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VERÔNICA ELIZABETH RIVAS YO NO SOY BOLIVIANO SOY CARIOCO ENTRE LÍNGUAS E PRECONCEITOS NA FRONTEIRA BRASIL-BOLÍVIA Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação Mestrado em Estudos Fronteiriços da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Câmpus do Pantanal, como requisito final para obtenção do título de Mestre. Linha de Pesquisa: Ocupação e Identidades Fronteiriças Orientador(a): Prof. Dr. Tito Carlos Machado de Oliveira CORUMBÁ/MS 2011

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    VERNICA ELIZABETH RIVAS

    YO NO SOY BOLIVIANO SOY CARIOCO ENTRE LNGUAS E

    PRECONCEITOS NA FRONTEIRA BRASIL-BOLVIA

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-

    Graduao Mestrado em Estudos Fronteirios

    da Universidade Federal de Mato Grosso do

    Sul, Cmpus do Pantanal, como requisito final

    para obteno do ttulo de Mestre.

    Linha de Pesquisa: Ocupao e Identidades

    Fronteirias

    Orientador(a): Prof. Dr. Tito Carlos Machado

    de Oliveira

    CORUMB/MS

    2011

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    Este documento corresponde verso final da dissertao de mestrado intitulada YO

    NO SOY BOLIVIANO SOY CARIOCO ENTRE LNGUAS E PRECONCEITOS NA

    FRONTEIRA BRASIL-BOLVIA, apresentada Banca Examinadora do Curso de Mestrado

    em Estudos Fronteirios da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Cmpus do

    Pantanal.

    _____________________________________________

    Presidente da Banca Examinadora

    Prof. Dr. Tito Carlos Machado de Oliveira

    ______________________________________________

    Avaliadora

    Prof. Dr. Regina Baruki Fonseca

    ______________________________________________

    Avaliadora

    Prof. Claudete Cameschi de Souza

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    AGRADECIMENTOS

    Agradeo, em primeiro lugar a Deus por ter me dado fora e sade para finalizar este

    trabalho, que apesar de momentos difceis deu-me fora para lutar pelos meus sonhos.

    Agradeo ao meu orientador Professor Doutor Tito Carlos Machado de Oliveira pela

    confiana e por mostrar-me caminhos na busca da competncia cognitiva como forma de

    transformao do ser poltico em especial para que sejamos pesquisadores conscientes de

    nossa responsabilidade social. Obrigada pela oportunidade e serenidade com que me

    orientastes nesta pesquisa.

    Agradeo Professora Doutora Rosangela Villa da Silva que iniciou esta caminhada

    rdua, motivando-me na busca pelo saber cientfico.

    Agradeo minha famlia, que o bem maior que tenho nesta vida. Em especial,

    agradeo ao Mrces Dias Junior, companheiro de todas as horas que esteve ao meu lado nos

    momentos mais crticos ajudando-me a tirar As pedras do meio do caminho. Obrigada por

    ter compreendido minha ausncia e mau humor. Sabes o quanto foi importante esse perodo

    de dedicao para a minha formao pessoal e profissional.

    Estudar a fronteira por meio da lngua foi um desafio que enfrentei com muita garra e

    determinao. Este estudo transformou minha viso de mundo e fez-me perceber o quo

    grandioso pesquisar uma regio de fronteira, lugar de riqussimas informaes que, aliada

    s pesquisas desenvolvidas no Programa de Ps-Graduao de Mestrado em Estudos

    Fronteirios Cmpus Pantanal, vemos que conseguiremos aes de desenvolvimento local,

    que contribuiro de forma efetiva na integrao socioeconmica dos habitantes desta regio.

    Meu agradecimento especial Professora Me. Suzana Vincia Mancilla Barreda,

    pessoa mpar, a quem tenho grande admirao e respeito. Sua conduta tica e

    responsabilidade profissional serve-me de exemplo. Obrigada Suzana, por tudo que me

    ensinastes e pela contribuio que tambm destes no processo de organizao deste trabalho,

    seu incentivo foi crucial para que eu o concluisse.

    Meus agradecimentos aos diretores (as) que com receptividade autorizaram minha

    pesquisa em suas unidades escolares e intermediaram o meu contato com os estudantes

    partcipes (sujeitos) desta investigao. E finalmente a todos os professores e colegas da

    segunda turma de Mestrado em Estudos Fronteirios da UFMS/ CPAN. Nesta turma tivemos

    momentos de discusses acaloradas, mas extremamente profcuas para nosso amadurecimento

    intelectual.

  • 4

    No a conscincia dos homens que determina o seu ser, mas, ao

    contrrio, o seu ser social que determina a sua conscincia. Assim

    como no se julga o que o individuo a partir do julgamento que ele

    faz de si mesmo, da mesma maneira no se pode julgar uma poca de

    transformao a partir da sua prpria conscincia.

    Karl Marx

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    RIVAS, Vernica E. Yo no soy boliviano soy carioco - Entre lnguas e preconceitos na

    fronteira Brasil-Bolvia. 95 f. 2011. Dissertao de Mestrado do Programa de Ps-

    Graduao Strictu Senso. Estudos Fronteirios, da Fundao Universidade Federal de Mato

    Grosso do Sul, Cmpus Pantanal. Corumb/MS.

    RESUMO

    Esta pesquisa faz um recorte lingustico sociocultural por meio das lnguas em contato,

    portugus e espanhol (castelhano), em uma das fronteiras do Brasil com a Bolvia. Tal estudo

    motiva-se pelo fato de nesta regio haver escasso nmero de investigaes lingusticas. Nessa

    perspectiva nos propusemos a analisar a interao lingustica oriunda da relao dessas

    lnguas no contexto escolar corumbaense, assim observamos possveis influncias ou

    interferncias de uma lngua sobre a outra, ou variantes lingusticas utilizadas entre os

    estudantes de Ensino Mdio de escolas pblicas e particulares. Centramos a pesquisa entre os

    municpios de Corumb/MS, Brasil e Puerto Surez na Bolvia. Enfocamos consideraes

    sobre a aplicabilidade da Lei Federal 11.161/2005, que dispe sobre o ensino da lngua

    espanhola, apresentamos algumas questes sobre relao de preconceito e discriminao a

    bolivianos, tendo em vista que tal atitude foi constatada no decorrer da anlise. Sobre o ensino

    da lngua estrangeira com a incluso do espanhol na grade curricular das escolas, mostramos

    os resultados extrados de questionrios semi-estruturados aplicado nas escolas partcipes

    desta investigao. O mtodo aplicado nesta investigao foi o da Sociolingustica, nesse

    processo buscamos compreender os padres encontrados nessa interao entre lngua, cultura

    e sociedade, na perspectiva de conceber a lngua enquanto contexto social. Assim, o resultado

    mostrou-nos que essa rea de fronteira apresenta pouca interao lingustica e a integrao

    social ocorre de forma parcial, a convivncia amistosa, porm h um certo distanciamento

    permeado de preconceitos e hostilidades em relao aos vizinhos bolivianos. Nesse contexto,

    conclumos que h uma tendncia de negao s origens e a aculturao dos estudantes

    descendentes. Essa convivncia estigmatizada e inferiorizada vivida pelos estudantes

    descendentes de bolivianos no contato com o brasileiro, suscita polticas educacionais que

    vislumbrem mudanas nesse paradigma interacional.

    Palavras-chave: Fronteira Contato Lnguas - Estudantes

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    RIVAS, Vernica E. Yo no soy boliviano soy carioco Entre lnguas e preconceitos na

    fronteira Brasil-Bolvia. 95 f. 2011. Dissertao de Mestrado do Programa de Ps-

    Graduao Strictu Senso. Estudos Fronteirios, da Fundao Universidade Federal de Mato

    Grosso do Sul, Cmpus Pantanal. Corumb/MS.

    RESUMEN

    Esta investigacin hace un recorte lingstico sociocultural hacia las lenguas en contacto

    portugus y espaol (castellano), en una de las fronteras de Brasil con Bolivia. Este estudio,

    fue motivado por no haber muchas investigaciones lingsticas en esta regin. En esta

    perspectiva nos propusimos a analizar la interaccin lingusticas oriunda del contacto de estas

    lenguas en el contexto escolar de la ciudad de Corumb. De esta forma, observamos posibles

    interferencias e influencias de una lengua sobre la otra, o variantes lingusticas que est en

    uso en el habla de los estudiantes de enseanza media de escuelas pblicas y particulares. La

    investigacin est centrada entre las ciudades de Corumb en Brasil y Puerto Surez en

    Bolivia. Enfocamos consideraciones sobre la aplicabilidad de la Ley Federal 11.161/2005,

    que dispone sobre la enseanza de la lengua espaola, presentamos algunas cuestiones sobre

    la relacin de prejuicio y discriminacin a los bolivianos, esta actitud fue comprobada en este

    estudio. Sobre la enseanza de lengua extranjera con la inclusin del espaol en el currculo

    de las escuelas, hemos presentado los resultados que sacamos de los cuestionarios que fueron

    aplicados en las escuelas participantes de esta investigacin. Trabajamos con el mtodo de la

    Sociolingstica para comprehender los padrones encontrados en esta interaccin entre

    lengua cultura y sociedad, en la perspectiva de entender la lengua en su contexto social. El

    resultado de esta investigacin nos muestra que esta regin de frontera con Bolivia presenta

    poca interaccin lingstica y la integracin social ocurre parcialmente, la convivencia es

    amigable, pero hay un distanciamiento lleno de prejuicios y hostilidad en el contacto con los

    bolivianos. Ese contexto resulta en la posible negacin al origen y aculturacin de los

    descendentes de bolivianos. Ese contacto estigmatizado e interiorizado que viven los

    bolivianos en esta frontera, necesitan de polticas educacionales que vislumbren cambios de

    paradigmas en el contexto de interaccin.

    Palabras claves: Frontera Contacto Lenguas - Estudiantes

  • 7

    LISTA DE ILUSTRAES

    Figura - 1 Localizao de zona e faixa fronteiria da regio estudada ............... 21

    Figura - 2 Vista panormica do Porto Geral no sculo XX ................................ 23

    Figura - 3 Comrcio Catarinense ........................................................................ 37

    Figura - 4 Dois Prdios localizado na Avenida General Rondon ....................... 44

    Figura - 5 Prdio localizado na Avenida General Rondon ................................. 45

    Figura - 6 Vendedoras de artesanatos no Porto Geral de Corumb ................... 46

    Grfico 1 Escolas Pblicas- Consideram importante aprender a lngua

    espanhola ............................................................................................................

    60

    Grfico 2 Escolas Pblicas - Emprego do espanhol em alguma situao ....... 61

    Grfico 3 -.Escolas pblicas - Caso tenham que optar por ingls ou espanhol . 62

    Grfico 4 Escolas Pblicas - Impresses dos estudantes sobre os bolivianos. 63

    Grfico 5 Escolas Pblicas - Presenciou preconceito ou discriminao a

    bolivianos ............................................................................................................

