Antologia poética drummond

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  • posfcio

    Antonio Cicero

    cArLOs drummONd de ANdrAde ANTOLOGIA POTIcAOrGANIzAdA PeLO AuTOr

  • Carlos Drummond de Andrade Graa Drummond www.carlosdrummond.com.br

    Grafia atualizada segundo o Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.

    capa e projeto grfico

    warrakloureirosobre So Joo (Paisagem imaginria), de Alberto da Veiga Guignard, 1961, leo sobre tela, 49,5 x 39,5 cm. Coleo particular. Reproduo: Felipe Hellmeisterpesquisa iconogrfica

    Regina Souza Vieiraestabelecimento de texto

    Antonio Carlos Secchinpreparao

    Lo Rubensreviso

    Huendel VianaAna Luiza Couto

    [2012]Todos os direitos desta edio reservados editora schwarcz s.a.Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 3204532-002 So Paulo spTelefone (11) 3707-3500Fax (11) 3707-3501www.companhiadasletras.com.brwww.blogdacompanhia.com.br

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (cip)(Cmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

    Andrade, Carlos Drummond de, 1902-1987.Antologia potica / Carlos Drummond de Andrade;

    organizada pelo autor. 1a ed. So Paulo: Companhia das Letras, 2012.

    isbn 978-85-359-2119-9

    1. Poesia brasileira Coletneas i. Ttulo.

    12-05896 cdd-869.9108

    ndice para catlogo sistemtico:1. Poesia: Antologia: Literatura brasileira 869.9108

  • Sumrio

    Informao

    um eu todo retorcido 19 Poema de sete faces 21 Soneto da perdida esperana 22 Poema pattico 23 Dentaduras duplas 26 A bruxa 28 Jos 30 A mo suja 32 A flor e a nusea 34 Consolo na praia 35 Idade madura 38 Versos boca da noite 41 Indicaes 44 Os ltimos dias 48 Aspirao 49 A msica barata 50 Estrambote melanclico 51 Nudez 53 O enterrado vivo

    uma provncia: esta 57 Cidadezinha qualquer 58 Romaria 60 Confidncia do itabirano 61 Evocao mariana 62 Cano da Moa-Fantasma de Belo Horizonte 65 Morte de Neco Andrade 67 Estampas de Vila Rica 70 Prece de mineiro no Rio

  • a famlia que me dei 75 Retrato de famlia 77 Os bens e o sangue 83 Infncia 84 Viagem na famlia 88 Convvio 89 Perguntas 92 Carta 94 A mesa 104 Ser 105 A Luis Mauricio, infante

    cantar de amigos 111 Ode no cinquentenrio do poeta brasileiro 114 Mrio de Andrade desce aos infernos 118 Viagem de Amrico Fac 119 Conhecimento de Jorge de Lima 120 A mo 122 A Federico Garca Lorca 123 Canto ao homem do povo Charlie Chaplin

    na praa de convites 133 Corao numeroso 134 Sentimento do mundo 136 Lembrana do mundo antigo 137 Elegia 1938 138 Mos dadas 139 Congresso Internacional do Medo 140 Nosso tempo 147 O elefante 150 Desaparecimento de Lusa Porto 155 Morte do leiteiro

  • 158 Os ombros suportam o mundo 159 Anncio da rosa 161 Contemplao no banco 164 Cano amiga

    amar-amaro 167 O amor bate na aorta 169 Quadrilha 170 Necrolgio dos desiludidos do amor 172 No se mate 174 O mito 181 Caso do vestido 188 Campo de flores 190 Escada 192 Estncias 193 Ciclo 196 Vspera 198 Instante 199 Os poderes infernais 200 Soneto do pssaro 201 O quarto em desordem 202 Amar 203 Entre o ser e as coisas 204 Tarde de maio 206 Fraga e sombra 207 Cano para lbum de moa 209 Rapto 210 Memria 211 Amar-amaro

  • poesia contemplada 215 O lutador 218 Procura da poesia 220 Brinde no banquete das musas 221 Oficina irritada 222 Poema-orelha 224 Concluso

    uma, duas argolinhas 227 Sinal de apito 228 Poltica literria 229 Os materiais da vida 230 poro 231 Caso pluvioso

    tentativa de explorao e de interpretao do estar-no-mundo 237 No meio do caminho 238 Os mortos de sobrecasaca 239 Os animais do prespio 241 Cantiga de enganar 244 Tristeza no cu 245 Rola mundo 249 A mquina do mundo 253 Jardim 254 Composio 255 Cermica 256 Relgio do Rosrio 258 Domiclio 259 Canto esponjoso 260 O arco 261 Especulaes em torno da palavra homem

