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Joaquim Barbosa, ministro doSupremo Tribunal Federal.

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ndice

MídiaInvisibilidade do negro na mídia, por quê? ........................ 40

OpiniãoUm importante passo rumo ao futuro – Rosenildo GomesFerreira .................................................................................... 42

InternacionalZumbi e universidades irmãs ............................................... 44

“Historicamente negras”: mais de cem anos na luta pelaqualificação dos afro-americanos – Carlos AlbertoMedeiros ................................................................................ 50

Cidadania

Reverência ao trabalho de inclusão ..................................... 52

Homenageados com a Medalha do Mérito CívicoAfrobrasileiro ......................................................................... 57

Brasil 2022Os negros no Brasil 2022 ...................................................... 68

TurismoUm olhar sobre o Caribe ...................................................... 70

Preto e BrancoJames Meredith ...................................................................... 74

Entrevista EspecialMinistro Ayres Britto, presidente do Supremo TribunalFederal ...................................................................................... 8

CapaVitória sem precedentes ......................................................... 14

Voto pela constitucionalidade ................................................ 18

Ação afirmativa combate a discriminação ............................ 21

Eficácia temporária ................................................................. 22

A cota é constitucional ........................................................... 23

Defendo a correção das desigualdades ................................. 24

A política afirmativa volta-se para o futuro.............................................................................. 25

Um dia histórico ......................................................... 26

A vitória da igualdade .................................................. 30

Com os negros, o Brasil poderá mais – José Vicente......................................................................................... 32

EducaçãoDesemprego não tem cor ............................................ 34

Ousadia que deu certo ................................................. 36

UnB “um passo adiante” ............................................. 38

Afirmativa Plural é uma publicação da Afrobras - Sociedade AfroBrasileira de Desenvolvimento Sócio Cultural, Centro de Documen-tação, através da: Editora Unipalmares Ltda., CNPJ nº 08.643.988/0001-52. Com periodicidade bimestral. Ano 9, Número 42 - Av. San-tos Dumont, 843 - Bairro Ponte Pequena - São Paulo/SP - Brasil -CEP 01101-080 - Tel. (55 - 11) 3325-1000. www.afrobras.org.br

CONSELHO EDITORIAL: José Vicente • Francisca Rodrigues• Cristina Jorge • Nanci Valadares de Carvalho • Humberto Adami• Sônia Guimarães.

DIREÇÃO EDITORIAL E EXECUTIVA: Jornalista FranciscaRodrigues (Mtb.14.845 - [email protected]).

FOTOGRAFIAS: J. C. Santos e Divulgação.

COLABORADORES: Rejane Romano, Eliane Almeida, DanielaGomes.

PUBLICIDADE: Maximagem Mídia Assessoria em ComunicaçãoTel. (11) 3325-1000.

CAPA: Foto de Fellipe Sampaio - SCO - STF.

EDITORAÇÃO: Alvo Propaganda e Marketing ([email protected]) • Tel. (11) 4325-0605.

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editorial

Nos dias 25 e 26 de abril de 2012, pelomenos 51% da população brasileira que

são os afrodescendentes e boa parte da po-pulação branca interessada no assunto co-

tas, estavam de olhos e ouvidos voltados paraa Suprema Corte brasileira que votava a ação

iniciada pelo Partido dos Democratas (DEM), em2009, contra atos administrativos do Conselho de

Ensino, Pesquisa e Extensão da Universidade deBrasília (Cepe/UnB), que adotou critérios raciais para

o ingresso de alunos na universidade pelo sistema dereserva de vagas. Os atos administrativos e normati-vos questionados determinam a reserva de 20% do totaldas vagas oferecidas pela universidade a candidatosnegros (incluindo pardos).O relator do processo, o ministro Ricardo Lewandowski

brilhante artigo nesta edição, “as co-tas, ao contrário do que pensam, inclusi-ve alguns dos beneficiados, não se consti-tuem em um favor e nem servem para trans-formar a comunidade negra em “um bando decoitadinhos. Ao lado da titulação definitiva dasterras ocupadas por quilombolas, a política decotas serve como uma TÍ-MI-DA reparação detudo que nos foi roubado pelo Estado Brasileiro,em especial nossa força de trabalho, usada para en-riquecer o Estado e diversos integrantes de sua eliteeconômica e política. Servem apenas para equalizar asituação da comunidade negra apenas na questão doacesso à educação e, conseqüentemente, ao mercadode trabalho. Hoje, na corrida pelos melhores postos nosetor público e privado e nas universidades públicas –

em sua excepcional explanação esclareceu a priori e des-mitificou a questão genética. Argumento do qual mui-tos dos contrários se valem para justificar que no paísnão há como estabelecer através da análise genéticaquem é negro ou branco. Mas nós negros, sabemosque o racismo no Brasil é pelo tom da pele, quantomais escura, mais difícil se tornam as coisas.Os dias 25 e 26 de abril ficarão na história para onegro brasileiro. Na noite anterior, cem jovens daFaculdade Zumbi dos Palmares saíram de São Pau-lo rumo a Brasilia, enfrentando horas de estrada,para assistirem o momento histórico e para tra-zer à memória de todos o quanto a falta de aces-

so dos negros ao ensino superior é prejudicialà comunidade negra e ao povo brasileiro de

forma geral. Através da entoação do hinonacional, de preces e canções de origem

africana, estes alunos e demais cidadãosque se deslocaram a Brasília entra-

ram para a história.E como diz o nosso arti-

culista Rosenildo Fer-reira em seu

pagas com o imposto de todos, mas reservadas aos fi-lhos da elite –, estamos na situação daquele corredorque tem de disputar uma prova de 400 metros combarreiras, tendo às costas um saco com 100 quilos debatatas. Quase impossível ganhar”.Estão de parabéns os ministros do STF, que consegui-ram debater e chegar a um consenso, votando pela Cons-titucionalidade das Cotas. Que os jovens negros brasi-leiros aproveitem esta oportunidade para se aperfei-çoar em seus estudos, tornando-se excelentes profis-sionais, mestres e doutores, não deixando nada adever aos demais que entraram nas universidadessem o sistema de cotas. Que não se sintam des-merecidos, nem pensem que será fácil, pois te-rão que continuar matando um leão por diapara provar (embora não fosse necessário)que são tão inteligentes e capazes quantoqualquer outro, de qualquer etnia, e queprecisavam apenas de oportunidade.Boa leitura a todos!

Francisca Rodrigues,Editora Executiva.

A segunda Abolição!A segunda Abolição!A segunda Abolição!A segunda Abolição!A segunda Abolição!

ditorial

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entrevista especial

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Com um voto emblemático opresidente do Supremo Tribunal Fe-deral, Ayres Britto, votou positiva-mente quanto a constitucionalidadedas cotas raciais nas Universidadespúblicas e reafirmou a validade dasações afirmativas.

“As políticas públicas de justiça

compensatória, restaurativas, afirmati-vas ou reparadoras de desvantagenshistóricas são um instituto jurídicoconstitucional”, afirmou o presidente.

Observando que há diferençasentre cotas raciais e sociais, AyresBritto, explicou que há “desigualda-des dentro das desigualdades”, ou

seja, quando uma desigualdade – aeconômica, por exemplo – poten-cializa outra – como a de cor.

O ministro salientou em sua falano plenário que o preconceito ra-cial é histórico e existe desde pelomenos o segundo século da coloni-zação. E sustentou que quem não

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entrevista especial

Por Rejane Romano

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sofre preconceito já se posiciona deforma vantajosa na escala social, en-quanto quem sofre internaliza a de-sigualdade, que se perpetua. O pre-conceito, assim, passa a definir o ca-ráter e o perfil da sociedade.

“Nossas relações sociais de basenão são horizontais. São hegemôni-cas, e, portanto, verticais”, assinalou.“E o preâmbulo da Constituição éum sonoro ‘não’ ao preconceito, quedesestabiliza temerariamente a socie-dade e impede que vivamos em co-munhão, em comunidade.”

Quanto as ações afirmativas dis-se: “São políticas afirmativas do di-reito de todos os seres humanos a um

tratamento igualitário e respeitoso.Assim é que se constrói uma nação”.

O ministro que defende um “plusda política pública promocional”,acreditando ser necessário fazer comque os desiguais ascendam, encerrousua fala no plenário e chegou inclu-sive a recitar um poema de CastroAlves, com uma reflexão profundasobre a decisão unânime: “A partirdessa decisão ministro Lewando-wiski, tão magistralmente conduzidapor vossa excelência, o Brasil temmais um motivo para se olhar no es-pelho da história e não corar de ver-gonha. É como voto e proclamo oresultado”, finalizou.

Com esses fundamentos, o presi-dente do STF reafirmou sua posturahumanística em evento realizado pelaAfrobras (Sociedade Afrobrasileira deDesenvolvimento Sócio-Cultural) epela Faculdade Zumbi dos Palmares,em entrevista concedida à AfirmativaPlural durante a cerimônia de entregada Medalha do Mérito Cívico Afro-brasileiro, um mês após a decisão his-tórica da Corte brasileira.

Afirmativa Plural – O que vaimudar agora que as cotas são cons-titucionais?

Ministro Ayres Britto – Nós es-tamos cumprindo a Constituição, quetem este propósito de infringir sobrea cultura nacional para arejá-la men-talmente e implantar uma nova erade inclusão comunitária. Proporcio-nando uma comunhão de vida, deidentificação de que a própria coe-são nacional se adentra no reconhe-cimento destes direitos elementaresque, em última análise, são elemen-tares da pessoa humana.

Afirmativa Plural – O que o ne-gro brasileiro deve fazer para man-ter esta conquista?

Ayres Britto – Fomentar o diá-logo, pois vivemos numa sociedadeculturalmente diversificada. Final-mente o humanismo que está naConstituição começa a sair do papele a se incorporar na nossa vida. To-dos nós agora tendemos em transi-tar pelos espaços institucionais queconstitui a sociedade: escola, igreja,família, condomínio, repartição pú-blica, empresa... Todos nós tendemosa transitar com o mesmo desemba-raço, altivez e a mesma dignidade.Porque assim está na constituição eassim deve ser.

Durante o voto no plenário do Supremo Tribunal Federal, oministro Ayres Britto se amparou na Constituição para legitimarsua decisão. Acompanhe os artigos citados pelo presidente doSTF:

Artigo 3º, inciso III –Artigo 3º, inciso III –Artigo 3º, inciso III –Artigo 3º, inciso III –Artigo 3º, inciso III – Afirma que são objetivos fundamentais daRepública erradicar a pobreza e a marginalização.

Inciso IV -Inciso IV -Inciso IV -Inciso IV -Inciso IV - Dispõe da promoção do bem de todos, sem precon-ceito de origem, raça, sexo, etc.

Artigo 23, inciso X -Artigo 23, inciso X -Artigo 23, inciso X -Artigo 23, inciso X -Artigo 23, inciso X - Impõe a todos os entes da Federação“combater as causas da pobreza e os fatores demarginalização, promovendo a integração social dos setoresdesfavorecidos”.

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entrevista especial

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Saiba mais sobre o presidente do SupremoTribunal Federal que levou adiante e definiu aquestão da reserva de vagas para negros emuniversidades públicas brasileiras.

Carlos Augusto Ayres de Freitas Britto,nasceu em Propriá, Estado de Sergipe. É umacadêmico, professor, magistrado, jurista e poeta.Além da presidência do Supremo TribunalFederal (STF), Ayres Britto preside o ConselhoNacional de Justiça (CNJ), sendo assim o atual chefedo Poder Judiciário Brasileiro.

Após uma trajetória profissional que contou comcargos como de Consultor-Geral do Estado,Procurador-Geral do Estado e Procurador doTribunal de Contas do Estado.

Em 2003, foi nomeado pelo presidente daRepública, Luiz Inácio Lula da Silva, para o cargode ministro do Supremo Tribunal Federal. O ministropresidiu o Tribunal Superior Eleitoral no períodode maio de 2008 a abril de 2010.

Apenas um mês e 11 dias e após assumir omandato como presidente do STF, em 14 de março de2012, com posse no cargo em 19 de abril, Ayres Brittodefinia junto aos demais ministros, em unanimidade, aconstitucionalidade das cotas raciais.

Em 2009 foi considerado pela Revista Época umdos 100 brasileiros mais influentes do ano. Em 2011recebeu o Troféu Raça Negra e em maio deste ano foicondecorado com a Medalha do Mérito CívicoAfrobrasileiro.

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O primeiro julgamento plenário da

gestão do ministro Ayres Britto

entrou para a história. Com uma

votação unânime em favor das

cotas a sessão tornou-se palco

para explanações contundentes

quanto à presença de racismo

na sociedade brasileira e a

importância das ações

afirmativas.

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Dentre os significados da palavra“reconhecimento” um deles cabeperfeitamente à decisão histórica doSupremo Tribunal Federal (STF), emdeferir quanto a Constitucionalidadedas Cotas Raciais nas UniversidadesPublicas brasileiras. Seria a explica-ção de que “reconhecimento” é o atode admitir a legalidade de algo. A pa-lavra deriva do latim, recognoscere,esclarecida como: relembrar, trazernovamente à memória, examinar.

