YURTSEVER, Leyla Viga. Crimes Eleitorais. - tre-rs.gov.br ELEITORAIS Leyla Viga Yurtsever1 RESUMO O objetivo deste artigo descrever os crimes eleitorais, seus tipos e penas aplicadas. O Cdigo Eleitoral ...

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    05-Feb-2018

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  • CRIMES ELEITORAIS

    1Leyla Viga Yurtsever

    RESUMO

    O objetivo deste artigo descrever os crimes eleitorais, seus tipos e penas aplicadas. O Cdigo Eleitoral aplicado conjuntamente com o Cdigo de Processo Penal fez com que os crimes eleitorais sejam punidos com maior severidade. As penas previstas so de ordem econmica ou restritiva de liberdade. Em ambos os casos o Cdigo Eleitoral especifica as regras, prazos e clculo de valores a serem aplicados. Este agravamento d-se pelo fato de que tais crimes afrontam o Estado em seu processo constitutivo, bem como toda sociedade que poder ter seus direitos polticos cerceados ou diminudos.

    Palavras-chave: Crimes Eleitorais, Cdigo Eleitoral, Direito Eleitoral.

    INTRODUO

    O tema crimes eleitorais vem se destacado na atualidade e recebendo dos

    operadores do direito importantes reflexes dados os ltimos acontecimentos no cenrio

    poltico nacional. possvel afirmar ainda que este posicionamento tem vinculao direta

    com o aperfeioamento da legislao eleitoral e a liberdade poltica exercida e

    consagrada no Estado Democrtico de Direito.

    Crimes eleitorais inscrevem-se atualmente como uma das formas mais aviltantes

    ao Estado e sociedade, sendo punveis tanto pelo Cdigo Eleitoral quanto pelo Cdigo

    de Processo Penal. Tal agravamento mostra-se pelo obstaculizao do eleitor e do

    candidato de participar dos negcios polticos do Estado, os quais so assegurados pela

    Constituio Federal como direitos polticos natos exercidos ativa e passivamente atravs

    do sufrgio.

    __________________________________________________________________________________________________

    1Coordenadora do Curso de Especializao em Direito Eleitoral e Professora de Direito Penal do Curso de Segurana Pblica da Universidade do Estado do Amazonas, Mestre em Gesto e Auditoria Ambiental pela Universidade de Leon, com especializao em Direito Penal e Processo Penal.

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  • A cada pleito eleitoral se verifica uma crescente de violaes ao processo

    eleitoral fazendo com que o Estado tambm evolua em seu aspecto punitivo, pois ao

    fracassarem as regras e princpios eleitorais, desponta o Jus Puniendi Estatal capaz de

    garantir a coao e coero contra tais comportamentos, necessrias tutela dos

    interesses do povo. A complexidade e gravidade dos ilcitos penais eleitorais, portanto,

    requerem uma drstica e pronta resposta do Estado aos que perturbam e ofendem, por

    seus comportamentos, a democracia, a representao e o Estado de Direito.

    ponto pacfico no arcabouo jurdico que qualquer atitude que possa violar o

    exerccio pleno da cidadania precisa ser coibido, preservando-se a liberdade de escolha

    como uma dimenso dos direitos fundamentais do homem, proporcionados pelo Estado

    direta ou indiretamente, enunciados em normas constitucionais, tendendo a realizar a

    igualizao de situaes sociais desiguais. So, portanto, direitos que se ligam ao direito

    de igualdade. Valem como pressupostos do gozo dos direitos individuais na medida em

    que criam condies materiais mais propiciais ao auferimento da igualdade real, o que,

    por sua vez, proporciona condio mais compatvel como o exerccio efetivo da liberdade.

    TIPIFICAO E APURAO DE CRIMES ELEITORAIS

    Como todo delito, crimes eleitorais podem ser classificados como aes

    divergentes regra jurdica eleitoral estabelecida, perpassando todas as fases

    envolvidas no processo eleitoral. Unnime o entendimento de que so considerados

    crimes eleitorais os que buscam atingir as eleies em qualquer das suas fases, desde a

    inscrio do eleitor at a diplomao do postulante ao cargo pblico.

