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A Escola na Cidade que Educa - Moacir Gadotti

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1. Cadernos Cenpec 2006 n. 1 133 Enquanto educadora, a Cidade tambm educanda. Paulo Freire Pode a cidade educar? A julgar pelos que defendem o conceito e a prtica da Cidade Educadora, a resposta sim. Esse conceito con- solidou-se no incio da dcada de 1990, em Barcelona, na Espanha, onde se realizou o primeiro Congresso In- ternacional das Cidades Educadoras. Esse Congresso aprovou uma carta de princpios bsicos que caracteri- zam uma cidade que educa. Vrias cidades brasileiras so membros da Associao Internacional de Cidades Educadoras: Belo Horizonte (MG), Caxias do Sul (RS), Cuiab (MT), Pilar (PB), Porto Alegre (RS), Piracicaba (SP), Alvorada (RS) e Campo Novo do Parecis (MT). Foi Porto Alegre, onde nasceu o Frum Social Mundial, que deu a partida e integrou, desde 2001, o Movimento das Cidades Educadoras, iniciando uma nova caminhada nessa associao.1 Em outros pases da Amrica Latina, vrias cidades aderiram ao Movimento, entre elas, Ro- srio (Argentina), Concepcin (Chile), Medellin (Colm- bia), Santa Cruz de la Sierra (Bolvia), Quito (Equador), A escola na cidade que educaMoacir Gadotti* ARTIGO * Moacir Gadotti professor titular da Universidade de So Paulo (USP), diretor do Instituto Paulo Freire e autor, entre outras obras, de: Histria das idias pedaggicas (tica, 1993), Pedagogia da prxis (Cortez, 1994), Perspectivas atuais da educao (Artes Mdicas, 2000), Pedagogia da terra (Peirpolis, 2001) e Os Mestres de Rousseau (Cortez, 2004). 2. Len (Mxico), Montevidu (Uruguai). a cidade, como espao de cultura, educando a escola e todos que circu- lam em seus espaos, e a escola, como palco do espe- tculo da vida, educando a cidade numa troca de saberes e de competncias. A cidade dispe de inmeras possibilidades educa- doras. A vivncia na cidade se constitui num espao cul- tural de aprendizagem permanente por si s, esponta- neamente: h um modo espontneo, quase como se as Cidades gesticulassem ou andassem ou se movessem ou dissessem de si, falando quase como se as Cidades proclamassem feitos e fatos vividos nelas por mulheres e homens que por elas passaram, mas ficaram, um modo espontneo, dizia eu, de as Cidades educarem.2 Mas a cidade pode ser intencionalmente educadora. Uma cidade pode ser considerada como uma cidade que educa quando, alm de suas funes tradicionais econmica, social, poltica e de prestao de servios exerce uma nova funo cujo objetivo a formao para e pela cidadania. Para uma cidade ser considerada educadora, ela precisa promover e desenvolver o prota- gonismo de todos crianas, jovens, adultos, idosos na busca de um novo direito, o direito cidade educadora: enquanto educadora, a Cidade tambm educanda. Muito de sua tarefa educativa implica a nossa posio poltica e, obviamente, a maneira como exeramos o po- der na Cidade e o sonho ou a utopia de que embebamos a poltica, a servio de que e de quem a fazemos.3 O que educar para a cidadania? A resposta a essa pergunta depende da resposta a outra pergunta: o que cidadania? Pode-se dizer que cidadania essencialmente conscincia de direitos e deveres e exerccio da democracia: direitos civis, como segurana e locomoo; direitos sociais, como trabalho, salrio justo, sade, educao, habitao etc.; direitos polticos, como liberdade de expresso, de voto, de participao em partidos polticos e sindi- catos etc. No h cidadania sem democracia. O conceito de cidadania, contudo, um conceito ambguo. Em 1789, a Declarao dos Direitos do Homem e do Cidado esta- belecia as primeiras normas para assegurar a liberdade individual e a propriedade. Nascia a cidadania como uma conquista liberal. Hoje o conceito de cidadania mais complexo. Com a ampliao dos direitos, nasce tambm uma concep- o mais ampla de cidadania. De um lado, existe uma concepo consumista de cidadania (direito de defesa do consumidor) e, de outro, uma concepo plena, que se manifesta na mobilizao da sociedade para a con- quista de novos direitos e na participao direta da popu- lao na gesto da vida pblica, por meio, por exemplo, da discusso democrtica do oramento da cidade. Essa tem sido uma prtica, sobretudo no nvel do poder local, que tem ajudado na construo de uma democracia participativa, superando os estreitos limites da democracia puramente representativa. Adela Cortina4 afirma que existem dimenses complementares, que se constituem em exigncias de uma cidadania plena: cidadania poltica direito de participao numa comunidade poltica; cidadania social que compreende a justia como exigncia tica da sociedade de bem viver; cidadania econmica participao na gesto e nos lucros da empresa, transformao produtiva com eqidade; cidadania civil afirmao de valores cvicos como liberdade, igualdade, respeito ativo, solidariedade, dilogo; cidadania intercultural afirmao da intercultura- lidade como projeto tico e poltico frente ao etno- centrismo. Na cidade que educa, todos os seus habitantes usu- fruem das mesmas oportunidades de formao, desen- volvimento pessoal e de