcionamento do mesmo.

Estratgias de EstudoA aprendizagem a distncia requer aprimorar algumas habilidades, como de estabelecer rotinas de estudos, sem a presena constante de um professor e gerenciamento do tempo. A Universidade por intermdio da CEAD Coordenadoria de Educao a Distncia, oferecer total apoio sua aprendizagem. Voc ter um professor Responsvel pelo Componente Curricular, esse professor organizar as atividades, o material de leitura e ministrar as aulas presenciais. Alm dele, voc ter o apoio constante de um tutor de aprendizagem (o tutor exerce a funo de mediador no processo de ensino e aprendizagem, apia ao aluno em suas necessidades de contedo, acesso ao ambiente, organizao e tcnicas de estudo). O aluno dever recorrer ao tutor de aprendizagem sempre que estiver com dvidas sobre o contedo da matria esse ter 48 horas para lhe dar suporte e responder sua questo. Organize seu tempo de estudo e aproveite os momentos de mediao.

Algumas estratgias sero fundamentais.1 saber estudar de forma independente e autnoma; 2 organizar seu tempo de estudo; 3 ter iniciativa, elaborar roteiros de dvidas e consultar o tutor de aprendizagem; 4 ter familiaridade com o uso de computadores, como noes bsicas de editor de texto (Word e outros), internet e e-mail; 5 verificar continuamente seu e-mail ( a forma de interao da CEAD com os alunos) e manter o mesmo atualizado; 6 ser disciplinado com prazos; 7 Lembre-se cada UNA ser disponibilizada com prazo de 15 dias para que voc realize as seguintes etapas de conhecimento.

*leitura do material; *assistir a vdeo aula; *responder s atividades propostas (fruns; exerccios; pesquisas, entre outros) aps responder as questes, certifique-se que voc as salvou e enviou para que possam ser corrigidas. Lembre-se, nos exerccios voc ter duas tentativas, caso na primeira no obtenha um resultado satisfatrio, retome o material de leitura e a vdeoaula e consulte o TUTOR DE APRENDIZAGEM SOBRE SUA DVIDA. Lembre-se dos prazos, e que o TUTOR DE APRENDIZABEM tem 48 horas para lhe responder, por isso no deixe para responder s atividades na data final. Os exerccios sero encerrados na data e horrio estabelecidos e as questes no respondidas sero zeradas, NO HAVENDO POSSIBILIDADE DE REABERTURA.

SEU ACESSO: HTTP://cead.utp.edu.br SEU LOGIN: UTILIZE SEU REGISTRO ACADMICO (RA) SUA SENHA: A MESMA UTILIZADA PARA ACESSAR O AMBIENTE ACADMICO DA UNIVERSIDADE E QUE VOC RECEBEU NO ATO DA MATRCULA.

SUMRIO

INTRODUO AO ESTUDO ............................................. OBJETIVOS DO ESTUDO ................................................. PROBLEMATIZAO ........................................................ CONCEITUAO DO TEMA .............................................Cultura e sua dinmica ................................................................. O que matou realmente o ltimo filho de Kripton? .......................

2 4 5 66 9

SISTEMATIZANDO ............................................................ REFLEXES SOBRE O TEMA ..........................................Primeira Pgina do Planeta Dirio: A morte do Superman ..........

16 1717

EXERCCIOS ...................................................................... REFERNCIAS ..................................................................

