O banqueiro anarquista

  • View
    161

  • Download
    2

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Fernando Pessoa

Transcript

  • O Banqueiro Anarquista Fernando Pessoa Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/bancanarco.htm Tnhamos acabado de jantar. Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e aambarcador notvel, fumava como quem no pensa. A conversa, que fora amortecendo, jazia morta entra ns. Procurei reanim-la, ao acaso, servindo-me de uma idia que me passou pela meditao. Voltei-me para ele, sorrindo. - verdade: disseram-me h dias que V. em tempos foi anarquista... - Fui, no: fui e sou. No mudei a esse respeito. Sou anarquista. - Essa boa! V. anarquista! Em que que V. anarquista?... S se V. d palavra qualquer sentido diferente... - Do vulgar? No; no dou. Emprego a palavra no sentido vulgar. - Quer V. dizer, ento, que anarquista exatamente no mesmo sentido em que so anarquistas esses tipos das organizaes operrias? Ento entre V. e esses tipos da bomba e dos sindicatos no h diferena nenhuma? - Diferena, diferena, h... Evidentemente que h diferena. Mas no a que V. julga. V. duvida talvez que as minhas teorias sociais sejam iguais s deles?... - Ah, j percebo! V., quanto s teorias, anarquista; quanto prtica... - Quanto prtica sou to anarquista como quanto s teorias. E quanto prtica sou mais, sou muito mais, anarquista que esses tipos que V. citou. Toda a minha vida o mostra. - Hein?! - Toda a minha vida o mostra, filho. V. que nunca deu a esta cousas uma ateno lcida. Por isso lhe parece que estou dizendo uma asneira, ou ento estou brincando consigo. - homem, eu no percebo nada!... A no ser..., a no ser que V. julgue a sua vida dissolvente e anti-social e d esse sentido ao anarquismo... - J lhe disse que no - isto , j lhe disse que no dou palavra anarquismo um sentido diferente do vulgar. - Est bem... Continuo sem perceber... homem, V. quer-me dizer que no h diferena entre as suas teorias verdadeiramente anarquistas e a prtica da sua vida - a prtica da sua vida como ela agora? V. quer que eu acredite que V. tem uma vida exatamente igual dos tipos que vulgarmente so anarquistas? - No; no isso. O que eu quero dizer que entre as minhas teorias e a prtica da minha vida no h divergncia nenhuma, mas uma conformidade absoluta. L que no tenho uma vida como a dos tipo dos sindicatos e das bombas - isso verdade. Mas a vida deles que est fora do anarquismo, fora dos ideais deles. A minha no. Em mim
  • - sim, em mim, banqueiro, grande comerciante, aambarcador se V. quiser -, em mim a teoria e a prtica do anarquismo esto conjuntas e ambas certas. V. comparou-me a esses parvos dos sindicatos e das bombas para indicar que sou diferente deles. Sou, mas a diferena esta: eles (sim, eles e no eu) so anarquistas s na teoria; eu sou- o na teoria e na prtica. Eles so anarquistas e estpidos, eu anarquista e inteligente. Isto , meu velho, eu que sou o verdadeiro anarquista. Eles - os dos sindicatos e das bombas (eu tambm l estive e sa de l exatamente pelo meu verdadeiro anarquismo) - eles so o lixo do anarquismo, os fmeas da grande doutrina libertria. - Essa nem ao diabo a ouviram! Isso espantoso! Mas como concilia V. a sua vida - quero dizer a sua vida bancria e comercial - coma as teorias anarquistas? Como o concilia V., se diz que por teoria anarquista entende exatamente o que os anarquistas vulgares entendem? E V., ainda por cima, me diz que diferente deles por ser mais anarquista do que eles - no verdade? - Exatamente. - No percebo nada. - Mas V. tem empenho em perceber? - Todo o empenho. Ele tirou da boca o charuto, que se apagara; reacendeu-o lentamente; tirou o fsforo que se extinguia; dep-lo ao de leve no cinzeiro; depois, erguendo a cabea, um momento abaixada, disse: - Oia. Eu nasci do povo e na classe operria da cidade. De bom no herdei, como pode imaginar, nem a condio, nem as circunstncias. Apenas me aconteceu ter uma inteligncia naturalmente lcida e uma vontade um tanto ou quanto forte. Mas esses eram doms naturais, que o meu baixo nascimento me no podia tirar. ``Fui operrio, trabalhei, vivi uma vida apertada; fui, em resumo, o que a maioria da gente naquele meio. No digo que absolutamente passasse fome, mas andei l perto. De resto, podia t-la passado, que isso no alterava nada do que se seguiu, ou do que lhe vou expor, nem do que foi a minha vida, nem do que ela agora.'' ``Fui um operrio vulgar, em suma; como todos, trabalhava porque tinha que trabalhar, e trabalhava o menos possvel. O que eu era, era inteligente. Sempre que podia, lia coisas, discutia coisas, e, como no era tolo, nasceu-me uma grande insatisfao e uma grande revolta contra o meu destino e contra as condies sociais que o faziam assim. J lhe disse que, em boa verdade, o meu destino podia ter sido pior do que era; mas naquela altura parecia-me a mim que eu era um entre a quem a Sorte tinha feito todas as injustias juntas, e que se tinha servido das convenes sociais para mas fazer. Isto era a pelos meus vinte anos - vinte e um o mximo - que foi quando me tornei anarquista.'' Parou um momento. Voltou-se um pouco mais para mim. Continuou, inclinando-se mais um pouco. - Fui sempre mais ou menos lcido. Senti-me revoltado. Quis perceber a minha revolta. Tornei-me anarquista consciente e convicto - o anarquista consciente e convicto que hoje sou.
