V WORKSHOP EMPRESA, EMPRESÁRIOS E SOCIEDADE O .políticas voltadas para o que designou por desmonte

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    V WORKSHOP EMPRESA, EMPRESRIOS E SOCIEDADE O mundo empresarial e a questo social

    Porto Alegre, 2 a 5 de maio de 2006 PUCRS

    Mesa Redonda 02: Organizaes empresariais, representao de interesses e ao poltica

    Empresrios e Governo Lula: percepes e ao poltica entre 2002 e 2006

    Eli Diniz*

    Resumo:

    As eleies de 2002 representaram um marco na poltica brasileira desde 1930, quando se deu a ruptura com a ordem oligrquica e se instauraram as bases poltico-institucionais para a implantao da estratgia da industrializao por substituio de importaes, possibilitando a transio do sistema agro-exportador para uma nova ordem urbano-industrial. Pela primeira vez, um ex-lder sindical, Luiz Incio Lula da Silva, fundador e integrante de um partido de esquerda, o PT (Partido dos Trabalhadores), vence as eleies presidenciais no Brasil, conquistando, no segundo turno, cerca de 53 milhes de votos, o equivalente a 61,3% dos votos vlidos, contra 38,7% de seu concorrente, Jos Serra, o candidato da situao. Tal resultado contrasta com uma tradio de vitria de candidatos apoiados por coalizes de direita ou de centro-direita, que foi a caracterstica da poltica brasileira, ao logo de todo o sculo vinte. Para interpretar o significado das eleies de 2002 importante considerar as mudanas ocorridas na sociedade brasileira no decorrer das duas ltimas dcadas do sculo passado.

    * Texto apresentado no V Worshop Empresa, Empresrios e Sociedade, realizado entre 2 e 5 de maio de 2006, PUCRS, Porto Alegre. Agradeo aos organizadores do evento o convite para participar da mesa de abertura. Retomo aqui parcialmente anlise apresentada em trabalho anterior: Empresrio, Estado e Democracia: continuidade e mudana entre os governos Fernando Henrique e Lula, apresentado no Seminrio La Esperanza venci al Miedo?, promovido pelo Centro de Estudios Brasileos de la Universidad de Salamanca, entre os dias 23 e 25 de fevereiro de 2005., organizado pelo Prof. Manuel Santos, diretor do Ceb e pela prof. Mrcia Dias, da PUC/RGS. Agradeo ainda a Renato Boschi com quem venho realizando pesquisas e publicando inmeros trabalhos sobre as relaes empresrios-Estado no Brasil.

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    Principais pontos de Inflexo: a ruptura com o nacional desenvolvimentismo e a busca de um novo modelo econmico

    No perodo mais recente, que se desdobra entre 1985 e as eleies de 2002, alguns

    pontos de inflexo na trajetria da sociedade brasileira devem ser ressaltados. Trata-se de

    momentos que se caracterizaram por mudanas expressivas no modelo econmico e no

    padro de desenvolvimento em vigor, bem como nas coalizes dominantes e nas estratgias

    polticas dos principais grupos em confronto.

    O primeiro marco pode ser situado entre 1985 e 1988, quando se d a ruptura com o

    passado autoritrio. Neste perodo, observou-se a instaurao dos mecanismos e

    procedimentos do regime polirquico, para usarmos a terminologia de Robert Dahl (Dahl,

    1971), conduzindo consolidao das regras do jogo democrtico e implicando a garantia

    da governabilidade pela gesto negociada dos conflitos polticos. Esse momento representa

    a construo da ordem democrtica em bases mais estveis. A constituio de 1988, a

    chamada Constituio Cidad, implantou um modelo de democracia com ampla liberdade

    de organizao, de expresso e de oposio; expandiu os direitos polticos de cidadania;

    universalizou o direito de voto e introduziu um alto grau de liberdade de criao e de

    funcionamento dos partidos polticos, o que permitiu que se retomasse a tradio

    multipartidria do Brasil. As eleies presidenciais de 2002, com a vitria do candidato do

    PT, partido situado esquerda do espectro ideolgico, revelaram o amadurecimento das

    instituies polirquicas no Brasil, com a plena aceitao do princpio da alternncia do

    poder1.

    Estes trs aspectos, a ruptura com a tradio golpista da poltica brasileira, a

    garantia da governabilidade pela gesto negociada dos conflitos e o respeito ao princpio da

    alternncia de poder, constituem o que chamo a construo da democracia sustentada. A

    prioridade foi a reforma poltica em torno da qual se articulou um grande consenso

    nacional.

    1 Em 2002, foi a quarta vez em que Lula disputou as eleies para a presidncia do Brasil, depois da queda do regime militar em 1985. Na primeira, em 1989, todas as pesquisas eleitorais, destacaram o alto grau de rejeio de Lula, sobretudo entre as elites. Naquele ano, o lder empresarial, Mrio Amato, presidente da poderosa FIESP (Federao da Indstria do Estado de So Paulo), em declarao imprensa, chegou a afirmar que uma eventual vitria de Lula provocaria uma fuga em massa de empresrios para fora do pas. Entre os militares e grandes proprietrios rurais, tambm foi detectado um claro sentimento de rejeio.