20 21

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INTRODUO AO ESTUDO

Influncias culturais todos os povos recebem e exercem no decorrer de sua histria, conforme o nvel da natureza de suas relaes. No caso do Brasil, desde o incio isso se verificou atravs do branco europeu, invasor e colonizador, do ndio, habitante original desta terra, depois do negro escravo e dos diversos grupos de imigrantes. Portanto, no h uma cultura genuinamente brasileira composta apenas de samba, carnaval, feijoada e caipirinha. Nossa cultura se moldou a partir de diferentes e variados elementos, dos quais tambm se compem agora o norteamericano, pois cultura no uma coisa imvel, acabada e isenta de transformao e movimento. [...] Ser conscientes de nossos enraizamentos culturais, dos processos de hibridizao e de negao e silenciamento de determinados pertencimentos culturais, sendo capazes de reconhec-los, nome-los e trabalh-los constitui um exerccio fundamental. (CANDAU, Vera Maria, In MOREIRA, CANDAU.(org). Multiculturalismo: diferenas culturais e prticas pedaggicas, p.26)2

Segundo Cliford Geertz, cultura um sistema de smbolos e significados. Compreende categorias ou unidades e regras sobre relaes e modos de comportamento. Portanto, estudar uma cultura estudar um cdigo de smbolos partilhados pelos membros dessa cultura.

O modo de ver o mundo, as apreciaes de ordem moral e valorativa, os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais so assim produtos de uma herana cultural, ou seja, o resultado da operao de uma determinada cultura. (LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropolgico, p.68)

Ruth Benedict escreveu que a cultura como uma lente atravs da qual o homem v o mundo, portanto, homens de culturas diferentes usam lentes diversas que lhes proporcionam tambm vises diversas de mundo, vises estas que podem ser iguais se um aprende a olhar com os olhos do outro.

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OBJETIVOS DO ESTUDO

Compreender a forma que compartilhamos, assimilamos e reinterpretamos a cultura.

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PROBLEMATIZAO

Como podemos compreender a cultura brasileira e a cultura mundial na contemporaneidade? Existe, nos dias de hoje, uma cultura hegemnica? A globalizao responsvel por uma descaracterizao das diferentes culturas do mundo?

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CONCEITUAO DO TEMA

CULTURA E SUA DINMICA certo que a comunicao de massa tende a padronizar e a homogeneizar os produtos e os pblicos. As diferenciaes culturais, polticas, comportamentais, ideolgicas e ticas tendem a ser contornadas ou mesmo a desaparecer em favor da internacionalizao, ou numa palavra mais atualizada, em favor da globalizao. As relaes culturais esto permeadas por questes de poder e hierarquizao, levando esta internacionalizao a significar necessariamente em uma de descaracterizao da cultura do mais fraco em favor da do mais forte. O processo de aculturao ocorre a partir da recepo e assimilao at certo ponto involuntria dos elementos culturais de um grupo humano por parte de outro em detrimento dos componentes de sua prpria cultura. De acordo com Gimeno Sacristn, a modernidade aborda a diversidade de duas formas bsicas: atravs da assimilao de tudo que diferente a padres unitrios e universalizantes ou segregando em categorias fora da normalidade de uma cultura dominante, fazendo com que a multiplicidade e heterogeneidade das culturas sedam espao a homogeneizao, papel, aparentemente, fundamental da comunicao de massa.6

O carter coletivo das representaes mentais decorre do fato de que elas so o resultado de estmulos transmitidos pelo ambiente cultural, ou seja, de condies histricas e sociais determinadas. (AZEVEDO, Ceclia,In ABREU; SOIHET. Identidades compartilhadas: a identidade nacional em questo, p.43) Muitos consideram o cinema hollywoodiano uma fbrica de sonhos de pura alienao, que afasta o espectador de sua realidade, oferecendo os carros magnficos, as luxuosas manses e a vida glamorosa e de aventura de seus personagens, propondo o sonho e a fantasia contra as agruras do dia-a-dia. Um modelo do qual aprendemos a gostar, feito de narrativas rpidas e happy ends. Tendemos a considerar chatos ou sem atrativo, filmes europeus ou mesmo brasileiros que no tenham esse mesmo ritmo. Nessa linha do intertainment (entretenimento e diverso) caminha o cinema, mas tambm os quadrinhos, levando sua diverso mas tambm suas mensagens e os padres de valores da sociedade que os produziu. E no poderia ser diferente, toda a obra, seja qual for, retrata aquele que a criou, suas concepes, suas crenas, as normas de sua instituio ou empresa e as noes de valores da sua sociedade e de seu pas. Como toda a produo cultural, os quadrinhos esto impregnados pelo ar de seu tempo porque so obra de algum que vive e sofre todas as influncias de sua poca e de seu meio. Seus personagens, mesmo que de forma ficcional, refletem os anseios, preocupaes, valores, padres e vivncias de seus autores em seu tempo. o sujeito sempre fala de um lugar, de uma histria, de uma cultura, de uma linguagem particular, cujo peso na construo de sua subjetividade e de sua identidade no pode ser negligenciado. (AZEVEDO, Ceclia,In ABREU; SOIHET. Identidades compartilhadas: a identidade nacional em questo, p.50-51) A centralidade atribuda produo cultural e comunicao de massa trs tona as questes quanto diversidade de culturas7

