10.1590/s0103-40142017.3190005 A inovação, o ... ?· de economia, gestão e educação, ... • Surgimento…

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inovao, enquanto derivada do conhecimento cientfico, fruto de um contnuo que tem na pesquisa e na gerao de novos conhecimentos sua origem e mola propulsora. Ao tentarmos identificar o surgimento da

atividade de pesquisa, seja ela cientfica, seja tecnolgica, a evoluo da rea de cincia e tecnologia e o momento em que a inovao passa a ser determinante do desenvolvimento econmico, percebemos que esses movimentos no so lineares e ocorreram em diversas direes, nos diferentes pases.

Nas ltimas dcadas tendemos a ver o fluxo entre cincia, tecnologia e inovao como um contnuo linear, onde a inovao resultante direta da tec-nologia, que por sua vez deriva da cincia. Essa viso do processo de pesqui-sa, que gera os impactos no processo de desenvolvimento econmico e social, como mostra a histria, nunca foi linear, nem mesmo na atualidade.

As relaes entre cincia, tecnologia, inovao e desenvolvimento so in-terativas, simultneas e complexas, tendo as pessoas como principal fora pro-pulsora de um ciclo virtuoso, a pesquisa como base, a inovao como vetor e o desenvolvimento como consequncia.

Nesse sentido, este artigo aborda conceitos de inovao, seus principais impactos na educao superior e o papel no desenvolvimento da sociedade do conhecimento neste sculo XXI.

Inovao: uma reflexo inicialA inovao hoje est presente na sociedade, em todas as reas e segmentos.

Muitos confundem inovao com novas ideias, belas concepes e teorias do que fazer ou como algo deveria ser. Normalmente a mudana em si, a constru-o do novo, no est associada. Inovao mais do que a ideia, ideia aplica-da, executada. Os processos, os produtos, a sociedade, o mundo transformado, melhorado, recriado. Inovador no quem tem boas ideias, inovador quem tem a capacidade de, com uma boa ideia nas mos, transformar o mundo a seu redor, agregando valor, seja econmico, social, ou pessoal. Enfrentar e vencer os desafios, transformar, criar o novo.

Ao longo da histria, desde a Idade Mdia, usa-se o termo inovao, seja para novas formas e tcnicas de desenvolver trabalhos artsticos (como na renas-cena italiana nos sculos XV e XVI), seja nas revolues industriais na Inglaterra e Alemanha (nos sculos XVIII e XIX), seja na revoluo das tecnocincias, em especial nos Estados Unidos, no sculo XX. A inovao foi largamente abordada

A inovao, o desenvolvimentoe o papel da Universidade

AJORGE AUDY I

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por Schumpeter, desde uma perspectiva econmica e seu impacto nas empresas. Desde o final do sculo XX a inovao transbordou dos laboratrios cientficos e tecnolgicos nas universidades e nas empresas para a sociedade, emergindo novos conceitos, como os de inovao social e inovao aberta.

Em busca de uma definioConsiderando as mltiplas definies de inovao, com vertentes das reas

de economia, gesto e educao, agregando uma viso mais prtica, pode-se definir inovao como a efetiva implementao, com sucesso (valor agregado), de novas ideias, em um determinado contexto.

Uma ideia pode ser inteiramente nova ou envolver a aplicao de ideias j existentes, mas que so novas para um determinado contexto, bem como uma combinao entre as duas formas. A efetiva implementao envolve a ao de realizar, a explorao da ideia inicial, ou seja, associa a noo de realizao, de colocar em prtica, no mundo real, a ideia. Gerando resultado efetivo, agregan-do valor no contexto de seu uso. Esse valor pode ser econmico, mas tambm social, cientfico, cultural. Essa agregao de valor (com sucesso) ocorre quan-do uma nova empresa criada e gera empregos e renda, tambm quando um novo kit de diagnstico de doena desenvolvido e salva vidas, ou quando uma interveno social ocorre em um ambiente vulnervel e ocorrem melhoras na qualidade de vida de uma comunidade.

Nesse sentido, inovao envolve a criao de novos projetos, conceitos, formas de fazer as coisas, sua explorao comercial ou aplicao social e a con-sequente difuso para o restante da economia ou sociedade. A inovao sempre deve ser analisada em um determinado contexto, pois o que pode ser considera-do inovao em um contexto pode no ser em outro.

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Tipos de inovaoA inovao pode ser (a) incremental ou (b) disruptiva.

a) A inovao incremental gera melhorias contnuas e sustentao nas di-versas fases do ciclo de vida de um produto ou processo, envolve me-lhorias, normalmente modestas e sempre no mesmo patamar tecnol-gico no qual se aplica. Nesse sentido, gera melhorias incrementais nos indicadores de desempenho ou qualidade onde se aplicam.

b) A inovao disruptiva est associada s mudanas radicais, de ruptura com os paradigmas vigentes, gerando um novo patamar tecnolgico onde se aplica, abrindo toda uma nova gama de possibilidades de de-senvolvimento e novos ciclos de inovao incremental, visando sua sus-tentao no tempo. As inovaes disruptivas so dramticas, criando novas demandas, indstrias, mercados, aplicaes e processos, econ-micos ou sociais. Gera melhorias significativas, exponenciais, nos indi-cadores de desempenho ou qualidade onde se aplicam.

