A FILOSOFIA PRÁTICA E A FILOSOFIA DO DIREITO Eduardo

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    A FILOSOFIA PRTICA E A FILOSOFIA DO DIREITO

    Eduardo Ribeiro Moreira

    1.1 A Racionalidade Prtica na Filosofia Contempornea

    Ao estudar a relao entre a filosofia e outros campos do saber, nota-se

    mudana no papel desempenhado pela filosofia no ltimo sculo. Aps muitas

    cincias avanarem para um ponto em que os filsofos j no acompanhariam de

    perto a revoluo das cincias, a filosofia buscou dialogar entre seus pares1. Saiu de

    cena a digresso metafsica e existencial, e outros temas ocuparam o epicentro das

    atenes, como a filosofia da linguagem. Fechada no meio acadmico, a produo

    filosfica deixou de ser acompanhada pelos estudiosos em geral por quase um

    sculo. Neste nterim, a filosofia permaneceu em torno de si mesma e no mais se

    atualizou em uma filosofia para o mundo.

    A capacidade de interao entre a filosofia e outros campos do conhecimento

    humano recuperou-se na medida em que se percebeu que alguns problemas

    metafsicos esto sendo tratados com um respeito mnimo pela lgica e pela

    cincia.2 Especificamente na relao entre filosofia, direito e poltica, que o que

    nos interessa a interlocuo entre tais campos foi benfica para todos. Os juristas,

    ao se apropriarem, ainda que tardiamente, do discurso filosfico, produziram

    reflexes de direito para fora dos tribunais. A filosofia do direito, que nosso objeto

    de pesquisa, empregou uma verdadeira revoluo no direito. No campo da poltica, a

    filosofia trouxe densidade e alternativas a uma ocupao perdida de crena e

    legitimidade. A filosofia poltica, em especial, passou a investigar temas como

    eleies, democracia e governana, sem abandonar o raciocnio lgico-filosfico.

    1 Hans George Gadamer, A razo na poca da cincia.

    2 Mario Bunge, Fsica e Filosofia, p. 61.

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    Para a filosofia poltica, abriu-se o mundo da vida, tanto na dimenso individual e

    cultural imersa na linguagem, como na dimenso institucional, presente na esfera

    pblica. Na tica, o intercmbio mostra que ela hoje mais necessria do que nunca

    e que, em matria de tica, os filsofos continuam sendo aqueles capazes de falar

    com propriedade dos assuntos gerais de nossos dias. V-se nas problemticas

    tradicionais, que, dependendo da complexidade tica envolvida, se aproximam do

    dilogo com o filsofo moral, o jurista, o filsofo poltico, o socilogo, etc.3

    A Filosofia volta a ser estudada como saber integrado, para cooperar com as

    diversas cincias e, no, um saber elevado, afastado dos demais, e esta assertiva

    encaixa perfeitamente com os presentes estudos ticos.

    Ao adentrarmos nas propostas de estudos filosficos sobre a tica,

    deparamo-nos com a seguinte diviso: aqueles partidrios de uma tica no-

    cognitivista e aqueles defensores de uma tica cognitivista com uso da moral. Os

    estudiosos de uma metatica no cognitivista, com base na filosofia analtica, tratam

    dos valores, seus significados e recusam-se a conhec-los objetivamente. O

    desenvolvimento, que usa a teoria no cognitivista se divide em diversas propostas,

    que tm como base comum a no atribuio de significado moral aos termos

    utilizados de forma motivacional.4 O no cognitivismo diz que substitui crena por

    aceitao, mas, com isso, afasta-se das balizas sociais, o que, como consequncia

    serve de desculpa para um comportamento eticamente reprovvel. Esse substrato

    terico serviu de sustentculo para o positivismo exclusivista, que defende a tese de

    separao total entre o direito e a moral, pois a ltima pertenceria somente tica

    filosfica5. J o cognitivismo moral percebe no juzo moral um juzo que motiva

    cognitivamente e no deve ser equiparado a apenas uma condio de verdade. O

    juzo moral presente hoje no discurso jurdico e filosfico cognitivista fruto dos

    trabalhos iniciados por Kant, por isso, diz-se que as teorias que trabalham, em

    alguma medida a razo aplicada moral so teorias neokantianas. A base da

    filosofia do direito do sculo XXI neokantiana. Habermas, filsofo que parte dessa

    3 Carla Faralli, A Filosofia Contempornea do Direito, p. 2.

    4Mark Schroder, Noncognitivism in Ethics, p.162.

    5 O positivismo jurdico como proposta de teoria universal, a fim de explicar cientificamente o direito em todos

    os pases tambm se afastou da moral pelas distintas concepes morais obtidas em diferentes tradies.

    Habermas tambm aposta em uma teoria universal, talvez por isso se limite a propor uma moral procedimental.

    A nossa proposta menos pretensiosa ao estabelecer critrios de justia para as tradies ocidentais.

