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Fasciculo eja

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Text of Fasciculo eja

  • Coletnea de textosEDUCAO DE JOVENS E ADULTOS

  • Coletnea de textosEDUCAO DE JOVENS E ADULTOS

    Governo do estado do Maranho

    secretaria de estado da cincia, tecnoloGia, ensino superior e desenvolviMento tecnolGico

    universidade estadual do Maranho - ueMa

    ncleo de tecnoloGias para educao - ueManet

    helosa cardoso varo santos orGanizadora

    so lus2009

  • Santos, Heloisa Cardoso Varo.Coletnea de textos educao de jovens e

    adultos / Heloisa Cardoso Varo Santos (Org.). - So Lus: UemaNet, 2009.

    139 p.: il.

    1. Educao de jovens e adultos. I. Ttulo.

    CDU: 374.3/7

    Copyright UemaNet

    universidade estadual do MaranhoNcleo de Tecnologias para Educao - UemaNetCampus Universitrio Paulo VI - So Lus - MAFone-fax: (98) 3257-1195http://www.uemanet.uema.br e-mail: [email protected]

    Proibido a reproduo desta publicao, no todo ou em parte, sem a prvia autorizao desta instituio.

    Edio: universidade estadual do Maranho - ueMancleo de tecnoloGias para educao - ueManet

    Coordenadora do Curso de Pedagogia, a distncia: heloisa cardoso varo santos

    Coordenadora da Produo de Material Didtico UemaNet:caMila Maria silva nasciMento

    Responsvel pela Produo de Material Didtico UemaNet:cristiane costa peixoto

    Professora Organizadora:heloisa cardoso varo santos

    Reviso:liliane Moreira liMalucirene Ferreira lopes

    Diagramao: JosiMar de Jesus costa alMeidaluis Macartney sereJo dos santostonho leMos Martins

    Projeto Grfico e Capa: aManda siMes

    Reitor da UEMaproF. Jos auGusto silva oliveira

    Vice-reitor da UEMaproF. Gustavo pereira da costa

    Pr-reitor de administraoproF. Jos Bello salGado neto

    Pr-reitor de PlanejamentoproF. Jos GoMes pereira

    Pr-reitor de GraduaoproF. porFrio candanedo Guerra

    Pr-reitor de Pesquisa e Ps-graduaoproF. Walter canales santana

    Pr-reitora de Extenso e assuntos EstudantisproF. Grete soares pFlueGer

    Chefe de gabinete da ReitoriaproF. raiMundo de oliveira rocha Filho

    Coordenador do UemaNetproF. antonio roBerto coelho serra

    Coordenadores de Polo UemaNet:

    Polo Carolina:Maria aGlair coelho Ferreira dias

    Polo Caxias:Franc-lane sousa carvalho do nasciMento

    Polo Imperatriz:Brunides Queiroz Moreira

    Polo So Lus:Maria de FtiMa neres da silvaMarlene loBato Martins

    Polo Bacabal:Wanilde da salete silva viana

    Polo Balsas:vanessa nunes da silva

    Polo Santa Ins:Mariclia de leMos cruz

    Polo Timon:Fernando Malheiros nunes

  • SUMRIO

    APRESENTAO

    UNIDADE 1

    RETROSPECTIVA HISTRICA SOBRE A EDUCAO DE JOVENS EADULTOS NO BRASIL ....................................................... 15

    Srgio Haddad

    Maria Clara Di Pierro

    UNIDADE 2

    SUJEITO DOS PROGRAMAS DO EJA ...................................... 45

    MEC / Secretaria de Educao Continuada, alfabetizao e Diversidade

    UNIDADE 3

    FUNDAMENTOS METODOLGICOS DE EDUCAO DE JOVENS EADULTOS .................................................................... 63

    Sonia Couto Souza Feitosa

    UNIDADE 4

    PROPOSTA CURRICULAR DE EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS - I SEGMENTO .................................................................. 81

    Vera Maria Masago Ribeiro

  • UNIDADE 5

    PLANEJAMENTO E AVALIAO .......................................... 115

    Maria do Socorro Martins Calhau

    Helosa Cardoso Varo Santos

    REFERNCIAS ........................................................... 131

  • PLANO DE ENSINO

    DISCIPLINA:FUNDAMENTOS E METODOLOGIA DA EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS

    Carga horria: 60 h

    EMENTA:A histria da Educao de Jovens e Adultos no Brasil. Formao de jovens e adultos e qualificao para o trabalho. A relao educao e trabalho como fundamento para educao de jovens e adultos. Alfabetizao de jovens e adultos na perspectiva do letramento. Proposta curricular da educao de jovens e adultos: metodologias da linguagem matemtica, estudos da natureza e sociedade. Pla-nejamento e avaliao.

    OBJETIVOS:

    refletir sobre os avanos e retrocessos da Educao de Jovens e Adultos na histria da educao brasileira, analisando o pa-pel do Estado em relao ao direito educao;

    analisar a legislao pertinente educao de jovens e adul-tos, estabelecendo comparao entre o escrito e a realidade dos cursos de Eja no contexto Maranhense;

    compreender os fundamentos metodolgicos que devem nortear as prticas docentes desenvolvidas nas salas de Edu-cao de Jovens e Adultos, preservando os princpios freire-anos.

  • CONTEDO PROGRAMTICO

    A disciplina Fundamentos e Mtodos de Educao de Jovens e Adultos tem a carga horria de 60 horas, e envolver a participao nos encontros presenciais, nos fruns, a realizao de pesquisas de campo e bibliogrfica, leitura e estudo de textos, leituras complementares, anotaes e realizao de seminrios. A disciplina contm as seguintes unidades didticas:

    Unidade 1RetRospectiva histRica sobRe a educao de jovens e adultos no bRasil

    Unidade 2sujeitos dos pRogRamas de eja

    Unidade 3Fundamentos metodolgicos de educao de jovens e adultos

    Unidade 4pRoposta cuRRiculaR de educao de jovens e adultos i segmento

    METODOLOGIA E AVALIAO

    O contedo da disciplina est estruturado em cinco Unidades Didticas e contm textos de autores reconhecidos na rea e tambm apresenta informaes oficiais do MEC/SECAD, sendo complementado com atividades elaboradas proporcionando aos alunos(as) uma reflexo sobre a EJA no Brasil, no Estado e no Municpio.

    Os referidos contedos sero complementados por livros, sites e indi-cao de filmes que serviro de suporte para a compreenso da tem-tica abordada.

    A disciplina ter apoio de um tutor presencial e tambm de um tutor a distncia mediante comunicao on-line plataforma Moodle do Ue-maNet ou correio eletrnico. Contar ainda com o Call Center para manter a articulao com o professor conteudista.

    Cada unidade traz atividades para avaliao do seu desempenho que obrigatoriamente devem ser apresentadas nos encontros presenciais para a anlise do tutor local.

    As atividades complementares como Seminrio, pesquisa de campo e visitas tcnicas s salas de EJA e Secretarias de Educao sero avaliadas pelo Tutor local.

  • No decorrer da disciplina voc participar de discusses em fruns com vistas a ampliar os conhecimentos de forma colaborativa.

    A avaliao final ser realizada de forma presencial atravs da apli-cao de instrumento de avaliao escrita com questes discursivas.

  • CONES

    Orientao para estudo

    Ao longo desta coletnea de textos, voc encontrar alguns cones utilizados para facilitar a comunicao com voc.

    Saiba, o que cada um significa.

    DICA DE SITE

    SUGESTO DE LEITURA

    REFERNCIA BIBLIOGRFICA

    ATIVIDADES

    PENSE

    SUGESTO DE FILMES

    SAIBA MAIS

  • Face a uma poltica global que visa a universalizao da educao

    bsica, v-se a Educao de Jovens e Adultos como uma modalidade

    de ensino que, segundo o Art. 37, da Lei 9394/96, ser destina-

    da queles que no tiveram acesso ou continuidade de estudos no

    ensino fundamental e mdio na idade prpria. Cabendo, portanto,

    a oferta de oportunidades educacionais apropriadas s caracters-

    ticas do alunado, seus interesses, condies de vida e de trabalho.

    Para contribuir com a sua formao de educador, apresentamos esta

    coletnea de textos que focalizam a Histria da Educao de Jovens

    e Adultos no Brasil, as caractersticas dos sujeitos envolvidos nos

    Programas de EJA, os pressupostos pedaggicos que marcaram a

    experincia de Paulo Freire, os Procedimentos metodolgicos das

    reas de conhecimentos previstos na Proposta Curricular de EJA,

    aprovada pelo MEC, e as orientaes didticas para planejamento

    e avaliao das prticas escolares.

    Esperamos que voc, caro aluno(a) do Curso de Pedagogia a dis-

    tncia, ao se deter no estudo sobre Educao de Jovens e Adultos,

    estabelea vnculos com as prticas pedaggicas desenvolvidas

    nos diferentes contextos do campo e da cidade e conhea as ex-

    perincias desenvolvidas pelas instituies governamentais e no

    governamentais.

    APRESENTAO

  • PSICOLOGIA, CINCIA E RELIGIO

    1UNIDADE

    OBJETIVO DESTA UNIDADE:

    Refletir sobre a EJA no contexto das polticas pblicas brasileiras percebendo as lacunas deixadas pelo Estado e a dvida social com este segmento da populao brasileira;

    Fazer um breve relato sobre a histria da educao de jovens e adultos em sua trajetria.

    RETROSPECTIVA HISTRICA SOBRE A EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 17

    RETROSPECTIVA HISTRICA SOBRE A EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL

    V amos ler com ateno uma afirmao feita por Machado de Assis em 1879 e uma notcia veiculada na Folha de So Paulo no dia 09/06/2003 a respeito do analfabetismo e vamos analisar os condicionamentos presentes que levam a

    sociedade e os gestores a aceitarem tal situao de excluso.

    Srgio Haddad - PUC So PauloMaria Clara Di Pierro - ONG ao Educativa

    A nao no sabe ler. H s 30% dos indivduos resi-dentes neste pas que podem ler. Destes, uns 9% no leem letra de mo; 70% dos cidados votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o qu; votam como vo festa da Penha por divertimen-to. Constituio para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Esto prontos para tudo: uma revoluo ou um Golpe de Estado [...] As instituies existem, mas por e para 30% dos cidados. Proponho uma reforma no estilo poltico.

    (Machado de Assis, 1879)

  • PEDAGOGIA18

    Mapa mostra o tamanho do analfabetismo no pas no sculo 21 (LUCIANA CONSTANTINO. Folha de S. Paulo, em Braslia - 09/06/2003)

    Os dados compem o Mapa do Analfabetismo no Brasil, divulgado em 09/06/2003.

