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Page 1: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

UNIVERSIDADE VALE DO RIO DOCE

FACULDADE DE DIREITO, CIÊNCIAS ADMINISTRATIVAS E ECONÔMICAS

CURSO DE DIREITO

Kaline da Silva Santos

A CONTRIBUIÇÃO DOS JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS PARA A

DIMINUIÇÃO DA VITIMIZAÇÃO SECUNDÁRIA

Governador Valadares

2010

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KALINE DA SILVA SANTOS

A CONTRIBUIÇÃO DOS JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS PARA A

DIMINUIÇÃO DA VITIMIZAÇÃO SECUNDÁRIA

Monografia para obtenção do grau de bacharel em Direito apresentada à Faculdade de Direito, Ciências Administrativas e Econômicas da Universidade Vale do Rio Doce.

Orientador: Prof. Ronald Amaral Júnior

Governador Valadares

2010

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KALINE DA SILVA SANTOS

A CONTRIBUIÇÃO DOS JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS PARA A

DIMINUIÇÃO DA VITIMIZAÇÃO SECUNDÁRIA

Monografia apresentada como requisito para obtenção do grau de bacharel em Direito pela Faculdade de Direito, Ciências Administrativas e Econômicas da Universidade Vale do Rio Doce.

Governador Valadares, ______ de _________ de 2010

Banca Examinadora:

_____________________________________Prof. Ronald Amaral Júnior - Orientador

Universidade Vale do Rio Doce

______________________________________Prof. Gilvan de Oliveira Machado - Examinador

Universidade Vale do Rio Doce

______________________________________Prof. Douglas Genelhu de A. Guilherme - Examinador

Universidade Vale do Rio Doce

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Dedico a Deus por ter me sustentado até aqui e

aos meus pais pela força e por todos os

sacrifícios que se fizeram necessários à

realização dos meus sonhos.

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AGRADECIMENTOS

Aos meus familiares pelo apoio incondicional demonstrado ao longo dos anos.

À Sexta Igreja Presbiteriana pelas orações e apoio enquanto família de fé.

À Aliança Bíblica Universitária, pelo companheirismo e amizade.

Ao meu orientador, Professor Ronald Amaral Júnior, pela confiança, paciência e

cuidado dispensados ao longo dos últimos meses.

Aos amigos que embelezaram a minha jornada com os sorrisos e brincadeiras e

enriqueceram-me com os conselhos e apoio.

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Desse modo, imagina-se que a vítima

traz consigo o estigma do vencido, supondo-se

mesmo que o vencido tem em si a marca da

fraqueza, do fracasso, da inferioridade.

Piedade Júnior

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RESUMO

A situação da vítima criminal. Conceito de vítima. O tratamento dispensado à vítima ao longo da história. Idade de ouro da vítima. Fase de autotutela. Vingança privada. Identificação entre Estado e religião e crime e pecado. Manifestação do poder punitivo com base na religiosidade. Evolução do direito enquanto ciência. Avocação do poder punitivo pelo estado. Período de ostracismo da vítima que ocupava um papel meramente informativo. Utilização de tortura para obter a confissão do acusado e consequente esquecimento da vítima. Escolas Clássica e Positivista do Direito Penal. Preocupação apenas com o delinquente. Final da Segunda Guerra Mundial. Preocupação com a vítima. Início do desenvolvimento da Vitimologia como ciência autônoma. Publicação do artigo de Mendelshon. A vítima ao longo da história do Brasil. A partir da década de 60 surge a preocupação acadêmica com a vítima. Participação dos brasileiros em Simpósios internacionais de vitimologia. Tentativas de introduzir a preocupação com a vítima no Brasil. Criação da Sociedade Brasileira de Vitimologia. Realização do I Congresso Brasileiro de Criminologia. A preocupação com a vítima continua quase que exclusivamente acadêmica. Vitimização secundária. Medidas de proteção à vítima. Utilização da Justiça Consensual em favor da vítima. Vantagens da justiça consensual. Instituição dos Juizados Especiais Criminais. Aspectos protetivos da Lei 9.099/95. A aplicação da lei na prática. Juizados Especiais em Governador Valadares. Diminuição da vitimização secundária.

Palavras-chave: Vítima. Vitimização. Juizado. Dano. Reparação.

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ABSTRACT

The situation of victims of crime. Concept of victim. The treatment to the victim throughout history. Golden age of the victim. Phase retaliation. Revenge private. Identification of state and religion and crime and sin. Manifestation of the punitive power based on religiosity. Evolution of the law as a science. Call back the state's punitive power. Period ostracism of the victim who occupied a role merely informative. Use of torture to extract confession consequent neglect of the accused and the victim. Schools Classical and Positivist criminal law. Worry only with the offender. End War World. Concern with the victim. Initiation of development of Victimology as an autonomous science. Publication of the article Mendelshon. The victim along the Brazil's history. From the 60's comes the academic concern with the victim. Participation of Brazilian international symposia on victimology. Attempts to introduce a concern with the victim in Brazil. Creation of the Brazilian Society of Victimology. Realization of the First brazilian Congress of Criminology. The concern for the victim remains almost purely academic. Secondary victimization. Measures protection to the victim. Use of Justice in Consensual favor of the victim. Advantages of consensual justice. Establishment of Special Criminal Courts. Aspects protective of Law 9.099/95. Law enforcement in practice. Special Courts in Governador Valadares. Decrease of secondary victimization.

Keyword: Victim. Victimization. Court. Damage. Repair.

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Dados do Juizado Especial Criminal de Governador Valadares 39

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 112 ESCLARECIMENTOS INICIAIS 133 A VÍTIMA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE 173.1 A VÍTIMA NA HISTÓRIA DO BRASIL 204 O TRATAMENTO DISPENSADO À VÍTIMA NO EXTERIOR 235 VITIMIZAÇÃO SECUNDÁRIA 256 MEDIDAS DE PROTEÇÃO À VÍTIMA 287 A JUSTIÇA CONSENSUAL E A VÍTIMA 308 OS JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS E A VÍTIMA 338.1 A BUSCA PELA CONCILIAÇÃO 368.2 A REPARAÇÃO DO DANO 368.3 MANIFESTAÇÃO DA VONTADE DA VÍTIMA PARA INSTAURAÇÃO

DO PROCESSO

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8.4 PROXIMIDADE COM JUÍZES E PROMOTORES 389 O JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL EM GOVERNADOR VALADARES 4010 CONCLUSÃO 43REFERÊNCIAS 46APÊNDICE 48ANEXO 50

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1 INTRODUÇÃO

No início do desenvolvimento das sociedades, quando o crime passou a ser

um fato considerado como tal, a vítima ocupava um lugar de destaque no que diz

respeito à punição da infração à norma socialmente aceita.

Esse lugar de destaque inicialmente era representado pela aprovação social e

estatal da vingança privada, sendo que até hoje o conceito de que aquele que foi

ofendido tem o direito de se vingar permeia a sociedade.

Era a fase da autotutela, em que à vítima assegurava-se o direito de buscar,

por meio da própria força, a reparação do dano sofrido em razão do delito.

Nessa época, várias legislações foram editadas com inspiração semelhante,

destacando-se dentre elas O Código de Ur-Namur e a Legislação Mosaica.

A explicação mais comumente adotada pelos estudiosos para a instituição de

tais legislações é a inexistência de uma separação clara entre Estado e religião,

direito e pecado.

Apesar de essa fase ser chamada “idade de ouro” da vítima, a principal

preocupação não era com a reparação do dano sofrido pelo indivíduo e, sim, com a

autoridade divina (seja qual fosse a divindade cultuada pela sociedade da época e

local em questão).

Com o desenvolvimento do Direito enquanto ciência e a instituição de leis

baseadas em outros princípios que não exclusivamente a religião, o Estado chamou

para si, de forma privativa, o direito de punir o infrator da legislação.

A partir de então, a vítima começa a ser esquecida, passando a atuar apenas

como peça de informação no procedimento de investigação. Houve períodos em

que, nem como peça de informação a vítima participava do processo criminal, posto

que a confissão do acusado era obtida por meio de outros artifícios (torturas, por

exemplo).

Mesmo após ser desenvolvida uma nova visão acerca do Direito Penal e

passar-se a atentar para os indivíduos participantes do processo penal, as atenções

se voltaram para o autor do delito, deixando a vítima mais uma vez à margem da

instrução criminal.

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Em razão desse período de ostracismo e, as atenções do Estado e da

sociedade concentradas exclusivamente no autor do crime, a vítima sofre não só

com as consequências diretas do delito.

Ela tem que suportar ainda, o descaso da sociedade, a exploração e exibição

indevida da sua imagem ou sua história pessoal pela mídia, a demora dos processos

judiciais, o atendimento deficiente em órgãos públicos, insegurança quando precisa

participar da instrução criminal, medo de represálias e todos os inconvenientes

relacionados à prática de um delito, sua apuração e posterior punição do seu autor.

A esse conjunto de sofrimentos e traumas pelos quais passa a vítima criminal

deu-se o nome de vitimização secundária.

Em tempos mais recentes, tem-se buscado um resgate do papel da vítima no

âmbito penal. Por resgate, entenda-se que não é a pretensão da volta dos tempos

da vingança privada, e sim, de prestar atenção à vítima e suas necessidades, numa

tentativa de diminuir ao menos a vitimização secundária

Algumas atitudes já foram tomadas com esse fito, destacando-se no Brasil a

criação dos Juizados Especiais Criminais.

O presente estudo se propõe a entender a situação da vítima no contexto

atual e, analisar a real contribuição dos Juizados Especiais na diminuição da

vitimização secundária, especialmente, no que diz respeito à atenção dispensada à

vítima e à regular duração do processo.

