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A ÉTICA DOS PROFETAS E SUA IMPLICAÇÃO PARA NOSSOS DIAS Um livro escrito pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

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A ÉTICA DOS PROFETAS E SUA

IMPLICAÇÃO PARA NOSSOS

DIAS

Um livro escrito pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

APRESENTAÇÃO

Com entusiasmo especial, apresento as mensagens proferidas pelo Pr.

Isaltino Gomes Coelho Filho.

Agrada-me ver alguém tratar de assuntos bíblicos, principalmente quando

se focaliza o Antigo Testamento, com erudição e objetividade. Num estilo

agradável, vê-se o modelo de exegese histórica e lingüística, fundamentando as

conclusões em detalhes e no todo.

Apesar de sua juventude, o autor já é bem conhecido por seus livros e seu

trabalho como professor e Pastor.

Sou duplamente contemplado com o privilégio de ouvir primeiro, e ler

posteriormente esse texto. Posso afirmar que certamente fará diferença em sua

vida. Nossa consciência cristã não continua a mesma, depois desse encontro.

Principalmente se se tratar de um Ministro de Deus que tem o propósito de realizar

seu trabalho com integridade e seriedade. Esse texto é indispensável nos dias em

que vivemos.

Preocupa-me hoje a proliferação de grupos “proféticos”, com doutrinas

exóticas, enganando o povo e as igrejas, vendendo o “sagrado” como mercadoria

de barganha com Deus, águas e óleos sagrados os mais diversos. A religiosidade

popular está se mostrando uma religião claramente envelhecida, um cristianismo

decadente, sem valores consistentes, corrupto e mercantil, como o que se praticava

na final da Idade Média. Tinham lá seus rituais inócuos, títulos falsos de

indulgências, verdadeiros atestados de corrupção e engano, proliferação das

fantasiosas relíquias sagradas com que se ludibriava a boa fé do povo. Os

sacerdotes, bons e maus, se misturavam nessa teia apodrecida de crendices e

farsas. Aliás, Lutero protestou com um interessante jogo de palavras que

expressam bem esse fato, nas 95 teses, as de número 65 e 66. Diz ele que os

tesouros do evangelho são redes com que, desde a Antigüidade, se pescavam

homens de bem, enquanto as falsas indulgências vendidas e objetos sagrados, eram

uma poderosa rede que pescava os bens de todos os homens.

É estarrecedor o crescimento do mercado do misticismo, inclusive

evangélico, desenvolvido por pessoas treinadas na “vigarice” de enganar o povo,

os “camelôs do poder de Deus”, que vendem óleos e águas santas, à semelhança

das garrafadas de ervas e do “óleo do peixe-boi”. Precisamos de vozes

verdadeiramente proféticas, que falem a mensagem de Deus e rejeitem esses fatos

esdrúxulos.

O texto do Pr. Isaltino apresenta fundamentação bíblica erudita, zelo e

responsabilidade com cada afirmação, seriedade nas propostas, oportunidade da

mensagem, objetividade da linguagem, tratamento respeitoso ao texto bíblico.

Essas é daquelas sementes, como as declaradas na parábola, que precisam

nascer e produzir cento por um. Todavia, havendo aves que as devorem, terrenos

pedregosos que as rejeitem, espinhos e pragas que as sufoquem e pés que as

esmaguem, pelo menos, precisam continuar sendo lançadas; não podem perder seu

valor: a mensagem genuína que brota da Palavra de Deus e da pregação de seus

ministros.

Belo Horizonte, 1 de outubro de 1997

Áder Alves de Assis

PREFÁCIO

À semelhança de meu livro Como Sua Igreja Pode Transformar o Mundo, 1 este também brotou de conferências teológicas proferidas em um seminário

evangélico. Atendendo a um convite da Direção, apresentei ao Seminário

Teológico Batista Mineiro quatro preleções sobre “A ética dos profetas”. A

proposta não era apresentar um estudo exaustivo sobre os profetas nem tratar de

sua ética apenas para aquela época, desvinculada do nosso tempo. Era ver como a

pregação dos profetas afetava nossa vida nos dias de hoje. É, portanto, um livro

que já foi apresentado a seminaristas e professores de Teologia, em forma de

palestras. E que recebeu, em retorno, palavras de observação quanto ao seu

conteúdo. E, a partir daí, depois foi repensado. Não é um produto intempestivo.

Nem algo feito às pressas. Foi compartilhado com outros, antes. E só por isso foi

trazido à publicação.

Para muitas pessoas, o Antigo Testamento é apenas um depósito de

curiosidades históricas. Seu valor para nossos dias, nesta ótica, é nulo. Outros

vêem-no como tendo uma mensagem válida para nossos dias, mas usam-no de

uma forma que, eufemisticamente, pode-se chamar, no mínimo, de “esquisita”.

Alegorizam-no de maneira que nem mesmo os mais conhecidos alegoristas o

fizeram. O episódio de Gideão combatendo e vencendo os midianitas (Jz 7) torna-

se a base hermenêutica para se entregar espadas de plásticos num culto dizendo

que com ela se vencerão as adversidades da vida. A aliança representada por um

pacto de sal (Lv 2.13) se torna a base bíblica para os crentes andarem sobre sal

grosso num culto (prática que o autor vivenciou quando freqüentava terreiro de

umbanda) onde vencerão o Maligno e por aí vai.

Outros mais vêem os profetas como figuras emburradas, mal humoradas,

vivendo de mal com a vida, verberando contra tudo e contra todos. Alguns dos

equívocos desta visão são abordados ao longo do trabalho.

1 Também editado pela Exodus.

A preocupação das palestras foi mostrar como a ética pregada pelos

profetas tem validade para nossa sociedade, nossas igrejas e para os líderes de

nossas comunidades, muito mais os pastores (posto que as preleções foram

pronunciadas num Seminário). É uma ética atual, embora formulada em outra

época. Seus princípios são duradouros e ainda valem para nós.

A receptividade das preleções foi, sem ostentação, acima do que o preletor

pretendia. Não apenas os alunos do curso, mas seus professores e outros pastores,

alguns talvez até mesmo por bondade, mas outros apreciaram, estimularam-me a

colocar as palestras em registro, em forma de livro. Assim elas foram relidas,

tiveram acréscimos que não estavam nos originais, mas que foram desenvolvidos

em citações de momento e postas em forma mais redatorial e menos coloquial,

como sucede com palestras. Tomaram um corpo mais redatorial que de conversa.

Creio que uma das nossas maiores necessidades, presentemente, como

Igreja de Jesus Cristo, é a revalorização da ética. Houve tempo em que ser crente

era encarado pelo próprio mundo com respeito. Os crentes eram considerados

como pessoas austeras, sérias em sua vida, de integridade a toda prova. Uma igreja

evangélica estava acima de qualquer suspeita. Mas hoje, com tantos escândalos de

grupo alegados como evangélicos e de tantos pastores e missionários, a igreja

evangélica se tornou uma das instituições mais desacreditadas perante a sociedade.

E o pior é que, vivendo em um triunfalismo quantitativo, muitos de nós não nos

damos conta disso. A quantificação se tornou uma obsessão e, com isso, a

qualidade passou para um plano inferior. Nossa grandeza deixou de ser em

substância e passou a ser matemática. Ganhamos em número, o que é bom. Mas

perdemos o conteúdo, o que é lastimável.

Recordo-me que, quando seminarista, no Seminário onde estudei, um

missionário inglês pregou em um dos nossos cultos matutinos. Terminada sua fala,

cedeu espaço para eventuais perguntas. Sabendo-se que os batistas ingleses são

bem menos que os norte-americanos, um missionário norte-americano, em tom de

brincadeira, perguntou-lhe:

- Quantos batistas vocês são na Inglaterra?

Todos entenderam o que estava por trás da pergunta e por isso prestaram

atenção no inglês. Este, calmamente, olhando o interlocutor, declarou:

- Meu irmão, na Inglaterra nós não contamos os crentes. Nós os pesamos.

A capela explodiu em risos. Todos entenderam a resposta. Não sei se é

verdade que na Inglaterra há mais preocupação com a consistência do que com a

quantidade, mas a resposta deve nos servir. Precisamos mais pesar do que contar.

Precisamos prestar menos atenção nos números e mais no caráter. É tempo de

restaurar alguns valores que foram deixados para trás na pressa de crescer. Jesus

disse que a porta do céu é estreita e que seriam poucos os que entrariam por ela,

mas alguns estão alargando-a por conta própria. Arrependimento, abandono de

pecado, fé, santidade de vida, valores que sempre nos foram muito preciosos, estão

sendo deixados de lado.

Conta-se que quando Rafael pintava os afrescos do Vaticano, alguns

cardeais pararam por perto dele e reclamaram do seu trabalho:

- O rosto do apóstolo Paulo está vermelho demais - disse um deles.

A resposta de Rafael foi:

- Ele cora ao ver nas mãos de quem está a igreja. 2

Talvez se possa dizer, da mesma forma, que o Senhor Jesus esteja com o

rosto corado de ver escândalos em sua igreja. Vê ele cadeias de rádio e televisão

pretensamente a seu serviço, vê revistas bem apresentadas do ponto de vista

gráfico também pretensamente a seu serviço. Mas por trás de tudo vê competição,

promoção humana, o evangelho sendo vendido e apresentado como pretexto para

caravanas “à terra santa”, para sustento de ministérios pouco confiáveis do ponto

de vista administrativo, vê o mundanismo, a imoralidade, vê malversação

financeira e outras coisas mais, como vaidade, arrogância espiritual e pecados os

mais graves no meio do seu povo.

Há um clamor no mundo por ética. No Brasil, então, nem se fala. Estamos

cansados de políticos corruptos, de deputados que declaram candidamente (ou

cinicamente?) que se venderam, de gente que desvia dinheiro, da farra com

dinheiro público, de nepotismo e toda sorte de bandalheiras (termo forte,

deselegante, mas o único cabível aqui). Quando a Igreja de Jesus deveria se

levantar contra tudo isto, eis que ela é surpreendida com os mesmos erros em seu

meio. Os pecados do mundo também estão presentes na Igreja. Por isso,

precisamos levantar fortemente a nossa voz e clamar por ética no evangelho.

Necessitamos de igrejas transparentes, de pastores que não apareçam em páginas

policiais e de igrejas que não sejam conhecidas por atitudes condenáveis pelo

mundo. Necessitamos de santidade. Isto os profetas pregaram. E isto me proponho

a mostrar no presente livro.

Como dito, não produzi um tratado teológico exaustivo sobre o profetismo

nem sobre a ética dos profetas. Mas alguma coisa sobre a pregação profética e

como deve ser a nossa conduta à luz dessa pregação. Se isto alertar as pessoas para

uma vida mais séria e menos festiva, para uma religião de compromisso e não para

uma religião-show, sentir-me-ei realizado.

Com estas considerações, em suas mãos, A Ética dos Profetas e Sua

Implicação Para Nossos Dias. Faça bom proveito.

2 Wiersbe, p.29. Seu livro está alistado na bibliografia.

O PROFETISMO EM ISRAEL

Antes de falarmos da ética dos profetas é preciso compreendermos o que

foi o profetismo em Israel, para sabermos, com mais exatidão, quem foram os

profetas. Se não fizermos assim, corremos o risco de discutir um assunto que não

terá ficado bem definido, tamanha a diversidade de conotações que o termo recebe

em nossos dias. E então não chegaremos a um ponto proveitoso em nossa análise.

Para algumas pessoas, em nosso tempo, o profeta é uma pessoa que

adivinha coisas 3. Profecia, por esta ótica, é adivinhação. É assim o conceito

secular, no entendimento de pessoas sem o conhecimento do sentido bíblico do

termo. Como acontece também em alguns grupos carismáticos e neopentecostais,

profetizar é fazer revelações, algumas delas absolutamente sem sentido, sobre a

vida das pessoas.

Este era o conceito de profeta entre os pagãos. O uso de lecanomancia

(leitura do futuro pela figura do azeite derramado numa taça sagrada), a

hepatoscopia (a leitura do futuro pelos riscos do fígado de animais sacrificados aos

ídolos), o uso de árvores sagradas, como os cananeus faziam com os carvalhos

(como o carvalho de Moré, citado em Gênesis 12.6 - lembrando que Moré, em

hebraico, significa “mestre”) , sonhos após alucinógenos, a interpretação do vôo

dos pássaros, tudo isto fazia parte do ofício profético pagão. O profeta pagão não

apresentava uma mensagem com fundo moral e ético, mas apenas buscava

descobrir o futuro para orientar os reis sobre guerras a declarar, alianças políticas

por fazer ou decisões por tomar, como os adivinhadores e os sábios de Faraó, em

Gênesis 41.8.

Alguns pastores e pregadores gostam muito do termo “profeta” e gostam

mais de usá-lo para si, para terem o direito de falarem o que querem, arrogando-se

a famosa “voz profética”. Via de regra, quando alguém alega ter “voz profética”,

fico temeroso. Já sei que “lá vem chumbo” nos outros. É uma postura arrogante

3 Esta é, por exemplo a linha seguida por Hal Lindsey em A Agonia do Grande Planeta Terra (veja bibliografia) num capítulo intitulado “Quando Um Profeta é Profeta?”.

de quem emite conceitos sobre a vida alheia com muita facilidade, não raro

descurando da sua.

O que, exatamente, é um profeta? O que é profecia? O que o Antigo

Testamento nos ensina sobre estes dois termos? No Novo Testamento, qual o

papel de um profeta? Os pastores evangélicos são, hoje, profetas? Que função tem

um profeta no corpo de Cristo?

EM BUSCA DE DEFINIÇÃO

A terminologia hebraica pode nos ajudar a responder algumas dessas

questões. Comecemos pelo primeiro homem chamado de “profeta”. E,

conseqüentemente, pelo primeiro termo hebraico, navi 4. É Abraão, em Gênesis

20.7, no testemunho que o próprio Deus dá a Abimeleque: “restitui a mulher a seu

marido, porque é profeta”. O primeiro homem visto como profeta nacional, navi

também, é Moisés. Ele se torna, inclusive, o padrão para os demais profetas. Em

Deuteronômio 18.15 se lê: “o Senhor teu Deus te suscitará um navi como eu, do

meio de ti, de teus irmãos. A ele ouvirás”. Esta palavra é digna de nota porque é a

única referência, na lei, à profecia como instituição. E no nosso caso, para

continuarmos as nossas observações, porque Moisés nos é mostrado como o

padrão profético.

O sentido do termo é grandemente disputado, mas parece vir do verbo

nivva, que teria vindo do acadiano navvu, que significa chamar, nomear. O verbo

nivva significaria, então, o ato de designar alguém como arauto. Neste sentido, o

primeiro significado bíblico para profeta, no Antigo Testamento, seria o de

proclamar, o de anunciar, fazendo assim o papel de um arauto. Seu uso acontece

um pouco mais que trezentas vezes, sendo que quase um terço das ocorrências está

em Jeremias.

