Harvey, david passagem da modernidade à pós modernidade-capítulo de condição pós-moderna

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Text of Harvey, david passagem da modernidade à pós modernidade-capítulo de condição pós-moderna

  • 1. 1 PASSAGEM DA MODERNIDADE PS-MODERNIDADE DAVID HARVEY In.: "Condio Ps-moderna" 3 Ps-modernismo Nas ltimas duas dcadas, "ps-modernismo" tornou-se um conceito com o qual lidar, e um talcampo de opinies e foras polticas conflitantes que j no pode ser ignorado. "A cultura da sociedadecapitalista avanada", anunciam os editores de PRECIS 6 (1987), "passou por uma profunda mudana naestrutura do sentimento." A maioria, acredito, concordaria com a declarao mais cautelosa de Huyssens(1984): O que aparece num nvel como o ltimo modismo, promoo publicitria e espetculo vazio parte de uma lenta transformao cultural emergente nas sociedades ocidentais, uma mudana de sensibilidade para a qual o termo "ps-moderno" na verdade, ao menos por agora, totalmente adequado. A natureza e a profundidade dessa transformao so discutveis, mas transformao ela . No quero ser entendido erroneamente como se afirmasse haver uma mudana global de paradigma nas ordens cultural, social e econmica; qualquer alegao dessa natureza seria um exagero. Mas, num importante setor da nossa cultura, h uma notvel mutao na sensibilidade, nas prticas e nas formaes discursivas que distingue um conjunto ps-moderno de pressupostos, experincias e proposies do de um perodo precedente. No tocante arquitetura, por exemplo, Charles Jencks data o final simblico do modernismo e apassagem para o ps-modernismo de 15h32m de 15 de julho de 1972, quando o projeto dedesenvolvimento da habitao Pruitt-Igoe, de St Louis (uma verso premiada da "maquina para a vidamoderna" de Le Corbusier), foi dinamitado como um ambiente inabitvel para as pessoas de baixa rendaque abrigava. Doravante, as idias do CIAM, de Le Corbusier e de outros apstolos do "alto modernismo"cederam cada vez mais espao irrupo de diversas possibilidades, dentre as quais as apresentadas peloinfluente Learning from Las Vegas, de Venturi, Scott Brown e Izenour (tambm publicado em 1972)mostraram ser apenas uma das fortes lminas cortantes. O centro dessa obra, como diz o seu ttulo, erainsistir que os arquitetos tinham mais a aprender com o estudo de paisagens populares e comerciais (comoas dos subrbios e locais de concentrao de comrcio) do que com a busca de ideais abstratos, tericos edoutrinrios. Era hora, diziam os autores, de construir para as pessoas, e no para o Homem. As torres devidro, os blocos de concreto e as lajes de ao que pareciam destinadas a dominar todas as paisagens
  • 2. 2urbanas de Paris a Tquio e do Rio a Montreal, denunciando todo ornamento ao crime, todoindividualismo como sentimentalismo e todo romantismo como kitsch, foram progressivamente sendosubstitudos por blocos-torre ornamentados, praas medievais e vilas de pesca de imitao, habitaesprojetadas para as necessidades dos habitantes, fbricas e armazns renovados e paisagens de toda espciereabilitadas, tudo em nome da defesa de um ambiente urbano mais "satisfatrio". Essa busca se tornou topopular que o prprio Prncipe Charles dela participou com vigorosas denncias sobre os erros doredesenvolvimento urbano de ps-guerra e da destruio promovida pelos desenvolvimentistas, que,segundo ele, tinham feito mais para destruir Londres do que os ataques da Luftwaffe na Segunda GuerraMundial. Nos crculos de planejamento, podemos identificar uma evoluo semelhante. O influente artigode Douglas Lee, "Requiem for large-scale planning models", apareceu num nmero de 1973 da Journalof the American Institute of Planners e previu corretamente a queda do que considerava os fteis esforosdos anos 60 para desenvolver modelos de planejamento de larga escala, abrangentes e integrados (muitosdeles especificados com todo o rigor que a criao de modelos matemticos computadorizados podiaento permitir) para regies metropolitanas. Pouco depois, o New York Times (13 de junho de 1976)descreveu como "dominantes" os planejadores radicais (inspirados por Jane Jacobs) que tinham feito umataque to violento aos pecados sem alma do planejamento urbano modernista nos anos 60. Hoje em dia, norma procurar estratgias "pluralistas" e "orgnicas" para a abordagem do desenvolvimento urbanocomo uma "colagem" de espaos e misturas altamente diferenciados, em vez de perseguir planosgrandiosos baseados no zoneamento funcional de atividades diferentes. A "cidade-colagem" agora otema, e a "revitalizao urbana" substituiu a vilificada "renovao urbana" como a palavra-chave dolxico dos planejadores. "No faa pequenos planos", escreveu Daniel Burnham na