    64

    Grfico 6 Escolas Pblicas - Como vem o contato entre brasileiros e

    bolivianos ...........................................................................................................

    64

    Grfico 7 Escolas Particulares - Emprego do espanhol em alguma situao .. 66

    Grfico 8 Escols Particulares - Impresses dos estudantes sobre os

    bolivianos

    67

    Grfico 9 Escolas Particulares - Presenciou preconceito ou discriminao a

    bolivianos ...........................................................................................................

    68

    Grfico 10 Escolas Particulares - Como v o contato entre brasileiros e

    bolivianos ............................................................................................................

    69

  • 8

    LISTA DE QUADROS

    Quadro 1 Coleta de dados Questionrio .......................................................... 30

    Quadro 2 Coleta de dados Entrevista ............................................................... 30

    Quadro 3 Escolas pblicas ingls e espanhol .................................................. 58

  • 9

    SUMRIO

    APRESENTAO ......................................................................................... 10

    INTRODUO ............................................................................................. 12

    1.O CONTEXTO DO AMBIENTE DE ESTUDO ..................................... 17

    2.FUNDAMENTAO TERICA E PROCEDIMENTOS

    METODOLGICOS ....................................................................................

    24

    2.1 A coleta de dados ...................................................................................... 31

    2.2 Linguagem na fronteira: abordagem sobre lnguas em contato ............ 33

    2.3 Espanhol e portugus na fronteira Brasil/Bolvia .............................. 38

    3. ASPECTOS DAS RELAES INTERCULTURAIS NESTA

    FRONTEIRA ..................................................................................................

    41

    4. POLTICAS LINGUSTICAS LEGISLAO PERTINENTE ...... 48

    4.1 As polticas lingusticas do Mercosul .................................................... 50

    4.2 A aplicabilidade da Lei Federal 11.161/2005 ......................................... 55

    5.IMAGEM, PRECONCEITO E INTEGRAO DOS ESTUDANTES

    BRASILEIROS NA FRONTEIRA BRASIL-BOLVIA ..........................

    59

    5.1 Olhar dos estudantes sobre a fronteira com a Bolvia .......................... 69

    CONSIDERAES FINAIS ........................................................................ 83

    BIBLIOGRAFIA ............................................................................................ 86

    APNDICES ................................................................................................. 90

  • 10

    APRESENTAO

    Historicamente o que define o tipo de contato lingustico existente nas fronteiras

    vincula-se a dimenses resultantes do espao geogrfico, social e cultural. Nesse mbito essas

    relaes apresentam singularidades permeadas pelo poder poltico e econmico entre os

    pases fronteirios. Esse encontro intercultural muitas vezes representa choques conflitantes

    aos moradores em contnuo contato. Ante essa temtica este trabalho resultado da

    necessidade de analisar o contato das lnguas espanhola e portuguesa no contexto escolar

    corumbaense e ressaltar a partir dessa convivncia lingustica estudantil as relaes

    interculturais entre brasileiros e bolivianos.

    Ante esse contexto, optamos por centrar nossa investigao no municpio de Corumb,

    Estado de Mato Grosso do Sul, que se localiza na fronteira com a Bolvia. O primeiro contato

    em territrio boliviano ocorre no distrito de Arroyo Concepcin, provncia de Germn Busch,

    depois se adentra a Puerto Quijarro, Puerto Aguirre e chega-se a Puerto Surez, em torno de

    20 km de Corumb.

    Considerando o escasso nmero de estudos lingusticos que envolvam essa regio,

    levantamos algumas indagaes como: Quais os aspectos do contato lingustico entre o

    espanhol e portugus, em Corumb-MS? H interesse dos estudantes corumbaenses em

    aprender a lngua espanhola? Ser que a proximidade geogrfica com um pas hispanofalante

    pode influenciar nessa escolha?

    Nessa problemtica, no presente trabalho buscamos analisar a interao lingustica

    oriunda do contato dessas lnguas no contexto escolar corumbaense, com a perspectiva de

    observar possveis influncias ou interferncias de uma lngua sobre a outra no contexto dos

    estudantes de Ensino Mdio de escolas pblicas e particulares da regio.

    As discusses para a descrio e a definio do fenmeno do contato lingustico

    apresentado nesta pesquisa apresentam algumas contradies devido indefinio terica,

    existente entre os autores consultados, visto que, ainda no h uma teoria geral do contato em

    que a maioria dos especialistas possam se embasar para explicar tal fenmeno.

    Esta dissertao est amparada no mtodo de pesquisa da sociolingustica, tendo em

    vista que, os estudos sociolingusticos no Brasil apresentam resultados cada vez mais

    significativos em diversos aspectos que envolvam a lngua

    Para respaldar nossas perquisies cientficas, ordenamos nossa investigao de

    acordo com alguns pontos bsicos importantes na pesquisa de campo, preconizados pelos

  • 11

    pressupostos terico-metodolgico da sociolingustica e modelo de anlise proposto por

    Fernando Tarallo (1986), que perpassa os seguintes passos: 1 Definio de terminologia; 2

    definio de objetivos, classificao; 3 delinear rea de observao. 4 escolha criteriosa de

    pblico alvo; 5 elaborao de testes adequados com mdulos ou questionrios; 6

    equipamento de gravao apropriado; 7 planejamento preliminar do estudo. Estes passos

    servem como base no procedimento para coletar dados lingusticos adequados ao foco de

    nossa pesquisa.

    Este trabalho apresenta aspectos relacionais entre brasileiros e bolivianos do ponto de

    vista dos estudantes brasileiros e descendentes de bolivianos, que suscitam debates mais

    amplos no contexto educacional e sociopoltico. Tendo em vista que representa um estudo

    para vrias outras investigaes que no se encerram neste enfoque. Abrimos um leque de

    possibilidades, para que possamos olhar a fronteira por meio do contexto sociocultural e

    lingustico.

    Esta parte da fronteira apresenta singularidades que nos leva a querer entender o

    porqu de condutas e interaes lingusticas diferenciadas no contato de seus habitantes. Cabe

    elucidar que devido a nossa localizao geogrfica, que nos coloca em contato dirio com a

    cultura boliviana (apesar de no vivermos exatamente entre cidades gmeas), visto que

    estamos a 5 km de distncia do limite demarcatrio oficial da linha de fronteira, tal

    proximidade nos tornam sujeitos fronteirios, mesmo que no haja essa identificao entre os

    habitantes deste espao fronteirio como mostra o resultado deste trabalho.

  • 12

    INTRODUO

    Considerando que, o Brasil apresenta uma extenso territorial de 3.423 km de

    fronteiras com a Bolvia, a pesquisa centrou-se entre os municpios de Corumb/MS, Brasil e

    Puerto Surez na Bolvia. Vale ressaltar que citamos Puerto Surez como forma de referncia

    e localizao geogrfica dessa regio, visto que a cidade identificada no mapa, mas o foco

    desta investigao no a envolve diretamente.

    O procedimento terico e metodolgico desta pesquisa est amparado na

    sociolingustica, tendo em vista que uma das dimenses da sociolingustica o estudo das

    lnguas em contato e seu grau de adstrato. Alm de ser uma cincia que estuda a lngua numa

    perspectiva social e sua transformao em funo dos aspectos scio-histricos. Cabe aclarar

    que, para esta cincia da linguagem, a lngua existe enquanto interao social e pode

    transformar-se de acordo com o contexto scio-histrico de seus falantes. Assim, a descrio

    da diversidade no contexto sociocultural e lingustico da regio estudada importante para a

    compreenso do comportamento lingustico tomado por estudantes brasileiros em contato

    com bolivianos e descendentes no contexto escolar desta fronteira.

    O estudo aborda tambm consideraes sobre a aplicabilidade da Lei Federal

    11.161/2005, que dispe sobre o ensino da lngua espanhola. Nesse sentido, discutimos as

    dificuldades que as escolas enfrentam para a adaptao a essa Lei nesse novo contexto do

    ensino das lnguas estrangeiras.

    Conforme o resultado desta pesquisa constatamos indcios de preconceito e

    discriminao em relao a alunos descendentes de bolivianos que estudam nas escolas

    envolvidas, por essa razo, decidimos ampliar nossas discusses nesse aspecto, visto que h

    grandes assimetrias econmicas entre o Brasil e Bolvia (tal afirmao ser contextualizada e

    embasada no captulo I), por essa razo procuramos apresentar neste estudo algumas questes

    sobre essa relao de preconceito a bolivianos, e a que se deve o aparente distanciamento

    aos costumes e tradies da Bolvia.

    Sobre o ensino da lngua estrangeira com a incluso do espanhol na grade curricular

    das escolas, e sua relevncia principalmente em regies fronteirias, buscamos dados para

    entender e questionar porque necessria uma lei federal para atender realidade lingustica

    de uma regio de fronteira? A vizinhana espacial com um pas hispanofalante j no um

    fator de relevncia para que o ensino desse idioma seja implementado nas escolas do

  • 13

    municpio? Levantar essas dissonncias que o poder pblico apresenta em relao ao ensino

    de lnguas estrangeiras, so questionamentos latentes nesta investigao.

    No que se refere interpretao dos dados coletados, procuramos analisar o tipo de

    interao lingustica existente na relao diria entre estudantes brasileiros e bolivianos e

    detectar se esses contatos so motivados pelas caractersticas geogrficas, econmicas ou

    sociais. Nesse sentido, adotamos no presente trabalho a seguinte organizao:

    No primeiro captulo, resumimos o contexto geral do ambiente de estudo. Nesse ponto

    fizemos algumas consideraes sobre o Estado, a Nao e o Nacionalismo, tendo em vista que

    nos aportam para o entendimento da organizao social e poltica que temos hoje. Assim,

    abordamos o recorte poltico ideolgico temporal feito por Hobsbauwm (1989) sobre a

    construo da idia de nao, citando contextos histricos de embate entre o marxismo e o

    positivismo, visto que apresentam complexidades conceituais e histricas sobre o que de

    grande valia para uma compreenso mais ampla sobre a sociedade que temos hoje.

