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Disciplina de CULTURA E SOCIEDADE A IDENTIDADE E A RELAÇÃO COM O OUTRO Osvaldo Luís Meza Siqueira

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Disciplina de

CULTURA E SOCIEDADEA IDENTIDADE E A RELAO COM O OUTRO Osvaldo Lus Meza Siqueira

Todos os direitos desta edio reservados Universidade Tuiuti do Paran. Nenhuma parte deste material poder ser reproduzida e transmitida sem prvia autorizao.Diviso Acadmica: Marlei Gomes da Silva Malinoski Diviso Pedaggica: Analuce Barbosa Coelho Medeiros Margaret Maria Schroeder Diviso Tecnolgica: Flvio Taniguchi Neilor Pereira Stockler Junior Projeto Grfico e Editorao Eletrnica Neilor Pereira Stockler Junior

Material de uso didtico

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) Biblioteca Sydnei Antonio Rangel Santos Universidade Tuiuti do Paran

Universidade Tuiuti do Paran Reitoria Luiz Guilherme Rangel Santos Pr-Reitoria de Planejamento e Avaliao Afonso Celso Rangel dos Santos Pr-Reitoria Administrativa Carlos Eduardo Rangel Santos Pr-Reitoria Acadmica Carmen Luiza da Silva

Disciplina de CULTURA E SOCIEDADE

1 Bimestre Unidade 1.3

A IDENTIDADE E A RELAO COM O OUTRO

Osvaldo Lus Meza Siqueira

NOTAS SOBRE O AUTORPossui graduao em Licenciatura em Histria pela Universidade Tuiuti do Paran (1999) e especializao em Metodologia do Ensino de Histria pela Faculdade Internacional de Curitiba (2001) . Atualmente professor da Universidade Tuiuti do Paran, professor da Sociedade de Ensino Unificado, professor da Escola Social Madre Cllia e professor do Grupo Educacional UNINTER. Tem experincia na rea de Histria , com nfase em METODOLOGIA DO ENSINO DE HISTRIA.

ORIENTAO PARA LEITURA

Citao Referencial

Destaque

Dica do Professor

Explicao do Professor

Material On-Line

Para Reflexo

SUMRIO

INTRODUO AO ESTUDO ............................................. OBJETIVOS DO ESTUDO ................................................. PROBLEMATIZAO ........................................................ CONCEITUAO DO TEMA .............................................Construo da identidade ............................................................ Os imigrantes chegaram! ............................................................. Os inferiores e os maus ................................................................ O espao urbano, lugar de diversas e plurais identidades ..........

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SISTEMATIZANDO ............................................................ EXERCCIOS ...................................................................... REFERNCIAS ..................................................................

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INTRODUO AO ESTUDO

CONSTRUO DA IDENTIDADENas duas unidades anteriores falamos sobre cultura e sobre sociedade, como sendo dois componentes fundamentais para o entendimento do homem e de sua vida no meio social. Como vimos, todo homem est inserido em uma sociedade que influencia sua formao e comportamento. Esta influncia carrega os padres ticos e morais que iro se estabelecer e perpetuar atravs do componente cultural. a cultura que nos conecta com o grupo e a comunidade a que pertencemos, dizendo quem somos e forjando nossa identidade.

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OBJETIVOS DO ESTUDO

Compreender os elementos fundantes da nossa identidade.

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PROBLEMATIZAO

MAS COMO SE PROCESSA A CONSTRUO DESSA IDENTIDADE? COMO CONSTRUMOS NOSSA NOO DE PERTENCIMENTO A UM OU OUTRO GRUPO, NAO, ETNIA OU GNERO?

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CONCEITUAO DO TEMA

CONSTRUO DA IDENTIDADEComo coloca Kathryn Woodward, a identidade relacional. A identidade depende, para existir, de algo fora dela: de outra identidade, de uma identidade que ela no , que difere, mas que fornece as condies para que ela exista. Portanto, a identidade se distingue por aquilo que ela no . Sendo assim, marcada pela diferena, seja ela qual for, de cor, de religio, de nacionalidade, de sexualidade, ou qualquer outra forma de contraposio que marque o diverso, o oposto, o outro. O denominado princpio da alteridade. E quem esse outro? Ele o oposto, o diferente de mim. Aquele que no sou e que, portanto, serve de contrapondo para a construo de minha identidade. Segundo o filsofo blgaro Tzvetan Todorov o que chamamos de eu s pode existir a partir do olhar sobre o outro. apartir desta viso que o autor analisa os diversos olhares que foram construdos na conquista da Amrica pelos portugueses e espanhis. Segundo ele, cada outro um sujeito que olha a partir do seu prprio eu.