    Para ter uma ideia do tamanho do problema, o estudo aponta que so 30 milhes de jovens e adultos com 15 anos ou mais que no concluram nem sequer quatro sries de estudo, os chamados analfabetos funcionais. Esse nmero inclui os 16 milhes que no so capazes de ler e escrever um bilhete simples. Frequentar a escola tambm no suficiente para garantir o aprendizado: 7,4% dos adolescentes de 10 a 19 anos no sabem ler e escrever. Esses jovens ou ainda esto na escola ou por ela j passaram, o que mostra que nosso sistema educacional continua a produzir analfabetos, avalia o estudo do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) feito com nmeros do rgo e do IBGE.

    Tambm falso imaginar que analfabetismo e baixa escolaridade acontecem apenas em regies consideradas atrasadas. Na lista dos cem primeiros municpios com a maior concentrao de analfabetos esto 24 capitais. So Paulo e Rio de Janeiro - com 383 mil e 199 mil analfabetos, respectivamente - so as cidades com maior nmero absoluto.

    O quadro do analfabetismo j foi pior. Em 1991, 19,7% das pessoas com 15 anos ou mais no sabiam ler e es-crever. Caiu para 13,6% em 2000 e para 12,4% em 2001.

    O estudo mostra a evaso escolar e seus efeitos neg-ativos: 35% dos analfabetos j frequentaram uma es-cola. E abandonaram, entre outros motivos, por causa da baixa qualidade do ensino ou pela necessidade de trabalhar.

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 19

    Para compreendermos os condicionamentos sociais e polticos

    que perpassam pela histria da Educao de Jovens e Adultos

    selecionamos um artigo escrito por Sergio Hadad da PUC So

    Paulo e Maria Clara Di Pierro da Ao Educativa.

    ESCOLARIZAO DE JOVENS E ADULTOS

    No passado como no presente a educao de jovens e adultos

    sempre compreendeu um conjunto muito diverso de processos e

    prticas formais e informais relacionadas aquisio ou ampliao

    de conhecimentos bsicos, de competncias tcnicas e profissionais

    ou de habilidades socioculturais.

    Muitos desses processos se desenvolvem de modo mais ou menos

    sistemtico fora de ambientes escolares, realizando-se na famlia,

    nos locais de trabalho, nos espaos de convvio sociocultural e

    lazer, nas instituies religiosas e, nos dias atuais, tambm com

    o concurso dos meios de informao e comunicao a distncia.

    Qualquer tentativa de historiar um universo to plural de prticas

    formativas implicaria srio risco de fracasso, pois a educao de

    jovens e adultos compreendida nessa acepo ampla, estende-se

    por quase todos os domnios da vida social.

    O texto que segue aborda alguns dos processos sistemticos e

    organizados de formao geral de pessoas. Abrange, portanto, o vasto

    mbito das prticas de qualificao profissional, de teleducao, com

    a diversidade de experincias de formao sociocultural e poltica

    das pessoas jovens e adultas que se realizam fora de processos de

    escolarizao e que, na pesquisa educacional brasileira, vm sendo

    abordadas pelos estudos de educao popular. O artigo tambm no

    tem a pretenso de compreender todos os nveis e modalidades

    de ensino, privilegiando a educao bsica realizada por meios

    presenciais e, no seu interior, as etapas iniciais da escolarizao.

    O texto oferece uma rpida viso panormica do tema ao longo dos

    cinco sculos da histria posteriores chegada dos portugueses s

    terras brasileiras, mas detm o olhar sobretudo na segunda metade

  • PEDAGOGIA20

    do sculo XX, em que o pensamento pedaggico e as polticas pbli-

    cas de educao escolar de jovens e adultos adquiriram a identidade

    e feies prprias, a partir das quais possvel e necessrio pensar

    seu desenvolvimento futuro.

    COLNIA E IMPRIO

    A ao educativa junto a adolescentes e adultos no Brasil no

    nova. Sabe-se que j no perodo colonial os religiosos exerciam

    sua ao educativa missionria em grande parte com adultos.

    Alm de difundir o evangelho, tais educadores transmitiam

    normas de comportamento e ensinavam os ofcios necessrios ao

    funcionamento da economia colonial, inicialmente aos indgenas e,

    posteriormente, aos escravos negros. Mais tarde, se encarregaram

    das escolas de humanidades para os colonizadores e seus filhos.

    Com a desorganizao do sistema de ensino produzido pela expulso

    dos jesutas do Brasil em 1759, somente no Imprio voltaremos

    a encontrar informaes sobre aes educativas no campo da

    educao de adultos.

    No campo dos direitos legais, a primeira Constituio brasileira,

    de 1824, firmou, sob forte influncia europia, a garantia de uma

    instruo primria e gratuita para todos os cidados, portanto,

    tambm para os adultos. Pouco ou quase nada foi realizado neste

    sentido durante todo o perodo imperial, mas essa inspirao

    iluminista tornou-se semente e enraizou-se definitivamente na

    cultura jurdica, manifestando-se nas Constituies brasileiras

    posteriores.

    O direito que nasceu com a norma constitucional de 1824,

    estendendo a garantia de uma escolarizao bsica para todos,

    no passou da inteno legal. A implantao de uma escola de

    qualidade para todos avanou lentamente ao longo da nossa histria.

    verdade, tambm, que tem sido interpretada como direito apenas

    para as crianas.

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 21

    Essa distncia entre o proclamado e o realizado foi agravada por

    outros fatores. Em primeiro lugar, porque no perodo do Imprio s

    possua cidadania uma pequena parcela da populao pertencente

    elite econmica qual se admitia administrar a educao primria

    como direito, do qual ficavam excludos negros, indgenas e grande

    parte das mulheres.

    Em segundo, porque o ato adicional de 1834, ao delegar a

    responsabilidade por essa educao bsica s Provncias, reservou

    ao governo imperial os direitos sobre a educao das elites,

    praticamente delegando instncia administrativa com menores

    recursos o papel de educar a maioria mais carente.

    O pouco que foi realizado deveu-se aos esforos de algumas

    Provncias, tanto no ensino de jovens e adultos como na educao

    das crianas e adolescentes. Neste ltimo caso, chegaramos em

    1890 com o sistema de ensino atendendo apenas 250 mil crianas,

    em uma populao total estimada em 14 milhes. Ao final do

    Imprio, 82% da populao com idade superior a cinco anos era

    analfabeta.

    Desta forma, as preocupaes liberais expressas na legislao

    desse perodo acabaram por no se consubstanciar, condicionadas

    que estavam pela estrutura social vigente. Nas palavras de Celso

    Beisiegel:

    [...] no Brasil, na colnia e mesmo depois, nas primeiras fases do Imprio a posse da proprieda-de que determina as limitaes de aplicao das doutrinas liberais: e so os interesses radicados na propriedade dos meios de produo colonial [...] que estabelecem os contedos especficos dessas doutrinas no pas. O que h realmente peculiar no liberalismo no Brasil,durante este perodo, e nestas circunstncias, mesmo a estreiteza das faixas de populao brangidas nos benefcios con-substanciados nas formulaes universais em que os interesses dominantes se exprimem (BEISIEGEL, 1974, p.43).

    Desde o Brasil Colnia, quando se falava em

    educao, fazia-se referncias populao adulta que necessitava

    ser doutrinada e iniciada nas cousas da nossa f.

  • PEDAGOGIA22

    PRIMEIRA REPBLICA

    A Constituio de 1891, primeiro marco legal da Repblica brasileira,

    consagrou uma concepo de federalismo em que a responsabilidade

    pblica pelo ensino bsico foi descentralizada nas Provncias e

    Municpios. Unio reservou-se o papel de animador dessas

    atividades, assumindo uma presena maior no ensino secundrio

    e superior. Mais uma vez garantiu-se a formao das elites em

    detrimento de uma educao para as amplas camadas sociais

    marginalizadas, quando novamente as decises relativas oferta

    de ensino elementar ficaram dependentes da fragilidade financeira

    das Provncias e dos interesses das oligarquias regionais que as

    controlavam politicamente.

    A nova Constituio republicana estabeleceu tambm a excluso dos

    adultos analfabetos da participao pelo voto, isto em um momento

    em que a maioria da populao adulta era iletrada.

    Apesar do descompromisso da Unio em relao ao ensino elementar,

    o perodo da Primeira Repblica se caracterizou pela grande

    quantidade de reformas educacionais que, de alguma maneira,

    procuraram um princpio de normatizao e preocuparam-se com

    o estado precrio do ensino bsico.

    Porm, tais preocupaes pouco efeito prtico produziram, uma

    vez que no havia dotao oramentria que pudesse garantir que

    as propostas legais resultassem numa ao eficaz. O censo de 1920,

    realizado 30 anos aps o estabelecimento da Repblica no pas,

    indicou que 72% da populao acima de cinco anos permanecia

    analfabeta.

    At esse perodo, a preocupao com a educao de jovens e adul-

    tos praticamente no se distinguia como fonte de um pensamento

    pedaggico ou de polticas educacionais especficas. Isso s viria

    a ocorrer em meados da dcada de 1940. Havia uma preocupao

    geral com a educao das camadas populares, normalmente inter-

    pretada como instruo elementar das crianas.

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 23

    No entanto, j a partir da dcada de 1920, o movimento de

    educadores e da populao em prol da ampliao do nmero de

    escolas e da melhoria de sua qualidade comeou a estabelecer

    condies favorveis implementao de polticas pblicas para

    a educao de jovens e adultos. Os renovadores da educao

    passaram a exigir que o Estado se responsabilizasse definitivamente

    pela oferta desses servios. Alm do mais, os precrios ndices de

    escolarizao que nosso pas mantinha, quando comparados aos de

    outros pases da Amrica Latina ou do resto no mundo, comeavam

    a fazer da educao escolar uma preocupao permanente da

    populao e das autoridades brasileiras.

    Essa inflexo no pensamento poltico-pedaggico ao final da Primeira

    Repblica est associada aos processos de mudana social inerentes

    ao incio da industrializao e acelerao da urbanizao no Brasil.

    Nossas elites, que j haviam se adiantado no estabelecimento

    constitucional do direito educao para todos sem propiciar as

    condies necessrias para sua realizao , viam agora esse direito

    unido a um dever que cada brasileiro deveria assumir perante a

    sociedade.

    [...] ao direito de educao que j se afirmara nas leis do Brasil, com as garantias do ensino primrio gratuito para todos os cidados, vir agora associar-se, da mesma forma como ocorrera em outros pa-ses, a noo de um dever do futuro cidado para com a sociedade, um dever educacional de preparar- se para o exerccio das responsabilidades da cidadania (BEISIEGEL, 1974, p.63).

    PERODO DE VARGAS

    A Revoluo de 1930 um marco na reformulao do papel do Estado

    no Brasil. Ao contrrio do federalismo que prevalecera at aquele

    momento, reforando os interesses das oligarquias regionais, agora

    era a Nao como um todo que estava sendo reafirmada.

    Preste ateno na educao de jovens e

    adultos enquanto direito e analise a realidade objetiva e responda:

    Havia escola para todos neste perodo de 1891 a

    1930?

