Desertor, o trecho

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O Desertor, trecho

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  • 1. O ArqueiroGeraldo Jordo Pereira (1938-2008) comeou sua carreira aos 17 anos,quando foi trabalhar com seu pai, o clebre editor Jos Olympio, publicando obras marcantescomo O menino do dedo verde, de Maurice Druon, e Minha vida, de Charles Chaplin.Em 1976, fundou a Editora Salamandra com o propsito de formar uma nova gerao deleitores e acabou criando um dos catlogos infantis mais premiados do Brasil. Em 1992,fugindo de sua linha editorial, lanou Muitas vidas, muitos mestres, de Brian Weiss, livroque deu origem Editora Sextante.F de histrias de suspense, Geraldo descobriu O Cdigo Da Vinci antes mesmo de ele serlanado nos Estados Unidos. A aposta em fico, que no era o foco da Sextante, foi certeira:o ttulo se transformou em um dos maiores fenmenos editoriais de todos os tempos.Mas no foi s aos livros que se dedicou. Com seu desejo de ajudar o prximo, Geraldodesenvolveu diversos projetos sociais que se tornaram sua grande paixo.Com a misso de publicar histrias empolgantes, tornar os livros cada vez mais acessveise despertar o amor pela leitura, a Editora Arqueiro uma homenagem a esta figuraextraordinria, capaz de enxergar mais alm, mirar nas coisas verdadeiramente importantese no perder o idealismo e a esperana diante dos desafios e contratempos da vida.