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As identidades so fabricadas por meio da marcao da diferena. Essa marcao da diferena ocorre tanto por meio de sistemas simblicos de representao quanto por meio de formas de excluso social. A identidade, pois, no o oposto da diferena: a identidade depende da diferena. (WOODWARD, Kathryn. In SILVA (org) Identidade e diferena: a perspectiva dos estudos culturais, p.39-40) da diferena, e da no aceitao dela, que se forjam as segregaes, intolerncias e preconceitos. Como vimos na unidade anterior, foi em fins do sculo XIX, que grupos que brandiam entusiasticamente suas bandeiras nacionais se voltaram contra os estrangeiros com um forte sentimento xenofbico, isto , de averso. O nacionalismo, naquele momento da histria, medida que identificava e agregava alguns nao, alienava outros, excluindo e segregando com fria e dio. No sculo XX, ento, tal fria e dio forjados nas chamas do fervor nacionalista levariam ao holocausto antissemtico de 6 milhes de judeus nos campos de concentrao e extermnio da Alemanha nazista. A nao, portanto, no passaria de uma construo recente de idelogos empenhados em produzir instrumentos de legitimao e mobilizao, atravs dos quais manipulariam emoes atvicas, medos e ressentimentos das massas, pelo apelo a um sentimento de diferena cultural, do qual decorreria o equvoco da identidade nacional. (AZEVEDO, Ceclia. In ABREU, SOIHET (org) Ensino de histria: conceitos, temticas e metodologias, p.44) A identidade surge como uma resultante das semelhanas e diferenas entre os indivduos e grupos humanos, mas tambm pode ser imposta de forma intencional por um pensamento que ir se sobrepor de maneira a forjar as representaes de pertencimentos e afastamentos que serviram de base para a construo da imagem do eu (ns) e do outro, como, por exemplo, atravs de uma ideologia, como vimos na unidade anterior.6

Ao firmar-se a partir da diferena, a identidade estabelece as no similaridades que levaro a no aceitao daquele que ser visto como o outro. As similaridades que determinam a ligao entre os indivduos podem estar ligadas a diversos aspectos, como por exemplo, a um passado comum do qual preservam as mesmas memrias e representaes, isto , categorias de pensamento que expressam uma forma de interpretar e explicar a realidade. A representao inclui as prticas de significao e os sistemas simblicos por meio dos quais os significados so produzidos, posicionando-nos como sujeito. por meio dos significados produzidos pelas representaes que damos sentido nossa experincia e quilo que somos. Podemos inclusive sugerir que esses sistemas simblicos tornam possvel aquilo que somos e aquilo no qual podemos nos tornar. A representao, compreendida como um processo cultural, estabelece identidades individuais e coletivas [...].(AZEVEDO, Ceclia. In ABREU, SOIHET (org) Ensino de histria: conceitos, temticas e metodologias, p.17) No entanto, esse passado pode ser construdo ou reconstrudo de forma a servir de fator legitimador e agregador no presente. Foi o que aconteceu com relao ideologia nazista, que baseou-se em uma suposta ligao entre a Alemanha de Hitler e a glria do que foi o antigo Sacro Imprio Romano-Germnico do perodo medieval. Para a doutrina nazista, o governo de Hitler, significava o III Reich, isto , o 3 imprio germnico (Alemo). O primeiro quando a Alemanha foi grande e poderosa no medievo com o Sacro Imprio Romano-Germnico; o segundo, durante o sculo XIX, quando o pas se unificou e se tornou poderoso atravs do colonialismo imperialista caracterstico da poca; e finalmente o de Hitler, o terceiro, e que supostamente duraria mil anos, mas que mal chegou a uma dcada. Outro exemplo, inclusive contemporneo ao anterior, foi Benito Mussolini, lder do regime fascista na Itlia que insistia em ligar seu governo com os csares (imperadores) do Antigo Imprio7