Mas quando olhamos a vida de Abraão, não o vemos como um arauto. O

sentido de Gênesis 20.7 é muito mais o de um homem que tem uma relação

especial com Deus: “ele rogará por ti para que vivas”. E quando olhamos a vida de

4 As transliterações usadas nesta obra seguirão sempre a sugestão de Mitchel, cuja obra está alistada na bibliografia.

Moisés vemos que a característica maior de sua vida não foi adivinhação. Ele, sim,

foi mais um arauto, embora faça alguns descortínios do futuro. Mas ainda não

temos, neste momento, no Antigo Testamento, a noção de profeta como um

descortinador do futuro, como veio a acontecer depois em Israel e como alguns

presumem, hoje, ser o sentido exclusivo da palavra. O primeiro navi tem uma

relação especial com Deus e é um peregrino. O segundo navi também tem uma

relação especial com Deus. É peregrino, também, mas já é arauto, o que o primeiro

não foi.

O segundo termo hebraico para “profeta” é ish Elohim, homem de Deus.

Não é um título auto-apregoado, que a pessoa aplicava a si mesma de forma

triunfal. Era um reconhecimento que os outros faziam do profeta. O termo aparece

76 vezes no Antigo Testamento e quase na metade das vezes é aplicado a Eliseu.

Não é que ele seja o padrão, mas parece ser o estilo do redator da história de Eliseu

o de apreciar o termo e empregá-lo com assiduidade. Parece mais questão de jeito

do autor bíblico se expressar. O ish Elohim é mostrado como uma pessoa de

confiança de Deus e as pessoas vêem isso na sua vida. Não é ele quem se proclama

assim. Na realidade, o profeta não alardeava sua condição de profeta. As pessoas

viam isso. O profeta, e valha-nos isso, tinha uma autoridade que o tornava alguém

credenciado. Ele não precisava de “carteirinha da Ordem dos Profetas”. A sua

apresentação devidamente credenciada era o seu caráter.

O terceiro termo, na realidade, é expresso por duas palavras hebraicas:

ro’eh e hozeh. Eles se intercambiam no uso e têm, ambos, o sentido de vidente.

Ro’eh, o termo mais comum, deriva do verbo “ver”. Algumas vezes seu uso é

depreciativo, como em Amós 7.12 onde Amazias chama a Amós de ro’eh, de

forma zombeteira: “Vai-te, ó vidente (ro’eh), foge para a terra de Judá, e ali come

o teu pão, e ali profetiza”. Mas nem sempre o termo está associado com vidência.

Algumas vezes é uma interpretação dos eventos ou a compreensão de algo mais

profundo numa visão banal. Jeremias vê um oleiro fazendo um vaso e

compreende a relação entre Iahweh e Israel (18.1-4). Vê uma vara de amendoeira

florescendo (1.11-12) e faz um trocadilho: ele vê uma “amendoeira” (shaqed) que

soa parecido com “vigilante” (shoqed). A amendoeira floresce quando capta o

aumento da umidade do ar. Está pronta para lançar as folhas, novamente. Ela

vigia, ela shoqed o ar. Assim Deus está shoqed com sua palavra. Ninguém veria

isso, mas o profeta vê. Ele vê uma panela fervendo, na parte norte (1.13-15).

Estava vazando. Ele vê a ira de Deus fervendo e pelo norte, de onde vem um

inimigo. Não tem sentido algum para o homem comum, mas tem para ele. O

profeta vê o que os outros não vêm. Chamaríamos isso, hoje, de discernimento. Lá

estão os homens a brincar com o pecado, a sociedade a relaxar seu padrão de

conduta, a moralidade baixar assustadoramente. Tudo normal. Pensa-se na união

conjugal de homossexuais, na descriminalização de drogas, na liberação total de

costumes, tudo isso mostrado como tolerância e progresso. O profeta vê as

conseqüências, vê o que os outros não conseguem ou não querem ver. Sabe que

isso trará a ruína da nação. O profeta é, quase sempre, uma voz contra a multidão,

um solitário, um rejeitado. O profeta é um crítico do seu tempo e muitas vezes é

rejeitado e incompreendido por causa disso. Jeremias é o modelo clássico do

profeta solitário. O capítulo 16 de seu livro, por exemplo, descreve-o como um

homem isolado, sem companhia humana calorosa, com quem repartir a vida: “não

tomarás mulher, não terás filhos nem filhas neste lugar” (v. 2). Era um símbolo da

solidão do povo, mas era sua vida pessoal que provava a solidão.

A LXX traduz os três termos, navi, ro’eh, hozeh por prophetês, vendo-os

numa direção, apenas. É o termo que o Novo Testamento utiliza quase cento e

cinqüenta vezes. O sentido é “falar por alguém”.

Também são usados, comumente, mas menos vezes mais três termos

hebraicos: sophi’im, significando atalaia (Jr 6.17; Ez 3.17; 33.2,6,7); shomer,

significando atalaia, sentinela, guarda (Is 21.11,12; 62.2) e raah, significando pastor

(Jr 23.4; Ez 34.2-10; Zc 11.5,16). Não têm, no entanto, a repetição e a singularidade

dos termos anteriores.

Já andamos um pouco em nossas considerações: o profeta é um homem de

Deus, por ele comissionado, é um homem que vê além dos demais, que tem

descortínio, que entende, que vem como arauto. É também um atalaia, uma

sentinela, um guarda de serviço e um pastor, que cuida do rebanho. Sabe como as

coisas devem ser e sabe das conseqüências de não serem como devem. Tem uma

relação de guarda com o povo de Deus, adverte e ensina. Nem sempre é benquisto,

mas mesmo assim segue com seu trabalho. Como Lutero, na sua famosa palavra

de ruptura com a Igreja de Roma, ao recusar retratar-se de seus escritos e

pregações, é cativo de sua consciência abalada pela palavra de Deus.

A FUNÇÃO DA PROFECIA

Devo este tópico a Archer 5, mas torna-se necessário fazer um reparo a seus

argumentos. Ele alista quatro funções básicas da profecia entre os hebreus. Elas

são válidas, apesar do reparo que pretendo fazer, e permanecem como balizadoras

da função profética em nosso tempo.

1ª) O profeta tinha a responsabilidade de encorajar o povo de Deus a

confiar exclusivamente na sua graça, no seu poder. Foi isso o que Moisés fez:

ensinou que a segurança de Israel estava no poder de Deus, não em Israel. Os

profetas das épocas de crise em Israel e Judá também: a nação deveria confiar em

Iahweh e não no Egito ou na Assíria. Veja-se, como exemplo, a insistência de

Oséias em afirmar que o Egito e a Assíria não salvariam Israel. Aliás, a Assíria

acabou destruindo Israel. O profeta é um encorajador do povo de Deus a confiar

nele, somente nele.

2ª) O profeta tinha a responsabilidade de avisar ao povo que sua

segurança dependia de fidelidade à aliança, ao berith. Moisés fez assim e os

grandes profetas também. Aliás, é bom afirmar que os profetas não pregaram uma

mensagem nova, mas reafirmaram os grandes conceitos da aliança. O profetismo

não trouxe uma mensagem inédita, mas apenas um chamado à fidelidade à aliança

firmada com Iahweh e que culminara na outorga da lei. Ele não criou conceitos,

mas revigorou os do passado. O profeta olhava para o passado, para a aliança. O

profeta contemporâneo também deve advertir a Igreja para que se mantenha fiel

ao novo berith, aquele que Jesus firmou com seu sangue (Mt 26.28).

3ª) O profeta devia encorajar Israel quanto às coisas futuras. Mesmo

anunciando o juízo, os profetas avisavam que haveria um remanescente, um grupo

que teria uma missão, a de trazer o messias ao mundo. O profeta era um criador de

esperanças, um anunciador de que o povo tinha um futuro, que devia se preparar

para ele. O profeta olhava para o futuro. Da mesma maneira, o profeta

contemporâneo deve avisar a Igreja sobre o seu futuro de glória, mesmo que no

momento presente seja ela enxovalhada pelo mau testemunho de alguns dos seus

membros e seja acuada pela pressão de um mundo ímpio.

4ª) A profecia se autenticava, em termos de previsão, quando se cumpria.

Archer mostra Deuteronômio 18.21-22: se o que o profeta falasse não se

cumprisse, a mensagem não era de Deus. Isto é óbvio, pois Deus não mente nem

se engana. Mas o simples cumprimento não basta para autenticar uma profecia.

Quem falou com Saul quando ele consultou a médium em En-Dor não foi,

obviamente, um profeta divino, mas o que a entidade consultada falou se cumpriu.

Deuteronômio 18.22 diz que quando o que for falado não se cumprir, isso não é de

Deus. Está certo. Mas o capítulo 13 mostra que se o profeta falar, o que ele falou

se cumprir e ele se aproveitar disso para desviar o povo da Palavra, ele deveria ser

morto. É o ensino presente em 13.6-9. O padrão para se avaliar a profecia e o

profeta não é o cumprimento do que foi falado, mas se aquilo que ele falou está em

conformidade com a Palavra de Deus. O padrão autenticador é a Palavra.

Isto nos põe diante de uma verdade que não se pode ignorar: o profeta deve

ser um escravo da Palavra. O profeta é o homem que se prende à Bíblia, fala o que

ela fala, não a diminui, não a ultrapassa. E deve encorajar o povo a permanecer fiel

no compromisso com Deus, a confiar nele e a se lembrar de sua missão neste

mundo.

No Novo Testamento encontramos profetas na Igreja e a profecia é

mostrada como sendo um dom. O contexto é diferente do encontrado no Antigo

Testamento e também diferente até mesmo do nosso tempo. Temos um profeta que

vaticina, mostrando o que aconteceria com Paulo (At 21.11-12) e vemo-lo

profetizando uma grave fome no Império Romano (At 11.27-30). mas o básico

está aqui: a Igreja está edificada sobre o fundamento dos “apóstolos e profetas” (Ef

2.20), como a comunidade do passado, Israel, estava edificada sobre “sacerdotes e

profetas”. O sacerdotalismo judaico, que é o levitismo do templo, cede lugar à

Palavra. Os profetas fazem o papel da Palavra ainda não concluída. Parece-me

que o papel do profeta hoje deve avançar além do esboçado nas páginas de Atos,

onde há uma igreja em formação. Não temos uma eclesiologia completa em Atos.

Aliás, não me parece nem mesmo que a tenhamos no Novo Testamento. Este se

encerra enquanto a Igreja ainda avançava, adaptando-se ao mundo, com novas

5 Veja sua obra alistada na bibliografia. Seu arrazoado está às página 334-337.

necessidades, diferentes das surgidas no livro de Atos. Parece-me que definir uma

eclesiologia em Atos seria fazê-lo com bases precárias. Mas voltando aos profetas

neotestamentários, eles eram a voz de Deus naquele momento. Temos a Bíblia

como voz de Deus hoje. O profeta deve saber interpretá-la e deve saber comunicá-

la. Nunca deve ultrapassá-la ou complementá-la. A menos que pense que ela está

incompleta ou que ele, o profeta, tenha revelações que se igualam aos ensinos dela.

Na realidade, o papel do profeta de hoje, creio que deve ser buscado mais no

Antigo Testamento, onde está mais sistematizado e cristalizado. E, mutatis

mutandis, buscar- a partir do encontrado no Antigo Testamento - e projetar para

como deve ser hoje. Muito do estilo de culto da igreja cristã foi calcado na

sinagoga surgida no período exílico. Muitas de nossas raízes devem ser buscadas

no Antigo Testamento e esclarecidas e ampliadas pelo Novo. Parece-me ser

também assim com o profetismo.

Embora nas listas de dons de 1Coríntios 12 e Efésios 4 se encontrem

referências aos profetas, deve-se notar que em lugar algum do Novo Testamento

alguém é estabelecido como profeta ou ungido ou separado como tal. Parece que o

ofício profético está mais ligado a uma comunidade local, a uma igreja local,

como edificador, em diferença do profeta do Antigo Testamento, que é um

andarilho, com visão e ministério além de sua “paróquia”. Pode-se aplicar

1Coríntios 14.4b aqui: “aquele que profetiza edifica a igreja”. Devemos ter em

conta que a palavra “igreja”, no Novo Testamento, nunca alude a uma instituição,

mas a uma comunidade local de cristãos. Este é o sentido prevalecente do grego

eklesia. O profeta era mais um edificador da igreja local do que um descobridor de

futuro. O Didaquê, uma obra da igreja primitiva que pode ser dada como de

produção ao redor do ano 90 de nossa era (parece anteceder, inclusive, ao

evangelho de João), e que é considerado como um manual de doutrina da igreja

primitiva, diz o seguinte, sobre o trabalho de mestres itinerantes na vida das

comunidades cristãs da época: “Todo apóstolo que venha vós seja recebido como

o Senhor, porém não permanecerá mais que um dia, e se houver necessidade, ainda

o outro dia; mas se permanecer três dias, é um falso profeta. E tendo saído o

apóstolo nada tomara para si, a não ser pão, até o próximo alojamento. Mas se

pede dinheiro é um falso profeta” (11.4-7). É evidente que não estou declarando o

Didaquê como inspirado, em pé de igualdade com os escritos do Novo

Testamento, mas reconhecendo-o como um documento histórico e como manual

de doutrina da igreja. A conexão que ele faz entre apóstolo, profeta e pregador

itinerante é interessante, bem como o método para descobrir se é falso o apóstolo

ou profeta ou pregador itinerante (sinônimos?) : se busca levar vantagem no

exercício de sua função.

TIPOS DE PROFETAS

Sem nos determos muito neste tópico, mas apenas para completarmos o

quadro, alisto aqui alguns tipos de profetas mostrados no Antigo Testamento:

1º) O vidente, aquele que vê coisas escondidas, como Samuel, por

exemplo. Ele sabia onde estava a jumenta extraviada de Saul (1Sm 9).

2º) O profeta individual, clássico, que mesmo não sendo convidado pelo

povo, adverte-o sobre seus pecados. Geralmente é o tipo que mais rapidamente

vem à nossa mente.

3º) Os profetas de corporações, produto das chamadas escolas de profetas.

Geralmente tinham um chefe ao redor do qual se agrupavam. Como foi com Elias,

chefe de uma escola (2Rs 2.3), e com Eliseu, que tinha também discípulos, como

Geazi, e uma escola (2Rs4.1). Há, neste aspecto, o caso de Saul, encontrado “no

meio dos profetas” (1Sm 19.18-24). Este episódio merece uma observação: o

Espírito de Deus veio sobre Saul, que despindo sua túnica, profetizou diante de

Samuel, e permaneceu deitado, sem ela, um dia e uma noite, diante de Samuel.

