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V WORKSHOP EMPRESA, EMPRESRIOS E SOCIEDADE O mundo empresarial e a questo social

Porto Alegre, 2 a 5 de maio de 2006 PUCRS

GT 1 O mundo do trabalho e o empresariado

Gerao, transmisso e distribuio de energia social no processo de privatizao das empresas do setor eltrico paulista

Antonio Jos Pedroso Neto Doutor em Cincias Sociais

Professor do Instituto Municipal de Ensino Superior de Bebedouro Victorio Cardassi IMESB

Resumo

Aps 1995, as empresas do setor eltrico paulista promoveram aes de transformao organizacional que viabilizaram a privatizao. Como se deu a dinmica dessas transformaes num ambiente onde os agentes das transformaes sabiam que estavam vivendo um momento marcado por experincias similares que resultavam em desmantelamento do corpo de funcionrios? As transformaes na Empresa Caso implicaram em uma luta poltica pela sua redefinio. Analisamos o campo do poder da empresa no qual tanto as demandas e presses externas (governo estadual), quanto as internas foram processadas: um projeto de modernizao organizacional era o locus por excelncia desse campo. Procuramos demonstrar como foi possvel constituir o grupo de agentes que o realizou conjunto de funcionrios , como esse projeto ganhou dinmica e por quais mecanismos seus arautos alto escalo impuseram seus constrangimentos ao corpo de funcionrios. Com o projeto de modernizao organizacional, os arautos da modernizao, aspirando fazer uma reengenharia, um downsize, transcenderam seus limites, incorporaram e repreenderam as resistncias e as crticas e perseguiram seus objetivos prprios.

INTRODUO

Desde o incio dos anos 1990 as empresas estatais brasileiras passaram por um amplo

processo de privatizao e de reestruturao societria, patrimonial e organizacional. Na

1

segunda metade da dcada, o processo estendeu-se s empresas do setor eltrico e resultou na

privatizao de 23 delas (BNDES, 2002: 41). Antes, durante e aps a privatizao as

empresas passaram por um contexto marcado por diversas aes de mudanas

organizacionais1. De modo geral, aps a privatizao essas aes continuaram, e algumas

ganharam relevncia e foram mais impactantes, como o caso do enxugamento do quadro de

funcionrios por meio de programas de incentivo ao desligamento e a implementao de

tecnologias que substituem ou aumentam a produtividade da mo-de-obra de modo geral.

No Estado de So Paulo, os dirigentes e demais funcionrios das estatais paulistas do

setor se depararam com a deciso firme do governador recm-eleito de privatiz-las, e

conheceram, j no incio da sua gesto, as iniciativas da Secretaria de Energia do Estado de

So Paulo (SEESP) para dar andamento e cabo ao processo, a comear pela nomeao de

presidentes e diretores das empresas que fossem afins com o horizonte da possvel

privatizao. Tanto a privatizao como as mudanas organizacionais foram realizadas sob

incentivos e constrangimentos institucionais, polticos e econmicos. Entretanto, foram

realizadas pelos prprios funcionrios das empresas. Foram os agentes com longa histria nas

empresas, e imersos em suas relaes sociais locais, que mediaram os incentivos e os

constrangimentos aludidos e que tambm contriburam para cri-los.

A bibliografia nacional da rea de cincia poltica sobre a poltica de privatizao j

teve expoentes como Tavares de Almeida (1999). E, mais especificamente sobre as

privatizaes no setor eltrico, tambm j existe uma bibliografia produzida: Pingelli Rosa,

Tolmasquim, Linhares (1998); Tolmasquim, Oliveira e Campos (2002); Leal Ferreira (2000);

Biazzi, Cintra, Althuon, Bonini, Granja e Pechet (1999). De modo geral, esses estudos foram

desenvolvidos por engenheiros e economistas que tratam de diversas faces do setor eltrico e

das empresas, embasados em dados histricos e quantitativos, principalmente2.

1 Aes de mudanas organizacionais, no mbito deste artigo, significa que as empresas realizaram desde a desverticalizao e a ciso de suas atividades por rea (gerao, transmisso e distribuio), at a subdiviso dessas reas em unidades de negcios, passando pela introduo de tecnologias (administrativas, informacionais, de telecomunicao, de equipamentos), pela redistribuio do pessoal pelas novas subsidirias criadas, pelo desligamento de pessoal via programas de incentivo ao desligamento, pela terceirizao de atividades, mudanas no sistema de suplementao de aposentadorias, promoo de treinamento de pessoal, renegociao de contratos, corte de gastos em programas de austeridade financeira, exposio das empresas a auditorias externas para avaliao de seus ativos, suas dvidas, seu potencial de novos negcios e, especialmente, para auxili-las a realizar processos de reorganizao.