Romano. A Itlia comandada por ele deveria reconquistar sua glria antiga, porm, a Itlia do sculo XX no era, e no poderia ser, a Roma do passado. Poderamos ainda pensar em mais um exemplo, o do grande general francs Napoleo Bonaparte, conquistador e imperador, que tentou ligar sua imagem a do lendrio rei franco Carlos Magno. As prticas tradicionais existentes canes folclricas, campeonatos de ginsticas e de tiro foram modificadas, ritualizadas e institucionalizadas para servir a novos propsitos nacionais. s canes folclricas tradicionais acrescentaram-se novas canes na mesma lngua, muitas vezes compostas por mestres-escola e transferidas para um repertrio coral de contedo patritico-progressista. (HOBSBAWM, Eric. A inveno das tradies p.14) Como vimos na unidade anterior, uma ideologia exerce uma funo de cimento, tornando a sociedade em uma unidade que se estabelece a partir de crenas que se tornam comuns pela fora das tradies ou da inveno de tradies conforme o historiador Eric Hobsbawn, por vezes, fornecendo um passado comum e glorioso que servir de fator de agregao e identidade. Por tradio inventada entende-se um conjunto de prticas, normalmente reguladas por regras tcitas ou abertamente aceitas; tais prticas, de natureza ritual ou simblica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento atravs da repetio, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relao ao passado. Alias, sempre que possvel, tenta-se estabelecer continuidade com o passado histrico apropriado. (HOBSBAWM, Eric. A inveno das tradies p.9)

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OS IMIGRANTES CHEGARAM!No sculo XIX, os pases europeus viviam uma situao poltica agitada por uma srie de movimentos e processos revolucionrios, como as lutas pela unificao da Alemanha e da Itlia. As transformaes trazidas pela industrializao, tanto na Alemanha quanto na Itlia, levaram a uma gradual runa do trabalho artesanal disperso por suas provncias, enquanto seu atraso em relao aos outros pases no processo de desenvolvimento industrial se tornou responsvel por um excedente populacional em termos de mo-de-obra disponvel que o sistema de produo no teve como absorver e que significou o grande contingente imigratrio para a Amrica e em especial para o Brasil. Essa disperso das pessoas ao redor do globo produz identidades que so moldadas em diferentes lugares e por diferentes lugares. (AZEVEDO, Ceclia. In ABREU, SOIHET (org) Ensino de histria: conceitos, temticas e metodologias, p.17) A grande maioria daqueles que emigraram, trabalhavam na agricultura em uma estrutura ainda aos moldes servis do perodo feudal, o que no tinha mais lugar em meio a um sistema capitalista em pleno desenvolvimento, neste sentido, a emigrao serviu para aliviar as tenses que a misria causava principalmente no campo. A vida da populao campesina, que tinha na terra sua nica fonte de subsistncia, era muito difcil, e o desenvolvimento do capitalismo s fez piorar, com o aumento dos impostos sobre a terra, com o endividamento dos pequenos proprietrios e com a diminuio dos preos de seus produtos artesanais devido concorrncia da indstria. Para o governo brasileiro no sculo XIX, havia um grande interesse na recepo de imigrantes como mo-de-obra e com o objetivo de povoar as grandes reas ainda vazias no pas. Por sua cultura e etnia os imigrantes europeus eram muito bem vindos, principalmente aqueles de origem camponesa, que se instalassem em pequenas propriedades, organizadas a partir do trabalho familiar, trazendo novas tcnicas agrcolas que acabariam por ser assimiladas pelos habitantes da terra. bastante9

