Bauman, zygmunt - Modernidade Liquida (PDF simplificado)

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Text of Bauman, zygmunt - Modernidade Liquida (PDF simplificado)

  • Zygmunt Bauman

    MODERNIDADE LQUIDA

    Traduo: Plnio DentzienJorge Zahar EditorRio de JaneiroTtulo original: LiquidModerniiyTraduo autorizada da edio inglesapublicada em 2000 por Polity Press,de Oxford, InglaterraCopyright (c) 2000, Zygmunt BaumanCopyright (c) 2001 da edio em lngua portuguesa:Jorge Zahar Editor Ltda.rua Mxico 31 sobreloja20031-144 Rio de Janeiro, RJtel.: (21) 240-0226 / fax: (21) 262-5123e-mau: jze@zahar.com.brsite: www.zahar.com.brTodos os direitos reservados.A reproduo no-autorizada desta publicao, no todoou em parte, constitui violao do copyright. (Lei 9.610)Capa: Carol S e Srgio Campante

    CIP-Brasil. Catalogao-na-fonteSindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.Bauman, Zygmunt, 1925-B341m Modernidade lquida / Zygmunt Bauman;traduo, Plnio Dentzien. - Rio de Janeiro:Jorge Zahar Ed., 2001Traduo de: Liquid modernityISBN 85-7110-598-71. Civilizao moderna - Sculo XX. 2. Sociologia. 1. Ttulo.CDD 303.401-0404 CDU316.42

  • SUMRIO

    Prefcio: Ser Leve e Lquido 7

    Captulo 1. Emancipao 23 As bnos mistas da liberdade As casualidades e a sorte cambiantes da crtica O indivduo em combate com o cidado O compromisso da teoria crtica na sociedade dos indivduos A teoria crtica revisitada A crtica da poltica-vida

    Captulo 2. Individualidade 64 Capitalismo - pesado e leve Tenho carro, posso viajar. Pare de me dizer; mostre-me! A compulso transformada em vcio O corpo do consumidor. Comprar como ritual de exorcismo Livre para comprar - ou assim parece. Separados, compramos

    Captulo 3. Tempo/Espao 107 Quando estranhos se encontram Lugares micos, lugares fgicos, no-lugares, espaos vazios No fale com estranhos A modernidade como histria do tempo Da modernidade pesada modernidade leve A sedutora leveza do ser Vida instantnea

    Captulo 4. Trabalho 150 Progresso e f na histria Ascenso e queda do trabalho Do casamento coabitao . Digresso: breve histria da procrastinao. Os laos humanos no mundo fluido A autoperpetuao da falta de confiana

    Captulo 5. Comunidade . 193 Nacionalismo, marco 2 Unidade - pela semelhana ou pela diferena?. Segurana a um certo preo Depois do Estado- nao Preencher o vazio Cloakroom communies

    Posfcio: Escrever; Escrever Sociologia 231 Notas 247 ndice remissivo 255

    PREFCIO

  • SER LEVE E LQUIDO Interrupo, incoerncia, surpresa so as condies comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas pessoas, cujas mentes deixaram de ser alimentadas por outra coisa que no mudanas repentinas e estmulos constantemente renovados ... No podemos mais tolerar o que dura. No sabemos mais fazer com que o tdio d frutos. Assim, toda a questo se reduz a isto: pode a mente humana dominar o que a mente hmnana criou? Paul Valry "Fluidez" a qualidade de lquidos e gases. O que os distingue dos slidos, como a Enciclopdia britdnica, com a autoridade que tem, nos informa, que eles "no podem suportar uma fora tangencial ou deformante quando imveis" e assim "sofrem uma constante mudana de forma quando submetidos a tal tenso' Essa contnua e irrecupervel mudana de posio de uma parte do material em relao a outra parte quando sob presso deformante constitui o fluxo, propriedade caracterstica dos fluidos. Em contraste, as foras deformantes num slido torcido ou flexionado se mantm, o slido no sofre o fluxo e pode voltar sua forma original. Os lquidos, uma variedade dos fluidos, devem essas notveis qualidades ao fato de que suas "molculas so mantidas num arranjo ordenado que atinge apenas poucos dimetros moIecu1ares' enquanto "a variedade de comportamentos exibida pelos slidos um resultado direto do tipo de liga que une os seus tomos e dos arranjos estruturais destes' "Liga", por sua vez, um termo 7 8 Modernidade Lquida Prefcio 9 que indica a estabilidade dos slidos - a resistncia que eles "opem separao dos tomos' Isso quanto Enciclopedia brit&nica - no que parece uma tentativa de oferecer "fluidez" como a principal metfora para o estgio presente da era moderna. O que todas essas caractersticas dos fluidos mostram, em linguagem simples, que os lquidos, diferentemente dos slidos, no mantm sua forma com facilidade. Os fluidos, por assim dizer, no fixam o espao nem prendem o tempo. Enquanto os slidos tm dimenses espaciais claras, mas neutralizam o impacto e, portanto, diminuem a significao do tempo (resistem efetivamente a seu fluxo ou o tornam irrelevante), os fluidos no se atm muito a qualquer forma e esto constantemente prontos (e propensos) a mud-la; assim, para eles, o que conta o tempo, mais do que o espao que lhes toca ocupar; espao que, afinal, preenchem apenas "por um momento'

