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    millenium

    Sumrio | Sumario | Summary

    EDITORIAL 5

    A EXPRESSO DO ESPAO NA POESIA DE ANTNIO CABRAL THE EXPRESSION OF SPACE IN THE POETRY OF ANTNIO CABRAL

    Henriqueta Gonalves 9-31

    A INSLITA CADEIRA DE JOS SARAMAGO: QUASE OBJETO? JOS SARAMAGOS UNUSUAL CHAIR: ALMOST OBJECT?

    Marisa Martins Gama Khalil 33-44

    A REPRESENTAO DO ESPAO HETEROTPICO NO CONTO VENHA VER O PR-DO-SOL E O ESPAO DA ESCRITA ONRICA EM DDALO THE REPRESENTATION OF THE HETEROTOPIC SPACE IN THE SHORT STORY VENHA VER O PR-DO-SOL AND THE DREAMLIKE WRITING SPACE IN DDALO

    Ftima Leonor Sopran 45-55

    A TRANSFORMAO DO ESPAO DISCURSIVO EM ANTNIO GEDEO: DA DELIMITAO REFERENCIAL DA CINCIA SINGULARIZAO VITAL DA ARTE THE TRANSFORMATION OF THE DISCURSIVE SPACE IN ANTNIO GEDEO: FROM THE BENCHMARK DEFINITION OF SCIENCE TO THE VITAL SINGLING OF ART Igor Rossoni 57-67

    ARQUITECTURA(S) DA CASA NA NARRATIVA PARA A INFNCIA HOUSE ARCHITECTURE(S) IN NARRATIVES FOR CHILDREN Sara Raquel Duarte Reis Silva 69-78

    ESPAO E MEMRIA EM CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE SPACE AND MEMORY IN CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE Moema de Souza Esmeraldo 79-94

    Journal of Education, Technologies, and Health

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    ESPAO LITEROLINGUSTICO EM DOM CASMURRO DE MACHADO DE ASSIS LITEROLINGUISTIC SPACE IN MACHADO DE ASSISS DOM CASMURRO Jorge Leite de Oliveira 95-107

    O DRAMA DA GEOMETRIA NTIMA EM O AGRESSOR, DE ROSRIO FUSCO THE DRAMA OF INTIMATE GEOMETRY IN O AGRESSOR, BY ROSRIO FUSCO Marta Dantas da Silva 109-122

    O ESPAO NTIMO EM VIAGEM A PORTUGAL, DE JOS SARAMAGO THE INTIMATE SPACE IN VIAGEM A PORTUGAL, BY JOS SARAMAGO Daniel Cruz Fernandes 123-130

    PAISAGENS DO ONTEM E DO HOJE: A QUEDA DO MUNDO RURAL E PATRIARCAL E O CRESCIMENTO DA CIDADE EM ADEUS, VELHO, DE ANTNIO TORRES LANDSCAPES OF YESTERDAY AND OF TODAY: THE FALL OF THE RURAL AND PATRIARCHAL WORLD AND THE GROWTH OF THE CITY IN ADEUS, VELHO BY ANTNIO TORRES Regina Clia dos Santos Alves 131-149

    REFUNDAO DA NAO POLONESA E A REINVINDICAO SIMBLICA DE UM TERRITRIO NA FAZENDA POLNIA NO SERTO DE GOIS, INTERIOR DO BRASIL REFOUNDING OF THE POLISH NATION AND THE SYMBOLIC REVINDICATION OF A TERRITORY ON THE FARM POLNIA IN THE COUNTRYSIDE OF GOIS, BRAZIL INLAND Jucelino de Sales 151-177

    ELOS E DISSONNCIAS: ESPAOS FANTSTICOS NA PINTURA E EM TEXTOS DO SURREALISMO LINKS AND DISSONANCES: FANTASTIC SPACES IN PAINTING AND IN SURREALIST TEXTS Maria Joo Albuquerque Figueiredo Simes 179-194

    THE EARLY MODERNISM OF HENRY JAMES: EPIPHANY AND SPATIAL INTRODUCTION IN THE AMBASSADORS O MODERNISMO PRECOCE DE HENRY JAMES: EPIFANIA E INTRODUO ESPACIAL EM THE AMBASSADORS Natasha Vicente da Silveira Costa 195-209

  • Simes, Maria Joo (2016). Elos e Dissonncias: Espaos Fantsticos na Pintura e em Textos do Surrealismo. Millenium, 50-A (setembro). Pp. 179-194.

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    ELOS E DISSONNCIAS: ESPAOS FANTSTICOS NA PINTURA E EM TEXTOS DO SURREALISMO

    LINKS AND DISSONANCES: FANTASTIC SPACES IN PAINTING

    AND IN SURREALIST TEXTS

    MARIA JOO ALBUQUERQUE FIGUEIREDO SIMES 1

    1 Doutora em Literatura Portuguesa; professora auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

    (e-mail: mjafsimoes@me.com)

    Resumo

    Este estudo tem como objetivo destrinar diferentes

    figuraes espaciais exploradas por artistas surrealistas na

    poesia, em pictopoemas, nos manifestos e em alguns quadros.

    Observa-se como a vida do dia-a-dia mais a rotina quotidiana,

    com os seus objetos e os seus espaos prprios, so

    representados no Surrealismo, e ainda o modo como essas

    representaes subvertem o entendimento comum ou

    tradicional das relaes entre espaos e objetos. Analisam-se

    certos procedimentos de transformao surreal dos espaos e o

    modo de transfigurar os objetos pelo poder da imaginao

    criativa e inferem-se os novos sentidos que emergem das

    analogias, conjugaes e sobreposies observveis nas

    produes artsticas de A. ONeill, Cesariny, Cruzeiro Seixas

    e outros artistas. Depreende-se que a valorizao do espao,

    por distenso ou por restrio interiorista, atinge a prpria

    expresso do tempo que se expande ou encolhe, criando uma

    nova geografia gerada pela capacidade de criar e inventar.

