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A Ira do Faraó - Paloma Ortega

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Após derrotar centenas de demônios de lava e enfrentar o temível Thunder, os irmãos Cury terão de encarar desafios ainda maiores. Os indícios de uma guerra iminente podem ser notados em toda a Cadeia de Ilhas e, desta vez, não somente um, mas dois adversários funestos aguardam por eles. Será que Króton, o poderoso Senhor das Sombras, finalmente será derrotado? Conheça o final inesquecível da épica jornada de Pippa, Eron e seus amigos. Este é o terceiro e último volume da trilogia A Cadeia de Ilhas de Króton Bleeds.

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A Ir[ ^o F[r[ò

A Cadeia de Ilhas de Króton Bleeds

1ª Edição

São Paulo 2014

Paloma Ortega

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― Capítulo 1 ―

A SALA SECRETA

A chama artificial e bruxuleante da lamparina tremulava sob as cobertas.

Há anos eu não transformava as roupas de cama em uma cabana, do modo como costumava fazer quando garota, fingindo ser uma princesa em um castelo.

Dessa vez, eu dividia meu precioso palacete com Rubi, cujos cabelos pareciam vermelhos como fogo à luz do objeto. As chamas falsas refletiam em seus olhos, tornando evidente seu desinteresse pelo livro de Latim diante de nós. Eu estava cada vez mais atolada nos verbos e expressões que eu aprendia, e não importava o quanto eu tentasse, as palavras se acumulavam de tal forma em minha mente que seria custoso não confundi-las durante as avaliações de Lusitani.

Rubi observou as palavras miúdas do livro e fez uma careta. — Se você realmente quer que eu ajude, podemos, por favor, estudar a

matéria pelo tablet? — Não comece outra vez — reclamei. — Eu já disse que estou acostumada

aos livros. Além disso, minha memória fotográfica funciona melhor com eles.

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— Você não tem memória fotográfica nenhuma! — ela rebateu. Eu sorri. — Bem, é verdade. Eu não tenho. Mas o professor Lusitani foi muito gentil

em emprestá-lo a mim. Precisamos aproveitar esse esforço, já que deve ser difícil encontrar um livro velho como esse por aqui.

— Duvido que ele tenha dificuldade com isso. — Rubi fechou o livro, levantou os lençóis e o jogou no chão. — Pé... Lusitani, ou seja lá qual for seu nome, deve ter uns quinhentos anos a mais do que eu. No mínimo! Ele deve entender de coisas velhas. E esse livro, minha querida, é uma antiguidade ultrapassada!

Ela agia igualmente aos outros alunos que não se acostumaram a ter um mago lendário como professor, e sequer sabiam como chamá-lo. No meu caso, sabendo sobre suas vidas passadas como um filósofo e mago, sabia que deveria considerar apenas seu atual nome. Ele herdara a magia de sua última personalidade, mas não era a mesma pessoa que uma vez fora. Eu sempre o considerei meu professor favorito e nada mudara desde então. Eu vivia encontrando desculpas para conversar com ele nos últimos meses, porque ele não tinha tempo durante suas aulas de Latim.

— Podemos usar o tablet — eu cedi —, desde que eu seja aprovada no final do ano.

— Então vamos nos apressar — Rubi respondeu com um sorriso pequeno porém vitorioso. — Estamos ignorando o toque de recolher a um bom tempo. Se meu pai souber que não estou no meu quarto, não tenho dúvidas de que ficarei sem presente.

O aniversário de Rubi seria na semana seguinte e eu já comprara seu presente, mas o mantinha em segredo.

— Está frio — eu disse, mudando propositalmente de assunto. — Acho que...

A luz artificial da lamparina se apagou, deixando-nos no escuro. — Acabou a energia — explicou Rubi, embora não houvesse necessidade

alguma. Eu sabia como objetos desse tipo funcionavam. — Você pode...? — Claro. Afastei os lençóis e as cobertas e virei a palma da mão para cima. Rubi

ergueu os olhos brilhantes e curiosos para observar as chamas que se erguiam sobre a minha pele, cada vez mais intensas e altas. As velas nas estantes e na mesa-

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de-cabeceira, que antes estavam apagadas, acenderam-se com uma chama fraca, respondendo à minha vontade.

Nessa noite eu aprendi uma expressão que eu nunca esqueceria. “Si vis pacem para Bellum”. Eu me lembraria disso em tempos de dificuldade. Eu me lembraria de que as pessoas nunca estão a favor dos ideais alheios, muito menos se essa pessoa se autodenomina Senhor das Sombras. “Se você quer paz, prepare-se para a guerra”. Eu carregaria estas palavras comigo.

