V WORKSHOP EMPRESA, EMPRESأپRIOS E ... V WORKSHOP EMPRESA, EMPRESأپRIOS E SOCIEDADE O mundo empresarial

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  • V WORKSHOP EMPRESA, EMPRESÁRIOS E SOCIEDADE O mundo empresarial e a questão social

    Porto Alegre, 2 a 5 de maio de 2006 – PUCRS

    Mesa Redonda 01: O mundo do trabalho e o empresariado

    Trabalho, empresa e sociedade: a teoria do reconhecimento de A. Honneth e o teletrabalho

    (versão preliminar e provisória)

    Cinara L. Rosenfield (UFRGS)1

    Resumo

    O objetivo deste estudo é compreender o contexto do trabalho na chamada sociedade da informação e as diferentes formas de trabalho que nela se desenvolvem, em especial o teletrabalho. Diante de um novo paradigma tecnológico característico da era da informação, trata-se de analisar as novas maneiras de trabalhar e as margens de autonomia no trabalho que lhes acompanham. Se a autonomia no trabalho industrial na sociedade pós-fordista é uma autonomia outorgada uma vez que, em seu sentido instrumental, visa a integrar o trabalhador ao processo de trabalho, interessa-nos aqui investigar e analisar a autonomia no trabalho ligado às Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). Por um lado, estas tecnologias, por referirem-se a atividades de natureza compreensiva e imaterial, traduziriam uma redução da amplitude da divisão do trabalho entre os que concebem e os que executam e um acréscimo na autonomia no trabalho, mas, por outro, a realidade do trabalho ligado às TICs mostra-se complexa e ambígua pois há indícios de uma manutenção da divisão entre trabalhos “inteligentes” e trabalhos controlados e repetitivos (como call centers). Na sociedade da informação vê-se a distância entre aqueles que utilizam as informações para atingir objetivos definidos por eles mesmos – e, portanto, dispõem de autonomia - e aqueles que sofrem os “efeitos” do mercado de trabalho e da avalanche de informações - e que são reduzidos à dependência econômica e cultural. O trabalho imaterial – e mais especificamente o teletrabalho –, produtor e consumidor de conhecimento e de informação, apresenta-se mais como trabalho flexível do que como trabalho autônomo, uma vez que a autonomia verificada diz respeito, sobretudo, a um maior controle sobre o tempo e o local de trabalho, mas subordinado às demandas de flexibilidade seja do mercado seja das organizações econômicas que assalariam ou consomem o trabalho informacional.

    1 Professora do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutora pela Université Paris IX – Dauphine. A presente pesquisa foi, em parte, realizada durante um estágio pós-doutoral em Portugal, na Universidade Técnica de Lisboa, com bolsa concedida pela CAPES dentro do acordo de cooperação internacional CAPES-GRICES.

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    1- Introdução Um contexto de precarização e flexibilização do emprego associado a mudanças

    na organização do trabalho nas sociedades capitalistas impõe um novo padrão de

    implicação no trabalho por parte do trabalhador. O trabalho – como padrão, o que não

    significa a inexistência de trabalho taylorista, precário, penoso ou embrutecedor –

    tornou-se mais variado e mais complexo, o conteúdo e a natureza do trabalho tornaram-

    se mais ricos, visto uma maior demanda de investimento subjetivo e de mobilização da

    inteligência. O trabalho tornou-se mais instigante e, em muitos casos, imaterial. É

    possível, pois, supor que este quadro represente ganhos para os trabalhadores, já que o

    trabalho tornou-se mais interessante e flexível. O objetivo deste trabalho é discutir o

    significado da autonomia do trabalho imaterial - que supõe a reflexão, a concertação de

    saberes e de observações, a troca de informações - ligado às tecnologias de informação

    e comunicação (TICs), mais especificamente o teletrabalho. As reflexões aqui presentes

    estão associadas a pesquisas empíricas junto a teletrabalhadores, assalariados e/ou por

    conta própria – incluindo operadores de call centers, trabalhadores autônomos e

    assalariados da área de informática, teletrabalhadores em domicílio –, em Lisboa

    (Portugal) e em Porto Alegre (Brasil), num total de 26 entrevistas, em 2004 e 2005. No

    presente artigo discute-se o conceito e as implicações da propalada autonomia no

    trabalho baseando-nos simultaneamente na literatura e em nossos dados empíricos.