Para tanto, analisar-se-á a história da vítima e o tratamento a ela dispensado

ao longo da história da humanidade e o surgimento da vitimização secundária,

temas tratados nos capítulos dois a cinco, através de levantamento bibliográfico.

Após, analisar-se-á as tentativas de minorar os danos sofridos pela vítima, nos

capítulos seis e sete, também por meio de levantamento bibliográfico. O capítulo oito

tratará exclusivamente sobre a contribuição dos Juizados Especiais no combate à

vitimização secundária, contando apenas com dados bibliográficos. Por fim, no

capítulo nove, analisar-se-á a situação do Juizado Especial em Governador

Valadares, por meio de consulta de dados fornecidos pela direção do Foro da

Comarca, a fim de verificar se, efetivamente, há diminuição da vitimização

secundária após a instauração do Juizado na cidade.

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2 ESCLARECIMENTOS INICIAIS

Antes de adentrar ao estudo do tema propriamente dito, faz-se necessário

estabelecer o conceito de vítima criminal para o presente trabalho.

Para a maioria dos estudiosos da vitimologia, entende-se por vítima, o

ofendido, o sujeito passivo do delito ou aquele que é atingido direta ou indiretamente

pelo delito.

A fim de oferecer uma margem de pesquisa mais centralizada, no corpo do

presente trabalho, adotar-se-á um conceito mais restrito, considerando como vítima

o atingido diretamente pelo delito, ou seja, a pessoa ou titular do bem jurídico que

sofreu a lesão provocada pela infração penal.

Insta ressaltar que a lesão ao bem jurídico não implica apenas em lesão física

de pessoas ou coisas, ou diminuição do patrimônio material, engloba também, as

lesões ao patrimônio imaterial, posto que honra e imagem são juridicamente

protegidas.

Ultrapassado o conceito de vítima, passemos a entender o tratamento a ela

dispensado ao longo da evolução da humanidade e do estudo sistemático do Direito.

Durante os primórdios da evolução das sociedades, a vítima ocupava lugar

privilegiado na ordem social. A preocupação com a reparação do dano era tão

evidente, que na chamada “idade de ouro” da vítima, esse era quase que o único

objetivo da “persecução penal”.

Tal preocupação tinha escopo, em regra, na autoridade divina, na

necessidade de demonstração do poder político, ou, pelo próprio clamor público no

sentido de restabelecer-se a ordem social alterada pelo delito.

Quando o Estado reivindicou para si o direito exclusivo de punir o infrator, o

foco principal deixou de ser o ofendido e a reparação do dano, para buscar-se tão

somente a chamada paz social. O crime passou a ter um caráter abstrato,

ofendendo não o indivíduo, mas a sociedade e, a vítima foi relegada a último plano.

Tal atitude em relação à vítima faz com que, além do dano direto sofrido em

razão do delito, o ofendido tenha de suportar ainda, danos de ordem moral, psíquica

e econômica. A esse processo, convencionou-se dar o nome de sobrevitimização

ou vitimização secundária.

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É certo que se deve dar atenção especial ao delinquente, analisar as

possíveis causas da ação delituosa e tentar prevenir os delitos. Entretanto, não se

pode deixar de atentar para a vítima.

O adequado seria que a ação delituosa fosse interrompida antes mesmo de

se consumar. Como isso é impossível, a atenção do Estado para com a vítima deve

começar no instante em que tem ciência da ação criminosa, o que, geralmente,

ocorre nas delegacias de polícia.

Com a vítima ocupando o último lugar na lista de preocupações do aparato

estatal, é possível verificar uma extensão do sofrimento causado pelo delito. Passa-

se a ser infligido à vítima além do dano direto decorrente do ato antijurídico, um

dano psíquico, social e econômico adicional. É a sobrevitimização ou vitimização

secundária.

Segundo Calhau (2003, p. 16), o processo de vitimização secundária tem

início, em regra, nas delegacias de polícia, com as dificuldades de ordem psíquica e

moral que envolvem o momento de formular a noticia criminis e o atendimento por

vezes abrupto prestado por servidores que não são preparados para atender a

vítima.

Como a principal preocupação do Estado é com a reparação do dano

causado à sociedade e com a inibição da prática de novos delitos, o arcabouço

jurídico-penal é quase todo construído voltado para a figura do infrator da lei penal,

nunca do atingido.

Este tem que esperar horas para ser atendido na delegacia; passa pelo

constrangimento da identificação; da investigação; enfrenta o medo de falar e sofrer

represálias; vê um processo se arrastar por anos a fio1; sem qualquer garantia de

que a sua segurança pessoal e de sua família serão resguardadas.

Assim, a vítima já psicologicamente afetada pelo delito, tem ainda que

enfrentar todos os óbices acima descritos, além de, nos crimes de ação privada, ter

que dispor de dinheiro para arcar com honorários advocatícios e custas iniciais do

processo.

O processo de vitimização assume as características de um “efeito dominó”.

O ofendido já tão desgastado pelo delito, quando procura a Justiça, por vezes, já o 1 Aqui não se defende um sistema acusatório, ou de desrespeito às garantias constitucionais de ampla defesa e contraditório. O que se aponta, é a falta de preparo do Poder Público para lidar com o crime, o número insuficiente de servidores e a falta de compromisso do Estado com a regular duração do processo, o que, aliás, não representa um interesse exclusivo da vítima, mas, também do acusado.

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faz desiludido. Outros tantos, sequer o fazem, formando a cifra negra, o grande

número de crimes que não chegam ao conhecimento do Poder Público.

Lado outro, é de se notar que o Brasil começa a dar os primeiros passos,

ainda que tímidos, no sentido de buscar a proteção da vítima e seus interesses,

conforme se verifica com a implantação dos Juizados Especiais Criminais.

Com o advento da Lei nº 9.099, de 1995, que instituiu os Juizados Especiais

Cíveis e Criminais, o Brasil passou a experimentar um novo modelo de Justiça

Criminal, ao menos em tese, mais preocupado com a vítima e a reparação do dano,

sem deixar de prestar atenção à figura do infrator da lei penal.

Os Juizados Especiais Criminais, baseados no princípio da intervenção

mínima e espaço de consenso, buscam a ressocialização do autor do fato delituoso

e, ao mesmo tempo, a reparação do dano causado à vítima.

Para tanto, utilizam-se de um modelo em que é possível a limitação voluntária

de determinados direitos e garantias fundamentais, como a presunção de inocência,

para que o processo tenha uma duração menor e, chegue a um resultado

satisfatório para a vítima, a sociedade e, que promova a inclusão ou permanência do

infrator de menor potencial ofensivo no seio da sociedade organizada.

Cada um dos envolvidos na persecução penal deve abdicar de uma parcela dos seus direitos tradicionais. É, portanto, um novo sistema que privilegiou, inegavelmente, a vítima (reparação do dano), assim como a ressocialização do infrator por outras vias alternativas, distintas da prisão. (MOLINA e GOMES, 1997, p. 423).

Ainda de acordo com Molina e Gomes (1997, p. 421):

Em lugar de a atividade jurisdicional penal servir única e exclusivamente aos interesses coligados com a pretensão punitiva estatal, a orientação agora é outra: nas hipóteses mencionadas, sobressaem como mais relevantes os interesses da vítima.

Na nova dinâmica instituída pelo procedimento dos Juizados Especiais

Criminais, a reparação do dano pode ter o condão de ocasionar dois efeitos

processuais: a extinção da punibilidade nas infrações de menor potencial ofensivo

ou a suspensão do processo, nas infrações de médio potencial ofensivo.

Conforme acima explanado, a dinâmica dos Juizados Especiais Criminais foi

pensada para que a vítima ocupasse um lugar de destaque. Entretanto, nem sempre

a vontade da lei é plenamente alcançada quando da sua aplicação prática.

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Daí, a necessidade de investigar se a aplicação da Lei nº 9.099, de 1995, no

âmbito do Juizado Especial Criminal em Governador Valadares efetivamente tem

contribuído para o processo de redução da vitimização secundária.

Para tanto, os capítulos seguintes servirão para esboçar uma análise do

tratamento dispensado à vítima, desde os primórdios da civilização, até os dias

atuais, estudando o grau de atenção dispensado pelo Poder Público e pela

sociedade organizada, bem como, o avanço da sociedade brasileira no combate à

vitimização, especialmente, a real contribuição das inovações legislativas nesse

sentido, notadamente, os Juizados Especiais Criminais.

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3 A VÍTIMA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE

Feitos os esclarecimentos iniciais acerca da vítima e do objeto de estudo, é

necessário que se proceda a um breve histórico acerca do tratamento dispensado à

vítima ao longo da evolução do direito penal e das sociedades. Nos primórdios da

evolução das sociedades, ela ocupava lugar de destaque quando da punição do

infrator. A persecução penal era orientada no sentido primordial de reparar o dano

sofrido.

Essa política de reparação do dano tinha como escopo a necessidade de

demonstração do poder político, a autoridade divina ou o próprio clamor público pelo

restabelecimento da ordem social, conforme anteriormente afirmado.

Diversas leis elaboradas naquele período demonstram a preocupação com a

reparação do dano e a assistência ao ofendido. Dentre elas, pode-se citar: o Código

de Ur-Nammu, por volta do ano 2000 a. C.; as Leis de Eshnunna, ou o Código de

Hamurabi (Babilônia, aproximadamente 2300 a.C.); o Código de Manu, na India; a

Legislação Mosaica (especialmente o decálogo apresentado por Moisés) e o

Talmude.