  • PEDAGOGIA24

    A inclinao ao fortalecimento e mudana de papel do Estado

    central manifesta-se de maneira inequvoca na Constituio de

    1934. A, j se configurava uma nova concepo que, superando

    a ideia de um Estado de Direito, entendido apenas como o Estado

    destinado salvaguarda das garantias individuais e dos direitos

    subjetivos, para pensar-se no Estado aberto para a problemtica

    econmica, de um lado, e para a problemtica educacional e

    cultural, de outro (FERRAz et al., 1984, p.651).

    Nos aspectos educacionais, a nova Constituio props um Plano

    Nacional de Educao, fixado, coordenado e fiscalizado pelo governo

    federal, determinando de maneira clara as esferas de competncia

    da Unio, dos estados e municpios em matria educacional:

    vinculou constitucionalmente uma receita para a manuteno e o

    desenvolvimento do ensino; reafirmou o direito de todos e o dever

    do Estado para com a educao; estabeleceu uma srie de medidas

    que vieram confirmar este movimento de entregar e cobrar do setor

    pblico a responsabilidade pela manuteno e pelo desenvolvimento

    da educao. Foi somente ao final da dcada de 1940 que a educao

    de adultos veio a se firmar como um problema de poltica nacional,

    mas as condies para que isso viesse a ocorrer foram sendo

    instaladas j no perodo anterior. O Plano Nacional de Educao,

    de responsabilidade da Unio, previsto pela Constituio de 1934,

    deveria incluir entre suas normas o ensino primrio integral gratuito

    e de frequncia obrigatria. Esse ensino deveria ser extensivo aos

    adultos. Pela primeira vez a educao de jovens e adultos era

    reconhecida e recebia um tratamento particular.

    Com a criao em 1938 do INEP Instituto Nacional de Estudos

    Pedaggicos e atravs de seus estudos e pesquisas, instituiu-se

    em 1942 o Fundo Nacional do Ensino Primrio. Atravs dos seus

    recursos, o fundo deveria realizar um programa progressivo de

    ampliao da educao primria que inclusse o Ensino Supletivo

    para adolescentes e adultos.

    Em 1945 o fundo foi regulamentado, estabelecendo que 25% dos

    recursos de cada auxlio deveriam ser aplicados num plano geral de

    Ensino Supletivo destinado a adolescentes e adultos analfabetos.

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 25

    Ao mesmo tempo, fatos transcorridos no mbito das relaes in-

    ternacionais ampliaram as dimenses desse movimento em prol de

    uma educao de jovens e adultos. Criada em novembro de 1945,

    logo aps a 2a Guerra Mundial, a UNESCO denunciava ao mundo as

    profundas desigualdades entre os pases e alertava para o papel

    que deveria desempenhar a educao, em especial a educao de

    adultos, no processo de desenvolvimento das naes categorizadas

    como atrasadas.

    Em 1947, foi instalado o Servio de Educao de Adultos (SEA)

    como servio especial do Departamento Nacional de Educao

    do Ministrio da Educao e Sade, que tinha por finalidade a

    reorientao e coordenao geral dos trabalhos dos planos anuais

    do ensino supletivo para adolescentes e adultos analfabetos. Uma

    srie de atividades foi desenvolvida a partir da criao desse

    rgo, integrando os servios j existentes na rea, produzindo e

    distribuindo material didtico, mobilizando a opinio pblica, bem

    como os governos estaduais e municipais e a iniciativa particular.

    O movimento em favor da educao de adultos, que nasceu em 1947

    com a coordenao do Servio de Educao de Adultos e se estendeu

    at fins da dcada de 1950, denominou-se Campanha de Educao

    de Adolescentes e Adultos CEAA. Sua influncia foi significativa,

    principalmente por criar uma infraestrutura nos estados e munic-

    pios para atender educao de jovens e adultos, posteriormente

    preservada pelas administraes locais.

    Duas outras campanhas ainda foram organizadas pelo Ministrio da

    Educao e Cultura: uma em 1952 a Campanha Nacional de Educa-

    o Rural , e outra, em 1958 a Campanha Nacional de Erradicao

    do Analfabetismo. Ambas tiveram vida curta e pouco realizaram.

    O Estado brasileiro, a partir de 1940, aumentou suas atribuies e

    responsabilidades em relao educao de adolescentes e adultos.

    Aps uma atuao fragmentria, localizada e ineficaz durante todo

    o perodo colonial, Imprio e Primeira Repblica, ganhou corpo uma

    poltica nacional, com verbas vinculadas e atuao estratgica em

    todo o territrio nacional.

  • PEDAGOGIA26

    Tal ao do Estado pode ser entendida no quadro de expanso

    dos direitos sociais de cidadania, em resposta presena de

    amplas massas populares que se urbanizavam e pressionavam por

    mais e melhores condies de vida. Os direitos sociais, presentes

    anteriormente nas propostas liberais, concretizavam-se agora em

    polticas pblicas, at como estratgia de incorporao dessas

    massas urbanas em mecanismos de sustentao poltica dos governos

    nacionais.

    A extenso das oportunidades educacionais por parte do Estado a

    um conjunto cada vez maior da populao servia como mecanismo

    de acomodao de tenses que cresciam entre as classes sociais

    nos meios urbanos nacionais. Atendia tambm ao fim de prover

    qualificaes mnimas fora de trabalho para o bom desempenho

    aos projetos nacionais de desenvolvimento propostos pelo governo

    federal. Agora, mais do que as caractersticas de desenvolvimento

    das potencialidades individuais, e, portanto, como ao de

    promoo individual, a educao de adultos passava a ser condio

    necessria para que o Brasil se realizasse como nao desenvolvida.

    Estas duas faces do sentido poltico da educao ganham evidncia

    com o fortalecimento do Estado nacional brasileiro edificado a

    partir de 1930.

    Os esforos empreendidos durante as dcadas de 1940 e 1950 fize-

    ram cair os ndices de analfabetismo das pessoas acima de cinco

    anos de idade para 46,7% no ano de 1960. Os nveis de escolarizao

    da populao brasileira permaneciam, no entanto, em patamares

    reduzidos quando comparadas mdia dos pases do primeiro mundo

    e mesmo de vrios dos vizinhos latino-americanos.

    DE 59 A 64 - UM PERODO DE LUZES PARA A EDUCAO DE ADULTOS

    Os primeiros anos da dcada de 1960, at 1964, quando o golpe

    militar ocorreu, constituram um momento bastante especial no

    campo da educao de jovens e adultos.

    Analise as influncias significativas dos movimentos voltados para atender a educao de jovens e adultos no perodo de Vargas e sua repercusso nas mudanas atuais.

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 27

    J em 1958, quando da realizao do II Congresso Nacional de

    Educao de Adultos no Rio de Janeiro, ainda no contexto da CEAA,

    percebia-se uma grande preocupao dos educadores em redefinir as

    caractersticas especficas e um espao prprio para essa modalidade

    de ensino. Reconhecia-se que a atuao dos educadores de adultos,

    apesar de organizada como subsistema prprio, reproduzia, de

    fato, as mesmas aes e caractersticas da educao infantil.

    At ento, o adulto no escolarizado era percebido como um ser

    imaturo e ignorante, que deveria ser atualizado com os mesmos

    contedos formais da escola primria, percepo esta que reforava

    o preconceito contra o analfabeto (Paiva, 1973, p. 209). Na verdade,

    o Congresso repercutia uma nova forma do pensar pedaggico com

    adultos. J no Seminrio Regional preparatrio ao Congresso realizado

    no Recife, e com a presena do professor Paulo Freire, discutia-se:

    [...] a indispensabilidade da conscincia do pro-cesso de desenvolvimento por parte do povo e da emerso deste povo na vida pblica nacional como interferente em todo o trabalho de elaborao, participao e deciso responsveis em todos os momentos da vida pblica; sugeriam os pernambu-canos a reviso dos transplantes que agiram sobre o nosso sistema educativo, a organizao de cursos que correspondessem realidade existencial dos alunos, o desenvolvimento de um trabalho educativo com o homem e no para o homem, a criao de grupos de estudo e de ao dentro do esprito de autogoverno, o desenvolvimento de uma mentalida-de nova no educador, que deveria passar a sentir-se participante no trabalho de soerguimento do pas; propunham, finalmente, a renovao dos mtodos e processos educativos, substituindo o discurso pela discusso e utilizando as modernas tcnicas de educao de grupos com a ajuda de recursos audiovisuais (PAIVA, 1973, p. 210).

    Estes temas acabaram por prevalecer posteriormente no II Con-

    gresso, marcando um novo momento no pensar dos educadores,

    confrontando velhas ideias e preconceitos:

    [...] marcava o Congresso o incio de um novo per-odo na educao de adultos no Brasil, aquele que se caracterizou pela intensa busca de maior eficincia metodolgica e por inovaes importantes neste ter-reno, pela reintroduo da reflexo sobre o social no pensamento pedaggico brasileiro e pelos esforos realizados pelos mais diversos grupos em favor da educao da populao adulta para a participao na vida poltica da Nao (PAIVA, 1973, p. 210).

  • PEDAGOGIA28

    Esse quadro de renovao pedaggica deve ser considerado dentro

    das condies gerais de turbulncia do processo poltico daquele

    momento histrico. Diversos grupos buscavam junto s camadas

    populares formas de sustentao poltica para suas propostas. A

    educao, sem dvida alguma, e de maneira privilegiada, era a

    prtica social que melhor se oferecia a tais mecanismos, no s

    por sua face pedaggica, mas tambm, e principalmente, por suas

    caractersticas de prtica poltica.

    A economia brasileira crescia, internacionalizando-se. O processo

    de substituies das importaes realizado no perodo de

    Getlio manteve um fluxo de capitais internacionais concentrado

    no fortalecimento da indstria de base. Agora, o modelo

    desenvolvimentista do governo Kubistschek abriu o mercado nacional

    para produtos durveis das empresas transnacionais. A proposta

    desse governo de um desenvolvimento acelerado cinquenta

    anos em cinco acabou ocorrendo paralela crescente perda do

    controle da economia pela burguesia nacional.

    As contradies desse modelo se agravaram com os governos

    Jnio-Jango.

    A imposio de uma poltica desenvolvimentista, baseada no capital

    internacional, de racionalidade diferenciada daquela capaz de ser

    absorvida pela economia brasileira, acabou por trazer desequilbrios

    econmicos internos de difcil administrao. Intensificavam-se

    mobilizaes polticas dos setores mdios de parte das camadas

    populares. A questo da democracia, da participao poltica e a

    disputa pelos votos ocupavam boa parte do tempo social. O padro

    de consumo que havia sido forjado pelo desenvolvimentismo no

    podia realizar-se em virtude da crescente insegurana no emprego

    e da perda do poder aquisitivo dos salrios. Ampliaram-se o clima

    de insatisfao e as manifestaes populares.

    Foi dentro dessa conjuntura que os diversos trabalhos educacionais

    com adultos passaram a ganhar presena e importncia. Buscava-

    se, por meio deles, apoio poltico junto aos grupos populares.