entretenimento que ela ofere- ce. O Manifesto das Cidades Educadoras aprovado em Barcelona, em 1990, e revisto em Bolonha, em 1994, afirma que a satisfao das necessidades das crianas e dos jovens, no mbito das competncias do municpio, pressupe uma oferta de espaos, equipamentos e ser- vios adequados ao desenvolvimento social, moral e cultural, a serem partilhados com outras geraes. O municpio, no processo de tomada de decises, dever levar em conta o impacto das mesmas. A cidade oferecer aos pais uma formao que lhes permita ajudar os seus filhos a crescer e utilizar a cidade num esprito de respeito mtuo. Todos os habitantes da cidade tm o direito de refletir e participar na criao de programas educativos e culturais e a dispor dos instru- mentos necessrios que lhes permitam descobrir um Cadernos Cenpec 2006 n. 1 134 3. projeto educativo, na estrutura e na gesto da sua cida- de, nos valores que esta fomenta, na qualidade de vida que oferece, nas festas que organiza, nas campanhas que prepara, no interesse que manifesta por eles e na forma de os escutar. Nesse contexto, o conceito de Escola Cidad5 ganha um novo componente: a comunidade educadora recon- quista a escola no novo espao cultural da cidade, inte- grando-a a esse espao, considerando suas ruas e pra- as, rvores, bibliotecas, seus pssaros, cinemas, bens e servios, bares e restaurantes, teatros, suas igrejas, empresas e lojas enfim, toda a vida que pulsa na cidade. A escola deixa de ser um lugar abstrato para inserir-se definitivamente na vida da cidade e ganhar, com isso, nova vida. Ela se transforma num novo ter- ritrio de construo da cidadania. A relao entre Escola cidad e Cidade Educadora encontra-se na prpria origem etimolgica das palavras cidade e cidado. Ambas derivam da mesma pa- lavra latina: civis, cidado, membro livre de uma cidade a que pertence por origem ou adoo, portanto sujeito de um lugar, aquele que se apropriou de um espao, de um lugar. Assim, cidade (civitas) uma comunidade poltica cujos membros, os cidados, autogovernam-se, e cidado a pessoa que goza do direito de cidade. Cidade, cidado, cidadania referem-se a uma certa concepo da vida das pessoas, daquelas que vivem de forma civilizada (de civilitas, afabilidade, bondade, cortesia), participando de um mesmo territ- rio, autogovernando-se, construindo uma civilizao. Em Roma, esse conceito de sujeito da cidade era limi- tado apenas a poucos homens livres, cuja cultura era o reflexo do cio e no do trabalho. O trabalho era reser- vado aos numerosos escravos. Esses eram sujeitos su- jeitados, submetidos e, portanto, no eram considerados cidados, no tinham os direitos de cidadania, no eram considerados civilizados, mas estrangeiros, brbaros, no podendo usufruir dos benefcios da civilizao. Temos uma Escola Cidad e uma Cidade Educadora quando existe dilogo entre a escola e a cidade. No se pode falar de Escola Cidad sem compreend-la como escola participativa, escola apropriada pela populao como parte da apropriao da cidade a que pertence. Nesse sentido, Escola Cidad, em maior ou menor grau, supe a existncia de uma Cidade Educadora. Essa apropriao se d por meio de mecanismos criados pela prpria escola, como o Colegiado Escolar, a Constituinte Escolar, plenrias pedaggicas e outros. Esse ato de sujeito da prpria cidade leva para dentro da escola os interesses e necessidades da populao. Esse o cenrio da cidade que educa, no qual as prticas escolares possibilitam qualificar o entendimento freireano tanto da leitura da palavra escrita quanto da leitura do mundo. A cidade que educa no aponta para solues imediatas, mas para uma compreenso mais analtica e reflexiva, seja em relao aos problemas do cotidiano ou aos desafios do mundo contemporneo. Quando a cidade educa? O movimento da Escola Cidad, inicialmente muito centrado na democratizao da gesto e no planejamento participativo, aos poucos ampliou suas preocupaes para a construo de um novo currculo (interdisciplinar, transdisciplinar, intercultural) e de relaes sociais, hu- manas e intersubjetivas novas, enfrentando os graves problemas gerados pelo aumento da violncia e da dete- riorao da qualidade de vida nas cidades e no campo. Uma dcada de inovao e de experimentao, com base numa concepo cidad da educao e de cidade educadora, foi suficiente para gerar um grande movi- mento, uma perspectiva concreta para a escola pblica, demonstrando que a sociedade civil est reagindo ten- dncia oficial neoliberal, a um modelo de internacionali- zao da agenda da educao, que segue a mesma re- ceita contida em recomendaes de organismos inter- nacionais, como o Banco Mundial e o FMI. Tarso Genro6 destaca, entre as suas 21 teses para a criao de uma poltica democrtica e socialista, a neces- sidade de uma nova cultura poltica, mais abrangente, de disputa hegemnica e de incorporao de novos agentes sociais, e uma nova esfera pblica com orga- nizaes locais, regionais, nacionais e internacionais, auto-organizadas, rompendo a distncia entre Estado e Cidadania. Cadernos Cenpec 2006 n. 1 135 Temos uma E

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