USUCAPIÃO ADMINISTRATIVA: UMA ALTERNATIVA .Palavras-chave: Lei - Usucapião - Extrajudicial - Desjudicialização

  • View
    213

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of USUCAPIÃO ADMINISTRATIVA: UMA ALTERNATIVA .Palavras-chave: Lei - Usucapião - Extrajudicial -...

  • USUCAPIO ADMINISTRATIVA: UMA ALTERNATIVA POSSVEL

    Revista de Direito Privado | vol. 48 | p. 129 | Out / 2011DTR\2011\4698

    Fernanda Loures de OliveiraProfessora substituta da UFJF.

    rea do Direito: Civil; Imobilirio e RegistralResumo: Reconhecendo as dificuldades hoje existentes no procedimento judicial de usucapio e anecessidade de se conferir agilidade no processamento deste importante instituto, que garante aregularizao dos possuidores de imveis relegados por seus primitivos proprietrios, o presentetrabalho oferece uma alternativa vivel ao procedimento vigente, sugerindo o deslocamento dacompetncia para o reconhecimento da usucapio, sempre que inexistirem conflitos e as partesinteressadas forem maiores e capazes, para os servios extrajudiciais, na esteira da tendncialegislativa brasileira.

    Palavras-chave: Lei - Usucapio - Extrajudicial - Desjudicializao - Serventias extrajudiciaisAbstract: Recognizing the existing difficulties in the legal procedure of usucaption and the need tomake haste in the processing of this important institution, which garantees the settlement of realestate owners relegated by the primitive ones, this work offers a viable alternative to the currentprocedure, as it suggests the displacement from accountability to the acknowledgement ofusucaption, in case there are no conflicts and the interested parties are larger and capable ofnon-judicial services on brazilian legislative trends.

    Keywords: Law - Usucaption - Extrajudicial - Desjudicialization - Extrajudicial usefulnessSumrio: 1.Introduo - 2.Justia notarial e registral: celeridade, segurana e eficcia - 3.A crise dojudicirio e a alternativa extrajudicial - 4.O problema da usucapio e a soluo portuguesa -5.Possibilidade de implantao do procedimento extrajudicial de usucapio no brasil - 6.Concluso -7.Bibliografia - Anexo 1Anteprojeto de Lei apresentado por Lamana Paiva - Anexo 2Fluxograma

    1. Introduo

    Neste trabalho, pretende-se introduzir uma alternativa ao procedimento de reconhecimento judicialde usucapio, tal qual vigente, para os casos em que o pedido do interessado no apresentaconflituosidade, isto , inexistem interessados em impugnar o pedido do Autor.

    Utilizando-se como marco terico o trabalho apresentado por um dos maiores doutrinadores datemtica extrajudicial, o tabelio e registrador Joo Pedro Lamana Paiva, no X Congresso Brasileirode Direito Notarial e de Registro, intitulado Usucapio Extrajudicial e sua Viabilidade noOrdenamento Jurdico Brasileiro, faz-se uma breve incurso na histria dos servios extrajudiciais,indicando as vantagens da atividade, capaz de proporcionar celeridade, segurana e eficcia aosatos submetidos a seu crivo, demonstrando-se em face da atual crise do sistema judicirio, asvantagens da adoo de uma soluo extrajudicial, nos casos em que inexistem conflitos,especialmente no que tange usucapio, instituto de grande relevncia para a regularizaofundiria e o acesso a direitos constitucionais, como a moradia e o trabalho, s pessoas de baixarenda.2. Justia notarial e registral: celeridade, segurana e eficcia

    Durante o sculo XX, muito se debateu a respeito da natureza do Direito, ora se reclamando umapureza conceitual e dogmtica, que apartasse deste campo do conhecimento quaisquer elementosexternos, como a tica, a sociologia ou a teoria poltica, 1 ora se compreendendo o Direito como umramo da moral, com fundamento nas teorias escolsticas do Direito Natural ou em alguma teoriacontempornea crtica ao positivismo jurdico. 2 Em qualquer caso, porm, arrisca-se dizer que oponto central da discusso, o fim ltimo dos diversos jusfilsofos foi um particular conceito de justia,compreendido como a melhor soluo para os problemas apresentados no seio social: seja por meioda aplicao pura e simples das normas jurdicas, sem qualquer indagao tica, seja pela aplicaode uma suposta racionalidade imanente a todo ser humano. V-se, pois, que no centro do debatesempre esteve o Poder Judicirio, como rgo investido do poder de dizer o direito. Neste trabalho,ao revs, propem-se um deslocamento de ponto de vista, na medida em que sugere a busca pelasoluo extrajudicial, em casos tais que embora no envolvam lides, isto , conflitos de interesses

    Usucapio administrativa: uma alternativa possvel

    Pgina 1

  • degenerados pela pretenso de uma das partes e a resistncia da outra, 3 ainda se submetem aocrivo judicial, em decorrncia da aplicao impensada de normas jurdicas ultrapassadas.

    Nesta toada, urge voltar os olhos para o papel e a importncia das atividades desempenhadas pelosserventurios extrajudiciais.

