Danilo barcelos correa_a_materia_do_nada

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Dissertação de mestrado defendida em abril de 2011. Programa de Pós-graduação em Letras - PPGL - Universidade Federal do Espírito Santo. Prof. Orientador: Alexandre Moraes

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  • 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPRITO SANTO CENTRO DE CINCIAS HUMANAS E NATURAIS DEPARTAMENTO DE LNGUAS E LETRAS PPGL MESTRADO EM LETRASDANILO BARCELOS CORRAA MATRIA DO NADA Potncias, flutuaes e experincia no nada potico de Carlos Drummond de AndradeVITRIA 2011

2. 2DANILO BARCELOS CORRAA MATRIA DO NADA Potncias, flutuaes e experincia no nada potico de Carlos Drummond de AndradeDissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Letras Mestrado em Letras, do Centro de Cincias Humanas e Naturais, da Universidade Federal do Esprito Santo como requisito para obteno do grau de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Alexandre Jairo Marinho MoraesVITRIA 2011 3. 3Dados Internacionais de Catalogao na publicao (CIP) (Centro de Documentao do Programa de Ps-Graduao em Letras, da Universidade Federal do Esprito Santo, ES, Brasil) C824mBarcelos Corra, Danilo, 1981A matria do nada : potncias, flutuaes e experincia no nada potico de Carlos Drummond de Andrade / Danilo Barcelos Corra, 2011. 129 f. Orientador: Alexandre Jairo Marinho Moraes. Dissertao (mestrado) Universidade Federal do Esprito Santo, Centro de Cincias Humanas e Naturais. 1. Criao potica. 2. Andrade, Carlos Drummond de Crtica e interpretao. 3. Poesia brasileira Histria e crtica. 4. Estudos literrios. I. Moraes, Alexandre Jairo Marinho. II. Universidade Federal do Esprito Santo, Centro de Cincias Humanas e Naturais. III. Ttulo. CDU: 82 4. 4DANILO BARCELOS CORRAA MATRIA DO NADA Potncias, flutuaes e experincia no nada potico de Carlos Drummond de Andrade Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Letras Mestrado em Letras, do Centro de Cincias Humanas e Naturais, da Universidade Federal do Esprito Santo como requisito para obteno do grau de Mestre em Letras. BANCA EXAMINADORAProfessor Doutor Alexandre Jairo Marinho Moraes Universidade Federal do Esprito Santo OrientadorProfessor Doutor Fernando Mendes Pessoa Universidade Federal do Esprito Santo Membro TitularProfessor Doutor Orlando Lopes Albertino Universidade Federal do Esprito Santo Membro TitularProfessor Doutor Lino Machado Universidade Federal do Esprito Santo Membro Suplente Professora Doutora Gumercinda Nascimento Gonda Universidade Federal do Rio de Janeiro Membro Suplente Externo 5. 5Agradecimentos Ao amigo e orientador Alexandre Moraes Aos amigos Andressa Zoi Nathanailidis, Carmen Nathanailidis, Beatriz Bueno Lesoing, Julian Bueno Lesoing, Leonardo Mendes Neves, Thalles Tadeu Brunello Zaban, Lino Machado, Welber Santos, Fabrcio Lcio Gabriel de Souza, Edmar vila, Ednaldo Cndido Moreira Gomes, Renato Viana Boy e Pablo Brulio de Souza. A Capes, pelo financiamento do trabalho. 6. 6A Adolfinho, Adolfo, Penha, Andr e Guilherme: a famlia. A Jorge Raimundo Barcelos: o exemplo. A Daniel, Douglas, Joo, Pedro e Didil: meus irmos. Para Giza e Wilton, meus pais. 7. 7LISBON REVISITED Nada me prende a nada. Quero cinqenta coisas ao mesmo tempo. Anseio com uma angstia de fome de carnes O que no sei que seja Definitivamente pelo indefinido... Durmo irriquieto, e vivo num sonhar irriquieto De quem dorme irriquieto, metade a sonhar.lvaro de Campos 8. 8RESUMO Carlos Drummond de Andrade, em seus poemas, pensa esteticamente o ser, o tempo e a linguagem, silenciando seus leitores para que neles se opere a fora do nada. Pensar a matria do nada nos poemas do poeta trilhar um caminho em seu pensamento, tateando, como poeticamente ele o faz, o poder de palavra e o poder de silncio de seus versos para fundar o ser. Verificamos, ao analisar seus poemas, como o poeta reflete seu tempo e seus problemas maiores, afinado com as diversas disciplinas do saber e com as questes centrais de sua poca. A partir disso, verifica-se o que entende o poeta por eu, poema, poesia, tempo e silncio. Estabelecidos estes pontos, torna-se possvel perceber como os poemas nos angustiam e nos suspendem no nada, desfazendo-nos e refazendo-nos no pensar potico de Drummond.Palavras-chave: Carlos Drummond de Andrade; nada; poema; poesia; poeta; ser; linguagem; tempo; silncio. 9. 9ABSTRACT Carlos Drummondde Andrade, inhis poems, reflectsaestheticallyabouttheself, time and language, silencing his readers so power over nothing acts on them. To think about nothingnesss matter in the poets poems is treading a path in his thinking,feelingpoetically as heshows, "the powerof speechandsilence" of his verses creating the self. Analyzing his poems as the poet reflects on the twentieth century and its major problems, in tune with the different disciplines of knowledge and central issues of that time period. By checking this it is understood how the poet conceives the concepts of poem, poetry, time and silence. Establishing these points it becomes possible to see how poems effect and suspend the self in nothingness, unmaking and remaking the self in the poetic thought of Drummond. Keywords: Carlos Drummond de Andrade; nothingness; poem; poetry; poet; self; language; time; silence. 