Inocente - Trecho

  • View
    316

  • Download
    3

Embed Size (px)

Transcript

  • 1. Harlan Cobeno inocente

2. O Arqueiro Gerald o Jordo Pereira (1938-2008) comeou sua carreira aos 17 anos, quando foi trabalhar com seu pai, o clebre editor Jos Olympio, publicando obras marcantes como O menino do dedo verde, de Maurice Druon, e Minha vida, de Charles Chaplin. Em 1976, fundou a Editora Salamandra com o propsito de formar uma nova gerao de leitores e acabou criando um dos catlogos infantis mais premiados do Brasil. Em 1992, fugindo de sua linha editorial, lanou Muitas vidas, muitos mestres, de Brian Weiss, livro que deu origem Editora Sextante. F de histrias de suspense, Geraldo descobriu O Cdigo Da Vinci antes mesmo de ele ser lanado nos Estados Unidos. A aposta em fico, que no era o foco da Sextante, foi certeira: o ttulo se transformou em um dos maiores fenmenos editoriais de todos os tempos. Mas no foi s aos livros que se dedicou. Com seu desejo de ajudar o prximo, Geraldo desenvolveu diversos projetos sociais que se tornaram sua grande paixo. Com a misso de publicar histrias empolgantes, tornar os livros cada vez mais acessveis e despertar o amor pela leitura, a Editora Arqueiro uma homenagem a esta figura extraordinria, capaz de enxergar mais alm, mirar nas coisas verdadeiramente importantes e no perder o idealismo e a esperana diante dos desafios e contratempos da vida. 3. Em memria de Steven Z. Miller. Para todos ns que tivemos a sorte de ser seus amigos tentamos ser gratos pelo tempo que passamos juntos, mas muito difcil. E para a famlia dele, em especial Jesse, Maya T. e Nico quando estivermos mais fortalecidos, falaremos sobre o pai de vocs, porque ele foi o melhor ser humano que conhecemos. 4. Prlogo VOC NO TINHA INTENO de mat-lo.Seu nome Matt Hunter. Tem 20 anos de idade e cresceu em um bairro de classe mdia alta nos subrbios do norte de Nova Jersey, perto de Manhattan. Mora na parte menos favorecida da cidade, mas uma cidade muito rica. Seus pais trabalham duro e o amam de maneira incondicional. Voc o filho do meio. Tem um ir o mais velho, a quem idolatra, e uma irm mais nova, a m quem tolera. Como todo jovem de sua cidade, voc cresceu pensando no futuro e em qual faculdade iria fazer. Estuda muito e tira boas notas, embora no espetaculares. Sua mdia 8. No est entre os dez por cento melhores, mas chega perto. Realiza algumas atividades extracurriculares, incluindo um perodo como tesoureiro da escola. Joga futebol americano e basque e e bom o suficiente para t fazer parte do time principal, mas no para conseguir uma bolsa de estudos. meio metido e tem um charme natural. um dos mais populares da escola. Quando faz o teste de admisso para a faculdade, sua alta pontuao surpreende o orientador educacional. Tenta entrar nas universidades mais prestigiosas, mas no consegue por pouco. Em Harvard e Yale, rejeitado de cara. Em Penn e Colmbia, entra na lista de espera. Acaba indo para a Bowdoin, uma pe uena instituio particular q frequentada pela elite em Brunswick, no Maine. Voc adora o lugar. As turmas so pequenas e voc faz amizades. No tem namorada, mas provavelmente no est procura de uma. No segundo ano, entra para o time principal de futebol americano. Tam m faz parte do de basquete e, agora que o melhor jogador se b formou, voc tem uma grande chance de conseguir se destacar. Ento, um dia, ao voltar para o campus entre o primeiro e o segundo semestres do terceiro ano, voc mata uma pessoa. As frias com sua famlia esto maravilhosas, mas os treinos de basquete recomeam. Voc d um beijo de despedida em sua me e em seu pai e segue de carro para a faculdade junto com seu melhor amigo e colega de quarto, Duff. Ele de Westchester, Nova York. baixinho e tem as pernas grossas. Tam m joga b no time de futebol americano e reserva no de basquete. o maior bebedor da universidade. Nunca perde uma compe io de copo. t Voc dirige. Duff quer parar na Universidade de Massachusetts mais conhecida como 7 5. UMass em Amherst, que fica no caminho. Um amigo dele da poca do colgio membro de uma famosa fraternidade de l. Eles daro uma grande festa. Voc no est muito animado, mas no de perder uma boa festa. Fica mais vontade em reu ies menores, nas quais conhea todo mundo. Bowdoin tem n cerca de 1.600 alunos, enquanto a UMass tem quase 40 mil. incio de janeiro e faz muito frio. O cho est coberto de neve. Voc consegue ver a prpria respirao se condensar sua frente enquanto se dirige casa onde funciona a fraternidade. Voc e Duff jogam seus agasalhos em uma pilha. Voc se lembrar disso muitas vezes ao longo dos anos, daquele monte de casacos. Se tivesse ficado com o seu, se o tivesse deixado no carro, se o tivesse colocado em qualquer outro lugar... Mas nada disso aconteceu. A festa est boa. Frentica, sim, mas voc acha que uma agitao forada. O amigo de Duff quer que vocs dois dur am no quarto dele. Voc concorda. m Voc bebe bastante afinal, uma festa de faculdade , mas nada comparado a Duff. O nimo da festa comea a esfriar. A certa