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O Futuro Das Bibliotecas E O Desenv

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  • 1. O futuro das bibliotecas e o desenvolvimentode colees: perspectivas de atuao para uma realidade em efervescnciaWaldomiro de Castro Santos Vergueiro Discute as perspectivas das bibliotecas no futuro, enfocando especificamente o papel do desenvolvimento de colees nesse novo ambiente. Analisa aspectos relacionados com a permanncia dos meios impressos, a necessidade de intermedirios no fornecimento/obteno de informao e as caractersticas das atividades do desenvolvimento de colees em ambientes de informao eletrnica. 1 Introduo93J se tornou comum ouvir falar no fim das bibliotecas. A literatura em+ +geral, seja a especializada em biblioteconomia e cincia da informao, +seja aquela voltada para o grande pblico, tm divulgado previses que + louvam as delcias de um mundo onde a informao em suporte papel no + passar de uma lembrana ou poder ser encontrada apenas nos museus.+ Da mesma forma, personalidades famosas e conceituadas como Bill GATES + + (1995), fundador e proprietrio da Microsoft Inc., e Nicholas NEGROPONTE+ (1995), diretor do Massachussets Institute of Technology (MIT), criaram + cenrios maravilhosos para um futuro, segundo eles j bastante prximo, no+ qual a informao fluir at os interessados de maneira quase instantnea,+ bastando, para tanto, somente a posse de um computador munido de um + + mouse e de um dispositivo de comunicao. Dentro desse contexto, falar em + desenvolvimento de colees chega mesmo a ter como que um rano de+ saudosismo antecipado. Afinal, esta uma poca efervescente, tanto no nvel+ das idias como no nvel das tecnologias, que surgem e proliferam quase que + num piscar de olhos. Na rea da informao, esse avano ocorreu numa+ + rapidez espantosa, evidenciando um passado que parece apenas corroborar as+ previses, pois, afinal, passamos da biblioteca baseada em papel para a+ biblioteca automatizada em um perodo de cerca de duas dcadas + (SHAUGHNESSY, 1996, p.49). De fato, a revoluo da eletrnica bate s + portas das bibliotecas e centros de informao e parece acenar para muitos+ + + + Professor Doutor do Departamento de Biblioteconomia e Documentao da Escola de Comunicaes e Artes da Universidade de So Paulo + + Perspect. cienc. inf., Belo Horizonte, v. 2, n. 1, p. 93 - 107, jan./jun.1997 + + + + +

2. + + + + +com o destino inexorvel de seu desaparecimento. +Aparentemente, no h mais futuro possvel para essas instituies, +algumas em prdios suntuosos, que armazenam prioritariamente livros etodos os outros materiais de informao produzidos no suporte papel (apesar + + +de que se poderia perguntar sobre os motivos que levam pases como Frana +e Inglaterra a construrem novos e enormes edifcios para abrigar suas +bibliotecas nacionais, edifcios esses que parecem representar mesmo aanttese da biblioteca sem muros que o futuro prenuncia...). Da mesma forma, + no parece haver mais futuro para os profissionais responsveis pelos + + +acervos armazenados nas bibliotecas. +Aos imveis, imagina-se, ser provavelmente necessrio encontrar +qualquer outra destinao, certamente alguma mais coetnea com os temposvividos (talvez eles possam ser transformados em centros de convivncia + + +virtual, ou qualquer outra coisa no gnero...). Por sua vez, os responsveis por +todas as tarefas que envolvem o gerenciamento desses acervos -administradores, bibliotecrios, auxiliares e todos os outros profissionais de 94 apoio existentes, - parecem ser tambm candidatos naturais antecipao desua aposentadoria ou ao treinamento para alguma outra atividade, quando taltreinamento seja possvel ou vivel.Sob muitos aspectos, certamente um mundo fascinante esse que sevislumbra no horizonte, no qual os indivduos tero acesso a todas asinformaes de que necessitem realmente (ou mesmo quelas de que jamaisiro ter necessidade alguma). Mas, ao mesmo tempo, tambm um mundode caractersticas algo assustadoras, na medida em que dele ainda no seconhecem nitidamente os contornos ou o quanto o novo ambienterepresentar em termos de ampliao da liberdade de opes (ou mesmo denegao dessa liberdade).J muitas vezes foi lembrada a adequao aos tempos atuais dadescrio feita por Charles DICKENS (1994, p.3) poca da revoluofrancesa em seu livro Hard times, quando se vivia um momento, em suaprocura de novas definies, bastante semelhante ao que vivemos hoje.Como ento, temos, em simultaneidade, o melhor e o pior dos tempos, umapoca de sabedoria e uma poca de idiotice, uma poca de crena e umapoca de incredulidade, uma estao da Luz e uma estao da Escurido.Vivemos, enfim, uma poca que, usando as prprias palavras do autor ingls,deve ser descrita para o bem ou para o mal, apenas em um grau superlativode comparao (DICKENS, 1994, p.3)., sem dvida, um futuro em aparncia sombrio para as instituiestradicionalmente ligadas preservao e disseminao da informao. Neleparece haver pouco espao para a discusso de um assunto como odesenvolvimento de colees, na medida em que este est prioritariamentepreocupado