Editores e estado novo

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    Nuno Medeiros* Anlise Social, vol. XLIII (4.), 2008, 795-815

    Editores e Estado Novo: o lugar do GrmioNacional dos Editores e Livreiros**

    A recomposio que o universo social do livro na sua componente editorial sofreu nodecurso da institucionalizao do Estado Novo, sobrevivendo com surpreendente vita-lidade at ao ocaso do regime, opera-se consabidamente no quadro de um cenrio emque se multiplicam dificuldades e obstculos. Abordando as relaes colectivamenteentretecidas pelos editores com o poder atravs da explorao do percurso do GrmioNacional dos Editores e Livreiros, o artigo procura um entendimento das dinmicasinstitucionais do campo da edio que supere interpretaes que ainda prevalecem naanlise da relao com um projecto poltico de matriz autoritria, redutoras da com-plexidade de um espao ambivalente, caracterizado por uma natureza contraditria.

    Palavras-chave: editores; Estado Novo; Grmio Nacional dos Editores e Livreiros;histria institucional.

    The publishers and the Estado Novo: the placeof the National Publishers and Booksellers Guild

    The reorganizing of the publishing sphere of the social space of the book during theEstado Novo regime in Portugal takes place, in a surprisingly vibrant fashion, in ascenario of difficulties and obstacles. Dwelling on the relation collectively establishedbetween publishers and the political power in place by exploring the Grmio Nacionaldos Editores e Livreiros (National Publishers and Booksellers Guild), the article seeksto understand the institutional dynamics of the publishing world, thus overcomingcurrent beliefs still prevailing about the connection of such a world with politicalprojects of authoritarian nature, which tend to oversimplify a field with a complex,ambiguous and contradictory framework.

    Keywords: publishers; Estado Novo; National Publishers and Booksellers Guild;institutional history.

    De fins dos anos 30 a princpios dos anos 70 do sculo xx, sob a gidedo constrangimento estrutural que a edio portuguesa se engendra. Para operodo em apreo avultam, em posio cimeira, os obstculos estruturais expanso de uma actividade cujas caractersticas essenciais residem, justa-

    * CesNova, Faculdade de Cincias Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Av.de Berna, 26C, 1069-061 Lisboa, Portugal. e-mail: nuno.medeiros@fcsh.unl.pt.

    ** Este texto beneficiou amplamente dos comentrios de Rahul Kumar, Ins Braso, NunoDomingos e Vtor Barros, a quem deixo o meu agradecimento.

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    mente, no desenvolvimento de um suporte cognitivo e material dos que lhepodem consumir o produto e na criao de uma rede de distribuio que ocoloque no mercado e que lhe associe um contexto socializador do objecto(livro) e da sua fruio (leitura). As dificuldades vm de longe e prendem--se com a exacerbada proporo de analfabetos e com a prevalncia de umcontingente escolarizado detentor de uma formao elementar que dota osseus possuidores apenas dos rudimentos da leitura, escrita e clculo, semqualquer hiptese de contacto regular e naturalizado com o livro (Nvoa,1992; Ramos, 1988). Para os que lem, ou dominam os dispositivos dedecifrao sem a posse da prtica letrada mas com possibilidade de encontrocom o livro, a disseminao da oferta livreira esparsa ou inexistente,concentrado-se macrocefalicamente em Lisboa, com extenso aos outrostrs ncleos histricos de produo e circulao tipogrfica: Porto, Coimbrae Braga (Medeiros, 2007; , 1999). A convergncia do livro com o leitorsofre ainda os efeitos compressivos de um regime que cedo abandonoutentativas, que houve (Medeiros, 2007; Melo, 2001; , 1999), de gestoarticulada do livro como objecto cultural e de desenvolvimento formativo,em favor de uma lgica policial de tnica exclusiva. frustrao de umprojecto editorial prprio, e da pura inexistncia de um quadro programticode cariz modernizante e impulsionador da edio, sucedeu a matriz de vigi-lncia preventiva ou punitiva como preocupao nica do poder poltico emrelao ao livro, destacando-se o papel da censura no logos repressivo. Poroutro lado, justamente no lapso de tempo em apreo que se verifica umaverdadeira progresso de meios alternativos de comunicao e concorrentesno cio. Se na dcada de 40 o livro mantinha a mesma concorrncia quehavia conhecido no sculo XIX com o jornal, como grande competidor, ecom a rdio, procura de uma afirmao consolidada, no final dos anos 60os editores tm de publicar num ambiente mais preenchido face ao cortejode meios de informao, divulgao de conhecimento e lazer. A partir de1957, a televiso passa tambm a fazer parte da competio, enquanto ocinema cimenta uma posio de crescimento nas prticas de tempos livres.