    Embora o conceito seja ponto pacfico sua natureza jurdica no . Conforme

    Ribeiro (2000) crimes eleitorais podem ser classificados como crimes polticos, sendo

    uma subdiviso destes ao lado dos crimes militares, o que justifica existirem duas

    justias especializadas competentes para julgar e processar, a Eleitoral e a Militar.

    No obstante, tais delitos se mostram como obstrues ao exerccio democrtico

    da sociedade na construo e administrao da nao, em sua manifestao prtica na

    escolha de seus representantes quelas instituies democrticas amparadas no sistema

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  • jurdico nacional. O crime eleitoral , portanto, um delito poltico porque, alm de violar

    ou atentar contra o direito poltico do cidado, uma ameaa ou leso ao prprio Estado

    Democrtico de Direito.

    O descritivo dos crimes e as respectivas penas, bem como o processo de

    apurao e demais fases esto disciplinados nas leis eleitorais, dentre as quais o Cdigo

    Eleitoral (artigos 289 a 354), a Lei de Inelegibilidades (Lei Complementar n. 64/90), Lei

    Geral das Eleies (Lei 9.504/97) e a Lei dos Partidos Polticos (Lei 9.099/95). Decorrente

    desta ampla legislao forte a corrente doutrinria que classifica os crimes eleitorais

    como crimes especiais, por no estarem contemplados nos Cdigo Penal ou Cdigo de

    Processo Penal.

    Tal posio no compartilhada pelo Superior Tribunal Federal que considera

    os crimes eleitorais como crimes comuns (RTJ 33/509; 63/5-6). Esta a orientao

    jurisprudencial firme. No se situam entre os demais crimes polticos, como os

    relacionados com a segurana nacional e, portanto, no tm nem o rito processual nem

    as penalidades a estes relativas.

    Considerando a natureza dos crimes eleitorais e sua vinculao com a

    estabilidade poltica nacional mostra-se correta a outorga de competncia dada a Polcia

    Federal, que a polcia judiciria da Unio, para apurar quaisquer atos considerados

    como lesivos ao processo eletivo nacional. Sua atuao poder ser complementada com

    a atuao da Polcia Militar e Polcia Civil, conforme solicitao da Justia Eleitoral.

    De acordo com o caput do artigo 6 do Cdigo Penal a denncia de crime

    eleitoral facultada a qualquer cidado que poder apresent-la ao juiz eleitoral do lugar

    do crime. Havendo prerrogativas funcionais decorrentes de exerccio de cargo pblico tal

    denncia dever ser remetida aos tribunais superiores, observando rito processual

    disposto na Lei 8.038/90, por fora da Lei 8.658/93.

    Neste diapaso, Deputados Federais e Senadores tm foro privilegiado, sendo

    inviolveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opinies, palavras e votos. No

    entanto, tal regra foi derrogada por meio do 3 do artigo 53 da Constituio Federal,

    que estabelece uma regra de moratria processual. Na prtica este dispositivo

    possibilitou ao Supremo Tribunal Federal ou Tribunal de Justia apenas comunicar s

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  • casas legislativas

    PENA E PROCESSO PENAL NOS CRIMES ELEITORAIS

    Aplicam-se aos crimes eleitorais penas restritivas de liberdade ou pecunirias,

    sendo que o Cdigo Eleitoral estabelece limites mximos e mnimos, para ambas as

    sanes, de forma divergente do Cdigo Penal. Na ausncia tcita destes limites em que

    este Cdigo no indicar o grau mnimo, entende-se que ser ele de 15 dias para a pena

    de deteno e de 01 ano para a de recluso (CDIGO ELEITORAL, ARTIGO 284).