De fato nos dias 25 e 26, do mêsde abril, do ano de 2012, estas ex-pressões foram utilizadas com afin-co na Suprema Corte brasileira. Osolhos da nação e mais significativa-mente da comunidade negra estavamatentos ao pleito na angustia de sa-ber se esta ação iniciada pelo Partidodos Democratas (DEM), em 2009,contra atos administrativos do Con-selho de Ensino, Pesquisa e Exten-são da Universidade de Brasília(Cepe/UnB), daria uma resposta po-sitiva àqueles que, de acordo com oúltimo censo do IBGE, são maioriada população brasileira.

A UnB adotou critérios raciais parao ingresso de alunos na universidadepelo sistema de reserva de vagas. Osatos administrativos e normativosquestionados determinam a reservade 20% do total das vagas oferecidaspela universidade a candidatos negros(incluindo pardos). A universidadefoi pioneira nesta questão, adotandocotas raciais desde julho de 2004.

Foram julgadas a Arguição deDescumprimento de Preceito Funda-mental (ADPF) 186 e o Recurso Ex-traordinário (RE) 597285, ambos derelatoria do ministro Ricardo Lewan-dowski, e a Ação Direta de Inconstitu-cionalidade (ADI) 3330, que contestao Programa Universidade para Todos

(ProUni), relatada pelo atual presi-dente do STF, ministro Ayres Britto.

O tema polêmico foi debatidoem audiência pública realizada emmarço de 2010, com a participaçãode 38 especialistas de entidades go-vernamentais e não governamentais.O ministro Lewandowski acolheupedidos de participação no julgamen-to na condição de amigos da Corte

(amicus curiae) feitos por diversos ór-gãos e entidades das quais a Afrobras– Sociedade Afro Brasileira de De-senvolvimento Socio Cultural e aFaculdade Zumbi dos Palmares fo-ram representadas na ocasião peloreitor José Vicente.

Já nesta segunda fase das discus-sões, o diretor acadêmico, Dr. HédioSilva Jr., foi quem realizou a susten-tação oral no Plenário da corte.

O primeiro julgamento plenárioda gestão do ministro Ayres Brittoentrou para a história. Com uma vo-tação unânime em favor das cotas asessão tornou-se palco para explana-

ções contundentes quanto à presençade racismo na sociedade brasileira e aimportância das ações afirmativas.

Além das entidades nacionais emfavor das cotas raciais, como a Ad-vocacia Geral da União, a Organiza-ção das Nações Unidas (ONU) rea-firmou seu apoio à política de cotasraciais nas universidades brasileiras.Em nota, a organização disse reco-nhecer os esforços do Estado e dasociedade no país no combate às de-sigualdades e na implementação depolíticas afirmativas.

“O Sistema das Nações Unidasno Brasil reconhece a adoção de po-líticas que possibilitem a maior inte-gração de grupos cujas oportunida-des do exercício pleno de direitos têmsido historicamente restringidas,como as populações de afrodescen-dentes, indígenas, mulheres e pesso-as com deficiências”, disse a nota.

Relembrar

Apoiando-se na história do povonegro brasileiro, iniciada a partir dadesumana escravidão os presentes naCorte mergulharam no entendimen-to empírico sobre a criação das cotasno Brasil (não iniciada com os negros)e na profundeza das ações afirmati-vas, utilizando-se em alguns momen-tos do exemplo dos Estados Unidos.

O relator do processo, o ministroRicardo Lewandowski em sua expla-nação esclareceu a priori e desmitifi-cou a questão genética. Argumento doqual muitos dos contrários se valempara justificar que no país não hácomo estabelecer através da análise ge-nética quem é negro ou branco. Mase a estética? Ao serem segregados dealtos cargos em empresas, por exem-plo, tal feito não é apoiado no examegenético do candidato.

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A Constituição Federal

impõe uma reparação

de danos pretéritos do

país em relação aos

negros, com base no

artigo 3º, inciso I, da

Constituição Federal,

que preconiza, entre os

objetivos fundamentais

da República Federativa

do Brasil, a construção

de uma sociedade

livre, justa e solidária.

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Além destas exposições, muitosministros utilizaram-se da Constitui-ção Federal para embasar os votosdurante a sessão plenária. O relatordo processo, o ministro Lewando-wski, destacou que “a política de açãoafirmativa adotada pela Universida-de de Brasília não se mostrou des-proporcional ou irrazoável, afiguran-do-se também sob esse ângulo com-patível com os valores e princípiosda Constituição”.

Já o ministro Luiz Fux sustentouque “a Constituição Federal impõeuma reparação de danos pretéritosdo país em relação aos negros, combase no artigo 3º, inciso I, da Cons-tituição Federal, que preconiza, en-tre os objetivos fundamentais da Re-pública Federativa do Brasil, a cons-trução de uma sociedade livre, justae solidária”.

Trazer novamente à memória

Momentos antes da mais altaCorte do Brasil iniciar os debates,pessoas favoráveis às cotas, dentre osquais 100 alunos da Faculdade Zum-bi dos Palmares, reuniram-se emfrente ao prédio do STF, a fim de tra-zer à memória de todos o quanto afalta de acesso dos negros brasilei-ros ao ensino superior é prejudicial àcomunidade negra e ao povo brasi-leiro de forma geral.

Através da entoação do hino na-cional, de preces e canções de origemafricana, estes alunos e demais cida-dãos que se deslocaram a Brasíliaentraram para a história.

Examinar

Expostas as sustentações orais daadvogada que representou o DEM, daprocuradora que falou em nome da

UnB, da sustentação oral dos favorá-veis e contrários ao sistema de cotas,teve inicio o voto dos 10 ministros,apenas um ausentou-se, o ministroDias Toffoli, que não participou dojulgamento em razão de ter emitidoopinião no processo à época em queera Advogado Geral da União.

Um a um os votos pontuavam aconstitucionalidade das cotas raciaisnas universidades públicas. O últimoa votar, o presidente do STF AyresBritto esclareceu de forma oportunaa necessidade de diferenciar-se ascotas sociais das raciais. Desta forma,após esta vitória memorável cabe exa-minar os argumentos que levaram aesta definição para, a partir de então,elaborar a reestruturação da Educa-ção no Brasil, equiparando os índicesentre negros e brancos que atualmen-te são discrepantes.

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Único dos ministros do SupremoTribunal Federal (STF) a votar nasessão plenária no primeiro dia, orelator da Arguição de Descum-primento de Preceito Fundamental(ADPF 186), ministro RicardoLewandowski, julgou totalmente im-procedente o pedido feito pelo Par-tido Democratas (DEM) contra apolítica de cotas étnico-raciais paraseleção de estudantes da Universida-de de Brasília (UnB).

Em um extenso e minuciosovoto o ministro Lewandowski afir-mou que as políticas de ação afir-mativa adotadas pela UnB estabele-cem um ambiente acadêmico plurale diversificado e têm o objetivo desuperar distorções sociais historica-mente consolidadas. Além disso, se-gundo o relator, os meios emprega-dos e os fins perseguidos pela UnBsão marcados pela proporcionalidadee razoabilidade, as políticas são tran-

sitórias e preveem a revisão periódi-ca de seus resultados.

Quanto aos métodos de seleção,o relator os considerou “eficazes ecompatíveis” com o princípio da dig-nidade humana. “No caso da Univer-sidade de Brasília, a reserva de 20%de suas vagas para estudantes negrose ‘de um pequeno número delas’ paraíndios de todos os Estados brasilei-ros pelo prazo de dez anos constitui,a meu ver, providência adequada eproporcional ao atingimento dos men-cionados desideratos. A política deação afirmativa adotada pela Univer-sidade de Brasília não se mostra des-proporcional ou irrazoável, afiguran-do-se também sob esse ângulo com-patível com os valores e princípios daConstituição”, afirmou o relator.

PreliminaresO ministro Lewandowski iniciou

seu voto afastando as preliminares

de não conhecimento da ação levan-tada e afirmou o cabimento da Ar-guição de Descumprimento de Pre-ceito Fundamental por considerá-lao meio mais adequado e hábil parasanar a lesividade apontada pelo Par-tido Democratas (DEM). Segundoo relator, para efetivar o princípioconstitucional da igualdade, o Esta-do pode lançar mão de políticas uni-versalistas (de grande alcance) e tam-bém de ações afirmativas, que levamem conta a situação concreta de de-terminados grupos sociais.

Lewandowski observou que, aocontrário do que muitos pensam, apolítica de ações afirmativas não temorigem norte-americana. Ela surgiuna Índia, país composto por uma so-ciedade de castas, sob a condução dolíder pacifista Mahatma Gandhi.Lembrando que o Brasil é uma so-ciedade marcada por desigualdadesinterpessoais profundas, o ministro

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afirmou que a adoção de critérios ob-jetivos de seleção para ingresso doscotistas nas universidades deve levarem conta o ganho social que esse pro-cesso acarretará na formação de umasociedade mais fraterna.

Discriminação

Citando números do Ministérioda Educação, o ministro Lewando-wski lembrou que apenas 2% dosnegros conquistam diploma univer-sitário no Brasil e afirmou que aque-les que hoje são discriminados têmum potencial enorme para contri-buir para uma sociedade mais avan-çada. O ministro iniciou a análise daconstitucionalidade da seleção decandidatos por meio da adoção decritério étnico-racial afastando oconceito biológico de raça, porconsiderá-lo um conceito “artificial-mente construído ao longo dos tem-pos para justificar a discriminação”.

Quanto ao argumento do DEMde que a inexistência cientificamen-te comprovada do conceito biológi-co de raça impediria a utilização docritério étnico-racial para seleçãodos cotistas, o ministro Lewando-wski lembrou que o Supremo já en-frentou essa questão ao julgar oHabeas Corpus (HC 82424), impetra-do em favor de Siegfried Ellwanger,acusado do crime de racismo por sero responsável pela edição e vendade livros fazendo apologia de ideiaspreconceituosas e discriminatóriasem relação à comunidade judaica.

Celeiros de recrutamento

“A histórica discriminação denegros e pardos, revela um compo-nente multiplicador, mas às avessas,pois a sua convivência multissecular

com a exclusão social gera a perpe-tuação de uma consciência de infe-rioridade e de conformidade coma falta de perspectiva, lançando mi-lhares deles, sobretudo as geraçõesmais jovens, no trajeto sem voltada marginalidade social”, afirmouo relator.

Ele ressaltou o papel integradorda Universidade como principal cen-tro de formação das elites brasileirase sua transformação em celeiros pri-vilegiados para o recrutamento de fu-turos líderes. “Tais espaços não são

apenas ambientes de formação pro-fissional, mas constituem também lo-cais privilegiados de criação de futu-ros líderes e dirigentes sociais. Todossabem que as Universidades, e em es-pecial as públicas, são os principaiscentros de formação das elites brasi-leiras. Não constituem apenas núcle-os de excelência para a formação deprofissionais destinados ao mercadode trabalho, mas representam tambémum celeiro privilegiado para o recru-tamento de futuros ocupantes dos al-tos cargos públicos e privados nopaís”, asseverou.

Para o relator, as políticas deações afirmativas da UnB resultamnum ambiente acadêmico plural e di-versificado e servem para superar dis-torções sociais historicamente con-solidadas. “O reduzido número denegros e pardos que exercem cargosou funções de relevo em nossa so-ciedade, seja na esfera pública, sejana privada, resulta da discriminaçãohistórica que as sucessivas geraçõesde pessoas pertencentes a esses gru-pos têm sofrido, ainda que na maiorparte das vezes de forma camufladaou implícita. Os programas de açãoafirmativa em sociedades em que issoocorre, entre as quais a nossa, sãouma forma de compensar essa dis-criminação, culturalmente arraigada,não raro praticada de forma incons-ciente e à sombra de um Estado com-placente”, ressaltou o relator.

Texto extraído do site do Supremo TribunalFederal: http://www.stf.jus.br

O reduzido número

de negros e pardos

que exercem

cargos ou funções

de relevo em nossa

sociedade, seja na

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histórica que as

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na maior parte das

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Primeiro negro a ocupar uma das 11vagas de ministro no Supremo TribunalFederal (STF), Joaquim Barbosa votou emfavor das cotas raciais e afirmou que a ma-nifestação do relator Ricardo Lewandowskifoi tão convincente e abrangente que pra-ticamente esgotou o tema. “O voto deVossa Excelencia está em sintonia com oque há de mais moderno na literatura so-bre o tema”, afirmou.

“Acho que a discriminação, comocomponente indissociável do relaciona-mento entre os seres humanos, reveste-se de uma roupagem competitiva. O queestá em jogo aqui é, em certa medida,competição: é o espectro competitivo quegermina em todas as sociedades. Quantomais intensa a discriminação e mais po-derosos os mecanismos inerciais que im-pedem o seu combate, mais ampla se mos-tra a clivagem entre o discriminador e odiscriminado”, afirmou.

