VIÉSES IMPLÍCITOS DOS JURADOS E A CARACTERIZACÃO ?· Greco, Rogério. Código Penal Comentado. Editora:…

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    VISES IMPLCITOS DOS JURADOS E A CARACTERIZACO DE

    HOMICDIO PRIVILEGIADO NO BRASIL

    Aluno: Diego Borghetti de Queiroz Campos Orientador: Noel Struchiner Co-Orientador: Ivar Hannikainen

    Sumrio: 1. Introduo 1.1 Do Homicdio Privilegiado 1.2 Da Competncia do Tribunal do Jri 1.3 Da Seleo dos Jurados 1.4 Dos Vises Implcitos 1.5 Da Relao Entre Vises e a Caracterizao de Homicdio Privilegiado e da Necessidade de se Conduzir Um Experimento 2. Objetivo 3. Metodologia Do Experimento 3.1 A Vinheta 4. Dos Resultados e Discusses 4.1 Da Anlise Do Experimento 5. Da Concluso 6. Referncias 1. Introduo

    O presente trabalho examina a tese de que a ausncia de definio e esclarecimento em

    lei do conceito de relevante valor moral presente no dispositivo legal que prev o homicdio

    privilegiado contribui para que o processo de tomada de deciso do jurado esteja mais

    suscetvel a problemas de parcialidade e vises, e gera, consequentemente, srios riscos aos

    princpios de igualdade, isonomia de julgamento e imparcialidade. Para que a tese supracitada

    fosse devidamente avaliada foi conduzido um experimento sobre os vises dos jurados na

    deciso de caracterizao de homicdio privilegiado.

    Esse trabalho encontra-se dividido em seis partes. A introduo por sua vez possui

    cinco subttulos, pois ela fornece a explicao de uma srie de conceitos que so de suma

    importncia para a compreenso da metodologia do experimento, dos seus resultados e

    concluses.

    1.1 Do Homicdio Privilegiado

    O caput do artigo 121 do Cdigo Penal Brasileiro prev a figura do homicdio simples.

    De acordo com esse dispositivo legal, o ato de matar algum resulta em uma pena de recluso

    de 6 (seis) a 20 (vinte) anos. O pargrafo primeiro desse mesmo artigo introduz, por sua vez,

    um caso de diminuio de pena denominado pela doutrina de homicdio privilegiado.

    De acordo com o texto legal, existem algumas hipteses em que o juiz pode

    caracterizar o crime como sendo homicdio privilegiado, e consequentemente aplicar uma

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    reduo de pena. Por motivo de maior clareza, os dispositivos de lei citados esto transcritos a

    seguir:

    Homicdio simples Art.121. Matar algum: Pena - recluso, de 6 (seis) a 20 (vinte) anos. Caso de diminuio de pena

    Se o agente comete o crime impelido por relevante valor social ou moral, ou sob o domnio de violenta emoo, logo em seguida a injusta provocao da vtima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um tero.1

    Diante de exposto, observa-se que o pargrafo primeiro prev trs hipteses que

    admitem a caracterizao do homicdio privilegiado. A primeira delas ocorre quando um

    sujeito comete um crime por algum motivo de relevante valor moral, devendo-se esclarecer

    que o relevante valor moral aquele que se refere pessoa do agente. Um exemplo clssico

    citado por Rogrio Greco em seu Cdigo Penal Comentado a respeito dessa hiptese a de

    quando um pai mata o estuprador de sua filha. De acordo com esse doutrinador, o sujeito que

    cometeu o homicdio nesse exemplo, claramente se sentiu motivado a cometer o crime por um

    relevante valor moral. Em suma, pode-se considerar o relevante valor moral como sendo

    aquele que, embora importante, considerado levando-se em conta os interesses do

    agente2.

    A segunda hiptese descrita no pargrafo nico a de relevante valor social. Essa, por

    sua vez, est caracterizada quando o sujeito comete um crime por algum motivo que interessa

    comunidade. Nas palavras de Rogrio Greco, relevante valor social aquele motivo que

    atende aos interesses da coletividade. No interessa to somente ao agente, mas, sim, ao

    corpo social.3 O exemplo citado por esse autor que melhor representa esse caso o da morte

    de um traidor da ptria.

    A ltima hiptese a de quando um sujeito comete um homicdio sob o domnio de

    violenta emoo, logo em seguida a injusta provocao da vtima. A lei no define o que

    1 Cdigo Penal Brasileiro. 2 Greco, Rogrio. Cdigo Penal Comentado. Editora: Impetus. 6a ed. 2012. P. 276. 3 Greco, Rogrio. Cdigo Penal Comentado. Editora: Impetus. 6a ed. 2012. P. 276

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    logo em seguida, contudo, a doutrina determina que deve haver contemporaneidade entre a

    injusta agresso e a violenta emoo. Ademais, de acordo com Greco, sob o domnio

    significa que o agente deve estar completamente dominado pela situao.4 Um exemplo

    recorrente dessa hiptese a de quando um sujeito mata o seu cnjuge logo aps flagra-lo em

    um momento de traio.