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    Por outro lado, ao consenso poltico se contraps o dissenso com relao ao modelo

    econmico. Observou-se um profundo desacordo com respeito aos rumos do capitalismo

    brasileiro. Prevaleceu, ento, o dissenso quanto ao esgotamento do antigo modelo de

    desenvolvimento.

    O segundo momento situa-se entre 1994 e 1995 com a implantao e o xito do

    Plano Real, que representou a conquista da estabilizao monetria sustentada. Este fato

    significou tambm um profundo corte com o passado recente, correspondente aos dois

    primeiros governos da Nova Repblica, marcados por experincias estabilizadoras

    ineficazes e de curta durao, que, ao terminar, acarretavam taxas ainda mais elevadas de

    inflao. A consecuo da meta da estabilidade levou ruptura com a cultura inflacionria

    e a irresponsabilidade fiscal, traos arraigados na tradio poltica do pas. Articulou-se, a

    partir de ento, um forte consenso em torno da preservao do equilbrio macroeconmico

    como fundamento do crescimento sustentado, consenso que daria respaldo execuo das

    chamadas reformas estruturais.

    E aqui chegamos ao terceiro ponto de inflexo, que resultou da profundidade das

    mudanas desencadeadas pelo pacote das reformas orientadas para o mercado, ao lado das

    reformas constitucionais, ambas executadas durante o primeiro mandato do Presidente

    Fernando Henrique Cardoso (1995-1999). Este ps em prtica um conjunto deliberado de

    polticas voltadas para o que designou por desmonte da Era Vargas. A execuo desta

    agenda abalou os fundamentos do padro anterior de desenvolvimento, desestruturando o

    modelo do trip, baseado num relativo equilbrio entre empresas estatais, nacionais e

    estrangeiras. De forma similar, aprofundou-se a eroso do pacto corporativo entre o Estado

    e a chamada burguesia nacional, que, durante as dcadas anteriores, deu suporte

    industrializao por substituio de importaes.

    verdade que a matriz estadocntrica vinha sofrendo um processo de desgaste lento

    e gradual desde meados dos anos 70 do sculo passado, em conseqncia das profundas

    mudanas desencadeadas pelo projeto desenvolvimentista posto em prtica pela ditadura

    militar, o que, nas palavras de Santos (1985), levaria ao declnio da ordem regulada.

    Entretanto, a desarticulao desta matriz ainda no se constitura em objeto de uma poltica

    deliberada do governo, passando a ser percebida como condio necessria para o ingresso

    numa nova fase. A meta do desmonte do legado do passado s seria claramente explicitada

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    com a ascenso de Fernando Collor presidncia da Repblica, no limiar dos anos 1990. E

    s se tornaria prioritria, assumindo o primeiro plano da agenda pblica, com a eleio, em

    1994, do presidente Fernando Henrique Cardoso, frente de uma ampla coalizo de centro-

    direita, num embate eleitoral durante o qual se desagregaria a antiga coalizo

    desenvolvimentista.

    No limiar do terceiro milnio, as mudanas postas em prtica pelas novas elites

    dirigentes, por sua amplitude e abrangncia, tornaram-se irreversveis. Em conseqncia,

    tornou-se anacrnica qualquer perspectiva de regresso ao passado2. De forma similar,

    perderam atualidade os velhos paradigmas para interpretar o presente e apontar novas

    alternativas. Resgatar antigos modelos tornou-se, portanto, uma sada historicamente

    descartada. Efetivamente, esgotaram-se os trs paradigmas dominantes no passado recente,

    vale dizer, o nacional-desenvolvimentismo, as diretrizes neoliberais consagradas pelo

    consenso de Washington e o modelo social-democrata. Desta forma, impunha-se a busca de

    novas estratgias para enfrentar os desafios ps-reformas orientadas para o mercado.

    A profundidade das mudanas e sua irreversibilidade criaram a expectativa de que a

    estratgia neoliberal teria assegurado um largo futuro pela frente. Entretanto, o desgaste

    desta estratgia comearia pouco tempo depois da reeleio de Fernando Henrique

    Cardoso, cujo segundo mandato (1999-2003) transcorreria sob crescente perda de

    popularidade.

    Assim que o quarto ponto de inflexo pode ser localizado no ano de 2001, quando

    se observa o aprofundamento do processo de eroso da coalizo neoliberal, cujos primeiros

    sintomas remontam s eleies presidenciais de 1998. O resultado foi a ruptura do consenso

    em torno da estabilidade e do ajuste fiscal como prioridades absolutas da agenda pblica.

    Difunde-se a percepo de que as polticas neoliberais tiveram um alto custo social,

    gerando efeitos perversos de grande impacto, como os altos ndices de desemprego, a

    recesso, a reduo do mercado formal de trabalho (eliminao de cerca de dois milhes de

    empregos formais na indstria) e a destruio