Custo Brasil 1/3: MPF/SP denuncia ex-ministro Paulo Bernardo e mais 19 por propina de R$ 100 milhões

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  1. 1. MINISTRIO PBLICO FEDERAL PROCURADORIA DA REPBLICA EM SO PAULO EXCELENTSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ FEDERAL DA 6 VARA ESPECIALIZADA EM CRIMES FINANCEIROS E LAVAGEM DE CAPITAIS DA SUBSEO JUDICIRIA DE SO PAULO Distribuio por dependncia aos Autos n 0011881- 11.2015.403.6181 (Inq. 414/2015) URGENTE RU PRESO DENNCIA n /2016 O MINISTRIO PBLICO FEDERAL, por intermdio dos Procuradores da Repblica infra-assinados, vem presena de Vossa Excelncia oferecer DENNCIA em desfavor de 1. PAULO BERNARDO SILVA, brasileiro, casado; 2. GUILHERME DE SALLES GONALVES, brasileiro, advogado 3. MARCELO MARAN, brasileiro, casado 4. WASHINGTON LUIZ VIANNA, brasileiro, em unio estvel, ; 5. NELSON LUIZ OLIVEIRA DE FREITAS, atualmente preso na Superintendncia da Polcia Federal em So Paulo 6. ALEXANDRE CORREA DE OLIVEIRA ROMANO, brasileiro, casado, advogado; 7. PABLO ALEJANDRO KIPERSMIT brasileiro; 8. VALTER SILVRIO PEREIRA, brasileiro, casado; 1 de 140
  2. 2. MINISTRIO PBLICO FEDERAL PROCURADORIA DA REPBLICA EM SO PAULO 9. JOO VACCARI NETO, brasileiro, atualmente preso em Curitiba; 10. DAISSON SILVA PORTANOVA, brasileiro, solteiro, advogado; 11. PAULO ADALBERTO ALVES FERREIRA, , atualmente preso na Superintendncia da Polcia Federal em So Paulo; 12. HELIO SANTOS DE OLIVEIRA, brasileiro, casado; 13. CARLOS ROBERTO CORTEGOSO, brasileiro, casado, . 1. Histrico e Contextualizao A presente denncia um desdobramento da intitulada Operao Lava Jato1. No caso em questo trata-se organizao criminosa implantada no mbito do Ministrio do Planejamento, Oramento e Gesto (MPOG) entre os anos de 2009 e 2015, responsvel pelo pagamento de propinas em valores milionrios para diversos agentes pblicos. O pagamento de propina envolveu a realizao de um Acordo de Cooperao Tcnica (ACT) com o MPOG, com a finalidade de permitir a contratao de uma empresa de tecnologia - CONSIST/SWR INFORMTICA2 para desenvolver e gerenciar software de controle de crditos consignados, que at ento era feito por uma empresa pblica (SERPRO).3 1 desdobramento da fase intitulada Pixuleco 1 (17 fase), deflagrada em 03 de agosto de 2015 e Pixuleco 2 (18 fase), deflagrada em 13 de agosto de 2015. 2 Compem o grupo empresarial CONSIST no mnimo as seguintes empresas; CONNECT VIAGENS E TURISMO, CS9 SERVIOS DE CONSULTORIA, CONSIST BUSINESS SOFTWARE, SWR INFORMATICA LTDA, ON9 CONSULTORIA LTDA, DIBUTE - TECNOLOGIA E SOFTWARE LTDA e OTG SERVIOS DE INFORMTICA. 3 Servio Federal de Processamento de Dados Empresa pblica vinculada ao Ministrio da Fazenda para modernizar e dar agilidade a setores estratgicos da Administrao Pblica brasileira. 2 de 140
  3. 3. MINISTRIO PBLICO FEDERAL PROCURADORIA DA REPBLICA EM SO PAULO As entidades que representavam as instituies financeiras (ABBC/SINAPP4) fizeram o ACT com o MPOG em 2009 e, assim, puderam contratar a empresa CONSIST em 2010. Para que este modelo fosse desenvolvido e mantido entre 2010 e 2015, foram pagas propinas milionrias, que superam cem milhes de reais, para diversos agentes pblicos envolvidos com o tema5 e para o Partido dos Trabalhadores. Os agentes que receberam propina foram em especial PAULO BERNARDO, ento Ministro do Planejamento (entre 2005 e 2011)6, DUVANIER PAIVA, Secretrio de Recursos Humanos do MPOG, NELSON LUIZ OLIVEIRA FREITAS, Diretor do Departamento de Administrao de Sistemas de Informao da Secretaria de Recursos Humanos do MPOG, VALTER CORREIA DA SILVA, ento Secretrio Adjunto do Ministrio do Planejamento, e ANA LCIA AMORIM DE BRITO (Secretria de gesto do MPOG desde janeiro de 2012)7. Todos estes agentes estavam diretamente implicados com a estruturao do ACT e/ou com a sua manuteno e, por isto, receberam vantagens indevidas e autorizaram o repasse de parte dos valores para o Partido dos Trabalhadores. Ademais, era necessrio o pagamento mensal e contnuo da propina, entre 2010 e 2015, porque o ACT era um ato precrio, que poderia ser rescindido unilateralmente pelo MPOG, alm de ser necessria a sua renovao anual. Ademais, tambm havia pagamento contnuo de propina para que a CONSIST fosse a escolhida e, ainda, continuasse a ser contratada pelas 4 Associao Brasileira de Bancos - ABBC e Sindicato Nacional das Entidades Abertas de Previdncia Privada SINAPP. 5 No se trata de apurao de desvio de dinheiro pblico. O objeto principal da presente imputao o pagamento de vantagens indevidas milionrias a agentes pblicos e outras pessoas, em razo da atuao destes, mediante complexo esquema de lavagem de dinheiro, com utilizao de contratos e notas fiscais ideologicamente falsas, pagamentos em espcie e simulao de prestao de servios. 6 Posteriormente foi Ministro das Comunicaes de 2011 a 2015. Sobre a participao da Senadora GLEISI HOFFMANN nos fatos, a sua conduta investigada perante o STF, no Inq. 4130. 7 VALTER CORREIA DA SILVA e ANA LCIA AMORIM DE BRITO no sero objeto da presente imputao. Mas ambos so essenciais para a manuteno do esquema, a partir de 2012, quando falece DUVANIER PAIVA. 3 de 140
  4. 4. MINISTRIO PBLICO FEDERAL PROCURADORIA DA REPBLICA EM SO PAULO entidades interessadas, pois poderia haver interferncia do MPOG para que outra empresa fosse contratada. Assim, o pagamento de propina envolvia atos de ofcio relacionados basicamente: (i) formulao e estruturao do ACT, inclusive produo de notas tcnicas; (ii) edio de atos normativos necessrios para que o ACT fosse possvel; (ii) assinatura do ACT; (iii) manuteno e renovao anual do ACT; (iv) contratao e manuteno da CONSIST como empresa contratada pela ABBC/SINAPP; (v) ao atendimento de demandas da empresa CONSIST e dos parceiros, quando fosse necessrio; (vi) ao apoio e a vontade poltica do MPOG, em conjunto com o Partido dos Trabalhadores, para que o esquema fosse mantido. O custo total da propina chegava a cerca de 70% do faturamento lquido do contrato da CONSIST8, em valores que superam R$ 100 milhes de reais, e foram pagos entre incio de 2010 e no mnimo no final de 20159. Ao final, o custo financeiro da propina era repassado aos funcionrios pblicos federais tomadores do crdito consignados. Os valores cobrados a ttulo de propina eram repassados aos agentes pblicos por intermdio de parceiros, que ficavam encarregados de elaborar contratos simulados com a CONSIST e repassar os valores para os destinatrios finais. Parte dos valores era destinado ao Partido dos Trabalhadores, por meio de contratos simulados com empresas indicadas por JOO VACCARI NETO. Estas empresas ou eram credoras do Partido ou repassavam os valores em espcie para JOO VACCARI. So objeto da presente denncia os delitos de organizao criminosa majorado (art. 2, 4, da Lei 8 A CONSIST apenas ficava com cerca de 30% do faturamento. Neste sentido, veja, por exemplo, e-mail enviado para PABLO KIPERSMIT por um funcionrio, em que informa que ao longo de todo o ano de 2011, o faturamento do contrato foi de R$ 24 milhes, sendo que os parceiros ficaram com R$ 16 milhes, enquanto a CONSIST com cerca de R$ 8 milhes (o equivalente a 31,5%). Cf. Rel. Anlise de Mdia Apreendida N 594/2015, p. 94 (Doc. 5). 9 Somente interrompido em razo da deflagrao da Operao Pixuleco, em agosto de 2015. 4 de 140
  5. 5. MINISTRIO PBLICO FEDERAL PROCURADORIA DA REPBLICA EM SO PAULO 12.850/2013), corrupo ativa (art. 333 do Cdigo Penal), corrupo passiva (art. 317), lavagem de dinheiro (art. 1, 4, da Lei 9613/1998) e obstruo investigao de organizao criminosa (art. 2, 1, da Lei 12.850/2013). O esquema global pode ser resumido da seguinte forma: 2. Organizao criminosa Apurou-se que, entre 2009 e no mnimo agosto de 2015, em So Paulo, Curitiba, Braslia e Pernambuco, PAULO BERNARDO SILVA, GUILHERME DE SALLES GONALVES, MARCELO MARAN, JOO VACCARI NETO, ALEXANDRE ROMANO, NELSON LUIZ OLIVEIRA FREITAS, WASHINGTON LUIZ VIANA, PABLO KIPERSMIT, VALTER SILVRIO PEREIRA, DAISSON SILVA PORTANOVA, PAULO ADALBERTO ALVES FERREIRA e NATLIO FRIEDMAN10, juntamente com outras pessoas no objeto da presente imputao, promoveram e integraram organizao criminosa, estruturalmente ordenada e 10 NATLIO FRIEDMAN, como reside nos EUA, ser denunciado em autos apartados. 5 de 140
  6. 6. MINISTRIO PBLICO FEDERAL PROCURADORIA DA REPBLICA EM SO PAULO caracterizada pela diviso de tarefas, com objetivo de obter, direta e indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante a prtica de infraes penais cujas penas mximas sejam superiores a 4 (quatro) anos, em especial corrupo e lavagem de dinheiro. Destaque-se que na referida organizao criminosa h concurso de diversos funcionrios pblicos, valendo-se a organizao criminosa dessa condio para a prtica de suas infraes penais. De maneira geral, vejamos como se organizava a organizao criminosa e a participao j identificada de cada um dos partcipes. Para a compreenso do esquema criminoso, pode-se dividir a participao dos integrantes da organizao criminosa em trs ncleos: (i) agentes pblicos vinculados ao MPOG; (ii) agentes polticos; (iii) pessoas vinculadas CONSIST e os parceiros desta. Embora no sejam grupos estanques em verdade, havia uma simbiose e contatos recprocos entre os ncleos importante para permitir melhor compreenso do esquema. No tocante aos agentes pblicos vinculados ao MPOG, o lder da organizao criminosa, que estava no pice da organizao, era PAULO BERNARDO SILVA, ento Ministro do Planejamento na poca dos fatos (at 2011). Sua participao era to relevante que, mesmo saindo do MPOG em 2011, continuou a receber vantagens indevidas, para si e para outrem, at 2015. PAULO BERNARDO de tudo tinha cincia e agia sempre por intermdio de outros agentes, em especial DUVANIER PAIVA, NELSON DE FREITAS e GUILHERME GONALVES, para no se envolver e no aparecer diretamente. 6 de 140
  7. 7. MINISTRIO PBLICO FEDERAL PROCURADORIA DA REPBLICA EM SO PAULO O ento Ministro era de tudo cientificado e suas decises eram executadas sobretudo por intermdio de DUVANIER PAIVA, Secretrio de Recursos Humanos no MPOG, seu subordinado. DUVANIER, ento, repassava as ordens diretamente a NELSON DE FREITAS, assim como era a interfa