    Concernente a essa temtica, abordamos outras consideraes sobre polticas territoriais

    embasados em Magnoli (1997) que em O corpo da Ptria, nos apresenta a geo-histria

    brasileira e a origem das fronteiras nacionais

    No segundo captulo, mostramos a teoria que embasa nossa pesquisa contextualizando

    o objeto de estudo da sociolingustica que grosso modo, refere-se diversidade da lngua e

    sua relao com a sociedade. Abordou-se a concepo de linguagem e as lnguas em contato

    na fronteira luz da teoria de alguns autores da rea como Fernando Tarallo1, William Labov

    2

    que props o modelo de estudo da sociolingustica Varacionista ou teoria da variao, Jean

    Calvet3, que aborda os emprstimos e as interferncias lingusticas o conceito de Ferdinand

    Saussure4 sobre lngua e fala. Os estudos de Jorge Espiga e Elizaincn que discutem o contato

    do espanhol e do portugus com referncia sobre tipologias lingusticas, entre outros estudos

    como, por exemplo,os da professora Eliana Sturza, da Universidade Federal do Rio Grande do

    Sul, que possui uma ampla anlise das prticas de lnguas de fronteiras contribuindo nos

    1 Doutor em sociolingustica pela Universidade da Pensilvnia sua obra tem como estudo central a metodologia

    da pesquisa em sociolingustica. 2Considerado pai da sociolingustica variacionista. Fixou ,em 1964, um modelo de descrio e interpretao do

    fenmeno lingustico no contexto social e relaciona fatores como idade sexo, ocupao, origem tnica e atitude

    ao comportamento lingustico. Destacamos Labov, pela importncia dos mtodos empregados. 3 Doutor em Lingustica, Letras e Cincias Humanas pela Universidade de Paris. Enfocam-se neste trabalho seus

    estudos sobre as polticas lingusticas. 4 Linguista suo. (1857 1913). Lecionou Lingustica Geral na Universidade de Paris e de Genebra. Seus

    conceitos foram publicados aps a sua norte por dois de seus alunos (Bally e Sechehaye) a obra Curso de

    Lingstica Geral.

  • 14

    aportes tericos desta investigao. Foram levantadas questes sobre o aspecto das relaes

    interculturais direcionando as discusses ao preconceito e discriminao.

    Os procedimentos metodolgicos seguem modelo da sociolingustica que tem teoria e

    um mtodo prprio de pesquisa no processo de investigao cientfica. A rea de observao

    foi definida pelo contexto escolar e foram escolhidos como participantes da pesquisa,

    estudantes de 1 2 e 3 ano do Ensino Mdio. Para os instrumentos de coleta de dados e

    amostra probabilstica foram utilizados questionrios semi-estruturados e roteiro de

    entrevistas, o mtodo para coleta de entrevistas foi elaborado com enfoque nas lnguas em

    contato.

    Cabe elucidar, que esta pesquisa por ser de natureza qualitativa, alguns tpicos do

    mtodo de entrevista na coleta de questionrios foram adaptados, alm de coletar quantitativo

    de possveis variveis fonolgicas ou morfossintticas, o objetivo especfico desta pesquisa

    foi destacar o nvel de interao lingustica entre estudantes brasileiros e bolivianos que

    convivem na escola. O mtodo aplicado buscou compreender os padres encontrados nessa

    interao entre lngua, cultura e sociedade, na perspectiva de que no se pode conceber uma

    lngua que no seja social. Assim, as amostras foram estratificadas de acordo com as

    caractersticas sociais dos falantes da lngua portuguesa e das escolas em que estudam. Por

    essa razo foram selecionadas ,em Corumb, duas privadas e duas pblicas sendo elas: Escola

    Estadual Dr. Joo Leite de Barros; Escola Octaclio Faustino da Silva, Escola Tenir e Escola

    SESI. Nestas escolas tivemos boa comunicao e recepo tanto da parte da direo quanto da

    coordenao.

    O captulo trs envolve discusses sobre os aspectos das relaes interculturais

    encontrados na pesquisa e que reflete uma relao delicada envolvendo preconceito e

    discriminao no contexto da sala de aula e fora dela. Neste ponto mostramos que, uma

    parcela considervel de adolelescentes descendentes de bolivianos no aceitam suas origens,

    devido ao tratamanto estigmatizado que recebem no lado brasileiro. Citamos entrevista feita

    com o presidente do Centro Boliviano de Corumb, em 2010, orgo que procura desenvolver

    a integrao de bolivianos que vivem no lado brasileiro da fronteira. Conforme o

    representante desse orgo, n a relao intercultural dos habitantes dessa fronteira h

    dificuldade de auto-afirmao cultural e lingustica do boliviano, tendo em vista o tratamento

    diferenciado.

    No capitulo quatro discutimos polticas lingusticas sob a tica de Calvet (2007) que

    nos mostra que as lnguas existem para servir aos homens e no o inverso, e que ao Estado

    atribuda a funo das escolhas sobre as polticas de planejamento lingustico. Nesse sentido

  • 15

    enfocamos o Estado de Mato Grosso do Sul e seu contexto no Mercosul. Destarte, abordamos

    tambm a questo da aplicabilidade da Lei Federal 11.161/2005.

    No quinto e ltimo captulo, apresentamos o resultado da analise de dados que foram

    mensuradas nesta pesquisa que est intitulada como, Imagem, preconceito e integrao dos

    estudantes brasileiros na fronteira Brasil-Bolvia. Assim, os registros foram categorizados em

    dois grandes tpicos:

    I Registro - Lngua espanhola neste tpico foi enfocado sua importncia, uso, opo

    de lngua estrangeira e grau de interao (grifo nosso):

    Mais de 96% dos alunos de ambos os sexos consideram de grande importncia

    aprender a lngua espanhola motivados primeiramente pela possibilidade de ascenso no

    mercado de trabalho seguido pela possibilidade de comunicao com o pas vizinho. Mas se

    tivessem que optar por apenas um idioma observamos que nas escolas particulares h maior

    interesse pela lngua inglesa e nas escolas pblicas demonstrou-se maior interesse pela lngua

    espanhola. Constatamos que a insero da lngua espanhola na fala dos estudantes partcipes

    desta pesquisa muito reduzida, eles no costumam praticar o idioma e tambm no se

    esforam muito em tentar falar em espanhol, a no ser no contexto comercial, os estudantes

    entrevistados demonstraram saber apenas frases soltas.

    De uma forma geral, h no uso da lngua a tendncia entre os estudantes de utilizar o

    idioma apenas como instrumento de favorecimento pessoal, ou seja, no h neste contato o

    interesse interacional, esse fato explica-se pelos estudantes demonstrarem maior preocupao

    em conseguir descontos nas compras entre os atendentes do comercio boliviano.

    Fato que podemos confirmar nas respostas obtidas, quanto ao uso e opo de uma

    lngua outra. Tendo em vista que, alguns estudantes manifestaram existir o portunhol nesta

    fronteira, queremos aclarar que para afirmarmos categoricamente que existe um portunhol

    nesta fronteira seria necessrio um nmero maior de informantes de vrios outros segmentos

    sociais. Ns nos detivemos na amostragem do contexto escolar para definir o grau desse

    contato. Por essa razo refutamos tal informao que demandaria dados mais abrangentes e

    uma quantidade maior de informantes. Mas levantamos a possibilidade de que haja o uso da

    lngua comercial. Que pode ser um fenmeno lingustico proveniente do grande fluxo

    comercial existente nesta localidade.

    II Registro - Bolvia - impresses, preconceito e integrao, como vista pelos

    estudantes, qual a imagem que eles tm do pas vizinho.(grifo nosso)

    Alicerados em (Bourdieu, 2009) inferimos que a integrao social de uma

    comunidade plural no se concretizar se no houver reconhecimento e a aceitao das

  • 16

    diferenas. Percebemos nesta fronteira, que a integrao social ocorre de forma parcial, a

    convivncia amistosa, existe grande contatocomercial com interesse de ambos os lados da

    fronteira, porm, h certo distanciamento carregado de preconceitos quanto s diferenas

    culturais e econmicas apresentadas pelos bolivianos. A materializao de valores na

    formao social preconizada por Fiorin (2007) em relao ao enunciador, no est livre das

    coeres sociais e se reproduz no discurso do falante em forma de uma ou vrias ideologias

    assimiladas em suas relaes sociais. Nessa formao social a formao discursiva dominante

    a da classe dominante. Tendo em vista que, o homem produto de relaes sociais, por essa

    razo, reage, pensa e fala como os membros de seu grupo social.

    Consoante a essa concepo inferimos que, o discurso apresentado pelos estudantes no

    que concerne aos bolivianos em relao a preconceito e discriminao aparece no discurso

    transmitido pelos estudantes um esteretipo negativo e cheio de averses e hostilidades em

    relao ao boliviano, essa a reproduo do que j est posto social e culturalmente, mas que

    no admitido claramente pela sociedade. Esse contexto se confirma nas respostas dadas

    pelos estudantes referentes imagem e conhecimento que eles tm do pas e do cidado

    boliviano.

    Diante de todo o exposto nesta investigao, abrimos um parntese para aferirmos que,

    no contato dirio de brasileiros e bolivianos percebemos duas tipologias fronteirias

    predominantes: primeiro a de uma fronteira vibrante, visto que o contato comercial intenso e

    h dinmica de interaes econmicas com interesses de ambos os lados, porm, h tambm

    a fronteira distante, no que se refere ao contato sociocultural, visto que no h uma forte

    assimilao das tradies e dos costumes bolivianos entre os brasileiros apesar de existir

    algumas manifestaes religiosas que integram seus habitantes, no predominante.

    Acreditamos que este trabalho iniciador de uma discusso delicada, visto que,

    pesquisar um contexto lingustico fronteirio carregado de preconceitos e discriminao,

    sempre gera polmica, mas no podemos fechar os olhos para a realidade posta em nossa

    pesquisa, atravs do olhar dos estudantes.

  • 17

    1. O CONTEXTO DO AMBIENTE DE ESTUDO

    Para entender a origem das fronteiras cabe trazer algumas consideraes apontadas

    pela histria, tendo em vista que, apresentam um paradoxo do objetivismo moderno e a

    subjetividade do passado sobre o Estado, a Nao e o Nacionalismo, que mesmo com todas as

    divergncias so estudos que nos aportam para o entendimento da organizao social e

    poltica que temos hoje.

    Hobsbauwm (1989) faz um recorte poltico ideolgico temporal sobre a construo da

    idia de nao, citando contextos histricos de embate entre o marxismo e o positivismo e

    apresenta grandes complexidades sobre o tema que de suma importncia a sua compreenso

    para a sociedade, neste sentido ressalta que o termo nao no ultrapassa o sculo XVIII.

    Apesar da multiplicao de aportes tericos sobre nacionalismo no se observou segundo o

    autor, muitos avanos nos anos posteriores, mas enftico ao colocar que os movimentos

    nacionalistas foram maiores nos perodos de 1968 a 1988.