primeira onda daeuforia planejadora modernista no final do sculo XIX, ao que um ps-modernista como Algo Rossi podeagora responder, mais modestamente: "A que, ento, poderia eu ter aspirado em minha arte? Por certo apequenas coisas, tendo visto que a possibilidade das grandes estava historicamente superada". Podem-se documentar mudanas desse tipo em toda uma gama de campos distintos. O romanceps-moderno, alega McHale (1987), caracteriza-se pela passagem de um dominante "epistemolgico" aum "ontolgico". Com isso ele quer dizer uma passagem do tipo de perspectivismo que permitia aomodernista uma melhor apreenso do sentido de uma realidade complexa, mas mesmo assim singular nfase em questes sobre como realidades radicalmente diferentes podem coexistir, colidir e seinterpenetrar. Em conseqncia, a fronteira entre fico e fico cientfica sofreu uma real dissoluo,enquanto as personagens ps-modernas com freqncia parecem confusas acerca do mundo em que estoe de como deveriam agir com relao a ele. A prpria reduo do problema da perspectiva
  • 3. 3autobiografia, segundo uma personagem de Borges, entrar no labirinto: "Quem era eu? O eu de hojeestupefato; o de ontem, esquecido; o de amanh, imprevisvel?" Os pontos de interrogao dizem tudo. Na filosofia, a mescla de um pragmatismo americano revivido com a onda ps-marxista e ps-estruturalista que abalou Paris depois de 1968 produziu o que Bernstein (1985, 25) chama de "raiva dohumanismo e do legado do Iluminismo". Isso desembocou numa vigorosa denncia da razo abstrata enuma profunda averso a todo projeto que buscasse a emancipao humana universal pela mobilizaodas foras da tecnologia, da cincia e da razo. Aqui, tambm, ningum menos que o papa Joo Paulo IItomou o partido do ps-moderno. O Papa "no ataca o marxismo nem o secularismo liberal porque elesso a onda do futuro", diz Rocco Buttiglione, um telogo prximo do Papa, mas porque "como asfilosofias do sculo XX perderam seu atrativo, o seu tempo j passou". A crise moral do nosso tempo uma crise do pensamento iluminista. Porque, embora esse possa de fato ter permitido que o homem seemancipasse "da comunidade e da tradio da Idade Mdia em que sua liberdade individual estavasubmersa", sua afirmao do "eu sem Deus" no final negou a si mesmo, j que a razo, um meio, foideixada, na ausncia da verdade de Deus, sem nenhuma meta espiritual ou moral. Se a luxria e o poderso "os nicos valores que no precisam da luz da razo para ser descobertos", a razo tinha de se tornarum mero instrumento para subjugar os outros (Baltimore Sun, 9 de setembro de 1987). O projetoteolgico ps-moderno reafirmar a verdade de Deus sem abandonar os poderes da razo. Com figuras ilustres (e centristas) como o Prncipe de Gales e o papa Joo Paulo II recorrendo retrica e a argumentao ps-modernas, poucas dvidas pode haver quanto ao alcance da mudanaocorrida na "estrutura do sentimento" nos anos 80. Ainda assim, h bastante confuso quanto ao que anova "estrutura do sentimento" poderia envolver. Os sentimentos modernistas podem ter sido solapados,desconstrudos, superados ou ultrapassados, mas h pouca certeza quanto coerncia ou ao significadodos sistemas de pensamento que possam t-los substitudos. Essa incerteza torna peculiarmente difcilavaliar, interpretar e explicar a mudana que todos concordam ter ocorrido. O ps-modernismo, por exemplo, representa uma ruptura radical com o modernismo ou apenasuma revolta no interior deste ltimo contra certa forma de "alto modernismo" representada, digamos, naarquitetura de Mies van der Rohe e nas superfcies vazias da pintura expressionista abstrata minimalista?Ser o ps-modernismo um estilo [caso em que podemos razoavelmente apontar como seus precursores odadasmo, Nietzsche ou mesmo, como preferem Kroker e Cook (1986), as Confisses de SantoAgostinho, no sculo IV] ou devemos v-lo estritamente como um conceito periodizador (caso no qualdebatemos se ele surgiu nos anos 50, 60 ou 70)? Ter ele um potencial revolucionrio em virtude de suaoposio a todas as formas de metanarrativa (incluindo o marxismo, o freudismo e todas as modalidadesda razo iluminista) e da sua estreita ateno a "outros mundos" e "outras vozes" que h muito estavamsilenciados (mulheres, gays, negros, povos colonizados com sua histria prpria)? Ou no passa da
  • 4. 4comercializao e domesticao do modernismo e de uma reduo das aspiraes j prejudicadas deste aum ecletismo de mercado "vale tudo", marcado pelo laissez-faire? Portanto, ele solapa a polticaneoconservadora ou se integra a ela? E associamos a sua ascenso a alguma reestruturao radical docapital, emergncia de alguma sociedade de "ps-industrial" vendo-o at como a "arte de uma erainflacionria" ou como a "lgica cultu