joao grande

  • View
    588

  • Download
    5

Embed Size (px)

DESCRIPTION

 

Text of joao grande

  • 1. 2 A MORTE DE JOO GRANDE O Padre que Lutou na Guerra dos Farrapos Jorge Brito ( 1918-1998 ) Copyright 1983 by Jorge Brito PREFCIO "Joo Grande" no um romance histrico. Muitos dos atos e fatos so fielmente narrados nos lugares e com as pessoas indicadas, que realmente existiram inclusive o personagem que d nome ao livro, "um jovem norte-americano ou irlands, de nome John Griggs, conhecido por Joo Grande, devido, sua avantajada es- tatura (Lucas Boiteux). Foi lendo a pgina 167 do livro "Garibaldi e a Guerra dos Farra- pos", de Lindolfo Collor. (Ed. Civilizao Brasileira, 1977) presente de meu filho Nei que soube da existncia de Joo Grande. Um ms depois disso eu j resolvera escrever sobre este estranho e misterioso indivduo. Na "Guerra dos Farrapos" o Sr. Gatilho Goycochea (Ed. 1938, pg. 154) alude a Griggs. Os dois Boiteux, tanto Henrique em "Santa Catarina na Marinha" (Oficinas Grficas de Liga Martima Brasilei- ra, pg. 113) como o Capito de Mar-e-Guerra Lucas Alexandre em "Marinha Imperial na Revoluo Farroupilha" (Imp. Naval R.J., 1935, pg. 83) narram pormenores assim, "John Griggs para com- bater usa um basto. Cada golpe que descarregava, podia contar- se com uma vtima, sem derramamento de sangue. Diz-se que, de conscincia tranqila, acompanhava a queda do adversrio repe- tindo o versculo do Salmo, Recebe mais este, Senhor, em tua mi- sericrdia!
  • 2. 3 Em "Memorie Biografiche" de Giuseppe Maria Garibaldi, (Ed. Fi- renze, 1888) encontrei mais extensas e precisas notcias de Joo Grande. O Comandante da Frota Farroupilha chama Grigg(s) de "meu companheiro e precursor, de excelente ndole, de uma cora- gem a toda prova e dono de uma constncia inabalvel.' Os dois homens eram amigos fraternos! Sobre estes dados que constru o que poderia ter sido a vida de John Griggs, o Joo Grande. A Guerra dos Farrapos o pano de fundo. J.B. INTRODUO O desfile foi uma glria. Em Laguna, naquela manh ensolarada de julho quem pde sair de casa foi ver a tropa farroupilha marchar na cidade. Armaram para as autoridades, em frente ao Palcio do Go- verno, um palanque e l estavam o General Davi Canabarro e o Coronel Teixeira Nunes representando o Exrcito; o capito- tenente Jos Maria Garibaldi e o Tenente Joo Griggs (Joo Gran- de), a Marinha; o Juiz de Paz, o Intendente Municipal e o sacerdote mais graduado da regio. Monsenhor Vicente dos Santos Cordeiro. s dez horas em ponto a Banda da Intendncia iniciou o desfile com os acordes vibrantes de um dobrado, vindo colocar-se ao lado do palanque para marcar com tambores e caixas de rufo o ritmo da marcha dos soldados e marinheiros. Os primeiros a passar foram os cavalarianos, um esquadro inteiro deles, vestidos a carter, de botas e chilenas, bombachas e tirador, sob um chapelo de abas largas de feltro preto, com barbicacho. Depois deles vinham os ou- tros combatentes, distinguindo-se os da infantaria, esbeltos, ca- dncia certa, peito arfante, perfilados e alinhados, com as armas reluzindo ao sol. Por fim, os marinheiros de uniforme azul e gorro branco. O povo no media aplausos aos valentes soldados do Rio Grande. E os mais ingnuos perguntavam: E os hunos? Os degoladores profissionais? Onde esto os ver- dugos e os demnios? So estes rapazes? Nunca! Fomos enga- nados por vis mentirosos! Meu Deus, eu andava apavorada com esses Republicanos, di- zia uma invicta lagunense de trinta e dois anos. Eles so lindos! Quem dera que algum desses gachos quisesse casar comigo!
  • 3. 4 Quase ao encerrar-se o desfile deu-se o pattico. A linda moa, D. Maria da Glria Garcia, vibrando de entusiasmo cvico, pediu ao tenente Joo Henriques que lhe entregasse a Sendeira Farroupi- lha. Satisfeita, beijou e levantou bem alto o estandarte, dando vivas Repblica Riograndense e a seus bravos soldados e marinhei- ros. A assistncia delirou, aplaudindo-a e respondendo com fervor aos vivas, sem dvida porque se sentia agora tranqila. Os sombrios prognsticos no se verificaram. Ficou claro, com a tropa marchando em perfeita ordem pela cidade conquistada na vspera, que soldados e marujos no eram bandi- dos, nem piratas, mas homens de bem tanto quanto eles. Palmas e vivas duraram mais de quinze minutos. Joo Grande comoveu-se com a acolhida entusistica da popula- o. E, por serem os mais jovens, ele e Garibaldi, ao descerem do palanque foram abraados e beijados efusivamente pelas moas. Garibaldi mais do que Griggs, por ser de menor estatura e por isso mesmo mais ao alcance das beijoqueiras. Ao regressarem a bordo do "Seival", John sabendo que o amigo era capaz de ficar contente