Quando Rubi descendo pela janela, esgueirou-se na escuridão, eu me deitei e olhei para o céu, tendo meu rosto banhado pelo luar.

A lua era um sorriso cândido e brilhante, e os ventos entravam no quarto, fazendo balançar a cortina. Eu não sabia por que o tempo estava frio. Normalmente as ninfas do ar se esforçavam para manter a brisa suave à noite. Eu puxei o cobertor para me cobrir, pensando o que elas estariam fazendo agora.

E quando tudo escureceu, eu ouvi uma voz familiar. Desde que retornamos da Ilha Áurea minhas visões pouco me

perturbaram. Foram poucas as vezes em que tive de ficar presa em pesadelos, ouvindo meus inimigos sussurrarem ou até mesmo gritarem meu nome. Aron aparentemente não havia visto mais revelações na lâmina de Crystallus.

Eu estava descalça sobre um piso frio e molhado. Tentei me concentrar em um som de gotejar para esquecer a escuridão, que logo se desvaneceu. Chamas saíram de vários buracos circulares em todas as paredes, iluminando o salão. Eu não estava provocando isso. O espaço estava vazio exceto por um objeto grande e retangular perto da parede do fundo. Eu caminhei até lá, enquanto vozes assomaram-se de mim.

— Muito em breve — disse uma voz de garota. — Ele está quase retornando — concordou uma voz masculina. — Ssssim — sibilou uma terceira voz, mas não era Onera. Não poderia ser.

O demônio de Króton estava morto. Era o próprio Senhor das Sombras que falava e sibilava. — Está chegando o momento. Os que lutam pela paz perecerão...

—... e a rocha negra se erguerá novamente, mais dura e mais forte — completou a segunda voz.

Algo me dizia que era preciso alcançar o objeto, mas a cada passo ele parecia mais distante. O chão já não era tão sólido quanto antes, tampouco era líquido. Era como se o piso estivesse descendo cada vez mais à medida que eu me

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aproximava do mistério retangular no fim do salão. Eu estava declinando enquanto a água subia.

Embora não fosse uma lembrança feliz, eu sabia que já vivenciara algo muito semelhante e que era perfeitamente capaz de escapar. No Vale dos Reis, alguns meses antes, eu quase fora esmagada em um corredor de um templo amaldiçoado. Dessa vez as paredes mantinham-se imóveis. A água não me preocupava, pois eu sabia que poderia respirar mesmo se ela alcançasse o teto.

Mas não foi bem assim que aconteceu... Quando eu estava muito perto de alcançar o objeto enigmático, a água

alcançou o meu pescoço. Meus pés já não sentiam o chão e a descida ficava cada vez mais íngreme. Mergulhei para aproximar-me e finalmente descobrir o que era aquilo e, principalmente, o que Króton estava armando. No entanto, tarde demais, eu percebi que não conseguia respirar embaixo d’água como normalmente fazia.

E, então, eu comecei a me afogar. Meus pés chutavam o vazio abaixo de mim, porque o chão havia sumido, e minhas mãos se ergueram para a superfície em uma ineficaz tentativa de me salvar.

— Pippa, acorde! — Ametista me sacudia com suas mãos pequenas enquanto Cristal entrava pela porta. — Você vai se atrasar para a prova!

— Hã... o que? — balbuciei assustada, ainda me recuperando do pesadelo. Quando percebi que estava a salvo no meu quarto, enchi os pulmões de ar e expirei vagarosamente.

Ambas as garotas que me acordaram eram irmãs de Rubi. Ametista era mais nova, miúda e enérgica. Possuía cabelos compridos e violetas, da mesma cor dos olhos. Cristal possuía uma beleza invejável, com seus cabelos prateados e olhos perolados. Ela era a mais velha das filhas de Keenath, formada em Economia e Administração de Aureus. Era também mentora de seu irmão Topázio – um garoto de cabelos azuis claros e arrepiados.

— Vocês humanos são tão preguiçosos — queixou-se Cristal, enquanto fazia uma trança gigantesca em seus cabelos. Ametista estava me ajudando a entrar depressa nas roupas. — E quando a temperatura cai um pouquinho que seja, vocês mal conseguem se livrar das cobertas.

— A temperatura não estava normal esta noite! — disse Ametista entre as borrifadas de perfume que lançava sobre mim. — Nós, elfos, não precisamos dormir tanto. Embora até eu mesma tenha ficado deitada a noite toda.