    As diversas propostas ideolgicas, principalmente a do nacional-

    desenvolvimentismo, a do pensamento renovador cristo e a do

    Partido Comunista, acabaram por ser pano de fundo de uma nova

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 29

    forma de pensar a educao de adultos. Elevada agora condio

    de educao poltica, atravs da prtica educativa de refletir o

    social, a educao de adultos ia alm das preocupaes existentes

    com os aspectos pedaggicos do processo ensino-aprendizagem.

    Ao mesmo tempo, e de forma contraditria, no contexto da ao

    de legitimao de propostas polticas junto aos setores populares,

    criaram-se as condies para o desenvolvimento e o fortalecimento

    de alternativas autnomas e prprias desses setores ao provocar a

    necessidade permanente da explicitao dos seus interesses, bem

    como das condies favorveis sua organizao, mobilizao e

    conscientizao.

    dentro dessa perspectiva que devemos considerar os vrios

    acontecimentos, campanhas e programas no campo da educao

    de adultos, no perodo que vai de 1959 at 1964. Foram eles, entre

    outros: o Movimento de Educao de Base, da Conferncia Nacional

    dos Bispos do Brasil, estabelecido em 1961, com o patrocnio do

    governo federal; o Movimento de Cultura Popular do Recife, a

    partir de 1961; os Centros Populares de Cultura, rgos culturais da

    UNE; a Campanha De P no Cho Tambm se Aprende a Ler, da

    Secretaria Municipal de Educao de Natal; o movimento de Cultura

    Popular do Recife; e, finalmente, em 1964, o Programa Nacional de

    Alfabetizao do Ministrio da Educao e Cultura, que contou com

    a presena do professor Paulo Freire. Grande parte desses programas

    estava funcionando no mbito do Estado ou sob seu patrocnio.

    Apoiavam-se no movimento de democratizao de oportunidades de

    escolarizao bsica dos adultos, mas tambm representavam a luta

    poltica dos grupos que disputavam o aparelho do Estado em suas

    vrias instncias por legitimao de ideais via prtica educacional.

    Nesses anos, as caractersticas prprias da educao de adultos

    passaram a ser reconhecidas, conduzindo exigncia de um

    tratamento especfico nos planos pedaggico e didtico.

    medida que a tradicional relevncia do exerccio do direito de

    todo cidado de ter acesso aos conhecimentos universais uniu-

    se ao conscientizadora e organizativa de grupos e atores

    sociais, a educao de adultos passou a ser reconhecida tambm

    como um poderoso instrumento de ao poltica. Finalmente,

  • PEDAGOGIA30

    foi-lhe atribuda uma forte misso de resgate e valorizao do

    saber popular, tornando a educao de adultos o motor de um

    movimento amplo de valorizao da cultura popular.

    Faa uma leitura crtica sobre os avanos do movimento de

    democratizao de oportunidades de escolarizao bsica

    dos adultos e pesquise sobre a luta poltica dos grupos que

    disputavam o aparelho do Estado em suas vrias instncias

    por legitimao de ideais via prtica educacional.

    O PERODO MILITAR

    O golpe militar de 1964 produziu uma ruptura poltica em funo

    da qual os movimentos de educao e cultura populares foram

    reprimidos, seus dirigentes, perseguidos, seus ideais, censurados.

    O Programa Nacional de Alfabetizao foi interrompido e

    desmantelado, seus dirigentes, presos e os materiais apreendidos.

    A Secretaria Municipal de Educao de Natal foi ocupada, os

    trabalhos da Campanha De P no Cho foram interrompidos e

    suas principais lideranas foram presas. A atuao do Movimento

    de Educao de Base da CNBB foi sendo tolhida no s pelos

    rgos de represso, mas tambm pela prpria hierarquia

    catlica, transformando- se na dcada de 1970 muito mais em um

    instrumento de evangelizao do que propriamente de educao

    popular. As lideranas estudantis e os professores universitrios

    que estiveram presentes nas diversas prticas foram cassados nos

    seus direitos polticos ou tolhidos no exerccio de suas funes.

    A represso foi a resposta do Estado autoritrio atuao daque-

    les programas de educao de adultos cujas aes de natureza

    poltica contrariavam os interesses impostos pelo golpe militar. A

    ruptura poltica ocorrida com o movimento de 64 tentou acabar

    com as prticas educativas que auxiliavam na explicitao dos in-

    teresses populares. O Estado exercia sua funo de coero, com

    fins de garantir a normalizao das relaes sociais.

    1

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 31

    Sob a denominao de educao popular, entretanto, diversas

    prticas educativas de reconstituio e reafirmao dos interesses

    populares inspiradas pelo mesmo iderio das experincias

    anteriores persistiram sendo desenvolvidas de modo disperso e

    quase que clandestino no mbito da sociedade civil. Algumas delas

    tiveram previsvel vida curta; outras subsistiram durante o perodo

    autoritrio.

    No plano oficial, enquanto as aes repressivas ocorriam, alguns

    programas de carter conservador foram consentidos ou mesmo

    incentivados, como a Cruzada de Ao Bsica Crist (ABC). Nascido

    no Recife, o programa ganhou carter nacional, tentando ocupar

    os espaos deixados pelos movimentos de cultura popular. Dirigida

    por evanglicos norte-americanos, a Cruzada servia de maneira

    assistencialista aos interesses do regime militar, tornando-se

    praticamente um programa semioficial. A partir de 1968, porm,

    uma srie de crticas conduo da Cruzada foi se acumulando e

    ela foi progressivamente se extinguindo nos vrios estados entre

    os anos de 1970 e 1971.

    Na verdade, este setor da educao a escolarizao bsica de

    jovens e adultos no poderia ser abandonado por parte do aparelho

    do Estado, uma vez que tinha nele um dos canais mais importantes

    de mediao com a sociedade. Perante as comunidades nacional

    e internacional, seria difcil conciliar a manuteno dos baixos

    nveis de escolaridade da populao com a proposta de um grande

    pas, como os militares propunham-se construir.

    Havia ainda a necessidade de dar respostas a um direito de

    cidadania cada vez mais identificado como legtimo, mediante

    estratgias que atendessem tambm aos interesses hegemnicos

    do modelo socioeconmico implementado pelo regime militar.

    As respostas vieram com a fundao do MOBRAL Movimento

    Brasileiro de Alfabetizao , em 1967, e, posteriormente, com a

    implantao do Ensino Supletivo, em 1971, quando da promulgao

    da Lei Federal 5.692, que reformulou as diretrizes de ensino de

    primeiro e segundo graus.

    Pesquise sobre as es-tratgias usadas pelos

    militares como respostas a um direito de cidadania

    Educao para todos, cada vez mais identifica-

    do como legtimo.

  • PEDAGOGIA32

    O SENTIDO POLTICO DA EDUCAO DE ADULTOS NO PERODO MILITAR

    Em meados de 1972, a Secretaria-Geral do Ministrio da Educao e

    Cultura expediu o documento Adult Education in Brazil destinado

    III Conferncia Internacional de Educao de Adultos, convocada

    pela UNESCO para Tquio. Nele, traduzia o sentido da educao

    de adultos no contexto brasileiro, em especial depois da criao

    do MOBRAL e do Ensino Supletivo. Sua introduo afirmava ser

    recente a preocupao com a educao como elemento prioritrio

    dos projetos para o desenvolvimento e que havia tambm uma

    atitude nova no sentido de encar-la como rendoso investimento.

    Tais preocupaes, segundo o documento, haviam sido realadas

    pela presena dos militares no poder, a partir de 1964, e se refletiam

    atravs dos seus planos de desenvolvimento e dos Planos Setoriais

    de Educao. Os compromissos com a educao objetivavam a

    formao de uma infraestrutura adequada de recursos humanos,

    apropriada s nossas necessidades socioeconmicas, polticas e

    culturais. Para implementao de tais objetivos, o Estado brasileiro

    se propunha a criar e implementar um sistema de educao

    permanente, no qual a educao de adultos situava-se na linha de

    frente das operaes, por ser poderosa arma capaz de acelerar

    o desenvolvimento, o progresso social e a expanso ocupacional.

    Posteriormente, com o MOBRAL e o Ensino Supletivo, os militares

    buscaram reconstruir, atravs da educao, sua mediao com os

    setores populares.

    Por outro lado, as reformas educacionais propiciaram que os

    servios de educao de adultos fossem estendidos, ainda que

    apenas no plano formal, aos nveis do ensino fundamental e mdio.

    Ampliaram-se tambm as possibilidades de acesso formao

    profissional. Desta forma, a educao de adultos passou a compor

    o mito da sociedade democrtica brasileira em um regime de

    exceo. Esse mito foi traduzido em uma linguagem na qual a

    oferta dos servios educacionais para os jovens e adultos das

    camadas populares era a nova chance individual de ascenso social,

    Veja o discurso e os documentos legais dos governos militares que procuraram unir as perspectivas de demo-cratizao de oportuni-dades educacionais com a inteno de colocar o sistema educacional a servio do modelo de desenvolvimento.

    ao mesmo tempo, por meio da coero, procu-raram manter a ordem econmica e poltica.

    Reflita sobre as atitudes do governo autoritrio: de reprimir todos os mo-vimentos de cultura po-pular nascidos no perodo anterior ao de 64, uma vez que os processos edu-cativos por eles desenca-deados poderiam levar a manifestaes populares capazes de desestabilizar o regime.

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 33

    em uma poca de milagre econmico. O sistema educacional se

    encarregaria de corrigir as desigualdades produzidas pelo modo de

    produo. Desse modo o Estado cumpria sua funo de assegurar a

    coeso das classes sociais.

    A dimenso formal e os limites dessa democratizao de

    oportunidades ficavam explcitos na medida em que o Estado, ao

    no assumir a responsabilidade pela gratuidade e pela expanso

    da oferta, deixou a educao de jovens e adultos ao sabor dos

    interesses do ensino privado.

    O Ensino Supletivo concebido pelos documentos legais deveria

    estruturar-se em um Departamento no Ministrio da Educao

    e Cultura, o Departamento de Ensino Supletivo (DESu). Esse

    Departamento teria uma Direo-Geral com o objetivo de

    coordenar o desenvolvimento de todas as atividades de educao

    de adultos em nvel nacional, visando, sobretudo, sua expanso

    integrada com outras agncias.

    Apesar da inteno centralizadora no mbito federal, sempre existiram

    certa disperso e certo paralelismo entre os rgos responsveis

    pelo Ensino Supletivo. Como vimos, o MOBRAL gozou durante todo

    o perodo da sua existncia de grande autonomia. No campo da

    teleducao, faltou coordenao e houve conflitos entre diferentes

    rgos, conflitos estes que, por vezes, se estendiam a diferentes

    ministrios. Os programas federais decorrentes da criao do Ensino

    Supletivo ficaram a cargo do Departamento do Ensino Supletivo

    do MEC (DESU) de 1973 ano de sua criao at 1979, quando o

    rgo foi transformado em Subsecretaria de Ensino Supletivo (SESU)

    e subordinado Secretaria de Ensino de 1 e 2 Graus (SEPS). Os

    principais programas de mbito federal desenvolvidos nesse perodo,

    todos eles relativos modalidade de Suplncia, referiam-se ao

    aperfeioamento dos exames supletivos e difuso da metodologia

    de ensino personalizado com apoio de mdulos didticos realizada

    por meio da criao de Centros de Ensino Supletivo, ao lado de

    programas de ensino a distncia via rdio e televiso.