Todas as legislações acima influenciaram de algum modo o direito

contemporâneo, contudo, o nosso modelo atual passa longe de ter as mesmas

preocupações com a vítima apresentadas pelas leis antigas.

Todos esses documentos demonstram que o sentido de reparação do dano e

socorro à vítima, ainda que inspirado pelo temor da divindade ou pelo poder político

do governante desejoso de firmar o seu controle, estava impregnado na estrutura

social então vigente.

É bom ressaltar que, apesar de serem tomados como base para exemplificar

o tratamento diferenciado dispensado à vítima durante a idade de ouro, não é

possível considerar tais leis como representação exata do que ocorria no corpo

social.

É que, nem sempre, a legislação é aplicada de modo satisfatório, seja por

falta de completa aceitação social ou por falta de subsídio estatal para a correta

imposição da vontade legal.

Apenas a título de exemplo, cite-se a nossa Lei de Execuções Penais e os

dispositivos da Constituição da República. Se daqui a alguns séculos um estudioso

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deparar-se com tais documentos, desconhecendo detalhes da nossa organização

social, acreditaria que somos uma sociedade invejavelmente igualitária e que

dispensávamos um tratamento digno aos encarcerados. Sabe-se, porém, que a

nossa legislação, por mais vanguardista que seja, não é efetivamente aplicada em

todos os seus termos.

Independente da aplicação exata das leis de proteção à vítima nos primórdios

do Direito Penal importa ressaltar que, àquela época, não existia uma separação

rigorosa entre crime e pecado, portanto, “mais que fornecer à vítima uma satisfação

pessoal, a aplicação da sanção tinha por finalidade restaurar a harmonia perdida

com a prática do delito” (CALHAU, 2003, p. 24).

Desconsiderando-se, por ora, a motivação, o que se percebe é um tratamento

diferenciado dispensado à vitima. A esse período, convencionou-se chamar de “a

idade de ouro”. Não é possível determinar exatamente o seu início e duração, mas,

sabe-se que o declínio começou por volta da Alta Idade Média.

Importante consignar ainda, que a idade de ouro não representa o poder

absoluto da vítima. De acordo com Oliveira (1999, p. 32), “o referido protagonismo

não deve, ainda, ser visto como uma ampla e irrestrita liberdade conferida à vítima

para buscar, da forma que melhor lhe aprouvesse a compensação pelo mal sofrido.”.

É claro que existia a preocupação com a vítima, entretanto, ela não era o único foco.

Com a reparação compulsória pretendia-se também, restabelecer a ordem no

contexto social.

A diferença fundamental, é que, nos modelos atuais de civilização, a principal

motivação para a atuação estatal é o restabelecimento da ordem social. A vítima

tornou-se uma questão secundária, ou terciária, na medida em que, além dela e da

sociedade atingida, deve-se ainda prestar atenção à figura (não menos importante)

do infrator.

O processo de desinteresse pela vítima teve início com a avocação do poder

punitivo pelo Estado. Com este sendo o exclusivo detentor do monopólio da reação

penal, as partes perderam o direito de, por si só, buscar a solução do litígio, sendo

que a figura da vítima é substituída pela do “procurador” (espécie de precursor do

Ministério Público).

Conforme afirmado por Oliveira (1999, p. 34), essa substituição evidencia que

o Estado exige a reparação da ordem pública ferida, fazendo com que a noção de

infração ocupe o lugar dantes preenchido pelo dano. Nesse novo sistema, em que o

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Estado se sente lesado, a vítima começa a assumir um papel meramente

informativo.

Por outro lado, Calhau (2003, p. 26) registra que a neutralização da vítima

está intimamente ligada às origens do processo legal moderno, eis que este

despersonaliza a rivalidade entre as partes, utilizando uma linguagem abstrata e

formal que afasta a vítima do centro das atenções.

Percebe-se que ambos utilizam-se de argumentos diferenciados para

constatar o mesmo fato, qual seja, que a partir da avocação do poder punitivo pelo

Estado e do afastamento entre os conceitos de crime e pecado, o processo passou

a ser mais voltado para a racionalidade e, a vítima foi sendo esquecida à medida

que a organização formal da ciência jurídica se intensificava.

A partir de então, o afastamento da vítima do pólo central do conflito foi,

gradualmente intensificando-se. No fim da Idade Média, com a corriqueira utilização

das práticas de tortura para conseguir confissões e encontrar um “culpado” para os

crimes, a vítima praticamente foi excluída do cenário da Justiça criminal, já que a

sua presença no processo não era necessária sequer como informante.

Mesmo aqueles que começaram a criticar esse modelo de justiça, como

César Beccaria, centram as suas atenções na pessoa do infrator e não da vítima,

entendendo que o delito não ofende apenas o indivíduo, atingindo toda a ordem

social.

De igual modo, as Escolas Clássica e Positivista centraram a sua atenção no

crime e no criminoso, sem se preocupar com o papel da vítima. Considerando que o

conceito jurídico de delito surgiu a partir das proposições da Escola Clássica sem

levar em consideração a vítima, é de se concluir que todo o pensamento jurídico se

orientou no sentido de analisar apenas o crime e o criminoso.

Assim, até o fim da Segunda Guerra Mundial, a vítima permaneceu no

ostracismo, enquanto os estudiosos se empenhavam na definição e estudo dos

elementos do conceito formal de crime e em discutir o finalismo e a teoria causal da

ação2.

O desenvolvimento da criminologia e da política criminal também não

contemplou a vítima, ao menos, nos seus primeiros anos. A exemplo do que ocorria

com o Direito Penal, o pensamento era orientado para o caráter preventivo e/ou

2 Cumpre esclarecer que não se pretende com tal comentário desprestigiar a dogmática penal, apenas é assinalado um período longo em que essa parece ter sido a única preocupação dos penalistas.

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retribuitivo da pena, razão pela qual, mais uma vez, a vítima foi relegada a segundo

plano.

Ao longo dos anos seguintes, a vítima continuou à margem da evolução do

pensamento criminológico. Apenas nas últimas décadas do século XX e início do

século XXI, começou-se a repensar o papel da vítima e a necessidade de ser-lhe

dispensado um tratamento mais cuidadoso no âmbito penal.

A primeira preocupação oficial com a vítima foi manifestada pelo advogado

israelita Benjamim Mendelshon, aclamado como o criador da vitimologia, com a

publicação da obra “Um novo horizonte na ciência biopsicossocial: a Vitimologia”.

A partir daí, a sociedade acadêmica passou a manifestar renovado interesse,

ainda que de forma tímida pela figura da vítima.

No que diz respeito à evolução do Direito Penal no Brasil, a vítima não

encontrou posição diferente: no início, ficou em segundo plano e, nos últimos anos,

tem, gradativamente, reencontrado ao menos parte do seu espaço.

3.1 A VÍTIMA NA HISTÓRIA DO BRASIL

Piedade Júnior (1993, p. 149) aponta como início do despertar brasileiro para

a vitimologia a publicação pela Revista da Faculdade de Direito da Universidade

Estadual do Paraná, em 1959, um trabalho de Paul Cornil, apresentado durante as

Jornadas Criminológicas Holando-Belgas.

A partir daí, profissionais de vários ramos das ciências humanas e sociais

aplicadas começaram a se interessar pelo estudo da vítima, buscando fora do país

conhecimento e material para lançar as bases de um movimento vitimológico no

Brasil.

Ainda de acordo com Piedade Júnior (1993, p. 150), a partir de 1964 os

brasileiros começaram a produzir estudos próprios acerca da vítima e seu papel na

sociedade.

Em 1973, os brasileiros Fernando Whitaker da Cunha, Laércio Pellegrino,

Heber Soares Vargas e Damásio de Jesus participaram do I Simpósio Internacional

de Vitimologia, em Jerusalém. Após o simpósio internacional, aqueles que dele

participaram tentaram trazer ao Brasil a influência e o conhecimento adquirido

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proferindo conferências, relatos escritos e organizando o I Congresso Brasileiro de

Criminologia.

Nesse congresso foram lançadas as bases mais significativas do movimento

de proteção à vítima, com a divulgação e o começo da busca da garantia dos

direitos de reparação do dano, assistência e orientação. (PIEDADE JÚNIOR, 1993,

p. 151).

O interesse acadêmico pela vitimologia continuou a crescer e, em 1984, foi

fundada a Sociedade Brasileira de Vitimologia e, em outubro do mesmo ano,

realizou-se o I Congresso Brasileiro de Vitimologia.

Até hoje a Sociedade Brasileira de Vitimologia tem atuação no país,

promovendo estudos, eventos e publicando material a respeito da vítima, contudo, o

interesse pela vitimologia praticamente se restringe à área acadêmica, salvo raros

profissionais que lidam diretamente com a vítima e se solidarizam com o descaso

com esta é tratada.

Prova de que o interesse tem sido quase que exclusivamente acadêmico, é a

absoluta falta de iniciativas oriundas das autoridades estatais no sentido de proteger

a vítima.

Além do descaso das instituições formais, a sociedade organizada pouco se

importa com a vítima criminal, preferindo assistir passivamente à falta de respeito

com o ofendido a solidarizar-se e promover ações de apoio ou tentativa de solução

de problemas.

Assim, vemos diariamente, uma exposição inconsequente e desrespeitosa da

vítima, do crime e do infrator ser assistida por uma população que parece ter sede

de sangue. É de causar indignação a grande audiência que alcançam programas

sensacionalistas que expõem o delito como espetáculo.