    Embora tenhamos observado todas as hipteses que podem levar caracterizao de

    homicdio privilegiado, para o escopo desse trabalho, apenas a primeira ser analisada. Ou

    seja, o experimento testar apenas se a ausncia de definio e exemplificao em lei do

    conceito de relevante valor moral presente no dispositivo legal que prev o homicdio

    privilegiado torna o processo de tomada de deciso do jurado mais suscetvel a problemas de

    parcialidade e vises.

    1.2 Da Competncia do Tribunal do Jri

    De acordo com o pargrafo primeiro do artigo 74 do Cdigo Processual Penal

    Brasileiro, compete ao Tribunal do Jri o julgamento dos crimes previstos nos art. 121

    pargrafos 1o e 2o, 122 pargrafo nico, 123, 124, 125, 126, 127 do Cdigo Penal,

    consumados ou tentados.5 Disso se extrai que o Tribunal do Jri tem competncia para julgar

    crimes conexos e crimes dolosos contra a vida, como por exemplo, o homicdio doloso,

    infanticdio, participao em suicdio e o aborto. Ademais, imprescindvel observar que os

    jurados decidem somente a matria de fato.

    Diante do exposto, observa-se que o Tribunal do Jri quem possui a competncia

    para analisar a caracterizao do homicdio privilegiado. Cabendo assim, aos jurados,

    decidirem se o determinado caso em anlise deve ou no se enquadrar nessa hiptese.

    1. 3 Da Seleo dos Jurados

    Uma vez observado que so os jurados os responsveis por caracterizar ou no o

    homicdio como sendo privilegiado, torna-se imperioso compreender quem so as pessoas

    selecionadas para formar o tribunal do jri e qual o mecanismo de seleo de jurados

    previsto na legislao nacional. 4 Greco, Rogrio. Cdigo Penal Comentado. Editora: Impetus. 6a ed. 2012. P. 277 5 Cdigo Processual Penal Brasileiro.

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    O doutrinador, Guilherme de Souza Nucci, afirma que Os jurados so selecionados

    dentre cidados de notria idoneidade, com mais de dezoito anos, isento os maiores de

    setenta anos, que requeiram sua dispensa.6 O pargrafo 2o do artigo 425 do Cdigo de

    Processo Penal prev, por sua vez, que o juiz presidente buscar requisitar as autoridades

    locais, associaes de classe e de bairros, instituies de ensino em geral, entidades

    associativas e culturais universidades, sindicatos, reparties pblicas, e outros ncleos

    comunitrios a indicao de pessoas que renam as condies para exercer a funo de

    jurado.7

    Contudo, de acordo com Nucci, a colheita dos nomes de jurados para compor as

    listas do Tribunal do Jri se faz, na maioria das Comarcas brasileiras, de modo aleatrio,

    sem conhecimento direito e pessoal do magistrado em relao a cada um dos indicados.

    Utiliza-se a h anos, como regra, a listagem dos cartrios eleitorais, que coletam vrios

    nomes, enviando ao juiz presidente. Dificilmente cumpre-se o disposto no pargrafo 2o deste

    artigo, perscrutando interessados em associaes de classe... O mximo que se faz, aps o

    recebimento das listas formadas aleatoriamente nos cartrios eleitorais, uma pesquisa de

    antecedentes criminais.8.

    Diante do exposto, podemos concluir que os jurados so selecionados a partir de

    listagem de cartrios eleitorais, e raramente so utilizados mecanismos mais seletivos de

    seleo de jurados, tais quais aqueles presentes no pargrafo 2o. Entre esse primeiro

    mecanismo de seleo e a escolha final dos jurados que iro compor o Tribunal existem uma

    srie de outras fases nesse processo, contudo, elas no sero relevantes para o escopo do

    presente trabalho.

    1.4 Dos Vises Implcitos

    Nas ltimas dcadas foram publicados uma multiplicidade de obras, artigos e experimentos sobre os fatores que afetam a tomada de decises de agentes. Muitos deles,

    inclusive, buscaram analisar a forma na qual vises implcitos influenciam as decises de

    6 Nucci, Guilherme S. Cdigo de Processo Penal Comentado. 5th ed. Rio De Janeiro: Forense, 2014. P. 905 906. 7 Cdigo de Processo Penal Brasileiro. 8 Nucci, Guilherme S. Cdigo de Processo Penal Comentado. 5th ed. Rio De Janeiro: Forense, 2014. P. 893.

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    jurados e juzes. Existe hoje toda uma literatura, que afirma que as decises de jurados so

    frequentemente influenciadas por certos vieses implcitos.

    Diferentemente dos vieses explcitos, os implcitos so aqueles em que os sujeitos no

    tem cincia de que os possui. Muitos indivduos acreditam ser imparciais e no portar certos

    preconceitos, contudo, experimentos tem demonstrado que essa crena costuma ser

    injustificada.

    Um dos testes que tem melhor evidenciado esses preconceitos implcitos so os

    Implicit Association Tests. De acordo com o pesquisador Brian Nosek, as estatsticas dos

    IATs evidenciam que a maior