    A actuao dos agentes do livro, designadamente dos editores, deve sercompreendida num quadro de autonomia face s interferncias das institui-es, sobretudo polticas, de um determinado espao social. A sobreposiode influncias no pode, contudo, ser elidida, sob pena do empobrecimentodo esquema interpretativo utilizado (Curto, 2007a e 2007b). A perspectivaodo universo editorial exige um esforo de abordagem que coteje o entendi-mento do contexto com as dinmicas imprimidas pelos actores particularese com a interpretao da relao colectiva dos agentes da edio com asinstituies do poder. Neste artigo procede-se explorao do ltimo aspec-to. O caso escolhido o rgo de representao profissional dos editores,o Grmio Nacional dos Editores e Livreiros (GNEL), que s na aparncia

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    Editores e Estado Novo

    desenha uma adeso que se diria orgnica frmula corporativa propostapelo Estado Novo. Membros de um sector que nunca se identificou comesse mesmo regime e no interior do qual se declaravam vozes clara e porfia-damente opositoras, os editores acabariam por evitar um conflito aberto epermanente com esse mesmo regime atravs da transformao do Grmionuma plataforma institucional de relao com as entidades oficiais. Baixandoa intensidade de uma eventual luta, o GNEL converte-se em instrumento deautonomia. Este facto representou um contributo no desprezvel para a so-brevivncia de uma classe que se soube relacionar de vrios modos com asinstncias do poder ditatorial na configurao do mercado do livro. Abre-se,assim, caminho compreenso da edio como histria contnua de impo-sio e resistncia (Raven, 2001), dimenso de particular acuidade no complexointerpretativo dos mundos da edio com actividade enquadrada em regimesautoritrios, como aquele em que funcionou o sector portugus no decurso doEstado Novo.

    EDITORES E ESTADO NOVO: ENTRE CONFRONTOE COLABORAO NO AQUIESCENTE

    Na sua formulao bsica, parecem aplicar-se ao campo da edio emPortugal, entre finais da dcada de 30 e o termo da dcada de 60, as trscaractersticas descritas por Lewis Coser (1975) como capazes de tecer anarrativa do espao editorial norte-americano dos anos 70. Ironia conceptual,o esqueleto formado por este conjunto de traos adequa-se apropriadamente interpretao do caso portugus enquanto abstraco. Tente-se o exerc-cio. O primeiro elemento estrutural reporta-se ausncia de centralizao ouplanificao da indstria editorial (com origem estatal ou privada de tipooligopolista), dispersa numa mirade de entidades de mdia, mas essencial-mente pequena e muito pequena dimenso, caracterstica que confere edio portuguesa um dinamismo especfico de criao, morte e reanimaode editoras. Um outro trao prende-se com o facto de, excepo, talvez,do espao do antigo bloco socialista, a no dependncia genrica dos editoresde uma subsidiao pblica expor a sua produo volubilidade do mercadoe dos gostos e opes dos leitores, de grande imprevisibilidade. No casoportugus h mesmo casas avultando o exemplo das Publicaes Europa--Amrica que articulam a expresso reiterada de independncia financeiradas ajudas do Estado com uma declarao de inequvoca insubmisso est-tica e ideolgica aos intentos do regime. Decorre deste segundo atributo aconstituio rebarbativa de um discurso de crise que se eterniza at suaestruturalizao. O terceiro pressuposto traduz-se na prevalncia da dimen-so artesanal sobre uma organizao empresarial moderna, sendo a paisagemeditorial portuguesa nas dcadas analisadas povoada por empresas nas quais

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    Nuno Medeiros

    a personalizao da gesto, a baixa segmentao e a reduzida especializaointerna constituem aspectos nucleares. A aura em que frequentemente seinscreve o trabalho do editor, se bem que no corresponda ao exacto perfilda idade dourada do espao anglo-saxnico dos anos 20 e 30, nem ao doscapites da indstria franceses de Oitocentos, permanece como consequn-cia da ligao sistmica dos trs traos assinalados, definindo-se, ainda nocomeo dos anos 70, a pertena ao mundo editorial como uma pertena aum clube de cavalheiros formado de maneira maioritria, mas no exclu-siva, por agentes com interesses predominantemente culturais.

    Neste contexto, produz-se e reproduz-se uma classe ciosa do seu papelna construo intelectual do pas e disposta a prticas de autonomiacompaginveis com esse posicionamento representacional. O reconhecimen-to da sua dimenso prescritiva e mediadora no estabelecimento de umaordem particular do livro (Chartier, 1997; Medeiros, 2006) acaba por acar-retar um comportamento particular relativamente a fontes de poder interpre-tadas frequentemente como anticulturais. Da a tendncia hegemnica paraa adopo, por parte dos editores portugueses, de uma relao dedistanciamento ou de frieza com o regime, quando no de oposio militante,constituindo este um dado fundamental para se compreender a edio emPortugal no perodo do Estado Novo. Mais ou menos estruturado ideologi-camente, o posicionamento de grande parte das instncias editoriais parecetraduzir uma espcie de conscincia de misso adstrita ao ofcio de editar,o que, em conjuno com a relativa exiguidade e estabilidade de um universoeditorial acanhado e familiar, contribuiu para desenvolver a imagem do editorcomo algum cuja aco se pautava por um princpio de apostolado,