Volume 2 • Unidade 10 • Filosofia Lógica e Filosofia da ...· A Filosofia é a mãe (de todas

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  • Cincias Humanas e suas Tecnologias Filosofia 223

    Volume 2 Unidade 10 Filosofia

    Lgica e Filosofia da CinciaPara incio de conversa...

    H tempos, a Filosofia j foi considerada a maior de todas as Cincias. Por

    sua vez, a Lgica, apesar de no ser propriamente uma Cincia, fundamenta e

    instaura os critrios de certeza e de validao das proposies tanto filosficas

    quanto cientficas. Em nossos dias, fascinamo-nos a todo momento com as des-

    cobertas das ditas cincias aplicadas, sem nos preocuparmos com os seus pres-

    supostos lgico-filosficos.

    Assim, a tarefa que iremos enfrentar em nossa 2 aula desse mdulo a

    de, a partir da tenso existente entre essas trs grandes reas do conhecimento

    humano, compreender as suas diferenas e complementaridades e, por fim, as

    suas contribuies para a sociedade em que vivemos.

    ProposiesChamamos de proposio todo o conjunto de palavras ou smbolos que exprimem um pen-

    samento de sentido completo. Expresso material de um juzo. O mesmo que enunciado.

    Objetivos de aprendizagem Apropriar-se de princpios e de alguns dos instrumentos da lgica para o pen-

    sar filosfico.

    Desenvolver o raciocnio lgico e a argumentao.

    Relacionar os diversos tipos de conhecimento.

    Situar a especificidade da Filosofia em relao Cincia.

  • Brasi l

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    Argentina224

    Analisar e discutir o problema da questo do mtodo em Filosofia e na Cincia.

    Situar e discutir os limites da noo de razo na modernidade.

    Reconhecer as diferenas entre cincia e cientificismo.

  • Brasi l

    Uruguai

    ArgentinaCincias Humanas e suas Tecnologias Filosofia 225

    Seo 1Sobre a Cincia

    A Filosofia a me (de todas as Cincias)?

    Apesar de diversos povos antigos possurem slidos conhecimentos sobre Astronomia e Matemtica, igual-

    mente verdadeiro que a atitude cientfica, tal como a concebemos hoje nasce, uma vez mais, com os gregos.

    Os pr-socrticos, como Tales de Mileto (c. 624/5 a.C.- 556/8 a.C.) foram os primeiros a demonstrar uma certa

    preocupao em produzir um conhecimento livre das concepes mgico-religiosas que, at ento, constituam o

    nico modelo de explicao das coisas. por essa razo que Aristteles (384 a.C. 322 a.C.) referia-se a esses pensado-

    res como fsicos e no como propriamente filsofos. Segundo ele, ao dedicarem as suas vidas ao estudo

    da Natureza , entendida como princpio fundante da realidade, os pr-socrticos acabaram

    por dar os primeiros passos em direo a um conhecimento que aprendemos a chamar de racional.

    Na prtica, durante toda a Antiguidade, Cincia e Filosofia andaram lado a lado, sendo extremamente difcil e

    polmico separar os seus mtodos e concluses. No entanto, encontramos uma tendncia hierarquizao dos sabe-

    res, presente tanto no sistema platnico, quanto aristotlico. Em ambos, a Filosofia ocupa um lugar privilegiado, fruto

    do pensamento grego que privilegia a razo contemplativa em detrimento do conhecimento tcnico, mais aplicado.

    Assim, no corpus aristotelicum, a filosofia primeira (Metafsica), entre os saberes tericos, tinha abaixo de si as

    Cincias Naturais e as Biolgicas. Do mesmo modo, Plato apontava a Dialtica como a maior das cincias seguida

    pela Matemtica em virtude de sua familiaridade com o plano das ideias.

    De qualquer forma, a concepo que credita Filosofia o papel de me das cincias parece resistir ao tempo

    e, pelo menos at meados do sculo XVIII, cientistas como Isaac Newton (1643-1727), preferiam a expresso filsofo

    da natureza a fsico, por exemplo.

    A concepo clssica de cincia

    Para os antigos, talvez em virtude da proximidade com o fazer prprio da Filosofia, as cincias caracterizavam-

    -se pela busca das causas a partir da noo de finalidade . por esse motivo que muitos manuais caracterizam

    o modelo clssico de cincia como fundado em noes metafsicas. Veja o exemplo da fsica aristotlica e a questo

    do movimento. A identificao do estado de repouso com a ideia de perfeio encontra-se justificada na Metafsica

  • Brasi l

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    da substncia do filsofo vista na aula anterior. A partir disso, Aristteles apresentou uma viso hierarquizada dos

    prprios corpos, com seus elementos primrios e seus lugares naturais, conforme demonstra o esquema abaixo:

    Objetos Elementos Lugar natural Movimento natural

    Pesados (ou graves) Terra Centro da Terra Cair

    Leves Fogo Cu Subir

    No inteiramente leves Ar Espao Flutuar

    No inteiramente pesados gua Lquido Boiar

    Assim, todos os corpos pesados, como uma pedra, por exemplo, tenderiam ao centro da Terra, uma vez que

    em sua composio predominaria o elemento terra, do mesmo modo que o cu seria o lugar natural dos corpos leves

    em virtude do fogo.

