Visao historica

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Text of Visao historica

  • 1Viso histrica

    MINISTRIO DA EDUCAOSECRETARIA DE EDUCAO ESPECIAL

    Braslia 2005

    Garantindo acesso e permannciade todos os alunos na escola

    Necessidades educacionaisespeciais dos alunos

  • FICHA TCNICA

    Departamento de Polticas de Educao Especial:Cludia Maffini Griboski

    Coordenao de Articulao da Poltica de Incluso:Denise de Oliveira Alves

    Coordenao:SORRI-BRASIL

    Elaborao:Maria Salete Fbio Aranha

    Reviso tcnica:Francisca Roseneide Furtado do Monte e Denise de Oliveira Alves

    Atualizao:Equipe tcnica da SEESP

    Projeto grfico, reviso e copidesque:Alexandre Ferreira

    2 edio - 2005Tiragem: 1.200 exemplares

    Autorizada reproduo total ou parcial, desde que citada a fonte.

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)Centro de Informao e Biblioteca em Educao (CIBEC)

    Aranha, Maria Salete FbioProjeto Escola Viva : garantindo o acesso e permanncia de to-

    dos os alunos na escola : necessidades educacionais especiais dosalunos / Maria Salete Fbio Aranha. - Braslia : Ministrio da Educao,Secretaria de Educao Especial, 2005.

    5 v. : il. color.

    Publicado em 5 v.: Iniciando nossa conversa; v. 1 - Viso histrica;v.2: Deficincia no contexto escolar; v.3: Sensibilizao e convivncia;v. 4: Construindo a escola inclusiva.

    1. Incluso educacional. 2. Escola inclusiva. 3. Servio educacio-nal especializado. 4. Aluno com necessidades especiais. 5. Atendimen-to especializado. I. Brasil. Secretaria de Educao Especial. II. Ttulo.

    CDU: 37.014.53:376

  • O Processo Histrico de Construo de um SistemaEducacional Inclusivo no Brasil........................................Antigidade........................................................................Idade Mdia.......................................................................Do sculo XVI aos dias de hoje.......................................Paradigma da Institucionalizao......................................Paradigma de servios.....................................................Paradigma de suporte.......................................................Consideraes importantes..............................................Revendo nossa histria de relaes com a pessoacom deficincia.............................................................Fatos marcantes na Educao Especial do Brasil...........Fatos e eventos internacionais.........................................Referncias bibliogrficas.................................................

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    Sumrio

  • 5Para compreender mais amplamente esse processohistrico h que se conhecer os muitos caminhos j trilhadospelo homem ocidental em sua relao com a parcela da po-pulao constituda pelas pessoas com necessidades educa-cionais especiais.

    A histria da ateno pessoa com necessidades edu-cacionais especiais tem se caracterizado pela segregao,acompanhada pela conseqente e gradativa excluso, sobdiferentes argumentos, dependendo do momento histrico fo-calizado.

    No decorrer da Histria da Humanidade foram se di-versificando a viso e a compreenso que as diferentessociedades tinham acerca da deficincia.

    A forma de pensar e por conseqncia a forma deagir com relao deficincia enquanto fenmeno e pes-soa com necessidades educacionais especiais enquantoser, modificaram-se no decorrer do tempo e das condi-es scio-histricas.

    Vamos, ento, trilhar um pouco desse caminho, procu-rando focalizar a relao entre sociedade e deficincia nocontexto da organizao econmica vigente, da organi-zao sociopoltica, e dos conceitos de homem, de educa-o e de deficincia que constituam o pensar de cada poca.

    O processo histrico de construo de umSistema Educacional Inclusivo no Brasil

  • 6 importante lembrarmo-nos de que termos tais comodeficincia, deficiente, portador de deficincia e porta-dor de necessidades especiais surgiram bem recentemente,j no sculo XX.

    Assim, quando estivermos nos referindo a perodos his-tricos anteriores, usaremos, muitas vezes, vocbulos queatualmente so considerados tcnica e/ou politicamente in-corretos, mas que eram os termos ento utilizados.

    Praticamente no se dispe de dadosobjetivos registrados a respeito de como secaracterizava a relao entre sociedade e de-ficincia nos meados da vida cotidiana emRoma e na Grcia Antigas. Pode-se, entretan-to, encontrar, na literatura da poca, bem como

    na Bblia, passagens que permitem inferir sobre sua naturezae procedimentos.

    A economia desses pases, na Antigidade, se funda-mentava nas atividades de produo e de comrcio agrcola,pecurio e de artesanato.