Alguns deles até se escondem atrás de uma máscara de preocupação com a

vítima e desejo de justiça, mas, com o devido respeito, aquele que tem sede por

justiça e quer proteger a vítima não a expõe como uma atração.

Apesar de não haver muita demonstração de preocupação com a vítima

criminal no cenário brasileiro, algumas atitudes já foram tomadas, como a

promulgação da Lei 9.099/95 que apresenta alguns métodos de proteção a vítima, a

previsão de reparação do dano no Código Penal e a garantia no Código de Processo

Penal (art. 201, §4º) de que a vítima deverá ter um lugar separado do ofensor para

aguardar a audiência.

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Ainda que a garantia constante do CPP não seja estritamente cumprida nos

fóruns, já é um avanço o legislador ter incluído tal proteção à vítima.

Para aqueles que se preocupam especialmente com a vitimização

secundária, a inclusão de tal dispositivo no CPP foi motivo de comemoração.

Entretanto, mais uma vez, temos a demonstração de que o desenvolvimento de uma

sociedade não pode ser avaliado exclusivamente pelas lei publicadas, posto que

estas, nem sempre são cumpridas.

22

Page 23: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

4 O TRATAMENTO DISPENSADO À VÍTIMA NO EXTERIOR

Cada sociedade teve o seu momento específico de despertar para a

importância de tratar a vítima de maneira digna e incluí-la como sujeito de direitos no

âmbito penal.

Ao falar acerca desse movimento, os estudiosos citam com destaque a

Europa, especialmente, após o trauma causado pelo regime nazista. (FALOCITO,

2007, p.27).

Merece destaque também, a “Escola de Chicago”, primeiro grupo a

empreender um estudo interdisciplinar organizado da vítima e a considerá-la não

apenas nos Tribunais, mas, em todos os aspectos da vida social, avaliando e

tentando minorar os danos causados pelo delito em todas as áreas da vida do

indivíduo.

Em outros países (como Alemanha, Grécia, Portugal e Itália), verifica-se a

adoção de medidas legais de proteção à vítima, semelhantes ao modelo instituído

pela Lei 9.099/95 no Brasil, que buscam a reparação do dano, substituição de

sanções, simplificação do processo penal e diminuição da carga judiciária e

penitenciária.

Importa esclarecer que, dizer que tais países estão adotando legislações

semelhantes à nossa Lei 9.099/95 não significa afirmar a existência de um

pioneirismo brasileiro na proteção à vítima.

Prova disso é que, na Alemanha, desde 1986, existe uma “Lei de Proteção à

Vítima” que, dentre outras medidas, visa garantir: a preservação do sigilo quanto à

vida pessoal da vítima; a possibilidade de remoção do acusado da audiência e a

restrição da publicidade do processo.

Em Portugal, há a previsão de indenização da vítima pelo dano sofrido em

razão do delito por meio da criação de um seguro social, quando o causador do

dano não tiver condições para fazê-lo.

Da análise dos exemplos supra citados, é fácil perceber que as sociedades

recomeçaram a pensar na vítima enquanto sujeito de direitos e não mera parte

processual ou informante para que a persecução estatal fosse levado a cabo.

23

Page 24: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

Conforme dito acima, cada sociedade, a seu tempo e modo vem tentando

incluir a vítima na esfera de proteção do Direito Penal, adotando diversos

movimentos vitimológicos.

Possivelmente, o local onde o movimento de proteção às vítimas ganhou

maior força e destaque foi nos Estados Unidos. Em 1975 foi criada ali a primeira

organização de assistência á vítima, a Organização Nacional para Assistência

(NOVA).

Essa associação, com sede em Washington, auxilia outras entidades na

realização de programas de apoio, treinamento de agentes, realiza a Semana

Nacional dos Direitos da Vítima e auxilia nos projetos de captação de recursos para

a assistência hospitalar e farmacêutica à vítima impossibilitada de trabalhar.

(FALOCITO, 2007, p. 30).

Também nos Estados Unidos, o “ato das Vítimas de Crime”, de 1984, forçou a

instituição através do Departamento do Tesouro de um fundo exclusivo para as

vítimas, conhecido como VOCA e, o Departamento de Justiça criou o “Office for

Victms of Crime”, que fornece recursos financeiros para assistência da vítima e sua

compensação e promove treinamentos para o atendimento da vítima pela Justiça

Criminal.

Além das atitudes tomadas a nível nacional, os estados da federação

estadunidense criaram os seus próprios programas de assistência à vítima, sendo

que, atualmente, existem várias instituições espalhadas pelo país que lutam pela

garantia dos direitos das vítimas criminais.

Em vários outros países foram criadas instituições semelhantes às

estadunidenses para proteção e assistência à vítima: na Argentina existe o centro de

apoio às vítimas de abuso de poder; na Espanha, há vários centros de proteção e

apoio; em Portugal, a AVAP (Associação de Apoio à Vítima) e, na Austrália, a “The

Victim Support Service Inc. of South Australia”.

Como se percebe, cada país, a seu tempo e modo vem criando mecanismos

de proteção à vítima. Alguns com ideias dignas de inspirar os demais e, outros, em

fase inicial de desenvolvimento da vitimologia.

Ainda assim, é, no mínimo estimulante perceber que, em vários continentes,

tem se buscado, mesmo que timidamente, a proteção da vítima e a diminuição dos

danos psicológicos causados pelo delito.

24

Page 25: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

5 VITIMIZAÇÃO SECUNDÁRIA

Considerando que a vítima passou um longo tempo no ostracismo, é

compreensível e até esperado que, quando ressurgiu no seio da sociedade a

preocupação com ela, tenha sido de maneira deficiente.

Ainda que já existam no Brasil alguns estudos sobre o tema, bem como a

Sociedade Brasileira de Vitimologia, percebe-se que, na prática, a vítima continua

relegada a um papel secundário no cenário criminológico.

É ponto incontroverso entre as opiniões dos estudiosos do assunto, que, além

do dano direto causado pelo delito, a vítima sobre com o atendimento que lhe é

dispensado em delegacias e repartições públicas, com a demora no andamento do

processo e, com a falta de segurança quanto à reparação do dano e à sua própria

segurança e de sua família.

Aos danos causados em razão da ausência de assistência estatal ou

assistência defeituosa e às mazelas decorrentes do procedimento necessário à

apuração do crime, reparação do dano e punição do infrator, convencionou-se

chamar de vitimização secundária.

A principal implicação de tal conceito é a compreensão de que a vítima é

prejudicada pelo sujeito ativo do crime e pelo próprio Estado, na medida em que

este, através dos seus órgãos, causa àquela, danos de ordem psicológica.

Cumpre ressaltar que há uma pequena divergência entre a doutrina

especializada acerca das denominações. De acordo com Oliveira (1999, p. 111),

autores como Luís Rodrigues Manzanera adotam o entendimento de que vitimização

primária é a que atinge uma pessoa em particular; secundária atinge grupos

específicos e, terciária é dirigida contra a comunidade em geral.

Com o devido respeito aos que assim entendem, o posicionamento mais

frequente e que melhor se adéqua à realidade social é o de que a vitimização

primária é aquela causada diretamente pela prática do delito; a vitimização

secundária é a causada pelas “instâncias formais de controle social” (OLIVEIRA,

1999, p. 111); e vitimização terciária é aquela decorrente da falta de assistência

pública e social.

Além da vitimização causada pelos agentes estatais, pode-se ainda

considerar como vitimização secundária, os danos causados pela reação da

25

Page 26: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

sociedade (rejeição e preconceito, dentre outros) e pela exibição desrespeitosa

através dos meios de comunicação, o que ocorre com certa frequência no Brasil.

Não obstante a existência de diversos conceitos, considerando-se a finalidade

do estudo em questão e a melhor adequação do conceito fornecido por Oliveira,

adotar-se-á no corpo do trabalho esta definição de vitimização secundária.

Por outro lado, não serão tecidas maiores considerações acerca da

vitimização primária e terciária, posto que têm implicações completamente diversas

do aspecto abordado pela pesquisa ora desenvolvida.

Partindo do pressuposto que a vitimização secundária está intimamente

ligada a consequências externas ao delito puramente dito, há que se fazer a

ressalva de que nem todos os atingidos pelos mesmos fatores sofrem o mesmo

dano.

O mais comum entre as vítimas é que se sintam desrespeitadas, deixadas de

lado, frustradas com o Estado e suas instituições.

Oliveira (1999, p. 113) afirma que a vitimização secundária causa ainda mais

danos que a vitimização primária, posto que, o sentimento de frustração com as

instâncias formais de repressão ao crime tem um efeito negativo muito maior nos

sentimentos da vítima, já que, ela espera que o Estado seja o protetor e não o

causador dos danos.

Assim, a vitimização secundária pode trazer uma sensação de desamparo e frustração maior que a vitimização primária (do delinquente, a vítima não esperava ajuda ou empatia). Há que se consignar também que a vitimização secundária causa grave perda de credibilidade nas instâncias formais de controle social e a vítima não encontra resposta para a pergunta: “em quem confiar?” (OLIVEIRA, 1999, p. 113).

Na atual construção do sistema penal brasileiro, ainda é possível verificar a

existência de vários fatores que levam quase que diretamente a esse processo de

vitimização secundária.

Sabe-se que o serviço público conta com um número reduzido de funcionários

destinados a atender ao cidadão vítima de delitos e, o número de profissionais

adequadamente preparados para tal função é ainda menor.

Apenas isso, seria suficiente para fazer com que o indivíduo experimentasse

a vitimização secundária, sofrendo danos em razão da espera e de um atendimento

inadequado.