Mas a rigor, dizer que Saul profetizou, como um profeta bíblico, é algo

questionável. Valham-nos aqui as palavras de Hoof: “Não há nada que indique que

ele tenha profetizado como um profeta de Deus. A melhor alternativa é traduzir o

termo ‘profetizar’ nesta ocasião como ‘ficou em transe profético’” 6.

Havia grupos de profetas como este, cheios de zelo, “profetizando” ao som

de música e em dança(1Sm 10.5-13 e aqui, neste texto). No dizer de Bright, “eles

representavam um fenômeno muito comum no mundo antigo, com paralelos entre

os cananitas e até mesmo na Anatólia e na Mesopotâmia” 7. Tais grupos eram

autênticas ordens proféticas, com profundo senso político, vivendo em

comunidades (2Rs 2.3-5 e 4.38-44), sustentados por ofertas (2Rs 4.42),

comandados por um líder (2Rs 6.1-7), vestidos de pêlos (2Rs 1.8), que se tornaram

seu “traje oficial” e , possivelmente, identificados por uma marca na testa (1Rs

20.41). Enlevados pela música e pela dança, entravam em êxtases. Parece que o

clima altamente emotivo do grupo envolveu a Saul, cujo estado emocional já não

era dos mais seguros, mostrando o texto bíblico seu profundo desequilíbrio no

momento. Evidentemente que tal prática não pode ser tida como a modelar para os

profetas. Tais eventos representam um momento em que a Palavra do Senhor era

escassa. É o que se lê em 1Samuel 3.1. Deve-se lembrar que eruditos como o

citado Bright dão Samuel como fundador de tais ordens, surgidas exatamente pela

ausência de revelação.

No entanto, hoje em dia, os estudiosos têm questionado muito este

conceito de “uma escola de profetas”. Veja-se esta citação de MacRae:

“Não há evidências bíblicas da existência de grupos de homens treinados para serem profetas. Deus chamava os profetas como indivíduos. Isto foi verdade com Moisés, Samuel, Isaías, Jeremias, e em muitos outros casos onde há registro de chamada. A obra profética era um atividade individual, em que cada homem recebia uma mensagem vinda de Deus e a transmitia ao povo de Deus. Somente num sentido mais amplo é que o termo ‘profeta’ se aplicava a grupos de pessoas” 8.

Havia um esforço para se buscar a Deus, como entre os profetas pagãos,

mas a revelação de Deus ao profeta era rara. A falta do templo nacional em Israel,

com o ensino da Torá impossibilitado pela ausência dos levitas, talvez explique o

fenômeno desses agrupamentos. Afinal, as chamadas “escolas” aparecem no

Norte, em Israel: Ramá, Betel, Gilgal, Jericó e Samária. Parece-me mesmo ser um

6 Hoof, p. 127 7 Bright, p. 241 8 Veja-se seu tópico “Prophets and Prophecy”, na obra de Tenney (ed.) alistada na bibliografia.

fenômeno mais comum em Israel que em Judá. Eram muito mais agrupamentos

de pessoas ouvindo os ensinos dos profetas, e não, necessariamente, escolas no

sentido que o termo tem. No entanto, parece que nem sempre eram bem vistas,

posto que Amós fez questão de dizer que não era “filho de profeta” (Am 7.14-15).

Ele rejeitou a identificação com qualquer grupo, não vendo isso como mérito ou

credencial. Assim, me parece que aplicar o termo aos nossos seminários

teológicos não é um uso muito correto nem mesmo lisonjeiro. Não havia um

“seminário de profetas”, ensinando disciplinas curriculares. O ser profeta não

dependia de um curso, mas de uma chamada de Deus.

Havia, neste caso de profetas de corporações, os profetas da côrte, os

conselheiros do rei, que deveriam orientá-lo, mas que muitas vezes diziam o que o

rei queria ouvir. Veja-se a polêmica entre Amazias e Amós, como exemplo (Am

7). Amazias era um profeta da côrte.

4º) Os profetas do culto, parte do pessoal do templo. Alguns dos salmos de

louvor e de proclamação devem ter sido compostos por eles, como o 85, por

exemplo, onde se lê “salmo dos filhos de Corá”.

5º) O profetismo messiânico-escatológico, que não aparece muito no

Antigo Testamento, a não ser em Ageu e Zacarias (um pouco menos em

Malaquias), mas que originou os pseudepígrafos e que se revela de forma mais

ampla nos escritos de Qumran, com o chamado Mestre de Justiça.

PONTOS NORTEADORES DA MENSAGEM PROFÉTICA

Há algumas balizas na mensagem profética do Antigo Testamento. Ela não

é uma colcha de retalhos, onde cada um diz o que quer e vai acrescentando um

pouco mais. Ser profeta não é dirigir desaforos ao povo, produto de um

temperamento descontrolado, de mau humor ou de falta de educação. O profeta

não é, como já dissemos, um temperamental emburrado. A angústia de Jeremias

mostra um homem que vê o que está por acontecer ao seu povo e que sofre com

isso. Ele não se alegra com a desgraça, mas chora por causa dela: “Ah! Meu

coração! Meu coração! Eu me contorço em dores. Oh! As paredes do meu

coração! Meu coração se agita! Não posso calar-me, porque ouves, ó minha alma,

o som da trombeta, o alarido de guerra. “ (Jr 4.19).

1º) O profeta verdadeiramente profeta é um instrutor do povo de Deus

dentro da Palavra de Deus. Ele ensina os preceitos da aliança, e proclama, em

nome de Deus, a maneira correta de proceder. Ele fala não apenas em nível

individual, mas também em nível coletivo. Mostra os pecados de pessoas e de

instituições. Isto deve nos alertar. As instituições, sejam elas políticas, religiosas

ou denominacionais, também sofrem os efeitos do pecado. O profeta denuncia o

pecado individual e estrutural e aponta o caminho correto: arrependimento. A crise

de algumas juntas administrativas de nossas denominações e de outros órgãos

evangélicos não deve ser camuflada nem varrida para baixo do tapete. Nem apenas

socorrida pelas igrejas, que muitas vezes são vistas tão somente como pagadoras

das contas feitas pela estrutura, principalmente entre os batistas. Muitas dessas

instituições se portam de maneira imperial na forma de tratar as igrejas locais,

lembrando-se delas apenas quando precisam de ofertas para equilibrar suas contas

mal administradas. Se há pecado, se há malbaratamento de recursos, se há

desonestidade, ou simplesmente incompetência, isso deve ser tratado como tal. O

profeta não se conforma com o pecado estrutural, também. Os profetas bíblicos

não denunciavam apenas os pecados de Assíria, Egito e Babilônia, mas

principalmente os do povo de Deus. Assim devemos fazer.

2º) O profeta verdadeiramente profeta sabe interpretar os acontecimentos

históricos. Muita insensatez já foi dita em termos de marcação de datas, de

interpretação errada, de apocalipticismo precipitado 9. Infelizmente, o alinhamento

dos planetas, o Mercado Comum Europeu, Sadam Hussein, e outros menos

votados já propiciaram uma enxurrada de literatura de ficção escatológica, que,

também infelizmente, tem sido levada a sério por muitos. Mas o profeta é o

9 Exemplos desta atitude podem ser vistos em duas obras populares, como O

Alinhamento dos Planetas, de Lawrence Olson (ver bibliografia), em que o satélite artificial norte-americano, Skylab, chegou a ser mostrado como um sinal eminente da volta de Cristo, e na obra já citada de Lindsey (Mundo Cristão), em que a falecida União Soviética e a possível Comunidade Européia de dez nações (já são dezesseis) são mostrados como sinais da volta de Cristo.

homem que vê para onde a história vai. Para nós, hoje, isto significa a necessidade

de formar uma cosmovisão bíblica, de entender a história pela Bíblia, de pesquisar,

ler, refletir. Já se disse que o verdadeiro teólogo tem a Bíblia em uma das mãos e o

jornal diário em outra. Isto não é para fazer previsões atabalhoadas, mas sim para

buscar entender o mundo pela Bíblia. O profeta é uma sentinela da história,

conhece a outra face dos acontecimentos humanos e sabe da transcendência do

acontecer e do fazer humano. Consegue ter uma visão global da história e dos

eventos, não os vendo de forma atomizada e descontínua.

3º) O profeta denuncia, acusa e condena. Ele se enche de indignação contra

os erros do mundo. Infelizmente, as denominações com mais capacidade de eleger

crentes para postos políticos são as neopentecostais ou baixo-pentecostais, quer

pela sua quantidade de membros quer pelo voto de cabresto ou, para não magoá-

los, o voto de “profunda solidariedade”. Mas a política é vista por eles como troca

de favores, como um ato de eleger despachantes eclesiásticos para beneficiar as

igrejas. Deveria ser vista como eleger pessoas que se aferrassem aos padrões

evangélicos, que os vivessem e que os proclamassem. Em Manaus, por exemplo, o

estádio de futebol tem alguns dos ingredientes mais modernos, como um placar

eletrônico importado da Europa. Mas não há futebol no estado. Ninguém torce

pelos clubes locais, salvo alguns poucos. Já houve jogo do campeonato sem

torcida pagante. O estádio serve para eventuais jogos da Seleção Brasileira e times

do eixo Rio e S. Paulo, com verbas altíssimas, vindas do poder público (assim

declaram os críticos), ou de empresários, alega-se. Mas nossos hospitais

apresentam deficiências e necessidades clamorosas. Esta postura deveria suscitar

sérias reflexões da classe política, principalmente por parte dos políticos

evangélicos. Mas a impressão que se passa é que todos foram cooptados pelo

sistema e absorveram algumas práticas, que precisariam ser analisadas

criticamente, com muita facilidade. Sem uma crítica a A ou B, qualquer leitor

assíduo dos grandes jornais brasileiros não subvencionados sabe que os políticos

da região só têm dimensão nacional quando citados em algum escândalo. A

explicação local, ao surgirem os ditos escândalos, é que os paulistas querem

destruir a Zona Franca. Por isso, a denúncia... Aí está a explicação dos órgãos de

imprensa da cidade. Quem se satisfizer com a explicação, aceite-a. A mim, parece

muito pequena. Mas o profeta tem visão social, tem consciência sensível aos

desmandos do poder, não se compra nem se vende, nem se aluga. Não se filia a

grupos ou partidos, mas tem consciência crítica. Por isso não deixa de sentir

indignação diante de acontecimentos políticos que vê não estarem corretos.

4º) O profeta é um consolador. Ao mesmo tempo em que anuncia o juízo e

chama ao arrependimento, ele traz a mensagem de Isaías 40.1: “Consolai, consolai

o meu povo”. Ele mostra as promessas de Deus, o que ele pode fazer para restaurar

os que sofrem. O profeta não é apenas anunciador de catástrofes, como alguns

presumem, mas é o arauto de um novo tempo, é pregoeiro do amor e da

misericórdia de Deus, mostra o que ele pode fazer na vida das pessoas. Tem uma

palavra de estímulo, também. E isto, em nosso contexto contemporâneo, é muito

necessário de praticar. O mundo sofre e necessita de esperança e de conforto.

O profeta tem, portanto, uma personalidade multifacetada, exibindo vários

ângulos. Sabe discordar, sabe denunciar, sabe condenar, sabe confortar, sabe

ensinar, sabe interpretar, sabe estimular. Não é um fanático ignorante deblaterando

coisas inúteis, mas um homem que entende o mundo e sabe como analisá-lo. E,

tendo convicção de que é assim que Deus deseja as coisas, prende-se a isto.

CONCLUSÃO

E nós, como ficamos?

Primeiro, se almejamos ser profetas, temos que compreender bem o que é

um profeta. Não é um megalomaníaco, exaltando suas virtudes ou criando um fã-

clube que o aplaude. Aliás, muitos dos “profetas” e “profetisas” contemporâneos

não têm rebanho, mas fã-clube. É chocante e deprimente o culto à personalidade

no cenário evangélico contemporâneo. Sou obrigado a concordar, in totum, com as

palavras de Wiersbe:

“O evangelho tornou-se um alto negócio, e toda a sorte de estranhos pássaros estão empoleirados nos seus ramos. O culto da personalidade tornou-se um círculo vicioso, e estamos agora promovendo

ministérios e mercadorias do mesmo que o mundo promove pasta de dentes e carros usados”. 10

O profeta não monta uma máquina publicitária para catapultar seu nome.

Não trabalha com seu nome em gás néon. É um homem de Deus, a serviço de

Deus, não a serviço de suas próprias idéias e sentimentos. Jeremias chorou a

mensagem que pregou. Como Jesus, que chorou por Jerusalém. O profeta é

escravo da Palavra e da mensagem. Subordina-se a elas. Ela o invade e domina.

Segundo, precisamos de integridade pessoal. Ser voz discordante, não ser

cooptado pelo sistema, ser uma voz denunciadora, tudo isso exige um caráter

sério. Não encontramos os profetas vivendo de maneira leviana. Nem buscando

vantagens ou riquezas pessoais. É oportuno retornamos ao Didaquê, agora no

capítulo 11, versículo 10: “ Todo profeta que ensina a verdade, se não pratica o

que ensina, é falso profeta”. Profetas autênticos são homens sérios, íntegros,

possuídos por convicções divinas, e de vida limpa. Não têm, como se diz

popularmente, “rabo preso” com ninguém. Não são cooptados pelo sistema nem se

subordinaram ao poder público.

Terceiro, precisamos entender o nosso tempo. Não se confunda profetismo

com possessão espírita. O profeta é um homem em posse de sua faculdades

intelectivas, consciente de si. Não é alguém possuído por uma entidade que o

deixa fora de si, como se fosse um médium espírita. Ser tomado pelo Espírito de

Deus não invalida a pessoalidade. “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos

profetas” (1Co 14.32). Ser profeta não invalida estudar, refletir, amadurecer,

crescer espiritual e teologicamente. O profeta mantém-se como pessoa e deve se

esmerar para desenvolver-se como pessoa. Alguns profetas contemporâneos

deixaram de ser gente. Como criaturas humanas, são horrorosas.

Outra tragédia em nosso cenário, além do culto à personalidade, é o

narcisismo, com uma incrível exibição de arrogância espiritual. O que há de “santo

homem de Deus”, “canal especial de Deus”, “homem de palavra poderosa”

trombeteado em programas evangélicos de rádio e televisão e revistas evangélicas

é constrangedor e vergonhoso. Isto encobre as deficiências de “profetas” que mal

10 Wiersbe, página 33.

conseguem articular uma sentença gramatical correta, que emitem conceitos

desconexos, mas que se colocam acima do bem e do mal, imunes às críticas.