2. Para Marilyn Ducksworth,por muitos anos de amizade,apoio e risadas.E, como sempre, para minha mulher, Jamie,e meus filhos, Nicholas e Lily. 3. Se necessrio fazer dano a algum homem,o dano deve ser to grave que no sejapreciso temer sua vingana.Maquiavel 4. PARTE UMLances iniciais 5. 81Vladimirskaya Oblast, RssiaPyotr Luzhkov estava prestes a ser morto e sentia-se grato por isso.Era final de outubro, mas o outono j se tornara uma lembrana. Ha-viasido breve e feioso, como uma velha babushka tirando depressa um ves-tidopudo.E agora aquilo: cus de chumbo, frio congelante, neve soprada pelovento. A cena de abertura do inverno interminvel da Rssia.Mesmo sem camisa e descalo, com as mos atadas atrs das costas, Pyotrpouco percebia o frio. Na verdade, naquele momento, ele precisaria ser dura-mentepressionado at para lembrar seu nome. Achava que estava sendo levadopor dois homens atravs de uma floresta de btulas, mas no tinha certeza. Faziasentido estarem em uma floresta. Era onde os russos gostavam de fazer seu tra-balhosujo. Kurapaty, Bykivnia, Katyn, Butovo... Sempre nas florestas. Luzhkovestava a poucos momentos de se envolver com uma grande tradio russa. Iamlhe conceder uma morte entre as rvores.Quando se tratava de matar, havia outro costume russo: causar o mximode dor. Pyotr Luzhkov havia sido forado a escalar montanhas de dor. Tinhamquebrado seus dedos das mos. Tinham quebrado seus braos e costelas. Ti-nhamquebrado seu nariz e seu maxilar. Tinha sido surrado at quando estavainconsciente. Bateram nele porque lhes disseram para assim o fazer. Bateramnele porque eram russos. S paravam quando estavam bebendo vodca. Depoisque a vodca acabava, batiam nele com mais fora ainda.Agora chegara ao trecho final de sua viagem, a longa caminhada at uma covasem identificao. Os russos tinham uma expresso prpria para isso: vysshayamera, a mais elevada forma de punio. Era normalmente reservada para trai-dores,mas Pyotr Luzhkov no trara ningum. Fora enganado pela esposa deseu patro, o qual acabara perdendo tudo. Algum tinha que pagar. No final,todo mundo pagava.Via seu chefe agora, parado sozinho em meio aos troncos finos das btulas.Casaco de couro preto, cabelos grisalhos, uma cabea enorme. Estava olhandopara a pistola de alto calibre que tinha na mo. Luzhkov tinha que lhe dar cr-dito.No havia muitos oligarcas com estmago para se incumbir pessoalmentede assassinatos. Mas tambm no havia muitos oligarcas como ele.A cova j tinha sido aberta. O chefe de Luzhkov a estava examinando com 6. cuidado, como para calcular se seria grande o suficiente para conter um corpo.Quando Pyotr foi forado a se ajoelhar, sentiu o cheiro caracterstico da colniadele. Sndalo e tabaco. O cheiro do poder. O cheiro do demnio.O demnio lhe deu mais um golpe na lateral do rosto. Luzhkov no sentiu.Ento, o demnio encostou a arma na parte de trs da cabea de Pyotr e dese-jou-lhe uma noite agradvel. Luzhkov viu um lampejo rosado de seu prprio9sangue. Depois, a escurido. Finalmente estava morto. E era grato por isso.2Londres: JaneiroO assassinato de Pyotr Luzhkov passou despercebido pela maioria das pes-soas.Ningum chorou por ele; nenhuma mulher se vestiu de preto porsua causa. Nenhum policial russo investigou sua morte e os jornais russos nose preocuparam em notici-la. Nem em Moscou. Nem em So Petersburgo.E certamente tampouco na cidade russa s vezes chamada de Londres. Casoalguma informao sobre o falecimento de Luzhkov tivesse chegado a BristolMews, casa do coronel Grigori Bulganov, o desertor e dissidente russo, ele noteria ficado surpreso, embora talvez sentisse uma pontada de culpa. Se Grigorino tivesse trancado o coitado do Pyotr no cofre pessoal de Ivan Kharkov, oguarda-costas talvez ainda estivesse vivo.Entre os chefes de Thames House e Vauxhall Cross, as sedes do MI5 e doMI6 situadas de frente para um rio, Bulganov sempre fora uma fonte de muitofascnio e de discusses considerveis. As opinies divergiam, mas em geralera isso mesmo o que acontecia quando os dois servios de inteligncia eramobrigados a assumir posies sobre o mesmo assunto. Ele era um presente dosdeuses, elogiavam os que o apoiavam. Era uma caixa de surpresas, boas e ms,na melhor das hipteses, murmuravam seus detratores. Sabia-se que um dosexpoentes do andar superior da Thames House o definia como o desertor deque Downing Street, a sede do governo britnico, precisava tanto quanto deum vazamento no telhado como se Londres, que ento abrigava mais de 250mil cidados russos, tivesse espao sobrando para mais um descontente que seespecializara em criar problemas para o Kremlin. O homem do MI5 ficara co-nhecidopor ter profetizado que um dia todos iriam se arrepender da deciso de 7. conceder asilo e um passaporte britnico a Bulganov. Mas at ele ficou surpresocom a rapidez com que esse dia chegou.Ex-coronel da diviso de contraespionagem do Servio de Segurana Federalda Rssia, mais conhecido como FSB, Grigori Bulganov tinha dado as caras nofinal do vero anterior, o inesperado subproduto de uma operao multinacio-nal10de servios de informaes contra um tal de Ivan Kharkov, oligarca russo erevendedor internacional de armas. Apenas um pequeno grupo de funcionriosbritnicos tomou conhecimento da verdadeira extenso do envolvimento deGrigori no caso. Menos pessoas ainda sabiam que, se no fosse ele, uma equipeinteira de agentes israelenses poderia ter morrido em solo russo. Como os ou-trosdesertores da KGB vindos antes dele, Grigori desapareceu por um tempoem esconderijos e propriedades rurais isoladas. Uma equipe conjunta anglo--americana lhe fez perguntas dia e noite, primeiro sobre a estrutura da rede dotrfico de armas de Ivan, para a qual Grigori tinha vergonhosamente trabalhadocomo agente pago, em seguida sobre os mtodos de espionagem de seu postoanterior. Os interrogadores britnicos o achavam encantador; os americanos,nem tanto. Eles insistiram em submet-lo a um detector de mentiras. Ele foiaprovado com louvor.Depois que os interrogadores se deram por satisfeitos e chegou a hora dedecidir o que fazer com ele, os detetives da segurana interna fizeram avalia-esaltamente secretas e emitiram suas recomendaes, tambm em segredo.No final, concluiu-se que Grigori, embora duramente criticado por seus ex--companheiros, no estava sujeito a nenhuma ameaa sria. At mesmo o ou-troratemido Ivan Kharkov, que se achava na Rssia, lambendo as feridas, foiconsiderado incapaz de qualquer ato premeditado contra ele. O desertor feztrs pedidos: queria manter seu nome, residir em Londres e no ter seguranaostensiva. Manter-se vista, segundo ele, lhe daria maior proteo contra seusinimigos. O MI5 concordou de pronto com as exigncias, sobretudo com a ter-ceira.Equipes de segurana requeriam dinheiro e os recursos humanos pode-riamser mais bem-utilizados em outros lugares, ou seja, contra os extremistasjihadistas britnicos. Compraram-lhe uma linda casa voltada para um ptio in-ternoem um ponto isolado de Maida Vale, providenciaram-lhe um estipndiomensal generoso e fizeram para ele um depsito nico em um banco da cidade,o que com certeza teria causado um escndalo caso o valor se tornasse pblico.Um advogado do MI5 negociou discretamente um acordo para um livro comum respeitado editor de Londres. O valor do adiantamento fez sobrancelhas seerguerem entre os altos funcionrios de ambos os servios de informaes, amaioria dos quais trabalhando em obras prprias em segredo, claro. 8. Durante algum tempo, parecia que Grigori viria a ser uma extraordinria ra-ridadeno mundo do servio secreto: um caso sem complicaes. Fluente em in-gls,levava a vida em Londres como se fosse um prisioneiro libertado tentandorecuperar o tempo perdido. Frequentava o teatro e visitava museus. Recitaesde poesia, bal, msica de cmara: ele ia a tudo isso. Dedicou-se a trabalhar nolivro e, uma vez por semana, almoava com sua editora, que por acaso era umabeldade de 32 anos com pele de porcelana. A nica coisa que lhe faltava era oxadrez. Seu contato no MI5 sugeriu que ele se associasse ao Clube de Xadrez doCentro de Londres, uma instituio venervel fundada por um grupo de fun-cionriospblicos durante a Primeira Guerra Mundial. Seu formulrio de ins-criofoi uma obra-prima de ambiguidade. No fornecia endereo, telefone decasa, nmero de celular nem e-mail. Sua ocupao foi definida como serviosde traduo; seu empregador, como o prprio. Solicitado a listar passatempos,escreveu xadrez.Porm, nenhum caso de grande destaque inteiramente livre de controvr-siase os veteranos preveniram que nunca haviam visto um desertor, muito me-nosum desertor russo, que no demonstrasse ter um parafuso solto de vez emquando. O de Grigori se soltou no dia em que o primeiro-ministro britnicoanunciou que um grande plano ter