    Foi no mbito estadual que o ensino supletivo se firmou, reinando,

    no entanto, a diversidade na sua oferta. A Lei Federal props que o

  • PEDAGOGIA34

    Ensino Supletivo fosse regulamentado pelos respectivos Conselhos

    Estaduais de Educao. Isso criou uma grande variedade tanto

    de formas de organizao como de nomenclaturas nos diversos

    programas ofertados pelos estados. Em praticamente todas as

    unidades da Federao foram criados rgos especficos para

    o Ensino Supletivo dentro das Secretarias de Educao, cuja

    interveno privilegiada era no ensino de 1 e 2 graus, sendo

    raras as iniciativas no campo da alfabetizao de adultos.

    Na esfera municipal, ao contrrio, raramente foram criados rgos

    especficos responsveis pela suplncia, exceo feita s capitais

    dos estados mais populosos. Regra geral, a ao dos municpios

    no campo da Suplncia se resumiu aos convnios mantidos pelas

    prefeituras com o MOBRAL para o desenvolvimento de programas

    de alfabetizao. Em alguns casos raros encontramos prefeituras

    que assumiram programas prprios de educao de adultos e em

    alguns casos mais raros ainda encontramos aquelas que atendiam

    de 5 a 8 sries do 1 grau e do 2 grau.

    A EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS (EJA) E A REDEMOCRATIZAO DA SOCIEDADE BRASILEIRA APS 1985

    Os anos imediatamente posteriores retomada do governo nacional

    pelos civis em 1985 representaram um perodo de democratizao

    das relaes sociais e das instituies polticas brasileiras ao qual

    correspondeu um alargamento do campo dos direitos sociais.

    Foi um momento histrico em que antigos e novos movimentos

    sociais e atores da sociedade civil, que haviam emergido e se

    desenvolvido ao final dos anos 70, ocuparam espaos crescentes

    na cena pblica, adquiriram organicidade e constitucionalidade,

    renovando as estruturas sindicais e associativas preexistentes,

    ou criando novas formas de organizao, modalidades de ao e

    meios de expresso.

    Nesse perodo, a ao da sociedade civil organizada direcionou as

    demandas educacionais e foi capaz de legitimar publicamente as

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 35

    instituies polticas da democracia representativa, em especial os

    partidos, o parlamento e as normas jurdico-legais. Esse processo

    resultou na promulgao da Constituio Federal de 1988 e seus

    desdobramentos nas constituies dos estados e nas leis orgnicas

    dos municpios, instrumentos jurdicos nos quais materializou-se o

    reconhecimento social dos direitos das pessoas jovens e adultas

    educao fundamental, com a consequente responsabilizao do

    Estado por sua oferta pblica, gratuita e universal. A histria da

    educao de jovens e adultos do perodo da redemocratizao,

    entretanto, marcada pela contradio entre a afirmao no

    plano jurdico do direito formal da populao jovem e adulta

    educao bsica, de um lado, e sua negao pelas polticas

    pblicas concretas, de outro.

    A NOVA REPBLICA

    O primeiro governo civil ps-64 marcou simbolicamente a ruptura

    com a poltica de educao de jovens e adultos do perodo

    militar com a extino do MOBRAL, cuja imagem pblica ficara

    profundamente identificada com a ideologia e as prticas do

    regime autoritrio. Estigmatizado como modelo de educao

    domesticadora e de baixa qualidade, o MOBRAL j no encontrava

    no contexto inaugural da Nova Repblica condies polticas de

    acionar com eficcia os mecanismos de preservao institucional

    que utilizara no perodo precedente, motivo pelo qual foi

    substitudo ainda em 1985 pela Fundao Nacional para Educao

    de Jovens e Adultos Educar.

    Apesar de ter herdado do MOBRAL funcionrios, estruturas

    burocrticas, concepes e prticas poltico-pedaggicas, a

    Fundao Educar incorporou muitas das inovaes sugeridas pela

    Comisso que em princpios de 1986 formulou suas diretrizes

    poltico-pedaggicas. O paralelismo anteriormente existente

    foi rompido por meio da subordinao da Fundao Educar

    Secretaria de Ensino de 1 e 2 Graus do MEC. A Educar assumiu

  • PEDAGOGIA36

    a responsabilidade de articular, em conjunto, o subsistema de

    ensino supletivo, a poltica nacional de educao de jovens e

    adultos, cabendo-lhe fomentar o atendimento nas sries iniciais

    do ensino de 1 grau, promover a formao e o aperfeioamento

    dos educadores, produzir material didtico, supervisionar e avaliar

    as atividades.

    A diretriz de descentralizao fez com que a Fundao assumisse

    o papel de rgo de fomento e apoio tcnico, privilegiando a

    modalidade de ao indireta em apoio aos municpios, estados e

    organizaes da sociedade civil.

    O objetivo era induzir que as atividades diretas da Fundao fossem

    progressivamente absorvidas pelos sistemas de ensino supletivo

    estaduais e municipais.

    Assim, as Comisses Municipais do MOBRAL foram dissolvidas e as

    prefeituras municipais, herdeiras das suas atividades de ensino,

    passaram a constituir os principais parceiros conveniados Funda-

    o, ao lado de empresas e organizaes civis de natureza varia-

    da. A Educar manteve uma estrutura nacional de pesquisa e pro-

    duo de materiais didticos, bem como coordenaes estaduais,

    responsveis pela gesto dos convnios e assistncia tcnica aos

    parceiros, que passaram a deter maior autonomia para definir seus

    projetos poltico-pedaggicos.

    Se em muitos sentidos a Fundao Educar representou a

    continuidade do MOBRAL, devem-se computar como mudanas

    significativas a sua subordinao estrutura do MEC e a

    transformao em rgo de fomento e apoio tcnico, em

    vez de instituio de execuo direta. Houve uma relativa

    descentralizao das suas atividades e a Fundao apoiou

    tcnica e financeiramente algumas iniciativas inovadoras de

    educao bsica de jovens e adultos conduzidas por prefeituras

    municipais ou instituies da sociedade civil.

    Esse processo de revitalizao do pensamento e das prticas de

    educao de jovens e adultos refletiu-se na Assemblia Nacional

    Constituinte.

    Veja os fatos que comprovam o processo de redemocratizao poltica do pas:

    - a reorganizao partid-ria;

    - a promoo de eleies diretas nos nveis sub-nacionais de governo;

    - a liberdade de expresso e organizao dos movi-mentos sociais urbanos e rurais;

    - a inovao pedaggica na educao de jovens e adultos.

    as prticas pedaggicas informadas pelo iderio da educao popular, que at ento eram desenvolvidas quase que clandestinamen-te por organizaes civis ou pastorais populares das igrejas, retomaram visibilidade nos ambientes universitrios e passaram a influenciar tambm pro-gramas pblicos e comuni-trios de alfabetizao e escolarizao de jovens e adultos.

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 37

    Nenhum feito no terreno institucional foi mais importante para

    a educao de jovens e adultos nesse perodo que a conquista

    do direito universal ao ensino fundamental pblico e gratuito,

    independentemente de idade, consagrado no Artigo 208 da

    Constituio de 1988. Alm dessa garantia constitucional, as

    disposies transitrias da Carta Magna estabeleceram um prazo

    de dez anos durante os quais os governos e a sociedade civil

    deveriam concentrar esforos para a erradicao do analfabetismo

    e a universalizao do ensino fundamental, objetivos aos quais

    deveriam ser dedicados 50% dos recursos vinculados educao

    dos trs nveis de governo.

    A vigncia desses mecanismos, somada descentralizao

    das receitas tributrias em favor dos estados e municpios e

    vinculao constitucional de recursos para o desenvolvimento e

    a manuteno do ensino, constituiu a base para que, nos anos

    subsequentes, pudesse vir a ocorrer uma significativa expanso

    e melhoria do atendimento pblico na escolarizao de jovens e

    adultos. O fato de a Organizao das Naes Unidas haver declarado

    1990 como o Ano Internacional da Alfabetizao e convocado para

    essa data a Conferncia Mundial de Educao para Todos reforava

    essa expectativa que, entretanto, acabou no se confirmando.

    A extino da Educar surpreendeu os rgos pblicos, as entidades

    civis e outras instituies conveniadas, que a partir daquele

    momento tiveram que arcar sozinhas com a responsabilidade

    pelas atividades educativas anteriormente mantidas por convnios

    com a Fundao. A medida representa um marco no processo de

    descentralizao da escolarizao bsica de jovens e adultos, pois

    embora no tenha sido negociada entre as esferas de governo,

    representou a transferncia direta de responsabilidade pblica

    dos programas de alfabetizao e ps-alfabetizao de jovens e

    adultos da Unio para os municpios.

    Nos dois anos que antecederam o impeachment do presidente Collor,

    seu governo prometeu colocar em movimento um Programa Nacional

    de Alfabetizao e Cidadania (PNAC) que, salvo algumas aes

    isoladas, no transps a fronteira das intenes. Tendo mobilizado

    representaes da sociedade civil e instncias subnacionais de

  • PEDAGOGIA38

    governo em sua elaborao, o PNAC prometia, dentre outras medidas, substituir a atuao da extinta Fundao Educar por meio da transferncia de recursos federais para que instituies pblicas, privadas e comunitrias promovessem a alfabetizao e a elevao dos nveis de escolaridade dos jovens e adultos. Desacreditado como o governo que o props, o PNAC foi abandonado no mandato tampo exercido do vice presidente Itamar Franco.

    Em 1993 o governo federal desencadeou mais um processo de consulta participativa com vistas formulao de outro plano de poltica educacional, cuja existncia era requisito para que o Brasil (na condio de um dos nove pases que mais contribuem para o elevado nmero de analfabetos no planeta) pudesse ter acesso prioritrio a crditos internacionais vinculados aos compromissos assumidos na Conferncia Mundial de Educao para Todos. Concludo em 1994, s vsperas do final daquele governo, o Plano Decenal fixou metas de prover oportunidades de acesso e progresso no ensino fundamental a 3,7 milhes de analfabetos e

    4,6 milhes de jovens e adultos pouco escolarizados.

    Pesquise na Lei 9.394/96 a seo dedicada Educao

    de Jovens e Adultos ressaltando o que reafirmado em

    termos dos direitos sociais e o que diferente do Ensino

    Fundamental regular.

    1

    Eleito para a Presidncia da Repblica em 1994 e reeleito em 1998, o governo de Fernando Henrique Cardoso colocou de lado o Plano Decenal e priorizou a implementao de uma reforma poltico-institucional da educao pblica que compreendeu diversas medidas, dentre as quais a aprovao de uma emenda constitucional, quase que simultaneamente promulgao da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDB).