Em um discurso de dez minutos, o mi-nistro ressaltou ainda a exclusão dos ne-gros na sociedade brasileira. “As medidasvisam a combater a discriminação de fato,de fundo cultural, como é a brasileira. Ar-raigada, estrutural, absolutamente enraiza-da na sociedade. De tão enraizada as pes-soas nem a percebem, ela se normaliza etorna-se uma coisa natural.”

Para Barbosa, quem tem preconceitocontra os negros tenta manter sua posiçãoprivilegiada na sociedade. “Aos esforços deuns em prol da concretização da igualdadese contrapõe interesses de outros na ma-nutenção do status quo”, disse. Fo

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Texto extraído do site do Supremo TribunalFederal: http://www.stf.jus.br

Na avaliação do ministro Celsode Mello, o modelo de cotas raciaisda UnB é um mecanismo compen-satório destinado a concretizar o di-reito da pessoa ter sua igualdadeprotegida contra práticas discrimi-natórias. “As políticas públicas têmna prática das ações afirmativas umpoderoso e legítimo instrumentoimpregnado de eficácia necessari-amente temporária, já que elas nãodeverão ter a finalidade de manterdireitos desiguais depois de alcan-çados os objetivos”, salientou, des-tacando que os resultados do siste-ma serão reavaliados dez anos de-pois da sua implantação.

O ministro pontuou ainda queuma sociedade que tolera práticasdiscriminatórias não pode se quali-ficar como uma formação social edemocrática, “porque, ao frustrar eaniquilar a condição de cidadão dapessoa que sofre exclusão estigma-tizante propiciada pela discrimina-ção e ao ofender valores essenciaisda pessoa humana e da igualdaderepresenta a própria antítese dosobjetivos fundamentais da Repúbli-ca, dentre os quais figuram aquelesque visam à constituição de uma so-ciedade livre, justa e solidária, intei-ramente comprometida com a redu-ção das desigualdades sociais”.

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Segundo ministro a se pronunciaro ministro Luiz Fux acompanhou ovoto do relator, ministro RicardoLewandowski, votando pela total im-procedência da ação e pela constituci-onalidade das cotas.

Fundamentado no artigo 3º, incisoI, da Constituição Federal (CF), que pre-coniza, entre os objetivos fundamentaisda República Federativa do Brasil, a cons-trução de uma sociedade livre, justa esolidária, o ministro sustentou que a CF impõe, com esse artigo, uma reparaçãode danos pretéritos do país em relaçãoaos negros. Além disso, para ele, a insti-tuição de cotas raciais dá cumprimentoao artigo 208, inciso V, da CF, que atri-bui ao Estado o dever com a educação,assegurando “acesso aos níveis mais ele-vados do ensino, da pesquisa e da cria-ção artística, segundo a capacidade decada um”.

Citando diversos pronunciamentosfeitos ao longo da tarde do primeiro diada sessão, o ministro Luiz Fux endossouo argumento de que não bastava mera-mente abolir a escravatura e deixar o ne-gro sujeito à sua própria sorte. Era pre-ciso que se realizassem ações afirmati-vas, dando ao negro também igualdadematerial em relação à população branca,dentro do princípio jurídico de que é pre-ciso tratar desigualmente os desiguais. Eneste princípio se encaixa, segundo ele,a instituição das cotas raciais.

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“A meritocracia sem igualdade depontos de partida é apenas uma formavelada de aristocracia”, disse o minis-tro Marco Aurélio Mello do SupremoTribunal Federal (STF), ao proferirvoto a favor do sistema de cotas raci-ais nas universidades públicas. Desta-cou que as ações afirmativas devem simser utilizadas na correção de desigual-dades e que o sistema de cotas deveser extinto tão logo essas diferençassejam eliminadas. “Mas estamos longedisso”, advertiu.

Segundo ele, ao contrário do queafirma o DEM na ação, a adoção depolíticas de ação afirmativa em favordos negros e outras minorias no Bra-sil, iniciada na Universidade do Esta-do do Rio de Janeiro (UERJ), não pro-duziu um Estado racializado. “Ao me-nos até agora essa não foi uma conse-quência advinda da mencionada políti-ca. São mais de dez anos de práticas semregistro de qualquer episódio sério detensão ou conflito racial no Brasil quepossa ser associado a tais medidas.”

“Só existe a supremacia da Cartaquando, à luz desse diploma, vingar aigualdade. A ação afirmativa evidencia oconteúdo democrático do princípio daigualdade jurídica”, acrescentou o minis-tro. Ele finalizou seu voto defendendo a“correção das desigualdades”. “Façamoso que está a nosso alcance, o que estáprevisto na Constituição Federal.”

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O ministro Cezar Peluso foio sexto a se pronunciar a favor dainstituição de cotas raciais pela Uni-versidade de Brasília (UnB) e disseque o ponto central do questiona-mento é que ações afirmativas emrelação às minorias, como as cotasraciais, ofenderiam o princípioconstitucional da igualdade. Para oministro Peluso, “é fato históricoincontroverso o déficit educacionale cultural dos negros, desde osprimórdios da vida brasileira, emvirtude das graves e conhecidasbarreiras institucionais do acessodos negros às fontes da educaçãoe da cultura”.

Antes de concluir seu voto, oministro Cezar Peluso contestou al-gumas objeções que têm sido fei-tas contra as cotas raciais. Entreelas, referiu-se ao argumento de queé o mérito pessoal que deve ser le-vado em conta, o ministro disse queele ignora os obstáculos historica-mente opostos aos esforços dosgrupos marginalizados. “A meu ver,a política pública afirmativa volta-se para o futuro, independe de in-tuitos compensatórios, reparatóri-os, de cunho indenizatório, sim-plesmente pela impossibilidade,não apenas jurídica, de responsa-bilizar os atuais por atos dos ante-passados”, afirmou.

Texto extraído do site do Supremo TribunalFederal: http://www.stf.jus.br

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Qual a emoção de fazer parte deum momento histórico? Ser teste-munha ocular de uma decisão semprecedentes? Olhar para trás e po-der dizer: “Eu estive lá?”.

Estas respostas ficam a cargo dos100 alunos da Faculdade Zumbi dosPalmares, que através de uma inicia-tiva da instituição, junto a ONG Edu-cafro tiveram a oportunidade, parapoucos, de acompanhar de perto adefinição sobre a constitucionalida-de das cotas nas Universidades pú-blicas brasileiras.

O Advogado e regente do CoralZumbi dos Palmares, Nilton Silva,liderou o grupo que viveu momen-

tos que já entraram para a história eestão eternizados nas mentes daque-les que pela simples presença deramforça a esta conquista.

Num relato minimalista Niltondetalhou lances da viagem de SãoPaulo à Brasília. “Havia conosco,cada homem e mulher desse grupode alunos da Faculdade Zumbi dosPalmares, uma esperança engraçada,um sorriso que insistia em brotar,mesmo em meio às agruras de umaviagem de 16 horas cortando esseBrasil de Sudeste a Centro Oeste”.

Desde a chegada a entrada doSupremo Tribunal Federal o clima erade fé e credibilidade na força do povo

brasileiro. “Fizemos uma roda comcerca de 150 pessoas e cantamos oHino Nacional Brasileiro. Logo de-pois um grupo de alunos iniciou umcanto africano de esperança.”

Quando a sessão plenária teveinício, mesmo os alunos que nãoadentraram o prédio do STF, acom-panharam emocionados pelo telão.A emoção foi ainda maior quandoapós negociações foi disponibiliza-da a todos a entrada no local.

“Ao entrar eu fui tomado de umaemoção muito forte, um misto deeuforia, tristeza, esperança, um tur-bilhão de emoções me assaltou e mefraquejou as pernas, busquei apoio

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em uma parede e com os olhos mo-lhados pensei comigo: Meus paisgostariam de me ver aqui e de esta-rem aqui! Recobrei as forças e sen-tei-me com os demais colegas ecompanheiros de lutas e ativismo.Esperançosos ouvíamos as interven-ções inteligentíssimas do Excelentís-simo Ministro Joaquim Barbosa,nosso único ministro negro na Cor-te máxima”.

Como a sessão sobre as cotasraciais nas Universidades públicasdurou dois dias e os alunos da Zum-bi já estavam em São Paulo quandoa decisão foi sacramentada, o regen-te do Coral relata sua experiência:“Dentro de um metrô, vendo a TV

do metrô, a noticia chegou até mim.Dei um sorriso e comecei a falaralto, repetir a palavra: unanimida-de, unanimidade. Meus olhos maisuma vez se encheram de lagrimas,minha perna fraquejou novamente,por um momento fiquei sem enten-der o tempo e o espaço e só conse-gui balbuciar:

EU AJUDEI A

CONSTRUIR ISSO,

TENHO ESSA HISTORIA

DE CONQUISTA PARA

CONTAR AOS MEUS

FILHOS!”.

Em sua passagem pelo STF osalunos da primeira faculdade comfoco na inclusão do negro no ensi-no superior na América Latina, cha-maram a atenção do cineasta SpikeLee, negro norte-americano, um dosmais influentes porta-vozes da ques-tão racial no mundo contemporâ-neo. Spike se aproximou dos alunosenquanto estes cantavam. “Ao nosescutar, o ativista irmão da Américado norte posicionou sua equipe pararegistrar aquele momento que, se-gundo suas próprias palavras, eraquase profético, sim, por que afinalnaquele momento o resultado davotação não era conhecido”.

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Advogado, Doutor em DireitoConstitucional, Mestre em DireitoProcessual Penal, ex- Secretário deEstado de Justiça e Defesa da Cida-dania, Diretor Executivo do Centrode Estudos das Relações de Traba-lho e Desigualdade (CEERT) e Di-retor Acadêmico da Faculdade Zum-bi dos Palmares. É com muita pro-priedade que o Dr. Hédio Silva Jr.afirma que a decisão unânime daCorte brasileira vai além do acessoà educação superior.

O advogado constata que o con-teúdo da decisão tomada pelo Su-premo Tribunal Federal é maisabrangente que a Constitucionali-dade das cotas para negros em Uni-versidades públicas.

“O Supremo declarou a Consti-tucionalidade e legitimidade do prin-cípio da ação afirmativa aplicado àpopulação negra no acesso à educa-ção superior pública ou privada, edu-cação básica, acesso ao emprego, àformação profissional, nas políticasde fomento à pesquisa, política am-biental, de segurança pública e assimpor diante”, afirma Hédio Silva Jr.

O resultado do julgamento cons-tata que a decisão não se limita à edu-cação superior. Marca historicamen-

te a disponibilidade de acesso em to-dos os campos da sociedade.

Em sua sustentação oral no ple-nário, Hédio Silva Jr., que represen-tou a sociedade civil como AmicusCuriae, destacou o abismo e o quan-to é excludente o formato de socie-dade onde nos bancos universitári-os, principalmente das Universidadespúblicas, têm uma representação ín-fima de negros.

“Há muito tempo estava conven-cido de que a temática da classifica-ção racial era o último argumentoque restava aos opositores das polí-ticas de ação afirmativa e com po-tencial para influenciar negativa-mente os ministros. Tendo em vistao exíguo tempo de que disporia –cinco minutos – fechei foco nestetema, na demonstração de que oprincípio da ação afirmativa é ado-tado há séculos no Brasil para favo-recer outros segmentos discrimina-dos e no resgate de um processojudicial de 1824 no qual os juízesdemonstraram uma surpreendenteautonomia diante do sistema escra-vocrata e terminaram concedendo aliberdade a uma escrava”, explica oDiretor Acadêmico da FaculdadeZumbi dos Palmares, quanto a pre-

paração de seu discurso no plenário.Com esta definição de Constitu-

cionalidade das cotas, como ponde-rou o ministro Joaquim Barbosa, asociedade brasileira tem muito a ga-nhar com tal decisão. ”Não se deveperder de vista o fato de que a histó-ria universal não registra, na era con-temporânea, nenhum exemplo denação que tenha se erguido de umacondição periférica à condição depotência econômica e política, dignade respeito na cena política interna-cional, mantendo, no plano domés-tico, uma política de exclusão em re-lação a uma parcela expressiva da suapopulação”, afirmou o ministro.

Sendo a maioria da populaçãobrasileira e tendo maior acesso à gra-duação em nível superior, o advoga-do acredita que a economia brasilei-ra será beneficiada.

“Já há empresas no Brasil quevêm se dando conta de que a presen-ça de negros, inclusive em postos dedireção, aglutina desempenho, inova-ção, criatividade, versatilidade e agi-lidade, favorecendo a realização donegócio e otimizando a imagem daempresa. Numa palavra: diversidadee igualdade racial fazem bem aos ne-gócios. Portanto, em pouco tempo,

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o Brasil se dará conta de que inclu-são educacional e profissional dapopulação negra robustece a econo-mia e solidifica as bases para um cres-cimento sustentável e distributivo”.