    Por outro lado, a organizao sociopoltica se funda-mentava no poder absoluto de uma minoria, associada ab-soluta excluso dos demais das instncias decisrias e admi-nistrativas da vida em sociedade. Caracterizava-se, essencial-

    Antigidade

  • 7mente, pela existncia de dois agrupamentos sociais: o danobreza - senhores que detinham o poder social, poltico eeconmico, e o populacho - considerados sub humanos, de-pendentes economicamente e propriedade dos nobres.Assim, ironicamente, era o povo que trabalhava e que produ-zia, mas era a nobreza que usufrua os produtos, tanto direta-mente, como de sua comercializao. A essa populao tra-balhadora eram destinadas somente as sobras, indesejadaspela nobreza. Nesse contexto, a vida de um homem s tinhavalor medida que este lhe fosse concedido pela nobreza,em funo de suas caractersticas pessoais ou em funo dautilidade prtica que ele representasse para a realizao deseus desejos e atendimento de suas necessidades.

    Nesse contexto, a pessoa diferente, com limitaesfuncionais e necessidades diferenciadas1 , era praticamenteexterminada por meio do abandono, o que no representavaum problema de natureza tica ou moral. A Bblia traz refe-rncias ao cego, ao manco e ao leproso - a maioria dos quaissendo pedintes ou rejeitados pela comunidade, seja pelo medode doena, seja porque se pensava que eram amaldioadospelos deuses. Kanner (1964) relatou que a nica ocupaopara os retardados mentais encontrada na literatura antiga a de bobo ou de palhao, para a diverso dos senhores e deseus hspedes (p. 5).

    1. Surdos, cegos, deficientes mentais, deficientes fsicos, rfos, doentesidosos, dentre outros.

  • 8Nesse perodo, a economia (no mundo oci-dental) pouco mudou, continuando baseada ematividades de pecuria, artesanato e agricultura.

    Por outro lado, houve uma significativamudana na organizao poltico-administra-

    tiva. O advento do cristianismo, com a conseqente consti-tuio e fortalecimento da Igreja Catlica, alou gradativamen-te ao cenrio poltico um novo segmento: o clero. Seus mem-bros foram assumindo cada vez maior poder social, poltico eeconmico, provenientes do poder maior que detinham de ex-comungar (vedando, assim, a entrada aos cus) aqueles que,por razes mais ou menos justas, os desagradassem. Toman-do tambm a si a guarda do conhecimento j produzido earmazenado, conquistaram rapidamente o domnio das aesda nobreza, tendo, dessa forma, passado a comandar toda asociedade. Ao povo, da mesma forma que no perodo anteri-or, permanecia o nus de todo o trabalho, seja na produode bens e servios, na constituio dos exrcitos, como noenriquecimento do clero e da nobreza, sem a prerrogativa departicipar dos processos decisrios e administrativos da soci-edade.

    Pessoas doentes, defeituosas e/ou mentalmenteafetadas (provavelmente deficientes fsicos, sensoriais ementais), em funo da assuno das idias crists, no maispodiam ser exterminadas, j que tambm eram criaturas deDeus. Assim, eram aparentemente ignoradas prpria sor-

    Idade Mdia

  • 9te, dependendo, para sua sobrevivncia, da boa vontade e cari-dade humana. Da mesma forma que na Antigidade, alguns con-tinuavam a ser aproveitados como fonte de diverso,como bobos da corte, como material de exposio, etc.

    No sculo XIII comearam a surgir instituies paraabrigarem deficientes mentais, e as primeiras legislaes so-bre os cuidados a tomar com a sobrevivncia e, sobretudo,com os bens dos deficientes mentais, como os constantes doDe Prerrogativa Regis baixado por Eduardo II da Inglaterra(Dickerson, 1981, em Pessotti, 1984).

    A educao, nessa poca, tinha duasvertentes de objetivos: uma, de natureza reli-giosa, visava formar elementos para o clero.Outra, caracterizada por objetivos especfi-cos diferenciados, dependendo do local e dos

    valores assumidos pela sociedade, variando de formao paraa guerra, at a formao para as artes.

    Devido s conseqncias desse modelo de funciona-mento da sociedade, dois importantes e decisivos processosinstalaram-se e se sucederam, no transcorrer de cinco scu-los, a partir do sculo XII, com momentos de maior ou menortenso e gravidade: a Inquisio Catlica e a Reforma Pro-testante.

    Dado o poder adquirido pela Igreja Catlica no decorrerdos anos, foi-se instalando uma situao generalizada de abu-so e de manifestao de inconsistncia entre o discurso reli-gioso e as aes de grande parte do clero. Discordantes den-

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    tro da prpria Igreja, bem como fora dela, passaram a semanifestar cada vez mais ampla e veementemente. A disse-minao de tal processo passou a colocar em risco o poderpoltico e econmico da Igreja. Na tentativa de se proteger de talinsatisfao e das manifestaes, a Igreja iniciou um dos pero-dos mais negros e tristes da Histria da Humanidade: o daperseguio, caa e extermnio de seus dissidentes, sobo argumento de que eram hereges, ou endemoninhados.

    H, inclusive, documentos papais de-terminando os procedimentos a serem ado-tados pelo clero para identificarem essaspessoas e junto a elas tomarem providnci-

    as, tais como torturas e outras punies severas, que inclu-am at a morte pela fogueira. Documentos da Igreja, que ti-nham a funo de orientar os membros do clero para identifica-rem e interrogarem os suspeitos de heresia,