Afinal, têm “linha vermelha” com Deus e não precisam de mais nada. Como

gritam bem, providos que são de voz forte, diz-se deles que têm “poder espiritual”,

que os demais, “carnais”, não possuem. Além de tudo, dispõem de uma máquina

de comunicação, logo seu ponto de vista pessoal é o que prevalece.

Quarto, precisamos ser apaixonados pelo nosso ofício. Ser profeta é uma

atividade que só pode ser desempenhada de forma passional, feita com paixão,

com fogo interno. O “entranhas minhas, entranhas minhas” de Jeremias 4.19 nos

mostra um homem angustiado com o que tem que pregar, mas que prega, assim

mesmo. É sua paixão. O “ai de mim, se não pregar o evangelho” de Paulo (1Co

9.16) deve ser também o clamor de cada um de nós, que almejamos ser profetas.

Acima dos amores humanos, deve permanecer a lealdade para com a Palavra que

nos vem da parte de Deus.

Acima de tudo, o profeta que queira ser autenticamente bíblico, deve

compreender que sua vida é para glória de Deus e não para sua glória pessoal. Se

quisermos ser profetas, nossa vida deve ser vivida assim: para a glória de Deus.

A ÊNFASE NA MORALIDADE SOCIAL

Não é necessário se proceder a um exame acurado para se notar que a

mensagem do Antigo Testamento não traz, em seu bojo, a dicotomia que o

pensamento grego impôs ao cristianismo, de secular e sagrado. Toda a vida, no

pensamento veterotestamentário, é mostrada como sagrada, pois toda a vida é um

dom de Deus. Assim é que o livro de Provérbios ensina o temor a Deus como

ponto de partida de tudo (Pv 1.7) e traz preceitos absolutamente seculares, que

cabem em qualquer livro de religião e até mesmo em livro de religião alguma: “O

que trata da figueira comerá do seu fruto; e o que cuida do seu senhor será

honrado” (Pv 27.18). Respeitosamente: um pensamento que caberia em qualquer

almanaque de laboratório, desses que são distribuídos pelas farmácias. Assim

também se explica, em parte, a dificuldade de tantos cristãos em entenderem a

mensagem de Eclesiastes, que tem uma linguagem, para nós, muitas vezes secular

e até cética. É que o autor foge ao nosso costumeiro “igrejês” 11. O homem do

Antigo Testamento foi criado na mentalidade global da vida, onde sagrado e

secular não têm distinção. A vida não lhes era compartimentalizada, mas era única.

Fazemos muita distinção entre a vida eclesiástica e a vida fora do edifício

chamado “igreja”. Há pessoas que pensam que santidade é assumir uma

determinada postura dentro de um determinado prédio em uma determinado hora.

A vida cristã, em conseqüência deste equívoco, tornou-se algo que acontece em

uma hora determinada, num lugar determinado, conduzido por pessoas

determinadas. O que se passa no prédio é santo. O que se passa lá fora é mundano.

O prédio é santo, os instrumentos são santos, a bancada é santa, o suco que sobrou

da ceia é santo. Já fui consultado sobre uma dúvida séria de pessoas sinceras: o

que fazer do pão que sobrara da ceia, se ele era santo ? Quando disse que não era

santo, que era pão de forma comum, e que se poderia jogar fora, foi um Deus-nos-

acuda. Mas esta mentalidade de que dentro do prédio chamado igreja acontece a

santidade e, lá fora, no mundo, vivemos a vida, cria uma aberração: aos

domingos, na igreja, somos cristãos. Nos demais dias, lá fora, somos pessoas

lutando para sobreviver no meio de feras e temos que ser feras. Porque, entre ser

cristão e ser fera, o Coliseu romano assim mostrou, o cristão sempre perde. Assim,

dicotomizamos a vida em partes distintas: espiritual, na igreja, e mundana, fora

dela.

O ensino do Antigo Testamento é que toda a vida interessa a Deus. Não há

uma distinção entre sagrado e profano. A vida toda é dele. “Tudo vem de ti”, disse

Salomão (1Cr 29.14). E isto não se refere apenas às ofertas. A vida toda é um dom

de Deus.

11 Um exemplo desta dificuldade se vê numa nota de rodapé da Bíblia Vida Nova, logo na introdução de Eclesiastes: “Opinam alguns que Salomão teria escrito o livro de Eclesiastes, a fim de nos dizer o que devemos deixar de fazer....”. Seria, sem dúvida, um estranho critério hermenêutico. Mas a observação mostra a dificuldade cristã em lidar com um livro que trata de reflexão sobre a vida como ela é.

Assim sendo, os profetas refletiram sobre as injustiças e a imoralidade

social e não somente sobre os desvios do culto. No entanto, não escatologizaram

essas injustiças e imoralidades, mas viram-nas dentro de seu contexto e as

condenaram. A atitude de Jezabel em tomar a vinha de Nabote para alegrar seu

marido provocou indignação de Deus e fez Elias se dirigir a Acabe com veemência

inusitada, dizendo que os cães comeriam as carnes de Jezabel (1Rs 21). Em

contrapartida, a mensagem evangélica de hoje é completamente descarnada da

vida real das pessoas. Um triste exemplo: na sua edição 1.472, de 27.11.96, a

revista Veja trouxe um artigo intitulado “Tiro ao Pobre”. Nele aparece uma

coluna sob título “Matando em dúzias” que mostra o descaso pela saúde pública,

no Brasil: em março, 60 mortos no Instituto de Doenças Renais, em Caruaru,

Pernambuco. Em maio, 99 idosos mortos na Clínica Santa Genoveva, no Rio de

Janeiro. Em julho, 30 bebês mortos no hospital universitário Materno-Infantil, em

S. Luís, Maranhão. Em outubro, 11 bebês mortos no hospital universitário Antonio

Pedro, em Niterói, Rio de Janeiro. Em outubro, 36 bebês mortos no Hospital

Nossa Senhora do Nazaré, em Boa Vista, Roraima. E 51 mortos, até o dia

21.11.96, numa maternidade tida como modelo, em Fortaleza, Ceará. No dia 27 de

novembro, o jornal O Globo informava que já eram 60 os bebês mortos em

Fortaleza. Um quadro trágico. Nenhuma voz de qualquer organismo evangélico se

levantou contra o morticínio causado pelo caos da saúde pública. Os evangélicos

continuam expulsando demônios pelo rádio e televisão, de forma grotesca e

alienante. Crianças e velhos continuam morrendo pela incúria administrativa, os

hospitais que atendem a população carente são uma vergonha, mas isto nos é

secundário. A falta de visão social dos evangélicos brasileiros é algo chocante.

Meu amigo Rubem Amorese, cuja amizade me honra, contou o episódio de um

candidato evangélico a um posto eletivo, que indagado por um repórter sobre quais

os seus planos para eliminar o déficit habitacional, tendo que responder na hora,

pois o microfone estava em sua boca, fez uma citação bíblica: “na casa de meu

Pai há muitas moradas”. Uma deprimente falta de conteúdo! Isso deveria nos

envergonhar, pois mostra uma comunidade profundamente alienada da vida real

das pessoas. Mas, segundo Rubem, houve quem gostasse porque “a Palavra foi

proclamada e Palavra não volta vazia”. A mediocridade foi vista como

testemunho.

No passado, quem se preocupou em nutrir visão social ganhou o epíteto,

pouco imaginativo, de comunista. Hoje, recebe o de incrédulo. Ou de herege ou

liberal. Na melhor das hipóteses, de petista, o que não sou. Não sou, na realidade,

não sou de partido nenhum. Sou um cristão convicto de que o evangelho é “Jesus

salva” mas é muito mais, ainda, o que é suficiente para nos dar programa de

atividades bem cheio.

Os profetas do Antigo Testamento reagiriam com dureza a uma situação

dessas, de desprezo à vida de crianças e pessoas idosas. Quem leia Amós verá sua

pregação bem dura contra a exploração econômica por parte de uma elite

insensível aos sofrimentos do povo, e contra a corrupção e os desmandos sociais

dessa mesma elite.

Há uma profunda ênfase, na pregação dos profetas, na moralidade social.

Um exemplo: a função do rei não era a de locupletar-se, nem a de enriquecer seus

apaniguados, mas sim a de promover a justiça. Deuteronômio 17.14-20 é o único

texto da lei que trata da monarquia como instituição. Para aclarar nossa

compreensão, vejamos o texto a partir do versículo 16, que trata dos deveres do

rei: “Porém este não multiplicará para si cavalos, nem fará voltar ao Egito, para

multiplicar cavalos; pois o SENHOR vos disse: Nunca mais voltareis por este

caminho. Tampouco multiplicará para si mulheres, para que o seu coração se não

desvie; nem multiplicará muito para si prata ou ouro. Também, quando se assentar

no trono do seu reino, escreverá para si um traslado desta lei num livro, do que

está diante dos levitas sacerdotes. E o terá consigo e nele lerá todos os dias da sua

vida, para que aprenda a temer o SENHOR, seu Deus, a fim de guardar todas as

palavras desta lei e estes estatutos, para os cumprir. Isto fará que o seu coração não

se eleve sobre os seus irmãos e não se aparte do mandamento, nem para a direita

nem para a esquerda; de sorte que prolongue os dias no seu reino, ele e seus filhos

no meio de Israel”.

Fica bem claro, no texto, que o rei não deveria multiplicar para si riquezas

nem mulheres (exatamente o que Salomão fez, transgredindo assim a lei), deveria

obedecer à lei e não deveria se manter distante do povo. O ensino bíblico é bem

claro: o poder público não é para satisfação pessoal. É para serviço ao povo. A

função primordial do líder político é o bem-estar de seus liderados. Ele deveria

continuar no nível do seu povo. Isto a Bíblia ensina e precisamos recuperar como

conceito válido e proclamar aos homens. Vemos hoje uma classe política que

enriquece e que se mantém distante do povo, de quem se lembra apenas em época

de eleição. Não deve ser assim.

OS FUNDAMENTOS DA MORALIDADE SOCIAL NA LEI

Muitos textos poderiam ser evocados como sendo os fundamentos da

moralidade social no Antigo Testamento em geral, e nos profetas, mais

restritamente. Vamos começar pela Lei e com apenas dois eventos que deveriam

ser observados: o ano sabático e o ano do jubileu 12. Sua instituição se acha em

Levítico 25. O ano do descanso deveria ser observado de sete em sete anos e

serviria para o repouso da terra. Comer-se-ia da colheita do ano sexto, que seria

extraordinária porque Deus assim faria. Ela bastaria para o ano sétimo, quando não

se colheria, para o oitavo, quando se plantaria, e daria até o nono, quando se

colheria. Sete anos sabáticos perfariam quarenta e nove anos. O qüinquagésimo

seria o ano do jubileu, o pentecostes da terra e da nação. As dívidas seriam

perdoadas, os escravos seriam alforriados e a terra vendida voltaria aos seus

proprietários anteriores. Deveria haver uma reconciliação nacional. O pressuposto

de tudo isto está em Levítico 25.23: “toda a terra é minha”, disse o Senhor.

A prescrição do ano sabático e do ano do jubileu é seguida por leis a favor

dos pobres e dos escravos (Lv 25.35-55). Isto tudo serve para nos fazer entender a

indignação de Neemias com as injustiças sociais de seu tempo, como a usura e

escravidão por dívidas. Neemias não cuidou apenas do culto, mas também de

reorganizar a vida social. Se esta fosse desajustada, o próprio culto seria sem

sentido.

12 Para uma discussão mais ampla destes eventos como norteadores da moralidade social em Israel, leia-se o livro de Trocmé, alistado na bibliografia.

O fundamento da moralidade social pode ser posto em poucas palavras.

Tudo é de Deus. A terra é dele, os homens são dele, a vida vem dele. Os homens

deveriam administrar com a consciência de que tudo era propriedade dele. A

chamada propriedade privada era subordinada ao conceito de propriedade divina.

Sobre todos os homens, sobre todas as classes sociais, pairava Deus.

OS DEVERES DO REI

Entre os muitos deveres do rei, um bem notado é o de promover a justiça.

Textos como Isaías 11.1-4 e Jeremias 33.15 mostram que o rei deveria aplicá-la,

agindo como juiz (1Rs 3.28) e preservá-la e proclamá-la (2Rs 23.2, 2Cr 17.6 e Jz

17.6).

O messias de Isaías 11 é o modelo do juiz que os reis deveriam ser. Diz o

v. 4: 1 “julgará com justiça os pobres e decidirá com eqüidade a favor dos mansos

da terra”. Ele deveria se vestir de justiça e de fidelidade (Is 11.5). Na mesma linha

de Isaías, o messias anunciado nos escritos de Jeremias fará aquilo que os reis

deveriam ter feito e não fizeram: executar juízo e justiça na terra (Jr 33.15). Na

realidade, a esperança messiânica mostrada por estes dois profetas acabou sendo o

produto de frustração com o desempenho de reis iníquos. Mas estes reis foram

duramente combatidos pelos profetas.

Amós denunciou com veemência as injustiças de seu tempo. Embora a

maior parte de seu discurso seja dirigido contra os empresários da sua época e

contra a religião vendida, voltada para o dinheiro, ele não poupou o rei Jeroboão:

“levantar-me-ei com a espada contra a casa de Jeroboão” (Am 7.9) é o recado que

Deus envia por meio dele. Amós não poupou a religião comercializada, bem

representada por Amazias. E, ameaçado por este, reagiu anunciando que a mulher

de Amazias se prostituiria e seus filhos seriam mortos (Am 7.17). O momento de

choque entre Amós e Amazias deve ser uma advertência para nós. Com muita

facilidade a instituição se apossa da idéia e a deforma. A instituição é criada para

viabilizar uma idéia, mas acaba tornando-se independente da idéia e um fim em si

mesma. Seus maiores esforços acabam sendo para sua auto-perpetuação. A

religião institucionalizada pode ser uma das coisas mais pervertidas do mundo e a

maior opositora da verdade religiosa. Jeremias enfrentou falsos profetas. Amós

também. Jesus teve choques com escribas e fariseus. Esta advertência se torna

mais necessária porque nós, evangélicos, somos grandemente influenciados pela

institucionalização e temos um apego enorme a nossas instituições. Mas elas são

estruturas humanas, facilmente contaminadas pelo pecado. E quando isto acontece,

as denúncias contra elas nunca são bem-vindas. O pastor que seja profeta como

Amós, denunciando a instituição, descobrirá que profetas assim não são bem

vistos. Perdem indicações para grandes igrejas e se tornam merecedores do epíteto

de “desintegrados”. Críticos do sistema religioso-denominacional são como

operários grevistas: perdem o emprego e têm dificuldade em conseguir outro novo.