Segundo Hédio Silva Jr., diversosfatores podem ser apontados paraesta tomada de decisão: “Sem dúvi-da o grande protagonista desta deci-são do Supremo foi o MovimentoNegro brasileiro e seus aliados na po-lítica, na academia, nas corporações,enfim, formadores de opinião quenos últimos anos se deram conta dagravidade do problema das desigual-dades raciais e da necessidade de umaintervenção efetiva neste problema.

Outros fatores também contri-buíram, mas penso que o fundamen-tal é que há 20 anos o país sequerreconhecia a existência do problemaracial e atualmente este tema é obri-gatório quando se fala em direitos hu-manos, em cidadania ou políticas deinclusão social no Brasil. Certamen-te foi esta mudança que impactou aconsciência dos ministros do STF.Vários ministros citaram expressa-mente a atuação da Afrobras e da Fa-culdade Zumbi dos Palmares comofatores que contribuíram para quepassassem a ver a questão racial commais abrangência e acuidade”.

Independente do motivo, valeressaltar que esta é: “uma vitóriasem precedentes e uma verdadeirarevolução no entendimento jurídi-co da matéria da igualdade e do pa-pel do Estado na garantia da igual-dade material, igualdade de opor-tunidade e não apenas igualdadeformal, retórica. No limite, o que oSupremo afirmou é que sem igual-dade racial não há democracia, nãohá cidadania”.

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Nos últimos 15 anos, a ação dogoverno, do Congresso e da mídiaajudou o país a ter mais negros empostos de prestígio no seu mercadode trabalho. Em 1995, uma pesquisarealizada pelo Datafolha apontou que89% de brasileiros aceitavam a exis-tência do racismo no país. Somente

10% deles confessavam que já teri-am discriminado negros.

Em 2001, quando a UERJ (Uni-versidade do Estado do Rio de Janei-ro), pioneiramente, criou cotas paranegros no ensino superior, conformepesquisa do Ipea, os universitáriosbrasileiros eram 97% de brancos. Os

professores, pesquisadores e cientis-tas negros somavam 1%.

Os negros compunham 70% dosque viviam abaixo da linha da pobre-za e 63% do quadro dos pobres. Em2001, era quase impossível encontrarum general negro, um almirante ne-gro, um embaixador negro, um exe-

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*Por José Vicente

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*José Vicente é reitor da Faculdade Zumbi dosPalmares.

cutivo negro comandando qualquergrande empresa do país.

Como se vê e sempre se soube,as relações entre negros e brancos noBrasil se estruturaram sob uma visãode racismo sem racistas e em umaconcepção ambígua e irracional deque racismo e discriminação racialnão existem, por que a ciência decre-tou que raças não existem -se distor-ção houver, é a discriminação socialque mantem negros e brancos sepa-rados e desiguais.

Na sociedade escravista, a ciên-cia não impediu que os negros fos-sem escravizados. Na sociedade darazão e do mercado, não permitiu quepudessem usufruir o ideal republica-no de iguais, tidos por ela como inte-grantes de raça inferior.

No plano político real, nossa mis-tura de raças e nossa identidade mes-tiça de brancos, negros e índios este-ve longe de significar integração eparticipação em pé de igualdade.

Apesar de patrimônio coletivo,nossa identidade tripartida tem ser-vido como ideologia articulada que,negando o racismo e diluindo o raci-al no social, mantém privilégios,oportunidades, vantagens e estéticasocial exclusiva, da qual os negros nãoparticipam.

Uma república de poucos e umademocracia de desiguais que segregae interdita os acessos aos 51% dosbrasileiros autodeclarados negros.

Apesar dos pesares e a despeitodessas visões e crenças equivocadasultrapassadas, nos últimos 15 anos aconscientização e o comprometimen-to de destacados setores da socieda-de, do governo, do Congresso e damídia nacional na defesa e valoriza-ção da diversidade e igualdade étni-co-racial e no combate à discrimina-

ção contra os negros, contribuírampara algumas mudanças.

A criação das políticas afirmati-vas de cotas para negros nas univer-sidades públicas e, nas universidadesprivadas, do ProUni e outras impor-tantes realizações resultaram no au-mento expressivo dos negros nomercado de trabalho, em postos deprestígio da alta administração e mes-mo na comunicação e estética social.

Se não é tudo que podemos (enão é), essas pioneiras e limitadasrealizações e seus incipientes resul-tados nos permitiram sair do lugarcomum e agir criativamente praconstruir consensos e mudançaspara colocar o país como uma re-pública moderna, acessível e dispo-nível a todos. Por isso, era precisoseguir adiante, era preciso ir além.

A corajosa decisão do SupremoTribunal Federal, que aprovou aconstitucionalidade de cotas paranegros no ensino superior, nos li-bertou das amarras de um falso di-lema e devolveu o país aos trilhosda racionalidade. Não abandonouos negros e honrou todos os brasi-leiros. Fortaleceu a justiça e defi-niu os fundamentos que permitirãoa celebração verdadeira da nossaidentidade e diversidade racial. Im-pediu que nos tornássemos gigan-te de pés de barro.

Com os negros, o Brasil fica maiscoeso, mais fortalecido, mais produ-tivo, mais criativo, mais competitivo,mais colorido e melhor. Com os ne-gros, o Brasil poderá mais.

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Dados comprovam que os negrossuperaram mito e obtêm boas notasnas Universidades públicas que inte-gram. O Instituto de Pesquisa Eco-nômica Aplicada (Ipea), indica desem-penhos similares ou até melhores emrelação a não-cotistas em quatro dasprincipais Universidades do País.

Em ao menos quatro, das 54 uni-versidades públicas distribuídas pe-los principais Estados que nos últi-mos anos adotaram o sistema de co-tas, alunos negros apresentam desem-penho próximo, similar ou até me-lhor em relação aos não-cotistas.

Resultados iniciais do aproveita-mento de cotistas na Unicamp, Uni-versidade Federal da Bahia (UFBa),Universidade de Brasília (UnB) eUniversidade do Estado do Rio deJaneiro (UERJ), divulgados pelo Ipea,derrubam mito de que, graças à açãoafirmativa, alunos negros “caíram deparaquedas” nas Universidades e nãoconseguiriam acompanhar o ritmo.

No biênio 2005-2006, cotistasobtiveram maior média de rendimen-to em 31 dos 55 cursos (Unicamp) eCoeficiente de Rendimento (CR)igual ou superior aos de não-cotistasem 11 dos 16 cursos (UFBa).

Na UnB, não-cotistas tiverammaior índice de aprovação (92,98%contra 88,90%) e maior média geral

do curso (3,79% contra 3,57%).Em estudo da ONG Educafro

junto à UERJ, estudantes negros eoriundos da rede pública, ingressan-tes entre 2003 e 2007, apresentarammaior Coeficiente de Rendimentomédio (6,41 e 6,56 respectivamente)em relação aos cotistas (6,37). Índi-os e deficientes somaram 5,73.

O ex-ministro da Educação, Fer-nando Haddad, disse em certa oca-

sião (10º Encontro Nacional de As-suntos Estratégicos), que o Progra-ma Universidade para Todos(ProUni) “é um modelo de cotas evemos que a qualidade dos alunosnão caiu. Pelo contrário, os alunostêm desempenho superior ao dos nãocotistas”, afirmou. Na ocasião o en-tão ministro da Educação criticou atese defendida pelos críticos das co-tas, segundo os quais o sistema esti-mularia o conflito racial.

“O conflito não aconteceu, pelocontrário, a diversidade se impôs, enada melhor que brancos conviven-do com negros. Conviver com a di-ferença é um elemento fundamentalda educação. Se você não sabe con-viver com a diferença, não está edu-cado”, destacou.

Em entrevista a Afirmativa Plu-ral, edição 40, o coordenador do La-boratório de Análises Econômicas,Sociais e Estatísticas das Relações Ra-ciais (LAESER) e professor Adjun-to do Instituto de Economia da Uni-versidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ), Marcelo Paixão, destacouque como membro do conselho uni-versitário da UFRJ observou que aexperiência dos cotistas inclusive nasuniversidades co-irmãs “não afeta aqualidade de ensino”. E reforçou:“No exame da OAB (Ordem dos Ad-vogados do Brasil), a UnB e a UERJobtiveram as melhores notas, ou sejaos cotistas não modificaram o perfildestas Universidades que sempreconquistaram boas avaliações para ocurso de Direito. As ações afirmati-vas contribuem para um corpo dis-cente mais diversificado e não devemser vistas como um ato de piedadecom os alunos contemplados pelascotas, pelo contrário”.

Conviver com adiferença é um elementofundamental daeducação. Se você nãosabe conviver com adiferença,não está educado.

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A Universidade de Brasília (UnB),foi a primeira universidade federal ainstituir o sistema de cotas, em junhode 2004, devido a ação afirmativa quefez parte do Plano de Metas paraIntegração Social, Étnica e Racial dainstituição e foi aprovada pelo Con-selho de Ensino, Pesquisa e Exten-são. Já no primeiro vestibular, o sis-tema de cotas foi responsável por18,6% dos candidatos. A eles, foramdestinados 20% do total de vagas decada curso oferecido.

Após oito anos, a primeira uni-versidade federal do País a adotarreserva de vagas para estudantes ne-gros chegou ao saldo de 1.024 cotis-tas formados.

Desde o segundo semestre de2004, quando a primeira turma deestudantes aprovada pelo sistema ini-ciou suas aulas na instituição, 6.180candidatos cotistas já se matricularamna universidade.

Criado para durar dez anos, o sis-tema permanece reservando 20% dasvagas do vestibular para estudantesque se declaram negros diante de umabanca de professores e pesquisadoresque entrevistam o candidato. A ban-ca pode julgar o estudante inapto aconcorrer às vagas da instituição peloprograma. Antes disso, essa banca ava-liava uma foto do candidato.

Apesar desta forma de declara-ção da raça causar polêmica, o Ad-vogado e Diretor Acadêmico da Fa-culdade Zumbi dos Palmares, Dr.Hédio Silva Jr. acredita que a auto-declaração é o melhor método.

“A autodeclaração é mais reco-mendável do ponto de vista ético emetodológico conforme reconhe-cido pela própria ONU. Havendodúvidas, há no país mais de dez do-cumentos públicos nos quais os bra-

sileiros são classificados racialmentedesde tempos imemoriais. Basta quese exija a apresentação de um des-tes documentos como forma de cor-roborar a autodeclaração; com issotorna-se mínimo o espaço para frau-des”, afirma o advogado.

De acordo com estudos e pes-quisas realizados dentro da UnB, osresultados mostram que não há di-ferenças significativas de desempe-nho entre os cotistas e os não-cotis-tas durante os cursos, os que entrampela reserva de vagas abandonammenos a graduação e o sistema decotas contribuiu para mudar o per-fil dos universitários. Além disso, aspesquisas desenvolvidas na UnBquebraram também outros mitos,como a possível queda na qualidadede ensino da instituição.

Outra pesquisa, realizada pelaprofessora Maria Eduarda Tannuri-Pianto, do Departamento de Econo-mia e Andrew Francis, da EmoryUniversity dos Estados Unidos, mos-tra que a diferença de desempenhodos estudantes cotistas e os demais éde 0,25 (em uma escala de zero a 100).O estudo foi feito com 3 mil cotistase não-cotistas de todos os cursos degraduação, que entraram na UnBentre 2004 e 2005.

Nos anos que antecederam a ses-são plenária que definiria a constitu-cionalidade das cotas em universida-des públicas brasileiras alunos cotis-tas da UnB e representantes de ma-nifesto pelas cotas raciais foram re-cebidos em audiência pelo ministroGilmar Mendes, em maio de 2008.

O grupo pedia empenho para quea reserva de vagas para negros fosseaprovada no Supremo Tribunal Fe-deral, o que só veio a acontecer anosmais tarde.

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Cotistas UnB com Gilmar Mendes, ministro do STF.

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Citando Mahatma Gandhi, se-gundo o qual, quando você dá umpasso adiante e obtém um avanço,está destinado a perturbar algo, aProcuradora Federal Indira ErnestoSilva Quaresma disse que é esse ocaso das cotas raciais instituídas pio-neiramente pela Universidade deBrasília (UnB) em instituições de en-sino superior do país.

Em defesa das cotas, a Procura-dora Federal, que representou no Ple-nário do STF a Universidade deBrasília (UnB), disse que 124 anos de-pois da Abolição da escravatura, o ne-gro continua marginalizado no país,pois a ele se negaram terras, educa-ção, acesso à riqueza. Portanto, comoafirmou, a dita “democracia racial”que existiria no país ainda “é ummito”, pois todos os indicadores so-ciais mostram que ela não existe.

Por outro lado, segundo a pro-curadora, falar abertamente em racis-mo, no Brasil, provoca medo. Mas aUnB decidiu enfrentar essa situação,criando cotas raciais, após constatar,no início deste século, que apenas2% dos professores e 1% de seus alu-

nos eram negros. E isso, segundo ela,confirma apenas uma situação exis-tente no Brasil, de ausência de negrosem postos de destaque.

