of 92 /92
Gilles Deleuze Félix Guattari O QUE É A FILOSOFIA? Tradução Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Munoz Coleção TRANS Editora !34 Talvez só possamos colocar a questão O que é a filosofia? tardiamente, quando chega a velhice, e a hora de falar concretamente. De fato, a bibliografia é muito magra. Esta é uma questão que enfrentamos numa agitação discreta, à meia-noite, quando nada mais resta a perguntar. Antigamente nós a formulávamos, não deixávamos de formulá-la, mas de maneira muito indireta ou oblíqua, demasiadamente artificial, abstrata demais; expúnhamos a questão, mas dominando-a pela rama, sem deixar-nos engolir por ela. Não estávamos suficientemente sóbrios. Tínhamos muita vontade de fazer filosofia, não nos perguntávamos o que ela era, salvo por exercício de estilo; não tínhamos atingido este ponto de não-estilo em que se pode dizer enfim: mas o que é isso que fiz toda a minha vida? Há casos em que a velhice dá, não uma eterna juventude mas, ao contrário, uma soberana liberdade, uma necessidade pura em que se desfruta de um momento de graça entre a vida e a morte, e em que todas as peças da máquina se combinam para enviar ao porvir um traço que atravesse as eras... Gilles Deleuze e Félix Guattari Pode-se falar, hoje, de um profundo mal-estar na filosofia. Um pouco por toda parte encontramos a expressão de uma espécie de desencanto: como se a filosofia passasse, como um todo, por um processo de banalização. Processo que não é indiferente à hegemonia crescente da filosofia escolar ou universitária, à "civilização do papel" que fustigavam, nela identificando sintoma de decadência, pensadores tão diferentes como Wittgenstein e Merleau-Ponty. Por contraste, tanto maior é o prazer, cada vez mais raro, de ler um belo livro de filosofia, como é o caso desta obra de Gilles Deleuze e Félix Guattari. A qualidade do livro transparece já na originalidade de seu estilo alegre. A gravidade da questão, que não é uma questão preliminar ou retórica, não exclui o humor — antes o exige. Nem poderia ser de outra maneira, quando abandonamos a esfera técnica da análise conceituai, para mergulhar na tarefa propriamente filosófica da construção conceituai. Já no primeiro capítulo, o leitor tem acesso ao ponto de vista crítico que está na raiz da virulência desta concepção e desta prática da filosofia. Arrisquemos uma fórmula: não há nenhum solo pré-filosófico, susceptível de determinação positiva, seja a linguagem comum, seja o Lebenswelt, que possa servir de pano de fundo ou de guia para a análise conceituai. A invenção ou a produção dos conceitos remete à instauração de um "plano de imanência" que, podendo embora ser caracterizado como "pré-filosófico", não deixa de ser contemporâneo e indissociável dessa invenção e dessa produção. De alguma maneira e inesperadamente, a esfera do pré-filosófico se revela como posí-filosófica. O chão se abre sob nossos pés e experimentamos a vertigem do pensamento. Mas, sobretudo, essa radiografia da filosofia, através das noções básicas de conceito, plano de imanência e personagem conceituai, ganha vida nos inúmeros exemplos que se sucedem. O trabalho do filósofo é aqui amparado pelo do historiador da filosofia — mesmo breves, são particularmente iluminadoras as análises da instituição da filosofia nas obras de Platão, Descartes, Kant, etc.

Deleuze, gilles & guatari, félix o que é a filosofia

Embed Size (px)

Text of Deleuze, gilles & guatari, félix o que é a filosofia

  • Gilles Deleuze Flix Guattari

    O QUE A FILOSOFIA?Traduo Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Munoz

    Coleo TRANS

    Editora !34

    Talvez s possamos colocar a questo O que a filosofia? tardiamente, quando chega a velhice, e a hora de falar concretamente. De fato, a bibliografia muito magra. Esta uma questo que enfrentamos numa agitao discreta, meia-noite, quando nada mais resta a perguntar. Antigamente ns a formulvamos, no deixvamos de formul-la, mas de maneira muito indireta ou oblqua, demasiadamente artificial, abstrata demais; expnhamos a questo, mas dominando-a pela rama, sem deixar-nos engolir por ela. No estvamos suficientemente sbrios. Tnhamos muita vontade de fazer filosofia, no nos perguntvamos o que ela era, salvo por exerccio de estilo; no tnhamos atingido este ponto de no-estilo em que se pode dizer enfim: mas o que isso que fiz toda a minha vida? H casos em que a velhice d, no uma eterna juventude mas, ao contrrio, uma soberana liberdade, uma necessidade pura em que se desfruta de um momento de graa entre a vida e a morte, e em que todas as peas da mquina se combinam para enviar ao porvir um trao que atravesse as eras...

    Gilles Deleuze e Flix Guattari

    Pode-se falar, hoje, de um profundo mal-estar na filosofia. Um pouco por toda parte encontramos a expresso de uma espcie de desencanto: como se a filosofia passasse, como um todo, por um processo de banalizao. Processo que no indiferente hegemonia crescente da filosofia escolar ou universitria, "civilizao do papel" que fustigavam, nela identificando sintoma de decadncia, pensadores to diferentes como Wittgenstein e Merleau-Ponty. Por contraste, tanto maior o prazer, cada vez mais raro, de ler um belo livro de filosofia, como o caso desta obra de Gilles Deleuze e Flix Guattari. A qualidade do livro transparece j na originalidade de seu estilo alegre. A gravidade da questo, que no uma questo preliminar ou retrica, no exclui o humor antes o exige. Nem poderia ser de outra maneira, quando abandonamos a esfera tcnica da anlise conceituai, para mergulhar na tarefa propriamente filosfica da construo conceituai. J no primeiro captulo, o leitor tem acesso ao ponto de vista crtico que est na raiz da virulncia desta concepo e desta prtica da filosofia. Arrisquemos uma frmula: no h nenhum solo pr-filosfico, susceptvel de determinao positiva, seja a linguagem comum, seja o Lebenswelt, que possa servir de pano de fundo ou de guia para a anlise conceituai. A inveno ou a produo dos conceitos remete instaurao de um "plano de imanncia" que, podendo embora ser caracterizado como "pr-filosfico", no deixa de ser contemporneo e indissocivel dessa inveno e dessa produo. De alguma maneira e inesperadamente, a esfera do pr-filosfico se revela como pos-filosfica. O cho se abre sob nossos ps e experimentamos a vertigem do pensamento. Mas, sobretudo, essa radiografia da filosofia, atravs das noes bsicas de conceito, plano de imanncia e personagem conceituai, ganha vida nos inmeros exemplos que se sucedem. O trabalho do filsofo aqui amparado pelo do historiador da filosofia mesmo breves, so particularmente iluminadoras as anlises da instituio da filosofia nas obras de Plato, Descartes, Kant, etc.

  • O que este livro nos oferece a compreenso do que h de vertiginoso na filosofia mas tambm, e seguindo o mesmo movimento de pensamento, do que h de vertiginoso na cincia e na arte. Filosofia, cincia e arte so planos irredutveis, mas podem ser explorados segundo uma mesma estratgia; s trs instncias da instaurao filosfica, correspondero instncias simtricas da instaurao artstica e cientfica: "plano de imanncia da filosofia, plano de composio da arte, plano de referncia ou de coordenao da cincia; forma do conceito, fora da sensao, funo de conhecimento; conceitos e personagens conceituais, sensaes e figuras estticas, funes e observadores parciais". Ao abrir este livro, caro leitor, voc poder descobrir, com alegria, que a filosofia est viva e no consiste apenas em objeto de interesse filolgico.

    Bento Prado Jr.

    O QUE A FILOSOFIA?

    Introduo - Assim Pois a Questo ............... 7

    I. FILOSOFIA O que um Conceito? ............... 25 O Plano de Imanncia ............... 49 Os Personagens Conceituais ............... 81 Geo-filosofia ............... 111

    II. FILOSOFIA, CINCIA LGICA E ARTE Functivos e Conceitos ............... 151 Prospectos e Conceitos ............... 175 Percepto, Afecto e Conceito ............... 211 Concluso - Do Caos ao Crebro ............... 257

    Introduo Assim Pois a Questo...

    Talvez s possamos colocar a questo O que a filosofia? tardiamente, quando chega a velhice, e a hora de falar concretamriile. I )e lato, a bibliografia e muito magra. Esta uma questo que enfrentamos numa agitao discreta, meia-noite, quando nada mais resta a perguntar. Antigamente ns a formulvamos, no deixvamos de formul-la, mas de maneira muito indireta ou oblqua, demasiadamente artificial, abstrata demais; expnhamos a questo, mas dominando-a pela rama, sem deixar-nos engolir por ela. No estvamos suficientemente sbrios. Tnhamos muita vontade de fazer filosofia, no nos perguntvamos o que ela era, salvo por exerccio de estilo; no tnhamos atingido este ponto de no-estilo em que se pode dizer enfim: mas o que isso que fiz toda a minha vida? H casos em que a velhice d, no uma eterna juventude mas, ao contrrio, uma soberana liberdade, uma necessidade pura em que se desfruta de um momento de graa entre a vida e a morte, e em que todas as peas da mquina se combinam para enviar ao porvir um trao que atravesse as eras: Ticiano, Turner, Monet(1). Velho, Turner adquiriu ou conquistou o direito de conduzir a pintura por um caminho deserto e sem retorno que no se distingue mais de uma ltima questo. Talvez a Vie de Rance marque ao mesmo tempo a velhice de Chateaubriand e o incio da literatura moderna(2). O cinema tambm nos oferece por vezes seus dons da terceira idade, onde Ivens, por exemplo, mistura seu riso com o da bruxa no vento solto. O mesmo ocorre na filosofia, a Crtica do juzo de Kant uma

  • obra de velhice, uma obra desatada atrs da qual no cessaro de correr(1) Cf. Uoeuvre ultime, de Czanne Dubuffet, Fondation Maeght,prefcio de Jean-Louis Prat.(2) Barbris, Chateaubriand, Ed. Larousse: "Rance, livro sobre a velhice como valor impossvel, um livro escrito contra a velhice no poder: um livro de runas universais em que s se afirma o poder da escrita".

    9 seus descendentes: toil.is .is faculdades do esprito ultrapassam seus limites, estes mesmos limites que Kant tinha fixado to cuidadosamente em seus livros de maturidade. Ns no podemos aspirar a um tal estatuto. Simplesmente chegou a hora, para ns, de perguntar o que a filosofia. Nunca havamos deixado de faz-lo, e j tnhamos a resposta que no variou: a filosofia a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos. Mas no seria necessrio somente que a resposta acolhesse a questo, seria necessrio tambm que determinasse uma hora, uma ocasio, circunstncias, paisagens e personagens, condies e incgnitas da questo. Seria preciso formul-la "entre amigos", como uma confidencia ou uma confiana, ou ento face ao inimigo como um desafio, e ao mesmo tempo atingir esta hora, entre o co e o lobo, em que se desconfia mesmo do amigo. a hora em que se diz: "era isso, mas eu no sei se eu disse bem, nem se fui assaz convincente". E se percebe que importa pouco ter dito bem ou ter sido convincente, j que de qualquer maneira nossa questo agora. Os conceitos, como veremos, tm necessidade de personagens conceituais que contribuam para sua definio. Amigo um desses personagens, do qual se diz mesmo que ele testemunha a favor de uma origem grega da filosofia: as outras civilizaes tinham Sbios, mas os gregos apresentam esses "amigos" que no so simplesmente sbios mais modestos. Seriam os gregos que teriam sancionado a morte do Sbio, e o teriam substitudo pelos filsofos, os amigos da sabedoria, aqueles que procuram a sabedoria, mas no a possuem formalmente(3). Mas no haveria somente diferena de grau, como numa escala, entre o filsofo e o sbio: o velho sbio vindo do Oriente pensa talvez por Figura, en-(3) Kojve, "Tyrannie et sagesse", p. 235 (in Lo Strauss, De Ia tyrannie, Gallimard).