    A origem da atividade notarial e registral remonta Antiguidade, existindo indcios de procedimentosvoltados publicidade registral, na Mesopotmia, antes mesmo da edio do Cdigo de Hamurbi(c. 1.700 a.C.). 4 Sem mencionar a referncia bblica necessidade de formalizao de contratos decompra e venda, nos tempos de Nabucodonosor (Jeremias 32: 14-15) 5 o que demonstra aimportncia da formalizao por escrito e da divulgao dos atos mais importantes da vidapatrimonial das pessoas, reconhecida desde os primrdios.

    Com efeito, da perspectiva da Diplomtica, somente a formalizao por escrito ( conscriptio) tem ocondo de alterar situaes jurdicas dadas ( actio), sendo o documento pblico, na sua essncia, ajuno da actio com a conscriptio, numa estrutura ditada pelo direito, 6 de tal forma concatenada,que demonstra e regulamenta o processo documental, conferindo autenticidade ao documento. 7

    Assim, embora de incio, o notrio tenha sido um mero copista, pessoa de confiana cuja atividadese jungia constatao por escrito, dos negcios realizados pelas partes, a seu pedido,paulatinamente, foi sendo atribuda atividade a aclamada f-pblica, com sua presuno deveracidade e autenticidade dos atos praticados o que teve seu incio j em Roma. 8

    Atualmente, no menos importante se afiguram as atividades de notas e registros, na sociedadecontempornea, reconhecidas como servios pblicos, embora exercidos em carter privado, pordelegao do Poder Pblico. 9

    Neste sentido, permanece o papel dos notrios, com a formalizao das relaes privadasvoluntrias, dirigida realizao da segurana jurdica de base preventiva, evitando litgios por meiode atos de sua competncia; 10 assim como o dos registradores, que continuam a atuar no plano dapublicidade, conferindo oponibilidade erga omnes aos atos e fatos inscritos em suas tabulas sendoa eles transmitida uma parcela da confiana que se deposita no Estado, consubstanciada na crenapopular de correo e autenticidade de tudo quanto ditam ou escrevem, salvo incontestvel provaem contrrio 11 , mas agora com a eficincia e a celeridade prprias do setor privado.

    Assim, pode-se resumir o ofcio do notrio como a atividade responsvel pela promoo desegurana jurdica, de maneira clere e eficaz, imprimindo ao ato praticado a autenticidade prpriados atos de autoridade pblica (na medida em que dotado de f pblica), mas com a presteza eeficincia caractersticas do setor privado. Nesta linha, o notrio promove a justia notarial, umajustia pragmtica e preventiva, que evita a formao de litgios, ou quando no o faa, proporcionauma soluo mais clere e adequada, atuando de forma oblqua na esfera jurisdicional ( o queocorre, por exemplo, com a presuno de veracidade dos fatos descritos em uma ata notarial atounilateral declaratrio do notrio, em que resenha ou relata, a pedido do interessado e por escrito, otestemunho daquilo que v, ouve, verifica e conclui, consistindo em prova pr-constituda dos fatosnarrados). J em relao aos registradores, a eles compete a promoo de uma justia assentadaem bases diversas, embora semelhantes, denominada de justia registral, que por meio dapublicidade, especificidade e continuidade, alm da observncia de normas rgidas para a alteraode suas tabulas, evita a inscrio de direitos contraditrios, garantindo a segurana dos negciosatuais e futuros e conferindo eficcia s relaes jurdicas noticiadas (bem como s situaes porestas criadas, o que se promove, por exemplo, com o registro da situao jurdica de proprietrio, oudo estado civil de casado, dentre vrios outros exemplos). 12

    3. A crise do judicirio e a alternativa extrajudicial

    A crise do Judicirio no , nem de longe, um problema recente, sendo, ao revs, um dos pontosmais discutidos e evidenciados dos ltimos anos. As pesquisas trazem dados alarmantes: a cadadez processos interpostos no Judicirio, cerca de apenas trs so julgados no ano, alcanando ataxa de congestionamento da Justia, em todos os ramos, no ano de 2008, o patamar de 70%. 13

    No preciso mais dados para se comprovar que o sistema de resoluo de conflitos, tal qualatualmente arquitetado encontra-se falido, sendo imperiosa a necessidade de se encontrar soluesalternativas.

    Sugere-se, neste passo, a busca pela alternativa extrajudicial, a qual, conforme exposto no captulo

    Usucapio administrativa: uma alternativa possvel

    Pgina 2

  • precedente, encontra-se apta a solucionar diversas questes, independentemente de qualqueratuao jurisdicional. Esta , inclusive, a tendncia legislativa atual, como se pretende demonstrar.

    Costuma-se estudar, no mbito da Teoria Geral do Direito Processual, a existncia de duas espciesde jurisdio: a contenciosa e a voluntria. Pela primeira, se visa atuao do Direito, de molde aque o Judicirio substitua as partes interessadas, ditando a lei do caso concreto, com vistas a dirimirconflitos e promovendo, consoante a doutrina clssica, a pacificao social. 14 Por outro lado, achamada jurisdio voluntria, caracterizada como a administrao pblica de interesses privados,ganha espao com a inexistncia de lide, quando se visa a pura e simples constituio dedeterminadas situaes jurdicas. 15

    Veja-se a justificativa conferida por Ada Pellegrini Grinover, Antonio Carlos de Arajo Cintra eCndido Rangel Dinamarco 16 para a existncia de processos de jurisdio voluntria, noordenamento ptrio: A