O tesouro 25 de abril

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Text of O tesouro 25 de abril

  • 1. O Pas das Pessoas Tristes Adaptado do conto de Manuel Antnio Pina
  • 2. H muito tempo, no tempo em que os teus pais ou avs andavam na escola, num pas muito distante, vivia um povo infeliz e solitrio, vergado sob o peso de uma misteriosa tristeza. O cu era alto e azul, os campos frteis, o mar e os rios cheios de vida, as cidades quentes e luminosas, mas as pessoas que passavam umas pelas outras entreolhavam-se com olhos tristes, caminhando apressadamente e sumindo-se assustadas, dentro das casas.
  • 3. Quando se encontravam umas com as outras, nos cafs, nos empregos, na rua, falavam baixo, como se alguma coisa, um segredo terrvel, as amedrontasse.
  • 4. Quem, vindo de outras terras, chegava ao Pas das Pessoas Tristes, no compreendia. As pessoas eram boas e afectuosas, e aparentemente s tinham motivos para serem felizes. Mas quando lhes faziam perguntas sobre a sua tristeza, as pessoas afastavam-se e no respondiam, ou mudavam delicadamente de assunto pedindo desculpa.
  • 5. s vezes, porm, os visitantes demoravam-se mais tempo, e depressa faziam amigos, porque era muito fcil fazer amigos naquele pas. Levavam- nos ento a suas casas e, depois de terem trancado bem as suas portas e fechado todas as janelas, revelavam-lhes o segredo da sua tristeza.
  • 6. Contavam-lhe que o povo daquele pas tivera um dia um imenso e belo tesouro e que algum lho roubara. Esse tesouro era to grande e to valioso que, sem ele, no podiam ser felizes. -Um tesouro? - perguntavam os visitantes, muito surpreendidos. - Sim, um tesouroa LIBERDADE! - A liberdade, um tesouro?
  • 7. Os visitantes nem queriam acreditar, porque nas suas terras a liberdade era uma coisa comum. Toda a gente era livre de fazer o que quisesse desde que no fizesse mal a ningum, e isso era to normal que as pessoas nem davam pela liberdade. Eram livres, do mesmo modo que respiravam, e ningum d conta que respira; respira e pronto! - Sim, a Liberdade como o ar que respiramos, - diziam os habitantes aos seus novos amigos, tristemente. S quando nos falta e sufocamos cheios de aflio, que descobrimos que, sem ela, no podemos viver. - E como pode algum viver sem liberdade? Como possvel? - perguntavam, admirados, os visitantes.
  • 8. Ento explicavam-lhes: naquele pas, as pessoas no podiam fazer o que queriam, nem podiam dizer o que pensavam ou sentiam, nem partir livremente, para visitar outros pases e conhecer outros povos. Viviam fechados no seu pas como se ele fosse uma priso.
  • 9. Nem sequer podiam contar este segredo que os afligia, porque seriam presos ou at mesmo mortos. - Mas isso deve ser uma grande infelicidade! diziam os visitantes. No admira que vocs estejam sempre to tristes.
  • 10. E os seus amigos, depois de irem espreitar de novo porta para ver se l fora, algum os espreitava, contavam-lhes como era a vida de todos os dias no Pas das Pessoas Tristes. Havia polcias por toda a parte, no os polcias bons que orientam o trnsito e prendem os ladres, mas polcias para vigiar as pessoas e impedir que elas falassem livremente umas com as outras sobre os seus problemas e tristezas.
  • 11. Polcias nas fronteiras para no as deixar sair; at polcias que abriam as suas cartas e ouviam as suas conversas para descobrirem o que diziam e pensavam, e que as perseguiam e lhes batiam se elas no dissessem nem pensassem o que eles queriam que dissessem e pensassem.
  • 12. Os meninos do Pas das Pessoas Tristes nem podiam ouvir as msicas, nem ver os filmes nem ler os livros e revistas de que gostavam, mas s as msicas, filmes, livros e revistas que no eram proibidos. Nem sequer podiam beber Coca-Cola, porque a Coca-Cola (ningum sabia porqu), era proibida! Os rapazes, quando cresciam, eram mandados para guerras horrveis em pases longnquos, e obrigados a matar gentes que no conheciam e que nunca lhes tinham feito mal nenhum, e muitos deles morriam por l ou regressavam loucos ou estropiados.
  • 13. As raparigas e os rapazes no podiam conversar nem conviver uns com os outros, e tinham que andar em escolas separadas e brincar em recreios separados por muros e por grades. As raparigas no podiam vestir calas, e andar sem meias era tambm proibido.
  • 14. - Mas por que que vocs no votam em governantes que acabem com todas essas coisas ms e que vos restituam a vossa Liberdade, o vosso tesouro? perguntavam os visitantes, admirados. - Porque ns tambm no podemos votar e mesmo quando votamos, os resultados so sempre falseados em favor do governantes!
  • 15. Era espantoso! - No podem votar? Ento como escolhem os vossos governantes? - Mas ns no escolhemos os nossos governantes - Ento quem os escolhe? - Ningum sabe- respondiam, com tristeza, os habitantes do Pas das Pessoas Tristes.
  • 16. At que chegou um dia em que, no Pas das Pessoas Tristes, as pessoas decidiram reconquistar o seu tesouro. Os soldados reuniram-se nos quartis e pegaram nas suas armas para arrancar finalmente o tesouro das mos dos ladres.
  • 17. E toda a gente saiu alvoraadamente para a rua e acompanhou os soldados, cantando e gritando: Viva a Liberdade! Viva a Liberdade! Viva a Liberdade! Viva a Liberdade!
  • 18. Os coraes exultaram de alegria e as janelas encheram-se de bandeiras e flores;
  • 19. Os soldados puseram cravos vermelhos nas espingardas
  • 20. e as mulheres esqueceram-se do jantar e das limpezas das casas, e correram para a rua com os filhos ao colo e cravos vermelhos ao peito, chorando e rindo, comovidas e confusas.
  • 21. As pessoas que tinham sido expulsas do pas e obrigadas a refugiar-se longe das suas famlias regressaram; as portas das cadeias onde estavam presas as pessoas que tinham tentado lutar pela liberdade abriram-se e estas pessoas voltaram a casa; os jovens vieram da guerra, felizes por estarem de novo rodeados dos amigos e abraar os pais e irmos; os meninos e meninas puderam, pela primeira vez, dar as mos e falar e olhar-se, caminhando lado a lado sem medo de acusaes nem de castigos de polcias maus.
  • 22. Todo o pas se transformou numa grande festa, ruidosa e transbordante de felicidade, e as pessoas deixavam sair livremente os sentimentos acumulados durante os anos de infelicidade. Era o dia 25 de Abril e, porque foi nesse dia que aquele povo recuperou o tesouro da Liberdade, esse passou para sempre a chamar- se o Dia da Liberdade.
  • 23. Esse pas agora j no se chama Pas das Pessoas Tristes. Chama-se Portugal e o teu pas. Esta no uma histria inventada. uma histria verdadeira, que aconteceu mesmo, h trinta e cinco anos, e que se deve, em grande parte a homens muito valentes, que tiveram a coragem suficiente para te darem a Liberdade que hoje tens.
  • 24. E o tesouro que tinham roubado quele povo triste, pertence-te a ti, s tu que agora tens que cuidar dele, guardando-o muito bem no fundo do teu corao para que ningum to roube outra vez. FIM