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Escovei rapidamente os cabelos e fugi da névoa perfumada em que Ametista me colocara.

— Vocês não conseguem sentir o quanto a temperatura baixou realmente — falei. — Eu não sei onde as ninfas e os silfos se esconderam ontem à noite.

— Devem ter tirado uma folguinha! — disse Ametista. A temperatura baixa na Ilha Baguroo não era normal. Eu nunca vira

chover ou fazer frio. Eu adorava a neve, mas sabia que nunca a veria em Aquarium.

Cristal, do outro lado do quarto, tinha uma trança que caía por todas suas costas. Ela observava a floresta através da janela.

— Eu não sei o que está acontecendo — ela virou-se para nós —, mas alguma coisa está errada!

Mais tarde, após uma prova frustrante de Latim, tivemos aula de Artes Primitivas. Eu, obviamente, achava aquilo tudo uma chatice. Graças ao Senhor dos Céus eu tinha uma amiga para dissimular meu tédio. Nesse dia fomos visitar algumas grutas próximas à escola para aprendermos sobre pintura rupestre, símbolos célticos e runas nórdicas. Eu e Rubi nos sentamos no fundo da caverna, trocando mensagens através do Armillan. _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _

De: Rubi Para: Pippa Senhor dos Céus! Essa professora ganhou um concurso de esquisitice! Tenho certeza de que

as roupas dela são mais velhas do que esses desenhos nas paredes. _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _

Nós duas não parávamos de rir e tínhamos total consciência de que estávamos atrapalhando a aula.

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De: Pippa Para: Rubi

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Quantos desses desenhos você acha que ela mesma fez? Haha. E por que nós temos que

aprender sobre isso? Eu odiaria me formar em “Estudo das Artes Anciãs Clássicas”. Quanto tempo você acha que ela demorará até me expulsar dessa aula?

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A professora Vetula interrompeu a aula e firmou seu olhar severo em nós. — Quem não estiver a fim de assistir a aula, pode sair — ela disse,

desafiando. Nenhum professor ou professora diz essa frase com o intuito de que os alunos realmente o façam. No entanto, nós éramos diferentes. Enquanto todos permaneceram imóveis, eu e Rubi nos levantamos e saímos da gruta.

— Tchauzinho, Vetula! — Isso descontará pontos no... — ela ia dizendo, mas sua voz morreu à

distância. Corremos para os portões da escola e pedimos para os elfos de guarda nos

deixar entrar. Quando eu alcancei o pátio, Rubi virou para o outro lado. — Aonde você vai? — perguntei. Ela corou. — Vou me encontrar com Caleb. — Vocês estão... namorando? — Acho que sim! — ela respondeu saltitante. — E você? Aonde vai? — Vou para o bloco dos professores. Espero que o prof.º Lusitani esteja em

sua sala. Quando ela se afastou eu me lembrei de quando ela me dera a notícia de

que beijara Caleb pela primeira vez. Ela entrara em meu quarto timidamente, com um pequeno sorriso no rosto. “Será que podemos fingir que somos garotinhas tolas só por um tempinho?”, ela perguntara. E quando ela me contou, pulamos e gritamos como crianças ingênuas em cima da cama.

Essa lembrança colocou um sorriso em meu rosto. Eu só esperava que o pai dela não descobrisse sobre os dois.

Adentrei a área dos professores enquanto a maioria deles me encarava com expressões tão conhecidas. Expressões que diziam: “Você aqui de novo?” ou “Ah, não. Você não!”. O corredor estava apinhado de alunos desesperados pelo calendário das provas ou bajuladores de notas. Três faunos estavam

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inconformados com suas notas baixas em Biologia II – Estudo dos pastos e afins. Um deles ficou tão furioso com a ignorância do professor que bateu os chifres curtos na parede diversas vezes. Algumas fadas e ninfas saltitavam e soltavam gritinhos agudos por causa do professor de APC que, segundo elas, era um pedaço de mau caminho.

Caminhei até o final do corredor, onde uma porta indicava a sala de Lusitani. Ele a decorara de acordo com seu estilo, que eu achava muito duvidoso. Os alunos já gostavam muito dele e de suas aulas antes de descobrirem que ele era um mago. Porém, agora que ele podia ensinar livremente e fazer uso de suas capacidades, aprender com ele era muito mais divertido. Era interessante quando ele explicava os exercícios da matéria e as palavras escreviam-se sozinhas no quadro. Ou também quando as provas corrigidas começavam a voar pela sala e acabavam encontrando seu dono por conta própria. (De qualquer forma, quando ele decidir levitá-las novamente, preciso me lembrar de levar um capacete para as aulas de Latim).