    10 quanto o filsofo inventa e pensa o Conceito. A sabedoria mudou muito, lauto mais difcil tornou-se saber o que significa "amigo", mesmo e sobretudo entre os gregos. Amigo designaria uma certa intimidade competente, uma espcie de gosto material e uma potencialidade, como aquela do marceneiro com a madeira: o bom marceneiro , em potncia, madeira, ele o amigo da madeira? A questo importante, uma vez que o amigo tal como ele aparece na filosofia no designa mais um personagem extrnseco, um exemplo ou uma circunstncia emprica, mas uma presena intrnseca ao. pensamento, uma condio de possibilidade do prprio pensamento, uma categoria viva, um vivido transcendental. Com a filosofia, os gregos submetem a uma violncia o amigo, que no est mais em relao com um outro, mas com uma Entidade, uma Objetividade, uma Essncia. Amigo de Plato, mas mais ainda da sabedoria, do verdadeiro ou do conceito, Filaleto e Tefilo... O filsofo bom em conceitos, e em falta de conceitos, ele sabe quais so inviveis, arbitrrios ou inconsistentes, no resistem um instante, e quais, ao contrrio, so bem feitos e testemunham uma criao, mesmo se inquietante ou perigosa. Que quer dizer amigo, quando ele se torna personagem conceituai ou condio para o exerccio do pensamento? Ou ento amante, no seria antes amante? E o amigo no vai reintroduzir, at no pensamento, uma relao vital com o Outro que se tinha acreditado excluir do pensamento puro? Ou ento, ainda, no se trata de algum diferente do amigo ou do amante? Pois se o filsofo o amigo ou o amante da sabedoria, no porque ele aspira a ela, nela se empenhando em potncia, mais do que a possuindo em ato? O amigo seria, pois, tambm o pretendente, e aquele de que ele se diria o amigo seria a Coisa que alvo da pretenso, mas no o terceiro, que se tornaria ao contrrio um rival? A amizade comportaria tanto desconfiana competitiva com

    11 relao ao rival, quanto tenso amorosa em direo ilo ob jeto do desejo. Quando a amizade se voltasse para a conscincia, os dois amigos seriam como o pretendente e o rival (mas o que os distinguiria?). sob este primeiro trao que a filosofia parece uma coisa grega e coincide com a contribuio das cidades: ter formado sociedades de amigos ou de iguais, mas tambm ter promovido, entre elas e em cada uma, relaes de rivalidade, opondo pretendentes em todos os domnios, no amor, nos jogos, nos tribunais, nas magistraturas, na poltica, e at no pensamento, que no encontraria sua condio somente no amigo, mas no pretendente e no rival (a dialtica que Plato define pela amphisbetesis). A rivalidade dos homens livres, um atletismo

  • generalizado: o agn(4). prprio da amizade conciliar a integridade da essncia e a rivalidade dos pretendentes. No uma tarefa grande demais? O amigo, o amante, o pretendente, o rival so determinaes transcendentais, que no perdem por isso sua existncia intensa e animada, num mesmo personagem ou em diversos. E quando hoje Maurice Blanchot, que faz parte dos raros pensadores que pensam o sentido da palavra "amigo" em filosofia, retoma esta questo interior das condies do pensamento como tal, no so novos personagens conceituais que ele introduz no seio do mais puro Pensado, personagens pouco gregos desta vez, vindos de outra parte, como se tivessem passado por uma catstrofe que os arrasta na direo de novas relaes vivas promovidas ao estado de caracteres a priori: um desvio, um certo desamparo, uma certa destreza entre amigos que converte a prpria amizade ao pensamento do conceito como desconfiana e pacincia infini-(4) Por exemplo, Xenofonte, Repblica dos lacedemnios, IV, 5. De-tienne e Vernant analisaram particularmente estes aspectos da cidade.

    12 tas(5)"? A lista dos personagens conceituais no est jamais In h.ul.i, c por isso desempenha um papel importante na evoluo ou nas mutaes da filosofia; sua diversidade deve ser compreendida, sem ser reduzida unidade j complexa do filsofo grego. O filsofo o amigo do conceito, ele conceito em potncia. Quer dizer que a filosofia no uma simples arte de formar, de inventar ou de fabricar conceitos, pois os conceitos no so necessariamente formas, achados ou produtos. A filosofia, mais rigorosamente, a disciplina que consiste em criar conceitos. O amigo seria o amigo de suas prprias criaes? Ou ento o ato do conceito que remete potncia do amigo, na unidade do criador e de seu duplo? Criar conceitos sempre novos o objeto da filosofia. porque o conceito deve ser criado que ele remete ao filsofo como quele que o tem em potncia, ou que tem sua potncia e sua competncia. No se pode objetar que a criao se diz antes do sensvel e das artes, j que a arte faz existir entidades espirituais, e j que os conceitos filosficos so tambm sensibilia. Para falar a verdade, as cincias, as artes, as filosofias so igualmente criadoras, mesmo se compete apenas filosofia criar conceitos no sentido estrito. Os conceitos no nos esperam inteiramente feitos, como corpos celestes. No h cu para os conceitos. Eles devem ser inventados, fabricados ou antes criados, e no seriam nada sem a assinatura daqueles que os criam. Nietzsche determinou a tarefa da filosofia quando escreveu: "os filsofos no devem mais contentar-se em aceitar os conceitos que lhes so dados, para somente limp-los e faz-los reluzir, mas necessrio que eles comecem por fabric-los, cri-los, afirm-los, persuadindo(5) Sobre a relao da amizade com a possibilidade de pensar, no mundo moderno, cf. Blanchot, Uamiti e Uentretien infini (o dilogo dos dois cansados), Gallimard. E Mascolo, Autour d'un effort de mmoire, Ed. Nadeau.

    13 os homens a utiliz-los. At o presente momento, tudo somado, cada um tinha confiana em seus conceitos, como num dote miraculoso vindo de algum mundo igualmente miraculoso", mas necessrio substituir a confiana pela desconfiana, e dos conceitos que o filsofo deve desconfiar mais, desde que ele mesmo no os criou (Plato sabia isso bem, apesar de ter ensinado o contrrio...)(6). Plato dizia que necessrio contemplar as Idias, mas tinha sido necessrio, antes, que ele criasse o conceito de Idia. Que valeria um filsofo do qual se pudesse dizer: ele no criou um conceito, ele no criou seus conceitos? Vemos ao menos o que a filosofia no : ela no contemplao, nem reflexo, nem comunicao, mesmo se ela pde acreditar ser ora uma, ora outra coisa, em razo da capacidade que toda disciplina tem de engendrar suas prprias iluses, e de se esconder atrs de uma nvoa que ela emite especialmente. Ela no contemplao, pois as contemplaes so as coisas elas mesmas enquanto vistas na criao de seus prprios conceitos. Ela no reflexo, porque ningum precisa de filosofia para refletir sobre o que quer que seja: acredita-se dar muito filosofia fazendo dela a arte da reflexo, mas retira-se tudo dela, pois os matemticos como tais no esperaram jamais os filsofos para refletir sobre a matemtica, nem os artistas sobre a pintura ou a msica; dizer que eles se tornam ento filsofos uma brincadeira de mau gosto, j que sua reflexo pertence a sua criao respectiva. E a filosofia no encontra nenhum refgio ltimo na comunicao, que no trabalha em potncia a no ser de opinies, para criar o "consenso" e no o conceito. A idia de uma conversao democrtica ocidental entre amigos no produziu nunca o menor conceito; ela vem(6) Nietzsche, Posthumes 1884-1885, Oeuvres philosophiques, XI, Gallimard, pp. 215-216 (sobre "a arte da desconfiana").

    14

  • talvez dos gregos, mas estes dela desconfiavam de tal maneira, e a faziam sofrer um tratamento to rude, que o conceito era antes como o pssaro-solilquio-irnico que sobrevoava o campo de batalha das opinies rivais aniquiladas (os convidados bbados do banquete). A filosofia no contempla, no reflete, no comunica, se bem que ela tenha de criar conceitos para estas aes ou paixes. A contemplao, a reflexo, a comunicao no so disciplinas, mas mquinas de constituir Universais em todas as disciplinas. Os Universais de contemplao, e em seguida de reflexo, so como duas iluses que a filosofia j percorreu em seu sonho de dominar as outras disciplinas (idealismo objetivo e idealismo subjetivo), e a filosofia no se engrandece mais apresentando-se como uma nova Atenas e se desviando sobre Universais da comunicao que forneceriam as regras de um domnio imaginrio dos mercados e da mdia (idealismo inter-subjetivo). Toda criao singular, e o conceito como criao propriamente filosfica sempre uma singularidade. O primeiro princpio da filosofia que os Universais no explicam nada, eles prprios devem ser explicados. Conhecer-se a si mesmo aprender a pensar fazer como se nada fosse evidente espantar-se, "estranhar que o ente seja"..., estas determinaes da filosofia e muitas outras formam atitudes interessantes, se bem que fatigantes a longo prazo, mas no constituem uma ocupao bem definida, uma atividade precisa, mesmo de um ponto de vista pedaggico. Pode-se considerar como decisiva, ao contrrio, a definio da filosofia: conhecimento por puros conceitos. Mas no h lugar para opor o conhecimento por conceitos, e por construo de conceitos na experincia possvel ou na intuio. Pois, segundo o veredito nietzscheano, voc no conhecer nada por conceitos se voc no os tiver de incio criado, isto , construdo numa intuio que lhes prpria: um campo, um plano, um solo, que no se confunde com

    15 eles, mas que abriga seus germes e os personagens que os cultivam. O construtivismo exige que toda criao seja unia construo sobre um plano que lhe d uma existncia autnoma. Criar conceitos, ao menos, fazer algo. A questo do uso ou da utilidade da filosofia, ou mesmo de sua nocividade (a quem ela prejudica?), assim modificada. Muitos problemas urgem sob os olhos alucinados de um velho que veria confrontarem-se todas as espcies de conceitos filosficos e de personagens conceituais. E de incio os conceitos so e permanecem assinados: substncia de Aristteles, cogito de Descartes, mnada de Leibniz, condio de Kant, potncia de Schelling, durao de Bergson... Mas tambm alguns exigem uma palavra extraordinria, s vezes brbara ou chocante, que deve design-los, ao passo que outros se contentam com uma palavra corrente muito comum, que se enche de harmnicos to longnquos que podem passar despercebidos a um ouvido no filosfico. Alguns solicitam arcasmos, outros neologismos, atravessados por exerccios etimolgicos quase loucos: a etimologia como atletismo propriamente filosfico. Deve haver em cada caso uma estranha necessidade destas palavras e de sua escolha, como elemento do estilo. O batismo do conceito solicita um gosto propriamente filosfico que procede com violncia ou com insinuao, e que constitui na lngua uma lngua da filosofia, no somente um vocabulrio, mas uma sintaxe que atinge o sublime ou uma grande beleza. Ora, apesar de datados, assinados e batizados, os conceitos tm sua maneira de no morrer, e todavia so submetidos a exigncias de renovao, de substituio, de mutao, que do filosofia uma histria e tambm uma geografia agitadas, das quais cada momento, cada lugar, se conservam, mas no tempo, e passam, mas fora do tempo. Se os conceitos no param de mudar, podemos perguntar: qual unidade resta para as filosofias? a mesma coisa para as cincias, para as artes, que