    O problema na hora de diferenciar uma nao de outras entidades deve-se a estudos

    que eram centrados apenas no conceito de nao no contemplando a real existncia de

    nacionalidade com explicaes concretas sobre porque alguns grupos tornaram-se naes e

    outros no:

    A alternativa para uma definio objetiva de nao uma definio

    subjetiva, seja ela coletiva (seguindo a frase de Renan: uma nao um

    plebiscito dirio), seja individual, moda austro-marxista de se considerar a

    nacionalidade como passvel de aderir s pessoas, onde elas vivessem ou

    com quem vivessem, sobretudo se estas decidissem exigi-la. Ambas so

    tentativas evidentes de se escapar da compulso do objetivismo a priori,

    adaptando, de forma diferente em ambos os casos, a definio de nao

    territrio nos quais pessoas com diferentes lnguas ou outros critrios

    objetivos coexistem [...] (HOBSBAUWM,2002, p. 16-17 grifo do autor)

    Temos duas vertentes que norteiam a conceituao de nao: o conceito

    revolucionrio-democrtico centralizada na cidadania e soberania do povo, e temos o

    nacionalista que apresenta a equao, estado nao e povo. Conforme o que foi

    contextualizado, o autor evidencia que, no podemos usar como critrio de definio para

    Estados-Naes, a lngua, a etnicidade e a religio, visto que no podem ser dissociados,

    porque envolvem questes territoriais. Na verdade o que tem que existir, a

    representatividade no interesse do bem coletivo, interesses do povo contra interesses

    individuais. O autor cita como exemplo as Guerras Napolenicas que no possua nenhum

  • 18

    desses critrios em sua constituio, apesar de na prtica alguns desses critrios terem sido

    utilizados em contextos que envolviam a segurana nacional.

    Nesse sentido, no se pode considerar a nao como uma entidade de origem social ou

    imutvel, a no ser quando relacionada ao estado territorial moderno, o nacionalismo surge

    antes do conceito de nao. As naes no formam os estados e os nacionalismos, mas sim o

    oposto, (HOBSBAUWM, 2002, p 19) Por essa razo, as naes devem ser analisadas de

    baixo para cima, e, de acordo com as questes polticas, econmicas e administrativas,

    adequadas aos interesses do povo e no somente do governo. Na mesma linha de anlise

    Anderson (1989), discorre sobre a idia de nacionalismo a partir da crise do socialismo,

    afirmando que os marxistas no apresentaram nenhuma teoria consistente sobre o tema.

    Abordando esta temtica enfocaremos algumas consideraes sobre polticas

    territoriais discutidas por Magnoli (1997, p. 272) no texto que apresenta a geo-histria

    brasileira e a origem das fronteiras nacionais:

    Como regra, os estudos sobre as estratgias de integrao territorial no Brasil

    atribuem centralizao poltica oriunda da Revoluo de 1930 o papel de

    impulso inicial. A chamada Repblica Velha identificada,

    descuidadamente, ao predomnio do regionalismo oligrquico e a perda de

    capacidade do Estado em conduzir empreendimentos de envergadura maior,

    excetuando-se as operaes financeiras de salvao da lavoura cafeeira e,

    claro, a represso ao movimento operrio nascente.

    A poltica territorial de fronteira no Brasil, segundo Magnoli, est marcada por

    dificuldades na elaborao de polticas pblicas direcionadas para cada espao fronteirio

    devido a interesses governamentais diferenciados. Visto que, cada rea apresenta uma

    regulao de estado especfica com redes de intercmbio diversificado. A linha de fronteira

    surge em meio a divergncias e sucessivos tratados com episdios de conflitos militares.

    Cabe lembrar que, em relao s demarcaes fronteirias a constituio brasileira de

    1988 estabelece: Faixa de fronteira, para municpios que esto a 150 quilmetros da linha

    demarcatria oficial, Linha de fronteira, para municpios que ficam a poucos metros da

    demarcao; e Cidades-gmeas para municpios fronteirios que se desenvolveram no limites

    de pases vizinhos (PEREIRA, 2009).

    interessante ressaltar conforme Magnoli (1977, p 242. ) que foi no perodo do

    Imprio, que mais da metade do territrio atual brasileiro foi delimitado, 32% durante a

    Primeira Repblica e somente 17% no perodo colonial.

    As literaturas sobre limites e fronteiras internacionais apresentam vrias classificaes

    e tipologias que foram evoluindo desde a poca das disputas territoriais entre Espanha e

  • 19

    Portugal na Amrica. Esse domnio territorial do Novo Mundo alterou toda a geografia

    mundial conhecida at ento, pelo homem.(grifo nosso)

    Quando se fala de fronteira convm entender as diferenas conceituais entre espao e

    territrio. Para Raffestin (1993), o territrio se forma a partir do espao, com o tempo, depois

    do processo de apropriao espacial ocorre a territorializao desse espao, nessa perspectiva

    o autor afirma que o espao representa a priso original e o territrio a priso que os

    homens constroem para si. O territrio apia-se no espao para tornar-se um local de

    representaes e relaes de produo e poder.

    Na questo da territorialidade Raffestin apresenta uma definio Lato sensu, no que

    concerne s problemticas relacionais, relacionando o termo a um sistema tridimensional

    sociedade-espao-tempo, estas se apresentam carregadas de relaes de poder. Segundo o

    mesmo autor, desde o surgimento do homem, as noes de limites e de fronteiras evoluram,

    mas no desapareceram. Estes significados so conceituados segundo suas funes, a mais

    utilizada e considerada essencial a funo legal, por no ter uma conotao negativa, este

    conceito delimita fronteira como rea no interior da qual prevalece um conjunto de

    instituies jurdicas e normas que regulamentam a existncia e as atividades de uma

    sociedade poltica. (grifo nosso)

    Nessa perspectiva tem-se tambm a funo de controle, que tem por obrigao

    inspecionar a circulao dos homens e controlar informaes de uma forma geral. Quanto

    funo fiscal representou um instrumento de protecionismo poltico e econmico.

    Considerando-se essas trs funes, pode-se construir um sistema hierrquico de fronteiras

    que d conta das relaes de poder que se instauram ou que podem se instaurar entre os atores

    polticos por intermdio das fronteiras.

    Aps estas consideraes, pode-se aferir que a ocupao do espao resulta no

    territrio, e, as relaes existentes nesse, originam a territorialidade. Nesse contexto, cabe

    elucidar que, conforme Raffestin (1993, p. 165), o territrio apresenta demarcaes

    denominadas de limites: Toda propriedade ou apropriao marcada por limites visveis ou

    no, assinalados no prprio territrio ou numa representao do territrio: plano cadastral ou

    carta topogrfica. Nesse processo temos inculcado a interface da fronteira que representa o

    subconjunto do conjunto limite e como tal pode ser um instrumento de manipulao

    ideolgica. As demarcaes fronteirias, segundo o autor podem ter a funo legal, fiscal e de

    controle.

    Segundo Ribeiro (2002) semanticamente, o termo fronteira apresenta ambiguidade na

    conceituao, numa primeira acepo pode nos remeter a uma conotao militar, visto que

  • 20

    deriva do termo fronte que em tempos antanho significava ordem de batalha, mas podemos

    design-la tambm como zona de contato entre territrios distintos. Convm citar que a

    concepo do termo limite enquanto separao entre naes soberanas uma designao mais

    moderna (grifo do autor).

    Numa outra interpretao, Oliveira (2008), interroga sobre o papel das fronteiras no

    espao latino-americano tentando desmistificar o mito do fim das fronteiras (grifo do autor).

    Segundo o autor, o territrio apresenta uma ordem global e outra local sendo que, a primeira

    segue a cartilha dos organismos internacionais que ditam a intensidade dos fluxos no planeta

    desconsiderando os interesses locais numa perspectiva homogeneizante sobre o territrio. A

    segunda postula que o territrio na perspectiva da ordem local, se organiza atravs da atuao

    dos atores locais e permitem formas variveis dos fluxos fixando dessemelhanas e

    identidades ao territrio.

    Essas formas globais e locais na organizao do territrio quando sobrepostas

    amarram redes complexas de intercmbios nas relaes de interatividade econmicas. Devido

    s relaes de interao cada vez mais fecunda, subvertem-se as formas de controle nos

    espaos fronteirios indo de encontro tentativa de uniformizao do territrio preconizada

    pela ordem global. A condio de fronteira impe mobilidade aos indivduos de qualquer

    classe social, com diferentes graus de intensidades [...] (OLIVEIRA, 2009, p. 4).

    O nosso campo de pesquisa localiza-se na fronteira Brasil/Bolvia, esta regio

    apresenta uma extenso territorial de 3.423 quilmetros aproximadamente e engloba quatro

    estados brasileiros em sua faixa de fronteira, so eles o Estado do Mato Grosso do Sul, do

    Mato Grosso, do Acre e de Rondnia.

    Observando o mapa conforme figura 1, temos a demarcao das zonas e faixas de

    fronteiras do Brasil. A seta em destaque indica a localizao da rea pesquisada nesta

    investigao:

  • 21

    Figura 1 Localizao de zona e faixa fronteiria

    Disponvel em: http://www.igeo.ufrj.br/fronteiras/mapas/map007.htm. Capturada em:09/04/2010

    Numa perspectiva da cincia geogrfica Oliveira (2009) postula que, a regio em

    estudo, localizada no mapa da figura 1, tipificada por fronteira vibrante e caracteriza-se pela

    convivncia mais dinmica e viva devido relativa importncia demogrfica e complexa

    estrutura social, em que h confrontao e cooperao dos organismos polticos e

    econmicos, mas que at a dcada de 70 era uma fronteira protocolar, ou seja, um territrio

    tomado por aes de Estado ou empresariais distncia prevalecendo relaes burocrticas e

    militares no combate ao narcotrfico e ao contrabando sem considerar aes de cooperao e

    integrao para o territrio. Entretanto, elucida que essa classificao dada a esses tipos de

  • 22

    relaes fronteirias instvel e mutvel e depende do contexto geogrfico e poltico de cada

    fronteira internacional.

    A classificao de tipologia de relaes fronteirias dada por Oliveira (2009),

    denominadas de fronteiras distantes, protocolares, crespas e vibrantes nos permite observar as

    caractersticas relacionais existentes entre pases fronteirios, e se estes apresentam baixa ou

    alta integrao, formal ou funcional.

    Localizado na fronteira do Brasil com a Bolvia o municpio de Corumb foi fundado

    em 21 de setembro de 1778 na tentativa dos portugueses de impedir o avano dos espanhis

    pela fronteira brasileira, estes que tambm estavam em busca das riquezas que essa regio

    possua na poca.

    Conforme Esselin (2000), a posse dessa regio s margens do rio Paraguai dava aos

    portugueses a possibilidade de defesa aos ataques dos inimigos. Cabe ressaltar que a cidade

    tambm foi porta de entrada de grandes capitais estrangeiros em razo da localizao

    geogrfica. Ainda, segundo o autor, convm elucidar que a consolidao da fora lusa nessa

    regio ocorreu no governo de Luiz de Albuquerque com a construo do forte Prncipe da

    Beira no Guapor, e forte Coimbra, garantindo acesso ao litoral. Na atualidade Corumb

    reconhecido como a capital do pantanal sul-mato-grossense, pois a porta de entrada do

    bioma mais importante em rea midas da America do Sul e seus fluxos tursticos

    impulsionam o desenvolvimento econmico da regio. O municpio tambm ponto de

    parada da ligao ferroviria entre o Brasil e a Bolvia

    No perodo da guerra do Paraguai essa regio foi destruda pelas tropas de Solano

    Lopez, em 1865. Com o fim da guerra e a retomada de Corumb em 1867, voltou a ser

    reconstruda iniciando um processo de desenvolvimento que levou o municpio a ser o

    terceiro maior porto da Amrica Latina, conforme figura 2, situao mantida at 1930.