    Por trs dessa teoria, temos a pressuposio de que todas as coisas buscam a perfeio, ou em termos ainda

    mais aristotlicos, a atualizao daquilo que originalmente s existia como potencialidade em seu interior.

    Como podemos perceber, o modelo clssico de cincia era voltado para a especulao racional (cincia con-

    templativa) e dava mesmo nos moldes do pensamento de Aristteles pouca importncia experimentao. A

    natureza e suas leis no passavam de um mero reflexo de um mundo finito, ordenado e perfeito. Modelo esse exem-

    plarmente descrito pela cosmologia de Ptolomeu (c. 90 168 d. C.), grande matemtico e astrnomo grego, respon-

    svel pela sistematizao do geocentrismo introduzido por Aristteles e que se manteve como a teoria oficial at

    meados da era moderna.

    Geocentrismo

    Teoria de explicao do universo, proposta por Aristteles e desenvolvida por diversos astrnomos como Claudius Ptolomeu.

    Contrariamente ao modelo heliocntrico, colocava a Terra como o centro de todo o universo e defendia que a sua rbita era

    povoada pelo Sol e demais planetas conhecidos.

    Seja no interior da Academia platnica, na cosmologia ptolomaica ou na concepo de fsica dos estoicos,

    encontramos uma Cincia que no pode, de forma alguma, ser desvinculada de uma filosofia preocupada com a

    apreenso das essncias e de uma inevitvel hierarquizao qualitativa dos seres e das coisas.

  • Brasi l

    Uruguai

    ArgentinaCincias Humanas e suas Tecnologias Filosofia 227

    Figura1: Esquema do modelo geocntrico.

    Observe que a Terra (em repouso absoluto) ocupa o centro do universo e a rbita circular dos planetas reflete a

    natureza perfeita dos prprios deuses que lhes conferem os nomes. Uma vez mais concepes metafsicas e religiosas

    misturam-se s observaes.

    A concepo moderna

    Durante todo o perodo medieval, pouca coisa mudou em relao ao modelo cientfico vigente. Mesmo com a

    contribuio de grandes nomes como Roger Bacon (1214 1294) e sua aptido para uma prtica mais voltada para a

    experimentao a concepo greco-romana, baseada na fsica de Aristteles e astronomia ptolomaica permaneceu

    praticamente inalterada.

    Por outro lado, a religio crist, em muitos aspectos, constituiu um verdadeiro obstculo para as novas desco-

    bertas que, aos olhos da Igreja, representariam srias ameaas ao conjunto dos dogmas institudos. O Santo Ofcio (ou

    Inquisio) controlava toda a produo intelectual da poca e foi o responsvel pela morte de muitas personalidades,

    at incio do sculo XVII, como Giordano Bruno (1548-1600) queimado vivo como herege por defender sua teoria

    do universo infinito.

  • Brasi l

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    Mas, ento, quando viria a surgir uma nova concepo de cincia? A resposta no to simples quanto alguns

    livros de histria costumam apresentar. De qualquer forma, os chamados tempos modernos forjaram as condies

    mais que ideais para o desenvolvimento de um mtodo, isto , um conjunto de princpios e, sobretudo, procedimentos,

    que serviriam de garantia para a objetividade do conhecimento cientfico.

    Objetividade

    Qualidade daquilo que objetivo, resultado da observao imparcial, independente de preferncias individuais.

    Aliada s inovaes tecnolgicas, tais como o telescpio e a prensa mvel patrocinadas pela classe burguesa

    em ascenso e ao enfraquecimento do poder da Igreja, importantes descobertas passaram a ser feitas e causaram

    uma profunda ruptura com a forma de saber meramente contemplativo.

    Assim, a preocupao com a observao, a experimentao e a matematizao dos resultados fez de Galileu

    Galilei (1564-1642) o primeiro grande divulgador da cincia moderna. Tomando como base a teoria heliocntrica

    de Nicolau Coprnico (1473-1543), Galileu abriu caminho para outros expoentes como Johannes Kepler (1571-1630)

    e, mais tarde, Isaac Newton (1643-1727) e at mesmo Antoine Lavoisier (1743-1794) e Charles Darwin (1809-1882).

    Teoria heliocntrica de Coprnico

    Teoria que colocou o Sol como o centro do Sistema Solar, contrariando a ento vigente teoria geocn-

    trica de Aristteles e Ptolomeu (que considerava a Terra como o centro).

    Para saber mais, acesse: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolau_Cop%C3%A9rnico

    A despeito de suas diferenas, o que une a teoria da gravitao de Newton, as leis de conservao da matria

    de Lavoisier ou o evolucionismo de Darwin uma nova concepo de cincia, no mais fundada em princpios meta-

    fsicos, mas centrada na descrio quantitativa dos fenmenos.

  • Brasi l

    Uruguai

    ArgentinaCincias Humanas e suas Tecnologias Filosofia 229

    Uma excelente dica para os curiosos assistir ao primeiro episdio (em 6 partes) da srie Histria da

    Cincia produzida pelo canal BBC de Londres. De modo descontrado, voc acompanhar as princi