significativo nesse sentido o decreto de 1808, baixado pelo Prncipe Regente Dom Joo VI que concedia a posse de terras a estrangeiros no Brasil. Desta maneira, inaugurava-se no pas uma poltica de portas abertas para imigrantes. Em sua maioria, os imigrantes italianos que vieram para o Brasil eram da zona rural, das regies do Vneto, ao norte da Pennsula Itlica. Camponeses simples e fervorosamente catlicos. Portanto, eram vnetos e no italianos j que quando muitos deles saram da Europa a unificao da Itlia, ocorrida por volta de 1860, ainda no estava constituda. Suas lembranas e suas tradies tinham a ver com uma regio que ainda no era a Itlia. Este fator se no lhes dava uma unidade em torno de uma nacionalidade de origem, lhes fornecia, por outro lado, uma unidade religiosa e cultural que os identificava e unia em um mesmo modo de ser do Vneto. Um caso extremo de divergncia entre nacionalismo e Estado-Nao era a Itlia, a maior parte da qual tinha sido unificada sob Savoia em 1859- 1860, 1866 e 1870. No havia precedente histrico posterior Roma antiga para uma nica administrao de toda a rea compreendida entre os Alpes e a Siclia, que Metternich descrevera com grande preciso como uma mera expresso geogrfica. No momento da unificao, em 1860, estimou-se que no mais de 2,5% de seus habitantes falavam a lngua italiana no dia-a-dia, o resto falava idiomas to diferentes que os professores enviados pelo Estado italiano Siclia na dcada de 1860, foram confundidos com ingleses. Provavelmente uma porcentagem bem maior, mas ainda uma modesta minoria, teria se sentido naquela data como italianos. No de admirar que Massimo d Azeglio (1792- 1866) exclamasse em 1866: Fizemos a Itlia; agora precisamos fazer os italianos. (HOBSBAWM, Eric J. A era do capital: 1848 1875, p.147) Por outro lado, a vida em comunidade na colnia acabou por formar um sentimento de identidade e reconhecimento entre os italianos e10

tambm outras etnias de imigrantes que compartilhavam as mesmas vicissitudes e dificuldades. As similaridades das questes de sobrevivncia compartilhadas tiveram funo fundamental na assimilao entre os grupos, a partir do cotidiano, da organizao social e da religiosidade. As organizaes religiosas so veculos de sociabilidade, pois agregam, numa mesma comunidade/espao, segmentos diferentes do universo social que possuem como ela a crena. Essa reunio permite que pessoas de diferentes etnias estabeleam contatos e relaes sociais. (WAWZYNIAK. In PIERONI; DeNIPOTI, Saberes brasileiros:ensaios sobre a identidade. Sculos XVI a XX, p.114) No processo de integrao dos colonos comunidade local, a igreja exerceu um papel fundamental, pois abriu uma ponte entre os diferentes grupos que acabavam por participar e compartilhar do mesmo local para sua devoo. Podemos perceber que o fenmeno da construo de uma identidade, portanto, no se apega apenas a fatores como raa, etnia, religio ou sexo, mas tambm a outros fatores determinantes que podem constituir similaridades que de outra forma no o seriam, como no caso dos imigrantes, que apesar de representarem etnias diversas, e, portanto, identidades diferentes, se sentem identificados pelo fato de todos serem estrangeiros recm-chegados a uma nova terra, mesmo que, muitos deles na agora distante Europa, houvessem sido at antagnicos.A complexidade da vida [...] exige que assumamos diferentes identidades, mas essas diferentes identidades podem estar em conflito. Podemos viver, em nossas vidas pessoais, tenses entre nossas diferentes identidades quando aquilo que PE exigido por uma identidade interfere com as exigncias de uma outra. [...] As demandas de uma interferem com as demandas de outra e, com frequncia, se contradizem. (WOODWARD, Kathryn. In SILVA (org) Identidade e diferena: a perspectiva dos estudos culturais, p.31-32)11

OS INFERIORES E OS MAUSSe negro ou branco, de um time de futebol ou outro, de uma idade ou outra, de um bairro ou outro, de uma nacionalidade ou outra, de uma religio ou outra, ou qualquer outro exemplo que queiramos dar, diferenas se destacam assim como as similaridades para a construo das mais diversas identidades. Ao longo da histria o homem forjou sua identidade a partir da mulher, construindo um imaginrio que o colocava como melhor e superior, deixando para o feminino, os aspectos ruins de ser humano. A mulher era o ser incompleto, imperfeito e que ao longo da histria se tornou para muitas tradies a portadora do mal. Ao construirmos nossa identidade nos destacamos como melhores, mais capazes, bonitos, da melhor cidade, do melhor pas, da classe superior, da verdadeira religio, e assim por diante. Nesse sentido, os povos europeus, principalmente na segunda metade do sculo XIX, criaram uma ideologia para justificar seu domnio imperialista e colonialista sobre regies pobres do mundo como uma a chamada misso civilizadora, que justificava seu domnio, no como uma explorao, mas como uma forma de civiliz-los, j que eram povos inferiores. De acordo com o primeiro ministro francs em 1880, Jules Ferry, preciso dizer abertamente que as raas superiores tm direitos sobre as raas inferiores (...) porque tm um dever para com elas o dever de civiliz-las. Esse pensamento baseava-se na suposta superioridade da raa branca europeia, em sua superioridade biolgica, em seu maior desenvolvimento tecnolgico e no cristianismo com nica f verdadeira. O termo imperialismo designa a dominao de uma nao rica sobre outras pobres e sem desenvolvimento. Entre os sculos XV e XVI, quando os pases europeus, em funo de sua expanso comercial, conquistaram toda a Amrica, essa prtica de dominao ficou conhecida como colonialismo. J no sculo XIX e XX, as disputas entre as naes industrializadas geraram uma nova fase de dominao, voltada principalmente para frica e sia, mas tambm para os pases da Amrica Latina, que, apesar de j terem conquistado sua independncia poltica, continuavam submetidos dependncia econmica. Essa nova ao imperialista foi denominada neocolonialismo ou imperialismo.12