com a alegria dos outros, disse radian- te: Garibaldi, ca hoje em estado de felicidade! Captulo I Camaqu Fazenda do Brejo As terras de campo e mato, do Pao do Mendona, foz do rio Camaqu na Lagoa dos Patos, possudas pelo velho Gonalves, depois da morte do dono foram repartidas em trs grandes propri- edades. A Fazenda Cristal coube ao filho Bento. A segunda, a da Barra, filha Antnia. A filha Da. Ana herdou a Fazenda do Brejo. O estaleiro, a melhor esperana do Governo Farroupilha na poca, estava sendo construdo a um quilmetro da sede do Brejo. No momento em que comea esta histria o promissor estabelecimen- to consistia apenas em um galpo enorme, abrigando longas ser- ras manuais do melhor ao ingls, mais de cinqenta toras de ma- deira por serrar e algumas dzias de tbuas grossas e finas empi- lhadas de um lado; do outro, a despensa com a barrica de erva- mate, mantas de charque, caixas com gordura de rs, sal, sacos
  • 4. 5 de feijo e arroz. Encostados despensa, os catres onde dormiam carpinteiros, serradores, auxiliares e pees. Vinte pessoas. Nos fundos a cozinha, um puxado meia-gua, tambm coberto com te- lhas de barro. Ardendo l, dia e noite um grosso tronco de angico garantia gua quente para o mate a qualquer hora. Era encher a chaleirinha de ferro e esperar que a gua aquecesse. Domingo. Ningum trabalha. Ao redor do fogo baixo, que de longe enxugava a carne, mateando um grupo de homens esperava a ho- ra do churrasco. O assador avisou: Hoje demora porque no capricho. Esta picanha merece! Hidalgo, carpinteiro, impaciente com a espera, convidou o compa- nheiro: Belmiro, vamos dar um pulo at fazenda? Fazer o qu? O qu? Saber das novidades, ora! Procuraram com os olhos o sargento Ado, comandante do Desta- camento, para avisar que iam se afastar do rancho. No estava por perto. Vamos assim mesmo, sugeriu Hidalgo, depois ele ficar saben- do! Seguiram os artfices em direo figueira de sombra acolhedora. De l se via bem a casa de Da. Ana. Encontraram, com a cabea apoiada em uma raiz grossa da rvore, cochilando, Mestre Joo Grande, ao lado da inseparvel borduna. Este cuera tem uma braa de altura. No tem? Perguntou Hi- dalgo. Nove palmos, respondeu Belmiro com convico! Tu o mediste? Olha, ele, o bordo e a porta dos fundos do estaleiro so da mesma altura. J o vi encostado ao marco da porta e conferi. Joo Grande no percebeu a aproximao dos carpinteiros, pas- sando calados. Hidalgo bateu palmas na porta da cozinha. Veio a
  • 5. 6 mucama Zilda, negra, cria da casa, ver quem chamava. Vendo os homens conhecidos, perguntou com manifesta m vontade. E da? Queremos falar com Da. Ana, retrucou Hidalgo! Querem mesmo? Belmiro corrigiu: Pretendemos. A negra sumiu. Momentos depois aparecia uma senhora de apro- ximadamente cinqenta anos, grisalha, gorda, baixa, mas com um sorriso bondoso iluminando-lhe o rosto. Bom dia! Sejam bem-vindos! Que desejam? Hidalgo maneiroso: Vimos saber se precisa de nossos prstimos. Hoje no estamos fazendo nada. O sargento Ado sabe que vocs esto aqui? Claro! Mentiu o carpinteiro. Da. Ana lembrou-se da porta emperrada do armrio no quarto das moas, mas no queria transgredir o regulamento aceito: "qualquer ordem a soldado, ou operrio, sempre por intermdio do coman- dante, ou do mestre. So muito gentis! Por enquanto no estou precisando. Vocs j almoaram? No se preocupe, minha senhora! Nosso churrasco est quase pronto, explicou Belmiro. Da. Ana sorriu, pois no iria convid-los para o almoo. Quem go- zava desse privilgio, uma vez por semana, era o Mestre Joo Grande, mas disse: Esperem um pouquinho e levaro sobremesa para vocs e para os companheiros, Zilda entrega j, j. E... se vi- rem o Mestre. avisem-no que dentro de meia hora esteja aqui para o almoo. A fazendeira achava que era preciso agradar esses homens no que lhe fosse possvel, pois o dinheiro da Repblica era pouco e o dela tambm. Entretanto eles estavam fazendo um trabalho fun- damental para a guerra. Raramente o mano Bento, ou o Ministro
  • 6. 7 Domingos de Almeida mandavam algum dinheiro para os operrios do estaleiro, que viviam de esperanas. Mas viviam e trabalhavam. Zilda entregou aos carpinteiros um prato grande de barro vidrado com cinco quilos de marmelada, coberta com pano branco de al- godo. O Mestre continuava dormindo sombra da figueira. Seu Joo, seu Joo Grande! Gritou Hidalgo. Hummm! Da. Ana manda dizer que est na hora do almoo. Sim. Obrigado! O Mestre era de pouca conversa. John Griggs encolheu as longas pernas e apoiado no bordo, le- vantou-se. Ia ao almoo dominical com a famlia. Eram trs moas e um rapaz, Bentinho. Das moas a mais bonita era Manoela, so- brinha da fazendeira. Todas, porm, muito s