existentes hoje e de como lidar com essa realidade multicultural que se apresenta como um indicador do carter plural das sociedades contemporneas. Existem inmeras e diversas culturas, que de modo algum podemos qualificar entre superiores ou inferiores. As diferenas culturais so frutos de fatores diversos que determinaram os meios necessrios sobrevivncia e da relao com o meio. O respeito e o entendimento quanto a estas diferenas representa o ponto fundamental, no no sentido de levar a uma aceitao ou tolerncia em relao a uma pretensa cultura dominante, mas sim com o objetivo de levar a um dilogo entre as culturas que relacione e integre, proporcionando o entendimento, a interrelao e a assimilao. O fato de termos hoje uma maior conscincia da influncia da cultura norte-americana de forma hegemnica no nos livra absolutamente dela. Alm do que, nos descartarmos de todos os elementos dessa cultura, mesmo que fosse possvel, no teria sentido, j que fazem parte agora tambm do que chamamos de nossa cultura, depois que muitos deles ns j engolimos, digerimos e abrasileiramos `a moda Sardinha como proposto em 1922 no Manifesto Antropofgico por Mrio de Andrade. [...] nas sociedades em que vivemos os processos de hibridizao cultural so intensos e mobilizadores da construo de identidades abertas, em construo permanente, o que supe que as culturas no so puras. (CANDAU,Vera Maria,In MOREIRA, CANDAU.(org). Multiculturalismo: diferenas culturais e prticas pedaNa verdade o que se estabelece um dilogo entre as culturas, que pode em um primeiro momento ser dominado pelo mais forte, que acaba por se sobrepor. Mas a relao mesmo que hegemnica por um lado, permite a troca e assimilao mtua que hibridiza e molda a seu jeito os elementos, como componentes de uma cultura multifacetada. Ao abrasileirarmos a cultura norte-americana, a cobrimos com nossas cores e tropicalismo, alterando nosso gosto seu ritmo e tons, sua identidade e pertencimento, rejeitando quilo que no nos interessava. O terrvel destino do Superman j estava traado. Como ele poderia ter resistido e sobrevivido a algo assim?...8