    Em havendo sentena condenatria em tempo inferior ao estipulado no referido

    artigo, torna-se necessrio uma adequao norma jurdica, sob pena de erro material e

    inexistncia da pena. Neste caso preciso que a pena se harmonize ao disposto no

    referido artigo. Em sentido contrrio, o Cdigo Eleitoral tambm dispe sobre o quantum

    que agrava ou atenua a pena, em seu artigo 285, especificando que quando a lei

    determina a agravao ou atenuao da pena sem mencionar o quantum, deve o juiz

    fix-lo entre 1/5 (um quinto) e 1/3 (um tero), guardados os limites da pena cominada ao

    crime.

    Em seu artigo 286 o Cdigo Eleitoral estipula as regras bsicas para o clculo da

    sano pecuniria dos crimes eleitorais, em que a pena de multa consiste no pagamento

    ao Tesouro Nacional, de uma soma de dinheiro que fixada em dias-multa. Seu

    montante , no mnimo de 1 (um) dia-multa e, no mximo, 300 (trezentos) dias-multa.

    Considerando que o Estado o sujeito passivo imediato da violao de direito, o

    instrumento jurdico cabvel nesta circunstncia a ao penal pblica. Firme-se neste

    entendimento que o Estado ser a instituio de direito pblico a sofrer o dano imediato,

    pois, de si emanam todas as prerrogativas constitucionais que possibilitam a formao

    do ambiente eleitoral. Desta feita, torna-se imputvel criminalmente aquele que ferir sua

    autoridade com condutas antijurdicas, delituosas e estranhas aos direitos polticos da

    sociedade.

    Tal reprovao pelo Cdigo Eleitoral torna-se ainda mais severa ao estipular em

    seu artigo 364 a aplicao subsidiria ou suplementar do Cdigo de Processo Penal aos

    quando acatar denncia contra o parlamentar.

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  • crimes eleitorais. Ratifica desta maneira o esprito a ser perseguido no pleito eleitoral,

    que de preservar o exerccio da cidadania, a liberdade de escolha e as instituies do

    Estado Democrtico de Direito.

    Este exerccio se inicia pelo oferecimento de denncia pelo Ministrio Pblico

    Eleitoral das aes consideradas lesivas ao processo eleitoral, ou por qualquer cidado

    (artigo 356 do CE) que poder comunicar ao Juiz da Zona o ilcito eleitoral de forma

    verbal ou escrita, sendo encaminhada ao Ministrio Pblico, que determinar as

    diligncias necessrias formao da sua opinio delicti.

    Oferecida e recebida a denncia, o acusado ser citado para, querendo,

    contestar em 10 dias, facultado requerer diligncias, juntar documentos e rol de

    testemunhas. Passada a exordial, ou extinguido o prazo in albis, o juiz marcar audincia

    de instruo para oitiva das testemunhas, determinar, de ofcio, ou a requerimento, as

    diligncias importantes. No h interrogatrio. Aps, abre vista acusao e defesa,

    cada qual em 05 dias, para oferecimento das alegaes finais. Ao final, sero os autos

    conclusos ao Magistrado, para proferir sentena em 10 dias.

    Em geral, as decises do Tribunal Superior Eleitoral so irrecorrveis, conforme

    exposto na Constituio Federal. A exceo apenas quelas que se mostrarem

    frontalmente contrrias Constituio e s denegatrias de Habeas Corpus e Mandado

    de Segurana (3 do art. 121 da CF).

    Com a edio da Lei 9.099/95, os crimes eleitorais passaram a ser julgados com

    maior celeridade, oralidade, informalidade e economia processual, conforme disposto no

    artigo 61, que disciplinou como sendo de competncia dos Juizados Especiais Criminais a

    conciliao, o julgamento e a execuo das infraes penais de menor potencial

    ofensivo, assim compreendidas as contravenes penais e os crimes a que a lei

    cominasse pena mxima no superior a um ano, excetuados os casos em que fosse

    previsto procedimento especial.