  • 23

    Figura 2 Vista panormica do Porto Geral no sculo XX

    Fonte:Disponvel em: http://www.corumba.com.br/ capturada em: 05/04/2010

    Atualmente essa localidade apresenta um grande fluxo de turistas. Ao atravessarmos

    essa fronteira, o primeiro contato em territrio boliviano se d em Arroyo Concepcin5, o

    local mais visitado devido ferinha de roupas. Depois passa-se por Puerto Quijarro para

    depois de alguns quilmetros chegar-se a Puerto Surez, ou seja, o contato com esta regio

    no direta dentro da provncia de Germn Busch, mas por questo de identificao

    geogrfica citada, pois a nica cidade que aparece no mapa na fronteira com Corumb.

    fcil o acesso a esse local, visto que, h nibus de transporte coletivo que vai at a fronteira de

    hora em hora facilitando o intercmbio entre brasileiros e bolivianos.

    Observamos que intenso o contato comercial entre brasileiros e bolivianos, mas vale

    destacar, conforme mostramos nesta pesquisa, amparados no parecer dos estudantes, o fator

    preponderante que aproximam os brasileiros dos bolivianos o interesse comercial, e a

    feirinha central esse grande atrativo dos interesses de turistas de todo o Brasil nessa

    localidade.

    5 Localizada na provncia de Germn Bush, Arroyo representa o centro comercial do vesturio nesta regio e

    recebe turistas e sacoleiros de todo o Brasil.

    http://www.corumba.com.br/

  • 24

    2. FUNDAMENTAO TERICA E PROCEDIMENTOS METODOLGICOS

    O embasamento terico e metodolgico desta investigao est amparado na pesquisa

    sociolingstica interacionista e variacionista. Na perspectiva interacionista porque preconiza

    anlises em nvel micro e macro de prticas interacionais, em diferentes contextos como

    empresas, famlia, escola e ainda abrange o estudo da relao enunciado/enunciao em

    diferentes prticas discursivas sejam orais ou escritas. J na perspectiva variacionista nos

    permite descrever e analisar a heterogeneidade lingustica de forma ordenada, visto que

    estuda a lngua em uso, de dada comunidade lingustica e preconiza que as presses sociais

    operam continuamente sobre a lngua acarretando na variao.

    Em linhas gerais, entre os componentes deste estudo, sero considerados teorias

    fundamentais pesquisa referentes ao conceito de fronteira, tendo em vista o trabalho em

    estudos fronteirios, apresentamos contribuies de Raffestin (1993), que conceitua limite e

    fronteira enfocando os diferentes significados que a linha de fronteira adquire relacionada

    com suas funes polticas. Este ponto j foi contextualizado anteriormente.

    A fundamentao em pressupostos tericos da Sociolingustica, para esta investigao

    relevante, visto que descrever fenmenos lingusticos luz da teoria de autores da rea,

    como Fernando Tarallo, Jos Pedro Rona, pioneiro em designar a prtica lingstica na

    fronteira Brasil /Uruguai em sua obra Dialecto fronterizo en el Norte de Uruguay (1965),

    William Labov e Jean Calvet, que aborda os emprstimos e as interferncias lingusticas

    resultantes da introduo de elementos estrangeiros.

    Para os enfoques de lnguas em contato, contribuiram nesta contextualizao, os

    estudos de Jorge Espiga e Elizaincn que discutem o contato do espanhol e do portugus nas

    fronteiras polticas, culturais e lingusticas, e os estudos de Eliana Sturza, que, como j foi

    citado, possui uma ampla anlise das prticas de lnguas de fronteiras e polticas lingusticas,

    a partir de estudos realizados na fronteira com o Uruguai e discute em sua tese de Doutorado

    sobre o cruzamento de lnguas nas zonas de fronteiras concluindo que nesses espaos de

    enunciao no h somente uma lngua nacional, uma lngua materna ou uma segunda lngua,

    porque nesse contato de vizinhana espacial todas podem ser denominadas lnguas de

    fronteiras.

    Os estudos sociolingusticos no Brasil apresentam resultados cada vez mais

    significativos em diversos aspectos que envolvem a lngua. Esse termo consolidou-se em

    1964, com Willian Labov que props o modelo de estudo da sociolingustica Varacionista ou

  • 25

    teoria da variao. Esta proposta teve um papel fundamental na investigao das diversidades

    lingusticas, pois leva em considerao, varivel social e contextual para explicar o

    comportamento lingustico de grupos sociais distintos.

    Um dos primeiros pesquisadores a tentar classificar o contedo e alcance da

    sociolingustica foi Bright apud (FONSECA, 1974), conforme o autor essa teoria leva em

    considerao o fator diversidade:

    A tarefa da sociolingustica , portanto, demonstrar a covariao sistemtica

    das variaes lingustica e social, e, talvez, at mesmo demonstrar uma

    relao causal em uma ou outra direo [...]. No entanto, apesar de

    derivarem muito de sua abordagem da lingustica estrutural, os

    sociolingustas rompem incisivamente com uma tendncia lingustica: a de

    tratar as lnguas como sendo completamente uniformes homogneas ou

    monolticas em sua estrutura; sob este ponto de vista, que vem sendo

    reconhecido atualmente como, pernicioso, as diferenas encontradas nos

    hbitos da fala de uma comunidade eram encobertas como variao livre.

    Uma das maiores tarefas da sociolingustica demonstrar que na verdade tal

    variao ou diversidade no livre, mas correlacionada a diferenas sociais

    sistemticas. Neste aspecto e em outros ainda mais latos, precisamente a

    DIVERSIDADE lingustica o objeto de estudo da sociolingustica. (p.17-18)

    As dimenses apresentadas por Bright conforme Fonseca de grande importncia

    terica para a discusso das mudanas lingusticas. Nessa mesma linha Monteiro afirma que

    apesar das imprecises conceituais, os fenmenos lingusticos analisados sob diferentes

    perspectivas, passaram a ser classificados como sociolingusticos com rea de macro e micro

    compreenso. A rea macro desse estudo analisa as relaes entre lngua e sociedade como

    um todo, constituindo uma rea sociolgica e poltica, discute multilinguismo e polticas

    lingusticas que um governo pode adotar. A rea micro analisa as estruturas lingusticas no

    que tange teoria da variao e seus efeitos condicionados a fatores sociais. (MONTEIRO,

    2002). Porm, pela extenso dos conceitos atribudos sociolingustica no foi possvel uma

    delimitao precisa do que deve ou no fazer parte dos estudos sociolingusticos.

    O trabalho de Labov sobre os estudos da linguagem apesar de sofrer crticas sobre seu

    conceito de social na perspectiva da sociolinguistica interacionista amplamente

    reconhecida.(grifo nosso)

    Numa outra concepo, sobre a lngua funcionar como um elemento de interao entre

    o individuo e sociedade nos diz Preti (1982, p.2) :

    Nas grandes civilizaes, a lngua o suporte de uma dinmica social, que

    compreende, no s as relaes dirias entre os membros da comunidade,

    como tambm uma atividade intelectual, que vai desde o fluxo informativo

    dos meios de comunicao de massa, at a vida cultural, cientifica ou

    literria.

  • 26

    Grosso modo, pode-se afirmar que uma das tarefas da sociolingustica descrever as

    lnguas em sua diversidade funcional e social atravs do registro de dados. Essa opo de

    pesquisa prope a anlise de grupos de indivduos observando-se os aspectos sociais que

    interferem na fala. Nesse sentido, Preti (1982, p.2) nos afirma que o vernculo propriedade

    de um grupo, no de um individuo sozinho., desta forma o investigador deve se preocupar

    em descrever uma variedade lingustica sem esquecer de considerar, onde e como se

    delimitam as fronteiras dessa variedade ou mudana na lngua.

    Nesse contexto, Hora (2003, p. 72-73) afirma que nas ltimas dcadas os estudos sobre

    os aspectos sociolingusticos cresceram gradativamente:

    A dcada de 60 presenciou o aparecimento da primeira proposta concreta

    para tratar a questo da variao e mudana na lngua, com o trabalho de

    Weinreich, Labov e Herzog (1968). Ao apresentar e discutir a proposta, os

    autores levantaram algumas questes, parcialmente ordenadas, que uma

    teoria de base emprica deveria dar conta. Tais questes dizem respeito s

    restries, transio, ao emprstimo e a avaliao. Respondendo a essas questes, uma quinta e bsica surge, formulada como uma pergunta:

    que fatores so considerados na implementao de uma mudana? Por que as

    mudanas em um trao estrutural ocorrem em uma lngua especfica em um

    determinado tempo, mas no em outras lnguas com o mesmo trao, ou na

    mesma lngua em outros tempos?

    Como se v, os estudos sociolingusticos so abrangentes e surgiu para contrapor-se

    concepo homogeneizante da lngua, tentando provar a premissa de que a variao

    essencial prpria natureza da linguagem humana, assim, seria a ausncia de variao no

    sistema que necessitaria ser explicitado.

    Os modelos tericos que no consideram a variao ou mudana lingustica entendem

    que ela apenas um acidente e no uma caracterstica das lnguas em constante evoluo.

    Essa concepo foi a base de muitas divergncias entre muitos pesquisadores como o

    mecanicismo de Bloomfield, o gerativismo de Chomsky entre outros. (Monteiro, 2002).

    Convm detalhar, conceitos sobre variveis e variantes lingusticas, pois abrangem

    alguns aspectos desta investigao. Segundo Labov, varivel lingustica se constitui quando

    se transmite um contedo informativo de duas ou mais formas distintas. J as formas

    alternantes, que expressam a mesma coisa num mesmo contexto, so denominadas de

    variantes lingusticas. Segundo o autor somente pode ser atribudo valores sociais s regras

    lingusticas quando existe variao.

    Para os sociolingustas, de uma forma geral, a conceituao de varivel lingustica se

    estabelece quando duas ou mais variantes apresentam o mesmo significado, pressupondo-se

    dizer o mesmo, de modos diferentes, aplicvel sem dificuldades a variveis fonolgicas. Mas

  • 27

    no que tange s variaes morfossintticas apresenta dificuldades, visto que a prpria hiptese

    de uma variao sinttica problemtica.

    Diante desses obstculos, a aplicao do modelo variacionista mesmo com todas as

    divergncias, uma linha de pesquisa importante para a descrio lingustica. Porm, h

    sociolinguistas que no vem grandes dificuldades na sua aplicao.