    Em estudos anteriores junto a operadores da indústria de produção, pôde-se

    constatar mudanças que apontavam para exigências de mobilização subjetiva dos

    trabalhadores a fim de atingir a correta execução de suas responsabilidades, o que vem a

    constituir um quadro de autonomia outorgada (ROSENFIELD, 2003b) - a autonomia é

    outorgada na medida em que ela é “concedida” aos trabalhadores mas se constitui, ao

    mesmo tempo, em uma ordem a ser obedecida. A antiga organização do trabalho

    taylorista ou fordista viu-se diante da necessidade de renovação a fim de dar respostas a

    um outro tipo de exigência: para garantir qualidade e competitividade, agora em escala

    inédita, o trabalho do operário industrial deve integrar a compreensão da tarefa, de

    maneira a possibilitar um trabalho de concertação e de troca de informações e saberes

    não só no momento de concepção mas também no de sua execução. Esta seria a nova

    face da dominação do capital: é mister que o trabalhador se identifique pessoalmente,

    que se mobilize subjetivamente, que lance mão de suas capacidades psíquicas e

    relacionais para bem executar seu trabalho. A estas conclusões, acrescentamos aqui

    aquelas relativas à autonomia no trabalho nas ocupações vinculadas às Tecnologias de

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    Informação e Comunicação (TICs). Diante de um novo paradigma tecnológico

    característico da era da informação (também denominada nova economia, capitalismo

    cognitivo, sociedade em rede, sociedade informacional, segundo as diferentes

    abordagens), trata-se de analisar as novas maneiras de trabalhar e as margens de

    autonomia no trabalho que lhes acompanham. Se a autonomia no trabalho industrial é

    uma autonomia outorgada uma vez que traduz seu sentido instrumental, ou seja, é

    instrumento de coordenação das relações de trabalho e visa atingir um objetivo

    econômico de gestão da produção - na busca de inserir no processo de trabalho os

    elementos que não podem ser prescritos, como a concertação e a mobilização subjetiva -

    , trata-se aqui de confrontá-la à autonomia no trabalho ligado às TICs. Estas tecnologias

    a priori exigiriam maior qualificação e competência nas suas tarefas de natureza

    “inteligente” e imaterial, o que apontaria para uma redução da divisão do trabalho entre

    os que concebem e os que executam o trabalho e a uma maior margem de autonomia no

    trabalho. Entendemos aqui que a chamada sociedade da informação remete não somente

    e estritamente ao trabalho no setor de informação e telecomunicação, já que a presença

    e potencialidades das TICS acabam por transformar as formas de operacionalizar, de

    gerir e de trabalhar nas mais diversas atividades. O modelo de empresa em rede nas

    mais variadas áreas de atividade, por exemplo, possibilita a inclusão ou exclusão de

    novos componentes, em qualquer tempo ou local sem grandes custos; possibilita a

    interatividade em tempo real com fornecedores, clientes, subcontratados ou

    empregados; favorece uma maior flexibilidade, uma interação descentralizada, de fácil

    modificação, e, simultaneamente, maior controle sobre as atividades da empresa; além

    de propiciar a personalização da produção e dos serviços, segundo as necessidades de

    cada cliente. (Castells, 2004).

    2. A sociedade informacional

    As mudanças na área das tecnologias de informação e comunicação, da

    economia e do trabalho, ocorridas nas últimas duas décadas do século XX, suscitam

    diferentes abordagens. São abordagens que se inserem dentro de debates mais amplos

    sobre globalização e reestruturação produtiva, e se distinguem quanto à forma como

    concebem a natureza dessas mudanças, os seus impactos e seus prováveis

    desdobramentos.

    Uma primeira abordagem, baseada no conceito de sociedade em rede, gira em

    torno da tese de Manuel Castells (1999), segundo a qual uma diferenciação analítica se

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    faz necessária entre a sociedade da informação – um novo tipo societal – e a

    globalização – uma nova revolução capitalista que cria novas polaridades,

    desigualdades e formas de exclusão ao nível global. Um novo paradigma de tecnologia

    da informação forma a base material da sociedade da informação que se mantém

    enquanto sociedade capitalista a despeito da diversidade cultural e institucional destas

    sociedades.

    Em torno das tecnologias da informação, há uma infinidade de inovações

    técnicas que avançam na medida em que se cria uma interface entre os diversos campos

    da tecnologia através de uma linguagem digital, na qual a informação é produzida,

    acumulada, processada e transmitida. O conceito de paradigma tecnológico cunhado por

    Castells auxilia na compreensão da essência da transformação tecnológica