Terminada a 2 Guerra Mundial (19391945), os diversos pases da frica, sia e Oceania que integravam os imprios coloniais europeus foram, pouco a pouco, conquistando a independncia, principalmente, devido ao enfraquecimento econmico dos pases dominadores, devido ao conflito. Se nas primeiras dcadas do sculo XX, os europeus orgulhavam-se em possuir imprios coloniais, depois da guerra era vergonhoso, nenhum pas queria ser taxado de opressor e imperialista. A prpria ONU em 1945, fundamentada no direito de autodeterminao dos povos, tornou-se um frum internacional contra o colonialismo. Tambm, as duas grandes potncias do ps-guerra, Estados Unidos e Unio Sovitica, assumiram posies favorveis descolonizao, interessadas em desenvolver sua prpria influncia. Os povos submetidos acabam tambm por fortalecer suas identidades tnicas e nacionais como forma de resistncia contra a dominao e a explorao. Assim como, grupos discriminados em diferentes sociedades se agregam em identidades marcadas pelos aspectos que representam o motivo do preconceito sofrido seja tnico, religioso, social, de sexualidade, de classe ou outro. Na sociedade em que vivemos h uma dinmica de construo de situaes de apartao social e cultural que confinam os diferentes grupos socioculturais em espaos diferenciados, onde somente os considerados iguais tm acesso. Ao mesmo tempo, multiplicam-se as grades, os muros, as distncias, no somente fsicas, como tambm afetivas e simblicas entre pessoas e grupos cujas identidades culturais se diferenciam por questes de pertencimento social, tnico, de gnero, religioso, etc. (CANDAU, In MOREIRA; CANDAU (org) Multiculturalismo: diferenas culturais e prticas pedaggicas, p. 31) Por vezes, no de forma rara, demonizamos aquele que representa o outro, colocando-o na posio de inimigo e como a prpria personificao do mal. Este fenmeno ocorre principalmente em guerras. Ambos os lados do conflito demonizam seu algoz, por muitas vezes desconsiderando sua prpria condio humana.13

O ESPAO URBANO, LUGAR DE DIVERSAS E PLURAIS IDENTIDADESA cidade enquanto lugar da coletividade, compe-se de grupos diversos que dividem a vida urbana, compartilhando seus espaos. Devemos perceber a cidade como uma extenso do prprio indivduo e dos grupos que a ocupam, homens ou mulheres, diretamente relacionados com seus acontecimentos e destino. Portanto, se relacionados, envolvidos e participantes dos assuntos da cidade, bem como, das decises que determinam seus rumos e forma de governo. Com este pensar, podemos entender o conceito que defini a palavra cidadania e o que ela envolve, j que a palavra se volta ao morador participante dos assuntos de sua cidade, devidamente informado e atuante na vigilncia de seu bem, que a prpria cidade que habita. Para tanto, importante que o indivduo se sinta comprometido com o meio em que vive, como agente e parte integrante dele, percebendo sua atualidade e conhecendo seu passado. Ao se pensar a histria de uma cidade, olhamos para os diferentes momentos da vida dos homens naquele espao, suas diferentes intenes e necessidades de ocupao ao longo do tempo, suas convivncias e relaes entre diferentes grupos sociais. Como o local da vida das pessoas, devemos v-la como reflexo daqueles que a habitam, onde delimitam seus espaos, estabelecem costumes e hbitos de convivncia. Em virtude desta vida em comum, a cidade um lugar marcado pela diferena e por antagonismos e segregaes (apartheids) que acabam por criar afastamentos e dios. Ao mesmo tempo que a diferena afasta, nos espaos urbanos, as praas, as ruas, os shoppings, as igrejas, as escolas encurtam as distncias. no espao da cidade que se encontram e entrecruzam os diversos grupos humanos fazendo saltar aos olhos as diferenas e as intolerncias. O desafio que se impe ento promover o respeito mutuo entre os diferentes, mas no um respeito que leve apenas a tolerncia, pois quando tolero me obrigo a aceitar o outro mesmo que a contra gosto sem propiciar o dilogo e a inter-relao entre os diferentes. Ao pensarmos nossa sociedade contempornea, a percebemos plural e diversa, a partir dos diferentes matizes culturais que a moldam.14