26

Page 27: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

Contudo, além desses problemas, o sistema judiciário, como é de

conhecimento geral, encontra-se abarrotado de processos pendentes de julgamento

e, uma ação penal, por vezes, demora anos para ser decidida. Durante todo esse

tempo, a vítima fica à mercê da própria sorte, aguardando pelo resultado do

processo e sem a sensação de segurança quanto ao resultado final3.

Ora, se o Estado chamou a si a responsabilidade de proteger o cidadão e a

tutela penal, é sua obrigação promover um tratamento digno da vítima. Entretanto,

conforme dito acima, essa preocupação com a vítima renasceu recentemente e,

portanto, tem se manifestado de forma moderada.

Isso não significa que não existam métodos ou disposições legais visando a

proteção da vítima e a reparação, ainda que mínima, dos danos sofridos em razão

do delito, conforme se verá a seguir.

3 Ao falar da falta de segurança da vítima, não se está a defender a volta à “idade de ouro” e

às práticas de vingança privada, que, diga-se de passagem, não traziam qualquer espécie de

segurança jurídica à sociedade, podendo, ao contrário, gerar uma violência em cascata. Defendendo

os direitos da vítima, busca-se a instituição de uma sociedade mais solidária e que preza pelas regras

de direito individual e coletivo, posto que, todas as vezes que uma vítima tem o mínimo de reparação

dos danos causados pelo delito, a sociedade sente-se mais segura e confiante no Estado e,

consequentemente, o cidadão terá menos desejo de “fazer justiça com as próprias mãos.”

27

Page 28: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

6 MEDIDAS DE PROTEÇÃO À VÍTIMA

As tentativas de minorar o sofrimento da vítima têm surgido em diferentes

campos, mas, é no direito penal e nas políticas de segurança pública onde tem sido

vistas as contribuições mais efetivas.

Analisando as diversas propostas já apresentadas para esse fim, é possível

identificar entre elas uma semelhança fundamental: praticamente todas visam

garantir os direitos da vítima em duas esferas, quais sejam, segurança e reparação

do dano.

Assim, nos Estados Unidos, buscou-se com o movimento Lei e Ordem,

colocar a vítima no centro dos programas de segurança pública; foram criados

inúmeros programas de assistência à vítima criminal; em vários países criaram-se

fundos de compensação às vítimas; são propostas várias reformas legislativas a fim

de garantir um andamento célere dos processos judiciais e proporcionar a reparação

do dano.

Nem todas essas ideias foram colocadas em prática ou deram absolutamente

certo, mas, serviram para fundamentar o movimento de proteção à vítima e subsidiar

a criação de medidas efetivas de proteção.

Exemplo de proposta que não teve aplicabilidade integral e, por outro lado,

subsidiou diversas outras foi a Declaração dos Princípios Básicos de Justiça para as

Vítimas de Delitos e Abuso de Poder, aprovada pela Assembléia Geral da ONU em

1985.

De acordo com o documento acima citado, as vítimas devem ser tratadas com

respeito e dignidade, garantindo o acesso amplo, irrestrito e facilitado aos órgãos

jurisdicionais. O documento em questão prevê ainda, a criação e melhoramento dos

mecanismos públicos de atendimento à vítima, presteza nas informações e garantia

de reparação do dano sofrido em razão do delito.

No que diz respeito ao Brasil, nem todas essas medidas foram tomadas a

tempo e modo, contudo, gradativamente, são tomadas providências a fim de garantir

todos os direitos previstos pela Declaração, da qual o país é signatário.

Cumpre ainda ressaltar, que, apesar de as medidas de satisfação à vítima e

reparação do dano terem ganhado força, não é um trabalho fácil inserir no campo do

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Page 29: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

direito e das políticas públicas os mecanismos necessários à realização de tais

medidas.

“O problema não é mais saber se se deve ou não atender aos interesses da

vítima no direito penal, mas, sim, como fazê-lo.” (OLIVEIRA, 1999, p. 138). A frase

acima, publicada há mais de uma década, ainda hoje se mostra atual.

A mesma diversidade de propostas verificada pela autora ainda se faz

presente nos dias atuais. As propostas vão desde as ideias abolicionistas, passando

pelos modelos de conciliação e mediação à sugestão da adoção da Broken

Windows Theory4.

Ainda segundo Oliveira (1999, p. 140), pode-se classificar as medidas de

satisfação à vítima em quatro categorias. A primeira delas compreende os modelos

de conciliação e mediação entre a vítima e o autor do delito; a segunda, trata de

medidas que promovem a reparação voluntária no curso do processo penal; a

terceira, diz respeito a alterações legislativas que utilizam a reparação do dano como

pena; a quarta e última, é uma combinação entre o procedimento civil e penal, em

que, após verificada a existência do delito, o Estado, através dos órgãos judiciais,

reconhece à vítima o direito de reparação.

Atualmente, a corrente mais forte, dentre essas quatro parece ser a que

aponta para a justiça consensual, que, embora de formas diferentes em cada lugar

onde é adotada baseia-se nas ideias de pacificação e conciliação.

Tendo em vista que os Juizados Especiais, que são objeto do presente

estudo, baseiam-se no em princípios da Justiça Consensual, serão tecidas

considerações mais elaboradas apenas acerca desta categoria de proteção à vítima.

4 Conhecida no Brasil como Teoria das Janelas Quebradas, a ideia atribuída aos americanos James Q. Wilson e George Kelling, propõe uma política de repressão e tolerância zero à criminalidade, ao argumento de que a expectativa de impunidade faz com que a criminalidade se alastre destruindo a organização social.

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Page 30: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

7 A JUSTIÇA CONSENSUAL E A VÍTIMA

Após séculos de desenvolvimento de um Direito Penal com base no

formalismo e na burocracia, constatou-se que é preciso dinamizar o acesso à justiça,

eliminando parte do rigor formal e conduzindo o processo com o fim de garantir à

vítima e também ao autor do delito (posto que este também é cidadão e deve gozar

de direitos e garantias individuais) a prestação jurisdicional rápida e eficiente.

Para tanto, tem-se buscado estimular a conciliação e a solução pacífica de

conflitos, especialmente, em se tratando de crimes de menor potencial ofensivo.

No modelo tradicional de Justiça Criminal toda a sistemática é voltada para

uma decisão formal do caso. A “solução” apresentada pelo Estado é quase sempre

a aplicação da pena de prisão, satisfazendo a pretensão punitiva deste.

A reparação do dano é sempre vista como matéria secundária e a vítima mais

como informante do que parte interessada no deslinde do caso e aplicação da

Justiça.

O crime é visto como “mero enfrentamento” entre o seu autor e as leis do Estado, esquecendo-se que em sua base há um conflito humano que gera expectativas outras bem distintas e além da mera pretensão punitiva estatal. A vítima é encarada como mero objeto, dela se espera que cumpra seu papel “testemunhal”, com todos os inconvenientes que isso acarreta. (MOLINA E GOMES, 1997, p. 448).

Diante da situação de completo descaso a que a vítima foi relegada ao longo

dos últimos séculos, os modelos de Justiça Consensual em que se busca uma

aproximação das partes entre si e com o Poder Público, visando a reparação do

dano, afiguram-se como uma forma de resgate do papel da vítima.

Aplicando-se os princípios de reparação do dano e resolução real do conflito

oriundo da prática do delito, poderá acontecer o resgate da vítima e a sua

transformação em sujeito de direitos, posto que no modelo processual tradicional ela

atua praticamente como informante.

Além da reparação do dano que é buscada no modelo consensual, tem-se a

favor da vítima o fato de que o processo judicial será mais célere, menos burocrático

e ela se sentirá mais integrada ao Estado enquanto instituição.

30

Page 31: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

Alguns objetam que, buscando-se a reparação do dano e a solução do caso

através do consenso entre as partes, estar-se-ia descaracterizando o Direito Penal,

que perderia sua razão de ser sem a aplicação de penas.

Sobre esse assunto, vale citar a observação feita por Molina e Gomes (1997,

p. 452):

Particularmente no que diz respeito à pequena e média criminalidade, a reação (punitiva) estatal que tenha por base só a pena de prisão ou pena de multa retributiva, ou ambas cumulativamente, espelha um conceito clássico ou neoclássico de retribuição (“paleorepressivo”) porque alberga, quase que exclusivamente os interesses da pretensão estatal de punir, de castigar.

Considerando que vivemos em um chamado Estado Democrático de Direito,

deve-se atentar para o fato de que o Estado tem o dever de zelar, primordialmente,

pelos interesses da coletividade.

Sabe-se ainda, que a pena de prisão, ao menos da maneira como é

atualmente aplicada não tem o condão de atender aos anseios da sociedade, posto

que não cumpre o seu papel ressocializador e ainda gera despesas enormes

suportadas pelos cofres públicos.

Por outro lado, a solução dos conflitos por meio do consenso, no caso dos

crimes de menor potencial ofensivo, em que a regra é que o autor do delito não

ofereça risco à sociedade, além de ser menos gravosa economicamente para a

coletividade, proporciona à vítima a sensação de segurança jurídica, celeridade e

satisfação pela reparação do dano.

Ressalte-se ainda, que o modelo consensual beneficia não só a vítima e a

sociedade organizada, como o autor do delito, posto que este não ficará marcado

pelo resto da sua vida com o estigma do criminoso, poderá voltar normalmente ao

convívio social e familiar, encontrar um emprego digno e ser tratado como igual

pelos seus semelhantes.

Ao contrário, quando se trata do modelo puramente repressivo, em que a

principal pena aplicada é a prisão, o processo costuma ser extremamente

demorado, o atendimento à vítima é precário e, o autor do crime, caso condenado,

será considerado a partir daí como um “criminoso” ou “ex-presidiário”, ainda que o

delito cometido seja de pequena monta e risco social.