    16 no procedem por conceitos? E quanto histria dessas trs disciplinas? Se a filosofia essa criao contnua de conceitos, perguntar-se- evidentemente o que um conceito como Idia filosfica, mas tambm em que consistem as outras Idias criadoras que no so conceitos, que pertencem s cincias e s artes, que tm sua prpria histria e seu prprio devir, e suas prprias relaes variveis entre elas e com a filosofia. A exclusividade da criao de conceitos assegura filosofia uma funo, mas no lhe d nenhuma proeminncia, nenhum privilgio, pois h outras maneiras de pensar e de criar, outros modos de ideao que no tm de passar por conceitos, como o pensamento cientfico. E retornaremos sempre questo de saber para que serve esta atividade de criar conceitos, em sua diferena em relao s atividades cientfica ou artstica: por que necessrio criar conceitos, e sempre novos conceitos, por qual necessidade, para qual uso? Para fazer o qu? A resposta segundo a qual a grandeza da filosofia estaria justamente em no servir para nada um coquetismo que no tem graa nem mesmo para os jovens. Em todo caso, no tivemos jamais um problema concernente morte da metafsica ou superao da filosofia: so disparates inteis e penosos. Fala-se hoje da falncia dos sistemas, quando apenas o conceito de sistema que mudou. Se h lugar e tempo para a criao dos conceitos, a essa operao de criao sempre se chamar filosofia, ou no se distinguira da filosofia, mesmo se lhe for dado um outro nome. Sabemos, todavia, que o amigo ou o amante como pretendente no existe sem rivais. Se a filosofia tem uma origem grega, como certo diz-lo,

  • porque a cidade, ao contrrio dos imprios ou dos Estados, inventa o agn como regra de uma sociedade de "amigos", a comunidade dos homens livres enquanto rivais (cidados). a situao constante que descreve Plato: se cada cidado aspira a alguma coisa, ele encontra necessariamente rivais, de modo que neces-

    17 srio poder julgar acerca do bem-fundado das pretenses. O marceneiro aspira madeira, mas se choca com o guarda-florestal, com o lenhador, com o carpinteiro, que dizem: sou eu, sou eu o amigo da madeira. Se se trata de cuidar dos homens, h muitos pretendentes que se apresentam como o amigo do homem: o campons que o alimenta, o tecelo que o veste, o mdico que dele cuida, o guerreiro que o protege(7). E se, em todos estes casos, a seleo se faz apesar de tudo em um crculo algo restrito, o mesmo no acontece na poltica, onde quem quer que seja pode aspirar ao que quer que seja, na democracia ateniense tal como a v Plato. De onde a necessidade para Plato de uma reordenao, na qual se criem as instncias que permitam julgar acerca do bem-fundado das pretenses: so as Idias como conceitos filosficos. Mas mesmo a no se vai reencontrar todas as espcies de pretendentes para dizer: o verdadeiro filsofo sou eu, sou eu o amigo da Sabedoria ou do Bem-Fundado? A rivalidade culmina naquela entre o filsofo c o sofista, que disputam os despojos do velho sbio; mas como distinguir o falso amigo do verdadeiro, e o conceito do simulacro? O simulador e o amigo: todo um teatro platnico que faz proliferar os personagens conceituais, dotando-os das potncias do cmico e do trgico. Mais recentemente, a filosofia cruzou com muitos novos rivais. Eram a princpio as cincias do homem, e notadamente a sociologia, que desejavam substitu-la. Mas como a filosofia tinha cada vez mais desprezado sua vocao de criar conceitos, para se refugiar nos Universais, no se sabia mais muito bem qual era a questo. Tratava-se de renunciar a toda criao do conceito em proveito de uma cincia estrita do homem, ou, ao contrrio, de transformar a natureza dos conceitos, transformando-os ora em representaes(7) Plato, Poltico, 268a, 279a.

    18 c. < iletivas, ora em concepes do mundo criadas pelos povos, suas foras vitais, histricas e espirituais? Depois foi a voga da epistemologia, da lingstica, ou mesmo da psicanlise e da anlise lgica. De provao em provao, a filosofia enfrentaria seus rivais cada vez mais insolentes, cada vez mais calamitosos, que Plato ele mesmo no teria imaginado em seus momentos mais cmicos. Enfim, o fundo do poo da vergonha foi atingido quando a informtica, o marketing, o design, a publicidade, todas as disciplinas da comunicao apoderaram-se da prpria palavra conceito e disseram: nosso negcio, somos ns os criativos, ns somos os conceituadoresl Somos ns os amigos do conceito, ns os colocamos em computadores. Informao e criatividade, conceito e empresa: uma abundante bibliografia j... O marketing reteve a idia de uma certa relao entre o conceito e o acontecimento; mas eis que o conceito se tornou o conjunto das apresentaes de um produto (histrico, cientfico, artstico, sexual, pragmtico...), e o acontecimento, a exposio que pe em cena apresentaes diversas e a "troca de idias" qual supostamente d lugar. Os nicos acontecimentos so as exposies, e os nicos conceitos, produtos que se pode vender. O movimento geral que substituiu a Crtica pela promoo comercial no deixou de afetar a filosofia. O simulacro, a simulao de um pacote de macarro tornou-se o verdadeiro conceito, e o apresentador-expositor do produto, mercadoria ou obra de arte, tornou-se o filsofo, o personagem conceituai ou o artista. Como a filosofia, essa velha senhora, poderia alinhar-se com os jovens executivos numa corrida aos universais da comunicao para determinar uma forma mercantil do conceito, MERZ? Certamente, doloroso descobrir que "Conceito" designa uma sociedade de servios e de engenharia informtica. Porm, quanto mais a filosofia tropea em rivais imprudentes e simplrios, mais ela os encontra em seu prprio seio, pois ela se sente preparada

    19 para realizar a tarefa, criar conceitos, que so antes metro ritos que mercadorias. Ela tem ataques de riso que a levam s lgrimas. Assim, pois, a questo da filosofia o ponto sin guiar onde o conceito e a criao se remetem um ao outro. Os filsofos no se ocuparam o bastante com a natureza do conceito como realidade filosfica. Eles preferiram consider-lo como um conhecimento ou uma representao dados, que se explicam por faculdades capazes de form-lo (abstrao ou generalizao) ou de utiliz-los (juzo). Mas o conceito no dado, criado, est por criar; no forma do, ele prprio se pe em si mesmo, autoposio. As duas coisas se implicam, j que o que verdadeiramente criado, do ser vivo obra de arte, desfruta por isso mesmo de uma autoposio de si, ou de um carter autopoitico pelo qual ele reconhecido. Tanto mais o conceito criado, tanto mais ele se pe. O que depende de uma atividade criadora livre tambm o que se pe em si mesmo, independentemente e necessariamente: o mais subjetivo ser o mais objetivo. Foram os ps-kantianos que mais deram ateno, neste sentido, ao conceito como realidade filosfica, notadamente

  • Schelling e Hegel. Hegel definiu poderosamente o conceito pelas Figuras de sua criao e os Momentos de sua autoposio: as figuras tornaram-se pertenas do conceito, porque constituem o lado sob o qual o conceito criado por e na conscincia, por meio da sucesso de espritos, enquanto os momentos erigem o outro lado, pelo qual o conceito se pe a si mesmo e rene os espritos no absoluto do Si. Hegel mostrava, assim, que o conceito nada tem a ver com uma idia geral ou abstrata, nem tampouco com uma Sabedoria in-criada, que no dependeria da prpria filosofia. Mas era ao preo de uma extenso indeterminada da filosofia, que no deixava subsistir o movimento independente das cincias e das artes, porque reconstitua universais com seus prprios momentos, e s tratava os personagens de sua prpria cria-

    20 co como figurantes fantasmas. Os ps-kantianos giravam cm torno de uma enciclopdia universal do conceito, que remeteria sua criao a uma pura subjetividade, em lugar de propor uma tarefa mais modesta, uma pedagogia do conceito, que deveria analisar as condies de criao como fatores de momentos que permanecem singulares(8). Se as trs idades do conceito so a enciclopdia, a pedagogia e a formao profissional comercial, s a segunda pode nos impedir de cair, dos picos do primeiro, no desastre absoluto do terceiro, desastre absoluto para o pensamento, quaisquer que sejam,,bem entendido, os benefcios sociais do ponto de vista do capitalismo universal.(8) Sob uma forma voluntariamente escolar, Frdric Cossutta props uma pedagogia do conceito muito interessante: Elments pour Ia lecture des textes philosophiques, Ed. Bordas.

    21

    I FILOSOFIA

    O que um Conceito?

    No h conceito simples. Todo conceito tem componentes, e se define por eles. Tem portanto uma cifra. uma multiplicidade, embora nem toda multiplicidade seja conceituai. No h conceito de um s componente: mesmo o primeiro conceito, aquele pelo qual uma filosofia "comea", possui vrios componentes, j que no evidente que a filosofia deva ter um comeo e que, se ela determina um, deve acrescentar-lhe um ponto de vista ou uma razo. Descartes, Hegel, Feuerhach no somente no comeam pelo mesmo conceito, como no tm o mesmo conceito de comeo. Todo conceito ao menos duplo, ou triplo, etc. Tambm no h conceito que tenha todos os componentes, j que seria um puro e simples caos: mesmo os pretensos universais, como conceitos ltimos, devem sair do caos circunscrevendo um universo que os explica (contemplao, reflexo, comunicao...). Todo conceito tem um contorno irregular, definido pela cifra de seus componentes. por isso que, de Plato a Bergson, encontramos a idia de que o conceito questo de articulao, corte e superposio. um todo, porque totaliza seus componentes, mas um todo fragmentrio. apenas sob essa condio que pode sair do caos mental, que no cessa de espreit-lo, de aderir a ele, para reabsorv-lo. Sob quais condies um conceito primeiro, no absolutamente, mas com relao a um outro? Por exemplo, outrem necessariamente segundo em relao a um eu? Se ele o , na medida em que seu conceito aquele de um outro sujeito que se apresenta como um objeto especial com relao ao eu: so dois componentes. Com efeito, se ns o identificarmos a um objeto especial, outrem j no outra coisa seno o outro sujeito, tal como ele aparece para mim; e se ns o identificarmos a um outro sujeito, sou eu que sou outrem, tal como eu lhe apareo. Todo conceito remete a um problema, a problemas sem os quais no teria sentido, e que s podem ser isolados ou compreendidos na medida de sua

    27 soluo: estamos aqui diante de um problema concernente pluralidade dos sujeitos, sua relao, sua apresentao recproca. Mas tudo muda evidentemente se acreditamos descobrir um outro problema: em que consiste a posio de outrem, que o outro sujeito vem somente "ocupar" quando ele me aparece como objeto especial, e que eu venho, por minha vez, ocupar como objeto especial quando eu lhe apareo? Deste ponto de vista, outrem no ningum, nem sujeito nem objeto. H vrios sujeitos porque h outrem, no o inverso. Outrem exige, ento, um conceito a priori de que devem derivar o objeto especial, o outro sujeito e o eu, no

  • o contrrio. A ordem mudou, do mesmo modo que a natureza dos conceitos ou que os problemas aos quais se supe que eles respondam. Deixamos de lado a questo de saber que diferena h entre um problema na cincia e na filosofia. Mas, mesmo na filosofia, no se cria conceitos, a no ser em funo dos problemas que se consideram mal vistos ou mal colocados (pedagogia do conceito). Procedamos sumariamente: consideremos um campo de experincia tomado como mundo real, no mais com relao a um eu, mas com relao a um simples "h...". H, nesse momento, um mundo calmo e repousante. Surge, de repente, um rosto assustado que olha alguma coisa fora do campo. Outrem no aparece aqui como um sujeito, nem como um objeto mas, o que muito diferente, como um mundo possvel, como a possibilidade de um mundo assustador. Esse mundo possvel no real, ou no o ainda, e todavia no deixa de existir: um expressado que s existe em sua expresso, o rosto ou um equivalente do rosto. Outrem , antes de mais nada, esta existncia de um mundo possvel. E este mundo possvel tem tambm uma realidade prpria em si mesmo, enquanto possvel: basta que aquele que exprime fale e diga "tenho medo", para dar uma realidade ao possvel enquanto tal (mesmo se suas palavras so mentirosas).