A inovao disruptiva na educao superiorPodemos identificar, no contexto deste artigo, trs exemplos sobre ino-

vao disruptiva no contexto da educao superior, ao longo dos ltimos anos, com profundo impacto no presente e futuro das universidades: (a) as tecnolo-gias online de aprendizagem, (b) as mudanas no perfil dos empregos no mundo do trabalho e a educao continuada (long life learning), e (c) a terceira misso e a atuao como vetor do desenvolvimento econmico e social. Na sequncia abordaremos os trs exemplos, analisando os potenciais impactos, qual a tec-nologia ou abordagem rompedora e as desafios e oportunidades decorrentes, concluindo com o tema central deste artigo.

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a) Tecnologias online de aprendizagemDesde a inveno da imprensa por Guttenberg no sculo XV, que viabi-

lizou a impresso de livros em grandes quantidades, vivemos a maior transfor-mao na rea de educao. Essa transformao radical na rea de educao tem como vetor uma tecnologia disruptiva: as tecnologias online de aprendizagem. Essa tecnologia disruptiva gera um potencial de mudana que se torna inevi-tvel, ou seja, independentemente da anlise feita pelos atores da rea de edu-cao, a mudana decorrente ser radical, rompendo com o modelo anterior e gerando transformaes significativas na rea, que mudar inevitavelmente. Por essas caractersticas, vivemos um perodo de inovao disruptiva da educao.

Pelas lentes da inovao disruptiva, as instituies de educao esto em uma encruzilhada, ou incorporam essa inovao, ou sero superadas ou desa-fiadas pelas novas instituies que surgem ou por aquelas que incorporam essas novas tecnologias. A inovao disruptiva envolve romper com o status quo, es-tabelecer a mudana. Nesse contexto, emerge a maior barreira: a resistncia a mudanas, seja por parte das pessoas envolvidas no processo, seja pelas prprias instituies, que em ltima instncia so representadas pelas pessoas tambm, na atuao de seus gestores.

Essa resistncia, sempre presente em qualquer processo de mudana, se potencializa quando a tecnologia rompedora gera uma transformao mais forte do modelo vigente. Na rea de educao emergem motivos variados para justifi-car a manuteno do status quo e no mudar. Justificativas que representam esta averso mudana, incorporao do novo, tais como:

Por que mudar? Funcionou to bem at hoje... Se mudar o fim! Cultura do medo... Se mudar, no me responsabilizo... Pode tentar, mas j aviso, outros tentaram antes e no funcionou... Pode mudar, desde que no mude nada que estamos fazendo to bem

nos ltimos anos...

Podemos enunciar um princpio bsico para a anlise da oportunidade (ou no) da mudana: se a equipe de gesto acredita que os fatores de sucesso das ltimas dcadas no sero os mesmos das prximas dcadas, a mudana j deve-ria ter comeado. Se, ao contrrio, a equipe de gesto entende que os fatores de sucesso no futuro sero os mesmos que garantiram o sucesso no passado, no faz sentido a mudana.

Ainda nesse mesmo exemplo, podemos identificar outros momentos na histria em que ocorreram grandes transformaes disruptivas na rea de edu-cao:

Surgimento das escolas, na antiguidade clssica, na Grcia; Livro impresso, na Europa no sculo XV; Tecnologias online de aprendizagem, sculo XXI.

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Esse exemplo permite explorar diversos aspectos relevantes com relao inovao, como a importncia de uma Instituio ter a capacidade de ava-liar continuamente a incorporao de inovaes incrementais (de sustentao) e inovaes disruptivas, estabelecendo ciclos, que reflitam e respeitem a misso, a viso de futuro e os valores institucionais. Esse balano entre inovao incre-mental e disruptiva importante, em especial para as instituies lderes em seus segmentos de atuao, pois essas tendem a reforar seu domnio por meio de inovaes incrementais, mas, em comparao com as novas entrantes ou institui-es mais inovadoras, so conservadoras e ineficazes na explorao de inovaes disruptivas.

A inovao de sustentao faz as coisas melhores e maiores, no mesmo paradigma vigente, enquanto a inovao disruptiva rompe o ciclo melhor e maior, buscando, potencialmente, oferecer algo inicialmente menos melhor e maior, mas mais ajustado ao novo ambiente e fcil de usar, muitas vezes com um custo e uma complexidade menor. Esse contexto das instituies lderes ou maiores gera uma perigosa sensao de que so as melhores, no correm risco (avessas a risco crescentemente), so autossatisfeitas (com pro-cessos endgenos de autoavaliao positiva) e tornam-se perigosamente caras e complexas. Por essas razes tendem a falhar em responder, ou mesmo se dar conta, que o mundo mudou.

Muitas dessas grande