Como consequência, dificilmente encontrará um emprego decente, tendo que

contentar-se com um sub-emprego e um salário por vezes insuficiente para

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Page 32: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

sobreviver em condições compatíveis com a dignidade intrínseca a todo ser

humano.

Nessas condições, as chances de voltar a delinquir, gerando novas vítimas e

novo transtorno à sociedade, são imensas.

Tendo em vista todos os pormenores acima, é facilmente perceptível que a

solução dos conflitos por meio do consenso pode ser uma das formas mais viáveis

de proteger a vítima sem voltar aos tempos remotos da vingança privada.

Trata-se da ideia de reparação... que pode contribuir muitíssimo para o cumprimento dos fins da pena, daí sua importância político-criminal; ela está a serviço do “restabelecimento da paz jurídica” (pois tanto a vítima como a sociedade, em virtude da reparação do dano social provocado, sentem realizadas suas expectativas de reparação, de ser desculpada etc.), bem como de uma “eficaz ressocialização” (na medida em que obriga o infrator a suportar as conseqüências do seu ato, assim como a perceber e considerar os interesses da vítima, o que é impossível por meio da simples pena-castigo, além de fomentar o reconhecimento e o respeito da norma e do Direito, sem contar que pode ainda produzir uma “reconciliação” entre autor e vítima e com isso facilitar a reinserção social). (MOLINA E GOMES, 1997, p. 454-455).

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Page 33: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

8 OS JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS E A VÍTIMA

No Brasil, as principais manifestações no sentido de garantir os direitos da

vítima foram a organização da Sociedade Brasileira de Vitimologia e a promulgação

da Lei nº 9.099, de 1995, que instituiu os Juizados Especiais Criminais.

Desde a promulgação da Constituição da República, em 1988, teve início a

uma série de ideias e projetos para implantação dos Juizados Especiais, a fim de

dar cumprimento ao art. 98, I da Constituição que dispõe sobre a necessidade de

tais órgãos.

O impulso inicial foi dado por dois juízes de São Paulo, Pedro Luiz Ricardo Gagliardi e Marco Antonio Marques da Silva, que, em seguida, contaram com a colaboração de Hermínio Alberto Marques Porto e Nélson Nery Júnior. Ofereceram à Associação dos Magistrados minuta de anteprojeto de lei federal, disciplinando a matéria, que depois se converteu em projeto de lei. (FERNANDES, 2010, p. 22).

Da análise desse projeto, surgiu o projeto de lei apresentado pelo então

deputado Michel Temer, sob o nº 1.480/89.

Referido projeto utilizou como base ideológica as legislações italiana e

portuguesa, que buscavam a desburocratização do processo penal e utilização do

Direito Penal apenas como ultima ratio, tendendo à descriminalização e aplicação de

penas de multa e penas alternativas.

Outros projetos relacionados tanto com a competência penal quanto a cível

foram apresentados e, ao final, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara

dos Deputados aprovou, no que diz respeito aos Juizados Especiais Criminais, o

projeto do deputado Michel Temer e, em relação à área cível, o projeto apresentado

pelo deputado Nelson Jobim.

Ao aprovar os projetos acima, a Comissão de Constituição e Justiça unificou-

os em um Substitutivo, porém, conservando as disposições feitas nos projetos

intactas.

O Substitutivo foi aprovado na Câmara dos Deputados e remetido ao Senado,

onde foi completamente alterado por outro de autoria do senador José Paulo Brisol.

Quando retornou à Câmara, o Substitutivo do Senado foi rejeitado e, mantido

o projeto original que reunia as ideias de Michel Temer e Nelson Jobim.

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Page 34: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

Considerando que a Constituição foi promulgada em 1988 e, a Lei dos

Juizados Especiais só o foi em 1995, alguns Estados da federação, no intuito de

desburocratizar o acesso à Justiça criaram os seus próprios juizados especiais

através de leis estaduais, o que acendeu um debate acerca da constitucionalidade

de tais leis.

Posteriormente, as leis estaduais que criavam juizados especiais foram

julgadas inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal e, atualmente, todos os

juizados em funcionamento no território nacional seguem os ditames da Lei

9.099/95.

Ao instituir os Juizados Especiais Criminais, o legislador inspirou-se num

modelo de Justiça Consensual, em que, ao mesmo tempo em que se satisfaz a

pretensão punitiva do Estado, busca-se a reparação do dano causado à vítima,

sendo que, a reparação de tal dano, gera benefícios ao infrator.

A busca pela Justiça Consensual na Lei de Juizados Especiais é tão evidente,

que já no seu art. 3º, é ressaltada a necessidade de buscar-se a conciliação ou

transação.

Evidenciando o caráter de preocupação com a vítima, o art. 62 da Lei acima

referida ressalta que um dos objetivos principais do processo perante os Juizados

Especiais Criminais é a reparação civil dos danos sofridos pela vítima.

Assim, a vítima que outrora era vista como mero informante no procedimento

judicial passa a ocupar lugar de destaque no âmbito dos Juizados Especiais.

Interessante notar que, a princípio, a ideia orientadora dos Juizados não é a

simples punição do infrator, mas sim, a reparação do dano. Prova disso é que a

representação da vítima ou o pedido de aplicação da pena privativa de liberdade,

formulado pelo Ministério Público, só tem lugar se frustrada a tentativa de

composição dos danos.

A simples leitura da Lei nº 9.099 é suficiente para demonstrar que faz parte do

escopo dos Juizados Especiais Criminais proporcionar à vítima um tratamento digno,

buscando a reparação dos danos sofridos, bem como, assegurando-lhe a prestação

jurisdicional de maneira mais célere, eis que um dos princípios informadores dos

Juizados é a celeridade processual.

Além da celeridade, a busca pela composição civil de danos serve para

transmitir à vítima uma sensação de satisfação e reparação que, em certos casos é

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Page 35: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

tem muito mais significação para esta do que a simples aplicação de um pena

privativa de liberdade ao ofensor.

Não obstante, sabe-se que, nem sempre é possível aplicar-se a legislação de

modo satisfatório, cumprindo-se todas as exigências ali impostas5. No que se refere

aos Juizados Especiais Criminais, as maiores preocupações com o descumprimento

das disposições legais dizem respeito à duração do processo e ao grau de

satisfação dos interesses da vítima.

Ressalte-se que os dois problemas estão interligados, eis que, em algumas

regiões do país, a alta demanda aliada ao pequeno número de funcionários e falta

de preparo institucional tem feito com que os processos nos Juizados Especiais

tenham uma duração muito maior do que o esperado para um procedimento célere.

Em alguns locais, verifica-se que a pauta está de tal modo sobrecarregada, que as

audiências são marcadas para um período de até seis meses após a procura da

vítima pelo Poder Judiciário.

Tal demora no processo, além de minar a confiança da vítima no Estado, faz

com que, por ocasião da audiência, o ofendido seja impelido pela pressa e pela

insegurança a aceitar uma reparação bem inferior à que teria direito, ou, aceitar a

proposta apenas para ver-se livre do trâmite processual, não ficando efetivamente

satisfeito, sem a sensação de reparação do dano.

Conforme acima exposto, o processo de vitimização secundária tem estreita

relação com o tratamento dispensado à vítima pelos órgãos públicos incumbidos de

exercer o poder punitivo e com a reparação do dano por ela sofrido.

Considerando que um dos objetivos dos Juizados Especiais é trazer de volta

a vítima a um lugar de destaque no sistema penal, é de salutar importância que se

verifique qual a sua efetiva contribuição para a diminuição da vitimização

secundária, inclusive para que se tenha ideia de quais medidas se afiguram

necessárias à melhora do tratamento dispensado ao ofendido.

8.1 A BUSCA PELA CONCILIAÇÃO

5 Cite-se, a título de exemplo, a Lei de Execuções Penais, que apesar de assegurar uma série de garantias ao preso e já terem se passados décadas de sua promulgação, ainda não é cumprida integralmente no Brasil.

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Page 36: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

Não há dúvidas de que a implantação dos Juizados Especiais representou um

avanço extremamente significativo para a Vitimologia no Brasil.

A Lei 9.099/95 ao descrever como seria o processo nos Juizados deixa claro

que está tratando do crime sob uma nova ótica. Enquanto que nos modelos

tradicionais, em que a persecução penal ocupa o lugar central, a vítima tem papel

meramente informador, no processo perante os Juizados Especiais, que visa em

primeiro lugar a conciliação, ela ocupa o papel principal.

O fato de se buscar a conciliação e a transação demonstra a preocupação

com a solução do conflito e não mais com a mera decisão formal acerca do crime e

cuja pena deverá ser aplicada ao infrator.

8.2 REPARAÇÃO DO DANO

A Lei 9.099/95, ao prever a busca pela conciliação, facultou a possibilidade de

que ela seja feita de duas formas: por meio da composição civil ou da transação.

Quando a conciliação ocorre por meio da transação penal, a vantagem para a

vítima é a certeza de que chegou ao fim o processo judicial e o caso foi solucionado.

A previsão de conciliação que mais atende aos interesses da vítima, portanto,

é a composição civil, posto, que havendo a reparação do dano, além de perceber

que foi aplicada ao infrator uma penalidade e sentir que o Estado cumpriu o seu

papel de controle social, a vítima terá a satisfação pessoal e visualizará uma solução

“concreta” do conflito, posto que terá ressarcido o seu prejuízo material de maneira

mais rápida e garantida.