2 Por exemplo: histrico da constituio e das mudanas do modelo institucional do setor eltrico nos Estados e na Federao; polticas governamentais para o setor; crticas s polticas governamentais; e, especialmente, uma grande quantidade de dados quantitativos que abrangem desde as caractersticas tcnicas e econmico-financeiras das empresas antes da privatizao, at avaliaes e projees de cenrios futuros aps ela no novo modelo institucional, passando por dados sobre despesas operacionais, faturamento, produtividade, lucratividade,

2

No entanto, no espao dessa bibliografia no h um estudo concreto e mais delimitado

que tenha se empenhado em compreender como se deu a dinmica interna das empresas, ou

seja, como se deu a dinmica do pessoal das empresas para levar a cabo os processos de

transformao que, no nvel macro e genrico, parte dessa bibliografia nomeia de mudana de

cultura organizacional, mudana de cultura administrativa, introduo de modernas

tecnologias de gesto. H um vcuo na literatura quanto dinmica das relaes sociais

dentro das empresas neste perodo de transformaes. bem nisso que procuramos situar

nosso enfoque sociolgico.

A anlise que ora vamos apresentar pretendeu excursionar pelo correspondente

emprico desta lacuna da bibliografia, ou, dito de outra forma, procurou abrir a caixa preta

das mudanas alardeadas e propor uma descrio e uma explicao de como os processos

foram desdobrados pelos agentes, por quais agentes e sob que condies. Este o nosso

problema: como? Como os agentes promoveram essas mudanas? Que agentes promoveram

essas mudanas? O que os impulsionou? O que os constrangeu? Como conseguiram imp-las

ao restante dos funcionrios? Por quais mecanismos? Como o restante dos funcionrios

comps com ou resistiu a essas mudanas? Nosso problema explicar como as mudanas

organizacionais e a privatizao ocorreram a partir da anlise da dinmica das relaes sociais

internas organizao.

Centramos nossa anlise em uma Empresa Caso (EC), que uma ocorrncia variante

dos acontecimentos mais gerais, e, dentro dessa empresa, focamos nos agentes de um

processo de modernizao, na linguagem autctone, e nas foras sociais organizadas; as

entidades representativas dos funcionrios sindicais e profissionais. De modo geral, o fato

que objetivamente uma frao dos funcionrios das empresas do Setor eltrico Paulista

(SEP) interagiu e trabalhou para fazer acontecer diversas transformaes em suas respectivas

empresas. Estas mudanas facilitariam sua privatizao, fundamentalmente as relacionadas s

cises que deram origem s novas empresas e, particularmente na Empresa Caso, as

relacionadas a um processo de mudana organizacional que comeou por volta do segundo

semestre de 1995 e teve desdobramentos at pelo menos fins do ano de 2001. Trata-se de uma

sucesso de projetos de modernizao e reengenharia3.

dimenso do pessoal, perfil das dvidas, da rentabilidade dos ativos, etc., produzidos e analisados em sries temporais.

3 Internamente, reengenharia significava detalhar e redesenhar os processos com base em novas tecnologias, buscando aumentar a produtividade do pessoal, diminuir custos e concentrar as atividades da empresa nas que do mais retorno financeiro em relao aos ativos aplicados.

3

Analiticamente, podemos dizer que, na EC, a chamada modernizao ocorreu em

trs momentos4. No primeiro momento, ela foi uma iniciativa de funcionrios do alto escalo

e demais funcionrios, entre setembro de 1995 e abril de 1996 aproximadamente. Esse o

perodo do primeiro Projeto de Modernizao Organizacional5, primeira modernizao. Em

um segundo momento, essa iniciativa ganhou outra dinmica, envolveu um nmero maior de

funcionrios diretamente e indiretamente, envolveu empresas de consultoria, envolveu as

diferentes foras polticas atuantes na EC (sindicatos, associaes profissionais, Conselho de

Representante de Empregados) e realizou uma mudana na estrutura organizacional6, uma

reengenharia de processos e a implantao piloto de novos processos. Nesse momento se trata

do Segundo Projeto de Modernizao Organizacional, da segunda modernizao. E, por fim,

o terceiro momento ocorreu aps a privatizao quando os novos processos, em parte

oriundos da reengenharia, foram largamente implantados. Nossa pesquisa completa abarcou

os dois primeiros perodos, mas neste artigo, por questo de espao, vamos nos referir

somente primeira modernizao, ou doravante simplesmente modernizao.