Do livro do desassossego

  • View
    194

  • Download
    0

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Fernando Pessoa

Transcript

  • Do Livro do Desassossego - Bernardo Soares Bernardo Soares (heternimo de Fernando Pessoa) Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/ 1. "O corao, se pudesse pensar, pararia." "Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar at que chegue a diligncia do abismo. No sei onde me levar, porque no sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma priso, porque estou compelido a aguardar nela; poderia consider-la um lugar de sociveis, porque aqui me encontro com outros. No sou, porm, nem impaciente nem comum. Deixo ao que so os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as msicas e as vozes chegam cmodas at mim. Sento-me porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim s, vagos cantos que componho enquanto espero. Para todos ns descer a noite e chegar a diligncia. Gozo a brisa que me do e a alma que me deram para goz-la, e no interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entret-los tambm na passagem, ser bem. Se no o lerem, nem se entretiverem, ser bem tambm." * * * 6. "Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente to pouca coisa, no encarna a substncia de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a pacincia de milhes de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho intil, esperana sem vestgios. Nestes momentos meu corao pulsa mais alto por minha conscincia dele. Vivo mais porque vivo maior." * * * 7. "Prefiro o Vasques homem meu patro, que mais tratvel, nas horas difceis, que todos os patres abstractos do mundo." "Tenho ternura, ternura at s lgrimas, pelos meus livros de outros em que escrituro, pelo tinteiro velho de que me sirvo, pelas costas dobradas do Srgio, que faz guias de remessa um pouco para alm de mim. Tenho amor a isto, talvez porque no tenha mais nada que amar - ou talvez, tambm, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale d-lo ao pequeno aspecto do meu tinteiro como grande indiferena das estrelas." * * *
  • 8. "Vejo-o [o patro Vasques], vejo os seus gestos de vagar enrgico, os seus olhos a pensar para dentro coisas de fora, recebo a perturbao da sua ocasio em que lhe no agrado, e a minha alma alegra-se com o seu sorriso, um sorriso amplo e humano, como o aplauso de uma multido." * * * 9. "Ah, compreendo! O patro Vasques a Vida. A Vida, montona e necessria, mandante e desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele tudo para mim, por fora, porque a Vida tudo para mim por fora. E, se o escritrio da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porm num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que to montona como a mesma vida, mas s em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a soluo de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que o que no pode ter soluo." * * * 10. "Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mnimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoaes milimtricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, no o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noo do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a algum o que j lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele j me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotogrficas, o semblante muscular com que ele disse o que me no lembra, ou a inclinao de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me no recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos tm a distncia - irmos siameses que no esto pegados." * * * 12. "Se escrevo o que sinto porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso no tem importncia, pois nada tem importncia. Fao paisagens com o que sinto." "De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrvel das sensaes, e a compreenso profunda de estar sentindo...Uma inteligncia aguda para me destruir, e um poder de sonho sfrego de me entreter...Uma vontade morta e uma reflexo que a embala, como a um filho vivo..." * * *
  • 14. "Tenho fome da extenso do tempo, e quero ser eu sem condies." * * * 24. "Uns governam o mundo, outros so o mundo." * * * 25. "H em olhos humanos, ainda que litogrficos, uma coisa terrvel: o aviso inevitvel da conscincia, o grito clandestino de haver alma." "Sinto um frio de doena sbita na alma" * * * 29. "Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir." "Era a ocasio de estar alegre. Mas pesava-me qualquer coisa, uma nsia desconhecida, um desejo sem definio, nem at reles. Tardava-me, talvez, a sensao de estar vivo. E quanto me debrucei da janela altssima, sobre a rua para onde olhei sem v-la, senti-me de repente um daqueles trapos hmidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para secar, mas se esquecem, enrodilhados, no parapeito que mancham lentamentamente." * * * 36. "So as pessoas que habitualmente me cercam, so as almas que, desconhecendo-me, todos os dias me conhecem com o convvio e a fala, que me pem na garganta do esprito o n salivar do desgosto fsico. a sordidez montona da sua vida, paralela exterioridade da minha, a sua conscincia ntima de serem meus semelhantes, que me veste o traje de forado, me d a cela de penitencirio, me faz apcrifo e mendigo." * * * 39. "Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenao a conhecer, esta noo repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que v." "E, por fim, tenho sono, porque, no sei porqu, acho que o sentido dormir." * * *
  • 40. "A humanidade tem medo da morte, mas incertamente." * * * 41. "E no sei o que sinto, no sei o que quero sentir, no sei o que penso nem o que sou." "Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste." "No vejo, sem pensar." "No h sossego - e, ai de mim!, nem sequer h desejo de o ter." * * * 42. "Assim como lavamos o corpo deveramos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - no para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por ns mesmos, a que propriamente chamamos asseio. H muitos em quem o desasseio no uma disposio da vontade, mas um encolher de ombros da inteligncia. E h muitos em quem o apagado e o mesmo da vida no uma forma de a quererem, ou uma natural conformao com o no t-la querido, mas um apagamento da inteligncia de si mesmos, uma ironia automtica do conhecimento. H porcos que repugnam a sua prpria porcaria, mas se no afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento , pelo qual o apavorado se no afasta do perigo. H porcos de destino, como eu, que se no afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atraco da prpria impotncia. So aves fascinadas pela ausncia de serpente; moscas que pairam nos troncos sem ver nada, at chegarem ao alcance viscoso da lngua do camaleo. Assim passeio lentamente a minha inconscincia consciente, no meu tronco de rvore do usual. Assim passei o meu destino que anda, pois eu no ando; o meu tempo que segue, pois eu no sigo." * * * 46. "Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspirao e um livramento, aquelas frases simples de Caeiro, na referncia natural do que resulta do pequeno tamanho de sua aldeia. Dali, diz ele, porque pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia maior que a cidade...
  • "Porque eu sou do tamanho do que vejo E no do tamanho da minha altura." Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafsica que espontaneamente acrescento vida. Depois de as ler, chego minha janela sobre a rua estreita, olho o grande cu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibrao me estremece no corpo todo. "Sou do tamanho do que vejo!"Cada vez que penso esta frase com toda a ateno dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. "Sou do tamanho do que vejo!" Que grande posse mental vai desde o poo das emoes profundas at s altas estrelas que se reflectem nele e, assim, em certo modo, ali esto. E j agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafsica objectiva dos cus todos com uma segurana que me d vontade de morrer cantando. "Sou do tamanho do que vejo!" E o vago luar, inteiramente meu, comea a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte. Tenho vontade de erguer os braos e gritar coisas de uma selvageria ignorada, de dizer palavras aos mistrios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaos da matria vazia. Mas recolho-me e abrando-me. "Sou do tamanho do que vejo!" E a frase fica sendo-me a alma inteira, encosto a ela todas as emoes que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrvel do luar duro que comea largo com o anoitecer." * * * 48. "A solido desola-me; a companhia oprime-me. A presena de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presena com uma distraco especial, que toda a minha ateno analtica no consegue definir." * * * 49. "O isolamento talhou-me sua imagem e semelhana. A presena de outra pesoa - de uma s pessoa que seja - atrasa-me imediatamente o pensamento, e, ao passo que no homem normal o contacto com outrem um estmulo para a expresso e para o dito, em mim esse contacto um contra-estmulo." "Os meus hbitos so da solido, que no dos homens"; no sei se foi Rousseau, se Senancour, o que