A composição civil, após a homologação, terá eficácia de título executivo,

assim, ao contrário do que acontece no sistema penal clássico, a vítima não terá

necessidade de aguardar todo o trâmite processual, a prolação de sentença e seu

trânsito em julgado, para promover a execução civil da sentença que, além de tudo,

não apresenta o quantum devido, fazendo com que ela ainda tenha que aguardar a

liquidação.

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Page 37: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

Obtendo-se a composição civil, a vítima terá um título líquido, certo e exigível

em um espaço de tempo consideravelmente menor. Logo, espera-se que ela não

passe por todos os transtornos que causam a vitimização secundária.

8.3 MANIFESTAÇÃO DE VONTADE DA VÍTIMA PARA A INSTAURAÇÃO DO

PROCESSO

Além da busca pela conciliação, a Lei 9.099/95 introduz outras medidas que

são consideradas como proteção à vítima. É o caso da exigência de representação

para o exercício de ação nos crimes de lesão corporal leve e lesão corporal culposa.

No caso desses crimes, antes do procedimento instituído pela lei em questão,

vários processos eram levados adiante, com a conseqüente exposição da vítima,

independentemente da vontade desta.

Conforme já ressaltado antes, a exposição da vítima no decorrer de um

processo criminal e todas as situações desagradáveis pelas quais passa durante a

instrução criminal já são extremamente nocivas a ela, quanto mais, se

considerarmos que o processo em questão está sendo movido sem a sua

manifestação de vontade, que é uma das bases do Estado Democrático de Direito.

Assim, a Lei 9.099/95 fez que vários processos desnecessários deixassem de

ser iniciados.

Por outro lado, proporcionou que várias questões que antes não chegavam ao

conhecimento formal do Estado fossem levadas aos tribunais, posto que a vítima, no

âmbito dos Juizados Especiais, pode postular em causa própria e, a propositura da

ação independe de prévio pagamento de custas.

Além disso, com a desburocratização e simplificação da fase processual, o

caso chega ao juízo com mais celeridade, transmitindo à vítima uma sensação de

acolhimento e de presteza estatal na resolução do seu problema,fazendo com que

ela recupere, ao menos em parte a confiança no Estado ao qual está vinculada.

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Page 38: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

8.4 PROXIMIDADE COM JUÍZES E PROMOTORES

Outra inovação instituída pela Lei 9.099/95 que transmite segurança à vítima

é o princípio da informalidade. Em razão desse princípio, juízes e promotores têm

uma atuação muito mais próxima do jurisdicionado do que no processo penal

tradicional em que atuavam distantes, protegidos por uma aura de autoridade que os

afastava do cidadão comum, fazendo com que fossem vistos como parte da

instituição formal.

Com efeito, durante muito tempo, para a maioria dos cidadãos comuns, o

promotor de justiça (especialmente os que atuam na área criminal) foi visto como o

responsável pela acusação, como o indivíduo que busca, incessantemente, a

condenação de outro.

O juiz, por sua vez, era visto como um ser distante, imbuído de um poder

quase místico, que poderia aplicar as penas mais absurdas a um cidadão pela

prática de um delito.

Após o advento da Lei dos Juizados Especiais, em razão da informalidade,

esses dois servidores do judiciário passaram a atuar bem mais perto da sociedade,

tendo que ouvir as partes com mais atenção e buscar a conciliação de maneira mais

efetiva.

Essa aproximação faz com que a vítima não só se sinta integrada ao sistema

penal, como também mostra a ela que, aqueles que estão incumbidos da função de

conduzir o processo são pessoas comuns e se preocupam (ainda que apenas no

exercício de sua função) com elas.

O sentimento de respeito e acolhimento pode trazer à vítima quase tanta

satisfação quanto a reparação do dano sofrido ou a condenação do ofensor a uma

pena privativa de liberdade.

Tratando-se de um procedimento informal, as partes sentem-se mais acolhidas e participantes, têm maior liberdade de expressão; os promotores, juízes e advogados têm necessariamente uma atuação mais próxima a elas, mais aberta. Existe diálogo e não apenas um “questionário” como nos procedimentos tradicionais. Sem dúvida, o grau de satisfação das partes envolvidas deve muito a esse fator. Em termos vitimológicos, a Lei 9.099/95 evita, ou, na pior das hipóteses, minimiza a vitimização secundária. OLIVEIRA (1999, p. 161-162).

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Conforme pode ser percebido, a Lei 9.099/95 inovou e muito no sistema penal

brasileiro, revelando a intenção do legislador de “testar um novo modelo de Justiça

Criminal” (MOLINA E GOMES, 1997, p. 438).

Abriu-se no campo penal, ao menos no que diz respeito à letra da lei, um

espaço para o consenso e para o diálogo, demonstrando que a preocupação central

não deve ser a simples decisão do caso, mas uma solução para o conflito.

Diante de tais inovações, toda a sociedade deveria ter ser preparado para

aplicar a uma apreciação diferenciada do fato criminoso. De igual modo, os

profissionais da área jurídica (juízes, promotores, advogados, servidores dos

Tribunais, policiais, etc) deveriam ter se preparado para, além de aplicar

corretamente a lei, desempenharem o papel de propulsores da conciliação no

âmbito penal. (MOLINA E GOMES, 1997, p. 439).

Contudo, na prática, verifica-se que nem todas as disposições da legislação

são aplicadas satisfatoriamente, especialmente, no que diz respeito ao atendimento

da vítima e celeridade processual.

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9 O JUIZADO ESPECIAL CRIMINAL EM GOVERNADOR VALADARES

Mesmo com todas as inovações instituídas pela Lei 9.099/95 e a previsão de

um andamento processual célere, não é difícil constatar que, nem sempre se

consegue cumprir com os objetivos previstos pela legislação.

No caso dos Juizados Especiais, esbarra-se no velho problema da falta de

servidores públicos suficientes e dificuldade de acesso ao local da prestação

jurisdicional, dentre outras coisas.

Em Governador Valadares, durante muito tempo, o Juizado Especial

funcionou nas dependências do Fórum local. Em 20/06/2008, foi transferido para um

prédio próprio, porém, até o final de 2009 funcionava com uma única unidade

destinada às causas de natureza criminal.

No final de 2009, ao ser transformado em Unidade Jurisdicional, passou a

contar com três “varas” criminais, contudo, continua a dispor apenas de uma

secretaria para administrar os processos distribuídos.

Nessas condições é praticamente impossível que se tenha uma prestação

jurisdicional com a celeridade esperada pela população, ainda que os processos ali

distribuídos tenham trâmite mais rápido do que aqueles em curso perante as Varas

Criminais6.

De acordo com os dados fornecidos pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais

e esquematizados na tabela abaixo, só no período compreendido entre novembro de

2009 e abril do corrente ano (seis meses), foram distribuídos na Unidade

Jurisdicional de Governador Valadares 2.560 processos criminais. Aplicando-se a

média, tem-se a distribuição de, aproximadamente, 427 processos ao mês.

1ª UJ Nov/09 Dez/09 Jan/10 Fev/10 Mar/10 Abr/10drist trans dristr Trans Dristr trans dristr trans dristr Trans dristr trans

1ª JD 1 70 142 31 112 15 123 32 298 34 199 212ª JD 31 3 134 3 106 5 104 8 292 25 170 103ª JD 31 0 133 4 105 5 100 3 300 22 179 15

63 73 409 38 323 25 327 43 890 81 548 46

6 Tal afirmativa só pode ser demonstrada pela experiência comum, posto que os únicos dados fornecidos pelo Tribunal de Justiça para publicação dizem respeito à quantidade de processos distribuídos por mês e a quantidade de transações penais efetuadas.

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Considerando que prestam serviços ali três juízes, também responsáveis pela

área cível e há apenas uma secretaria, percebe-se o quanto ainda é necessário ser

feito em matéria de melhorias na prestação jurisdicional.

Não é necessário efetuar cálculos complexos para perceber que, com a

quantidade de juízes e servidores disponibilizados para processar e julgar todos

esses feitos, a previsão futura é que o andamento processual se torne ainda mais

lento.

Por mais que o procedimento no Juizado Especial seja simplificado e informal,

faz-se necessária a presença dos juízes em audiência (inclusive para cumprir um

dos propósitos da Lei 9.099/95 que é a aproximação das partes com os

responsáveis pela jurisdição) e são necessários servidores para efetivar o trâmite

processual.

Também não se afigura razoável que uma única secretaria seja responsável

pela administração da grande quantidade de processos existentes e, organizar a

ligação entre processos e respectivas unidades (utilizado aqui como sinônimo de

vara, já que, com a nova organização da Unidade Jurisdicional, não há terminologia

própria, tanto que, são identificados no SISCOM como 1ª, 2ª e 3ª JD) para as quais

foram distribuídas.

Não obstante o número reduzido de servidores, ainda de acordo com os

dados do Tribunal de Justiça, no mesmo período de tempo, foram efetuadas 306

transações penais, ou seja, uma média de 51 transações por mês, o que evita o

acúmulo de vários processos.

Óbvio que se trata de um número reduzido de transações penais se

comparadas com o número de processos distribuídos, porém, tendo em vista a falta

de condições organizacionais, é animador imaginar que teremos menos algumas

vítimas aguardando ansiosamente o final do processo.

Considerando que os dados acerca da quantidade das conciliações e da

reparação de danos obtidos através do Juizado Especial são de natureza sigilosa,

em respeito à privacidade das partes envolvidas, não é possível aferir se a Unidade

Jurisdicional tem cumprido a vontade legal de satisfação da vítima pela reparação do

dano.