    Palavras-chave: Surrealismo portugus, espao, tempo,

    imaginao.

    Abstract

    In this study the aim is to unravel different spatial

    compositions explored by surreal artists in poetry, pictopoems,

    manifestos and some paintings. The research will consider the

    representation of everyday life in surrealist works of art and

    also the depiction of daily routines involving their objects and

    spaces, as well as the way in which these representations

    subvert the common or traditional understanding of

  • Simes, Maria Joo (2016). Elos e Dissonncias: Espaos Fantsticos na Pintura e em Textos do Surrealismo. Millenium, 50-A (setembro). Pp. 179-194.

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    relationships between spaces and objects. The analysis will

    focus on some procedures of surreal transformation of spaces

    and several modes of representation of objects that are

    transfigured by the power of creative imagination. The new

    meanings that emerge from the analogies, combinations and

    superpositions that can be found in the artistic production of

    A. ONeill, Cesariny, Cruzeiro Seixas and other artists will

    be scrutinized. It can be concluded that the

    importance attributed to space by surrealists, either by

    distension or restriction, influences the expansion or

    contraction of time, creating a new geography produced by

    their imagination.

    Keywords: Portuguese surrealism, space, time, imagination.

    Prembulo

    Entre as mltiplas questes contemporneas suscitadoras de debate, poder

    destacar-se uma que ocupou os pensadores desde a Antiguidade e se revela de grande

    premncia hoje: a questo da contaminao vs separao do espao pblico e do espao

    privado. Os meios de comunicao, utilizados por ns todos os dias, mostram-nos que

    h uma espcie de irrupo do privado, do pessoal, nos cenrios pblicos, segundo as

    palavras do pensador Daniel Innerarity (2010: 31). A permeabilidade destas fronteiras,

    embora se acentue claramente nos nossos dias, vem sendo criada h vrias dcadas

    numa clara dependncia da valorizao do presente, do quotidiano, da imagem e do

    efmero.

    Se acreditarmos na ideia fundamental da obra Everyday Life Theories and

    Practices Surrealism Present, de Michael Sheringham, os surrealistas concorreram para

    esta valorizao do presente conseguido pelo olhar atento concedido ao quotidiano,

    imanncia e aos detalhes da vida do dia a dia.

    No se trata, no que concerne esttica surrealista, de uma mera valorizao

    do acidental ou do que est superfcie, mas sim da conectividade estabelecida entre a

    perceo real dos fenmenos e a imaginao de outros, pois os surrealistas procuraram,

    incansavelmente, analogias inusitadas criando imagens novas. Assim, no caso da arte

    surrealista, toda a imagem deve ser entendida numa dimenso esttica de longo alcance,

    explorando o valor intersubjetivo por ela carreado, no sentido salientado por Bachelard,

    quando afirma:

    Assim, a imagem potica, acontecimento do logos, para ns inovadora.

  • Simes, Maria Joo (2016). Elos e Dissonncias: Espaos Fantsticos na Pintura e em Textos do Surrealismo. Millenium, 50-A (setembro). Pp. 179-194.

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    No a tomamos mais como "objeto". Sentimos que a atitude "objetiva" do

    crtico sufoca a "repercusso", recusa, por princpio, a profundidade (...).

    (...) o psicanalista intelectualiza a imagem. (...) Para o psicanalista, a

    imagem potica tem sempre um contexto. Interpretando a imagem, ele a

    traduz em outra linguagem que no o logos potico. (...) Admitindo uma

    imagem potica nova, experimentamos seu valor de intersubjetividade.

    Sabemos que repetiremos para comunicar nosso entusiasmo. (...)

    Considerada na transmisso de uma alma para outra, v-se que uma

    imagem potica escapa s pesquisas de causalidade. (...)

    Na primeira indagao fenomenolgica sobre a imaginao potica, a

    imagem isolada, a frase que a revela, o verso, ou s vezes a estncia, ou a

    imagem potica que brilha, formam espaos de linguagem que uma

    topoanlise deveria estudar.

    (Bachelard, 1989: 8, 12)

    Na verdade, arte instaura essa dimenso intersubjetiva que j Fernando Pessoa

    aprofundara ao defender o Sensacionismo, como se pode ver pela forma como exps os

    seus princpios e a complexidade conteudstica da sensao:

    Princpios do sensacionismo

    1. Todo o objecto uma sensao nossa.

    2. Toda a arte a converso duma sensao em objecto.

    3. Portanto, toda a arte a converso duma sensao numa outra

    sensao.

    (Pessoa, 1966, 168)

    Os surrealistas levaram mais longe ainda este processo que pela procura de

    converses inusitadas quer pela criao de objetos artsticos quer suscitam novas

    sensaes. Estas novas sensaes so alcanadas principalmente atravs da

    desconstruo das suas ligaes espaciais mais vulgares comuns e, simultaneamente,

    atravs da emergncia de uma nova insero ambiental dos objetos e das sensaes por

    eles suscitadas (entendendo-se, aqui, a expresso ambiental como uma soma de espao e

    de ethos).

    Pode mesmo dizer-se que os surrealistas expressaram um enorme rol de

    sensaes espaciais inventivamente novas que, embora sejam aqui analisadas

    separadamente, na verdade, nas obras de arte, surgem obviamente misturadas em

    diversas combinatr