    28 O "eu", como ndice lingstico, no tem outro sentido. E, mais ainda, no indispensvel: a China um mundo possvel, mas assume realidade logo que se fale chins ou que se fale da China num campo de experincia dado. muito diferente do caso em que a China se realiza, tornando-se o prprio campo de experincia. Eis, pois, um conceito de outrem que no pressupe nada alm da determinao de um mundo sensvel como condio. Outrem surge neste caso como a expresso de um possvel. Outrem um mundo possvel, tal como existe num rosto que o exprime, e se efetua numa linguagem que lhe d uma realidade. Neste sentido, um conceito com trs componentes inseparveis: mundo possvel, rosto existente, linguagem real ou fala. Evidentemente todo conceito tem uma histria. Este conceito de outrem remete a Leibniz, aos mundos possveis de Leibniz e mnada como expresso de mundo; mas no o mesmo problema, porque os possveis de Leibniz no existem no mundo real. Remete tambm lgica modal das proposies, mas estas no conferem aos mundos possveis a realidade correspondente a suas condies de verdade (mesmo quando Wittgenstein encara as proposies de medo ou de dor, no v nelas modalidades exprimveis numa posio de outrem, porque deixa outrem oscilar entre um outro sujeito e um objeto especial). Os mundos possveis tm uma longa histria(1). Numa palavra, dizemos de qualquer conceito que ele sempre tem uma histria, embora a histria se desdobre em ziguezague, embora cruze talvez outros problemas ou outros planos diferentes. Num conceito, h, no mais das vezes, pedaos ou componentes vindos de outros conceitos,(1) Esta histria, que no comea com Leibniz, passa por episdios to diversos quanto a proposio de outrem como tema constante em Wittgenstein ("ele est com dor de dente..."), e a posio de outrem como teoria do mundo possvel em Michel Tournier (Vendredi ou les limbes du Pacifique, Gallimard).

    29 que respondiam a outros problemas e supunham outros planos. No pode ser diferente, j que cada conceito opera um novo corte, assume novos contornos, deve ser reativado ou recortado. Mas, por outro lado, um conceito possui um devir que concerne, desta vez, a sua relao com conceitos situados no mesmo plano. Aqui, os conceitos se acomodam uns aos outros, superpem-se uns aos outros, coordenam seus contornos, compem seus respectivos problemas, pertencem mesma filosofia, mesmo se tm histrias diferentes. Com efeito, todo conceito, tendo um nmero finito de componentes, bifurcar sobre outros conceitos, compostos de outra maneira, mas que constituem outras regies do mesmo plano, que respondem a problemas conectveis, participam de uma co-criao. Um conceito no exige somente um problema sob o qual remaneja ou substitui conceitos precedentes, mas uma encruzilhada de problemas em que se alia a outros conceitos coexistentes. No caso do conceito de Outrem, como expresso de um mundo possvel num campo perceptivo, somos levados a considerar de uma nova maneira os componentes deste campo por si mesmo: outrem, no mais sendo nem um sujeito de campo, nem um objeto no campo, vai ser a condio sob a qual se redistribuem, no somente o objeto e o sujeito, mas a figura e o fundo, as margens e o centro, o mvel e o ponto de referncia, o transitivo e o substancial, o comprimento e a profundidade... Outrem sempre percebido como um outro, mas, em seu conceito, ele a condio de toda percepo, para os outros como para ns. a condio sob a qual passamos de um mundo a outro. Outrem faz o mundo passar, e o "eu" nada designa seno um mundo passado ("eu estava tranqilo..."). Por exemplo, Outrem basta para fazer, de todo comprimento, uma profundidade possvel no espao, e inversamente, a tal ponto que, se este conceito no funcionasse no campo perceptivo, as transies e as inverses se

    30

  • tornariam incompreensveis, e no cessaramos de nos chocar contra as coisas, o possvel tendo desaparecido. Ou ao menos, filosoficamente, seria necessrio encontrar uma outra razo pela qual ns no nos chocamos... assim que, a partir de um plano determinvel, se passa de um conceito a um outro, por uma espcie de ponte: a criao de um conceito de Outrem, com tais componentes vai levar criao de um novo conceito de espao perceptivo, com outros componentes, a determinar (no se chocar, ou no se chocar demais, far parte de seus componentes). Partimos de um exemplo bastante complexo. Como fazer de outra maneira, j que no h conceito simples? O leitor pode partir de qualquer exemplo, a seu gosto. Ns acreditamos que dele decorrero as mesmas conseqncias concernentes natureza do conceito ou ao conceito de conceito. Em primeiro lugar, cada conceito remete a outros conceitos, no somente em sua histria, mas em seu devir ou suas conexes presentes. Cada conceito tem componentes que podem ser, por sua vez, tomados como conceitos (assim Outrem tem o rosto entre seus componentes, mas o Rosto, ele mesmo, ser considerado como conceito, tendo tambm componentes). Os conceitos vo, pois, ao infinito e, sendo criados, no so jamais criados do nada. Em segundo lugar, prprio do conceito tornar os componentes inseparveis nele: distintos, heterogneos e todavia no separveis, tal o estatuto dos componentes, ou o que define a consistncia do conceito, sua endo-consistncia. que cada componente distinto apresenta um recobrimento parcial, uma zona de vizinhana ou um limite de indiscernibilidade com um outro: por exemplo, no conceito de outrem, o mundo possvel no existe fora do rosto que o exprime, embora se distinga dele como o expressado e a expresso; e o rosto, por sua vez, a proximidade das palavras de que j o porta-voz. Os componentes permanecem distintos, mas algo passa de um

    31 a outro, algo de indecidvel entre os dois: h um domnio ab que pertence tanto a a quanto a b, em que a e b "se tornam" indiscernveis. So estas zonas, limites ou devires, esta inseparabilidade, que definem a consistncia interior do conceito. Mas este tem igualmente uma exoconsistncia, com outros conceitos, quando sua criao implica a construo de uma ponte sobre o mesmo plano. As zonas e as pontes so as junturas do conceito. Em terceiro lugar, cada conceito ser pois considerado como o ponto de coincidncia, de condensao ou de acumulao de seus prprios componentes. O ponto conceituai no deixa de percorrer seus componentes, de subir e de descer neles. Cada componente, neste sentido, um trao intensivo, uma ordenada intensiva que no deve ser apreendida nem como geral nem como particular, mas como uma pura e simples singularidade "um" mundo possvel, "um" rosto, "certas" palavras que se particulariza ou se generaliza, segundo se lhe atribui valores variveis ou se lhe designa uma funo constante. Mas, contrariamente ao que se passa na cincia, no h nem constante nem varivel no conceito, e no se distinguiro, nem espcies variveis para um gnero constante, nem espcie constante para indivduos variveis. As relaes no conceito no so nem de compreenso nem de extenso, mas somente de ordenao, e os componentes do conceito no so nem constantes nem variveis, mas puras e simples variaes ordenadas segundo sua vizinhana. Elas so processuais, modulares. O conceito de um pssaro no est em seu gnero ou sua espcie, mas na composio de suas posturas, de suas cores e de seus cantos: algo de indiscernvel, que menos uma sinestesia que uma sineidesia. Um conceito uma heterognese, isto , uma ordenao de seus componentes por zonas de vizinhana. ordinal, uma intenso presente em todos os traos que o compem. No cessando de percorr-los segundo uma or-

    32 dem sem distncia, o conceito est em estado de sobrevo com relao a seus componentes. Ele imediatamente co-presente sem nenhuma distncia de todos os seus componentes ou variaes, passa e repassa por eles: um ritornelo, um opus com sua cifra. O conceito um incorporai, embora se encarne ou se efetue nos corpos. Mas, justamente, no se confunde com o estado de coisas no qual se efetua. No tem coordenadas espao-temporais, mas apenas ordenadas intensivas. No tem energia, mas somente intensidades, anergtico (a energia no a intensidade, mas a maneira como esta se desenrola e se anula num estado de coisas extensivo). O conceito diz o acontecimento, no a essncia ou a coisa. um Acontecimento puro, uma becceidade, uma entidade: o acontecimento de Outrem, ou o acontecimento do rosto (quando o rosto por sua vez tomado como conceito). Ou o pssaro como acontecimento. O conceito define-se pela inseparabilidade de um nmero finito de componentes heterogneos percorridos por um ponto em sobrevo absoluto, velocidade infinita. Os conceitos so "superfcies ou volumes absolutos", formas que no tm outro objeto seno a inseparabilidade de variaes distintas(2). O "sobrevo" o estado do conceito ou sua infinitude prpria, embora sejam os infinitos maiores ou menores segundo a cifra dos componentes, dos limites e das pontes. O conceito bem ato de pensamento neste sentido, o pensamento operando em velocidade infinita (embora maior ou menor).

  • O conceito , portanto, ao mesmo tempo absoluto e relativo: relativo a seus prprios componentes, aos outros conceitos, ao plano a partir do qual se delimita, aos problemas que se supe deva resolver, mas absoluto pela conden-(2) Sobre o sobrevo, e as superfcies ou volumes absolutos como seres reais, cf. Raymond Ruyer, No-finalisme, P.U.F., cap. IX-XI.

    33 sao que opera, pelo lugar que ocupa sobre o plano, pelas condies que impe ao problema. absoluto como todo, mas relativo enquanto fragmentrio. infinito por seu sobrevo ou sua velocidade, mas finito por seu movimento que traa o contorno dos componentes. Um filsofo no pra de remanejar seus conceitos, e mesmo de mud-los; basta s vezes um ponto de detalhe que se avoluma, e produz uma nova condensao, acrescenta ou retira componentes. O filsofo apresenta s vezes uma amnsia que faz dele quase um doente: Nietzsche, diz Jaspers, "corrigia ele mesmo suas idias, para constituir novas, sem confess-lo explicitamente; em seus estados de alterao, esquecia as concluses s quais tinha chegado anteriormente". Ou Leibniz: "eu acreditava entrar no porto, mas... fui jogado novamente em pleno mar"(3). O que porm permanece absoluto a maneira pela qual o conceito criado se pe nele mesmo e com outros. A relatividade e a absolutidade do conceito so como sua pedagogia e sua ontologia, sua criao e sua autoposio, sua idealidade e sua realidade. Real sem ser atual, ideal sem ser abstrato... O conceito define-se por sua consistncia, endo-consistncia e exo-consistncia, mas no tem referncia: ele auto-referencial, pe-se a si mesmo e pe seu objeto, ao mesmo tempo que criado. O construtivismo une o relativo e o absoluto. Enfim, o conceito no discursivo, e a filosofia no uma formao discursiva, porque no encadeia proposies. a confuso do conceito com a proposio que faz acreditar na existncia de conceitos cientficos, e que considera a proposio como uma verdadeira "intenso" (o que a frase exprime): ento o conceito filosfico s aparece, quase sempre, como uma proposio despida de sentido. Esta confuso reina na lgica, e explica a idia infantil que ela tem da(3) Leibniz, Systme nouveau de Ia Nature, 12.