O QUE MATOU O FILHO DE KRIPTON?Se morrer valeu a pena para reconquistar o mercado de quadrinhos, o que levou a que suas vendas decassem? Seria porque o modelo que ele cumpriu defender ao longo de tantos anos j no nos empolgava da mesma forma? Antes, ele jamais teria sucumbido a monstro algum, por mais apocalptico que fosse. Os quadrinhos do Superman, assim como de outros personagens, juntamente com a Coca-Cola, a cala jeans, o cinema e a msica, marcaram, a partir da dcada de 20, a divulgao do chamado american way of life, isto , do estilo de vida (norte)-americano pelo mundo, norteamericanizando a cultura do sculo XX. Quando finalmente terminou a Primeira Guerra Mundial em 1918, a Europa, aps quatro anos de conflito, ficou completamente arrasada. Para dar conta da guerra as potncias europeias haviam mobilizado todos os seus recursos e indstrias para a fabricao de armamentos e, por fim, acabaram por perder a hegemonia econmica mundial, dando o espao necessrio para que os Estados Unidos se tornassem a nova potncia mundial. At ento o domnio poltico, econmico e cultural do mundo estivera essencialmente em mos europeias. Desde o sculo XIX, Inglaterra e Frana detinham os dois maiores imprios coloniais, ditando uma cultura de supremacia e superioridade europeias sobre o restante do mundo. O desenvolvimento da produo industrial e do avano cientficotecnolgico haviam levado a Inglaterra a ser vista como a oficina do mundo, enquanto a Frana, e em especial, Paris, firmara-se como o centro universal do bem-estar, do conforto e da cultura, com seus cafsconcertos, bals, operetas, livrarias, teatros e boulevards. Porm, o final da Primeira Guerra trouxe uma nova realidade na qual os Estados Unidos despontaram como uma nova potncia capitalista, passando a viver uma fase de grande prosperidade econmica, particularmente na dcada de 20. Nesse perodo, os norte-americanos foram tomados por uma grande euforia. Fabricavam e compravam quase tudo. Foram os chamados anos felizes, a partir dos quais o american way of life foi divulgado para o mundo, principalmente atravs do cinema, incentivando ao consumo de todo o tipo de produtos, automveis e eletrodomsticos. Viver bem tornou -se ento sinnimo de consumir sempre mais, toda e qualquer novidade da indstria.9

Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, Walt Disney veio at a Amrica do Sul a pedido do governo norte-americano para auxiliar na chamada Poltica de Boa Vizinhana adotada pelos Estados Unidos em relao aos pases da Amrica Latina. Foi quando ele visitou o Brasil e providenciou a criao de Z Carioca para ser amigo de Pato Donald numa das mais eficazes peas de propaganda estadunidense, o desenho animado Voc j Foi Bahia?, que seus estdios produziram em 1945. Desde a criao, em 1940, do chamado Bir (Office of the Coordinator of Inter-American Affair), para coordenar as relaes econmicas e culturais dos EUA com a Amrica Latina, que cursos e colgios foram organizados e financiados pelos norte-americanos, com incentivo ao ensino da lngua inglesa e ao estudo da Amrica, com nfase, Histria dos Estados Unidos. Aps a Segunda Guerra Mundial, a Europa perdeu definitivamente sua posio de liderana internacional. Seu lugar foi ocupado por Estados Unidos e Unio Sovitica que se tornaram as grandes potncias mundiais do ps-guerra. Os norte-americanos lideraram o bloco dos pases capitalistas; e os soviticos, o bloco dos pases socialistas. Disputando reas de influncia em todo o mundo, Estados Unidos e Unio Sovitica viveram um perodo de graves tenses, denominado Guerra Fria. Os pases pobres do chamado ento Terceiro Mundo foram os principais alvos dessa disputa. Iniciada em 1946. a Guerra Fria caracterizou-se pela extrema rivalidade entre Estados Unidos e Unio Sovitica. O clima de rivalidade somado aos interesses das indstrias de armamentos levou as grandes potncias chamada corrida armamentista. Em 1949, formou-se uma aliana militar entre os pases da Europa Ocidental, que pertenciam rea de influncia dos Estados Unidos. Essa aliana ficou conhecida como Organizao do Tratado do Atlntico Norte (OTAN). Depois, em 1955, revidando a criao da OTAN, os pases do bloco socialista da Europa Oriental firmaram uma aliana de ajuda militar mtua por meio do Pacto de Varsvia. Em 1947, o presidente norte-americano Harry Truman proferiu um intransigente discurso contra o que chamou de ameaa comunista: "os povos livres do mundo olham para ns esperando apoio na manuteno de sua liberdade...". Neste discurso Truman afirmou que os EUA assumiam o compromisso de defender o mundo dos soviticos e decretou com esta atitude o fim da coexistncia pacfica. A partir deste momento,10