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    base terica, que seria em ltima instncia inspirada em Kant, explica o que acarreta

    tripartio kantiana do mundo em:

    Mundo objetivo pretenso de verdade, relao com o mundo externo;

    Mundo social pretenso de correo, relao com as demais pessoas pelo

    agir comunicativo;

    Mundo subjetivo pretenso de veracidade, relao com o prprio eu, em

    torno de si (e o inconsciente).

    A partir das trs vises de mundo, Habermas destaca os trs tipos dos atos

    da fala: o tipo constatativo; o tipo regulativo; e o tipo expressivo.6 Os dois primeiros

    so discursivamente rejeitveis, j o ltimo resgatvel no proprio agir

    comunicativo. A tica do discurso, to em voga em Habermas, transporta-se ao

    direito e corresponde tica proposta pela argumentao7. A proposta tica

    cognitivista contempornea postula uma filosofia aplicada aplicada ao direito,

    poltica superando as incertezas trazidas no pensamento crtico ps-moderno,8 o

    qual acentua o uso da linguagem. Vejamos a comparao entre o panorama do ser,

    panorama da mente, panorama da linguagem e tambm o panorama da tica,

    possvel a partir da reabilitao da razo prtica e includo exclusivamente por nossa

    percepo:

    Panorama do ser = filosofia clssica = filosofia metafsica

    Panorama da mente = filosofia moderna = filosofia do conhecimento

    Panorama da linguagem = filosofia ps-moderna = filosofia da linguagem

    Panorama da tica = filosofia contempornea = filosofia prtica

    A Filosofia prtica no se confunde com a pragmtica. Problemas de

    desvelamento e de compreenso do panorama j esto l na base filosfica,

    aguardando a crtica. A mudana de panorama o modo de no se fechar na

    tradio filosfica; sobretudo, o foco realizar a ponte entre a filosofia e a

    6 Jrgen Habermas, Verdade e Justificao, captulos 2 e 3.

    7 Aqui a argumentao jurdica deve ser entendida com as propriedades de teoria da argumentao padro,

    desenvolvidas ps a dcada de 80. A argumentao jurdica pode ser conectada ao agir comunicativo como uma

    percepo moral deste.

    8 Zygmunt Bauman, O mal estar na ps-modernidade.

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    construo possvel. O possvel pode operar contrafaticamente, pois no se pode

    esquecer que uma das funes da filosofia desafiar a realidade enquanto a

    reconhece. Um bom exemplo dessa operao analisar dialeticamente, as

    contribuies de Hegel como filsofo da reconciliao dos fragmentos destrudos

    pela modernidade: sociedade (dentro de si), famlia (ser a) e a sntese, o Estado.

    No se pode esquecer de que a fora conservadora celebra a razo apenas

    em uma parte, pois nega o papel da cultura, dos movimentos de afirmao, dos

    movimentos sociais, simplesmente porque estes momentos trazem distrbios

    unidade. Por isso, antes de tudo, aparece a filosofia como guardio da

    racionalidade, pois ela pode transformar. Ela (a filosofia) no mais a rainha

    suprema da cultura, pois no h mais espao para isso; ela mediadora entre o

    mundo da vida e os experts, e, dessa forma, permite a cooperao dos saberes.

    A racionalidade um termo mais preciso do que razoabilidade, pois o ltimo

    est muito prximo noo de common sense (bom senso) e desenvolve-se no

    direito num sentido de aplicao. O logos do razovel humano aparece mais fraco

    do que a lgica racional. A racionalidade, ento, fornece um sentido forte ao direito,

    e elimina a arbitrariedade do mtodo jurdico.

    A racionalidade do juzo no implica sua verdade, apenas sua aceitabilidade

    fundamentada num contexto dado. Tambm temos que a racionalidade reflexiva a

    capacidade de autorreflexo, de como distanciar-se de si mesmo (ou refletir sobre

    minhas prprias aes, opinies), o que possibilita a real liberdade.

    J a racionalidade comunicativa se espelha no entender-se com algum a

    respeito de algo, projetando-se o que se quer dizer; o que se diz nele, a forma de

    sua aplicao na ao da fala9. Diferena entre acordo (forte e conhecido por muitas

    partes) e consentimento mtuo (apenas as partes chegam a uma mesma concluso,

    ainda que, por razes diversas, tampouco chegam perto de uma verdade universal)

    persistem. Por isso, necessrio situar os desacordos morais, que permitem um

    desfecho harmnico, ou pelo menos, tolerante. O intolerante no permite o acordo

    nem o desacordo moral e fica identificado com o irracional quando no possu

    fundamento para a intolerncia. Irracional quem defende opinies e,

    dogmaticamente, prende-se a elas, mesmo vendo que no pode fundament-las.10

    9 Jrgen Habermas, Verdade e Justificao, p. 105.

    10

    Jrgen Habermas, Verdade e Justificao, p. 104.

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    A raci