    Para esta pesquisa amparada nas contribuies de Labov, sobre a estrutura, forma e

    organizao da linguagem, utilizamos o mtodo descrito por Tarallo (1986), pois resume

    todos os procedimentos da pesquisa sociolingustica.

    Considerar esses aportes tericos foi de suma importncia para revelarmos as prticas

    lingusticas existentes nesta fronteira estudada. Descobrir o que este espao discursivo

    apresenta de diferente das fronteiras j estudadas, foi uma constante em nossa anlise. Ser

    que h algum fenmeno lingustico tpico dessa regio a exemplo do dialeto no normatizado

    conhecido como portunhol ou uma possvel interlngua que serve como lngua-ponte baseada

    no vocabulrio comum compartilhada por dois ou mais idiomas? Nessa relao haver

    conflito ou integrao? So questionamentos que fizemos no decorrer de toda a pesquisa,

    somado s questes elencadas nos objetivos, encontramos algumas respostas para estas

    indagaes que sero apresentadas no resultado das anlises de dados.

    Quanto aos procedimentos metodolgicos utilizados nesta investigao, cabe enfatizar

    que a sociolingustica sendo uma cincia social apresenta uma singularidade, visto que tem

    uma teoria e um mtodo prprio de pesquisa no processo de investigao cientfica. Esse

    modelo terico-metodolgico parte do fato lingustico, com acervo de dados para fins de

    confirmao ou rejeio de hipteses sobre a lngua, levantando novas hipteses.

    (TARALLO, 1986).

    Nesta investigao levantamos a hiptese de que haja indcios de pouca interao

    lingustica entre os habitantes desta regio, visto que, inicialmente tivemos essa inteno e a

    partir desse indcio detectar uma possvel influncia ou interferncia de uma lngua sobre a

    outra. Mas o que observamos nesse contato, e o que parece, em que os bolivianos entendem

    e falam um pouco o portugus, e os brasileiros no se esforam para falar o espanhol e

    entendem pouco. Outra inquietao refere-se realidade socioeconmica da Bolvia que

    parece interferir no interesse pela aprendizagem da lngua espanhola e promover um

    sentimento de preconceito no contato com bolivianos (afirmaes ratificadas no ltimo

    captulo).

    Para respaldar nossas perquisies cientificas utilizamos o mtodo de pesquisa de

    campo em sociolingustica, (conforme explicado) e para anlise dos dados coletados

  • 28

    pontuamos as aes e situaes encontradas no lcus escolar. Do ponto de vista dos

    procedimentos tcnicos, ordenamos nossa investigao de acordo a alguns pontos bsicos

    importantes na pesquisa de campo, nesse sentido, o mtodo da sociolingustica perpassa os

    seguintes passos: 1 Definio de terminologia; 2 definio de objetivos, classificao; 3

    delinear rea de observao. 4 escolha criteriosa de pblico alvo; 5 elaborao de testes

    adequados com mdulos ou questionrios; 6 equipamento de gravao apropriado; 7

    planejamento preliminar do estudo. Estes passos servem como base no procedimento para

    coletar dados lingusticos adequados ao foco de nossa pesquisa, que foram delimitadas da

    seguinte forma:

    rea de observao:

    Duas escolas da rede estadual e duas escolas da rede particular;

    Participantes da pesquisa:

    Alunos de 1 2 e 3 ano do Ensino Mdio.

    Instrumentos de coleta de dados e amostra probabilstica:

    Questionrios semi-estruturados e roteiro de entrevistas,

    Mtodo para coleta de entrevistas com narrativas enfocadas nas lnguas em contato:

    Observador-participante favorece um contato mais espontneo entre observador e

    observado

    Encontro com sesso de grupos interao coletiva -ajuda a minimizar a influncia do

    pesquisador sobre os sujeitos da pesquisa, pois permite uma interao coletiva entre os

    interlocutores.

    Organizao dos informantes em grupo socioeconmico: Escola pblica, escola

    particular, sexo e faixa etria (grifo nosso):

    Grupo1 estudantes das escolas pblicas

    Grupo 2 - estudantes das escolas particulares

    Sexo M masculino

    Sexo F feminino

    Faixa etria: 1- 14 a 18 anos

    Faixa etria: 2- 19 a 30 anos

    Legenda utilizada para a identificao do informante (grifo nosso):

    I-1: referindo-se ao informante um (com os demais mudando apenas a numerao)

    M: referncia ao sexo masculino

    F: : referncia ao sexo feminino

    G1: referindo-se a aluno de escola pblica

  • 29

    G2: referindo-se a aluno de escola particular

    FE1: referncia faixa etria de 14 a 18 anos

    FE2: referncia faixa etria de 19 a 30 anos

    Combinaes possveis (grifo nosso):

    I1/M/G1/ informante do sexo masculino de escola pblica

    I1/F/G1/ informante do sexo feminino de escola pblica

    I1/M/G2/ informante do sexo masculino de escola particular

    I1/F/G2/ informante do sexo feminino de escola particular

    Conforme orienta Tarallo (1986), na seleo dos informantes imprescindvel uma

    reflexo cuidadosa sobre o critrio de classificao em grupos socioeconmicos e faixa etria

    a ser escolhida da comunidade a ser enfocada, tais escolhas devem considerar aspectos que

    possam ser mais significativas para atingir os objetivos da pesquisa, as amostragens coletada

    abrangem informantes de vria idades, optamos por analisar todos os informantes de 14 a 30

    anos, pois as possveis mudanas linguisticas em situao de contato com outra lngua pode

    ocorrer em funo da idade, sexo e escolaridade.

    Dados coletados conforme ilustrado e organizado nas tabelas a seguir:

  • 30

    COLETA DE DADOS - QUESTIONRIO

    ESCOLAS PBLICAS ENSINO

    MDIO

    SEXO TOTAL

    Dr. Joo Leite de Barros 1/ 2/ 3 16 - masculino

    19 feminino

    35

    Octaclio Faustino 1/ 2/ 3 11- masculino

    12 feminino

    23

    ESCOLAS PARTICULARES

    ENSINO

    MDIO

    SEXO

    TOTAL

    Sesi

    1/ 2/ 3 16 - masculino

    16 feminino

    32

    Tenir 1/ 2/ 3 11 - masculino

    09 feminino

    20

    INFORMANTES

    110

    Quadro 1 Coleta de dados Questionrios

    COLETA DE DADOS - ENTREVISTAS

    ESCOLAS PBLICAS ENSINO

    MDIO

    SEXO TOTAL

    Octaclio Faustino 1/ 2/ 3 11- masculino

    07- feminino

    18

    ESCOLAS PARTICULARES

    ENSINO

    MDIO

    SEXO

    TOTAL

    Sesi

    1/ 2/ 3 08- masculino

    10- feminino

    18

    INFORMANTES

    36

    Quadro 2 Coleta de dados Entrevistas

    Cabe elucidar que, esta pesquisa por ser de natureza qualitativa, alguns tpicos do

    mtodo de entrevista na coleta de narrativas foram adaptadas, tendo em vista que, a

    investigao est amparada no Mtodo da Sociolingustica interacionista/variacionista a

    sistematizao foi aliada observao, interpretao e descrio dos dados coletados. Assim,

    as amostras foram estratificadas de acordo com as caractersticas sociais dos falantes do

    portugus e das escolas em que estes estudam. Por essa razo, foram selecionadas quatro

  • 31

    escolas sendo duas privadas e duas pblicas sendo elas: Escola Estadual Dr. Joo Leite de

    Barros; Escola Octaclio Faustino da Silva, Escola Tenir e Escola SESI. Nestas escolas houve

    uma boa comunicao e recepo desta pesquisadora com a direo e coordenao.

    2.1 A coleta de dados

    O questionrio elaborado para o registro de dados escritos desta pesquisa apresenta os

    dados de identificao do informante e os seguintes questionamentos em relao ao espanhol:

    1. O que acha do idioma (tem vontade de aprender)

    2. Considera importante aprender a lngua do pas vizinho (por qu?)

    3. Fala e usa o idioma em alguma situao (quais?)

    4. O que sabe sobre a lei 11.161/05. Considera importante?

    5. Caso tivesse que optar entre o ingls e o espanhol, que idioma escolheria para

    estudar (por qu?)

    Em relao Bolvia:

    1. O que voc sabe sobre a Bolvia?

    2. Quais as impresses sobre os bolivianos. Tem amigos bolivianos?

    3. Tem interesse em conhecer a cultura boliviana

    4. Quais suas impresses sobre a relao de brasileiros e bolivianos?

    Para a segunda etapa desta coleta, no sentido de registrar a lngua em uso, formulamos

    um roteiro de entrevistas contendo questionamentos referentes s impresses sobre a relao

    entre brasileiros e bolivianos nesta fronteira, seus conhecimentos sobre a cultura boliviana e

    os principais motivos que os levam ao outro lado da fronteira. (questionrios em anexo).

    Chegamos a elaborar outro roteiro de entrevistas direcionado aos gestores

    educacionais, para a terceira etapa desta pesquisa, no sentido de registrar as dificuldades que

    as escolas encontram para o cumprimento da lei n 11.161/05 e verificar se estas tm algum

    levantamento sobre o quantitativo de alunos descendentes de bolivianos ou mesmo nativos

    que frequentam a escola, questionando se o Projeto Poltico Pedaggico dessas escolas faz

    referncia ao tratamento de estudante boliviano, mas nos primeiros contatos percebemos certa

    resistncia dos gestores educacionais em esclarecer ou se posicionarem quanto ao teor dos

    questionamentos feitos nesse roteiro. Por essa razo no fizemos esse levantamento.

  • 32

    Para esta amostra foram aplicados 110 questionrios entre alunos do 1, 2 e 3 ano do

    Ensino Mdio, cabe salientar que na Escola Joo Leite de Barros os questionrios foram

    distribudos entre alunos do ensino mdio regular rural e urbana e ensino de jovens e adultos.

    Desse total, 52 foram aplicados nas escolas particulares e 58 nas escolas pblicas. Cabe

    ressaltar que a deciso de participao era voluntaria do aluno, por essa razo a diviso de

    quantitativo de questionrios no foi igual entre os grupos. A principio tivemos, a inteno de

    aplicar 30 questionrios em cada escola, mas no foi possvel, pois dependia desse interesse

    individual dos estudantes.

    Aps essa etapa, pretendamos entrevistar ao menos 50% dos alunos que responderam

    o questionrio. Com a finalidade de medir o grau de interao com possvel influncia ou

    interferncia do espanhol no portugus falado pelos estudantes brasileiros e identificar

    variveis e variantes lingusticas do lxico espanhol incorporadas na fala, iniciamos a

    entrevista em uma escola pblica e outra particular. A entrevista foi realizada em sesso

    coletiva. Esse procedimento de entrevista em grupo no foi opcional da pesquisadora, na

    verdade foi a forma encontrada pela coordenao para liberar os alunos sem prejudicar o

    andamento escolar.