os pases do mundo tiveram que definir seu posicionamento, se ao lado dos Estados Unidos ou contra ele na luta pela defesa do chamado mundo -livre, que, em verdade, significava a defesa dos interesses norteamericanos e de sua hegemonia. A partir de ento, os capitais, o comrcio e as empresas norteamericanas tornaram-se dominantes em todos os pases da Amrica Latina, demonstrando mais que em qualquer outra regio do planeta que a Guerra Fria constituiu-se, na verdade, em um grande instrumento de controle dos Estados Unidos sobre os governos, povos e economias locais. O uso poltico do discurso anti-sovitico visava sobretudo legitimar a ao contra qualquer atitude que atrapalhasse os interesses dos Estados Unidos nesses pases. Em 1951, o senador norte-americano Joseph McCarthy iniciou um movimento de perseguio a supostos simpatizantes do comunismo nos Estados Unidos que ficou conhecido como macarthismo, que passou a investigar a vida pessoal principalmente de intelectuais e artistas suspeitos de atividades consideradas subversivas, promovendo audincias pblicas, nas quais essas pessoas eram obrigadas a depor. Entre alguns dos investigados estavam algumas figuras conhecidas, como o famoso cineasta Charles Chaplin. A partir de ento toda a produo cultural estadunidense deste perodo, filmes, sries de TV, desenhos animados, quadrinhos, esteve engajada com a idealizao da sociedade capitalista norte-americana, utilizando-se de mitos e imagens que manipulassem com a imaginao das populaes. A ameaa sovitica e a defesa do mundolivre constituram-se em mitos mobilizadores e legitimadores dos norteamericanos como os grandes heris do ocidente contra os viles soviticos. Os anos que se seguiram, at a dcada de 80, portanto, foram anos de uma produo cultural norte-americana marcada pela Guerra Fria, com filmes como os de James Bond, com ttulos significativos como Moscou contra 007 (From Russian with Love), Rocky IV e a luta contra um terrvel boxeador sovitico no ringue. De sries como Jornada nas Estrelas (Star Trek) em que os grandes inimigos vinham do lado oriental da galxia, nenhum astrnomo at hoje jamais ouviu falar em um lado oriental da galxia os chamados Klingons. Outras sries voltadas temtica de espionagem como Misso Impossvel e Agentes da ANCLE, que valorizaram os superagentes norte-americanos e suas habilidades.11

Desenhos animados como Transformers e suas duas grandes potncias robticas aliengenas em disputa, os bondosos cybertrons, contra os maldosos decepticons. Nos quadrinhos tambm a questo Estados Unidos versus Unio Sovitica se colocou. Os famosos X-Men tiveram seu mais terrvel e cruel inimigo na figura de um mutante sovitico superpoderoso chamado mega Red, o Homem de Ferro teve tambm seus maiores inimigos entre personagem orientais, como o sovitico Homem de Titnio e o chins Mandarin (a China tornou-se socialista em 1949 aps uma revoluo liderada por Mao Ts-Tung). Superman tambm esteve fortemente engajado e voltado a enculcar em seu pblico os valores e os padres norte-americanos. Mais do que qualquer outro personagem ele era o super-heri que partia dos Estados Unidos para salvar o mundo. O homem perfeito, sem defeitos, escoteiro e paladino do bem, o ideal de homem norte-americano. Um deus entre os homens, um predestinado que levava as cores da bandeira estadunidense ao mundo. Os diversos campos da cultura no escaparam. Utilizando principalmente os meios de comunicao de massa, as mensagens difundidas pela indstria cultural conduziram a viver, pensar e consequentemente consumir toda a sorte de produtos made in USA. Surgida no Brasil em 1965, sob a proteo do governo militar, a TV Globo mostrou-se perfeita para atender aos interesses do capital norte-americano, tornando-se a mais poderosa rede de televiso brasileira. Com ela, veio a padronizao de uma forma brasileira de ser sob os tons da cultura norte-americana. J em 1933, Noel Rosa denunciava em um samba a influncia que soframos principalmente dos filmes de Hollywood, que cada vez mais provocavam filas enormes nos cinemas, antevendo a exagerada presena de elementos norte-americanos em nosso cotidiano mais recente: nos supermercados, nas lojas de roupas e calados, na programao das rdios e TV, revistas e videogames. Ao pblico infanto-juvenil, grande consumidor de TV, quadrinhos, brinquedos e videogames, foram destinados contedos e mensagens de profundo cunho norte-americanizante, como tambm denunciou Renato Russo atravs da letra inteligente de sua msica Gerao Coca-Cola:

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Quando nascemos fomos programados A receber o que vocs nos empurraram Com os enlatados dos USA, de 9 s 6 Desde pequenos ns comemos lixo Comercial e industrial Mas agora chegou nossa vez Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocs Somos os filhos da revoluo ( Renato Russo 1985) Na Amrica Latina, crise e mobilizao popular comearam a se avolumar, onde cintures de misria das grandes cidades eram engrossados pela exploso demogrfica e pelo xodo rural. A inflao, as desigualdades sociais, o analfabetismo e o baixo nvel de vida e sade criaram condies para a expanso de movimentos democrticos nacionais, que atritavam com as oligarquias (grupos dominantes) locais e com os interesses estrangeiros, principalmente; norte-americanos. Em Cuba, Fidel Castro, em 1959, derrubou com uma revoluo popular a ditadura de Fulgncio Batista, tirando das mos de grupos norte-americanos o domnio dos principais setores da economia do pas. Profundamente insatisfeitos e pretendendo a qualquer custo derrubar o novo regime cubano, os Estados unidos promoveram vrias aes contra a ilha, entre elas, a expulso de Cuba da OEA (Organizao dos Estados Americanos). Politicamente, os barbudos de Havana, passaram a representar um desafio inaceitvel, um mau exemplo para os outros pases da Amrica Latina sob sua influncia que precisava ser neutralizado. Porm, os Estados Unidos jamais conseguiram derrubar Fidel Castro e seu regime socialista na Amrica, mesmo depois da queda da Unio Sovitica em 1991. E o mau exemplo vingou. Mais do que isso, movimentos internos identitrios e de contraposio a intervenes norteamericanas comearam a se multiplicar entre os pases latinoamericanos. Movimentos impulsionados contra governos de elites que por dcadas e dcadas se mantiveram no poder despojando de qualquer cidadania a maior parte da populao. A maioria destas elites e destes governos autoritrios colocados em check eram apoiados pelos Estados Unidos em sua manuteno no poder.

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A latino-amrica cada vez mais voltou-se para si mesma e para a construo de uma identidade prpria, surgida de sua prpria sociedade, realidade e cultura, afastando-se do modelo norte-americano. Clark Kent j no nos enganava mais ao colocar seus culos, ramos do ridculo de seu disfarce e zombvamos de seus poderes. A ingenuidade finalmente havia sucumbido, e com ela a invulnerabilidade do Superman. O Homem de Ao de forma alguma estava preparado para os novos tempos e para o terrvel monstro, que cado do espao, lhe serviu de algoz e carrasco. O Superman retornou da morte, seguindo uma tendncia inaugurada na dcada de 60 por Stan Lee da Marvel Comics, rival da DC. Com sua principal criao, o Homem-Aranha, Stan Lee trouxe a ideia de um heri humano que se identificava com seus leitores. Antes da era iniciada por ele, os super-heris eram seres semelhana de deuses, indestrutveis e infalveis, acima de qualquer ser humano comum e de suas fraquezas ou temores. O Homem-Aranha fugia a essa regra e foi uma revoluo, pela primeira vez na histria dos quadrinhos um personagem ganhava o corao dos leitores no apenas pelos feitos heroicos e poderes espetaculares, mas por tambm, e principalmente, amargar os mesmos problemas que as pessoas comuns vivem todos os dias. Filho tpico da dcada de 60, o Homem-Aranha refletiu o movimento da contracultura de contestao poltico-cultural aos velhos valores e Guerra do Vietn em pleno perodo das disputas entre Estados Unidos e Unio sovitica. Nos EUA, milhares de jovens recusavam-se a partir para o desconhecido em uma guerra que no era sua. Essa foi a fonte de inspirao do movimento hippie e seu lema: Faa amor, no faa guerra. Inconformados com a famlia, o governo, as injustias sociais e a segregao racial, os jovens disseram no, e passaram a discutir abertamente temas como sexo e drogas. Possivelmente nenhuma forma de manifestao artista identificou-se mais com o jovem do que o rocknroll, como forma de expressar toda sua rebeldia e contestao sociedade conservadora, opressora e blica, que o cercava. Em termos de mercado, o filme do Homem-Aranha, de 2002, foi o amadurecimento de uma tendncia que vinha se formando desde a dcada de 70, quando George Lucas transformou seu filme Guerra nas Estrelas num evento muito alm do cinema. O filme foi um trampolim para a venda de brinquedos, biscoitos, cadernos, jogos, estratgia seguida principalmente pela Disney em seus lanamentos desde ento. Com o14