O grau de satisfação da vítima com o Juizado Especial em Governador

Valadares só pode ser avaliado mediante pesquisa empírica, o que foge ao objetivo

do presente trabalho. Ainda assim, é fácil perceber, que, mesmo diante dos

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problemas ainda enfrentados e da necessidade de investimentos pelo poder público,

há uma maior aproximação do cidadão com o Estado a partir da utilização do

Juizado Especial.

Mesmo que essa aproximação não seja a esperada pelos defensores dos

direitos das vítimas e pelas próprias vítimas, foram dados passos importantes no

sentido de buscar uma reinserção do ofendido no sistema penal e, a diminuição da

vitimização secundária.

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Page 43: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

10 CONCLUSÃO

Após séculos relegada ao ostracismo, a vítima vem, gradativamente,

reconquistando um lugar de onde pode ao menos ser vista como parte interessada

no processo criminal.

No Brasil, ainda é utilizado um sistema penal com ênfase na pessoa do autor

do crime, em que a vítima geralmente é deixada à margem.

A vítima criminal ainda enfrenta o descaso, a falta de respeito e de assistência

tanto do Estado como da sociedade organizada.

Contudo, percebe-se que, aos poucos, de maneira tímida, ela vem

conquistando um espaço e direitos que sempre deveriam ter sido reservados para

ela.

Com a promulgação da Lei 9.099/95, que instituiu os Juizados Especiais

Criminais, há quase quinze anos, acreditou-se que a vítima passaria a ter vários

direitos garantidos.

Com efeito, a Lei 9.099/95 foi uma verdadeira revolução no que diz respeito à

preocupação com a vítima no Brasil. Não obstante, na prática, o que se percebe é

que muito pouco da ideia original vem sendo cumprido.

Ressalte-se que a própria promulgação da lei não foi antecedida por um

debate organizado e a sociedade não foi preparada para receber as mudanças

instituídas pela nova norma.

Desse modo, a lei foi promulgada, entrou em vigor e está sendo aplicada em

todo o território brasileiro.

Muito embora boa parte da população sequer soubesse de que se tratava a

nova norma que estava sendo implantada no país, era de se esperar que ela fosse

beneficiada pela celeridade e preocupação com a vítima previstas no texto legal.

Porém, a vítima continua a não ter o seu espaço garantido. Existem os

juizados especiais, em que deveria ser assegurado, no mínimo um trâmite

processual célere, mas, nem isso foi alcançado efetivamente, demonstrando mais

uma vez que a legislação nem sempre representa o exato retrato da sociedade no

seio da qual está inserida.

No caso dos Juizados Especiais, verifica-se que não existem servidores

suficientes para atender toda a demanda existente, o espaço a eles destinado nem

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sempre é o mais adequado e, tudo isso somado à falta de conhecimento técnico da

maioria e falta de recursos para contratar um profissional especializado da maioria

da população que procura os Juizados Especiais, redunda numa prestação

jurisdicional deficiente que não atende às expectativas da população.

Na situação específica de Governador Valadares, existe apenas uma

secretaria criminal da Unidade Jurisdicional e apenas três juízes que respondem

pelos juizados cíveis e criminais.

São distribuídos, aproximadamente, 427 processos criminais ao mês e não é

crível que, com a atual estrutura física e organizacional seja possível atender com a

qualidade merecida pelo cidadão, condizente com um Estado de Direito.

Ainda assim, pode-se dizer que a instituição dos juizados especiais criminais

contribuiu para a diminuição da vitimização secundária, ainda que não tanto quanto

pretendido por aqueles que buscam um tratamento digno para a vítima.

É que, após a sua criação, com a possibilidade de composição civil imediata,

uma duração menor dos processos (ainda que não se tenha toda a celeridade

desejada) e aproximação das partes com os chamados operadores do direito, a

vítima, no mínimo, pode se sentir um pouco menos abandonada.

Falta muito para que se possa afirmar indubitavelmente que a vítima

finalmente é respeitada e tratada de forma adequada, mas, já é motivo para que

haja menos revolta a existência de medidas, ainda que insuficientes, para a proteção

e satisfação da vítima.

Para que se possa alcançar, em algum momento, o tratamento ideal para a

vítima é preciso que a sociedade se conscientize de que a vítima é a parte do

processo que precisa de mais atenção.

Claro que o autor do crime deve ser tratado com dignidade e respeito,

entretanto, não restam dúvidas de que a vítima é a mais atingida por todos os

aspectos da infração, especialmente, os transtornos que o Estado, através dos seus

prepostos, de forma consciente ou não causa.

Havendo conscientização da sociedade, poderão ser exigidas medidas mais

eficazes de proteção à vítima, posto que, nos sistemas democráticos, o poder

emana (ou deveria) do povo.

Se este exige com firmeza e amparado por argumentos sólidos, os

governantes e autoridades estatais acabam por ceder.

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Page 45: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

Por fim, vale lembrar que a vítima é parte da sociedade e, qualquer um,

independente da classe social ou grau de instrução pode vir a ocupar o lugar de uma

vítima criminal em determinado momento da vida, razão pela qual, a proteção às

vítimas não é apenas um anseio altruístico, mas, uma atitude de prevenção.

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Page 46: A contribuição dos Juizados Especiais Criminais na diminuição da vitimização secundária

REFERÊNCIAS

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BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689: Código de Processo Penal. Brasília: 03 de outubro de 1941.

BRASIL. Lei nº 9.099: Lei dos Juizados Especiais. Brasília: 26 de setembro de 1995.

CALHAU, Lélio Braga. Vítima e Direito Penal. 2. ed. Belo Horizonte: Mandamentos, 2003.

FALOTICO, Carla. Vitimologia. 2007. 53f. Monografia (Graduação em Direito) – Centro Universitário Eurípedes de Marília, Fundação de Ensino Eurípedes Soares da Rocha, Marília, 2007. Disponível em: <www.univem.edu.br/cursos/tc.../carla_falotico.pdf>. Consultado em 18/05/2010.

FERNANDES, Antônio Scarance. O Consenso na Justiça Penal Brasileira. Disponível em: <www.direitoprocessual.org.br/.../15%20FERNANDES,%20Antônio%20Scarance%20>. Consultado em 18/05/2010.

MOLINA, Antonio García-Pablos de; GOMES, Luiz Flávio. Criminologia: introdução a seus fundamentos teóricos. 2. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1997.

OLIVEIRA, Ana Sofia Schmidt. A vítima e o direito penal: uma abordagem do movimento vitimológico e seu impacto no direito penal. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1999.

ORGANIZAÇAÕ DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração dos Princípios Básicos de Justiça para as Vítimas de Delitos e Abuso de Poder. Disponível em: <http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/ajus/prev29.htm>. Consultado em 18/05/2010.

PIEDADE JÚNIOR, Heitor. Vitimologia: evolução no tempo e no espaço. Rio de Janeiro: Freitas, 1993.

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SILVA, Mônica Gonçalves. Breves considerações sobre a Vitimologia. Disponível em: <http://www.buscalegis.ufsc.br/>. Consultado em 09/04/2010.

SMANIO, Gianpaolo Poggio. Criminologia e Juizado Especial Criminal: modernização no processo penal. Controle social. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1998.

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APÊNDICE I – REQUERIMENTO AO JUIZ DIRETOR DO FORO

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Excelentíssimo Senhor Juiz Diretor do Foro da Comarca de Governador

Valadares/MG

Kaline da Silva Santos, acadêmica do 9º período do curso de Direito da

Universidade Vale do Rio Doce, vem solicitar autorização para utilizar dados

referentes ao Juizado Especial Criminal desta Comarca a serem publicados em

Trabalho de Conclusão de Curso e, para tanto, apresenta as informações a seguir:

1. Trata-se de monografia cujo título é A CONTRIBUIÇÃO DOS JUIZADOS

ESPECIAIS NA DIMINUIÇÃO DA VITIMIZAÇÃO SECUNDÁRIA, que deverá ser

apresentada à Universidade acima citada em agosto do corrente ano, tendo por

objetivos aqueles descritos no projeto de pesquisa em anexo;

2. O trabalho possui características puramente acadêmicas, sendo que os

dados ali publicados serão utilizados apenas para esse fim;

3. Os dados que se pretendem utilizar são: quantidade de processos

distribuídos nos últimos seis meses no Juizado Especial Criminal, quantidade de

transações penais obtidas; duração média dos processos;

4. Os dados acima serão colhidos através da análise dos “mapas” da

secretaria da Unidade Jurisdicional em questão;

5. Ao publicar os dados na monografia serão tomadas todas as providências

necessárias a fim de assegurar o sigilo referente à identificação das pessoas

envolvidas nos processos.

Prestados os esclarecimentos acima, requer autorização para que a

Secretaria Criminal do Juizado Especial (1ª UJ) forneça os mapas referentes aos

últimos seis meses.

Governador Valadares, 28 de abril de 2010.

Kaline da Silva Santos

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ANEXO I – DADOS FORNECIDOS PELO TRIBUNAL DE JUSTIÇA

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Quantidade de processos distribuídos e transações penais na 1ª UJ de Governador Valadares/MG

1ª UJ

NOV/09 DEZ/09 JAN/10 FEV/10 MAR/10 ABR/10DRISTR TRANS DRISTR TRANS DRISTR TRANS DRISTR TRANS DRISTR TRANS DRISTR TRANS

1ª JD

1 70 142 31 112 15 123 32 298 34 199 21

2ª JD

31 3 134 3 106 5 104 8 292 25 170 10

3ª JD

31 0 133 4 105 5 100 3 300 22 179 15

63 73 409 38 323 25 327 43 890 81 548 46

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