    34 filosofia. Medem-se os conceitos por uma gramtica "filosfica" que os substitui por proposies extradas das frases onde eles aparecem: somos restringidos sempre a alternativas entre proposies, sem ver que o conceito j foi projetado no terceiro excludo. O conceito no , de forma alguma, uma proposio, no proposicional, e a proposio no nunca uma intenso. As proposies definem-se por sua referncia, e referncia no concerne ao Acontecimento, mas a uma relao com o estado de coisas ou de corpos, bem como s condies desta relao. Longe de constituir uma intenso, estas condies so todas extensionais: implicam sucessivas operaes de enquadramento em abcissas ou de linearizao que fazem os dados intensivos entrar em coordenadas espao-temporais e energticas, em operaes de correspondncia entre conjuntos assim delimitados. So essas sucesses e essas correspondncias que definem a discursividade nos sistemas extensivos; e a independncia das variveis nas proposies ope-se inseparabilidade das variaes no conceito. Os conceitos, que s tm consistncia ou ordenadas intensivas fora de coordenadas, entram livremente em relaes de ressonncia no discursiva, seja porque os componentes de um se tornam conceitos com outros componentes sempre heterogneos, seja porque no apresentam entre si nenhuma diferena de escala em nenhum nvel. Os conceitos so centros de vibraes, cada um em si mesmo e uns em relao aos outros. por isso que tudo ressoa, em lugar de se seguir ou de se corresponder. No h nenhuma razo para que os conceitos se sigam. Os conceitos, como totalidades fragmentrias, no so sequer os pedaos de um quebra-cabea, pois seus contornos irregulares no se correspondem. Eles formam um muro, mas um muro de pedras secas e, se tudo tomado conjuntamente, por caminhos divergentes. Mesmo as pontes, de um conceito a um outro, so ainda encruzilhadas, ou desvios que no circuns-

    35 crevem nenhum conjunto discursivo. So pontes moventes. Desse ponto de vista, no errado considerar que a filosofia est em estado de perptua digresso ou digressividade. Da decorrem grandes diferenas entre a enunciao filosfica dos conceitos fragmentrios e a enunciao cientfica das proposies parciais. Sob um primeiro aspecto, toda enunciao enunciao de posio; mas ela permanece exterior proposio, porque tem por objeto um estado de coisas como referente, e por condies as referncias que constituem valores de verdade (mesmo se estas condies em si mesmas so interiores ao objeto). Ao contrrio, a enunciao de posio estritamente imanente ao conceito, j que este no tem outro objeto seno a inseparabilidade dos componentes pelos quais ele prprio passa e repassa, e que constitui sua

  • consistncia. Quanto ao outro aspecto, enunciao de criao ou de assinatura, certo que as proposies cientficas e seus correlatos no so menos assinadas ou criadas que os conceitos filosficos; falamos de teorema de Pitgoras, de coordenadas cartesianas, de nmero hamiltoniano, de funo de Lagrange, tanto quanto de Idia platnica ou de cogito de Descartes, etc. Mas os nomes prprios aos quais se vincula assim a enunciao, malgrado serem histricos, e atestados como tais, so mscaras para outros de-vires, servem somente de pseudnimos a entidades singulares mais secretas. No caso das proposies, trata-se de observadores parciais extrnsecos, cientificamente definveis com relao a tal ou tais eixos de referncia, ao passo que, para os conceitos, so personagens conceituais intrnsecos que impregnam tal ou tal plano de consistncia. No se dir somente que os nomes prprios tm usos muito diferentes nas filosofias, cincias e artes: o mesmo acontece para os elementos sintticos, e notadamente as preposies, as conjunes, "ou", "pois"... A filosofia procede por frases, mas no so sempre proposies que se extraem das frases em geral.

    36 Por enquanto, dispomos apenas de uma hiptese muito ampla: das frases ou de um equivalente, a

    filosofia tira conceitos (que no se confundem com idias gerais ou abstratas), enquanto que a cincia tira prospectos (proposies que no se confundem com juzos), e a arte tira perceptos e afectos (que tambm no se confundem com percepes ou sentimentos). Em cada caso, a linguagem submetida a provas e usos incomparveis, mas que no definem a diferena entre as disciplinas sem constituir tambm seus cruzamentos perptuos. EXEMPLO I necessrio de incio confirmar as anlises precedentes tomando o exemplo de um conceito filosfico assinado, dentre os mais conhecidos, ou seja, o cogito cartesiano, o Eu de Descartes: um conceito de eu. Este conceito tem trs componentes: duvidar, pensar, ser (no se concluir da que todo conceito seja triplo). O enunciado total do conceito, enquanto multiplicidade, : eu penso "logo" eu sou; ou, mais completamente: eu que duvido, eu penso, eu sou, eu sou uma coisa que pensa. o acontecimento sempre renovado do pensamento, tal como o v Descartes. O conceito condensa-se no ponto E, que passa por todos os componentes, e onde coincidem E' duvidar, E" pensar, E'" ser. Os componentes como ordenadas intensivas se ordenam nas zonas de vizinhana ou de indiscernibilidade que fazem passar de uma outra, e que constituem sua inseparabilidade: uma primeira zona est entre duvidar e pensar (eu que duvido no posso duvidar que penso), e a segunda est entre pensar e ser (para pensar necessrio ser). Os componentes apresentam-se aqui como verbos, mas isto no uma regra, basta que sejam va-

    37 riaes. Com efeito, a dvida comporta momentos que no so as espcies de um gnero, mas as fases de uma variao: dvida sensvel, cientfica, obsessiva. (Todo conceito tem, portanto, um espao de fases, ainda que seja de uma maneira diferente daquela da cincia.) O mesmo vale para os modos do pensamento: sentir, imaginar, ter idias. O mesmo vale para os tipos de ser, coisa ou substncia: o ser infinito, o ser pensante finito, o ser extenso. de se observar que, neste ltimo caso, o conceito do eu no retm seno a segunda fase do ser, e deixa fora o resto da variao. Mas esse precisamente o sinal de que o conceito se fecha como totalidade fragmentria com "eu sou uma coisa pensante": no se passar s outras fases do ser seno por pontes-encruzilhadas que levam a outros conceitos. Assim, "entre minhas idias, eu tenho a idia de infinito" a ponte que conduz do conceito de eu quele de Deus, este novo conceito tendo ele mesmo trs componentes, que formam

    38

  • as "provas" da existncia de Deus como acontecimento infinito, a terceira (prova ontolgica) assegurando o fechamento do conceito, mas tambm lanando, por sua vez, uma ponte ou uma bifurcao na direo de um conceito de extenso, porquanto garante o valor objetivo de verdade das outras idias claras e distintas de que dispomos. Quando nos perguntamos: h precursores do cogito?, queremos dizer: h conceitos assinados por filsofos anteriores, que teriam componentes semelhantes ou quase idnticos, mas onde faltaria um, ou ento que acrescentariam outros, de tal maneira que um cogito no chegaria a cristalizar-se, os componentes no coincidindo ainda em um eu? Tudo parecia pronto e todavia algo faltava. O conceito anterior remetia talvez a um outro problema, diferente daquele do cogito ( preciso uma mutao de problema para que o cogito cartesiano aparea), ou mesmo se desenrolava sobre um outro plano. O plano cartesiano consiste em recusar todo pressuposto objetivo explcito, em que cada conceito remeteria a outros conceitos (por exemplo, o homem animal-racional). Ele exige somente uma compreenso pr-filosfica, isto , pressupostos implcitos e subjetivos: todo mundo sabe o que quer dizer pensar, ser, eu (sabe-se fazendo-o, sendo ou dizendo-o). uma distino muito nova. Esse plano exige um conceito primeiro que no deve pressupor nada de objetivo. De modo que o problema : qual o primeiro conceito sobre este plano, ou por qual comear para determinar a verdade como certeza subjetiva absolutamente pura? Tal o cogito. Os outros conceitos podero conquistar a objetividade, mas com a condio de serem ligados por pontes ao primeiro conceito, de responderem a problemas sujeitos s mesmas condies, e de permanecerem sobre o

    39 mesmo plano: ser a objetividade que adquire um conhecimento certo, e no a objetividade que supe uma verdade reconhecida como preexistente ou j l. intil perguntar se Descartes tinha ou no razo. Pressupostos subjetivos e implcitos valem mais que pressupostos objetivos explcitos? necessrio "comear" e, no caso positivo, necessrio comear do ponto de vista de uma certeza subjetiva? O pensamento pode, sob essa condio, ser o verbo de um Eu? No h resposta direta. Os conceitos cartesianos no podem ser avaliados a no ser em funo dos problemas aos quais eles respondem e do plano sobre o qual eles ocorrem. Em geral, se os conceitos anteriores puderam preparar um conceito, sem por isso constitu-lo, que seu problema estava ainda enlaado com outros, e o plano no tinha ainda a curvatura ou os movimentos indispensveis. E se conceitos podem ser substitudos por outros, sob a condio de novos problemas e de um outro plano, com relao aos quais (por exemplo) "Eu" perde todo sentido, o comeo perde toda necessidade, os pressupostos toda diferena ou assumem outras. Um conceito tem sempre a verdade que lhe advm em funo das condies de sua criao. H um plano melhor que todos os outros, e problemas que se impem contra os outros? Justamente no se pode dizer nada a este respeito. Os planos, necessrio faz-los, e os problemas, coloc-los, como necessrio criar os conceitos. O filsofo faz o que pode, mas tem muito a fazer para saber se o melhor, ou mesmo se interessar por esta questo. Certamente, os novos conceitos devem estar em relao com problemas que so os nossos, com nossa histria e sobretudo com nossos devires. Mas que significam os conceitos de nosso tempo ou de um tempo qualquer? Os conceitos no so eternos, mas so por isso temporais? Qual a forma filosfica dos problemas deste tempo? Se um concei-

    40 to "melhor" que o precedente, porque ele faz ouvir novas variaes e ressonncias desconhecidas, opera recortes inslitos, suscita um Acontecimento que nos sobrevoa. Mas no j o que fazia o precedente? E se podemos continuar sendo platnicos, cartesianos ou kantianos hoje, porque temos direito de pensar que seus conceitos podem ser reativados em nossos problemas e inspirar os conceitos que necessrio criar. qual a melhor maneira de seguir os grandes filsofos, repetir o que eles disseram, ou ento fazer o que eles fizeram, isto , criar conceitos para problemas que mudam necessariamente? por isso que o filsofo tem muito pouco prazer em discutir. Todo filsofo foge quando ouve a frase: vamos discutir um pouco. As discusses so boas para as mesas redondas, mas sobre uma outra mesa que a filosofia joga seus dados cifrados. As discusses, o mnimo que se pode dizer que elas no fariam avanar o trabalho, j que os interlocutores nunca falam da mesma coisa. Que algum tenha tal opinio, e pense antes isto que aquilo, o que isso pode importar para a filosofia, na medida em que os problemas em jogo no so enunciados? E quando so enunciados, no se trata mais de discutir, mas de criar indiscutveis conceitos para o problema que ns nos atribumos. A comunicao vem sempre cedo demais ou tarde demais, e a conversao est sempre em excesso, com relao a criar. Fazemos, s vezes, da filosofia a idia de uma perptua discusso como "racionalidade comunicativa" ou como "conversao democrtica universal". Nada menos exato e, quando um filsofo critica um outro, a partir de problemas e de um plano que no eram aqueles do outro, e que fazem fundir os antigos conceitos, como se pode fundir um canho para fabricar a partir dele novas armas. No estamos nunca sobre o mesmo plano. Criticar somente

