O Resgate Trecho

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O Resgate Trecho - Nicholas Sparks

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  • 1. O Arqueiro Geraldo Jordo Pereira (1938-2008) comeou sua carreira aos 17 anos, quando foi trabalhar com seu pai,o clebre editor Jos Olympio,publicando obras marcantes como O menino do dedo verde, de Maurice Druon, e Minha vida, de Charles Chaplin. Em 1976, fundou a Editora Salamandra com o propsito de formar uma nova gerao de leitores e acabou criando um dos catlogos infantis mais premiados do Brasil. Em 1992, fugindo de sua linha editorial, lanou Muitas vidas, muitos mestres, de Brian Weiss, livro que deu origem Editora Sextante. F de histrias de suspense, Geraldo descobriu O Cdigo Da Vinci antes mesmo de ele ser lanado nos Estados Unidos.A aposta em fico,que no era o foco da Sextante,foi certeira: o ttulo se transformou em um dos maiores fenmenos editoriais de todos os tempos. Mas no foi s aos livros que se dedicou. Com seu desejo de ajudar o prximo, Geraldo desenvolveu diversos projetos sociais que se tornaram sua grande paixo. Com a misso de publicar histrias empolgantes, tornar os livros cada vez mais acessveis e despertar o amor pela leitura, a Editora Arqueiro uma homenagem a esta figura extraordinria,capaz de enxergar mais alm,mirar nas coisas verdadeiramente importantes e no perder o idealismo e a esperana diante dos desafios e contratempos da vida.

2. Este livro dedicado a Pat e Billy Mills, com amor. Minha vida melhor graas a vocs dois. Obrigado por tudo. 3. : Prlogo Tempos depois aquela seria considerada uma das tempestades mais violentas da histria da Carolina do Norte. Como ocorreu em 1999, al- guns dos cidados mais supersticiosos a consideraram um mau pressgio, o primeiro indcio do fim do mundo. Outros simplesmente balanaram as cabeas e disseram que sabiam que mais cedo ou mais tarde algo assim aconteceria. No total, nove tornados tocaram o solo naquele fim de tarde na parte leste do estado, destruindo quase trinta casas. Cabos telefnicos ficaram espalhados nas estradas e transformadores pegaram fogo sem que ningum pudesse impedir. Com um nico e cruel ataque da Me Natureza, milhares de rvores caram, as margens de trs grandes rios foram varridas de repente por inundaes violentas e centenas de vidas mudaram para sempre. Tinha comeado do nada. Em um minuto estava nublado e escuro o que no era muito incomum e, no minuto seguinte, o cu de incio do vero explodiu em relmpagos, ventos fortes e chuva pesada. A tempestade viera do noroeste e estava atravessando o estado a quase 65 quilmetros por hora. As estaes de rdio comearam a emitir avisos de emergncia registrando a fora do temporal. As pessoas tentavam se abrigar em lugares fechados, mas as que pegaram a estrada, como Denise Holton, no tinham para onde ir. Agora que ela estava bem no meio da tormenta, no restava muito o que fazer. Em alguns pontos a chuva caa to forte que o trnsito flua a 8 quilmetros por hora, mas, ainda assim, o rosto de Denise era pura concentrao e os ns de seus dedos estavam brancos de tanto apertar o volante. s vezes era impossvel enxergar a estrada, mas parar significaria um desastre certo, j que outros veculos vinham atrs e no conseguiriam ver o carro dela a tempo de parar. 4. 8 Denise passou o cinto de segurana por cima da cabea, ficando presa apenas pela cintura, de modo que pudesse se inclinar sobre o volante e dis- tinguir melhor as marcaes de faixa da estrada e um ou outro ponto aqui e ali. Houve longos trechos nos quais teve a impresso de estar dirigindo apenas por instinto, porque no conseguia enxergar nada. A chuva caa sobre o para-brisa como uma onda do mar, obscurecendo quase tudo. Os faris pareciam totalmente inteis. Ela queria parar, mas onde? Em que lugar seria seguro? No acostamento? As pessoas vinham ziguezagueando por todo o caminho, to cegas quanto ela. Assim, Denise tomou uma r- pida deciso: de algum modo, prosseguir parecia mais seguro. Seus olhos iam da estrada para as lanternas do carro frente e o retrovisor, e ela rezava para que todos na estrada estivessem fazendo o mesmo: procurando algo que os mantivesse seguros. Qualquer coisa. Ento, to subitamente quanto havia comeado, a tempestade enfraque- ceu e foi possvel enxergar de novo. Denise imaginou que houvesse deixa- do a tempestade para trs e, ao que parecia, todos na estrada acharam o mesmo, porque, apesar de o asfalto continuar escorregadio, os carros comearam a acelerar, tentando permanecer frente da tormenta. Denise tambm acelerou para acompanh-los. Dez minutos depois, com a chuva ainda caindo, porm mais fraca, ela olhou de relance para o ponteiro da gasolina e sentiu um n se formar no estmago. Logo precisaria parar. No tinha combustvel suficiente para chegar em casa. Alguns minutos se passaram. Ela continuava atenta ao trnsito. Sendo noite de lua nova, havia pouca luz vindo do cu. Denise deu outra olhada no painel. O ponteiro da gasoli- na estava bem baixo na rea vermelha. Mesmo preocupada em permanecer frente da tormenta, ela desacelerou, tentando economizar combustvel e torcendo para que ele durasse. Torcendo para conseguir ficar fora da rea da tempestade. Os outros carros comearam a ultrapass-la depressa, e seus limpadores de para-brisa quase no davam conta da gua lanada sobre eles. Denise seguiu em frente. Mais dez minutos se passaram antes que Denise pudesse dar um suspiro de alvio. Foi quando ela viu uma placa indicando um posto de gasolina a menos de 2 quilmetros. Ligou a seta, mudou para a pista da direita e pe- gou a sada. Parou na primeira bomba livre. 5. 9 Havia conseguido, mas sabia que a tempestade ainda estava a caminho. Chegaria quela rea em quinze minutos, se no antes. Denise tinha tem- po, mas no muito. Encheu o tanque o mais rpido que pde e depois ajudou Kyle a sair da cadeirinha. Deu a mo ao menino e o levou consigo para fazer o paga- mento; havia muitos carros ali para deix-lo sozinho no veculo. Kyle era pequeno, mais baixo do que a maaneta da porta da loja de convenincia. Ao entrar, Denise percebeu quanto o lugar estava cheio. Parecia que todos na estrada haviam tido a mesma ideia: abastecer o carro enquanto ainda era possvel. Denise pegou uma lata de Coca-Cola diet, a terceira do dia, depois deu uma olhada nos refrigeradores ao longo da parede dos fundos. Perto do canto, encontrou leite com sabor de morango para Kyle. Estava ficando tarde e o menino adorava tomar leite antes de dormir. Se ela conseguisse ficar frente da tempestade, esperava que ele dormisse a maior parte do caminho de volta. Foi para a fila da caixa, onde quatro pessoas j aguardavam. Todas pa- reciam impacientes e cansadas, como se no entendessem como o lugar podia estar to cheio quela hora. Talvez, de algum modo, tivessem se es- quecido da tempestade. Mas bastou observar seus olhares para Denise ter certeza de que no. Todos na loja estavam nervosos. Ande logo, diziam suas expresses, precisamos sair daqui. Denise suspirou. Sentia o pescoo tenso. Girou os ombros, mas no ajudou muito. Fechou os olhos, esfregou-os e abriu-os de novo. Nos cor- redores atrs dela, ouviu uma me discutir com o filho pequeno. Denise olhou de relance por cima do ombro. O garoto devia ter mais ou menos a idade de Kyle, uns 4 anos e meio. A me parecia to estressada quanto De- nise. Ela segurava com fora o brao do menino, que batia os ps no cho. Mas eu quero cupcakes! choramingava. A me se manteve firme. Eu disse no. Voc j comeu muita porcaria hoje. Mas voc compra as coisas para voc. Depois de um instante, Denise desviou o olhar. A fila no tinha andado. Por que tanta demora? Olhou para as pessoas na frente, tentando desco- brir o motivo. A mulher na caixa registradora parecia atrapalhada com tanto movimento e, pelo visto, todos queriam pagar com carto de crdito. Passou-se mais um minuto at que terminasse o atendimento do primeiro cliente da fila. 6. 10 A mulher e a criana ficaram bem atrs de Denise, ainda discutindo. De- nise ps a mo no ombro de Kyle, que estava em p quieto, bebendo o leite pelo canudinho. Ela no pde evitar ouvir a conversa atrs de si. Ah, por favor, me! Se continuar, vai levar uma palmada. No temos tempo para isso. Mas eu estou com fome. Ento deveria ter comido seu cachorro-quente. Eu no queria cachorro-quente. E aquilo continuou. Trs clientes depois, Denise finalmente chegou caixa registradora, abriu sua carteira e pagou em dinheiro. Tinha um car- to de crdito para emergncias, mas raramente ou nunca o usava. Dar o troco pareceu mais difcil do que passar cartes de crdito na mquina. A atendente ficou olhando para os nmeros na caixa, como se fizesse esforo para entend-los. A discusso entre me e filho continuava sem trgua. Por fim, Denise recebeu seu troco, guardou-o a carteira e se virou na direo da porta. Compreendia que a noite estava sendo difcil para todos, por isso sorriu para a me atrs dela, como se dissesse: crianas so difceis s vezes, no ? Em resposta, a mulher revirou os olhos. Voc tem sorte. Denise olhou para ela, interrogativa. Desculpe, no entendi. Eu disse que voc tem sorte. Ela apontou a cabea para o filho. Este aqui nunca cala a boca. Denise olhou para o cho e, com os lbios cerrados, balanou a cabe- a, virou-se e saiu da loja. Apesar do estresse da tempestade, do longo dia dirigindo e do tempo que passara no centro de diagnstico, tudo em que podia pensar era Kyle. Enquanto caminhava na direo do carro, sentiu uma vontade sbita de chorar. No sussurrou para si mesma. Quem tem sorte voc. 7. : 1 Por que ele? Por que, de todas as crianas, isso tinha de acontecer com Kyle? De volta ao carro depois de abastecer, Denise retornou rodovia a tem- po de ficar frente da tempestade. Durante os vinte minutos seguintes, a chuva continuou caindo, mas no de modo ameaador, e os limpadores de para-brisa empurravam a gua de um lado para o outro enquanto Denise voltava para Edenton, na Carolina do Norte. A Coca-Cola diet estava entre o freio de mo e o banco do motorista e, embora Denise soubesse que aqui- lo no lhe fazia bem, bebeu o que restava dela e logo desejou ter comprado outra lata. Esperava q