    A Constituio e a Lei de Diretrizes e Bases preveem que o Executivo federal elabore e submeta ao Congresso planos plurianuais de educao. Mais especficas, as Disposies Transitrias da nova LDB determinaram que a Unio encaminhasse ao Congresso um Plano Nacional de Educao de durao decenal, consoante Declarao

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 39

    Mundial de Educao Para Todos. Esse foi o impulso para que, em meados de 1997, o MEC desse incio a um processo de consultas que resultou em um Projeto de Plano Nacional de Educao (PNE) apresentado em fevereiro de 1998 Cmara dos Deputados.

    Em fins de 1999 o relator da matria emitiu um parecer que adere ao paradigma da educao continuada ao largo da vida, entendida como direito de cidadania, motor de desenvolvimento econmico e social e instrumento de combate pobreza.

    Desde esse ponto de vista, os desafios relativos educao de jovens e adultos seriam trs: resgatar a dvida social representada pelo analfabetismo, erradicando-o; treinar o imenso contingente de jovens e adultos para a insero no mercado de trabalho; criar oportunidades de educao permanente.

    Ao formular os objetivos, entretanto, foram mantidas as metas quantitativas restritas alfabetizao e s quatro sries iniciais do ensino fundamental. Aprovado nas comisses do Congresso, o Plano Nacional de Educao, at maio de 2000, ainda aguardava

    votao em plenrio.

    www.dpe.ufv.br/nead/docs/ejaBrasil.doc

    www.app.com.br/portalapp/uploads/opiniao/EJA.ppt

    www.tvebrasil.com.br/ SaLTO/boletins2005/emt/tetxt4.htm

    1 - Histrico da EJA no Brasil: descontinuidades e polticas pbli-

    cas insuficientes - TV ESCOLA. O primeiro programa da srie tem

    como proposta proporcionar uma reflexo sobre polticas de di-

    reito educao, a partir de breve histrico da EJA no Brasil ...

    www.tvebrasil.com.br/SaLTO/boletins2006/pro/060918_proeja.doc

    2 - HADDAD, Srgio. Educao de Jovens e Adultos no Brasil (1986-

    1998) (Coordenador) (ANPED) Braslia-DFMEC/Inep/Comped 2002.

    3 - ROMO, Jos Eustquio (org.). Educao de Jovens e adultos:

    teoria, prtica e proposta 2 ed. So Paulo: Cortez: Instituto Paulo

    Freire, 2000.

  • PEDAGOGIA40

    Agora, faa uma retrospectiva histrica sobre a Educao de

    Jovens e Adultos no Brasil nos diferentes perodos histricos,

    a fim de destacar os avanos e os recuos, alm de analisar a

    conjuntura scioeconmica e poltica que refletiram-se nas

    medidas governamentais e na organizao dos movimentos

    sociais.

    1

    HISTRIA DE EJA CONTADA EM CORDEL

    Cordel de Carmen Lcia Lira de Andrade

    Seu professor professoraA quem foi dada a funoDe ensinar com vontadeAo povo desta NaoA vencer o analfabetismoCom muita garra e herosmoPeo-lhes sua ateno

    Embora o nosso BrasilTenha seus quinhentos anosS nos mil e novecentosComeou a traar planos

    Com o fim do Estado NovoDe educar o nosso povo -Mas s nos espaos urbanos

    Por trs havia o interessePor bases eleitoraisQue ficassem nas cidadesOs imigrantes ruraisE escondiam decertoQuantos eram analfabetosFalseando os numerais

    Foi quando em cinquenta e oitoO Governo FederalLanou a sua campanhaDe amplitude nacionalPro povo aprender a lerE ainda poder entenderSua excluso social

    Pois s a partir daO jovem ou adulto educadoPoderia construirO futuro to almejadoSendo assim a educaoInstrumento de formaoDo cidado respeitado

    Assim surgiram as campanhasPara alfabetizaoDizendo que jovens e adultosTinham direito educaoForam muitas as campanhasNenhuma delas deu certoDa a sua extino

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 41

    Por muita iniciativa educacionalA dcada de sessenta foi marcadaTanto pelo Governo FederalComo pela sociedade organizadaForam criados os CPCsO MEB, P no cho e MCPsEm cada Estado do BrasilTinha assentada uma empreitada

    Realizado no Rio de JaneiroO Congresso Nacional de EducaoProcurou definir com mais rigorPedagogia e a diferenciaoEntre a prtica de ensino utilizadaNa educao dirigida crianadaE a proposta para o adulto cidado

    Paulo Freire, o grande educadorDefendia a ao educativaQue desse o indispensvel valorPra conscincia crtica ativaPassando de objeto a sujeitoHumanizao, liberdade e direitoSeriam a maior expectativa.

    Seu Plano Nacional de EducaoFoi cortado pelo golpe militarConsiderado ato de subversoQue os militares no podiam tolerarA educao que Paulo Freire pretendiaEste novo Governo j proibiaEm nome da ordem preservar

    S o MEB pde ento permanecerPor ser ligado Igreja, CNBBMas sua metodologia foi mudadaFoi o preo pago pra tentar sobreviverBoa parte dos tcnicos demitidaE a sua didtica distorcidaLogo, logo tambm ficou merc

    Cruzada de Ao Bsica CristCriada em sessenta e seisAlm de alfabetizarDava alimento, por vezMas tambm foi derrubada,Sua imagem muito abalada,Altos custos, todo ms

    Na dcada de setentaApareceu o MobralPra melhorar a imagemEconmica nacionalMas com a legitimaoVinha a neutralizaoDo conflito social

    Mobral depois transformou-seNa Fundao EducarMas a pesquisa mostrouO que se tentava ocultarAlfabetizao imagem de sucessoRealidade gente demais, em excessoExcluda do banco escolar.

    Em outubro de oitenta e oitoA Constituio FederalAssegurou para todosO Ensino FundamentalCabendo ao Estado proverA escola e condiespra que a Lei ficasse legal

    No governo ErundinaPaulo Freire, do Mova foi criadorTrazendo alfabetizaoPara o trabalhador.Atendidos muitos milEspalhou-se pelo BrasilO pensamento renovador

  • PEDAGOGIA42

    O Mova j demonstravaQue era fundamentalUnir pblico e privadoNuma esfera no-estatalPoltica e administrativaCom a sociedade ativa,Contra a excluso social

    No d mesmo pra entenderA Educar em extinoEnquanto a Unesco celebraO Ano da AlfabetizaoO Governo enganando o nosso povoAssinando um documento novoA Declarao Mundial da Educao

    Pois logo em noventa e umO MEC formalizouNo ter mais a inteno(O prprio Governo informou)De adultos educarVai s criana ensinarO tempo do adulto, passou

    Passou o governo ItamarPassou o FHCE s em noventa e seteA EJA voltou a serUm Programa por inteiroNorte e Nordeste primeiroPara a regio crescer

    Dois anos depois partiaTambm pros centros urbanosA proposta criticadaPor estabelecer bravos planosEm seis meses ensinarO adulto alfabetizarMilagre por trs dos panos!

    Mas nem o Fundef registraAlunos do supletivo.O MEC acabou criandoUm crdito meio ilusivoPro professor se formarE material comprarEis seu empenho exclusivo

    Lula acendeu a esperanaDa justia socialVoltando a assumir com a EJACompromisso naturalAgora vamos saberO que vai acontecer Educao Nacional

    o desejo de todosQue esta breve leituraChegue a todos vocsCom clareza e bem maduraE que a todos com igualdadeTraga mais dignidadeCom uma nova assinatura

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 1 43

    ALMEIDA, T.W., (coord.). Programa de alfabetizao funcional na regio nordeste: subsdios para avaliao. Rio de Janeiro: MEC/MOBRAL, 1976.

    AMORIM, J.R. O adulto analfabeto e a necessidade de alfabetizao, 1978.

    BELO HORIzONTE. s.ed., 27 p. (relatrio de pesquisa) Escolarizao de jovens e adultos Revista Brasileira de Educao 129.

    AVELAR, R.F. A aquisio do cdigo escrito: o desempenho dos alunos do Programa de Alfabetizao Funcional do Mobral. Dissertao de Mestrado. Porto Alegre: PUC-RS, 1981. 245 p.

    BANDEIRA, M.S.D., (s.d.). reas de resistncia ao programa de alfabetizao funcional. Mobral/Sepes, 179 p. (relatrio de pesquisa).

    BARRETO, Elba S. de S. Ensino Supletivo em So Paulo: entre ricas experincias e pobres resultados. So Paulo: FCC, 148 p, 1986.

    BEISIGGEL, C. de R. Estado e educao popular: em estudo sobre educao de adultos. So Paulo; Pioneira, 1974. 189 p.

    BRASIL______. Plano Nacional de Educao . D ispon-vel em: . Acesso em: 10 maio 2002. ______. Lei de Diretrizes e Base da Educao n 5692 de 11.08.71, captulo IV. Ensino.

  • UNIDADE

    SUJEITOS DOS PROGRAMAS DE EJA

    OBJETIVO DESTA UNIDADE:

    Identificar as caractersticas do Jovem e Adulto de EJA percebendo o compromisso do educador com a formao cidad e a transformao da realidade.

    2UNIDADE

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 2 47

    SUJEITOS DOS PROGRAMAS DE EJAMEC / Secretaria de Educao Continuada, alfabetizao e Diversidade.

    A o analisar o perfil dos alunos que frequentam as salas de alfabetizao ou de Ensino Fundamental primeiro segmento - com certeza percebemos as caractersticas inerentes aos jovens, adultos e idosos que no tiveram

    oportunidade de estudar na idade prevista pelo sistema

    educacional, devido aos diversos condicionamentos sociais e

    econmicos que impossibilitaram o acesso e permanncia com

    sucesso na escola. A populao desescolarizada e iletrada, ou seja,

    o pblico a que se dirige aos programas de Educao de Jovens

    e Adultos, apresenta um perfil bastante homogneo. Geralmente

    so pessoas pobres, que vivem nas zonas rurais ou nas periferias

    das grandes cidades, com pouco acesso aos servios pblicos de

    qualidade e que exercem trabalhos de baixa qualificao.

    Diante destas caractersticas vemos que so sujeitos sociais

    e culturais, marginalizados nas esferas socioeconmicas e

    educacionais, privados do acesso cultura letrada e aos bens

    culturais e sociais, comprometendo uma participao mais ativa

    no mundo do trabalho, da poltica e da cultura.

  • PEDAGOGIA48

    Sabemos que so pessoas que vivem no mundo urbano, industriali-

    zado, burocratizado e escolarizado, em geral trabalhando em ocu-

    paes no qualificadas. Trazem a marca da excluso social, mas

    so sujeitos do tempo presente e do tempo futuro, formados pelas

    memrias que os constituem enquanto seres temporais.