Quando muito, destinam-lhes igrejas pequenas, de periferia, onde devem sumir da

área de influência. As estruturas religiosas, e as nossas, evangélicas, não são

exceção, desejam aplauso, adesão e conformação a elas. No entanto, a injustiça

muitas vezes, está dentro da própria instituição religiosa. Mas o profeta deve ser

profeta em casa, também. Corrupção e desonestidade, tráfico de influência e falta

de probidade administrativa devem ser denunciados, mesmo que achados na

instituição à qual ele está ligado.

Feita esta digressão, voltemos à linha de pensamento seguida. Miquéias

também teve choques violentos com a estrutura injusta e pervertida de sua época.

Logo no capítulo 2 ele está voltado contra os opressores dos pobres. Gente que

tomava suas casas e campos e que tinha o poder em suas mãos (vv. 2 e 1). Esta

corrupção era incentivada e não apenas tinha a conivência, mas tinha o apoio

mesmo, da classe profética e religiosa. Os capítulos 2 e 3 são chocantes ao

mostrarem como a religião pode se vender facilmente ao poder econômico

constituído. Isto sucede quando as igrejas evangélicas começam a enxergar

prefeitos, deputados, governadores e demais políticos como canais para

conseguirem verbas e favores. A política, em vez de ser bafejada pelo bom hálito

evangélico, vê este hálito se tornar mau hálito e é corrompida por ele. Com

Miquéias, a situação chegara a um ponto que até os juízes estavam corrompidos

(3.9). O castigo estava às portas, como ele mostra em 6.9 em diante.

Da mesma forma vemos o profeta Isaías. O trecho de 5.8-13 parece

copiado de Miquéias, tal a coincidência de conceitos. Transparece nele profunda

indignação contra a exploração do pobre. O texto de 5.29 mostra grande

coincidência com Amós, ao falar do leão, mas aqui como um adversário e não

como a voz de Deus.

Isaías denunciou nações violentas como Assíria, Síria, Babilônia e os

desvios morais de Judá. Na raiz de tudo ele identificou um problema sério: a

corrupção espiritual da nação, sacerdotes frouxos e comprometidos com o poder

constituído, absolutamente corrompido. É uma tragédia quando a liderança

religiosa se enamora do poder político. É uma ilusão pensar que estamos

exercendo influência na mente dessas pessoas. Somos iludidos e usadas por elas,

na realidade. Acabamos legitimando sua conduta, emprestando-lhes um apoio que

nunca deveríamos emprestar.

A ÉTICA SOCIAL PRESCRITA PELOS PROFETAS

A proposta de ética social feita pelos profetas mostrava alguns contornos

que podemos observar e reclamar para os dias de hoje.

1º) Era uma ética de solidariedade. As pessoas não deviam viver apenas

sua vidinha, cuidando de sua horta e seu jardinzinho, esquecidas dos outros. Vale

a pena registrar aqui a expressão de Marrou: “Ainda ouço aquele professor de

filosofia que a duras penas nos explicava, em nossos vinte anos, que a piedade do

Antigo Testamento, ao contrário da cristã, comporta sempre uma preocupação

comunitária” 13. Viver a vida não era procurar levar vantagem em tudo, mas

repartir com os outros. A queixa de Amós 6.6 foi que os líderes não se

preocupavam a ruína do povo. Em Isaías 58.6, o jejum que Deus pede é que se

acabe com a injustiça e com a opressão. Em Isaías 58.7, o jejum que Deus

escolheu não consistia na privação de alimentos, mas que se repartisse o alimento

com o faminto. Os que jejuam hoje e fazem estardalhaço disso, mostrando o fato

como evidência de sua espiritualidade, estão conscientes desta palavra?

Solidariedade é a palavra chave da vivência do povo.

2º) Era uma ética de moralidade administrativa. Os profetas se indignaram

com o comércio desonesto. Amós condenou as balanças adulteradas, como se lê

em 8.5, onde tais vendedores são declarados como “procedendo dolosamente” e o

luxo da classe dirigente em detrimento da pobreza do povo, como se lê em 6.3-7.

Miquéias 6.11 também condenou a desonestidade no comércio: “Poderia eu

inocentar balanças falsas e bolsas de pesos enganosos?”. E em 7.3 o mesmo

profeta condena o governante corrupto e o juiz vendido: “As suas mãos estão

sobre o mal e o fazem diligentemente; o príncipe exige condenação, o juiz aceita

suborno, o grande fala dos maus desejos de sua alma, e assim, todos eles

juntamente urdem a sua trama”. Moralidade na vida pública era uma exigência

profética. O que temos, como povo de Deus, a dizer sobre a malversação de

verbas públicas e da farra que se faz com o dinheiro público?

3º) Era uma ética de imparcialidade. O rei e o juiz não podiam ser

tendenciosos. “Parcialidade no julgar não é bom”, diz Provérbios 24.23,

espelhando o conceito bíblico sobre a neutralidade do juiz. A idéia é repetida em

28.21, mostrando que era conceito corrente. O rei Josafá disse aos juízes que “não

há no Senhor, nosso Deus, injustiça, nem parcialidade, nem aceita ele suborno”

(2Cr 19.7). Atribui-se a diversos políticos brasileiros a expressão “aos amigos,

tudo; aos inimigos, a lei”. É difícil saber-se, ao certo, quem seja seu autor. Mas o

só existir esta frase é uma iniqüidade terrível.

4º) Era uma ética de igualdade perante a lei. Este é um desdobramento da

idéia anterior. Ninguém estava acima da lei. O rei Davi, como já apontamos, foi

duramente acusado por Natã e João Batista, o último dos profetas na linhagem do

Antigo Testamento, disse aos soldados que o procuravam para não serem

violentos, para não denunciarem falsamente e nem se deixarem subornar (Lc

3.14). Aos funcionários públicos, incumbidos de cobrar impostos, que fossem

honestos (Lc 3. 12-13). O rei Herodes foi acusado por ele (Mc 6.18). Hoje, em

nossas igrejas, nos sentimos honrados com as visitas dos Herodes, mesmo que

adúlteros e sabidamente desonestos. São autoridades que honram nossos cultos,

dizemos. São até guindados ao púlpito onde, não raro, dizem inconveniências. Mas

13 Marrou, p. 15.

a ética profética não honra os homens e sim mostra os padrões de Deus aos quais

todos devem se subordinar. Toda honra deve ser tributada a Deus. Corruptos e

pecadores não honram a casa de Deus. O que a honra é ele mesmo.

5º) Uma ética de defesa do oprimido. Basta ler os profetas sociais, como

Amós, Miquéias, Isaías e trechos de Jeremias para ver que havia grande

preocupação com os desfavorecidos na escala social. Eles deviam ser protegidos.

Usamos muito as palavras de Jesus, “os pobres sempre os tendes convosco” para

justificar o nosso imobilismo social. Mas o trecho é bem mais amplo que isso. Ele

continua, em Deuteronômio 15.11: “por isso, eu te ordeno: livremente, abrirás a

mão para o teu irmão, pra o necessitado, para o pobre na tua terra”.

6º) Era uma ética de condenação do opressor. Basta voltar aos chamados

profetas sociais para verificar isto. Para não fazermos uma afirmação genérica,

sem lastro bíblico, fiquemos com Amós 6, mais uma vez. É suficiente.

QUAIS AS LIÇÕES PARA NÓS?

Há, até aqui, algumas lições para nós, que devemos aproveitar e levar a

sério.

A primeira é que se não pode dissociar a fé cristã da vida social. O

cristianismo não é mera contemplação, mas é um ser no mundo, é um portar-se no

mundo, como produto da fé em Jesus Cristo. Esta fé deve se expressar em atitudes

corretas, em vida limpa, em caráter santo. A verdadeira vida cristã não se mostra

em frases estereotipadas, tipo “paz no Senhor” ou “meu amado”. Manifesta-se

num caráter social, que respeita o próximo e produz atitude nas relações sociais.

Um cristão não explora nem compactua com a exploração. Choca-se, indigna-se e

protesta, em nome de Deus.

A segunda é que precisamos nos livrar do individualismo grego que tem

marcado a teologia cristã e entender a socialidade do Antigo Testamento que põe

os homens em interação e faz de todos responsáveis pelos outros. A arrogância de

Caim não pode ser repetida por nós: “sou eu guardador do meu irmão?”. Porque

somos responsáveis pelos homens. A fé bíblica insere o homem em uma

comunidade. O que Caim não quis aceitar, Barnabé, no Novo Testamento, aceitou.

Pôs de si na ajuda aos irmãos necessitados. Ele era responsável. Guardemos, neste

contexto, as palavras de Francis Schaeffer: “A salvação, como já tenho salientado,

é individual, porém não individualista. As pessoas não podem tornar-se cristãs a

não ser uma de cada vez, contudo nossa salvação não é solitária”. 14. Precisamos

estender o pensamento do professor de filosofia de Marrou: o Novo Testamento

não ensina a individualidade dissociada da vida em comunidade. Interpretações

equivocadas da fé cristã produziram esta distorção. A primeira igreja cristã nasceu

dentro do judaísmo e dele herdou a noção de vida solidária, como o livro de Atos

nos mostra.

A terceira é que a comunidade cristã deve optar pela retidão. Há igrejas que

exploram seus funcionários, que não registram seus zeladores e pagam salários

indignos aos seus empregados. Há instituições evangélicas que são desonestas. Há

empresas evangélicas e denominacionais que são desonestas, fraudadoras de

impostos e outras coisas assim. No bordão de Boris Casoy, “isto é uma vergonha” 15 . Um diretor de uma instituição evangélica me contou, pesaroso, que a cúpula de

seu grupo registrava um salário em carteira, mas pagava outro por fora, para

escapar da tributação social. Uma igreja evangélica falseava dados da escola

comunitária que mantinha, para receber verbas públicas além do que tinha direito.

As professoras que não concordavam eram demitidas. Seu pecado: eram honestas

e a igreja não podia aceitar honestidade. Incrível!

Muitas vezes isso é justificado sob alegação de que “não podemos ser

prejudicados”. Ora, a questão não é esta. A questão é que devemos que ser

íntegros. Integridade não é uma opção para Igreja. É uma exigência.

A quarta é que nossa educação religiosa e nossa pregação devem ter uma

ênfase mais formativa e menos informativa. Devem apontar mais para a

necessidade de um caráter reto e devem mostrar aos crentes que seguir a Cristo é

bem mais que participar de uma confraria de religiosos e de reuniões de celebração

da fé. Enfatizamos muito doutrina e isto é bom. Enfatizamos também o culto e a

14 Schaeffer, p. 79. 15 Boris Casoy é âncora de programas noticiosos da televisão e se notabilizou pelo uso desta expressão.

necessidade de uma experiência mais profunda com Deus, o que é excelente. Mas

devemos enfatizar o caráter e isto também é bom. Na realidade, em nosso

contexto, é extremamente necessário. Devemos trabalhar para que os membros de

nossas igrejas sejam cristãos de tempo integral, em todos os momentos e lugares.

Mas, acima de tudo que fiquem conosco as palavras de Miquéias 6.8: “Ele

te declarou, ó homem, o que é bom e que o que o Senhor pede de ti: que pratiques

a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus”. Que

assim façamos, todos. Que aceitemos a ética de uma vida social inatacável.

A ÊNFASE NA CONDUTA PESSOAL CORRETA

Creio que já deve ter ficado bem claro nossa linha de raciocínio: muito do

que entendemos por profetismo atual está distante do profetismo bíblico. Até

mesmo porque avulta aos olhos de qualquer pesquisador, mesmo que não seja ele

muito profundo, a diferença entre o profetismo bíblico e aquele que se vê em

alguns círculos ditos proféticos, hoje.

Muitos do que acontece hoje e é tido como profetismo é adivinhação

pessoal, uma espécie de horóscopo ou “leitura de mão” evangélicos. Por vezes,

aquilo que se costuma chamar em linguagem coloquial, de “chute”. Conheci um

homem não crente profundamente magoado com a igreja evangélica. Amava

profundamente sua esposa, mas uma “profetisa” da igreja que ela freqüentava lhe

afirmou, “em nome do Senhor”, que ele possuía uma amante. E ele não possuía.

Gostava de ir ao bar com amigos, de comemorar eventos e, como disse ele, de

“bebemorar” também. Isto é compreensível no seu estado de pessoa sem

compromisso com um grupo evangélico. Mas em sua vida sentimental só havia

lugar para sua esposa. Neste aspecto, era um homem íntegro. A “profetisa”

argumentou: se ele bebia em bar é porque não era um bom marido, se não era um

bom marido logo possuía uma amante. Seu casamento se desfez por causa de uma

“profecia” silogística. Ou de um “silogismo profético”.

Um colega meu de pastorado na mesma igreja que eu pastoreava, pregando

numa igreja desta linha, teve sua pregação interrompida por uma profetisa, que

depois de falar em línguas por uns dez minutos, traduziu ela mesma o que dissera:

“Deus deseja abençoar todas as crianças desta igreja”. O colega ainda não

entendeu ( e eu também não, confesso) como uma fala tão extensa, em línguas,

deu uma frase, apenas, em vernáculo. E qual a utilidade de uma profecia desta, tão

óbvia, sabida por todos? Por que ocupou tanto espaço no culto? Se não fosse dita,

diferença alguma faria na vida daquelas pessoas. E se fosse dita, em idioma

português, seria recebida logo, assimilada de imediato porque é banal, e o culto

seguiria seu rumo normalmente, sem grandes modificações. Nada se disse demais.

Ou de menos. Disse-se o trivial.

Os profetas bíblicos fizeram revelações pessoais, como Natã, ao acusar

Davi. Como Elias, indignado com Acabe e Jezabel por matarem Nabote para

tomar-lhe a vinha. Mas o grosso das profecias bíblicas se dá em nível macro,

muito mais que em nível micro. Salvo alguma exceção não recordada agora,

quando a profecia sucede em nível micro, é dirigida ao rei, como representante do

povo. No entanto, em ambos os níveis, a profecia bíblica faz grandes exigências

morais. Vimos, no capítulo anterior, a exigência profética de uma moral social.

Veremos, neste, a exigência profética de uma moral em nível individual. Não

poderemos descuidar das estruturas e das instituições, que foram contaminadas

pelo pecado humano, posto que elas são criação de homens pecadores. Mas

também não poderemos nos esquecer das exigências em nível de vida pessoal.

A FONTE DA EXIGÊNCIA DE MORALIDADE PESSOAL

A fonte da exigência de moralidade pessoal é a mesma da exigência da

moralidade social: o caráter de Deus. Pode-se usar aqui a frase do frade Zossima,

em Os Irmãos Karamázovi: “se Deus não existe, tudo é permitido”. Mas fiquemos

com as Escrituras.

