Poemas de álvaro de campos 2

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Fernando Pessoa

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  • Poemas de lvaro de Campos lvaro de Campos (heternimo de Fernando Pessoa) Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/ Poemas: Adiamento Lisboa Revisited (1926) L-Bas, Je ne sais o Vilegiatura Clearly Non-Campos! Vai pelo cais fora um bulcio de chegada prxima Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da baixa Comeo a conhecer-me. No existo. O ter deveres, que prolixa coisa! Que lindos olhos de azul inocente os do pequenito do agiota O descalabro a cio e estrelas Ora, at que enfim,...perfeitamente,... Bicarbonato de Soda Mas eu, em cuja alma se refletem... Eu, eu mesmo... Os antigos invocavam as musas Quando olho pra mim no me percebo Demogorgon Apostila Escrito num livro abandonado em viagem Pecado Original No, no cansao... Passagem das Horas Tabacaria Apontamento Aniversrio Magnificat Todas as cartas de amor so ridculas O Binmio de Newton Poema em Linha Reta Encostei-me Afinal, a melhor maneira de viajar sentir Ah, um soneto! H mais de meia hora Ah, perante esta nica realidade Dobrada Moda do Porto Eros e Psiqu
  • Adiamento Depois de amanh, sim, s depois de amanh... Levarei amanh a pensar em depois de amanh, E assim ser possvel; mas hoje no... No, hoje nada; hoje no posso. A persistncia confusa da minha subjetividade objetiva, O sono da minha vida real, intercalado, O cansao antecipado e infinito, Um cansao de mundos para apanhar um eltrico... Esta espcie de alma... S depois de amanh... Hoje quero preparar-me, Quero preparar-rne para pensar amanh no dia seguinte... Ele que decisivo. Tenho j o plano traado; mas no, hoje no trao planos... Amanh o dia dos planos. Amanh sentar-me-ei secretria para conquistar o mundo; Mas s conquistarei o mundo depois de amanh... Tenho vontade de chorar, Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro... No, no queiram saber mais nada, segredo, no digo. S depois de amanh... Quando era criana o circo de domingo divertia-rne toda a semana. Hoje s me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infncia... Depois de amanh serei outro, A minha vida triunfar-se-, Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prtico Sero convocadas por um edital... Mas por um edital de amanh... Hoje quero dormir, redigirei amanh... Por hoje, qual o espetculo que me repetiria a infncia? Mesmo para eu comprar os bilhetes amanh, Que depois de amanh que est bem o espetculo... Antes, no... Depois de amanh terei a pose pblica que amanh estudarei. Depois de amanh serei finalmente o que hoje no posso nunca ser. S depois de amanh... Tenho sono como o frio de um co vadio. Tenho muito sono. Amanh te direi as palavras, ou depois de amanh... Sim, talvez s depois de amanh... O porvir... Sim, o porvir...
  • Lisbon revisited (1926) Nada me prende a nada. Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. Anseio com uma angstia de fome de carne O que no sei que seja - Definidamente pelo indefinido... Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto De quem dorme irrequieto, metade a sonhar. Fecharam-me todas as portas abstractas e necessrias. Correram cortinas de todas as hipteses que eu poderia ver da rua. No h na travessa achada o nmero da porta que me deram. Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido. At os meus exrcitos sonhados sofreram derrota. At os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados. At a vida s desejada me farta - at essa vida... Compreendo a intervalos desconexos; Escrevo por lapsos de cansao; E um tdio que at do tdio arroja-me praia. No sei que destino ou futuro compete minha angstia sem leme; No sei que ilhas do sul impossvel aguardam-me naufrago; ou que palmares de literatura me daro ao menos um verso. No, no sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma... E, no fundo do meu esprito, onde sonho o que sonhei, Nos campos ltimos da alma, onde memoro sem causa (E o passado uma nvoa natural de lgrimas falsas), Nas estradas e atalhos das florestas longnquas Onde supus o meu ser, Fogem desmantelados, ltimos restos Da iluso final, Os meus exrcitos sonhados, derrotados sem ter sido, As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus. Outra vez te revejo, Cidade da minha infncia pavorosamente perdida... Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui... Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, E aqui tornei a voltar, e a voltar. E aqui de novo tornei a voltar? Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram, Uma srie de contas-entes ligados por um fio-memria, Uma srie de sonhos de mim de algum de fora de mim? Outra vez te revejo, Com o corao mais longnquo, a alma menos minha.
  • Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -, Transeunte intil de ti e de mim, Estrangeiro aqui como em toda a parte, Casual na vida como na alma, Fantasma a errar em salas de recordaes, Ao rudo dos ratos e das tbuas que rangem No castelo maldito de ter que viver... Outra vez te revejo, Sombra que passa atravs das sombras, e brilha Um momento a uma luz fnebre desconhecida, E entra na noite como um rastro de barco se perde Na gua que deixa de se ouvir... Outra vez te revejo, Mas, ai, a mim no me revejo! Partiu-se o espelho mgico em que me revia idntico, E em cada fragmento fatdico vejo s um bocado de mim - Um bocado de ti e de mim!... L-Bas, Je ne sais o... Vspera de viagem, campainha... No me sobreavisem estridentemente! Quero gozar o repouso da gare da alma que tenho Antes de ver avanar para mim a chegada de ferro Do comboio definitivo, Antes de sentir a partida verdadeira nas goelas do estmago, Antes de por no estribo um p Que nunca aprendeu a emoo sempre que teve que partir. Quero, neste momento, fumando no apeadeiro de hoje, Estar ainda um bocado agarrado velha vida. Vida intil, que era melhor deixar, que uma cela? Que importa? Todo Universo uma cela, e o estar preso no tem que ver com o tamanho da cela. Sabe-me a nusea prxima o cigarro. O comboio j partiu da outra estao... Adeus, adeus, adeus, toda a gente que no veio despedir-se de mim, Minha famlia abstrata e impossvel... Adeus dia de hoje, adeus apeadeiro de hoje, adeus vida, adeus vida,! Ficar como um volume rotulado esquecido, Ao canto de resguardo de passageiros do outro lado da linha. Ser encontrado pelo guarda casual depois da partida - E esta? Ento no houve um tipo que deixou isto aqui? - Ficar s a pensar em partir, Ficar e ter razo, Ficar e morrer menos... Vou para o futuro como para um exame difcil. Se o comboio nunca chegasse e Deus tivesse pena de mim?
  • J me vejo na estao at aqui simples metfora. Sou uma pessoa perfeitamente apresentvel. V-se - dizem - que tenho vivido no estrangeiro. Os meus modos so de homem educado, evidentemente. Pego na mala, rejeitando o moo, como a um vcio vil. E a mo com que pego na mala treme-me e a ela. Partir! Nunca voltarei. Nunca voltarei porque nunca se volta. O lugar a que se volta sempre outro, A gare a que se volta outra. J no est a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia. Partir! Meu Deus, partir! Tenho medo de partir!... Vilegiatura O sossego da noite, na vilegiatura do alto; O sossego, que mais aprofunda O ladrar esparso dos ces de guarda na noite; O silncio, que mais se acentua, Porque zumbe ou murmura uma coisa nenhuma no escuro... Ah! A opresso de tudo isto! Oprime como ser feliz! Que vida idlica, se fosse outra pessoa que a tivesse Com o zumbido ou murmrio montono de nada Sob o cu sardento de estrelas, Com o ladrar dos ces polvilhando o sossego de tudo! Vim aqui para repousar, Mas esqueci-me de me deixar l em casa, Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente, A vaga nusea, a doena incerta, de me sentir. Sempre esta inquietao mordida aos bocados Como po ralo escuro, que se esfarela caindo. Sempre esta mal-estar tomado aos maus haustos Como um vinho de bbado quando nem a nusea obsta. Sempre, sempre, sempre Este defeito da circulao da prpria alma, Esta lipotmia das sensaes, Isto... (Tuas mos esguias, um pouco plidas, um pouco minhas, Estava naquele dia quietas pelo teu regao de sentada, Como e onde a tesoira e o ideal de uma outra. Cismavas, olhando-me, como se eu fosse o espao. Recordo para ter em que pensar, sem pensar. De repente, num meio suspiro, interrompeste o que estavas sendo. Olhaste conscientemente para mim, e disseste:
  • Tenho pena que todos os dias no sejam assim - Assim, como aquele dia que no fora nada... Ah, no sabias, Felizmente no sabias, Que a pena todos os dias serem assim, assim: Que o mal que, feliz ou infeliz, A alma goza ou sofre o ntimo tdio de tudo, Consciente ou inconscientemente, Pensando ou por pensar - Que a pena essa... Lembro fotograficamente as tuas mos paradas, Molemente estendidas. Lembro-me, neste momento, mais delas do que de ti. Que ser feito de ti? Sei que, no formidvel algures da vida, Casaste. Creio que s me. Deves ser feliz. Por que o no haverias de ser? S por maldade... Sim, seria injusto... Injusto? (Era um dia de sol pelos campos e eu dormitava, sorrindo.) A vida... Branco ou tinto, o mesmo: para vomitar. Clearly Non-Campos! No sei qual o sentimento, ainda inexpresso, Que subitamente, como uma sufocao, me aflige O corao que, de repente, Entre o que se vive, se esquece. No sei qual o sentimento Que me desvia do caminho, Que me d de repente Um nojo daquilo que seguia, Uma vontade de nunca chegar a casa, Um desejo de indefinido. Um desejo lcido de indefinido. Quatro vezes mudou a stao falsa No falso ano, no imutvel curso Do tempo conseqente; Ao verde segue o seco, e ao seco o verde, E no sabe ningum qual o primeiro, Nem o ltimo e acabam.
  • Vai pelo cais fora um bulcio de chegada prxima Vai pelo cais fora um bulcio de chegada prxima, Comearam chegando os primiti