Dos Delitos e das penas

  • View
    274

  • Download
    4

Embed Size (px)

Transcript

  1. 1. Dos delitos e das penas.OS DELITOS E DAS PENASCesare BeccariaNDICEApresentaoBiografia do autorPrefcio do autorI - IntroduoII - Origem das penas e direito punirIII - Conseqncias desses princpiosIV - Da interpretao das leisV - Da obscuridade das leisVI - Da prisoVII - Dos indcios do delito e da forma dos julgamentosVIII - Das testemunhasIX - Das acusaes secretasfile:///C|/site/livros_gratis/delitos_penas.htm (1 of 81) [8/8/2001 00:17:32]
  2. 2. Dos delitos e das penas.X - Doa interrogatrios sugestivosXI - Dos juramentosXII - Da questo ou torturaXIII - Da durao do processo e da prescrioXIV- Dos crimes comeados; dos cmplices; da impunidadeXV - Da moderao das penasXVI - Da pena de morteXVII - Do banimento e das confiscaesXVIII - Da infmiaXIX - Da publicidade e da presteza das penasXX- Que o castigo deve ser inevitvel. - Das graasXXI - Dos asilosXXII - Do uso de pr a cabea a prmioXXIII - Que as penas devem ser proporcionadas aos delitosXXIV - Da medida dos delitosXXV - Diviso dos delitosXXVI - Dos crimes de lesa-majestadeXXVII - Dos atentados contra a segurana dos particulares e principalmente das violnciasXXVIII - Das injriasXXIX - Dos duelosXXX - Do rouboXXXI - Do contrabandoXXXII - Das falnciasXXXIII - Dos delitos que perturbam a tranqilidade pblicaXXXIV - Da ociosidadeXXXV - Do suicdioXXXVI - De certos delitos difceis de constatarfile:///C|/site/livros_gratis/delitos_penas.htm (2 of 81) [8/8/2001 00:17:32]
  3. 3. Dos delitos e das penas.XXXVII - De uma espcie particular de delitoXXXVIII - De algumas fontes gerais de erros e de injustias na legislao - e, em primeiro lugar, das falsas idias de utilidadeXXXIX - Do esprito de famliaXL - Do esprito do fiscoXLI - Dos meios de prevenir crimesXLII - ConclusoAPNDICERespostas s "Notas e observaes" de um frade dominicano sobre o livro "Dos Delitos e das penas"I - Acusao de impiedadeII- Acusaes de sedioExtrato da correspondncia de Beccaria e de Morellet sobre o livro "Dos Delitos e das penas"De Morellet a BeccariaDe Beccaria a MorelletNotasAPRESENTAONlson Jahr Garcia"Dos delitos e das penas" uma obra que se insere no movimento filosfico e humanitrio da segundametade do sculo XVIII, ao qual pertencem os trabalhos dos Enciclopedistas, como Voltaire, Rousseau,Montesquieu e tantos outros.Na poca havia grassado a tese de que as penas constituam uma espcie de vingana coletiva; essaconcepo havia induzido aplicao de punies de conseqncias muito superiores e mais terrveisque os males produzidos pelos delitos. Prodigalizara-se a prtica de torturas, penas de morte, prisesdesumanas, banimentos, acusaes secretas.Foi contra essa situao que se insurgiu Beccaria. Sua obra foi elogiada por intelectuais, religiosos enobres (inclusive Catarina da Rssia). As crticas foram poucas, geralmente resultantes de interessesegosticos de magistrados e clrigos. A humanidade encontrava novos caminhos para garantir a igualdadee a justia.Estamos divulgando o texto por acreditarmos que deva ser lido de novo, especialmente no Brasil. Afile:///C|/site/livros_gratis/delitos_penas.htm (3 of 81) [8/8/2001 00:17:32]
  4. 4. Dos delitos e das penas.prtica de torturas, entre ns, tem sido cada vez mais freqente. A pena de morte, que vai sendo abolidaem pases mais avanados, aqui tem sido proposta por inmeros polticos raivosos. Crianas ficamencarceradas sob condies cruis, s vezes brbaras. Juizes corruptos vivem no conforto de suasmanses. Assassinos frios, por serem influentes, desfrutam de todas as mordomias.Que o esprito de Beccaria nos ilumine.BIOGRAFIA DO AUTORESARE BONESANA, marqus de Beccaria, nasceu em Milo no ano de 1738. Educado emParis pelos jesutas, entregou-se com entusiasmo ao estudo da literatura e das matemticas.Muita influncia exerceu na formao do seu esprito a leitura das Lettres Persanes deMostesquieu e de L'Esprit de Helvtius. Desde ento, todas as suas preocupaes se voltarampara o estudo da filosofia. Foi ele um dos fundadores da sociedade literria que se formou em Milo eque, inspirando-se no exemplo da de Helvtius, divulgou os novos princpios da filosofia francesa. Almdisso, a fim de divulgar na Itlia as idias novas, Beccaria fez parte da redao do jornal II Caff, queapareceu de 1764 a 1765.Foi mais ou menos por essa poca que, insurgindo-se contra as injustias dos processos criminais emvoga, Beccaria principiou a agitar com os seus amigos, entre os quais se destacavam os irmos Pietro eAlessandro Verri, os complexos problemas relacionados com a matria. Assim teve origem o seu livroDei Delitti e delle Pene. Receoso de perseguies, o autor mandou imprimir sua obra secretamente, emLivorno, e ainda assim velando muitos pensamentos com expresses vagas e indecisas.O tratado Dos Delitos e das Penas a filosofia francesa aplicada legislao penal: contra a tradiojurdica, invoca a razo e o sentimento; faz-se porta-voz dos protestos da conscincia pblica contra osjulgamentos secretos, o juramento imposto aos acusados, a tortura, a