  • constatar que um conceito se esvanece, perde seus componentes ou adquire outros41

    novos que o transformam, quando mergulhado em um novo meio. Mas aqueles que criticam sem criar, aqueles que se contentam em defender o que se esvanesceu sem saber dar-lhe foras para retornar vida, eles so a chaga da filosofia. So animados pelo ressentimento, todos esses discutidores, esses comunicadores. Eles no falam seno deles mesmos, confrontando generalidades vazias. A filosofia tem horror a discusses. Ela tem mais que fazer. O debate lhe insuportvel, no porque ela segura demais de si mesma: ao contrrio, so suas incertezas que a arrastam para outras vias mais solitrias. Contudo, Scrates no fazia da filosofia uma livre discusso entre amigos? No o auge da sociabilidade grega como conversao de homens livres? De fato, Scrates tornou toda discusso impossvel, tanto sob a forma curta de um agn de questes e respostas, quanto sob a forma longa de uma rivalidade de discursos. Ele fez do amigo o amigo exclusivo do conceito, e do conceito o impiedoso monlogo que elimina, um aps o outro, todos os rivais. EXEMPLO II O Parmnides mostra quanto Plato mestre do conceito. O Uno tem dois componentes (o ser e o no-ser), fases de componentes (o Uno superior ao ser, igual ao ser, inferior ao ser; o Uno superior ao no-ser, igual ao no-ser), zonas de indiscernibilidade (com relao a si, com relao aos outros). E um modelo de conceito. Mas o Uno no precede todo conceito? a que Plato ensina o contrrio daquilo que faz: ele cria os conceitos, mas precisa coloc-los como representando o incriado que os precede. Ele pe o tempo no conceito, mas este tempo deve ser o Anterior. Ele constri o conceito, mas como testemunha da preexistncia de uma objetidade, sob a forma de uma diferena de tempo,

    44 capaz de medir o distanciamento ou a proximidade do construtor eventual. que, no plano platnico, a verdade se pe como pressuposta, como j estando l. Tal a Idia. No conceito platnico de Idia, primeiro toma um sentido muito preciso, muito diferente daquele que ter em Descartes: o que possui objetivamente uma qualidade pura, ou o que no outra coisa seno o que ele . S a Justia justa, a Coragem corajosa, tais so as Idias, e h Idia de me se h uma me que no outra coisa seno me (que no teria sido filha por sua vez), ou plo, que no outra coisa seno plo (e no cilicium tambm). Est entendido que as coisas, ao contrrio, so sempre diferentes daquilo que elas so: no melhor dos casos, elas no possuem portanto a qualidade seno secundariamente, no podem seno aspirar qualidade, e somente na medida em que elas participam da Idia. Ento o conceito de Idia tem os seguintes componentes: a qualidade possuda ou por possuir; a Idia que possui primordialmente, como imparticipvel; o que aspira qualidade, e no pode possu-la a no ser secundariamente, terciariamente, quaternria-mente...; a Idia participada, que julga as pretenses. Dir-se-ia o Pai, um pai duplo, a filha e os pretendentes. So as ordenadas intensivas da Idia: uma pretenso no estar fundada a no ser por uma vizinhana, uma maior ou menor proximidade que se "teve" com relao Idia, no sobrevo de um tempo sempre anterior, necessariamente anterior. O tempo sob esta forma de anterioridade pertence ao conceito, ele como que sua zona. Seguramente no neste plano grego, sobre este solo platnico, que o cogito pode eclodir. Enquanto subsistir a preexistncia da Idia (mesmo maneira crist dos arqutipos no entendimento de Deus), o cogito poder ser preparado, mas no levado a cabo. Para que

    43 Descartes crie este conceito, ser necessrio que "primeiro" mude singularmente de sentido, tome um sentido subjetivo, e que toda diferena de tempo se anule entre a idia e a alma que a forma enquanto sujeito (donde a importncia da observao de Descartes contra a reminiscncia, quando diz que as idias inatas no so "antes", mas "ao mesmo tempo" que a alma). Ser necessrio que se chegue a uma instantaneidade do conceito, e que Deus crie at as verdades. Ser necessrio que a pretenso mude de natureza: o pretendente cessa de receber a filha das mos de um pai para dev-la apenas a suas prprias proezas cavalheirescas..., a seu prprio mtodo. A questo de saber se Malebranche pode reativar componentes platnicos num plano autenticamente cartesiano, e a que preo, deveria ser analisada deste ponto de vista. Mas queramos apenas mostrar que um conceito tem sempre componentes que podem impedir a apario de um outro conceito, ou, ao contrrio, que s podem aparecer ao preo do esvanecimento de outros conceitos. Entretanto, nunca um conceito vale por aquilo que ele impede: ele s vale por sua posio incomparvel e sua criao prpria. Suponhamos que se acrescente um componente a um conceito: provvel que ele estoure, ou apresente uma mutao completa, implicando talvez um outro plano, em todo caso outros problemas. o

  • caso do cogito kantiano. Sem dvida Kant construiu um plano "transcendental" que torna a dvida intil e muda tambm a natureza dos pressupostos. Mas em virtude desse plano que ele pode declarar que se "eu penso" uma determinao que implica a este ttulo uma existncia indeterminada ("eu sou"), nem por isso sabemos como este indeterminado se torna determinvel, nem portanto sob qual forma ele aparece como determina-

    44 do. Kant "critica", pois, Descartes por ter dito: eu sou uma substncia pensante, j que nada funda uma tal pretenso do Eu. Kant exige a introduo de um novo componente no cogito, aquele que Descartes tinha recusado: precisamente o tempo, pois somente no tempo que minha existncia indeterminada se torna determinvel. Mas eu no sou determinado no tempo, a no ser como eu passivo e fenomenal, sempre afetvel, modificvel, varivel. Eis que o cogito apresenta agora quatro componentes: eu penso e, por isso, sou ativo; eu tenho uma existncia; portanto esta existncia no determinvel seno no tempo como aquela de um eu passivo; eu sou, pois, determinado como um eu passivo que se representa necessariamente sua prpria atividade pensante como um Outro que o afeta. No um outro sujeito, antes o sujeito que se torna um outro... a via de uma converso do eu em outrem? Uma preparao do "Eu um outro"? uma nova sintaxe, com outras ordenadas, outras zonas de indiscernibilidade asseguradas pelo esquema, depois pela afeco de si por si, que tornam inseparveis o Eu (Je) e o Mim (Moi). Que Kant "critique" Descartes significa somente que traou um plano e construiu um problema que no podem ser ocupados ou efetuados pelo cogito cartesiano. Descartes tinha criado o cogito como conceito, mas expulsando o tempo como forma de anterioridade para fazer dele um simples modo de sucesso que remete criao contnua. Kant reintroduz o tempo no cogito, mas um tempo inteiramente diferente daquele da anterioridade platnica. Criao de conceito. Ele faz do tempo um componente de um novo cogito, mas sob a condio de fornecer por sua vez um novo conceito do tempo: o tempo torna-se forma de inferioridade, com trs componentes, sucesso, mas tambm simultaneidade e

    45 permanncia. O que implica, ainda, um novo conceito de espao, que no pode mais ser definido pela simples simultaneidade, e se torna forma de exterioridade. uma revoluo considervel. Espao, tempo, Eu penso, trs conceitos originais ligados por pontes que so outras tantas encruzilhadas. Uma saraivada de novos conceitos. A histria da filosofia no implica somente que se avalie a novidade histrica dos conceitos criados por um filsofo, mas a potncia de seu devir quando eles passam uns pelos outros. Em toda parte reencontramos o mesmo estatuto pedaggico do conceito: uma multiplicidade, uma superfcie ou um volume absolutos, auto-referentes, compostos de um certo nmero de variaes intensivas inseparveis segundo uma ordem de vizinhana, e percorridos por um ponto em estado de sobrevo. O conceito o contorno, a configurao, a constelao de um acontecimento por vir. Os conceitos, neste sentido, pertencem de pleno direito filosofia, porque ela que os cria, e no cessa de cri-los. O conceito evidentemente conhecimento, mas conhecimento de si, e o que ele conhece o puro acontecimento, que no se confunde com o estado de coisas no qual se encarna. Destacar sempre um acontecimento das coisas e dos seres a tarefa da filosofia quando cria conceitos, entidades. Erigir o novo evento das coisas e dos seres, dar-lhes sempre um novo acontecimento: o espao, o tempo, a matria, o pensamento, o possvel como acontecimentos... intil atribuir conceitos cincia: mesmo quando ela se ocupa dos mesmos "objetos", no sob o aspecto do conceito, no criando conceitos. Dir-se- que uma questo de palavras, mas raro que as palavras no impliquem intenes e armadilhas. Seria uma pura questo de palavras se decidssemos reservar o conceito cincia, sob condio

    46 ilc se encontrar outra palavra para designar o negcio da filosofia. Mas o mais das vezes procedemos de outra maneira. Comeamos por atribuir o poder do conceito cincia, definimos o conceito pelos procedimentos criativos da cincia, medimo-lo pela cincia, depois perguntamos se no resta uma possibilidade para que a filosofia forme por sua vez conceitos de segunda zona, que suprem sua prpria insuficincia por um vago apelo ao vivido. Assim Gilles Gaston-Granger comea por definir o conceito como uma proposio ou uma funo cientficas, depois concede que pode at mesmo haver conceitos filosficos que substituam a referncia ao objeto pelo correlato de uma "totalidade do vivido"(4). Mas, de fato, ou a filosofia ignora tudo a respeito do conceito, ou ela o conhece de pleno direito e de primeira mo, a ponto de nada dele deixar para a cincia, que alis no tem nenhuma necessidade dele e que s se ocupa de estados de coisas e de suas condies. As proposies ou funes bastam para a cincia, ao passo que a filosofia no tem necessidade, por seu lado, de invocar um vivido que s daria uma vida fantasmtica e extrnseca a

  • conceitos secundrios, por si mesmos exangues. O conceito filosfico no se refere ao vivido, por compensao, mas consiste, por sua prpria criao, em erigir um acontecimento que sobrevoe todo o vivido, bem como qualquer estado de coisas. Cada conceito corta o acontecimento, o recorta a sua maneira. A grandeza de uma filosofia avalia-se pela natureza dos acontecimentos aos quais seus conceitos nos convocam, ou que ela nos torna capazes de depurar em conceitos. Portanto, necessrio experimentar em seus mnimos detalhes o vnculo nico, exclusivo, dos conceitos com a filosofia como disciplina criadora. O conceito pertence filosofia e s a ela pertence.(4) Gilles-Gaston Granger, Pour Ia connaissance philosophique, Ed. Odile Jacob, cap. VI.