De acordo com Indira, a discri-minação contra o negro no país ain-da persiste. “Só nós negros podemossentir isso”, afirmou. “Os olharesbrasileiros identificam o negro emqualquer ambiente. O problema é demarca, não de origem”. Por isso, con-testando a posição defendida pelaadvogada do DEM, segundo a qualé impossível identificar quem é bio-logicamente negro no país, ela disseque “as ciências naturais não têm su-premacia sobre as ciências sociais”.

A Procuradora Federal observoutambém que os negros, no Brasil seressentem da existência de pessoasemblemáticas. “Têm destaque no fu-tebol, na música e no narcotráfico”.Fora isso, são geralmente trabalhado-res braçais, de baixo nível de instru-ção e, portanto, de baixa remunera-ção. “Mas o diploma fará a diferençade sua presença”, sustentou.

Ao contestar a acusação de queas cotas raciais seriam uma discri-

minação comparável à praticadapelo nazismo contra os judeus,quando Hitler tirou os judeus dasuniversidades e escolas para jogá-losem campos de concentração, ela dis-se que essa é uma afirmação desres-peitosa. “A UnB tirou a nós, negros,dos campos de concentração da ex-clusão, e nos coloca na Universida-de”, pois o sistema de cotas é redis-tributivo”, afirmou.

Ela usou o quadro da mulher noBrasil como exemplo dos avançosque a posição do negro na socieda-de pode conquistar com políticasafirmativas, entre as quais as cotasraciais em Universidades. Nesse sen-tido, disse que a mulher alcançouuma posição dentro da sociedadeque era inimaginável ainda em 1960.Mesmo assim, esses avanços signifi-cativos são recentes, pois há apenas12 anos a primeira mulher assumiuassento na Suprema Corte do País ehá um ano e meio a primeira mulherassumiu a presidência do país.

Texto extraído do site do Supremo TribunalFederal: http://www.stf.jus.br

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Em uma redação jornalística otermo “pauta” é utilizado para defi-nir temas que serão abordados naque-la edição, seja de um veículo televisi-vo, impresso, do rádio ou da web. Acada edição os repórteres e seus edi-tores se reúnem para definir as pau-tas do dia. Toda essa explicação é naverdade uma tentativa de entender apartir dos conceitos do jornalismo oporquê do tema negro não ter o me-recido destaque na mídia brasileira.

Além das páginas policiais pou-co se fala sobre estes que são maio-ria da população brasileira, de acor-do com o Mapa da População Preta& Parda no Brasil, segundo os Indi-cadores do Censo de 2010.

Mesmo num momento que mar-ca a história do povo brasileiro, comoa definição quanto à Constituciona-

lidade das cotas raciais nas Universi-dades públicas brasileiras, houve seg-mentos da mídia pretendendo redu-zir o alcance da decisão do Supremo.

Mesmo os veículos que se dispu-seram a cobrir o assunto não se es-tenderam sobre o tema. Isso é lasti-mável levando-se em conta que amídia tem o poder de transformarpequenos assuntos em matérias derepercussão nacional e internacional.

Com o mínimo de “boa vonta-de” familiares e envolvidos no temasão entrevistados, pesquisas com apopulação são realizadas nas ruas,

coberturas completas e muitas ve-zes minuto a minuto são realizadas,debates e discussões são promovi-dos e tudo mais que a criatividadepossibilitar.

Mas neste caso não. Comunica-ram quanto a decisão, pois caso con-trário seria negligência, mas sem alon-gar-se, sem aprofundar-se.

O negro não assiste televisão, lêjornal, ouve notícias no rádio ouacessa a internet para este tipo deinformação? Incomoda aos não ne-gros coberturas mais profundas so-bre este assunto?

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Por Rejane Romano

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O questionamento é profundo epor mais que se tente, não há expli-cação plausível. Aqueles que ansei-am por saciar seu desejo por infor-mação “deste tipo” têm que se apoi-ar nos veículos “alternativos”. Nãoconsiderados de “ponta”, mas quecumprem com dignidade os precei-tos de uma profissão que tem pormissão ser imparcial.

A esperança é que a exemplo deoutras produções midiáticas comoas novelas e o cinema, o negro te-nha mais visibilidade, que se não éadequada ou ideal, já foi ainda pior.

Mas sem hipocrisias. Não valefalar da ascensão do negro apenasnos dias 13 de maio e 20 de novem-bro, dias da Abolição da Escravatu-ra e da Consciência Negra, respecti-vamente. Nem como já foi dito, dasabordagens das páginas policiais.

O mercado publicitário já perce-beu e tem se utilizado como nin-guém do aprendizado de que “SIM”os negros consomem e muito, bastaver a quantidade de produtos étni-cos. Além disso, a luta por esta de-cisão do Supremo Tribunal Federaljustifica que “SIM” os negros têmsede de educação e informação.

O jornalista Heraldo Pereira, emdiscurso no lançamento da segundaedição do Prêmio Nacional Jorna-lista Abdias Nascimento, da Comis-são de Jornalistas pela IgualdadeRacial (Cojira-Rio), enfatizou que ojornalismo brasileiro deve criaroportunidades com foco na cidada-nia, para noticiar as desigualdadesraciais e o racismo.

“Devemos criar possibilidades[jornalísticas]. Isso não é ativismopolítico, é defesa dos direitos huma-

nos, da cidadania. Dirão que quere-mos dividir a sociedade, mas, quan-do mostrarmos números [estatísti-cas da desigualdade], não tem quemnão ficará constrangido”, completouo jornalista negro.

Heraldo revelou ainda que de-fender reportagens sobre as dife-renças raciais nas empresas é tão

“complicado” quanto discutir aquestão na sociedade. “Acho que,muitas vezes, os negros são supri-midos do noticiário, de modo ge-ral. As pessoas acham que o Brasilé um país branco, inclusive nas re-dações [centrais de reportagem dasempresas de jornalismo].”

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Heraldo Pereira.

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Entre as décadas de 1950 e1980, uma expressão se tornou lugar-comum na imprensa, nos discursosoficiais e até mesmo nas rodinhas deconversas: “O Brasil é o país do fu-turo!”. A frase, carregada com umtom aspiracional, se referia, obvia-mente, a um momento no qual o paísexibiria indicadores de riqueza e debem-estar semelhantes aos das na-ções desenvolvidas. Só que a naçãodo futuro, construída no ideário daelite político-econômico-intelectualseria um país incompleto. Isso por-que, àquela altura nenhuma políticade Estado previa a criação de meca-nismos de reparação para os prejuí-zos sofridos pela comunidade negra,durante e após o tenebroso períododa escravidão. Boa parte das perdasfoi imposta pela letra legal, como alei que impedia que os ex-escravosfossem proprietários de terras. En-quanto isso, alguns dos imigrantesvindos da Itália, da Finlândia, da Ale-manha e de outros países da Europa

eram agraciados com vastas exten-sões de terras. Outros acabaram sim-plesmente se assenhorando das cha-madas “terras devolutas” onde co-meçaram a construir a riqueza desuas famílias. Com muito suor, é bomque se diga, mas com o beneplácitodo Estado e numa condição jamaisconcedida à comunidade negra.

Felizmente, a sociedade brasilei-ra vem evoluindo. É claro que em umritmo insuficiente para garantir aequidade de direitos à comunidadenegra. Sempre que cito algum fatohistórico ou estatístico trágico refe-rente às desvantagens criadas pelostatus quo para a comunidade negra,muitas vezes recebo de volta umolhar de desconfiança, inclusivequando o interlocutor é afrodescen-dente. Como entender que existe ra-cismo em um país constituído depessoas cordiais e no qual a miscige-nação sempre foi a regra? O proble-ma é que a realidade teima em con-tradizer quem se recusa a enxergar o

óbvio: a comunidade negra continuaà margem do desenvolvimento da so-ciedade brasileira. E a realidade e osnúmeros, produzidos pelo própriogoverno, estão aí para mostrar essadura realidade!

O Censo 2010, realizado peloIBGE, fornece algumas pistas decomo anda a questão racial no Bra-sil. Somando os autodeclarados ne-gros e pardos, nós representamos50,7% da população brasileira.Apesar disso, somos invisíveis nosespaços de poder, como o Congres-so Nacional e os Tribunais Superio-res, onde meia dúzia de integrantesserve de exceção para confirmar aregra. Também ainda estamos lon-ge dos bancos escolares, principal-mente no nível superior que garan-te o acesso aos melhores postos detrabalho do País. Finda a primeiradécada do século XXI, apenas 13%dos negros e pardos, com idadeentre 15 e 24 anos, estavam na uni-versidade. Entre os brancos, essa

*Por Rosenildo Gomes Ferreira

opinião

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taxa era mais que o dobro: 31,1%.Ou seja, decorridos 16 anos do lan-çamento do Plano Real, que reorga-nizou a economia brasileira, acaboucom a hiperinflação e inaugurou umlongo período de bonança, a comu-nidade negra continua à margem detodos os benefícios.

Neste contexto, ouso dizer quea nova libertação da comunidadeafro-brasileira e também sua arran-cada para o desenvolvimento come-çou somente em 26 de abril de 2012,com a aprovação, por unanimidade,do reconhecimento da constitucio-nalidade da lei que criou as cotas nasuniversidades públicas federais. Ascotas, ao contrário do que pensam,inclusive alguns dos beneficiados,não se constituem em um favor enem servem para transformar a co-munidade negra em “um bando de

coitadinhos”. Ao lado da titulaçãodefinitiva das terras ocupadas porquilombolas, a política de cotas ser-ve como uma TÍ-MI-DA reparaçãode tudo que nos foi roubado peloEstado Brasileiro, em especial nos-sa força de trabalho, usada para en-riquecer o Estado e diversos inte-grantes de sua elite econômica epolítica. As cotas, é óbvio, não sãoum fim em si mesmo, muito menosuma panacéia. Servem apenas paraequalizar a situação da comunidadenegra apenas na questão do acessoà educação e, consequentemente, aomercado de trabalho. Hoje, na cor-rida pelos melhores postos no setorpúblico e privado e nas universida-des públicas – pagas com o impos-to de todos, mas reservadas aos fi-lhos da elite –, estamos na situaçãodaquele corredor que tem de dispu-

tar uma prova de 400 metros combarreiras, tendo às costas um sacocom 100 quilos de batatas. Quaseimpossível ganhar.

Ou seja, as cotas ajudam a noscolocar no jogo. Contudo, isso aindaé pouco. Muito pouco, mesmo. Parafazermos parte desse propalado paísdo futuro, a comunidade negra pre-cisa se unir e exigir TODOS os seusdireitos, inclusive o de representaçãonos meios de comunicação. Quemliga a tevê ou vai ao cinema dá decara com um país semelhante à Sué-cia. Nem na África do Sul dos durostempos, do Apartheid, os negros eramtão invisíveis. A constitucionalidadedas cotas é um marco importante.Contudo, a luta, de verdade, começaagora. Venha fazer parte dela!

*Editor de Negócios e colunista deSustentabilidade da revista IstoÉ Dinheiro.

Rosenildo Gomes Ferreira

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No ano de 1837, quase trinta anosantes da abolição da escravatura na-quele país, os Estados Unidos daAmérica, considerado como a terrados bravos e das oportunidades paratodos, ainda mantinha milhares emilhares de negros cativos nas plan-tações de algodão e milho por todoo país.

Subjugados pelo sistema de escra-vidão, os afro-americanos começama ver nessa data os primeiros vestígi-os da criação de algo novo e que empouco tempo culminaria em um dosmaiores exemplos de liberdade obti-da através da educação.

Naquele ano foi criado no esta-do da Pensilvânia a primeira entida-

de voltada para educação da popula-ção negra naquele país. A criação doThe Institute for Colored Youth (Institu-to para jovens de cor) marca o iníciode uma transformação na história dasoportunidades para homens e mulhe-res negros nos Estados Unidos.

O instituto, que alguns anos de-pois foi rebatizado como Cheyney StateUniversity, se consagra na história comoa primeira HBCU (Historically BlackColleges and Universities), sigla que de-nomina as faculdades e universida-des historicamente negras naquelepaís, cuja principal missão é integraros jovens afro-americanos no ensi-no superior.

A iniciativa da criação da escola

partiu de Richard Humphreys, umreligioso que doou um décimo de suapropriedade para a criação da escola.A atitude filantropa ilustra uma dasmaiores características das HBCUnaquele período, a fundação por ben-feitores brancos que viam na educa-ção básica uma forma de mudançapara essa parcela da população.

Inspiradas pela fundação do Ins-tituto surgem no mesmo períodooutras duas instituições pioneiras ecom as mesmas características oAshmun Institute, hoje conhecidocomo Lincoln University of Pennsyl-vania, em 1854 e Wilberforce Uni-versity in Ohio em 1856.

Com a atuação limitada pela es-

Por Daniela Gomes

Representantes da Morgan University e da Zumbi.

internacional

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cravidão ainda existente, essas insti-tuições educacionais não recebiamnessa época nenhuma ajuda governa-mental e funcionavam como institui-ções privadas e sem fins lucrativos,sendo que a maioria era mantida porigrejas de diferentes denominações etinham como base o ensino religioso.