    So excludos do sistema de ensino, e apresentam em geral um

    tempo maior de escolaridade devido a repetncias acumuladas e

    interrupes na vida escolar ou mesmo aqueles que nunca foram

    escola ou dela tiveram que se afastar, quando crianas, em

    funo da entrada precoce no mercado de trabalho, ou mesmo por

    falta de escolas. Quando retornam escola o fazem guiados pelo

    desejo de melhorar de vida ou por exigncias ligadas ao mundo do

    trabalho.

    Todos so sujeitos de direitos, trabalhadores que participam

    concretamente da garantia de sobrevivncia do grupo familiar ao

    qual pertencem.

    Na verdade, corresponde a um grupo heterogneo, nos seus in-

    teresses, identidades, suas preocupaes, necessidades, expec-

    tativas em relao escola, suas habilidades, enfim, suas vivn-

    cias, mas tem em comum os traos de pobreza, marginalidade,

    alm da vasta experincia laboral, da a importncia de ao se

    construir uma proposta pedaggica, considerar todas as suas

    especificidades.

    Visite uma sala de aula e procure ouvir os alunos e identificar

    a idade, os interesses, as experincias e as expectativas em

    relao ao curso, e monte um documentrios sobre Histrias

    de vida dos alunos de EJA do municpio.

    1

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 2 49

    Para complementar o estudo sobre os Sujeitos da Educao de

    Jovens e Adultos vamos ler as orientaes do MEC/SECAD aos

    professores de EJA e em seguida produzir um texto trazendo

    recomendaes aos educadores em relao a postura docente nos

    programas de EJA.

    OS ALUNOS E AS ALUNAS DA EJA

    A viso de mundo de uma pessoa que retorna aos estudos depois de

    adulta, aps um tempo afastada da escola, ou mesmo daquela que

    inicia sua trajetria escolar nessa fase da vida, bastante peculiar.

    Protagonistas de histrias reais e ricos em experincias vividas, os

    alunos jovens e adultos configuram tipos humanos diversos. So

    homens e mulheres que chegam escola com crenas e valores j

    constitudos.

    Nas cidades, as escolas para jovens e adultos recebem alunos e

    alunas com traos de vida, origens, idades, vivncias profissionais,

    histricos escolares, ritmos de aprendizagem e estruturas de

    pensamento completamente variados.

    A cada realidade corresponde um tipo de aluno e no poderia

    ser de outra forma, so pessoas que vivem no mundo adulto do

    trabalho, com responsabilidades sociais e familiares, com valores

    ticos e morais formados a partir da experincia, do ambiente e

    da realidade cultural em que esto inseridos.

    Durante muito tempo, a psicologia esteve centrada nos processos

    de desenvolvimento de crianas e adolescentes, pois compreendia

    que o desenvolvimento terminava com o fim da adolescncia e

    que esta etapa representava o auge do desenvolvimento humano.

    Entendia-se que na idade adulta as pessoas se estabilizavam e na

    velhice se deterioravam.

    Estudos recentes contrariam esta concepo porque indicam que o

    desenvolvimento psicolgico um processo que dura toda a vida e

    que a idade adulta rica em transformaes. Os adultos possuem

    mais experincia que os adolescentes e podem ter acumulado uma

  • PEDAGOGIA50

    maior quantidade de conhecimentos. Talvez sejam menos rpidos,

    mas podem oferecer uma viso mais ampla, julgar melhor os prs

    e os contras de uma situao e ter boa dose de criatividade.

    Ao escolherem o caminho da escola os jovens e adultos optam por

    uma via propcia para promover o seu desenvolvimento pessoal.

    Os alunos e alunas de EJA trazem consigo uma viso de mundo

    influenciada por seus traos culturais de origem e por sua vivncia

    social, familiar e profissional. Podemos dizer que eles trazem uma

    noo de mundo mais relacionada ao ver e ao fazer, uma viso de

    mundo apoiada numa adeso espontnea e imediata s coisas que v.

    Ao escolher o caminho da escola, a interrogao passa a acompanhar

    o ver desse aluno, deixando-o preparado para olhar. Aberto

    aprendizagem, eles vm para a sala de aula com um olhar que , por

    um lado, um olhar receptivo, sensvel, e, por outro, um olhar ativo:

    olhar curioso, explorador, olhar que investiga, olhar que pensa.

    OS CONHECIMENTOS J ADQUIRIDOS

    Os conhecimentos de uma pessoa, que procura tardiamente a

    escola, so inmeros e adquiridos ao longo de sua histria de

    vida. Enfatizaremos, nesta publicao, duas espcies destes

    conhecimentos, originados das experincias de vida dos alunos e

    alunas: o saber sensvel e o saber cotidiano.

    O saber sensvel diz respeito quele saber do corpo, originado na

    relao primeira com o mundo e fundado na percepo das coisas

    e do outro.

    Caracterizado pela Filosofia como um saber pr-reflexivo, nos leva

    ideia de que existe um conhecimento essencial, acessvel a toda

    a humanidade: uma verdade mais antiga que todas as verdades

    conquistadas pela cincia, anterior a todas as construes

    realizadas pela cultura humana.

    O saber sensvel um saber sustentado pelos cinco sentidos,

    um saber que todos ns possumos, mas que valorizamos pouco

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 2 51

    na vida moderna. aquele saber que pouco estimulado numa

    sala de aula e que muitos professores e professoras atribuem sua

    explorao apenas s aulas de artes.

    No entanto, qualquer processo educativo, tanto com crianas

    quanto com jovens e adultos, deve ter suas bases nesse saber

    sensvel, porque somente atravs dele que o(a) aluno(a) abre-se

    a um conhecimento mais formal, mais reflexivo.

    Os alunos jovens e adultos, pela sua experincia de vida, so plenos

    deste saber sensvel. A grande maioria deles especialmente

    receptiva s situaes de aprendizagem: manifestam encantamento

    com os procedimentos, com os saberes novos e com as vivncias

    proporcionadas pela escola. Essa atitude de maravilhamento

    com o conhecimento extremamente positiva e precisa ser

    cultivada e valorizada pelo(a) professor(a) porque representa a

    porta de entrada para exercitar o raciocnio lgico, a reflexo, a

    anlise, a abstrao e, assim construir um outro tipo de saber: o

    conhecimento cientfico.

    Olhar, escutar, tocar, cheirar e saborear so as aberturas para nosso

    mundo interior. Ler e declamar poesia, escutar msica, ilustrar

    textos com desenhos e colagens, jogar, dramatizar histrias,

    conversar sobre pinturas e fotografias so algumas atividades que

    favorecem o despertar desse saber sensvel.

    A segunda espcie de saber dos alunos jovens e adultos o saber

    cotidiano.

    Por sua prpria natureza, ele se configura como um saber reflexivo,

    pois um saber da vida vivida, saber amadurecido, fruto da

    experincia, nascido de valores e princpios ticos e morais j

    formados, anteriormente, fora da escola.

    O saber cotidiano possui uma concretude, origina-se da produo

    de solues que foram criadas pelos seres humanos para os

    inmeros desafios que enfrentam na vida e caracterizam-se

    como um saber aprendido e consolidado em modos de pensar

    originados do dia-a-dia. Esse saber, fundado no cotidiano, uma

    espcie de saber das ruas, frequentemente assentado no senso

    comum e diferente do elaborado conhecimento formal com que

  • PEDAGOGIA52

    a escola lida. tambm um conhecimento elaborado, mas no

    sistematizado. um saber pouco valorizado no mundo letrado,

    escolar e, frequentemente, pelo prprio aluno.

    O saber cotidiano no necessariamente um saber utilitrio, de-

    senvolvido para atender a uma necessidade imediata da pessoa.

    Pelo contrrio, pode tambm se configurar em uma espcie de

    conhecimento que requer um afastamento, uma transcendncia

    com relao ao seu objeto. Uma cozinheira, por exemplo, pode

    executar uma simples receita mas pode, tambm, recri-la, esta-

    belecendo hipteses a respeito de um novo ingrediente que pode-

    ria ser acrescentado para melhorar o sabor do prato em questo.M

    Os conhecimentos que os alunos e alunas trazem esto diretamen-

    te relacionados s suas prticas sociais. Essas prticas norteiam

    no somente os saberes do dia-a-dia, como tambm os saberes

    aprendidos na escola.

    A PROCURA PELA ESCOLA

    Sabemos que a procura de jovens e adultos pela escola no se d

    de forma simples. Ao contrrio, em muitos casos, trata-se de uma

    deciso que envolve as famlias, os patres, as condies de acesso

    e as distncias entre casa e escola, as possibilidades de custear os

    estudos e, muitas vezes, trata-se de um processo contnuo de idas

    e vindas, de ingressos e desistncias. Ir escola, para um jovem

    ou adulto , antes de tudo, um desafio, um projeto de vida.

    Alm disso, a escola que os alunos tm em seu imaginrio, aquela

    que conhecem porque j passaram por ela anos atrs ou porque

    acompanham o cotidiano de seus filhos, nem sempre aquela com

    que se deparam nos primeiros dias de aula. Nesses casos, esperam

    encontrar o modelo tradicional de escola, ou seja, um lugar onde

    predominam aulas expositivas, com pontos copiados da lousa,

    onde o(a) professor(a) o nico detentor do saber e transmite

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 2 53

    contedos que so recebidos passivamente pelo(a) aluno(a).

    Esperam muita lio de casa porque acreditam que a quantidade

    de treino leva a boa aprendizagem. Especialmente, os alunos mais

    velhos se mostram resistentes nova concepo de escola que

    os coloca como sujeitos do processo educativo, que espera deles

    prticas ativas de aprendizagem. Muitos, ao se depararem com

    uma aula na qual so convidados a pensar juntos, em grupo; a

    resolver desafios diferentes dos exerccios mais convencionais; a

    ler textos literrios; a aprender com a msica, a poesia, o jornal;

    a fazer matemtica com jogos e clculos diversos, construir

    projetos; estranham, resistem e acreditam no ser esse o caminho

    para aprender o que a escola ensina.

    AS DIFERENTES RAZES CULTURAIS

    Nos centros urbanos, um trao presente nas classes de educao de

    jovens e adultos o da diversidade de origens. Encontram-se, nos

    espaos da sala de aula, pessoas que migraram de suas cidades de

    origem em busca de melhores condies de vida, trabalho, moradia,

    estudos e de novas oportunidades. O movimento migratrio, que

    data de dcadas, teve seu auge nos anos de 1960 e 1970 e continua

    levando um sem-nmero de famlias ou pessoas a fincarem razes

    noutros espaos, a mergulharem em outras culturas.

    Especialmente nas metrpoles das regies sul e sudeste comum

    que uma sala de EJA componha um retrato do Brasil: os traos

    fsicos, modos de falar, agir e reagir, formas de lazer, preferncias

    culinrias ou musicais dos alunos nos remetem a todos os cantos

    do pas. Esse quadro revelador, inclusive, da enorme riqueza da

    cultura brasileira marcada pela diversidade, pela pluralidade.

    Noutras regies, comum encontrarmos alunos e alunas que

    saram do campo, de um espao rural, e dirigiram-se para a cidade

    para continuar os estudos ou para arrumar um trabalho fixo.