Não é um texto profético, mas a declaração do sábio, em Provérbios, de

que a sabedoria, entrando no coração do homem, o livrará do caminho do mal (Pv

2.9-11) cabe muito bem aqui.

A base de todo ensino religioso e moral em Israel era a xemá, como é

conhecido o texto de Deuteronômio 6.4: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é

o único SENHOR”. A unicidade de Deus era acompanhada de sua moralidade e

implicava na moralidade que o povo deveria ter. “Portanto, vós sereis santos,

porque eu sou santo” (Lv 11.46).

O israelita cria que Deus revelara sua vontade na Torá e que esta deveria

ser obedecida. A lei deveria ser obedecida. Se assim sucedesse, bênçãos viriam

sobre o povo. Se não sucedesse, sobreviriam maldições. Os capítulos 6 e 7 de

Deuteronômio são bem claros neste ponto, como mais tarde, no mesmo livro, as

bênçãos e maldições de Gerizim e Ebal (27.11ss) são mostradas como resposta de

Deus à conduta do seu povo. Os profetas seguiram o espírito da Torá, pregando a

moralidade de Deus, sua santidade, e a conseqüência disto na vida do povo: uma

vida moral santa, para a nação e para a pessoa.

Mesmo antes da outorga da lei, o primeiro homem chamado de profeta,

Abraão, assim é chamado num contexto de moralidade: um possível adultério de

Abimeleque com Sara traria conseqüências funestas para o povo. O homem deve

ser correto, é o ensino do texto. Seu erro, sendo ele líder, pode ter dimensões

sociais enormes.

GRANDES TEMAS, UM PEQUENO TEMA POR TRÁS

Os profetas trataram de grandes temas, em termos nacionais, como o futuro

da nação, o perigo de alianças políticas equivocadas, a colocação de confiança em

líderes políticos em vez de colocá-la em Iahweh, o pecado da idolatria, e o

propósito divino para Israel. Mas por trás de todas estas observações, o fundo era

o mesmo: a obediência devida à lei. Era o que Deus mais esperava do povo.

1Samuel 15.22 traz a antológica resposta de Samuel a Saul, quando este usou

como desculpa para desobedecer a vontade de Deus o seu desejo de cultuar ao

Senhor com sacrifícios: “Tem, porventura, o SENHOR tanto prazer em

holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o

obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de

carneiros”. O sacrifício era a forma mais elevada de culto entre os hebreus, mas

diz Samuel que Iahweh prefere obediência ao sacrifício. Mais que liturgia, Deus

pede um caráter obediente. Isto se torna necessário de reafirmar porque enfatiza-se

muito a necessidade de santidade em nossos dias. Mas pensa-se em santidade

como alarido, como a adoção de uma liturgia diferente, como busca de outras

doutrinas e como o surgimento de novas denominações, chamadas de “renovadas”

que logo passam a necessitar de renovação porque “envelhecem” como aquelas

das quais desdenham . Muitas vezes, ainda, confunde-se santidade com esquisitice

e com empáfia espiritual. Santidade nada mais é que obediência. Os profetas

chamaram Israel e Judá à obediência porque estes eram o povo de Deus e

deveriam ser santos. O profeta deve chamar o povo de Deus à vida obediente.

AS DIMENSÕES DA MENSAGEM PROFÉTICA

As questões litúrgicas e rituais não ocuparam a pauta de assuntos dos

profetas. Não estavam em seu ideário. Eles se centraram muito mais em questão de

vida. Sua pregação se ocupou da conduta correta diante de Deus e diante dos

homens.

Exemplo disto podemos ver no texto de Miquéias 6.8, citado no capítulo

anterior, mas agora retornando, para análise: “Ele te declarou, ó homem, o que é

bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, se não que pratiques a justiça e ames a

misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus?”. São três questões dentro

desta palavra, como o que Iahweh espera do homem, o indivíduo aqui citado, e

não o povo.

1º) praticar a justiça

2º) amar a misericórdia

3º) andar humildemente com Deus.

As duas primeiras questões mostram a conduta social do homem: ser justo

e misericordioso. A terceira mostra a conduta espiritual: andar com Deus.

Analisemos a questão. “Praticar a justiça” é o primeiro item declarado. Ela é mais

importante que o culto, na declaração de outro profeta, Amós, como se lê em 5.23-

24: “Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias

das tuas liras. Antes, corra o juízo como as águas, e a justiça como ribeiro perene”.

Um culto de pessoas injustas é rejeitado por Deus. Valorizamos hoje a técnica em

nossos cultos. E isso é muito bom. Afinal, Deus merece o melhor. Valorizamos o

culto de acordo com a forma que julgamos correta, uma ortolatria, pode-se dizer,

perdoando o mau neologismo. Prezamos a ortodoxia, a doutrina correta. Isto é

bom. Mas precisamos entender que Deus pede ortopraxia, conduta correta. Sem

ortopraxia, ortodoxia e ortolatria não tem valor. Aliás, não existe ortodoxia sem

ortopraxia, porque a doutrina correta deve se expressar em vida correta. O caráter

de uma pessoa é a maior expressão de sua fé.

“Misericórdia” é o hebraico hesed, um dos termos mais ricos do hebraico.

É um amor profundo, intenso, que a Bíblia na Linguagem de Hoje traduziu, no

texto de Miquéias, como “amemos uns aos outros com dedicação”. É o amor

dedicado. Mas Iahweh não está pedindo que o povo simplesmente pratique a

misericórdia. Está pedindo que ame a misericórdia. Parece um tanto sem sentido.

O homem deve amar o amor, é o que nos diz o profeta. O amor deve ser algo

buscado, amado e não apenas praticado. Sua prática pode cessar por algum

motivo, mas quando ele é amado e buscado, não cessa nunca. Talvez a falta de

amar o amor explique porque muitas vezes a história do cristianismo em geral e a

nossa, em particular, nos revelam tantos atos de ódio. Guerra santa, igrejas

predando e difamando outras, denominações lutando por fatia de mercado e

manifestando uma ganância mercantilista incrível e combatendo outras, e assim

vai.

“Andar humildemente com o teu Deus” é a última exigência, mas me

parece que não há aí uma ordem de importância, e sim de valor argumentativo.

Miquéias quer mostrar que o valor dado à espiritualidade pelos seus conterrâneos,

naquele momento, estava desvalorizado pela ausência de prática social. E, se

compreendermos o significado do verbo “andar”, no hebraico, compreenderemos

um pouco mais o que o profeta está dizendo. É hallakah, que significa, também,

“regra”. Andar com Deus faz uma regra de conduta na vida da pessoa. Entende-se

a palavra de Deus a Abraão: “Eu sou El-Shadday; anda na minha presença, e sê

perfeito” (Gn 17.1). Andar na presença de Deus torna a pessoa agradável a ele,

porque ela aprende suas exigências, entre elas a de praticar a justiça e amar o

amor.

Profecia, portanto, não é diletantismo nem exercício de futurologia: “Quem

vencerá o campeonato deste ano?”. Um comentarista esportivo carioca era

chamado de “profeta” por causa de sua mania de dar palpites em resultados antes

do jogo de futebol (que nem sempre acertava). A profecia é pregação do caráter de

Deus bem como das suas exigências. O profeta é, portanto, um proclamador do

caráter de Deus e de suas exigências éticas, também em nível individual. Sem

estas, a profecia é incompleta. É um mero alarido opinativo. E, convenhamos:

deste, já há bastante no mundo.

EM BUSCA DE DIFERENÇA

Esta compreensão da proclamação do caráter de Deus nos ajuda a entender

muitos aspectos do Antigo Testamento que parecem problemáticos, à luz de nossa

cultura. Um exemplo que se pode abordar aqui, neste contexto, é o episódio de

Acã, em Josué 7. Como é que, por causa de uma capa, duzentos siclos de prata e

cinqüenta siclos de ouro, Deus permitiu a morte de 36 soldados (Js 7.5) e a história

terminou com a morte de Acã, seus filhos e suas filhas, bois jumentos, ovelhas e

com a queima de sua tenda (estranhamente nada se fala da mulher de Acã) ?

Quando uma nação vencia uma outra nação, inimiga, saqueava seus bens.

Os moabitas pagaram tributos a Davi (2Sm 8.2). Os sírios também (2Sm 8.6).

Num hino composto para a entronização do rei de Judá, expressa-se o desejo de

que os reis de Társis, das ilhas, de Sabá e Sebá lhe paguem tributos (Sl 72.10). Ao

sair do Egito, os hebreus já tinham levado bens dos egípcios (Êx 12.35-36). Por

que agora não podiam levar nada?

Era a primeira batalha já na terra prometida. Era o primeiro contato com os

bens dos cananeus. Era o primeiro contato de Israel como povo de Deus, por ele

redimido, com pagãos condenados por Deus. Não trazer nada deles era uma

recomendação eivada de simbolismo: nada de convívio com os pagãos. Não se

podia fazer aliança com eles (Dt 7.1-2). Havia uma diferença de vida marcante.

Não era apenas a questão da crença em uma determinada divindade, mas práticas

abomináveis como sacrifícios humanos, prostituição cultual (cultual mesmo, de

“culto”, e não cultural, de “cultura”), adoração de animais, rebaixando assim o

próprio Criador. O princípio é ético: nenhuma ligação com este tipo de gente.

Nada destes povos deveria ser cobiçado. A cobiça produziria alianças para se obter

vantagens.

Pensemos nisto porque muitas vezes a Igreja de Jesus faz ligações pouco

confiáveis com pagãos. Adotamos métodos e atitudes que são a nossa capa

babilônica e nossos siclos de ouro e de prata. E muitas vezes não são métodos e

atitudes, mas são ouro e prata, mesmo. Há igrejas locais que trocam votos por

tijolos e cargos políticos, por exemplo. Há púlpitos que se tornam palanques

eleitorais de pessoas sem escrúpulos e sem o mínimo temor de Deus. Há muito de

Acã hoje, muito de ética da santidade transgredida em nossos arraiais. Quando um

pastor pede voto, de público, para um político que não é conhecido por sua

integridade, mas porque ele dará dinheiro ou facilitará as coisas para instituições

ligadas à sua igreja, temos aí um caso pior que o de Acã. A igreja em geral, e seus

líderes, em particular, como pessoas, devem ser íntegras. A maior dificuldade da

igreja evangélica hoje tem origens internas e não externas. Está na qualidade de

sua liderança, que muitas vezes procede como Acã, enamorando-se de bens e

negando seus valores morais e espirituais, pelos quais deve zelar.

Sem dúvida, a grande insistência dos profetas, além da chamada ao retorno

ao berith, o pacto entre Israel e Iahweh, foi a conduta pessoal correta. Se os

homens fossem maus, a sociedade não poderia ser boa. Os homens precisavam

modificar sua conduta.

A LUTA PELA DIFERENÇA

Ser diferente dos pagãos era a proposta divina para Israel. Esta diferença

não residia em esquisitice, mas em moral. Os profetas buscaram levar o povo a ser

diferente, mas houve luta para se estabelecer a diferença.

Não vou declarar Esdras e Neemias como profetas. Mas há episódios na

vida dos dois que mostram bem a ênfase profética na questão ética pessoal. De

passagem, diga-se que Esdras e Neemias não são tidos como profetas somente pela

visão de período sem profetas que nos acostumamos a ver em sua época. Pelo

contorno de suas vidas e suas atitudes, o título lhes cairia muito bem, sem exegese

forçada. Mas não arrisquemos o título pra eles.

A comovente oração de Esdras, no capítulo 9 de seu livro, e sua crise de

choro narrada no capítulo 10, não são melindre nem histeria de uma pessoa com

sensibilidade à flor da pele. São o reconhecimento do grave pecado da não

separação do povo de Deus e dos pagãos. Sua postura é sintomática: havia a

necessidade de separação. O retorno do cativeiro foi o segundo êxodo. A mistura

com pagãos seria de impacto tão danoso como quando da entrada em Canaã.

Esdras sabe que o povo de Deus precisa ser diferente dos pagãos. A prática

religiosa é o substrato de tudo. Se a religião fosse falsa, a conduta não seria

correta. O fundamento de tudo é a vida de acordo com os ditames de Deus. Ele se

lançou à oração intercessória porque a conduta de seus conterrâneos deixava a

desejar.

Neemias não era um homem de chorar, como Esdras. Era de brigar. Se

fosse pastor hoje, fazendo ao povo as mesmas exigências que fazia e procedendo

da mesma maneira, precisaria de uma enfermaria na sua igreja, já que machucaria

muitas ovelhas. Encontrou ele o mesmo problema que Esdras encontrara. Mas,

diferentemente, em vez de orar e chorar, espancou os errados, arrancou-lhes os

cabelos e os amaldiçoou (Ne 13.25). A questão aqui já se apresentava mais grave:

os filhos dos casamentos mistos já não falavam judaico, mas um dialeto (Ne

13.24). Era a perda de identidade que se intensificava. As pessoas, com seu

procedimento, estavam colocando a nação em risco. A necessidade de ética

pessoal do líder é uma exigência ditada também pela manutenção do bem-estar da

nação.

A questão é bem clara: a aliança com pagãos provocaria a perda de

identidade dos filhos de Deus. Reconheço que não é um crente casando-se com um

católico que vai fazer com que ele perca a sua salvação ou que isto venha a

impossibilitar a salvação dos seus filhos. Nem diria tal coisa. A questão no tempo

de Neemias era mais ampla que isso. O povo de Deus, o Judá retornado, poderia

se diluir no meio dos pagãos, como os israelitas se diluíram no meio de pagãos e

originaram os samaritanos.

Quando o povo de Deus perde sua identidade, esquece sua língua, tudo o

que sucede é “samaritanidade”, nunca santidade. Perde-se a identidade em alianças

comprometedoras, em procedimentos ilícitos, em negócios escusos. Não se perde

por decreto, mas por atitudes que vão pouco a pouco se infiltrando no meio do

povo de Deus. Em vez de ser modelo, a Igreja se torna carbono. Copia o mundo,

importa a sua conduta, em vez de exportar os padrões dela. Isso explica a

veemente postura dos profetas contra a perda de referenciais na conduta pessoal.

Pessoas erradas fazem o grupo errar. O profeta deve clamar contra o erro pessoal,

também.

Um episódio que corrobora isto se vê na profecia dura de Jeremias contra

Jeoaquim (Jr 22.13-19). O profeta é extremamente duro contra o rei corrupto e

explorador. Jeoaquim construiu belos edifícios na base da escravidão. Foi cruel

(vv. 13-14). Sua conduta é contrastada com a de seu antecessor (vv. 15-16). Ele foi

ganancioso, sanguinário, violento e extorquiu o povo. Não será chorado, é a

maldição que Jeremias lhe encaminha. Nem mesmo será sepultado (v. 19). Seria

arrastado como um animal morto e jogado no lixo. Não chegou a ser sepultado. O

texto de 2Reis 24.6 só fala de sua morte e substituição.