    47

    O Plano de Imanncia

    Os conceitos filosficos so totalidades fragmentrias que no se ajustam umas s outras, j que suas bordas no coincidem. Eles nascem de lances de dados, no compem um quebra-cabeas. E, todavia, eles ressoam, e a filosofia que os cria apresenta sempre um Todo poderoso, no fragmentado, mesmo se permanece aberto: Uno-Todo ilimitado, omnitudo que os compreende a todos num s e mesmo plano. uma mesa, um plat, uma taa. um plano de consistncia ou, mais exatamente, o plano de imanncia dos conceitos, o planmeno. Os conceitos e o plano so estritamente correlativos, mas nem por isso devem ser confundidos. O plano de imanncia no um conceito, nem o conceito de todos os conceitos. Se estes fossem confundveis, nada impediria os conceitos de se unificarem, ou de tornarem-se universais e de perderem sua singularidade, mas tambm nada impediria o plano de perder sua abertura. A filosofia um construtivismo, e o construtivismo tem dois aspectos complementares, que diferem em natureza: criar conceitos e traar um plano. Os conceitos so como as vagas mltiplas que se erguem e que se abaixam, mas o plano de imanncia a vaga nica que os enrola e os desenrola. O plano envolve movimentos infinitos que o percorrem e retornam, mas os conceitos so velocidades infinitas de movimentos finitos, que percorrem cada vez somente seus prprios componentes. De Epicuro a Espinosa (o prodigioso livro V...), de Espinosa a Michaux, o problema do pensamento a velocidade infinita, mas esta precisa de um meio que se mova em si mesmo infinitamente, o plano, o vazio, o horizonte. necessrio a elasticidade do conceito, mas tambm a fluidez do meio(1). necessrio os dois para compor "os seres lentos" que ns somos.(1) Sobre a elasticidade do conceito, Hubert Damisch, Prefcio a Pros-pectus de Dubuffet, Gallimard, I, pp. 18-19.

    51 Os conceitos so o arquiplago ou a ossatura, antes uma coluna vertebral que um crnio, enquanto o plano a respirao que banha essas tribos isoladas. Os conceitos so superfcies ou volumes absolutos, disformes e fragmentrios, enquanto o plano o absoluto ilimitado, informe, nem superfcie nem volume, mas sempre fractal. Os conceitos so agenciamentos concretos como configuraes de uma mquina, mas o plano a mquina abstrata cujos agenciamentos so as peas. Os conceitos so acontecimentos, mas o plano o horizonte dos acontecimentos, o reservatrio ou a reserva de acontecimentos puramente conceituais: no o horizonte relativo que funciona como um limite, muda com um observador e engloba estados de coisas observveis, mas o horizonte absoluto, independente de todo observador, e que torna o acontecimento como conceito independente de um estado de coisas visvel em que ele se efetuaria(2). Os conceitos ladrilham, ocupam ou povoam o plano, pedao por pedao, enquanto o prprio plano o meio indivisvel em que os conceitos se distribuem sem romper-lhe a integridade, a continuidade: eles ocupam sem contar (a cifra do conceito no um nmero), ou se distribuem sem dividir. O plano como um deserto que os conceitos povoam sem partilhar. So os conceitos mesmos que so as nicas regies do plano, mas o plano que o nico suporte dos conceitos. O(2) Jean-Pierre Luminet distingue os horizontes relativos, como o horizonte terrestre centrado sobre um observador e se deslocando com ele, e o horizonte absoluto, "horizonte dos acontecimentos", independente de todo observador e que separa os acontecimentos em duas categorias, vistos e no-vistos, comunicveis e no-comunicveis ("le trou noir et l'in-fini", in Les dimensions de 1'infini, Instituto Cultural Italiano de Paris). Ns nos reportaremos tambm ao texto zen do monge japons Dgen, que invoca o horizonte ou a "reserva" dos acontecimentos: Sh-bogen-zo, Ed. de Ia Diffrence, traduo e comentrios de Ren de Ceccaty e Nakamura.

    52

  • plano no tem outras regies seno as tribos que o povoam e nele se deslocam. o plano que assegura o ajuste dos conceitos, com conexes sempre crescentes, e so os conceitos que asseguram o povoamento do plano sobre uma curvatura renovada, sempre varivel. O plano de imanncia no um conceito pensado nem pensvel, mas a imagem do pensamento, a imagem que ele se d do que significa pensar, fazer uso do pensamento, se orientar no pensamento... No um mtodo, pois todo mtodo concerne eventualmente aos conceitos e supe uma tal imagem. No nem mesmo um estado de conhecimento sobre o crebro e seu funcionamento, j que o pensamento no aqui remetido ao lento crebro como ao estado de coisas cientificamente determinvel em que ele se limita a efetuar-se, quaisquer que sejam seu uso e sua orientao. No nem mesmo a opinio que se faz do pensamento, de suas formas, de seus fins e seus meios a tal ou tal momento. A imagem do pensamento implica uma severa repartio do fato e do direito: o que concerne ao pensamento, como tal, deve ser separado dos acidentes que remetem ao crebro, ou s opinies histricas. "Quid jris}" Por exemplo, perder a memria, ou estar louco, isto pode pertencer ao pensamento como tal, ou so somente acidentes do crebro que devem ser considerados como simples fatos? E contemplar, refletir, comunicar so outra coisa seno opinies que se faz sobre o pensamento, a tal poca e em tal civilizao? A imagem do pensamento s retm o que o pensamento pode reivindicar de direito. O pensamento reivindica "somente" o movimento que pode ser levado ao infinito. O que o pensamento reivindica de direito, o que ele seleciona, o movimento infinito ou o movimento do infinito. E ele que constitui a imagem do pensamento. O movimento do infinito no remete a coordenadas espao-temporais, que definiriam as posies sucessivas de um

    53 mvel e os pontos fixos de referncia, com relao aos quais estas variam. "Orientar-se no pensamento" no implica nem num ponto de referncia objetivo, nem num mvel que se experimentasse como sujeito e que, por isso, desejaria o infinito ou teria necessidade dele. O movimento tomou tudo, e no h lugar nenhum para um sujeito e um objeto que no podem ser seno conceitos. O que est em movimento o prprio horizonte: o horizonte relativo se distancia quando o sujeito avana, mas o horizonte absoluto, ns estamos nele sempre e j, no plano de imanncia. O que define o movimento infinito uma ida e volta, porque ele no vai na direo de uma destinao sem j retornar sobre si, a agulha sendo tambm o plo. Se "voltar-se para..." o movimento do pensamento na direo do verdadeiro, como o verdadeiro no se voltaria tambm na direo do pensamento? E como no se afastaria o prprio verdadeiro do pensamento, quando o pensamento dele se afasta? No uma fuso, entretanto, uma reversibilidade, uma troca imediata, perptua, instantnea, um claro. O movimento infinito duplo, e no h seno uma dobra de um a outro. neste sentido que se diz que pensar e ser so uma s e mesma coisa. Ou antes, o movimento no imagem do pensamento sem ser tambm matria do ser. Quando salta o pensamento de Tales, como gua que o pensamento retorna. Quando o pensamento de Herclito se faz polmos, o fogo que retorna sobre ele. uma mesma velocidade de um lado e do outro: "o tomo vai to rpido quanto o pensamento"(3). O plano de imanncia tem duas faces, como Pensamento e como Natureza, como Physis e como Nos. por isso que h sempre muitos movimentos infinitos presos uns nos outros, dobrados uns nos outros, na medida em que o retorno de um relana um outro instantaneamente, de tal maneira que o pla-(3) Epicuro, Carta a Herdoto, 61-62.

    54 no de imanncia no pra de se tecer, gigantesco tear. Vol-tar-se-para no implica somente se desviar, mas enfrentar, voltar-se, retornar, perder-se, apagar-se4. Mesmo o negativo produz movimentos infinitos: cair no erro, bem como evitar o falso, deixar-se dominar pelas paixes, bem como super-las. Diversos movimentos do infinito so de tal maneira misturados uns com os outros que, longe de romper o Uno-Todo do plano de imanncia, constituem sua curvatura varivel, as concavidades e as convexidades, a natureza fractal de alguma maneira. esta natureza fractal que faz do planmeno um infinito sempre diferente de toda superfcie ou volume determinvel como conceito. Cada movimento percorre todo o plano, fazendo um retorno imediato sobre si mesmo, cada um se dobrando, mas tambm dobrando outros ou deixando-se dobrar, engendrando retroaes, conexes, proliferaes, na fractalizao desta infinidade infinitamente redobrada (curvatura varivel do plano). Mas, se verdade que o plano de imanncia sempre nico, sendo ele mesmo variao pura, tanto mais necessrio ser explicar por que h planos de imanncia variados, distintos, que se sucedem ou rivalizam na histria, precisamente segundo os movimentos infinitos retidos, selecionados. O plano no , certamente, o mesmo nos gregos, no sculo XVII, hoje (e ainda estes termos so vagos e gerais): no nem a mesma imagem do pensamento, nem a mesma matria do ser. O plano pois o objeto de uma especificao infinita, que faz com que ele no parea ser o Uno-Todo seno em cada caso especificado pela seleo do movimento. Esta dificuldade concernente natureza ltima do plano de imanncia s pode ser

  • resolvida progressivamente. essencial no confundir o plano de imanncia e os conceitos que o ocupam. E todavia os mesmos elementos(4) Sobre estes dinamismos, cf. Michel Courthial, Le visage, no prelo.

    55 podem aparecer duas vezes, sobre o plano e no conceito, mas -jamais sob os mesmos traos, mesmo quando se exprimem nos mesmos verbos e nas mesmas palavras: j o vimos quanto ao ser, ao pensamento, ao Uno; eles entram em componentes de conceito e so eles mesmos conceitos, mas de uma maneira to diferente que no pertencem ao plano como imagem ou matria. Inversamente, o verdadeiro sobre o plano no pode ser definido seno por um "voltar-se na direo de...", ou "aquilo em cuja direo o pensamento se volta"; mas no dispomos assim de nenhum conceito de verdade. Se o prprio erro um elemento de direito que faz parte do plano, ele consiste somente em tomar o falso pelo verdadeiro (cair), mas s recebe um conceito se so determinados seus componentes (por exemplo, segundo Descartes, os dois componentes de um entendimento finito e de uma vontade infinita). Os movimentos ou elementos do plano no parecero pois seno definies nominais, com relao aos conceitos, enquanto negligenciarmos a diferena de natureza. Mas, na realidade, os elementos do plano so traos diagramticos, enquanto os conceitos so traos intensivos. Os primeiros so movimentos do infinito, enquanto os segundos so as ordenadas intensivas desses movimentos, como cortes originais ou posies diferenciais: movimentos finitos, cujo infinito s de velocidade, e que constituem cada vez uma superfcie ou um volume, um contorno irregular marcando uma parada no grau de proliferao. Os primeiros so direes absolutas de natureza fractal, ao passo que os segundos so dimenses absolutas, superfcies ou volumes sempre fragmentrios, definidos intensivamente. Os primeiros so intuies, os segundos, intenses. Que toda filosofia dependa de uma intuio, que seus conceitos no cessam de desenvolver at o limite das diferenas de intensidade, esta grandiosa perspectiva leibniziana ou bergsoniana est fundada se consideramos a intuio como o envolvimento dos mo-