Sem recursos financeiros para aconstrução de sedes apropriadas, asprimeiras instituições tinham suasaulas ministradas em qualquer lugarque pudesse ser adaptado para se tor-nar uma sala de aula como porões decasas e igrejas e containers para arma-zenamento de produtos.

As primeiras verbas governamen-tais para as HBCUs surgem com acriação dos National Land-GrantColleges Act ou Atos de posse de ter-ras. O primeiro criado em 1862, fi-cou conhecido como Primeiro AtoMorrill e determinava a concessão deterras e verba federal para que os es-tados criassem faculdades. Já o segun-do, que funcionou de maneira maisefetiva, exigia que os estados quemantinham um sistema educacionalsegregado, doassem terras tambémpara as universidades negras e dispo-nibilizassem o mesmo valor em ver-

bas para os dois tipos de entidadesde ensino.

A doação de terras federais e aabolição da escravatura em 1863,impulsionaram a criação das univer-sidades negras nos Estados Unidose o sistema passou a contar com maisde 100 instituições, que eram respon-sáveis pela educação de mais de qua-tro mil jovens negros, em um perío-do de menos de 20 anos após o fimda guerra de secessão.

Com a chegada do século 20, asHBCU atingem um crescimento fe-nomenal chegando a aproximadamen-te 30 mil alunos. Contudo as políticassegregacionistas da Lei Jim Crow fa-zem com que essas instituições sejamtratadas com desigualdade na hora dorepasse de verbas educacionais.

Na década de 1940 as disparida-des na concessão de verbas chegamao conhecimento da Suprema Corteque passa a exigir uma equidade norepasse de verbas evitando assim amigração de estudantes negros paraas universidades brancas.

Com o fim da segregação e a lutado movimento pelos Direitos Civis,dezenas de medidas são adotadaspara garantir o acesso dos jovens

negros nas universidades brancas, oque causa uma queda na procura dosjovens negros pelas HBCUs.

Contudo, a busca por identidadee por um melhor convívio entre oscolegas faz com que muitos jovensvoltem às faculdades negras, enxer-gando nessas um espaço para socia-bilização e formação ideológica.

Dentre as instituições historica-mente negras que alcançaram onovo milênio com sucesso está aMorgan State University, localizadana cidade de Baltimore, no estadode Maryland.

Fundada em 1867, como o Cente-nary Biblical Institute (Instituto BíblicoCentenário), da Baltimore Conference ofthe Methodist Episcopal Church (Confe-rência da Igreja Metodista Episcopalem Baltimore), a faculdade recebehoje mais de 6 mil alunos entre cur-sos de graduação e doutorado.

De acordo com a Vice-Presiden-te para Avanço Institucional daMorgan State University, Cheryl Hi-tchcock, as HBCUs são responsáveispor mudanças em diferentes segmen-tos que envolvem a população negraamericana e caso elas não existissemmuitos dos avanços sociais e tecno-

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Coral Morgan e Zumbi juntos.

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lógicos existentes hoje nos EstadosUnidos não teriam sido possíveis.

“Sem as HBCU’s muitos dosexemplos negros que enriquecerama história dos Estados Unidos nãoexistiriam e a nação deixaria de vi-venciar inúmeros avanços”, afirma.

Além disso, a vice-presidente afir-ma ainda que muito do potencial in-telectual negro no país, além de líde-res de diferentes áreas como a indús-tria, o entretenimento e a política pas-saram pelas cadeiras das faculdadesnegras, o que influenciou diretamen-te na formação de uma elite negra nosEstados Unidos.

“As faculdades negras continuama mudar a história negra americanaprincipalmente por ser responsávelpela formação e pelo destaque de di-versas mentes brilhantes que estãoespalhadas pelo país”, declara Cheryl.

Dentre as personalidades afro-americanas que fizeram parte da his-tória de sucesso das HBCUs estãonomes como WEB Dubois, MartinLuther King e a apresentadoraOprah Winfrey.

Em outro ponto do atlântico...Enquanto isso no Brasil, no perío-

do que antecede a abolição a educa-ção da população negra depende daboa vontade dos professores para en-sinar, já que os mesmos não eram ad-mitidos na escola, somente em 1878o governo concede a permissão paraque a população negra passe a in-gressar em cursos noturnos, crian-do, contudo diversas barreiras paraque esse acesso se concretizasse.

Somente em 1934, com a obriga-ção e gratuidade do ensino primário éque a população negra passa a ter oacesso a educação facilitada. Ainda as-sim, com as barreiras criadas pelo pas-sado de escravidão, abolição tardia esem concessão de direitos, a grandemaioria da população negra se man-tém afastada dos bancos escolares,devido a fatores que mantém a segre-gação de fato, ainda que não de direi-to, como por exemplo, o ingresso pre-cipitado no mercado de trabalho.

Embora a história da resistêncianegra no Brasil, conte com personali-dades como Machado de Assis, sím-

bolo da literatura nacional, André eAntônio Rebouças, engenheiros res-ponsáveis por grande parte da mo-dernização hidráulica e elétrica doBrasil do século 19, Luiz Gama, ad-vogado, responsável pela defesa daliberdade de diversos escravos e Teo-doro Sampaio, engenheiro, geógra-fo e escritor, entre outros que repre-sentam uma elite intelectual negra etambém com esforços de institui-ções como a Frente Negra Brasilei-ra, que foi responsável pela escola-rização de negros e negras na déca-da de 1930, a realidade da popula-ção negra brasileira na educação su-perior ainda é de exclusão total atéo final do século 20.

Nos primeiros anos do século 21,o censo revelava que apenas 2,8 %dos jovens negros possuíam ensinosuperior o que incentivou a criaçãode políticas de inclusão, como asações afirmativas adotadas por algu-mas universidades públicas e progra-mas de bolsas de estudos e incentivofiscal para universidades privadas.

12 anos após a chegada do novo

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Palestra do então presidente da Frente Negra, Justiniano Costa. Além da bandeirado Brasil a mesa também está coberta com a bandeira da Frente Negra.

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milênio, a realidade brasileira aindaé de exclusão ao se tratar do acessode jovens negros no ensino superior.Em junho de 2012, o Instituto Bra-sileiro de Geografia e Estatísticas(IBGE) revela os resultados do Cen-so 2010, que apesar de apresentaremum crescimento na porcentagem dejovens negros no Ensino Superior,que hoje representam mais de 20%dos universitários do país, aindaaponta uma disparidade com rela-ção aos jovens brancos que frequen-tam a universidade.

Em meio a esse histórico de apar-theid educacional, algumas vitórias fo-ram conquistadas e se destacam comoa declaração de constitucionalidadedo sistema de cotas pelo SupremoTribunal Federal em abril de 2012.

Além disso, outro fator de extre-ma importância para inclusão do jo-vem negro, foi a criação em 2003 da

Faculdade Zumbi dos Palmares, queinspirada pelas HBCUs norte-ame-ricanas se tornou a primeira faculda-de negra brasileira e que marcou ahistória nacional quando em 2007realizou sua primeira formatura,onde, pela primeira vez na história doBrasil, mais de 100 jovens negros segraduaram no ensino superior aomesmo tempo.

E os caminhos se cruzam...

Embora grande parte da identi-dade negra brasileira tenha sido ins-pirada no movimento negro norte-americano, a criação da FaculdadeZumbi dos Palmares é o primeiro si-nal de aproximação entre os negrosbrasileiros e as faculdades historica-mente negras norte-americanas.

A história de formação da facul-dade conta com visitas as HBCUs,durante a formação do projeto inici-

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al, para conhecer a realidade das fa-culdades afro-americanas e adaptá-lasao Brasil.

Ao longo da história da Zumbi,a amizade e o relacionamento comas faculdades historicamente negrascresceu gerando novas parcerias eprojetos. Instituições como MorehouseCollege, Clark Atlanta University, Spel-man College, Xavier University, FloridaAgricultural and Mechanical University,Howard University, entre outras vieramconhecer a faculdade que é pioneirano Brasil.

Além disso, a recente criação doacordo HBCU-Brazil Alliance, criadoem parceria entre o governo dos Es-tados Unidos e do Brasil permitiu quea faculdade criasse novas parceriascom as faculdades negras norte-ame-ricanas que irão propiciar em um fu-turo próximo, oportunidades de in-tercâmbio educacional nos Estados

Formatura da primeira turma da Zumbi.

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Unidos para os jovens negros, queestudam na Zumbi.

Dentre as instituições que já fir-maram acordos de cooperação coma Zumbi estão a Dillard Universityem New Orleans, a Southern Univer-sity and A&M College de BatonRouge, ambas localizadas no estadoda Louisiana e a Morgan State Uni-versity , localizada em Baltimore, noestado de Maryland.

Para Cheryl Hitchcock, a parceriaentre a Zumbi e a Morgan Universitypode ajudar a aprender como trazerempoderamento para a comunidadenegra nos dois países através do co-nhecimento e da pesquisa e da inclu-são do intercâmbio no currículo es-colar. “Se trabalharmos juntos nós ire-mos perceber que enfrentamos difi-culdades semelhantes e que somosmais parecidos do que pensamos alémde podermos nos unir para fazer domundo um lugar melhor”, afirma.

Com um percentual de alunos ne-gros de quase 90%, a vice-presidenteafirma ainda que a Morgan, assim

como as demais faculdades historica-mente negras, conseguem oferecer aosalunos um ambiente livre de discrimi-nação, tanto para os alunos negros,quanto para outros que fazem partede outras etnias e minorias.

“As HBCUs se orgulham de queos seus estudantes vivam e aprendamem um ambiente que está longe dadiscriminação, exclusão e isolamen-to social baseado em raça, etnia ou

gênero, um problema que ainda per-siste em campus tradicionalmentebrancos nos Estados Unidos”.

A experiência que poderá servivenciada pelos alunos da Zumbi emum futuro próximo, foi experimen-tada pelo jovem Daniel Nascimento.

Membro da ONG Steve Biko, emSalvador, Daniel e outros dois amigosreceberam uma bolsa de estudos daMorehouse College e passaram seis

Representantes da Dillard University e da Zumbi.

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anos estudando na faculdade ameri-cana que fica localizada na cidade deAtlanta, no estado da Geórgia.

Hoje, com seu diploma em ma-temática, Daniel retorna ao Brasil ese prepara para transmitir a outrosjovens negros a rica experiência queteve oportunidade de vivenciar.

Segundo Daniel, um dos diferen-ciais em se estudar em uma faculda-de historicamente negra é o fato deestas serem instituições negras ofe-recendo educação de qualidade paraa comunidade negra.

“As HBCUs seguem o exemplodos líderes negros americanos paramultiplicar o sucesso da comunida-de negra e isso é importante, pois nósprecisamos conscientizar a comuni-dade através de projetos sociais e deuma boa educação”, afirma.

O jovem destaca ainda que alémdo próprio currículo de qualidadeoferecido pela universidade, outro

As HBCUs seguem oexemplo dos líderesnegros americanospara multiplicar osucesso dacomunidade negra eisso é importante,pois nós precisamosconscientizar acomunidade atravésde projetos sociais ede uma boaeducação.

Daniel Nascimento, brasileiro,membro da ONG Steve Biko, bolsistaem universidade americana.

fator de extrema importância parasua formação foi a diversidade pre-sente no campus. “No campus dauniversidade foi possível observaruma diversidade de estudantes de di-ferentes partes do mundo, aprenden-do culturas e valores”, declara.

Daniel afirma ainda que progra-mas de intercâmbio e cooperaçãoeducacional em âmbito internacional,como os que foram assinados pelaZumbi, são importantes, pois os jo-vens negros brasileiros precisam deuma experiência no exterior.

“Eles precisam assistir palestrascom ativistas e intelectuais negros eno exterior a comunidade negra estáunida lutando por um mundo sem

preconceito e discriminação racial”.O jovem volta ao Brasil com o

compromisso de devolver à sua co-munidade o conhecimento obtidodurante o período em que ficou noexterior e acredita que a ação de or-ganizações não governamentais eprojetos sociais como a Zumbi e aprópria Steve Biko, além da promo-ção de ações afirmativas e projetoseducacionais para a comunidade ne-gra são as únicas maneiras de reali-zar no Brasil, ao parecido com o queocorreu nos Estados Unidos, garan-tindo assim uma total liberdade e umfuturo melhor para a população ne-gra brasileira.

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Dra. Natalie Madeira Cofield, Texas University.

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As instituições de ensino superiorditas “historicamente negras” cons-tituem um subproduto importante dosistema de segregação racial que seimplantou nos Estados Unidos, par-ticularmente no Sul, a partir da se-gunda metade da década de 1860,com a vitória do Norte na Guerrade Secessão e a consequente aboli-ção do trabalho servil. Isso provo-cou um ressentimento profundoentre os brancos pobres da região,que acumulavam aos prejuízos ma-teriais sofridos com o conflito o vi-lipêndio simbólico de se verem de-gradados à base da pirâmide, ao ladode pessoas que se haviam acostuma-do a encarar como inferiores. Esseressentimento seria muito bem ex-plorado pelas elites locais como for-ma de evitar que trabalhadores bran-cos e negros se unissem, o que os

“historicamente

*Por Carlos Alberto Medeiros

fortaleceria conjuntamente nas me-sas de negociações. Os ex-escravosviram-se então como membros deum exército de reserva de mão-de-obra cuja própria existência serviapara que se mantivessem baixos ossalários de todos.