  • PEDAGOGIA54

    Se a origem de nossos alunos diversa, naturalmente, o acmulo

    e a bagagem cultural deles tambm so. Quando falamos em

    cultura estamos nos referindo ao conjunto de aes, elaboraes,

    construes, produes e manifestaes de um grupo de pessoas,

    que se d por meio e atravs de mltiplas linguagens e pode ser

    identificado na forma de falar, atuar, reagir, pensar e expressar

    de cada pessoa desse grupo. Especificamente no caso dos alunos

    e alunas jovens e adultos, referimo-nos a uma cultura popular

    do fazer, que se aprende fazendo e vendo fazer. Ela possui uma

    dimenso muito pragmtica, voltada para a ao, que gosta de

    se movimentar e fazer junto uma construo marcadamente

    compartilhada e coletiva. O conjunto cultural formado pelas

    pessoas que se encontram numa mesma srie, numa sala de aula,

    , ento, extremamente rico. A cultura marca a viso de mundo e

    a base onde a construo de conhecimentos vai se dar.

    AS MARCAS DA EXCLUSO: a condio socioeconmica

    Os homens, mulheres, jovens, adultos ou idosos que buscam a es-

    cola pertencem todos a uma mesma classe social: so pessoas com

    baixo poder aquisitivo, que consomem, de modo geral, apenas o

    bsico sua sobrevivncia: aluguel, gua, luz, alimentao, re-

    mdios para os filhos (quando os tm). O lazer fica por conta dos

    encontros com as famlias ou dos festejos e eventos das comuni-

    dades das quais participam, ligados, muitas vezes, s igrejas ou

    associaes. A televiso apontada como principal fonte de lazer

    e informao. Quase sempre seus pais tm ou tiveram uma esco-

    laridade inferior sua.

    A compreenso dessa realidade levou Paulo Freire, ainda nos anos

    de 1960, a reconhecer o analfabetismo como uma questo no s

    pedaggica, mas tambm social e poltica. a mesma sabedoria

    de Freire que nos mostra que educar a favor dos pobres educar

    para a transformao da sociedade geradora da pobreza.

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 2 55

    BAIXA AUTOESTIMA

    Uma caracterstica frequente do(a) aluno(a) sua baixa autoes-

    tima, muitas vezes reforada pelas situaes de fracasso escolar.

    A sua eventual passagem pela escola, muitas vezes, foi marcada

    pela excluso e/ou pelo insucesso escolar. Com um desempenho

    pedaggico anterior comprometido, esse aluno volta sala de aula

    revelando uma autoimagem fragilizada, expressando sentimentos

    de insegurana e de desvalorizao pessoal frente aos novos desa-

    fios que se impem.

    O fracasso escolar hoje objeto de estudos das reas da Educao

    e da Psicologia. Suas causas apontam para uma diversidade e

    complexidade de fatores, ligados ao psiquismo do aluno: forma

    como ele interage com o ambiente escolar, modo como estabelece

    relaes com o saber e com o aprender, seu relacionamento com

    os professores e com os colegas, suas relaes familiares, os

    vnculos que constri com o conhecimento, etc.; estrutura da

    escola: as caractersticas, o modelo pedaggico adotado, o perfil

    dos professores, etc.; a uma dimenso social ampla: polticas

    pblicas de educao e a secular desigualdade econmica e social

    da sociedade brasileira.

    As representaes que o(a) aluno(a) faz da escola e de seu

    desempenho na cultura escolar so construdas no somente

    dentro da prpria escola, mas tambm no mbito da famlia e

    das relaes sociais, atravs de expectativas prprias e de

    expectativas de outros pais, colegas, amigos, professores que

    nele so depositadas. Muitas vezes, os alunos com dificuldades so

    preconceituosamente taxados pelos professores, pais e colegas de

    burros, lentos, preguiosos,deficientes. Estas palavras

    so corrosivas e imprimem cicatrizes profundas, causando efeitos

    devastadores na autoestima do sujeito.

    Sabemos que o sucesso escolar produz autoestima e um grande

    efeito de segurana no(a) aluno(a), enquanto o fracasso causa

    grandes estragos na relao consigo mesmo. As situaes de

  • PEDAGOGIA56

    fracasso escolar produzem marcas que afetam profundamente a

    identidade e ferem a autoimagem do(a) aluno(a) jovem e adulto.

    Nas salas de aula de EJA, estas marcas se evidenciam, de um lado,

    por atitudes de extrema timidez e, por outro, por atitudes de

    irreverncia e transgresso.

    Esses alunos e alunas demonstram vergonha em perguntar ou em

    responder perguntas, nervosismo exacerbado nas situaes de

    avaliao, ou ento se mostram agitados e indisciplinados. Muitos

    no conseguem nem olhar nos olhos do professor e da professora.

    O papel do(a) professor(a) de EJA determinante para evitar

    situaes de novo fracasso escolar. Um caminho seguro para

    diminuir esses sentimentos de insegurana valorizar os saberes

    que os alunos e alunas trazem para a sala de aula. O reconhecimento

    da existncia de uma sabedoria no sujeito, proveniente de sua

    experincia de vida, de sua bagagem cultural, de suas habilidades

    profissionais, certamente, contribui para que ele resgate uma

    autoimagem positiva, ampliando sua autoestima e fortalecendo

    sua autoconfiana.

    O bom acolhimento e a valorizao do aluno, pelo(a) professor(a)

    de jovens e adultos possibilitam a abertura de um canal de

    aprendizagem com maiores garantias de xito, porque parte

    dos conhecimentos prvios dos educandos para promover

    conhecimentos novos, porque fomenta o encontro dos saberes da

    vida vivida com os saberes escolares.

    A MARCA DO TRABALHO

    As alunas e alunos da EJA, em sua maioria, so trabalhadores e, muitas

    vezes, a experincia com o trabalho comeou em suas vidas muito

    cedo. Nas cidades, seus pais saam para trabalhar e muitos deles j

    eram responsveis, ainda crianas, pelo cuidado da casa e dos irmos

    mais novos. Outras vezes, acompanhavam seus pais ao trabalho,

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 2 57

    realizando pequenas tarefas para auxili-los. comum, ainda que

    nos centros urbanos estes alunos tenham realizado um sem-nmero

    de atividades cuja renda completava os ganhos da famlia: guardar

    carros, distribuir panfletos, auxiliar em servios na construo civil,

    fazer entregas, arrematar costuras, cuidar de crianas, etc.

    Nas regies rurais, a participao no mundo do trabalho comea

    ainda mais cedo: cuidar da terra, das plantaes ou da criao de

    animais; auxiliar nos servios caseiros. Muitas vezes, acompanhan-

    do os pais e irmos mais velhos, comum encontrar um grande

    nmero de crianas e jovens j mergulhados no trabalho. Nessas

    regies, os horrios, os perodos de colheita, de chuva e de seca

    marcam a vida cotidiana das pessoas e isto, aliado s grandes dis-

    tncias, configura condio bastante precria para a escolarizao.

    Se cada regio de nosso pas tem suas particularidades em relao

    s demais, todas as salas de EJA se unificam em torno deste fato:

    a grande maioria dos alunos so trabalhadores que chegam para as

    aulas aps um dia intenso de trabalho. claro que estas mesmas

    salas apresentam um nmero significativo de desempregados e de

    trabalhadores temporrios ou informais.

    Muitos alunos dizem estar na escola para poder arrumar um

    emprego, conseguir um trabalho melhor, crescer na profisso.

    Sabemos que nos centros urbanos e no mbito do trabalho formal a

    escolarizao bsica e, muitas vezes, a concluso do ensino mdio,

    so pr-requisitos para muitos empregos. Ao preencher uma ficha

    atestando a no escolaridade muitas pessoas so excludas de

    entrevistas ou da realizao de seleo.

    O mundo do trabalho se caracteriza hoje pela diversidade de

    atividades e vnculos. Nossos alunos das classes de EJA so muitas

    vezes pessoas que administram sua sobrevivncia econmica:

    fazem bicos, so autnomos, circulam por diferentes profisses

    como auxiliares ou ajudantes de pintura, construo, servios

    domsticos, venda ambulante, etc. Possuir um certificado escolar

    ou profissionalizante no implica em garantia de trabalho, haja

    vista a quantidade de profissionais que formados numa rea,

    atuam em outra.

  • PEDAGOGIA58

    Pode ser interessante pensar sobre as habilidades que a escola

    pode ajudar a desenvolver e que contribuam para uma atuao

    mais eficiente nesse universo diversificado e competitivo que o do

    trabalho. No queremos dizer com isto que a escola deva tomar para

    si a responsabilidade da preparao do trabalhador, nem deixar a

    responsabilidade da conquista de um emprego melhor nas mos

    do(a) aluno(a). Como j sabemos, esta uma responsabilidade

    social mais ampla e mais prxima das polticas governamentais e

    empresariais. O que queremos pensar justamente nas formas da

    escola potencializar essa competncia que os jovens e adultos j

    desenvolvem em sua vida cotidiana de administrar suas finanas e

    sua sobrevivncia.

    Comunicar-se de forma competente com clareza, ordenao de

    ideias, argumentao; conhecer as diferentes formas de trabalho da

    nossa sociedade nos dias atuais, o trabalho formal e o informal, por

    exemplo; dominar os caminhos possveis para a obteno de empre-

    gos, a procura por agncias, a preparao de currculos; ver na cons-

    truo de uma pequena fbrica, na abertura de um comrcio em

    sua regio um possvel canal de trabalho; conhecer, em sua regio

    ou comunidade, os espaos gratuitos de formao tcnica: cursos

    de eletricidade, pintura, computao, confeco e outros so sabe-

    res passveis de serem aprendidos na escola. Ela funcionaria, assim,

    como espao de conhecimentos ligados ao mundo do trabalho.

    O EDUCADOR DE JOVENS E ADULTOS

    Algumas das qualidades essenciais ao educador de jovens e adultos

    so a capacidade de solidarizar-se com os educandos, a disposio

    de encarar dificuldades como desafios estimulantes, a confiana na

    capacidade de todos de aprender e ensinar. Coerentemente com

    essa postura, fundamental que esse educador procure conhecer

    seus educandos, suas expectativas, sua cultura, as caractersticas

    e problemas de seu entorno prximo, suas necessidades de

    aprendizagem.

  • EDUCAO DE JOVENS E ADULTOS | UNIDADE 2 59

    E, para responder a essas necessidades, esse educador ter de

    buscar conhecer cada vez melhor os contedos a serem ensinados,

    atualizando-se constantemente. Como todo educador, dever

    tambm refletir permanentemente sobre sua prtica, buscando os

    meios de aperfeio-la.

    Com clareza e segurana quanto aos objetivos e contedos

    educativos que integram um projeto pedaggico, o professor

    deve estar em condies de definir, para cada caso especfico,

    as melhores estratgias para prestar uma ajuda eficaz aos

    alunos em seu processo de aprendizagem. O educador de jovens

    e