    56 vimentos infinitos do pensamento, que percorrem sem cessar um plano de imanncia. No se concluir da que os conceitos se deduzam do plano: para tanto necessrio uma construo especial, distinta daquela do plano, e por isso que os conceitos devem ser criados, do mesmo modo que o plano deve ser erigido. Jamais os traos intensivos so a conseqncia dos traos diagramticos, nem as ordenadas intensivas se deduzem dos movimentos ou direes. A correspondncia entre os dois excede mesmo as simples ressonncias e faz intervir instncias adjuntas criao dos conceitos, a saber, os personagens conceituais. Se a filosofia comea com a criao de conceitos, o plano de imanncia deve ser considerado como pr-filosfico. Ele est pressuposto, no da maneira pela qual um conceito pode remeter a outros, mas pela qual os conceitos remetem eles mesmos a uma compreenso no-conceitual. Esta compreenso intuitiva varia ainda segundo a maneira pela qual o plano est traado. Em Descartes, tratar-se-ia de uma compreenso subjetiva e implcita suposta pelo Eu penso como primeiro conceito; em Plato, era a imagem virtual de um j-pensado que redobraria todo conceito atual. Heidegger invoca uma "compreenso pr-ontolgica do Ser", uma compreenso "pr-conceitual" que parece bem implicar a captao de uma matria do ser em relao com uma disposio do pensamento. De qualquer maneira, a filosofia coloca como pr-filosfica, ou mesmo no-filosfica, a potncia de um Uno-Todo como um deserto movente que os conceitos vm a povoar. Pr-filosfica no significa nada que preexista, mas algo que no existe fora da filosofia, embora esta o suponha. So suas condies internas. O no-filosfico est talvez mais no corao da filosofia que a prpria filosofia, e significa que a filosofia no pode contentar-se em ser compreendida somente de maneira filosfica ou conceituai, mas que ela se enderea tambm, em sua essncia, aos no-fil-

    57 sofos(5). Veremos que esta remisso constante no-filosofia assume aspectos variados; de acordo com este primeiro aspecto, a filosofia, definida como criao de conceitos, implica uma pressuposio que dela se distingue, e que todavia dela inseparvel. A filosofia ao mesmo tempo criao de conceito e instaurao do plano. O conceito o comeo da filosofia, mas o plano sua instaurao(6). O plano no consiste evidentemente num programa, num projeto, num fim ou num meio; um plano de imanncia que constitui o solo absoluto da filosofia, sua Terra ou sua desterritorializao, sua fundao, sobre os quais ela cria seus conceitos. Ambos so necessrios, criar os conceitos e instaurar o plano, como duas asas ou duas nadadeiras.Pensar suscita a indiferena geral. E todavia no falso dizer que um exerccio perigoso. somente quando os perigos se tornam evidentes que a indiferena cessa, mas eles permanecem freqentemente

  • escondidos, pouco perceptveis, inerentes empresa. Precisamente porque o plano de imanncia pr-filosfico, e j no opera com conceitos, ele implica uma espcie de experimentao tateante, e seu traado recorre a meios pouco confessveis, pouco racionais e razoveis. So meios da ordem do sonho, dos processos patolgicos, das experincias esotricas, da embriaguez ou do excesso. Corremos em direo ao horizonte, sobre o plano de imanncia; retornamos dele com olhos vermelhos, mes-(5) Franois Laruelle desenvolve uma das tentativas mais interessantes da filosofia contempornea: invoca um Uno-Todo que qualifica de "no-filosfico" e, estranhamente, de "cientfico", sobre o qual se enraza a "deciso filosfica". Este Uno-Todo parece prximo de Espinosa. Cf. Philosophie et non-philosopbie, Ed. Mardaga.(6) Etienne Souriau publicou em 1939 Uinstauration pbilosophique, Ed. Alcan: sensvel atividade criadora em filosofia, ele invoca uma espcie de plano de instaurao como solo desta criao, ou "filosofema", animado de dinamismos (pp. 62-63).

    58 mo se so os olhos do esprito. Mesmo Descartes tem seu sonho. Pensar sempre seguir a linha de fuga do vo da bruxa. Por exemplo, o plano de imanncia de Michaux, com seus movimentos e suas velocidades infinitas, furiosas. O mais das vezes, esses meios no aparecem no resultado, que deve ser tomado em si mesmo e calmamente. Mas ento "perigo" toma um outro sentido: trata-se de conseqncias evidentes, quando a imanncia pura suscita, na opinio, uma forte reprovao instintiva, e a natureza dos conceitos criados ainda vem redobrar a reprovao. que no pensamos sem nos tornarmos outra coisa, algo que no pensa, um bicho, um vegetal, uma molcula, uma partcula, que retornam sobre o pensamento e o relanam. O plano de imanncia como um corte do caos e age como um crivo. O que caracteriza o caos, com efeito, menos a ausncia de determinaes que a velocidade infinita com a qual elas se esboam e se apagam: no um movimento de uma a outra mas, ao contrrio, a impossibilidade de uma relao entre duas determinaes, j que uma no aparece sem que a outra tenha j desaparecido, e que uma aparece como evanescente quando a outra desaparece como esboo. O caos no um estado inerte ou estacionado, no uma mistura ao acaso. O caos caotiza, e desfaz no infinito toda consistncia. O problema da filosofia de adquirir uma consistncia, sem perder o infinito no qual o pensamento mergulha (o caos, deste ponto de vista, tem uma existncia tanto mental como fsica). Dar consistncia sem nada perder do infinito muito diferente do problema da cincia, que procura dar referncias ao caos, sob a condio de renunciar aos movimentos e velocidades infinitos, e de operar, desde incio, uma limitao de velocidade: o que primeiro na cincia a luz ou o horizonte relativo. A filosofia, ao contrrio, procede supondo ou instaurando o plano de imanncia: ele, cujas curvaturas variveis conservam os mo-

    59 vimentos infinitos que retornam sobre si na troca incessante, mas tambm no cessam de liberar outras que se conservam. Ento, resta aos conceitos traar as ordenadas intensivas destes movimentos infinitos, como movimentos eles mesmos finitos que formam, em velocidade infinita, contornos variveis inscritos sobre o plano. Operando um corte do caos, o plano de imanncia faz apelo a uma criao de conceitos. questo: a filosofia pode ou deve ser considerada como grega?, uma primeira resposta pareceu ser que a cidade grega, com efeito, se apresenta como a nova sociedade dos "amigos", com todas as ambigidades desta palavra. Jean-Pierre Vernant acrescenta uma segunda resposta: os gregos seriam os primeiros a ter concebido uma imanncia estrita da Ordem a um meio csmico que corta o caos maneira de um plano. Se se chama de Logos um tal plano-crivo, grande a distncia entre o Logos e a simples "razo" (como quando se diz que o mundo racional). A razo apenas um conceito, e um conceito bem pobre para definir o plano e os movimentos infinitos que o percorrem. Numa palavra, os primeiros filsofos so aqueles que instauram um plano de imanncia como um crivo estendido sobre o caos. Eles se opem, neste sentido, aos Sbios, que so personagens da religio, sacerdotes, porque concebem a instaurao de uma ordem sempre transcendente, imposta de fora por um grande dspota ou por um deus superior aos outros, inspirado por Eris, na seqncia de guerras que ultrapassam todo agn e de dios que recusam desde o incio as provas da rivalidade(7). H religio cada vez que h transcendncia, Ser vertical, Estado imperial no cu ou sobre a terra, e h Filosofia cada vez que houver imanncia, mesmo se ela serve de arena ao agn e rivalidade (os tiranos gregos no seriam uma objeo, porque eles esto plenamente(7) Cf. Jean-Pierre Vernant, Les origines de Ia pense grecque, P.U.F., pp. 105-125.

    62 do lado da sociedade dos amigos tal como ela se apresenta atravs de suas rivalidades mais loucas, mais violentas). E estas duas determinaes eventuais da filosofia como grega esto talvez profundamente ligadas. S os amigos podem estender um plano de imanncia como um solo que se esquiva dos dolos. Em

  • Empdocles, Filia que o traa, mesmo se ela no retorna sobre mim sem dobrar o dio como o movimento tornado negativo que testemunha uma sub-transcendncia do caos (o vulco) e uma sobre-transcendncia de um deus. Pode ser que os primeiros filsofos, e sobretudo Empdocles, tenham ainda o ar de sacerdotes ou mesmo de reis. Eles se apropriam da mscara do sbio, e, como diz Nietzsche, como a filosofia no se disfararia em seus primrdios? E mesmo, poder ela jamais prescindir dos disfarces? Se a instaurao da filosofia se confunde com a suposio de um plano pr-filo-sfico, como a filosofia no tiraria proveito disso para pr uma mscara? Resta que os primeiros filsofos traam um plano, que movimentos ilimitados no cessam de percorrer, sobre duas faces, das quais uma determinvel como Physis, na medida em que d uma matria ao Ser, e a outra como Nos, enquanto d uma imagem ao pensamento. Anaximandro que leva ao maior rigor a distino das duas faces, combinando o movimento das qualidades com a potncia de um horizonte absoluto, o Apeiron ou o Ilimitado, mas sempre sobre o mesmo plano. O filsofo opera um vasto seqestro da sabedoria, ele a pe a servio da imanncia pura. Ele substitui a genealogia por uma geologia. EXEMPLO III Pode-se apresentar toda a histria da filosofia do ponto de vista da instaurao de um plano de imanncia? Distinguir-se-iam ento os fisicalistas, que insistem sobre a matria do Ser, e os noologistas, sobre a ima-

    61 gem do pensamento. Mas um risco de confuso surge muito rpido: em vez de o plano de imanncia, ele mesmo, constituir esta matria do Ser ou esta imagem do pensamento, a imanncia que seria remetida a algo que seria como um "dativo", Matria ou Esprito. o que se torna evidente com Plato e seus sucessores. Em vez de um plano de imanncia constituir o Uno-Todo, a imanncia est "no" Uno, de tal modo que um outro Uno, desta vez transcendente, se superpe quele no qual a imanncia se estende ou ao qual ela se atribui: sempre um Uno para alm do Uno, ser a frmula dos neoplatnicos. Cada vez que se interpreta a imanncia como "a" algo, produz-se uma confuso do plano com o conceito, de modo que o conceito se torna um universal transcendente, e o plano, um atributo no conceito. Assim mal entendido, o plano de imanncia relana o transcendente: um simples campo de fenmenos que s possui secundariamente o que se atribui de incio unidade transcendente. Com a filosofia crist a situao piora. A posio de imanncia continua sendo a instaurao filosfica pura, mas ao mesmo tempo ela s suportada em doses muito pequenas, ela severamente controlada e enquadrada pelas exigncias de uma transcendncia ema-nativa e sobretudo criativa. Cada filsofo deve demonstrar, com o risco de sua obra e por vezes de sua vida, que a dose de imanncia, que ele injeta no mundo e no esprito, no compromete a transcendncia de um Deus ao qual a imanncia no deve ser atribuda seno secundariamente (Nicolau de Cusa, Eckhart, Bruno). A autoridade religiosa quer que a imanncia no seja sustentada seno localmente ou num nvel intermedirio, um pouco como numa fonte em cascata na qual a gua pode brevemente manar sobre cada plataforma, mas sob a

    62 condio de vir de uma fonte mais alta e descer mais baixo (transascendncia e transdescendncia, como dizia Wahl). Da imanncia, pode-se estimar que ela seja a pedra de toque incandescente de toda a filosofia, porque toma para si todos os perigos que esta deve enfrentar, todas as condenaes, perseguie