  • - E a teoria, que V. tem hoje, a mesma que tinha nessa altura? - A mesma. A teoria anarquista, a verdadeira teoria, s uma. Tenho a que sempre tive, desde que me tornei anarquista. V. j vai ver... Ia eu dizendo que, como era lcido por natureza, me tornei anarquista consciente. Ora o que um anarquista? um revoltado contra a injustia de nascermos desiguais socialmente - no fundo s isto. E de a resulta, como de ver, a revolta contra as convenes sociais que tornam essa desigualdade possvel. O que lhe estou indicando agora o caminho psicolgico, isto , como que a gente se torna anarquista; j vamos parte terica do assunto. Por agora, compreenda V. bem qual seria a revolta de um tipo inteligente nas minhas circunstncias. O que que ele v pelo mundo? Um nasce filho de um milionrio, protegido desde o bero contra aqueles infortnios - e no so poucos - que o dinheiro pode evitar ou atenuar; outro nasce miservel, a ser, quando criana, uma boca a mais numa famlia onde as bocas so de sobra para o comer que pode haver. Um nasce conde ou marqus, e tem por isso a considerao de toda a gente, faa ele o que fizer; outro nasce assim como eu, e tem que andar direitinho como um prumo para ser ao menos tratado como gente. Uns nascem em tais condies que podem estudar, viajar, instruir-se - tornar -se (pode-se dizer) mais inteligentes que outros que naturalmente o so mais. E assim por a adiante, e em tudo... ``As injustias da Natureza, v: no as podemos evitar. Agora as da sociedade e das suas convenes - essas, por que no evit-las? Aceito - no tenho mesmo outro remdio - que um homem seja superior a mim por o que a Natureza lhe deu - o talento, a fora, a energia; no aceito que ele seja meu superior por qualidades postias, com que no saiu do ventre da me, mas que lhe aconteceram por bambrrio logo que ele apareceu c fora - a riqueza, a posio social, a vida facilitada, etc. Foi da revolta que lhe estou figurando por estas consideraes que nasceu o meu anarquismo de ento - o anarquismo que, j lhe disse, mantenho hoje sem alterao nenhuma.'' Parou outra vez um momento, como a pensar como prosseguiria. Fumou e soprou o fumo lentamente, para o lado oposto ao meu. Voltou-se, e ia a prosseguir. Eu, porm, interrompi-o. - Uma pergunta, por curiosidade... Por que que V. se tornou propriamente anarquista? V. podia ter-se tornado socialista, ou qualquer outra cousa avanada que no fosse to longe. Tudo isso estava dentro da sua revolta... Deduzo do que V. disse que por anarquismo V. entende (e acho que est bem como definio do anarquismo) a revolta contra todas as convenes e frmulas sociais e o desejo e esforo para a abolio de todas... - Isso mesmo. - Por que escolheu V. essa frmula extrema e no se decidiu por qualquer das outras... das intermdias?... - Eu lhe digo. Eu meditei tudo isso. claro que nos folhetos que eu lia via todas essas teorias. Escolhi a teoria anarquista - a teoria extrema, como V. muito bem diz - pelas razes que vou dizer em duas palavras. Fitou um momento cousa nenhuma. Depois voltou-se para mim. - O mal verdadeiro, o nico mal, so as convenes e as fices sociais, que se sobrepem s realidades naturais - tudo, desce a famlia ao dinheiro, desde a religio
  • ao Estado. A gente nasce homem ou mulher - quero dizer, nasce para ser, em adulto, homem ou mulher; no nasce, em boa justia natural, nem para ser marido, nem para ser rico ou pobre, como tambm no nasce para ser catlico ou protestante, ou portugus ou ingls. todas estas coisas em virtude das fices sociais. Ora essas fices sociais so ms por qu? Porque so fices, porque no so naturais. To mau o dinheiro como o Estado, a constituio de famlia como as religies. Se houvesse outras, que no fossem estas, seriam igualmente ms, porque tambm seriam fices, porque tambm se sobreporiam e estorvariam as realidades naturais. Ora qualquer sistema que no seja o puro sistema anarquista, completamente, uma fico tambm. Empregar todo o nosso desejo, todo o nosso esforo, toda a nossa inteligncia para implantar, ou contribuir para implantar, uma fico social em vez de outra, um absurdo, quando no seja mesmo um crime, porque fazer uma perturbao social com o fim expresso de deixar tudo na mesma. Se achamos injustas as fices sociais, porque esmagam e oprimem o que natural no homem, para que empregar o nosso esforo em substituir-lhes outras fices, se o podemos empregar para as destruir todas? ``Isto parece-me que concludente. Mas suponhamos que o no ; suponhamos que nos objetam que isto tudo estar muito certo, mas que o sistema anarquista no realizvel na prtica. Vamos l a e