Bati duas vezes na porta. — Sim? — disse Vultus. Vultus era o novo recepcionista de Lusitani, e ele

não era nada além de uma cabeça. Quando alguém batia à porta, ela parecia amolecer e desfigurar, até que um rosto escuro estivesse observando em meio ao mogno.

— Olá Vultus — cumprimentei. — E então? — ele inquiriu. — A senha? Ele tinha sempre a mesma expressão zangada e caótica, mas era impossível

temê-lo, a menos que ele conseguisse formar braços e pernas também. Entretanto, era melhor não provocá-lo, pois ele era a cabeça mais irritante do mundo.

Meu conselho para vocês, leitores, é: nunca aborreçam uma cabeça de mogno.

— Mahogany inrubuit — recitei. — Espero que Lusitani encontre uma senha melhor do que essa. É muito difícil de lembrar!

— CHAAAAAAAAATA! — Vultus provocou. — O que tem de errado com “Mogno é legal”? Você entende alguma coisa de madeira, humana? Hã? Porque eu acho que o carvalho não está com nada. O mogno arrasa! Ei, está me ouvin...?

Atravessei a porta, ignorando as chatices costumeiras de Vultus. Lusitani estava sobre um banquinho flutuante, limpando as prateleiras mais altas com um espanador velho. Quando me avistou, o objeto desceu dois metros até o chão e

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ele se levantou para me cumprimentar. Estava vestindo sua túnica habitual. Eu o adorava, mesmo ele sendo um mago lendário sem o menor senso de estilo.

— Como você está? — ele perguntou. — O que viu em seu pesadelo? Eu poderia perguntar “Como você sabe disso?”, mas eu já me acostumara

aos seus impulsivos dons. — Eu não vi nada — respondi. — Ainda. Duvido que tenha acabado ali. Seja

o que for aquela coisa que ele guarda, não acho que seja bom. Eu quase me afoguei naquele sonho!

— Era apenas uma visão — Lusitani disse. — Impossível que você tenha chegado sequer perto de se afogar. Króton está apenas brincando com a sua mente.

Era verdade. Fora das visões eu poderia facilmente respirar embaixo d’água, sobreviver ao fogo ou a um terremoto. Eu tinha o domínio de três poderosos elementos, só me restava agora aprender a usar o quarto. Desde que descobrira minhas habilidades eu nunca chegara a dominar o ar, nem brevemente.

— Você considerou a possibilidade de me ensinar aquilo que pedi? — perguntei calmamente, antes que ele pudesse responder um sonoro “não”.

— Não sei se posso ajudá-la a usar o elemento Ar. Tenho essas habilidades há tanto tempo que não sei como seria aprendê-las, muito menos ensiná-las.

— Professor, por favor! — pedi. As provas em cima de sua mesa estavam se corrigindo sozinhas. Uma delas

saiu da pilha e veio levitando até as mãos de Lusitani. Ele observou meu desempenho e disse:

— Você teve muita sorte. Passou perto. — Ele fez uma careta ao olhar para a porta, de onde Vultus desaparecera. — Apostei com aquele cabeção de mogno que a ensinaria se você não fosse reprovada em minha matéria.

— Vai me ensinar, então? — perguntei, explodindo de ansiedade. — Venha ver uma coisa — ele chamou. Lusitani conduziu-me até a parede incrustada de pedras e moveu uma

delas para trás. Quando fez isso, uma porta revelou-se. Do outro lado, como eu imaginei, estava repleto das maiores esquisitices que alguém poderia ter em uma sala secreta. Frascos coloridos, líquidos borbulhantes, varinhas e cetros com pedras preciosas, túnicas fora de moda, teias de aranhas, utensílios prateados e muitas outras coisas que eu podia jurar que não serviam para nada.

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Era uma sala grande com teto alto, onde eu poderia aprender a dominar o quarto elemento restante. Tinha uma fogueira aconchegante, bancos flutuantes, roxos e amarelos, e um imenso globo de cristal apoiado em um tripé.

— Para que serve o cristal? — perguntei, apontando para o globo. — É um material naturalmente mágico, onde é possível observar coisas que

aconteceram ou acontecerão, dependendo de seus sentimentos, desejos ou impressões. — Ele pegou o globo entre as duas mãos e este refletiu a minha imagem, treinando e aprendendo a usar o elemento Ar. — Esse material, ao que parece, é capaz de exterminar os demônios como Onera. