Contos de fada von franz

  • View
    43

  • Download
    3

Embed Size (px)

Text of Contos de fada von franz

  1. 1. http://groups.google.com/group/digitalsource
  2. 2. 6 Marie-Louise von Franz A SOMBRA E O MAL NOS CONTOS DE FADA Paulus
  3. 3. 7 Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Von Franz, Marie-Louise, 1915- V913s A sombra e o mal nos contos de fada / Marie-Louise Von Franz; [traduo Maria Christina Penteado Kujawski]. So Paulo : Paulus, 1985. (Coleo amor e psique) ISBN 85-349-2044-3 1. Contos de fadas Classificao 2. Contos de fadas Histria e crtica 3. Simbolismo (Psicologia) I. Ttulo. 17. e18. CDD-398.21 17.-301.2 85-0238 18.-301.21 Indices para catlogo sistemtico: 1. Contos de fadas : Classificao : Literatura folclrica 398.21 (17. e 18.) 2. Estrias de fadas : classificao : Literatura folclrica 398.21 (17. e 18.) 3. Simbolismo : Aspectos psicolgicos : Processos culturais : Sociologia 301.2 (17.) 301.21 (18.) Coleo AMOR E PSIQUE dirigida por Dr. Lon Bonaventure, Pe. Ivo Storniolo, Dra. Maria Elci Spaccaquerche Ttulo original Shadow and Evil in Fairytales Marie-Louise von Franz Traduo Maria Christina Penteado Kujawski Reviso tcnica Christiana de Caldas Brito Papel Chamois Fine Dunas 70g/m2 Impresso e acabamento PAULUS 3a edio, 2002 PAULUS-1985 Rua Francisco Cruz, 229 04117-091 So Paulo (Brasil) Fax (11) 5579-3627 Tel. (11) 5084-3066 www.paulus.com.br editorial@paulus.com.br ISBN 85-349-2044-3
  4. 4. 8 INTRODUO COLEO AMOR E PSIQUE Na busca de sua alma e do sentido de sua vida o homem descobriu novos caminhos que o levam para a sua interioridade: o seu prprio espao interior torna-se um lugar novo de experincia. Os viajantes destes caminhos nos revelam que somente o amor capaz de en-gendar a alma, mas tambm o amor precisa da alma. Assim, em lugar de buscar causas, explicaes psicopato-lgicas s nossas feridas e aos nossos sofrimentos, precisamos, em primeiro lugar, amar a nossa alma, assim como ela . Deste modo que poderemos reconhecer que estas feridas e estes sofrimentos nasceram de uma falta de amor. Por outro lado revelam-nos que a alma se orienta para um centro pessoal e transpessoal, para a nossa unidade e a realizao de nossa totalidade. Assim a nossa prpria vida carrega em si um sentido, o de restaurar a nossa unidade primeira. Finalmente, no o espiritual que aparece primeiro, mas o psquico, e, depois, o espiritual. a partir do olhar do imo espiritual interior que a alma toma seu sentido, o que significa que a psicologia pode de novo estender a mo para a teologia. Esta perspectiva psicolgica nova fruto do esforo para libertar a alma da dominao da psicopatologia, do esprito analtico e do psicologismo, para que volte a si mesma, sua prpria originalidade. Ela nasceu de reflexes durante a prtica psicoterpica, e est comeando a renovar o modelo e a finalidade da psicoterapia. uma nova viso do homem na sua existncia cotidiana, do seu tempo, e dentro de seu contexto cultural, abrindo dimenses diferentes de nossa existncia para podermos reencontrar a nossa alma. Ela poder alimentar todos aqueles que so sensveis necessidade de colocar mais alma em todas as atividades humanas. A finalidade da presente coleo precisamente restituir a alma a si mesma e "ver aparecer uma gerao de sacerdotes capazes de entenderem novamente a linguagem da alma" como C. G. Jung o desejava.
  5. 5. 9 ESCLARECIMENTO O texto deste livro foi extrado de duas series de conferncias realizadas por Marie-Louise von Franz no Insitituto C. G. Jung de Zurique; a primeira, o Problema da Sombra nos Contos de Fada, durante o Inverno de 1957 e a segunda, Lidando com o Mal nos Contos de Fada, no inverno de 1964. O estilo coloquial de comunicao foi essencialmente mantido. Somos gratos a Una Thomas pela transcrio destas conferncias.
  6. 6. 1 PRIMEIRA PARTE O PROBLEMA DA SOMBRA NOS CONTOS DE FADA
  7. 7. 1 1 A sombra e conto de fada Antes de entrarmos em contato com o nosso material, devemos precisar com clareza a definio de sombra em psicologia, pois ela pode variar bastante e no to simples como supomos. Geralmente, na psicologia junguiana, definimos sombra como a personificao de certos aspectos inconscientes da personalidade que poderiam ser acrescentados ao complexo do ego mas que, por vrias razes, no o so. Poderamos portanto dizer que a sombra a parte obscura, a parte no vivida e reprimida da estrutura do ego, mas isso s parcialmente verdadeiro. Jung criticava seus alunos quando estes se apegavam aos seus conceitos de maneira literal, fazendo deles um sistema, e quando o citavam sem saber exata-mente do que falavam. Numa discusso acabou por dizer: "Isto no tem sentido, a sombra simplesmente todo o inconsciente". Acrescentou que tnhamos esquecido como essas coisas haviam sido descobertas e vividas pelo indivduo e que sempre preciso pensar na condio atual do paciente. Se vocs tentarem explicar alguns processos no aparentes e inconscientes a algum, que no conhece nada de psicologia e inicia uma anlise, isto a sombra para ele. Assim numa primeira etapa de abordagem do inconsciente, a sombra simplesmente um nome "mitolgico", aquilo que me diz respeito mas que no posso conhecer diretamente. Somente quando comeamos a penetrar a esfera da sombra da personalidade, investigando seus diferentes aspectos, que surge nos sonhos, depois de um certo tempo, uma personificao do incons-
  8. 8. 1 ciente, do mesmo sexo que o sonhador. Mas depois o paciente descobrir que ainda existe, nessa rea desconhecida, um outro tipo de reao chamada anima (ou nimus) representando sentimentos, estados de esprito, ideias etc. Abordaremos tambm o conceito do Self. Por razoes prticas, Jung no achou necessrio se estender alm destas trs etapas. Muitas pessoas permanecem num impasse quando o problema no apenas questo de teoria, mas de prtica. Integrar a anima ou o nimus uma obra de arte e ningum pode se vangloriar de t-lo conseguido. Por isso, quando falamos de sombra devemos ter bem explcita a situao pessoal do indivduo em questo, inclusive seu nvel especfico de conscincia e percepo interior. Assim, numa primeira fase, podemos dizer que a sombra tudo aquilo que faz parte da pessoa mas que ela desconhece. Geralmente, quando investigamos a sombra, descobrimos que consiste em parte de elementos pessoais e em parte de elementos coletivos. Praticamente, nesse primeiro contato, a sombra apenas um conglomerado de aspectos em que no conseguimos definir o que pessoal e o que coletivo. Exemplificando, digamos que uma pessoa tem pais de diferentes temperamentos, dos quais herdou algumas caractersticas que, por assim dizer, no se misturam bem quimicamente. Por exemplo, uma vez tive uma ana-lisanda que herdou do pai um temperamento inflamvel e brutal, e da me uma grande suscetibilidade. Como poderia ela ser as duas pessoas ao mesmo tempo? Se algum a contrariasse ela se defrontava com duas reaes opostas. Existem possibilidades opostas numa criana que no se harmonizam entre si. Geralmente, no decorrer de seu desenvolvimento, uma escolha feita, de modo que um lado fica mais ou menos consolidado. Sempre escolhendo uma qualidade e preferindo uma determinada atividade em detrimento de outra, atravs da educao e dos hbitos, estas acabam se tornando uma "segunda natureza"; as outras qualidades continuam a existir, s que debaixo do pano. A sombra se constri a partir dessas qualidades reprimidas, no aceitas ou no
  9. 9. 1 admitidas porque incompatveis com as que foram escolhidas. relativamente fcil reconhecer esses elementos e isto que chamamos "tornar a sombra consciente", atravs de uma certa dose de insight, com a ajuda de sonhos e assim por diante e normalmente nesse ponto que a anlise interrompida. Mas isto no significa o trmino de um trabalho, pois da vem um problema muito mais difcil, diante do qual a maioria das pessoas encontra grande dificuldade: elas sabem o que a sua sombra mas no conseguem express-la ou integr-la em suas vidas. Naturalmente a mudana no agrada s pessoas de seu meio, pois isto significa que elas tambm tm que se readaptar. Uma famlia ficaria simplesmente furiosa se um membro at ento doce e cordato de repente se tornasse agressivo, dizendo No s suas ordens. Isso conduz a muitas crticas e o ego da pessoa em ques- to tambm se ressente da situao. A integrao da sombra poder no dar certo e o problema chegar ento a um impasse. um ato de grande coragem enfrentar e aceitar uma qualidade que no nos agradvel, que se escolheu esconder por muitos anos. Mas se a pessoa decidir no aceit-la, acabar sendo apanhada pelas costas. Uma parte do problema enxergar e admitir a existncia da sombra, constatar que alguma coisa acon- teceu, que algo irrompeu; mas o grande problema tico surge quando se decide expressar a sombra consciente-mente. Isso requer grande cuidado e reflexo, para que no se produza uma reao perturbadora. Gostaria de lhes dar um exemplo disso. Pessoas do tipo sentimento esto sempre prontas a serem cruis e mesquinhas ao julgar seus amigos. Por um lado se sentem bem com as pessoas mas, por dentro e por trs, so capazes de ter pensamentos e julgamentos extremamente negativos a seu respeito. Outro dia eu estava num hotel com uma pessoa do tipo sentimento. Eu sou do tipo pensamento e acontece que estava com uma tremenda pressa quando a avistei, de modo que apenas a cumprimentei rapidamente. Da ela achou que
  10. 10. 1 eu a odiava, que estava furiosa com ela e que no queria passar o dia em sua companhia, que eu era uma pessoa fria e insocivel etc. De repente o tipo sentimento passou a ter pensamentos negativos, com toda uma explicao para o fato de eu t-la cumprimentado apressadamente. No estgio inicial a sombra todo o inconsciente um acmulo de emoes, julgamentos e assim por diante. Vocs poderiam achar que minha amiga foi envolvida pelo pensamento negativo do nimus mas o que aconteceu realmente foi uma exploso de pensamentos negativos (neste caso a funo inferior), emoo brutal (sombra) e alguns julgamentos destrutivos (neste caso o nimus