mercado de games, CDs e DVDs que se expandiu a partir do final da dcada de 90, grande parte dos filmes sados de Hollywood seguiu o mesmo percurso. Poucos meses antes da estreia, o mercado invadido por uma enxurrada de produtos ligados ao filme. Os recentes lanamentos e continuaes como Senhor dos Anis, Batman, Harry Potter e Vingadores, reeditam a frmula de sucesso, alcanando s em bilheteria nos cinemas vrios e vrios milhes de dlares e milhares de produtos licenciados em todo o mundo.

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SISTEMATIZANDO

A cultura norte-americana, no Brasil assim como em outros pases do mundo, se tornou dominante durante o sculo XX. Sua linguagem e padres se tornaram mundiais e foram assimilados por todos os povos que sofreram o processo massivo dos meios de comunicao. No entanto, todas as culturas exercem e sofrem influncias mesmo que em diferentes nveis. Quando uma cultura se sobrepe a outra, ela tambm sofre influncias e se transforma, se molda, hibridiza, adquirindo um pouco da cultura sobre a qual se sobreps. Podemos ento compreender, que como resultante desses processos, a cultura brasileira, diria o antroplogo Darcy Ribeiro, como um cadeiro, onde ento misturados diferentes e variados ingredientes que j no podem ser distinguidos uns dos outros, mas que somados e to somente somados, so eles que compem e do o tempero a cultura brasileira.

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REFLEXES SOBRE O TEMA

PRIMEIRA PGINA DO PLANETA DIRIO: A MORTE DO SUPERMANAps derrotar o terrvel monstro chamado Apocalypse, o corpo inerte do heri jaz sem vida sobre os escombros de uma Metrpolis parcialmente destruda. O que ser de ns agora? O que ser do mundo?... O que ser da (Norte) Amrica? Em 1993 a DC Comics, editora detentora dos direitos sobre o personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster em 1938, produziu uma histria em quadrinhos que obteve grande repercusso. Nesta histria o primeiro e mais famoso dos super-heris empreendeu sua mais violenta e definitiva aventura, da qual no escapou vivo. Seu funeral foi bonito e digno de um verdadeiro heri. Todos compareceram, inclusive o ento Presidente Bill Clinton e a Primeira Dama. Nada mais justo aps todos os anos de servios prestados por ele nao norte-americana. Jamais voltaramos a voar com o Superman novamente. Jamais, como Peter Pan, ele voltaria a nos levar Terra-do-Nunca.