altura, vocs vo buscar os casacos. Duff est segurando uma cerveja. Ele pega o agasalho e o joga no ombro. Ento entorna um pouco da bebida. No muito. S um pouco. Mas o suficiente. O lquido cai em um casaco vermelho fino. Essa uma de suas lembranas. O frio l fora est congelante, mas apesar disso algum levou apenas um agasalho leve. Outra coisa que voc nunca vai esquecer que a pea impermevel. O pouquinho de cerveja derramada no a estragar. No a manchar. O tecido poderia ser lavado com facilidade. Mas algum grita: Ei! Ele, o dono do casaco, um cara grande, mas no gigantesco. Duff d de ombros. No pede desculpas. O sujeito, o Sr. Casaco Vermelho, comea a reclamar com ele. Isso um erro. Voc sabe que Duff bom de briga e tem o pavio curto. Toda faculdade tem um Duff, aquele sujeito que voc nunca imaginaria perdendo uma disputa. Esse o problema, claro. Toda faculdade tem um Duff, e s vezes o Duff de uma esbarra com o Duff de outra. Voc tenta acabar com aquilo bem rpido, tenta levar na brincadeira, mas est lidando com dois cabeas-duras que bebe am demais e j esto com o r rosto vermelho e os punhos em riste. Um deles voc no lembra qual desafia o outro e todos saem para a noite fria. Voc percebe que est em uma bela enrascada. 8 6. O sujeito do casaco vermelho est com vrios amigos. H oito ou nove deles, e voc e Duff esto sozinhos. Voc procura o amigo de Duff, o tal de Mark, ou Mike, algo assim, mas ele no se encontra por perto. Logo a briga comea. Duff abaixa a cabea como um touro e parte para cima de Casaco Vermelho. O outro desvia para o lado e agarra Duff em um mata-leo. D um soco em seu nariz e em seguida, ainda segurando-o, mais um. E outro. E outro. A cabea de Duff est abaixada. Ele se contorce para se libertar, mas no adianta nada. Por volta do stimo ou oitavo soco, para de se mexer. Os amigos de Casaco Vermelho come am a gritar, animados. Os braos de Duff esto ca dos dos lados de seu corpo. Voc quer acabar com aquilo, mas no sabe como. Casaco Ver elho contim nua o trabalho de forma metdica, sem pressa, soco aps soco. Os amigos dele o aplau em, gritando efusivamente a cada golpe. d Voc est aterrorizado. Seu amigo est sendo espancado, mas voc est mais preocupado consigo mesmo. Isso o deixa envergonhado. Quer fazer algo, porm sente medo, muito medo. No consegue se mover suas pernas parecem feitas de borracha e seus braos formigam. Voc se odeia por isso. Casaco Vermelho acerta outro soco em Duff e o solta. Duff cai no cho como um saco de roupa suja. Casaco Vermelho chuta-lhe as costelas. Voc o pior amigo de todos. Est assustado demais para ajudar. Nunca esquecer essa sensao. Covardia. Pensa que isso pior do que ser espancado. O silncio, a terrvel sensao de desonra. Outro chute. Duff geme e vira-se de costas. O rosto dele est cheio de listras vermelho-escuras. Mais tarde voc ficar sabendo que os ferimentos foram leves ele vai ficar com os dois olhos roxos e vrios hematomas, nada mais. Naquele momento, porm, ele parece muito mal. Voc sabe que Duff nunca ficaria assistindo a voc ser espancado daquela maneira. Voc no consegue mais aguentar e sai da multido. Todos olham para voc. Por um instante, ningum se mexe, ningum fala. Casaco Vermelho est ofegante. possvel ver a respi ao dele se condensando r no ar gelado. Voc treme. Tenta parecer racio al. Ei, diz, j chega. Abre os n braos, d seu sorriso charmoso, fala que Duff perdeu a briga, que est acabado. Voc venceu, diz para Casaco Vermelho. Algum pula em cima de voc por trs, envolvendo-o com os braos e apertando-o com fora. Voc est imobilizado. 9 7. Casaco Vermelho vai em sua direo. Seu corao bate to forte que quase pula do peito. Voc joga a cabea para trs e seu crnio acerta o nariz de quem o est segurando. Casaco Vermelho est mais prximo agora. Voc se esquiva. Mais algum surge da multido. Ele tem cabelos louros e corado. Voc presume que seja outro amigo de Casaco Vermelho. O nome dele Stephen McGrath. Ele tenta agarr-lo, mas voc escapa. Outros vo atrs de voc, que entra em pnico. Stephen McGrath pe as mos em seus ombros. Voc tenta se soltar e gira com violncia. Nesse momento, consegue se desvencilhar e agarra o pescoo dele. Foi voc que o atacou? Foi ele que o puxou ou voc que o empurrou? Voc no sabe. Um de vocs perdeu o equilbrio? Foi culpa do gelo? Voc se lembrar desse momento inmeras vezes, mas a resposta nunca ficar clara. De qualquer forma, os dois caem. Voc continua com as mos no pescoo dele, na altura da garganta, e no solta. Vocs atingem o cho com um baque surdo. A nuca de Stephen McGrath bate na beirada da calada. Ouve-se um som horrvel e infernal de algo se quebrando, de algo molhado e oco, um rudo diferente de tudo o que voc j escutou. O som marca o fim da vida como voc a conhece. Voc sempre se lembrar dele, daquele barulho horrvel. Ele nun a o abanc donar. Tudo para. Voc olha para baixo. Stephen McGrath est com os olhos abertos, sem piscar. Mas voc j sabe. Percebeu no momento em que o corpo dele ficou repentinamente inerte, no momento em que ouviu aquele som horr