Uma vida que não atentasse para os outros, que explorasse, que fizesse os

outros sofrer, uma vida egoísta, era repreendida e castigada pela palavra profética.

E QUANTO A NÓS?

Há algumas lições para nós, que pretendemos ser profetas de Deus para

nosso tempo.

1ª ) A compreensão de que a conduta individual tem valor aos olhos de

Deus. Podemos contemporizar ou cuidar de denúncias em nível macro, pensando

que as coisas pequenas são irrelevantes aos olhos divinos. Sem resvalar para caça

às bruxas, usando o episódio de Acã, podemos dizemos que muita ruína vem sobre

nosso povo porque cobiçamos o mundo, porque o invejamos, porque não

guardamos as diferenças. A função do profeta é chamar as pessoas a viverem vidas

diferentes da vida do mundo sem Cristo. Mesmo que incompreendido como

Jeremias. Não precisa e, na realidade não deve, esbofetear pessoas, como Neemias,

mas deve chamar as pessoas a corrigirem suas vidas.

2ª) A prática da justiça deve ser proclamada pelo profeta atual. Ele deve

dizer aos patrões e empresários crentes que devem ser honestos, pagar

honestamente e não defraudar o salário. O cristianismo não é uma ética de

escravos, para manter as massas em obediência, mas traz preceitos para todos.

Neste sentido, Tiago, o autor da epístola que leva seu nome, no Novo Testamento,

é bem claro. Há deveres para patrões. Não é suficiente dizer ao empregado crente

que ele deve ser honesto. Deve-se dizer ao empresário crente que ele deve ser

honesto, também. Rubem Alves declara o protestantismo de criador de uma “ética

do funcionário” 16. Pois bem, devemos criar uma ética geral, pertinente a todos as

classes sociais, mesmo as mais ricas, que são dizimistas de peso nas igrejas.

3ª) O crente, em nível individual, precisa de retidão e de integridade. O

profeta deve dizer isso. Santidade está ficando fora de moda, em nosso meio. E,

quando é proclamada, isso é feito em termos de dons, de liturgia, de alarido, de

esquisitice. Mas santidade se evidencia em termos de caráter. É fácil ter dons. Ter

caráter é mais difícil. O profeta deve chamar as pessoas a obedeceram à Palavra e

a pautarem suas vidas pela Palavra.

4ª) O profeta deve cumprir em sua vida o que prega. Os profetas estavam

acima de suspeita. Não foram contestados em termos de “você não vive o que

prega”. Eram temidos. O poderoso Herodes temia a João, diz Lucas 6.20. Herodes

tinha os poderes político econômico e militar consigo. Mas o Batista tinha caráter,

o que Herodes não tinha. Para dizer aos indivíduos o que devem ser e o que devem

fazer, o profeta precisa ser correto e fazer o correto. E este é para nós o grande

desafio. Porque a nossa maior necessidade hoje é ter um caráter íntegro. Os

evangélicos brasileiros são mais conhecidos, presentemente, por escândalos que

por qualquer outra coisa.

16 No seu livro Dogmatismo e Tolerância, constante da bibliografia, página 128.

A ÉTICA PESSOAL DOS PROFETAS

Comentamos, logo no primeiro capítulo, que muitos pastores e pregadores

gostam de ter o termo profeta aplicado a si, arrogando-se voz profética para terem

o direito de falarem que querem. Parece que alguns pensam que profeta é a pessoa

que fala coisas para as outras. Geralmente o que elas não querem ouvir e o que o

profeta quer dizer. E elas não podem contestar, porque é Deus quem está falando

pelo presumido profeta. Esta é uma posição cômoda, a de emitir conceitos sobre

a vida dos outros e para os outros, porque tem imunidade e porque os outros ficam

na defensiva sem poderem se defender. E quem fica na defensiva sempre está em

desvantagem. Principalmente quando “a voz do Senhor” está na acusação.

Esta interpretação evidencia uma compreensão bastante pequena da função

profética. Na realidade, o profeta não é tão somente uma caixa de som que ressoa

o que lhe é dito, sem qualquer envolvimento emocional ou existencial de sua parte.

É uma pessoa que internaliza o que diz. Antes de dizer alguma coisa aos outros, o

profeta tem que dizê-la a si mesmo. Não pode pedir aos outros o cumprimento de

algo que descumpre com sua vida e suas atitudes.

Os filhos do sacerdote Eli eram corruptos (1Sm 2) e quando Deus precisou

levantar um profeta naquele tempo, levantou um moço que não era da família, o

jovem Samuel. Hofni e Finéias poderiam ser profetas, e seriam as pessoas mais

indicadas por já estarem oficiando a serviço de Deus, mas a falta de uma ética

pessoal os incapacitou para a missão. Na realidade, foi sua sentença de morte:

“ambos morrerão no mesmo dia” (2Sm2.34).

O profeta tinha que ser íntegro. Hofni e Finéias eram filhos do sacerdote

Eli, mas não puderam ser chamados para o ofício profético. Então Samuel, criado

por Eli, foi a pessoa chamada. Na raiz da rejeição dos dois e da opção de Deus por

Samuel está a integridade pessoal que os filhos do sacerdote não tinham e que

Samuel tinha. O profeta contemporâneo precisa ser íntegro também. Se não o for,

não tem credencial para sua missão. Está moralmente desautorizado.

INTERNALIZAR ANTES DE EXTERNALIZAR

A experiência de Ezequiel nos lança luz sobre este aspecto. No início do

capítulo 2 aparece o relato de sua vocação para o ofício profético. A seguir, ele

recebe uma ordem estranha: “abre a boca e come o que eu te dou” (Ez 2.8).

Continua o relato e a redação nos mostra uma seqüência de ordens bem

concatenadas: “come este rolo, vai e fala à casa de Israel” (3.1). Primeiro comer o

livro, depois ir e falar. Ele não é enviado senão depois de comer o livro. Esta

ordem é coerente.

Por que comer o livro? Em 2.10 se vê que o rolo contém as lamentações e o

desgosto de Deus pela conduta de Judá. Só depois que Ezequiel assimilou o

conteúdo, internalizando-o, comendo-o, é que estava apto a ir ao povo para pregar.

O profeta não é um repetidor de palavras cujo sentido desconhece, matraqueando-

as como se fosse um papagaio, mas é alguém que sabe o que diz, e que é mais

importante ainda, é alguém que sente o que diz: “na boca me era doce como o

mel” (3.3). Ele sente o sabor do livro. A palavra de Deus tem sabor para o profeta.

Na seqüência, chegamos a 3.4, onde Ezequiel recebe o comissionamento

de forma mais ampla: “Filho do homem, entra na casa de Israel e dize-lhe as

minhas palavras”. Agora ele pode ir e pode dizer as palavras de Deus, porque já as

comeu. Elas estão dentro dele. Isto também deve servir de alerta para nós. Só

pode sair do profeta o que entrou no profeta. A relação do profeta para com a

Palavra de Deus é uma relação viva, existencial, e não apenas a de um

retransmissor.

Estão questão de assimilação da Palavra não é apenas de conteúdo formal

ou conceitual (compreender a forma e os conceitos), mas deve se processar,

fundamentalmente, em termos de vida. O profeta precisa viver o que prega.

Precisa de ter integridade pessoal: “Eles, quer ouçam quer deixem de ouvir, porque

são casa rebelde, hão de saber que esteve no meio deles um profeta” (2.5). Em

palavras mais atuais, o povo pode até não ouvir o que o profeta diz, mas deve

respeitar o profeta, vendo-o como homem de Deus. Esta questão é fundamental

para nós, que almejamos ser profetas: a Palavra de Deus precisa estar

internalizada em nossa vida. Precisa nos ser saborosa, doce como o mel. Isto nos

dará a credencial para ir ao povo. E aí o povo nos respeitará, mesmo que na sua

dureza de coração rejeite a Palavra do Senhor. O melhor que é aceite a Palavra do

Senhor, mas respeitar o profeta já é alguma coisa. Pelo menos ficará a impressão

de que o povo de Deus trata as realidades de Deus com seriedade. Tanto que é

respeitado.

QUANDO A OBEDIÊNCIA É DURA

Mas nem sempre o livro a ser comido é doce como o mel. Por vezes Deus

faz exigências um pouco mais estranhas e até mesmo mais duras ao profeta. Isaías

recebeu a ordem bastante absurda, há que se reconhecer, de andar nu por três anos

(Is 20.3). Um tanto insólito. E também desmoralizador para o profeta,

convenhamos.

Ezequiel recebeu ordens mais extravagantes ainda: as de cozinhar sua

comida sobre fezes humanas (Ez 4.12). Agora, mais que insólita, a ordem é

repugnante. Asquerosa mesma. Queixando-se ele desta exigência de Deus, ela foi

minimizada: poderia usar excremento de vaca (4.15). Mesmo com esta atenuante,

o cheiro das refeições do profeta deveria ser profundamente perturbador para o seu

apetite.

Estas exigências, um tanto esquisitas, tinham um sentido, não sendo

descabidas como nos parecem. Há um simbolismo nelas. É o que se chama de “ato

simbólico” na profecia. A explicação que Deus dá a seguir, quando da ordem,

justifica o porquê da exigência, aparentemente desconexa para nós, em nosso

contexto cultural. Tanto na exigência feita a Isaías como na feita a Ezequiel está

um simbolismo muito profundo: os horrores da guerra. Os filmes podem

glamurizar a guerra, mostrando cenas de heroísmo e de romantismo. A Guerra do

Golfo, mostrada pela televisão, parecia mais um jogo de vídeogame. Mas a guerra

é sempre uma tragédia. Com ela vêm a escassez de roupa, de alimento, de

combustível, a vergonha, a repugnância que se tem que passar, a decadência dos

costumes. Uma guerra é um assassinato em larga escala, uma degradação da

humanidade. Perdem-se, por completo, a sensibilidade e os valores humanitários

são postos de lado. A leitura de Lamentações 4 nos mostra isso. O versículo 10,

por exemplo, narra cenas de canibalismo materno. Que coisa trágica! Mães

cozinhando seus filhos e comendo-os! Uma guerra sempre é imoral e repugnante.

Pior do que andar nu e que usar fezes como combustível.

Ser profeta nem sempre é agradável. Jeremias chorou por sua cidade. Isaías

saiu do cenário da corte para andar nu pelas ruas. Elias entrou em profunda

depressão e desejou a morte. Ezequiel, coitado, teve a morte da esposa anunciada

por Deus e uma exigência imposta: não deveria chorar por ela. Se a esposa lhe

fosse um estorvo, talvez se alegrasse. Mas parece que a amava muito, pois o

anúncio de sua morte a dá como “a delícia dos teus olhos” (24.16). Ele perde a

delícia dos seus olhos e não pode nem chorar! Por que estas imposições? Porque o

profeta deve colocar a vontade de Deus acima de suas emoções pessoais. Sua

individualidade não é anulada, mas ele deve valorizar mais o querer de Deus que

sua vontade pessoal. Este foi o erro em que Jonas laborou: valorizou-se mais a si

mesmo que a vontade de Deus.

Os profetas eram chamados à obediência. Antes de conclamar o povo a

obedecer, precisavam fazê-lo. Isto é um padrão para o serviço a se prestar a Deus.

O próprio Filho, Jesus, aprendeu a obedecer, diz-nos Hebreus 5.8. O verdadeiro

profeta é um homem que cumpre o que prega, que obedece para pedir obediência,

que põe a sua vida pessoal debaixo das ordens de Deus para ter autoridade de

pregar isto ao povo. Subordina seu querer e suas emoções ao querer de Deus.

Como profetas que pretendemos ser, perguntemo-nos: sucede assim conosco?

O PROFETA, UM HOMEM SEM LUCROS PESSOAIS

Muitos profetas hoje querem segurança econômica e uma vida tranqüila. É

uma atitude justa e honesta. Não fere a lei nem a moralidade, se feita dentro dos

padrões aceitos. Mas parece que, muitas vezes, a primeira coisa a se observar num

convite de uma igreja é o salário oferecido. Entendo que quem vive para o

ministério deve viver do ministério. Paulo explicou isso muito bem em seu

arrazoado em 1Coríntios 9.1-14, de onde ressaltamos o versículo final: “Assim

ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do

evangelho”. Eu, particularmente, vivo para o ministério, para o ofício profético de

ensinar o povo de Deus. E vivo disto. Seria hipócrita se não dissesse que um bom

salário é melhor que um salário baixo. E também se não concordasse que ter

segurança econômica é melhor que passar necessidades. Mas não é isso que deve

dominar a consciência profética. A qualidade de nosso serviço e a seriedade com

que devemos desempenhar nossas funções não devem se subordinar ao quanto

ganhamos. Um profeta em particular, e um servo de Deus em geral, não podem

agir de forma mercenária. A qualidade do seu serviço não depende de quanto

devem ganhar.

Eliseu, ao orientar Naamã sobre como ser curado de sua lepra, se recusou a

receber deste qualquer recompensa financeira. Mesmo instado por este a fazê-lo,

não aceitou (2Rs 5.16). Muitas razões poderia ter, mas talvez a principal fosse a de

não querer dever a um pagão nem ser acusado de ter sido enriquecido por ele. Foi

a mesma atitude de Abraão ao rei de Sodoma: “para que não digas: Eu enriqueci a

Abraão” (Gn 14.23). Estes personagens eram homens movidos por escrúpulos. E

isto deve ser norteador para nós: o profeta contemporâneo precisa ter escrúpulos.

Principalmente na área financeira, porque a voracidade de segmentos baixo-

pentecostais por dinheiro tem sido motivo de escândalo para o mundo. Roberto

Campos, conhecido economista e intelectual brasileiro, em um ensaio, declarou

que “a praga do protestantismo é a sua mercantilização” 17 . É deplorável que esta

imagem a nosso respeito tenha sido passada ao mundo por gente inescrupulosa.

Cem anos de reputação duramente construídos na história brasileira desmoronaram

em pouco tempo. É muito significativo, por exemplo, que uma denominação

neopentecostal, a Igreja Universal do Reino de Deus, em seu site, na Internet,

quando alistou seu credo, tenho colocado “Dízimos” em primeiro lugar, antes

mesmo da “Doutrina da Salvação”. Não foi um acidente. Parece ser um ensino

claro de que contribuir é mais importante que ser salvo. A voracidade por ofertas,

em alguns segmentos, é uma situação constrangedora. Um dos pastores da minha

equipe me falou de um culto do qual participou em que se levantaram ofertas sete

vezes! Falta, no mínimo, bom senso, que nunca matou ninguém. E cria a imagem

17 A expressão consta de seu ensaio “Deus, Fé e Política”, publicado em Reflexões Para O Futuro, editado pela revista Veja para comemorar seus 25 anos de circulação.

citada por Roberto Campos, a de comerciantes da fé. Pode se aplicar a estas

pessoas a palavra de Natã a Davi: “Porquanto com este feito deste lugar a que os

inimigos do Senhor blasfemem” (2Sm 12.14).