    Na escola Otaclio, por exemplo, a liberao dos alunos para a entrevista deu-se de

    forma semanal, num dia foram entrevistados os alunos do segundo ano, na outra semana os

    alunos do terceiro ano e assim sucessivamente. J na escola SESI, para a aplicao de

    questionrios, a direo orientou que passssemos em cada turma para explicar a importncia

    da pesquisa e convid-los a participar, A liberao para a entrevista ocorreu em apenas uma

    manh para no comprometer as atividades escolares.

    Na escola Tenir a prpria direo encarregou-se de aplicar os questionrios dando aos

    alunos o prazo de uma semana para entregarem os questionrios devidamente respondidos.

    Nesta jornada, deparamo-nos por muitas vezes com situaes adversas que

    postergavam o trmino da nossa investigao. Reunio extraordinria, aula reduzida,

    atividades extraclasse, licena mdica envolvendo coordenao que acompanhava a

    pesquisadora, entre outros acontecimentos, que no findar foram positivas, visto que resultou

    num contato maior com a escola e consequentemente com os estudantes, facilitando o

    processo de coleta.

    Depois de uma pr-anlise das entrevistas j coletadas, observamos que devida

    grande recorrncia de respostas negativas ao que se pretendia encontrar sobre variveis e

    variantes lingusticas, do lxico espanhol incorporadas na fala desses estudantes, decidimos

  • 33

    que no haveria mais necessidade de dar continuidade s entrevistas nas escolas seguintes

    conforme esclarecimentos a seguir:

    Observamos que a insero da lngua espanhola na fala dos estudantes muito

    reduzida, eles no costumam praticar o idioma e tambm no se esforam muito em tentar

    falar em espanhol. Os estudantes entrevistados sabem apenas frases soltas: Hola como le va,

    Pero que si, pero que no, Gracias por su compra, Cunto custa, Cunto sale esto.

    Somente os estudantes descendentes conseguem falar um pouco mais que frases soltas.

    Entre esses descendentes, nos foi relatado que no h o costume de se falar o idioma de

    origem em casa conforme relato os pais preferem comunicar-se em portugus. Chegamos a

    essa concluso porque o questionrio tambm j continha alguns questionamentos sobre o

    espanhol em contexto de comunicao, em que observamos que no h variantes incorporadas

    na fala dos estudantes, visto que eles no praticam a lngua por no sentirem necessidade.

    Terminada essa etapa, passamos para a fase de organizao, processamento e a anlise

    de todos os dados coletados nesta pesquisa. Acreditamos que o resultado apresentado no

    prximo captulo, poder esclarecer algumas incgnitas sobre as lnguas em contato nesta

    fronteira, e por outro lado destacar os aspectos da no interao lingustica nessa relao.

    2.2. A linguagem na fronteira: abordagem sobre lnguas em contato

    A lngua possui a funo de estabelecer contatos sociais alm de transmitir

    informaes sobre o falante. Nesse sentido, todo o sistema de smbolos que permite a

    comunicao entre os indivduos, ou seja, tudo que nos cerca e capaz de transmitir

    informaes sobre o mundo e a cultura, podemos chamar de linguagem.

    Conforme Jakobson (1995) na teoria da linguagem, a palavra fora do contexto no tem

    significado, vrios aspectos da linguagem ocorrem enquanto ato e evoluo, estado nascente e

    dissoluo. Segundo o autor, uma interpretao nova foi dada essncia da linguagem por

    Ferdinand Saussure, que conceituou a lngua como um sistema de signos composta por um

    significante e um significado, o primeiro definido como imagem acstica e o segundo

    representa o conceito e a ideia que se faz da imagem, esse sistema de signos formado por

    palavras e regras que permitem o exerccio da linguagem verbal. Saussure ao conceituar e

    diferenciar lngua e fala, compara a lngua a um dicionrio cujos exemplares idnticos so

    distribudos entre os indivduos. Cada falante escolhe na lngua os meios de expresso de que

  • 34

    necessita para comunicar-se, confere-lhe natureza material, produzindo-se assim a fala. A

    fala, de aplicao momentnea, fruto da necessidade psicolgica de comunicao e

    expresso, porque a realizao individual da lngua. Qualquer palavra para incorporar-se

    lngua precisa ser codificada.

    A inter-relao entre lngua e sociedade reflete os padres de comportamento dos

    falantes, que variam em funo do tempo e do espao que ocupam. Nesse sentido, os espaos

    fronteirios apresentam grandes diversidades culturais que podem ser evidenciados atravs de

    investigaes sobre a heterogeneidade do contato lingustico (MONTEIRO, 2002).

    O cerne das discusses para a descrio e a definio do fenmeno do contato

    lingustico apresenta algumas contradies devido sua indefinio terica. Investigaes

    acerca do tema, realizadas sob diferentes enfoques, se apresentam como contribuies

    isoladas, (ELIZAICN, 2008, p. 409). Para este autor o contato de lnguas no se d de forma

    isolada do contato cultural:

    E os contatos massivos possam s-lo por diferentes razes; todas elas

    supem, entretanto, deslocamento de fortes contingentes populacionais de

    um lugar a outro deste planeta. Dois casos bem diferenciados so o da

    conquista militar de um povo sobre outro, com a consequente etapa posterior

    de dominao e colonizao; e aqueles de movimentos populacionais

    impulsionados por razes econmicas (um tipo) ou polticas (outro tipo,

    diferente). Numa e noutra modalidade pode se achar variantes. Hic et nunc

    parecem mais decisivos e protagonistas os deslocamentos pacficos de

    importantes setores de populao. Por essa via promove-se o contato cultural

    e, em conseqncia, o lingstico.

    No que se refere s lnguas em contato, as consideraes de Elizaicin so

    esclarecedoras, visto que o autor enumera algumas questes relevantes sobre o tema e postula

    que, por meio do contato lingustico os povos se aproximam de outros de lngua e culturas

    diferentes e consequentemente acabam mantendo relaes interculturais. Ainda nesse

    contexto, acrescenta que os tipos de contato acontecem ou com lnguas prximas ou com

    lnguas diferentes. Nesse sentido, os contatos entre o portugus/espanhol representariam o

    encontro de lnguas prximas, e o contato de guarani/espanhol, a ttulo de exemplo, seria o de

    lnguas diferentes, esses processos lingusticos ocorrem independentes do poder das lnguas

    em contato. Segundo o autor, o contato provoca a variao, pois neste encontro de duas

    tradies diferentes que podem ou no ter a mesma lngua, ocorre em maior ou menor grau a

    interferncia provocada por transferncia ou emprstimos lingusticos. Nesse sentido

    pressupe-se que todo o contato suscita mudana ou variao.

    Referimo-nos lngua como instrumento de poder, seguindo a linha de proposta

    interdisciplinar que foi levantada por Souza (1990), que entendeu a linguagem como uma

  • 35

    poderosa arma ideolgica, nos diz que, a difuso de uma lngua sempre foi imposta como

    forma de dominao e homogeneizao cultural de povos dspares. E argumenta que a escola

    tem se mostrado ativamente no sentido de atender a esses interesses do poder dominante,

    ajudando a difundir e a fixar a lngua nacional do colonizador

    Nessa perspectiva, Bordieu (2009) afirma que o poder se manifesta por meio de

    sistemas simblicos como a arte, a religio, a lngua, e so instrumentos que emergem com

    legtima imposio, contribuindo para a dominao vigente.

    As investigaes lingusticas baseadas nos estudos de lnguas em contato se

    concentraram na descoberta de interferncias entre duas lnguas puras, vrios fazem distino

    entre o contexto de aquisio natural e o contexto de aquisio escolar de crianas bilnges,

    em comparao as monolngues Weinreich (1953). (grifo nosso)

    Outra questo importante a ser considerada o papel que os movimentos migratrios

    desempenham na relao de contato. Estes ocorrem no seio na sociedade receptora, sendo que

    esses contatos se apresentam de forma e condies diferenciadas em cada regio de fronteira.

    Segundo Sturza (2006), a lingustica fronteiria abarca pesquisas embasadas

    teoricamente na geografia lingustica e na sociolingustica:

    Como um novo espao nas cincias da linguagem, a Lingustica Fronteiria

    funda uma discursividade sobre as lnguas em contato. A continuidade e a

    regularidade das pesquisas vo construindo um modo de dizer sobre as

    lnguas da fronteira, que apresenta como discurso acadmico fundador o

    Dialecto Fronterizo en el Norte del Uruguay, trabalho pioneiro de Jos Pedro

    Rona, de 1965.

    Os estudos acadmicos, conforme a autora, possibilitam um novo olhar sobre as

    lnguas de fronteiras. Nas interaes lingusticas fronteirias percebe-se que o contato

    intercultural ocorre de forma heterognea em cada espao. Como exemplo cita-se a interao

    lingustica existente em outras fronteiras do Brasil com pases hispanofalante. Sintetizando

    exemplificamos outras regies fronteirias como Brasil e Uruguai, onde as cidades se

    correspondem, em ambos os lados da fronteira, SantAna do Livramento no Rio grande do

    Sul, Rivera no Uruguai, SantAna conhecida como cidade smbolo da integrao

    brasileira.

    Outro exemplo importante que temos referente a esse contexto acontece na fronteira

    do Brasil com o Paraguai. Na situao lingustica paraguaia sempre houve resistncia da

    lngua nativa, durante todo o processo histrico de colonizao at tornar-se repblica

    paraguaia. Nesse pas o espanhol no conseguiu tornar majoritria apenas a lngua do

    colonizador, pois houve resistncia da cultura indgena. O idioma guarani foi fora de unio e

  • 36

    arma secreta de comunicao nos campos de batalha no perodo da guerra. Os contatos entre o

    portugus, o espanhol e o guarani nessa fronteira produzem separaes, mesclas e disputas em

    torno da legitimao da lngua, (ALBUQUERQUE, 2006).

    O Paraguai se tornou oficialmente um pas bilnge e o nico Estado latino americano

    a reconhecer o estatuto de idioma nacional para uma lngua de herana indgena. Esse idioma

    visto pela maioria dos paraguaios como a expresso mxima da nacionalidade. Mas para

    determinados setores dominantes da sociedade paraguaia, o guarani considerado lngua de

    ndio ou coisa de campons. Essa regio que no est livre de preconceitos, evidentemente

    apresenta grande interao lingustica

    Na fronteira Brasil-Argentina entre os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul

    todos os meios de informao e sinalizao so feitas em portugus e espanhol, conforme

    figura 3, nessa regio grande o nmero de turistas argentinos e h grande integrao entre

    brasileiros e estrangeiros. Percebe-se que h interesse em aprender a lngua do outro.