  • Em certo sentido, os slidos suprimem o tempo; para os lquidos, ao contrrio, o tempo o que importa. Ao descrever os slidos, podemos ignorar inteiramente o tempo; ao descrever os fluidos, deixar o tempo de fora seria um grave erro. Descries de lquidos so fotos instantneas, que precisam ser datadas. Os fluidos se movem facilmente. Eles "fluem", "escorrem", "esvaem-se", "respingam", "transbordam", "vazam", "inundam", "borrifam", "pingam"; so "filtrados", "destilados"; diferentemente dos slidos, no so facilmente contidos - contornam certos obstculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho. Do encontro com slidos emergem intactos, enquanto os slidos que encontraram, se permanecem slidos, so alterados - ficam molhados ou encharcados. A extraordinria mobilidade dos fluidos o que os associa idia de "leveza' H lquidos que, centmetro cbico por centmetro cbico, so mais pesados que muitos slidos, mas ainda assim tendemos a v-los como mais leves, menos "pesados" que qualquer slido. Associamos "leveza" ou "ausncia de peso" mobilidade e inconstncia: sabemos pela prtica que quanto mais leves viajamos, com maior facilidade e rapidez nos movemos. Essas so razes para considerar "fluidez" ou "liquidez" como metforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase, nova de muitas maneiras, na histria da modernidade. Concordo prontamente que tal proposio deve fazer vacilar quem transita vontade no "discurso da modernidade" e est familiarizado com o vocabulrio usado normalmente para narrar a histria moderna. Mas a modernidade no foi um processo de "liquefao" desde o comeo? No foi o "derretimento dos slidos" seu maior passatempo e principal realizao? Em outras palavras, a modernidade no foi "fluida" desde sua concepo? Essas e outras objees semelhantes so justificadas, e o parecero ainda mais se lembrarmos que a famosa frase sobre "derreter os slidos", quando cunhada h um sculo e meio pelos autores do Manfrsto comunista, referia-se ao tratamento que o autoconfiante e exuberante esprito moderno dava sociedade, que considerava estagnada demais para seu gosto e resistente demais para mudar e amoldar-se a suas ambies - porque congelada em seus caminhos habituais. Se o "esprito" era "moderno", ele o era na medida em que estava determinado que a realidade deveria ser emancipada da "mo morta" de sua prpria histria - e isso s poderia ser feito derretendo os slidos (isto , por definio, dissolvendo o que quer que persistisse no tempo e fosse infenso sua passagem ou imune a seu fluxo). Essa inteno clamava, por sua vez, pela "profanao do sagrado": pelo repdio e destronamento do passado, e, antes e acima de tudo, da "tradio" - isto , o sedimento ou resduo do passado no presente; clamava pelo esmagamento da armadura protetora forjada de crenas e lealdades que permitiam que os slidos resistissem "liquefao' Lembremos, no entanto, que tudo isso seria feito no para acabar de uma vez por todas com os slidos e construir um admirvel mundo novo livre deles para sempre,

  • mas para limpar a rea para novos e aperfeioados s6/idos-, para substituir o conjunto herdado de slidos deficientes e defeituosos por outro conjunto, aperfeioado e preferivelmente perfeito, e por isso no mais altervel. Ao ler o Ancien Rgime de Tocquevillc, podemos nos perguntar at que ponto os "slidos encontrados" no teriam sido desprezados, condenados e destinados liquefao por j estarem enferru lo Modernidade Lquida Prefcio ii jados, esfarelados, com as costuras abrindo; por no se poder confiar neles. Os tempos modernos encontraram os slidos pr- modernos em estado avanado de desintegrao; e um dos motivos mais fortes por trs da urgncia em derret-los era o desejo de, por uma vez, descobrir ou inventar slidos de solidez duradoura, solidez em que se pudesse confiar e que tornaria o mundo previsvel e, portanto, administrvel. Os primeiros slidos a derreter e os primeiros sagrados a profanar eram as lealdades tradicionais, os direitos costumeiros e as obrigaes que atavam ps e mos, impediam os movimentos e restringiam as iniciativas. Para poder construir seriamente uma nova ordem (verdadeiramente slida!) era necessrio primeiro livrar-se do entulho com que a velha ordem sobrecarregava os construtores. "Derreter os slidos" significava, antes e acima de tudo, eliminar as obrigaes "irrelevantes" que impediam a via do clculo racional dos efeitos; como dizia Max Weber, libertar a empresa de negcios dos grilhes dos deveres para com a famlia e o lar e da densa trama das obrigaes ticas; ou, como preferiria Thomas Carlyle, dentre os vrios laos subjacentes s responsabilidades humanas mtuas, deixar restar somente o "nexo dinheiro' Por isso mesmo, essa forma de "derreter os slidos" deixava toda a complexa rede de relaes sociais no ar - nua, desprotegida, desarmada e exposta, impotente para resistir s regras de ao e aos critrios de racionalidade inspirados pelos negcios, quanto mais para competir efetivamente com eles. Esse desvio fatal deixou o campo aberto para a invaso e dominao (como dizia Weber) da racionalidade instrumental, ou (na formulao de Karl Marx) para o papel determinante da economia: agora a "base" da vida social outorgava a todos os outros domnios o estatuto de "superestrutura" - isto , um artefato da "base' cuja nica funo era