10. 10LISTA DE TTULOS DAS OBRAS APAlguma poesiaSMSentimento do mundoJOJos de outros poemasRPA rosa do povoNPNovos poemasCEClaro enigmaVBViola de BolsoFAFazendeiro do arVPLA vida passada a limpoLCLio de CoisasVPVersiprosaFQAA falta que amaIBImpurezas do brancoCOCorpoPEPoesia errantePCPoesia completa 11. 11SUMRIOINTRODUO.......................................................................................................12 PARTE I Essa viagem mortal, e come-la!................................................................18PARTE II Interesse, pensar, saber.......................................................................................42 PARTE III Poesia: cano que fala como dois olhos..........................................................80CONSIDERAES FINAIS...................................................................................119REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS......................................................................126 12. 12INTRODUOCarlos Drummond de Andrade, interessado1, de permeio aos substratos pensveis do seu estar-no-mundo, toca em questes centrais e fundamentais. Estas, passveis de serem verificadas em toda a sua lrica, esto ligadas a discusses maiores empreendidas por poetas, filsofos, psicanalistas e demais pensadores da primeira metade do sculo passado. Entendemos que os primeiros trinta anos do sculo XX so marcados por publicaes importantes que acabam por criar pensamentos norteadores para a civilizao. Esto entre os grandes escritos desta poca os de Sigmund Freud, principalmente os que tratam do inconsciente, que impem uma virada na abordagem do sujeito e do cogito empreendida at ento2. Temos tambm a publicao da Teoria da relatividade de Albert Einstein, que recoloca a discusso de tempo ao analis-lo a partir da matria3. Por fim, Martin Heidegger publica Ser e tempo, que pensa a relao ontolgica do ser com a existncia4. Concomitantemente, Drummond, em 1930, em seus poemas de estria, encena, poeticamente, problemticas caras aos conceitos que acima determinamos cruciais para o desenrolar do sculo. Percebemos que mais do que poetizar temticas isoladas, ele pensava seu tempo, sensvel aos acontecimentos de sua poca (que fazem com que Silviano Santiago reconhea em sua obra um caminho para se entender o sculo de sua produo5). 1HEIDEGGER, Martin. O que quer dizer pensar In. ______. Ensaios e conferncias. Trad. Emmanuel Carneiro Leo, Gilvan Fogel e Marcia S Cavalcante Schuback. Petrpolis: Vozes; Bragana Paulista: Editora Universitria So Francisco, 2008. p. 113. 2 Sobre a importncia do desenvolvimento do conceito de Ego de Freud para o pensamento sobre o eu, cf. GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987. 3 Sobre a importncia da teoria da relatividade para se pensar o tempo, cf. HEIDEGGER, Martin. O conceito de tempo. Trad. Irene Borges-Duarte. 2. ed. Lisboa: Fim de sculo, 2008. 4 Sobre a importncia do pensamento de Martin Heidegger para a anlise da modernidade, cf. JAMESON, Fredric. Modernidade singular: ensaio sobre a ontologia do presente. Trad. Roberto Franco Valente. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2005. 5 O primeiro livro de Drummond, Alguma poesia, publicado pela primeira vez em 1930 e sua ltima publicao em vida Corpo, de 1984. Por conta da quantidade e da regularidade, ao longo do sculo, de suas publicaes, diz Silviano Santiago: O caminhar conflituoso do sculo XX est interligado ao desenvolvimento do vai e vem de sua poesia [de Drummond]. Ler a obra mais velha do irmo mais novo [o poeta] pode servir para compreender melhor a histria do irmo mais velho [o sculo XX]. Ler a histria do mais velho pode ajudar a analisar e interpretar melhor a obra potica do mais novo. Cf. SANTIAGO, Silviano. Introduo leitura dos poemas de Carlos Drummond de Andrade In ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003. p. iii- iv. 13. 13Tendo conscincia de que a literatura um saber6 e entendendo que ela sua matria, a nica que pode produzir outros saberes, ele, ao pensar o seu mundo e o tempo, elabora o saber literrio, potente: o nico com poder para desfazer e refazer as construes simblicas subjetivas que a linguagem estabeleceu no ser. Atento ao mundo que o rodeia e ao que angustia os seres, preso ao presente, luta no meio do caminho da linguagem para que suas matrias o tempo e o nada criem o ser. S assim pode o poeta fazer-se til para a humanidade. Ele reconhece a necessidade de seu ofcio, dentre as necessidades do mundo no Poema das necessidades: POEMA DA NECESSIDADE preciso casar Joo, preciso suportar Antnio, preciso odiar Melquades, preciso substituir todos ns. 5 preciso salvar o pas, preciso crer em Deus, preciso pagar as dvidas, preciso comprar um rdio, preciso esquecer fulana.10 preciso estudar volapuque, preciso estar sempre bbedo, preciso ler Baudelaire, preciso colher as flores de que rezam velhos autores.15 preciso viver com os homens, preciso no assassin-los, preciso ter mos plidas e anun