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[...] Nos anos que viro, algumas testemunhas vo falar muito sobre este confronto insano. Outros iro lembrar da enorme cratera que resultou dos golpes. Mas a maioria ir se lembrar deste triste dia como o dia em que o homem mais nobre de todos os tempos finalmente tombou. Para aqueles que o amaram, aquela que o chamaria de marido [Lois Lane], aquele que foi seu amigo [Jimmy Olsen] ou aqueles que o chamaram de filho, este o dia mais sombrio de suas vidas. Eles [seus pas] o criaram para ser um heri, para saber o valor do sacrifcio. Para saber o valor da vida. [...} Para uma cidade viver, um homem deu tudo de si... e mais. Mas tarde demais. Pois este o dia em que o Superman morreu. (A morte do Superman, DC Comics, p.152-157) Uma notcia dramtica e dolorosa para todo f de Histrias em Quadrinhos, mas tambm bastante significativa. Por que aquele que foi o maior e mais poderoso super-heri da Terra teve que morrer?... A DC Comics chegou a garantir que no havia sido um golpe publicitrio e que a morte do personagem havia sido decidida de forma definitiva. No entanto, a inesperada repercusso a fizera repensar sua deciso de encerrar com as revistas do personagem. Foi ento, que outras edies se seguiram depois. Porm, estas estavam destinadas a ressuscit-lo. Quatro Supermans se apresentaram a Metrpolis e ao mundo. Um jovem Superboy com cara de latino e jeito irreverente. Um ser ciberntico, metade humano e metade mquina, resultado de uma modernidade insana. Outro afro-americano, voltado aos excludos e segregados da sociedade. E, um ltimo, sombrio, de aspecto cruel e contaminado pela violncia das cidades. O grande mistrio que se colocou ento foi: qual seria o verdadeiro? Qual seria o escolhido pela DC Comics, para ser o novo Superman? Deveria ser aquele que melhor se identificasse com o pblico que ele deveria (re)conquistar. Apenas na ltima edio a verdade se revelou. Ao final, nenhum dos quatro foi o escolhido e, sim, um quinto que, resguardadas algumas caractersticas fsicas bsicas do18

original, se aproximou mais do homem comum, morador normal de qualquer cidade do mundo. Seu uniforme no exaltava mais as cores da bandeira dos Estados Unidos, mas era uma mescla de cores difusas e metlicas, sem nacionalidade aparente. E, como um ser de energia, ele viajava agora nos cabos de condute velocidade da luz em ondas que interligam um mundo de realidade integrada e globalizante. Renascido e pronto para o novo milnio, ele voltava a nos assediar para mais uma vez tentar nos seduzir, no com um interesse norte-americanizante como antes, mas com o mesmo interesse capitalista sob um novo uniforme, para mais tarde retornar a sua velha forma. Talvez, morrer tenha valido a pena, afinal?...

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EXERCCIOS

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REFERNCIAS

BURKE, P. O que histria cultural? 2 edio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. CAMPBELL, J. O heri de mil faces. So Paulo: Editora PensamentoCultrix Ltda., 2000. CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas hbridas: estratgias para entrar e sair da modernidade. 3.ed. So Paulo: Ed. USP, 2000. HOBSBAWN, Eric. A Era dos extremos: o breve sculo XX, 19141991. 2. ed. So Paulo: Companhia das Letras, 1994. JLIA, F.A. A invaso cultural norte-americana. 26 edio. So Paulo: Editora Moderna, 1998. MOREIRA, A. F., CANDAU, V. M.(Orgs) Multiculturalismo: diferenas culturais e prticas pedaggicas. Petrpolis, RJ: Editora Vozes, 2008. ORTIZ, R. Cultura brasileira & identidade brasileira. So Paulo: Brasiliense, 2003. SIMONSON, Louise. A morte do Superman. So Paulo: Abril Jovem, 1993 (edio especial)21

Disciplina de

CULTURA E SOCIEDADE

Coordenadoria de Educao a Distncia Coordenao Marlei Gomes da Silva Malinoski Diviso Pedaggica Analuce Barbosa Coelho Medeiros Margaret Maria Schroeder Editorao Neilor Pereira Stockler Junior