    Em especial no que tange ao comrcio, no Estado de Santa Catarina os atendentes

    brasileiros comunicam-se em espanhol com os clientes hispanofalante sem dificuldades

    maiores. O fluxo de turistas argentinos to intenso que em algumas localidades desse

    Estado, tem-se a impresso de que no se est no Brasil.

    Figura 3 Comrcio Catarinense

    Fonte: RIVAS (2011)

  • 37

    Outra situao a ser considerada o o fenomeno lingustico que surgiu em algumas

    regies devido ao contato contnuo e direto entre os habitantes das fronteiras do Brasil com os

    demais pases sul-americanos, esse fenmeno conhecido como portunhol, que o resultado

    da mistura dessas lnguas praticadas por seus habitantes como uma lngua intermediria, de

    comunicao imediata.

    A mistura de lnguas nominada por Sturza (2006), como Lnguas de fronteiras que

    designa-se ao cruzamento das lnguas portugus e espanhol nas zonas de fronteiras. (grifo

    nosso)

    No que concerne s prticas lingusticas h muitos estudos em outras regies

    fronteirias, como a obra considerada pioneira de Jos Pedro Rona (1965) Dialecto Fronterizo

    en el Norte del Uruguay, nos ltimos 50 anos esta regio tornou-se foco de vrias pesquisas

    lingusticas, principalmente por interesses polticos do governo uruguaio.

    Conforme estudo feito por Sturza (2006) sobre Lnguas de fronteiras e polticas de

    lnguas a fronteira precisa ser vislumbrada como um espao de contato em que se tocam

    culturas, etnias, lnguas e naes. (grifo nosso)

    A regio estudada por Rona, por exemplo, apresentava uma insero hegemnica da

    lngua portuguesa no norte uruguaio, por essa razo, esse fato suscitou diversos projetos de

    ao poltico lingustica, entre eles, o de conteno da lngua portuguesa, esta ao

    governamental foi tratada pelos gestores polticos como problema fronterizo:(grifo nosso)

    Considero que o espao de enunciao fronteirio projeta um modelo de

    distribuio das lnguas da fronteira, que pode ser visto a partir tanto da

    perspectiva do falante como da do pesquisador. Em ambos os casos, o que

    sobressai que as lnguas so reguladas por um jogo de poder e de domnio

    determinado pelo fator poltico (STURZA, 2006, p. 22)

    Dado esse panorama, conclui-se que as regies fronteirias apresentam contextos e

    prticas lingusticas diferenciados na relao entre seus habitantes. Dentro dessa perspectiva

    definimos nesta investigao os elementos diferenciadores que foram encontrados na

    interao lingustica escolar de Corumb.

    2.3 Espanhol e portugus na fronteira Brasil/Bolvia

    A lngua espanhola est em contato com a lngua portuguesa em grande parte da

    extenso territorial do Brasil e no contexto sul-mato-grossense tem contato com dois pases

  • 38

    Bolvia e Paraguai. Essa proximidade geogrfica propicia o convvio direto entre os habitantes

    devido ao contato maior que se tem com hispanofalante nessa regio, ambas so duas lnguas

    romnicas que apresentam uma aparente similaridade favorecendo a comunicao entre os

    habitantes desses pases.

    No que se refere estrutura da lngua, os paradigmas so muito semelhantes aos do

    portugus, mas ocorrem muitas mudanas na nomenclatura e na fontica.

    Historicamente o ensino da lngua espanhola surgiu no mbito escolar brasileiro em

    meados do sculo XIX. Em meados da dcada de 40, na regio sul do pas a lngua espanhola

    foi adotada em substituio ao alemo e desta forma foi se incorporando gradativamente aos

    cursos secundrios da poca. Na dcada de 60 houve um acordo do governo brasileiro com o

    governo norte americano que estabeleceu novas diretrizes no ensino de lnguas estrangeiras.

    Essa reforma passou a adotar o ingls oficialmente na grade curricular brasileira retirando as

    demais existentes como o espanhol, francs e Latim. Em crtica a essa reforma adotada pelo

    governo brasileiro Serrani (1988) afirma que: o Brasil adotou uma poltica monilingustica no

    que se refere ao ensino da lngua estrangeira e com isso o pas cerceou o espao que poderia

    ocupar tambm a lngua espanhola j que o contato do Brasil com pases hispanofalante

    maioria, o que promoveria a aproximao destes povos.

    [...] la imposicin del gobierno de facto en Brasil (1964) se modifico La

    poltica para la pedagoga de lenguas, pasando de una posicin plurilinguista

    a una monolingista. Esta ltima estableci la obligatoriedad de la enseanza

    de la lengua inglesa (casi con exclusividad) en las escuelas pblicas

    brasileas. (SERRANI, 1988 p.179)

    A questo de maior embate sobre o ensino de lngua estrangeira, que no basta

    incluir o idioma na grade curricular, faz-se necessrio um planejamento terico-prtico sem

    excluir a concepo histrico-social da linguagem, para que se promova a integrao e no o

    distanciamento dos povos latino americanos, essa aproximao poder ser favorecida por

    meio de uma proposta democrtica no ensino de lnguas estrangeiras.

    Sobre Corumb na fronteira Brasil/Bolvia, no se tem um estudo mais amplo sobre as

    manifestaes e os fenmenos lingsticos oriundas do contato entre as duas lnguas j

    citadas. Podemos encontrar outra pesquisa dessa mesma fronteira envolvendo a regio de

    Cobija (Pando/Bolivia) fronteira com Brasilia (Acre/Brasil) apresentada por Lipski (2007)

    cita a falta de bibliografia sobre nossa regio:

    En varias reas de Sudamrica existen comunidades de habla que combinan

    el espaol y el portugus. Estos lugares se ubican a lo largo de la frontera

    brasilera en contacto con pases de habla espaola. Dentro del Brasil se habla

    exclusivamente el portugus, sin matices del espaol. Sucede algo distinto

  • 39

    en varios pases de habla espaola, donde por razones tanto histricas como

    contemporneas se hablan variedades hbridas dentro de sus fronteras. En

    algunos pases las zonas que limitan con Brasil no son de habla espaola,

    sino que predominan lenguas indgenas junto con variedades del espaol

    trasladadas de otros centros urbanos: tal es el caso, por ejemplo, de

    Colombia, Venezuela, y una gran parte del Per y el Paraguay. Entre las

    regiones fronterizas de habla espaola la zona ms conocida es la franja

    septentrional del Uruguay, donde se hablan unas variedades lingisticas

    conocidas popularmente como portuol/portunhol y entre lingistas como

    dialectos fronterizos o dialectos portugueses del Uruguay. Menos conocida

    y todava sin una bibliografa de estudios lingsticos es la frontera

    suroccidental del Brasil, la frontera con Bolivia. (grifo do autor)

    Nesse estudo o autor nos oferece uma descrio sobre o contato lingustico do

    portugus e espanhol naquela localidade. Segundo ele na Bolvia, Cobija a capital de Pando

    e est situado sobre o Rio Acre, prxima comunidade de Brasilia do lado brasileiro. uma

    zona de livre comrcio que recebe muitos brasileiros devido aos baixos preos de produtos

    importados e nacionais. Segundo Lipski (2007), nessa localidade ouve-se mais o idioma

    portugus que o espanhol durante o horrio comercial.

    Conforme cita o autor, o portugus falado pelos comerciantes bolivianos apresenta

    algumas interferncias, mas com bom domnio da lngua, porm ressalta que esse domnio da

    segunda lngua em contato restringe-se s transaes comerciais. Cobija devido a sua

    localizao geogrfica, recebia emissoras de radio e TV provenientes do Brasil, fato que os

    levaram a adquirir competncia auditiva da lngua portuguesa, visto que assistiam e ouviam

    diariamente transmisses brasileiras. Lipski (2007) enfatiza que,

    El contacto de lenguas en las fronteras entre comunidades de habla puede

    resultar en una amplia gama de fenmenos lingsticos, desde los prstamos

    ocasionales hasta el bilingismo completo. Cuando las fronteras lingsticas

    coinciden con fronteras internacionales la situacin sociolingstica es ms

    compleja, pues intervienen factores polticos y econmicos que influyen

    sobre los movimientos demogrficos, el acceso a los medios de

    comunicacin y el sistema educativo, as como las relaciones histricas entre

    las naciones.

    Ou seja, o contato de lnguas de fronteiras pode resultar em vrios fenmenos e

    emprstimos lingusticos, propiciando at mesmo um bilinguismo. Esse contexto reflete uma

    situao sociolingustica mais complexa, pois depende de fatores polticos e econmicos. No

    vamos aprofundar esse contexto, pois no o foco no momento, mas vale a ttulo de

    ilustrao e percepo de que mesmo em outra rea de fronteira com a Bolvia a relao

    comercial tambm dita as regras de interao entre seus habitantes.

    Em estudos iniciais desta pesquisa sobre as questes lingusticas, observou-se que h

    um interesse maior dos bolivianos em falar o portugus do que os brasileiros em falar o

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    espanhol. uma situao intrigante no que tange ao contexto das lnguas em contato e suscita

    estudos mais avanados para que se possa entender melhor essas atitudes lingusticas tomadas

    por brasileiros e bolivianos nesta fronteira. Assim, esta pesquisa pretende contribuir revelando

    informaes que possam mostrar possveis caminhos para entendermos o porqu desse

    comportamento lingstico, por meio de dados extrados do contexto escolar.

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    3. ASPECTOS DAS RELAES INTERCULTURAIS NESTA FRONTEIRA

    A convivncia entre identidades sociais e culturais distintas podem legitimar relaes

    de preconceito, discriminao tnica e racial. Analises feita nos estudos culturais nos

    apresentam hipteses de que as relaes de poder e dominao existente entre as diferentes

    culturas devem ser questionadas para que seja realizada a:

    Desconstruo no apenas daquelas formas de privilgio que beneficiam os

    homens, os brancos, a heterossexualidade e os donos de propriedades, mas

    tambm daquelas condies que tm impedido outras pessoas de falar em

    locais onde aqueles que so privilegiados em virtude do legado do poder

    colonial assumem a autoridade e as condies para a ao humana.

    (GIROUX, 1999, p. 39).

    Neste contexto importante abordar algumas consideraes sobre cultura, pois este

    tema representa a expresso mxima da existncia humana e um elemento social que no se

    desenvolve individualmente. Alm disso, seu conceito apresenta acepes diferenciadas

    dependendo da tica em que analisada e dependendo do ponto de vista Sociolgico e

    Antropolgico. Neste sentido, nos apropriamos das idias de Gomes (2005) que aborda em

    seu artigo sobre Cultura e Identidade, a temtica cultural no contexto da globalizao. (grifo

    nosso).

    A autora postula que a diversidade cultural um mecanismo de resgate dos indivduos

    s suas identidades locais, pois a cultura e a identidade so elementos que estabele