Tem início então um processo deradicalização das relações raciais nosEstados Unidos, principalmente,mas não apenas, nos Estados do Sul,com a criação de milícias terroristascomo a Ku Klux Klan e o recrudesci-mento de uma legislação racista e se-gregacionista cujo marco é a deci-são, em 1878, do caso Plessey xFerguson. A Suprema Corte adotaentão a doutrina do “separados, masiguais” – que na prática significouseparados e profundamente desi-guais, já que a segunda parte da for-mulação nunca foi implementada

nem pelos Estados do Sul nem pelaFederação. É como se os negros ti-vessem sido oferecidos em holo-causto à unidade dos brancos, talcomo ocorreria, algumas décadasmais tarde, na África do Sul após aGuerra dos Bôeres, em que os in-gleses se viram obrigados a fazerconcessões de mesma índole aosmembros da minoria de ascendên-cia holandesa.

Segregação e proximidade

As primeiras iniciativas de ins-tituir estabelecimentos de ensinosuperior voltados para a populaçãoafro-americana partiram dos pró-prios negros, com o apoio de orga-nizações como a Associação Mis-sionária Americana e o Freedmen’sBureau, ou Departamento dos Li-bertos, órgão federal encarregado

:mais de cem anos na luta pela

qualificação dos afro-americanos

negras”internacional

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* Carlos Alberto Medeiros - “Autor de Na lei ena raça: legislação e relações raciais, Brasil – Es-tados Unidos”.

de promover a inserção dos antigosescravos na sociedade. Muitas igre-jas afro-americanas mantinham suaspróprias escolas de nível elementare médio, e o número crescente deformandos por essas instituiçõesacabou gerando um grau de pressãosuficiente para que as próprias igre-jas, assim como a AMA e o Bureau,criassem suas faculdades, considera-das a espinha dorsal das instituiçõeshistoricamente negras.

Enquanto isso, já no início dadécada de 1860, o Governo norte-americano começou a tomar inicia-tivas para alavancar a educação su-perior no país, dadas as necessida-des determinadas pela própria eco-nomia, sobretudo nas áreas de agri-cultura, engenharia e ciências apli-cadas. A forma que isso tomou foi aconcessão aos Estados de terras fe-derais onde se estabeleceriam facul-dades e universidades públicas. Masfoi preciso que se passassem quase30 anos para que o Governo reco-nhecesse as dificuldades que os ne-gros enfrentavam no acesso a essasinstituições. Finalmente, em 1890 oMorril Land-Grant Act estabeleciaque os Estados que recebessem fun-dos federais com essa destinaçãodeveriam criar instituições abertastanto para brancos quanto para ne-gros ou então reservar verbas paraa criação e manutenção de institui-ções segregadas, exclusivamente ne-gras. Mais de uma centena delas fun-ciona até hoje nos Estados Unidos,algumas com reconhecido nível deexcelência, responsáveis pela forma-ção de uma elite acadêmica, empre-sarial, burocrática e militar.

Nas útimas décadas, a sociedadenorte-americana tem passado pormudanças significativas na área das

relações raciais. O marco históricodesse processo, no campo jurídico,foi a famosa decisão do caso Brown xBoard of Education, de 1954, que con-siderou inconstitucional a segregaçãoracial nas escolas públicas. Vieramentão os turbulentos anos 60, e comeles o Civil Rights Act, de 1964, e oCivil Rights Law, de 1968 – respecti-vamente, Lei e Estatuto dos DireitosCivis –, culminando com as primei-ras medidas de ação afirmativa, da-tadas do início da década de 1970.Os negros americanos ganharam umstatus mais favorável, ao menos noseu conjunto, e conquistaram posi-ções de prestígio e poder, tanto naárea pública quanto no setor privado– embora, nesse processo, um per-centual significativo, em torno de 30por cento, tenha ficado de fora devi-do a uma pluralidade de fatores queincluem o ingresso das mulheresbrancas no mercado de trabalho, atransformação da economia america-na numa economia de serviços e aprópria globalização, responsável portirar os empregos dos grandes cen-tros e levá-los para o Sul do país, parao vizinho México ou para lugares dis-tantes, como a Tailândia ou a Malásia.

Desde o início da década de 1980,com a ascensão política da direita ame-ricana – e a nomeação, por Regan epelos Bush, de juízes conservadorespara a Suprema Corte –, a ação afir-mativa tem sido objeto de progressi-vas restrições nos Estados Unidos. Si-multaneamente, o racismo americanose sofistica, torna-se mais sutil, e, por-tanto, mais semelhante à modalidadepredominante no Brasil – entre ou-tras consequências, obrigando as ins-tituições “historicamente negras” abuscarem novos espaços de atuação.É o que alguns estudiosos chamam de

“brasilianização” da sociedade ameri-cana, à qual corresponderia uma“americanização” das relações de raçano Brasil, expressa no reconhecimen-to, pelo Estado, do racismo comoproblema social importante e a ado-ção de medidas não apenas para coi-bi-lo, mas para compensar os que seencontram na extremidade receptoradesse processo, como é o caso daspolíticas de ação afirmativa. Assim,Brasil e Estados Unidos estariam hojemais próximos do que nunca no querespeita à problemática racial, o quetorna mais relevantes iniciativas de a-proximação como o protocolo de in-tenções recém-assinado entre a Fa-culdade Zumbi dos Palmares e a Sou-thern University, instituição historica-mente negra fundada exatamente em1890 no Estado sulista da Louisiana.Uma cooperação com enorme poten-cial de produzir benefícios mútuosnuma época caracterizada pelas faci-lidades de comunicação e de trans-porte que constituem o núcleo duroda chamada “globalização”.

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Autoridades e personalidades foram reverenciadaspela conduta em busca de uma sociedade plural

O Memorial da América Latina,em São Paulo, foi a escolha da edi-ção de 2012 para a entrega da Co-menda do Mérito Cívico Afrobrasi-leiro, na noite do dia 28 de maio. Jor-nalistas, agentes sociais, empresáriose autoridades envolvidas na promo-ção de uma sociedade plural uniram-se para prestigiar a cerimônia queacontece anualmente em reflexão ao13 de maio, Dia Nacional da Aboli-ção da Escravatura.

No ano que os negros brasileirosobtiveram a conquista das cotas emUniversidades públicas tornarem-seconstitucionais, o grande homenage-ado da noite foi o presidente do Su-premo Tribunal Federal (STF), o mi-nistro Ayres Britto, que assistiu jun-to aos demais um vídeo com imagensdos alunos da Zumbi que viajaram àBrasília para assistir “in loco” a deci-são da Corte brasileira.

Observa-se que não apenas o

ministro Ayres Britto, mas tambémoutros membros do STF que vota-ram em unanimidade em favor dascotas já foram personalidades queabrilhantaram eventos da Afrobras(Sociedade Afrobrasileira de Desen-volvimento Sócio-Cultural) e da Fa-culdade Zumbi dos Palmares. Seja noTroféu Raça Negra ou em ediçõesanteriores da Medalha. A importân-cia desta aproximação se traduz emcontribuir para que as necessidadesda comunidade negra fossem de fatoentendidas a partir de discussões ereflexões que são promovidas nesteseventos, onde consagram-se as con-quistas, mas também destacam-sepontos culminantes onde políticaspúblicas e iniciativas da sociedadetêm de atuar.

A abertura do evento com o Co-ral Zumbi dos Palmares já é uma tra-dição. Os integrantes sob a batuta domaestro Nilton Silva encantaram aospresentes com a apresentação única

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do Hino Nacional. O evento contou coma presença do governador do Estado deSão Paulo, Geraldo Alckmin, do governa-dor da capital de Angola, Luanda; com oministro do STF Benedito Gonçalves; opresidente da Fundação Cultural Palma-res, Elói Ferreira, o músico Simoninha; ojornalista da IstoÉ Dinheiro, RosenildoFerreira; a secretária de Justiça do Estadode São Paulo, Eloísa de Sousa Arruda,Diniz Yamamuro, Gerente Sênior de RHda Mercedes Benz; Luiza Bairros, Minis-tra da Seppir, Ivan Sartori, Presidente doTribunal de Justiça de São Paulo; ClaudioLembo, Secretário Municipal de Negóci-os Jurídicos de São Paulo, entre outros.

A mestre de cerimônia, a jornalistaDulcinéia Novaes deu ritmo ao evento,que contou ainda com a apresentação depoemas de Castro Alves e “Deus Poeta”de autoria de Ayres Britto, além de umahomenagem ao banco Bradesco, atravésdo diretor executivo, André RodriguesCano, pela parceria de longa data no Pro-grama Especial de Estágios.

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O presidente da Afrobras e rei-tor da Faculdade Zumbi dos Pal-mares, José Vicente, iniciou os tra-balhos com a presença de empre-sários de diversas instituições dosmais diferentes ramos que compa-receram para ratificar o apoio a ini-ciativas como a medalha.

O setor público também mar-cou presença reforçando a credibi-lidade de projetos que têm cada vezmais contribuído para que a comu-nidade negra tenha acesso em pé deigualdade a uma sociedade de fatopara todos.

Em ambiente agradável e des-contraído os presentes desfrutaramde um jantar onde foi consagrado osucesso da cerimônia com a alegriadas batalhas já conquistadas e a pro-messa de ainda mais empenho naluta por um Brasil mais justo.

Os reverenciados com a Comenda do Mérito CívicoAfrobrasileiro em 2012 são:

Luislinda Valóis Santos – Desembargadora do Tribunal deJustiça da BahiaJosé Pólice Neto – Presidente da Câmara de Vereadores deSão PauloDiniz Yamamuro - Mercedes-BenzLuiz Flávio Borges D’Urso - Presidente da OAB/SPLuiza Bairros – Ministra da SeppirIvan Sartori – Presidente do Tribunal de Justiça de São PauloClaudio Lembo – Secretário Municipal de Negócios Jurídicosde São PauloNelson Cosme – Embaixador de AngolaGeraldo Alckmin – Governador de São PauloAyres Britto – Presidente do Supremo Tribunal Federal

56 Afirmativa Plural • Edição 42

cidadania

Foto:

Zora

n O

zetsk

y - sx

c-hu

Page 57: Revista Afirmativa 42

Edição 42 • Afirmativa Plural 57

José Vicente é

um homem que

sonha, o que é

muito

importante, mas mais do

que isso, ele faz o sonho

se tornar realidade. Eu

acompanhei a criação da

Afrobras e o nascimento

da Faculdade Zumbi dos

Palmares. É com grande

alegria que participo e

agradeço esta medalha. É

muito bom ver a

Faculdade Zumbi dos

Palmares, com 1700

alunos, seis turmas

formadas, os trainees nas

melhores empresas

brasileiras, além do

Colégio Técnico, onde

temos uma parceria com o

Centro Paula Souza,

formando técnicos.

Geraldo AlckminGovernador de São Paulo

O

cidadania

Page 58: Revista Afirmativa 42

58 Afirmativa Plural • Edição 42

uero agradecer

ao José Vicente

fundador e

presidente da

Afrobras. A decisão

tomada pelo Supremo a

favor das cotas, foi um

momento histórico de

afirmação desta

Constituição brasileira que

nos torna juridicamente de

primeiro mundo. O

Supremo Tribunal Federal

se manteve fiel à

Constituição mantendo a

igualdade racial,

consagrando a proteção e

a promoção racial. Com o

STF eu divido a suprema

glória desta comenda que

acabo de receber.

Ayres BrittoPresidente do SupremoTribunal Federal

Q

cidadania

Page 59: Revista Afirmativa 42

Edição 42 • Afirmativa Plural 59

ico muito

honrada por

receber esta

medalha.

Luislinda Valóis SantosDesembargadora do Tribunal deJustiça da Bahia

“”

F

cidadania

Page 60: Revista Afirmativa 42

60 Afirmativa Plural • Edição 42

m nome da

Câmara dos

Vereadores de

São Paulo

agradeço por esta

premiação.

José Pólice NetoPresidente da Câmara deVereadores de São Paulo

“”

E

cidadania

Page 61: Revista Afirmativa 42

Edição 42 • Afirmativa Plural 61

ós começamos

a parceria com a

Zumbi em 2010.

Começamos

pequenos, mas temos

crescido pouco a pouco.

Temos um programa de

desenvolvimento especial

de trainees para a turma

da Zumbi. É uma

experiência que tem valido

muito a pena.