Por quebrar a orientação de Eliseu e pedir bens materiais a Naamã, Geazi

se tornou leproso (2Rs 5.27). Ficou com parte do dinheiro do pagão. Mas, em

contrapartida, ficou com a totalidade da sua doença. Que lição! Quando o profeta

é inescrupuloso, pega a doença do mundo: a lepra da cobiça, da ganância, da

voracidade por coisas. E um profeta moralmente doente é alguém inútil. Um

profeta moral e espiritualmente doente é um enorme prejuízo para o reino de Deus.

Um autêntico profeta age como Neemias. Os políticos que o antecederam

na função que ele desempenhava foram corruptos. Poderia ele alegar, como muitos

fazem hoje, que “todo mundo faz assim”, mas não o fez. “Eu assim não fiz, por

causa do temor de Deus” (Ne 5.15). O profeta não apenas prega que o povo deve

temer a Deus. Ele próprio teme a Deus. Nunca permitamos, nós que pretendemos

ser profetas de Deus ao mundo de hoje, que a familiaridade com as coisas santas

nos tornem hipócritas ou, ainda, desvalorizadores da ética. Com muita facilidade,

as pessoas que lidam com realidades espirituais se tornam insensíveis e até cínicas.

Há muita crueldade “em nome de Deus”. E muita maldade, em igrejas e

denominações, camufladas pela expressão “zelo santo”. A familiaridade pode

levar à perda de respeito para com Deus e falta de misericórdia para com os

irmãos. Mas sensibilidade à voz de Deus e temor diante dele são marcas

essenciais na vida de um profeta que se preze.

O PROFETA, UM HOMEM QUE NÃO BAJULA

Um dos problemas mais graves para o profeta contemporâneo é a tentação

da popularidade. Viver bem com a mídia, aparecer como pessoa bem relacionada e

como massageador de egos. Choca-me o alvoroço que as eleições públicas no

Brasil causam em certas igrejas. É um frisson, uma agitação, com a apologia de

políticos (alguns sabidamente desonestos) e um oportunismo vergonhoso. O Pr.

Ronaldo Didini, na ocasião líder da Igreja Universal do Reino de Deus, em

entrevista a uma revista de circulação nacional, declarou que sua Igreja apoiou um

determinado candidato ao Senado visando benefícios ao seu grupo. Agiu assim

porque temia ser prejudicada em seus projetos 18. O candidato, por conta disto, foi

endossado pela Igreja, cortejado por pastores e mostrado como o homem que

ajudaria a Igreja. Que estranho sentimento para uma denominação evangélica!

Não seria o caso de confiar ela em Deus, que cuida da sua Igreja e que nunca

permitirá que as portas do inferno prevaleçam contra ela? A Igreja precisa crer no

que prega e confiar no poder de Deus e nunca se envolver em alianças políticas

para receber ou ter privilégios mantidos. Como pregar para o povo confiar em

Deus se a Igreja confia em alianças políticas?

É triste quando a Igreja tem que cortejar homens para poder viver. João

Batista preferiu morrer a bajular. Sofrer hostilidade e perseguição por coerência e

fé é mais digno do que desfrutar benesses do poder. Em nosso machismo latino, se

uma mulher procedesse assim, chamá-la-íamos de prostituta, porque estaria se

vendendo. Quando é uma Igreja que procede assim, como chamá-la?

Em 2Crônicas 18.12-13, Micaías foi instado a falar coisas boas para

agradar Acabe. Mas Acabe era um homem de vida torta, pecador, idólatra, imoral

e cruel. Deus nada tinha de bom para dizer de bom a ele. Por isso Micaías foi

firme: “Tão certo como vive o SENHOR, o que o meu Deus me disser, isso

falarei”.

18 O candidato foi José Serra, do PSDB. A entrevista de Didini está na revista Veja, de 20.8.97.

O resultado não se fez esperar. Foi uma reação imediata. Acabe, indignado

com a profecia de Micaías, manda encarcerá-lo e deixá-lo com escassez de pão e

de água, e o ameaçou: “até que eu volte em paz” (2Cr 18.26). Micaías, a caminho

do cárcere, ainda teve tempo de dizer: “Se voltares em paz, não falou o SENHOR,

na verdade, por mim” (v. 27). Manteve sua coerência até o fim.

O profeta não é nem pode ser bajulador, mas deve seguir sua consciência,

que nunca deve ser vendida. Não é nem pode ser interesseiro. Nada tem como

interesse a não ser “o que o meu Deus me disser, isso falarei”.

Por vezes, a situação demanda prudência. Assim é que o desconhecido

profeta de 2Crônicas 25.14-16, ameaçado por Amazias, quando o acusou de erro,

parou de denunciá-lo. Mas não se acovardou. Simplesmente lhe disse: “Sei que

Deus resolveu destruir-te, porque fizeste isso e não deste ouvido ao meu conselho”

(v. 16). Cautela, algumas vezes, é necessário. Mas vender-se, nunca. Bajular,

jamais.

O PROFETA, UM HOMEM DE CARÁTER INCORRUPTÍVEL

A autoridade do profeta não é somente extrínseca, dada por força de ofício.

É também intrínseca, própria do seu caráter. A força moral de Daniel é bem

conhecida. Em 1.8, ele resolveu firmemente não se contaminar com as iguarias do

rei. A cultura babilônica era agora o lugar onde ele deveria viver, mas ele não se

renderia a ela. Sua decisão resoluta de não se contaminar valeu uma observação

dos próprios adversários: “Nunca acharemos ocasião alguma para acusar a este

Daniel, se não a procurarmos contra ele na lei do seu Deus” (6.4). Somente alguma

“falha técnica” de Daniel poderia levar a uma situação de acusação.

Integridade pessoal é o ingrediente mais reclamado na vida do profeta hoje.

O mundo está farto de profetas falsos, mentirosos, corruptos, hipócritas, de gente

que enriquece e cria um verdadeiro império usando o nome de Deus. Gente que

funda “missões de fé”, sustentadas pelos outros, e coloca todo o patrimônio em

nome da família! O mundo clama por integridade. O homem de Deus precisa tê-la.

Se não a tiver, isso invalida sua missão.

O desconhecido profeta de 1Reis 13 foi iludido por outro profeta, que lhe

mentiu. A morte foi a conseqüência. O profeta mentiroso, vendo seu cadáver,

apenas comentou: “É o homem de Deus, que foi rebelde à palavra do SENHOR;

por isso, o SENHOR o entregou ao leão...” (v. 26). Que cena estranha! Um profeta

que mente. Um profeta que desobedece a Deus e se deixa iludir. Um profeta

mentiroso e insensível. Quanto desacerto profético!

Profetas de Deus, cuidado! É com tristeza que digo isso: alguns dos seus

possíveis desencaminhadores serão outros profetas. Antigamente dizia-se que os

grandes perigos de um pastor eram o sexo oposto e o dinheiro. Ainda continuam

sendo. Mas há um outro, hoje, não menos perigoso: os colegas de ofício. Sejam

escravos da Palavra de Deus e não da opinião alheia, mesmo que de colegas. E

cuidado com eles! Inclusive se seus ministérios alçarem-se da média, vocês

correrão perigo. A mediocridade se ressente da eficiência.

A POSTURA E O PADRÃO FINAL PARA O PROFETA

Tomando João, o Batista como o último profeta da linhagem do Antigo

Testamento (“a lei e os profetas vigoraram até João” - Lc 16.16), podemos ver a

postura final do profeta, a postura última, por manter. Isso se torna um padrão para

todos nós.

“Convém que ele cresça e que eu diminua”, disse João (Jo 3.30). João não

se considerava digno de desatar as correias das sandálias de Jesus (Jo 1.27). Em

linguagem de hoje, o Batista não se julgaria digno de desamarrar os cordões dos

seu sapatos. Nem de engraxá-los. É uma advertência muito séria. O culto à

personalidade é uma das coisas mais asquerosas no cenário evangélico hoje em

dia. É tanto “grande servo de Deus”, “grande homem de Deus”, tanto “canal

especial que Deus escolheu” e tanta gente mostrada com alarido e som de

trombeta que se chega a pensar numa quarta pessoa da trindade, aquele pregador

apresentado. Um colunista de um jornal carioca ironizava, num artigo intitulado

“Bruxarias e Dízimos” 19, uma igreja baixo-pentecostal que apresentava um

pregador que perdera a língua, e, conseqüentemente a fala, mas que, em certo dia,

ao entrar naquela igreja recuperara o dom de falar. Veja-se o relato do articulista,

para se entender o escândalo que tais episódios produzem na mente das pessoas

que pensam:

“Um folheto da Igreja Deus é Amor, fundada pelo apocalíptico missionário David Miranda, atesta o caso de um drogado que, depois de uma overdose, ficou com a língua enrolada. Um amigo tentou ajudá-lo, mas foi pior a emenda que o soneto: no afã de lhe segurar a língua, arrancou-lhe um pedaço bem maior que a que lasca de orelha que Tyson extirpou de Holyfield. No hospital, amputaram o que sobrara. Sem língua, o pobre homem emudeceu, supunha-se que para sempre. Mas, um dia, entrou num templo da Deus é Amor, atraído pelos aleluias que estrugiam lá dentro. Logo se dispôs a aceitar o Senhor Jesus. E desatou a falar tanto que derrubou todos os recordes do Serjão”. 20

Ouvi a citada propaganda pelo rádio, em Manaus: o pregador não tinha

língua, mas pregava. E quando ele abrisse a boca e o ouvinte olhasse lá dentro e

visse que ele não tinha língua, mas falava, se converteria. Que propaganda

ridícula! Não sou dentista e não quero ficar olhando dentro da boca dos outros. E

perguntemo-nos: é isto que converte? É isto que temos para apresentar ao mundo?

Exotismo de péssimo gosto? É correta uma promoção nestes termos? Quando a

maior credencial que uma igreja tem para mostrar ao mundo é esquisitice, o culto

se torna um circo de aberrações e a igreja passa a ser objeto de ridículo para as

pessoas de bom senso. Infelizmente, os promotores do pregador sem língua não

tiveram o discernimento para entender que estão sendo objeto de chacota e

expondo o evangelho ao ridículo. Estão se tornando motivo de escândalo. Mas

contam bazófia, como se o evento fosse a maior demonstração de poder divino.

Como os judeus do tempo do apóstolo Paulo, “têm zelo por Deus, mas não com

entendimento” (Rm 10.2). Não basta ter zelo. É preciso ter bom senso e noção de

ridículo.

19 “Bruxarias e Dízimos”, de Armindo Blanco, no jornal carioca “O Dia”, de 14.8.97.

Estamos vendendo ministérios e pessoas como quem vende mercadoria

mundana, a tranqueira eletrodoméstica que nos apresentam como a grande

novidade do momento. Promovemos pessoas que enriquecem às custas do

evangelho. Há gente colocando-se sob os holofotes. É o que um pastor de

Portugal, Renato Cordeiro de Souza, chama de a doença evangélica moderna:

“holofotite”. Cabem aqui as palavras de Wiersbe: “Uma das fraquezas da igreja

nos últimos anos tem sido a abundância de celebridades e a ausência de servos”.21

O profeta de Deus é servo, sempre servo. Não se promove, não busca o

primeiro lugar. Sua glória é aquela dita por Jesus. Depois de termos feito tudo,

devemos dizer: “Somos servos inúteis; fizemos somente o que devíamos fazer”

(Lc 17.10).

E NÓS, POR FIM?

Nós, por fim, devemos permanecer fiéis à Palavra de Deus e não às

esquisitices humanas. Devemos arcar com a responsabilidade de manter uma vida

séria e santa. A respeitabilidade que os crentes desfrutávamos no passado se

esmaeceu. Nos anos oitentas, os evangélicos demos ao mundo um homem da

envergadura do pastor batista Martin Luther King Jr., Prêmio Nobel da Paz, em

1964, e “Homem do Ano”, em 1963, pela revista Time. Nos anos oitentas, demos

ao mundo um homem como o bispo anglicano Desmond Tutu, também prêmio

Nobel da Paz. E atualmente? Somos hoje conhecidos por escândalos e conduta

esquisita de gente despreparada, que valoriza pouco a ética pessoal e mais a

promoção de seu nome ou de seu ministério. Que usa de meios pouco lisonjeiros, e

por vezes escusos, para arrecadar dinheiro das pessoas. Que se envolve em

negócios nebulosos. Que pensa que ser homem ou mulher de Deus é gritar e

alegar fazer sinais e maravilhas. Ouvia eu o programa de uma igreja evangélica

pelo rádio, em Manaus, e nele dizia o dirigente: “Vocês já viram igreja que grita

mais no culto que a nossa? Já viram alguma igreja com mais demonstração de

20 Trecho do artigo citado. “Serjão” é o apelido dado ao Ministro das Comunicações, Sérgio Motta. 21 Wiersbe, p. 52.

poder que a nossa?”. Quando gritaria é mostrada como sendo um sinal do poder

de Deus na vida das pessoas é porque a mediocridade dominou de vez as mentes

dessas mesmas pessoas. Ou porque um dirigente esperto deseja criar um clima de

histeria emocional para poder manipular as pessoas. Num culto que dura sete horas

e todo ele processado aos gritos, a racionalidade se esvai por completo. Tal líder

deve ser doente...

O homem de Deus e a mulher de Deus mostram o que são pelo seu caráter,

não por dizerem eles mesmo isso de a seu próprio respeito. Nem por ostentarem

credenciais que julgam válidas, como falar sem ter língua ou gritar no culto, mas

que para o mundo nada significam, a não ser pretexto para nos ridicularizarem.

Porque é verdade! Muitas vezes, para o mundo, aquilo que pensamos ser

credencial é motivo de escarnecimento. A sunamita deu um belo testemunho

sobre Eliseu para o seu marido: “Vejo que este que passa sempre por nós é santo

homem de Deus”(2Rs 4.9). Infelizmente, o testemunho que o mundo tem dado dos

profetas atuais não é dos melhores. Fica para nós o desafio de que as pessoas

olhem para o nosso caráter, para o nosso viver, e de nós digam: “Vejo que este (a)

que passa por nós é santo (a) homem (mulher) de Deus”.

Profeta e profetisa de Deus, o mundo pode dar este testemunho a teu

respeito?

BIBLIOGRAFIA

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