confiscao, as penas infamantes, adesigualdade ante o castigo, a atrocidade dos suplcios; estabelece limites entre a justia divina e a justiahumana, entre os pecados e os delitos; condena o direito de vingana e toma por base do direito de punira utilidade social; declara a pena de morte intil e reclama a proporcionalidade das penas aos delitos,assim como a separao do poder judicirio e do poder legislativo. Nenhum livro fora to oportuno e oseu sucesso foi verdadeiramente extraordinrio, sobretudo entre os filsofos franceses. O abade Morellettraduziu-o, Diderot anotou-o, Voltaire comentou-o. d'Alembert, Buffon, Hume, Helvtius, o barod'Holbach, em suma, todos os grandes homens da Frana manifestaram desde logo a sua admirao e seuentusiasmo. Em 1766, indo a Paris, Beccaria foi alvo das mais vivas demonstraes de simpatia. Noentanto, tendo regressado a Milo, cidade que ele no mais abandonou, teve de sofrer uma campanhainfamante por parte dos seus adversrios, que ainda se apegavam aos preconceitos e rotina paraacus-lo de heresia. A denncia no teve conseqncias, mas Beccaria ressentiu-se de tal forma que oreceio de novas perseguies levou-o a renunciar s dissertaes filosficas.Em 1768, o governo austraco, sabedor de que ele recusara as ofertas de Catarina II, que procuraraatra-lo para So Petersburgo, criou em seu favor uma ctedra de economia poltica.Beccaria morreu em Milo, em 1794.file:///C|/site/livros_gratis/delitos_penas.htm (4 of 81) [8/8/2001 00:17:32]
  5. 5. Dos delitos e das penas.PREFCIO DO AUTORLGUNS fragmentos da legislao de um antigo povo conquistador, compilados por ordem deum prncipe que reinou h doze sculos em Constantinopla, combinados em seguida com oscostumes dos lombardos e amortalhados num volumoso calhamao de comentrios obscuros,constituem o velho acervo de opinies que uma grande parte da Europa honrou com o nome deleis; e, mesmo hoje, o preconceito da rotina, to funesto quanto generalizado, faz que uma opinio deCarpozow (1), uma velha prtica indicada por Claro (2), um suplcio imaginado com brbaracomplacncia por Francisco (3), sejam as regras que friamente seguem esses homens, que deveriamtremer quando decidem da vida e fortuna dos seus concidados esse cdigo informe, que no passa de produo monstruosa dos sculos mais brbaros, que euquero examinar nesta obra. Limitar-me-ei, porm, ao sistema criminal, cujos abusos ousarei assinalar aosque esto encarregados de proteger a felicidade pblica, sem preocupao de dar ao meu estilo o encantoque seduz a impacincia dos leitores vulgares.Se pude investigar livremente a verdade, se me elevei acima das opinies comuns, devo talindependncia indulgncia e s luzes do governo sob o qual tenho a felicidade de viver. Os grandes reise prncipes que querem a felicidade dos homens que governam so amigos da verdade, quando esta lhes revelada por um filsofo que, do fundo do seu retiro, mostra uma coragem isenta de fanatismo e secontenta em combater com as armas da razo as empresas da violncia e da intriga.De resto, examinando-se os abusos de que vamos falar, verificar-se- que os mesmos constituem astira e a vergonha dos sculos passados, mas no do nosso sculo e dos seus legisladores.Se algum quiser dar-me a honra de criticar meu livro, trate antes de apreender bem o fim que mepropus. Longe de pensar em diminuir a autoridade legtima, ver-se- que todos os meus esforos svisam a engrandec-la e esta se engrandecer, de fato, quando a opinio pblica for mais poderosa doque a fora, quando a indulgncia e a humanidade fizerem que se perdoe aos prncipes o seu poder.Crticos houve, cujas intenes no podiam ser honestas, que atacaram esta obra alterando-a (4). Devointerromper-me um instante, para impor silncio mentira azoinada, aos furores do fanatismo, scalnias covardes do dio.Os princpios de moral e de poltica, aceitos entre os homens, derivam em geral de trs fontes: arevelao, a lei natural e as convenes sociais. No se pode estabelecer comparao entre a primeira eas duas ltimas, do ponto-de-vista dos seus fins principais; completam-se, porm, ao tenderemigualmente para tornar os homens felizes na terra. Discutir as relaes das convenes sociais nosignifica atacar as relaes que podem encontrar-se entre a revelao e a lei natural.Uma vez que esses princpios divinos, embora imutveis, foram de mil modos desnaturados nosespritos corruptos, ou pela maldade humana, ou pelas falsas religies, ou pelas idias arbitrrias dafile:///C|/site/livros_gratis/delitos_penas.htm (5 of 81) [8/8/2001 00:17:32]
  6. 6. Dos delitos e das penas.virtude e do vcio, deve parecer necessrio examinar (pondo de lado quaisquer consideraes estranhas)os resultados das simples convenes humanas, quer essas convenes tenham sido feitas realmente,quer se suponham vantajosas para todos. Todas as opinies, todos os sistemas de moral devem reunir-senecessariamente nesse ponto, e nunca se louvariam bastante os louvveis esforos tendentes a reconduziros mais obstinados e os mais incrdulos aos princpios que levam os homens a viver em sociedade.Podem, pois, distinguir-se trs e