Diniz YamamuroMercedes-Benz

N

cidadania

Page 62: Revista Afirmativa 42

62 Afirmativa Plural • Edição 42

sta homenagem

que recebo, o

faço em nome

da Ordem dos

Advogados do Brasil. Em

nome dos 350 mil

advogados que tenho a

honra de representar no

Estado de São Paulo. Em

nome desta cidadania que

cada vez mais precisa de

iniciativas como a Zumbi

dos Palmares, para que

tenhamos de uma vez por

todas virado a página da

discriminação, da

intolerância e do

preconceito do nosso país.

Luiz Flávio Borges D’UrsoPresidente da Ordem dosAdvogados do Brasil/SP

E

cidadania

Page 63: Revista Afirmativa 42

Edição 42 • Afirmativa Plural 63

gradeço muito

por este

reconhecimento

e espero que os

projetos e parcerias entre

a Seppir e a Afrobras

perdurem.

Luiza BairrosMinistra da Secretaria dePolíticas de Promoção daIgualdade Racial

“”

A

cidadania

Page 64: Revista Afirmativa 42

64 Afirmativa Plural • Edição 42

u quero

agradecer

imensamente

por essa

homenagem que me deixa

bastante comovido, afinal

de contas nós temos um

débito muito grande com a

comunidade afrobrasileira

e lamentamos

profundamente tudo que

esse povo passou no

passado. Por isso estar

aqui, receber esta medalha

para mim é uma das

maiores honras que eu tive

na minha vida. Hoje é um

dia que com certeza ficará

marcado indelevelmente

na minha existência.

Ivan SartoriPresidente do Tribunal deJustiça de São Paulo

E

cidadania

Page 65: Revista Afirmativa 42

Edição 42 • Afirmativa Plural 65

ra preciso que a

decisão do STF

sobre as cotas

acontecesse e o

Brasil chegou muito tarde

nesta questão de ações

afirmativas. E a Zumbi é

um exemplo notável de

como é possível fazer sem

estardalhaço, sempre com

respeitabilidade às etnias e

a integração social. Eu fico

muito feliz com a Zumbi e

com tudo que vem

acontecendo em São

Paulo ultimamente.

Claudio LemboSecretário Municipal deNegócios Jurídicos de São Paulo

E

cidadania

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66 Afirmativa Plural • Edição 42

omos um país

que sempre

combateu toda

forma de

segregação, que o

traduzimos também na

forma política e

diplomática. E esta é a

razão de nossa presença

aqui. Agradecemos por

esta condecoração.

Nelson CosmeEmbaixador de Angola

S

cidadania

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Page 68: Revista Afirmativa 42

Após a conquista no SupremoTribunal Federal (STF), quanto ascotas para negros em Universidadespúblicas brasileiras, olhar para o fu-turo e para as novas lutas que preci-sam ser empenhadas é uma dinâmi-ca natural.

Um dos projetos que a partir deentão entra em negociação é fomen-tar a discussão do recorte para osnegros no Plano Brasil 2022.Projeto do governo Federal,o Plano Brasil 2022 é um apa-nhado de metas para o anode 2022, quando o Brasil co-memora o bicentenário desua independência. O proje-to foi idealizado pelo presi-dente Luiz Inácio Lula da Sil-va, encomendado ao minis-tro de Assuntos Estratégicos,Samuel Pinheiro Guimarães,quando este assumiu o car-go, em outubro de 2009.

A Secretaria de Assuntos Estra-tégicos (SAE), representantes de to-dos os Ministérios, da Casa Civil edo Instituto de Pesquisa Econômi-ca Aplicada (Ipea) uniram-se paraformatar ações nos setores de Eco-nomia, Sociedade, Infraestrutura eEstado. Após discussões e alteraçõ-es foram definidas as Metas do Cen-tenário em quatro capítulos: O Mun-

do em 2022; América do Sul em2022; O Brasil em 2022 e As Metasdo Centenário.

Dentro do programa de metassão listados grandes problemas etendências. A aceleração da transfor-mação tecnológica, o agravamentoda situação ambiental-energética, asdesigualdades sociais e a pobreza, asmigrações, o racismo, a globalização

da economia mundial, aconcentração do poder noConselho de Segurança daOrganização das NaçõesUnidas (ONU) entre outrossão pontos observados.

A Faculdade Zumbi dosPalmares, o Observatório daPopulação Negra e a Afro-bras (Sociedade Afrobrasi-leira de DesenvolvimentoSócio-Cultural) vão colabo-rar com o movimento “Bra-sil 2022”. A Zumbi preten-

www.sae.gov.br/brasil2022/

68 Afirmativa Plural • Edição 42

Brasil 2022

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Edição 42 • Afirmativa Plural 69

de implementar um empreendimen-to de cooperação acadêmica em to-das as áreas do conhecimento dis-poníveis nas Universidades e insti-tuições educacionais, a fim de viabi-lizar produção de conhecimento, ex-tensão e difusão de informaçõesentre pesquisadores, educadores egestores públicos e privados no queconcerne à políticas de promoção daigualdade racial, orientadas especi-almente para a elevação dos anos deestudo da população negra, elimina-ção das diferenças salariais, redução

das taxas de mortalidade, emissão detítulos de propriedade de comuni-dades quilombolas e redução dastaxas de violência.

O caráter estratégico da políticade igualdade racial para o desenvol-vimento sustentável do país é reco-nhecido na publicação “Brasil 2022:Trabalhos Preparatórios”. Com issoo projeto “Negros 2022 – Como Fa-zer” é o desafio da comissão forma-da por afrodescendentes para con-tribuir com um novo Brasil.

“Essa iniciativa tem, como prin-

Proporcionar atividades e eventos,notadamente seminários nacionaise internacionais, cursos livres ecursos de formação continuadacom o conteúdo da matéria referi-da, visando preencher lacunas so-bre o tema nos cursos de gradua-ção e pós-graduação.

Contribuir para a implementaçãoda meta da igualdade racial comoum dos objetivos estratégicos dogoverno federal, tendo como re-corte temporal o ano de 2022, emque será celebrado o Bicentenárioda Independência.

Difundir informações eoferecer subsídios cien-tíficos, técnicos e meto-dológicos que aprimo-rem conhecimentos, ha-bilidades e atitudes depesquisadores, educa-dores e gestores públi-cos e privados.

Instaurar novas perspec-tivas de aprendizagem eespecialmente linhas depesquisa que contribu-am para a ampliação eorganização do conheci-mento de programas deações de promoção daigualdade racial;

Atender à crescentedemanda de institui-ções de ensino supe-rior e gestores públi-cos no tocante aoacesso à informação ecapacitação para odesenvolvimento egestão de políticas depromoção da igualda-de racial.

cipal escopo, viabilizar um esforçode reflexão e a formulação de pro-postas de políticas de promoção daigualdade racial, estabelecendo e ali-mentando conexões entre a perspec-tiva acadêmica, a ação governamen-tal e atuação da sociedade civil, comdestaque para as corporações. Já fi-zemos convênios com as universi-dades negras dos Estados Unidos epodemos contribuir muito com atroca de experiências”, explica o rei-tor José Vicente.

Brasil 2022

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70 Afirmativa Plural • Edição 42

O Caribe é uma caixa de Pandoraque nos dá a chance de crer que háalgo de realmente belo nesse mun-do. Um dos mistérios caribenhos é aorigem de seu nome. A palavraCaribe deriva do nome da etnia indí-gena que povoava todas as ilhas do

Por Eliane Almeida

arquipélago, os caraíbas. Dos tais in-dígenas sobrou, em algumas ilhas,apenas a memória de sua existência.

Fazendo parte do menor país doplaneta, São Cristóvão e Nevis, en-contra-se a ilha de São Cristóvão.Também conhecida como St. Kitts

ou ainda Sweet Sugar City (CidadeDoce como Açúcar), foi colonizadapelos ingleses no início do séculoXVII e por séculos teve a explora-ção da cana-de-açúcar como princi-pal fonte de riqueza.

Ficou dos ingleses o legado da lín-

turismo

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Edição 42 • Afirmativa Plural 71

gua, da arquitetura, da religião e daeducação. Predominantemente ne-gros, tem no rosto o sorriso que égarantido a todo recém-chegado.Nada de caras fechadas ou mau hu-mor. O povo de St. Kitts recebe atodos, sempre, de braços abertos.

A culinária baseada em frutos domar e muita pimenta tempera a esta-dia que, apesar de ser lugar quente, ésempre amenizada pela brisa fresca.

Um pouco de históriaA Ilha de São Cristóvão é consi-

derada a mãe da colonização doCaribe por ter sido a primeira a serinvadida pelos ingleses. Aliás, antesda colonização inglesa ter seu iniciooficial, Cristóvão Colombo, em 1493,aportava na Ilha. Encantado com abeleza do local e por achar que o for-

turismo

Page 72: Revista Afirmativa 42

mato da ilha era parecido com a daimagem de São Cristóvão carregan-do Jesus no colo, deu à ilha o nomedo santo. Os caraíbas a chamavam“Liamuiga”. Na língua local significa“terra fértil”.

Em 1623, a Inglaterra ocupa ofi-cialmente a Ilha. Sir Thomas Warnerbusca em São Cristóvão riquezascomo ouro e prata, mas não tem êxi-to. Passou então a investir na produ-ção do açúcar e tabaco. Para que aprodução fosse grande para o merca-do internacional do açúcar, os ingle-ses passaram a comprar escravos afri-canos para a mão-de-obra. Em 1826,é abolida a escravidão em St. Kitts,mas somente em 19 de setembro de1983 a ilha alcança a independência.

Abençoado por um vulcão

Os antigos habitants caraíbas sa-biam que sua ilha Liamuiga, ou “terrafértil”, era rica e produtiva por contado solo vulcânico. O vulcão extinto,de 3.792 metros de altura e localiza-do no centro da ilha, deixa como le-gado uma rica história geológica e ve-getação tropical exuberante. As flo-restas tropicais erguem-se majestosasno centro da montanha e se espalhampor toda a ilha. É possível para osturistas mais aventureiros fazer pas-seios nas florestas e aproveitar tudode bom que a natureza oferece.

Fortes Ingleses

Também como legado ficaram asestruturas utilizadas para a defesa doterritório contra os invasores. Os for-tes em St. Kitts estão em toda as par-tes da ilha e podem ser visitados dan-do aos curiosos a real impressão deestarem na Idade Média. Ficam noalto das montanhas e dão uma vi-são aérea da ilha imperdível. Prote-

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Arquitetura Inglesa.

Centro Comercial Port Zante.

Port Zante.

turismo

Page 73: Revista Afirmativa 42

gido pela UNESCO, o Brimstore Hill FortressPark guarda a maior fortaleza da ilha e emseu interior dorme parte da conturbada his-tória de St. Kitts.

Centro comercial no Port ZantePara aqueles que chegam de navio à ilha, o

primeiro contato com os kittianos é o CentroComercial Port Zante. Com diversas lojas, po-dem ser encontrados produtos feitos a mãocomo cerâmicas, bijuterias, vestidos, sandálias,esculturas, além de conchas retiradas do fundodo mar. São encontrados também joias, relógi-os, o mais puro rum feito da cana-de-açúcarproduzida na ilha. Os restaurantes que ficamna região de Circus Square tem um belíssimorelógio que faz lembrar o Big Bang de Londres.

Paraíso na Terra

Inebriante beleza natural, céu ensolarado,águas mornas e praias de areia branca são a com-binação perfeita para tornar São Cristóvão umdos pontos mais sedutores do Caribe. Aquelesque amam conhecer as belezas dos corais e na-tureza marinha, os mergulhos são a opção. Paraos menos corajosos há o passeio no Catamari-no, embarcação que navega todo o entorno dailha durante uma viagem de 7 horas. Há ainda apossibilidade de ir a Reggae Beach e degustaruma maravilhosa lagosta, molhando seus pésnas aguas cristalinas do final da península.

A Arte da Família Batik

Na estrutura de uma antiga plantation decana-de-açúcar vive a família Batik. Com oconhecimento dos antepassados na arte dotingimento de tecidos e no desenvolvimentode técnicas de estamparias, a família possuiloja de peças únicas, todas feitas a mão pelaartista Caribelle Batik. Algumas estampariaslevam até nove dias para ficarem prontas.Cada cor leva um dia para ficar perfeita.

Sweet Sugar City, Ilha St. Kitts ou Ilha deSão Cristóvão. Perto do Brasil em história enem tão longe na Geografia. Quem não viu,tem que vir pra ver!

Edição 42 • Afirmativa Plural 73

Cerâmicas artísticas de St. Kitts.

Artesã da família Batik criando estamparia.

turismo

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Aos 29 anos James Meredith, ex-piloto da Força Aérea, foi admitido

na OLE Miss – The University of Mississipi (EUA). Primeiro negro a ser

admitido em uma Universidade, foi proibido de frequentar as aulas. O

presidente John Kennedy interferiu e enviou tropas federais para

acompanharem o aluno durante todo o curso. Hoje a OLE tem um

monumento seu e Meredith é considerado um dos maiores ativistas em

favor dos direitos civis nos Estados Unidos.

74 Afirmativa Plural • Edição 42

James Meredith– 25/06/1933 –

Foto:

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