com o gerenciamento dos materiais j armazenados ou a serem Perspect. cienc. inf., Belo Horizonte, v. 2, n. 1, p. 93 - 107, jan./jun.1997 3. armazenados nessas instituies (em um mundo no qual se espera que toda a informao seja transmitida de maneira digital, falar em armazenamento, critrios de seleo, descarte etc. parece at ter nuances de heresia...). O artigo prope-se a discutir o assunto, abordando a realidade das bibliotecas neste final de sculo, bem como as perspectivas de atuao dos profissionais responsveis pelo desenvolvimento de colees num mundo onde as influncias das novas tecnologias parecem, cada vez mais, colocar em xeque a razo da prpria existncia tanto dos profissionais como dos prprios acervos por eles desenvolvidos.2 A informao digitalO profissional da informao, encarado como aquele elemento responsvel pelo recorte e organizao de partes do imenso universo do conhecimento registrado e em disponibilidade, perde aparentemente sua razo de ser quando se pensa que o indivduo comum, com o uso dos meios eletrnicos, poder ele mesmo fazer este recorte, buscando e organizando o95 conhecimento segundo seus interesses e perspectivas pessoais. + Na realidade de uma informao eletrnica onipresente, imagina-se + que cada cidado ser seu prprio profissional da informao. Para tanto, ele + poder contar com a ajuda dos chamados sistemas especialistas, programas + que executam tarefas normalmente desenvolvidas por especialistas: eles+ corporificam conhecimento especializado e a habilidade para utilizar esse + + conhecimento para a soluo de problemas (BATT, 1986, p. 60). Embora + esses sistemas ainda no se encontrem em disponibilidade com o nvel+ necessrio de qualidade da recuperao para tornar real o sonho da+ independncia total na rea informacional, espera-se que possam logo+ ultrapassar suas atuais limitaes. No entanto, ser esse mesmo o futuro que+ + nos espera? Devemos aceitar como irreversveis as previses apocalpticas,+ encarando a perspectiva de um futuro sem bibliotecas, tais como as+ conhecemos hoje, como a nica possvel? Devemos acreditar que as+ bibliotecas virtuais sero a nica realidade disponvel aos habitantes do + + Sculo XXI? + Isto talvez seja um exagero. Existem motivos para se pensar em outras + possveis alternativas, que no significariam o desaparecimento dessas+ instituies por tradio dedicadas preservao e disseminao do + conhecimento. Ao faz-lo, possvel assumir uma atitude no-apaixonada,+ + diferenciando-se daqueles que defendem a permanncia de um meio antigo + simplesmente porque so contrrios a qualquer tipo de novidade. No se trata+ de renegar as mudanas, mas sim de entend-las e contextualiz-las da + forma correta. Nesse sentido, alguns fatores podem ser elencados para + evidenciar a permanncia das fontes de informao impressas em geral: + + + Perspect. cienc. inf., Belo Horizonte, v. 2, n. 1, p. 93 - 107, jan./jun.1997 + + + + 4. + + +a) adequabilidade do livro: o livro extremamente adequado ao objetivo + para o qual foi originalmente criado. Trata-se de um objeto bastante prtico. + + +No necessita de qualquer fonte externa de energia (a no ser que se +considere a luz natural, suficiente para que se possa enxergar as letras +impressas, como uma fonte energtica). porttil, possibilitando suautilizao em qualquer local, com o leitor adotando a posio para uso que lhe + + +oferea maior conforto (a imaginao talvez o nico limite para as +possibilidades de utilizao...). Pode ser utilizado das mais diversas formas, +de acordo com os interesses e objetivos do indivduo, pois nada impede que +algum leia um dicionrio da primeira ltima pgina ou que desfrute de umaobra de fico pela leitura de captulos aleatoriamente escolhidos (como + + +afirma Daniel PENNAC (1993), o leitor tem o direito de ler como lhe aprouver, +podendo iniciar a leitura pelo ponto que bem entender, pular partes, reler +aquelas que lhe pareceram mais interessantes, encerrar a leitura quando bem +lhe apetecer etc). O livro possui, em geral, um preo acessvel para as camadasmdias da populao. relativamente resistente, conservando suas + caractersticas e legibilidade, em circunstncias normais, por tempo bastante 96 longo.Os argumentos acima, deve-se reconhecer, pesam fortemente emfavor da permanncia do livro. Alm disso, importante salientar que astecnologias computacionais, ao invs de prejudicar a produo de livros,tornou-a, pelo contrrio, mais eficiente. Como dizem CRAWFORD &GORMAN (1995, p.18), os livros so o resultado de uma tecnologia altamenterefinada - a impresso - desenvolvida por vrios anos e que obteve maiorcusto-efetividade e tornou-se mais apropriada pela tecnologia de computadorde hoje.HAGLOCH (1996, p.150) defende que os livros so simples e maisconfortveis para a leitura prolongada. CRAWFORD & GORMAN (1995) voainda mais, longe na mesma idia, afirmando que os livros so o meiosuperior de comunicao de conhecimento e de grandes acumulaes deinformao destinadas a ser lidas de maneira linear. Os livros deveriam, equase certamente iro, sobreviver e prosperar exatamente por essas