Reconhecer essa multiplicidade cultural trs a importncia de desestruturar as categorias que tm dividido e rotulado a sociedade humana em culturas, histrias, religies, tradies, saberes, etnias, preferncias sexuais e nacionalidades, assumindo outro paradigma, o de evidenciar os processos de construo destas categorias e representaes, explicitando como temos aprendido os significados das diferenas que nos apartam e antagonizam. Nesse sentido, o multiculturalismo se apresenta como um indicador do carter plural das sociedades contemporneas, no para levar aceitao ou tolerncia da diferena, mas ao dilogo entre as culturas que relaciona e integra, proporcionando o entendimento e a interrelao, pois o que define o homem no a similaridade mas a diferena. Ou seja, salienta Clifford Geertz, ao procurar entender a singularidade de cada grupo, de cada cultura, se vai compreender mais a prpria humanidade. Tendemos a uma viso homogeneizadora e estereotipada de ns mesmos, em que nossa identidade cultural muitas vezes vista como um dado natural. Desvelar essa realidade e favorecer uma viso dinmica, contextualizada e plural das nossas identidades culturais fundamental, articulando-se a dimenso pessoal e coletiva destes processos de hibridizao e de negao e silenciamento de determinados pertencimentos culturais, sendo capazes de reconhec-los, nome-los e trabalh-los constitui um exerccio fundamental. (CANDAU, In MOREIRA; CANDAU (org) Multiculturalismo: diferenas culturais e prticas pedaggicas, p. 26)

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SISTEMATIZANDO

Como Pudemos perceber, o fenmeno da construo de uma identidade no se apega apenas e necessariamente a fatores como raa, etnia, religio ou sexo, mas tambm a outros aspectos que podem constituir similaridades. Ao contrrio de diversos grupos humanos marcados por profundas diferenas, nos tornamos, na verdade, nos dias atuais, donos de identidades plurais forjadas por uma sociedade composta pelos mais diversos matizes. Perceber esse aspecto fundamental para o rompimento de vises essencialistas e de segregao, contudo, como vimos, no de forma rara, tendemos a demonizar aquele que representa o outro.

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EXERCCIOS

Todos os exerccios esto disponveis na pgina da disciplina no Ambiente Virtual de Aprendizagem em http://cead.utp.edu.br, para responde-los necessrio fazer login.

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REFERNCIAS

BURKE, P. O que histria cultural? 2 edio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. HOBSBAWN, Eric. A Era dos imprios: 1875-1914. 13. ed. So Paulo: Paz e Terra, 2009. HOBSBAWN, Eric. Sobre a histria. 2. ed. So Paulo: Companhia das Letras, 1998. MOREIRA, A. F. CANDAU, V. M.(Orgs) Multiculturalismo: diferenas culturais e Prticas pedaggicas. Petrpolis, RJ: Editora Vozes, 2008. ORTIZ, R. Cultura Brasileira & Identidade Brasileira. So Paulo: Brasiliense, 2003. PERROT, Michelle. Os excludos da histria: operrios, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. SILVA, T. T. (org.). Identidade e diferena: a perspectiva dos estudos culturais. 3 edio. Petrpolis, RJ: Vozes, 2000 SIMMEL, Georg. Questes fundamentais da sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2006.18

Disciplina de

CULTURA E SOCIEDADE

Coordenadoria de Educao a Distncia Coordenao Marlei Gomes da Silva Malinoski Diviso Pedaggica Analuce Barbosa Coelho Medeiros Margaret Maria Schroeder Editorao Neilor Pereira Stockler Junior