    Posteriormente, a Lei 10.259/01 faz surgir os Juizados Especiais na Justia

    Federal. No pargrafo nico do art. 2, traz um novo conceito para as infraes penais de

    menor potencial ofensivo: consideram-se infraes de menor potencial ofensivo, para

    os efeitos desta Lei, os crimes a que a lei comine pena mxima no superior a dois anos,

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  • ou multa." Este novo conceito de infrao de menor potencial ofensivo, juntamente com

    a ausncia de legislao mais especfica quanto a sua extenso no mbito estadual, tem

    suscitado diversos debates.

    Tal indefinio tem feito com que os crimes eleitorais, que somam mais de 60,

    sejam inscritos como infraes de menor potencial ofensivo, conforme artigo 89 da Lei

    9.099/95, garantindo a suspenso do processo e culminando quando muito no

    pagamento de multa e suspenso dos direitos passivos do infrator. Neste caso, h que se

    observar que os condenados criminalmente, com sentena transitada em julgado, pela

    prtica de crimes contra a economia popular, a f pblica, a administrao pblica, o

    patrimnio pblico, o mercado financeiro, por crimes eleitorais e por trfico de

    entorpecentes, permanecero inelegveis por trs anos aps o cumprimento da pena

    (artigo 1, inciso I, alnea e, da Lei Complementar n. 64/90).

    Dentre os crimes eleitorais observados com maior frequncia est o descrito no

    artigo 299 do Cdigo Eleitoral que trata da corrupo ativa e passiva. Diferentemente do

    Cdigo Penal, a corrupo eleitoral vista sob um nico prisma no tocante s partes

    envolvidas. Assim, oferta de qualquer benefcio em troca de voto ou sua solicitao em

    troca de vantagem configurada como crime de corrupo eleitoral e passvel de

    recluso de liberdade e multa pecuniria em igual peso para as partes.

    Tal rigorosidade vista com certa injustia ao se considerarem as condies

    sociais e econmicas da grande maioria da populao que em pocas eleitorais v-se

    acossada com as mais diversas promessas de vantagens por aqueles que eleitos no se

    sentem compelidos a cumprir tais promessas. Maior indignao ainda o fato de que a

    grande maioria dos infratores eleitorais sequer chegam a sofrer qualquer pena de

    recluso de liberdade, tendo suas multas convertidas em cestas bsicas.

    CONCLUSO

    O fortalecimento das instituies polticas nacionais mostra-se totalmente

    incompatvel com crimes eleitorais que visem macular o exerccio e a liberdade de

    escolha da sociedade quanto aos seus representantes. Burlar as normas eleitorais

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  • mostra-se no

    judicialmente.

    O Estado, no exerccio de seu direito de punir aes consideradas desviantes ou

    lesivas norma constitucional, tem aperfeioado os instrumentos judiciais anexando ao

    Cdigo Eleitoral o Cdigo de Processo Penal. Essa rigorosidade mostra-se compatvel

    com o prejuzo causado pela conduta criminosa, haja vista que na maioria dos tipos

    penais eleitorais o dano estende-se a toda a sociedade e organizao do Estado

    Democrtico de Direito.

    O Brasil insere-se no apenas num Estado de Direito, mas Democrtico, o que

    exige tratamento igual a todos, no podendo subsistir privilgios queles que cometem

    crimes eleitorais, ainda mais considerando a posio de servidores pblicos da grande

    maioria dos infratores.

    Uma legislao mais rgida para coibir a prtica de novos delitos juntamente com

    a conscientizao da populao sobre a necessidade de denunciar os criminosos

    eleitorais e exercer sua cidadania com responsabilidade certamente que podero

    consolidar a democracia nacional.

    REFERNCIAS

    BRASIL. Cdigo Eleitoral Anotado e Legislao Complementar.7.ed. Braslia: TSE, 2006.

    ______. Constituio da Repblica Federativa do Brasil. So Paulo: Saraiva, 2006.

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    apenas antidemocrticos, mas principalmente reprovvel penal e

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