  • 266 Descoberta 267 Eterno 269 Maralto 271 A um hotel em demolio 280 A ingaia cincia 281 Segredo 282 Vida menor 283 Resduo 286 Movimento da espada 288 Intimao 289 Canto negro 293 Os dois vigrios 296 Elegia

    299 Posfcio O aprendizado da poesia, antonio cicero 317 Leituras recomendadas 318 Cronologia 324 Crdito das imagens 325 ndice de primeiros versos

  • ANTOLOGIA POTIcA

  • 19

    poema de sete faces

    Quando nasci, um anjo tortodesses que vivem na sombradisse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

    As casas espiam os homensque correm atrs de mulheres.A tarde talvez fosse azul,no houvesse tantos desejos.

    O bonde passa cheio de pernas:pernas brancas pretas amarelas.Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu corao.Porm meus olhosno perguntam nada.

    O homem atrs do bigode srio, simples e forte.Quase no conversa.Tem poucos, raros amigoso homem atrs dos culos e do bigode.

    Meu Deus, por que me abandonastese sabias que eu no era Deusse sabias que eu era fraco.

    Mundo mundo vasto mundo,se eu me chamasse Raimundoseria uma rima, no seria uma soluo.Mundo mundo vasto mundo,mais vasto meu corao.

  • 20

    Eu no devia te dizermas essa luamas esse conhaquebotam a gente comovido como o diabo.

    (ap)

  • 21

    soneto da perdida esperana

    Perdi o bonde e a esperana.Volto plido para casa.A rua intil e nenhum autopassaria sobre meu corpo.

    Vou subir a ladeira lentaem que os caminhos se fundem.Todos eles conduzem aoprincpio do drama e da flora.

    No sei se estou sofrendoou se algum que se divertepor que no? na noite escassa

    com um insolvel flautim.Entretanto h muito tempons gritamos: sim! ao eterno.

    (ba)

  • 22

    poema pattico

    Que barulho esse na escada? o amor que est acabando, o homem que fechou a portae se enforcou na cortina.

    Que barulho esse na escada? Guiomar que tapou os olhose se assoou com estrondo. a lua imvel sobre os pratose os metais que brilham na copa.

    Que barulho esse na escada? a torneira pingando gua, o lamento imperceptvelde algum que perdeu no jogoenquanto a banda de msicavai baixando, baixando de tom.

    Que barulho esse na escada? a virgem com um trombone,a criana com um tambor,o bispo com uma campainhae algum abafando o rumorque salta de meu corao.

    (ba)

  • 23

    dentaduras duplas A Onestaldo de Pennafort

    Dentaduras duplas!Inda no sou bem velhopara merecer-vosH que contentar-mecom uma ponte mvele esparsas coroas.(Coroas sem reino,os reinos protticosde onde proviestesquando produziroa tripla dentadura,dentadura mltipla,a serra mecnica,sempre desejada,jamais possuda,que acabarcom o tdio da boca,a boca que beija,a boca romntica?)

    Resovin! Hecolite!Nomes de pases?Fantasmas femininos?Nunca: dentaduras,engenhos modernos,prticos, higinicos,a vida habitvel:a boca mordendo,os delirantes lbiosapenas entreabertosnum sorriso tcnico,e a lngua especiosa

  • 24

    atravs dos dentesbuscando outra lngua,afinal sossegadaA serra mecnicano tritura amor.E todos os dentesextrados sem dor.E a boca libertadas funes potico--sofstico-dramticasde que rezam filmese velhos autores.

    Dentaduras duplas:dai-me enfim a calmaque Bilac no teve para envelhecer.Desfibrarei convoscodoces alimentos,serei casto, sbrio,no vos aplicando na deleitao convulsade uma carne tristeem que tantas vezeseu me perdi.

    Largas dentaduras,vosso riso largome consolarno sei quantas fomesferozes, secretasno fundo de mim.No sei quantas fomesjamais compensadas.Dentaduras alvas,antes amarelase por que no cromadas

  • 25

    e por que no de mbar?de mbar! de mbar!fericas dentaduras,admirveis presas,mastigando lestase indiferentesa carne da vida!

    (sm)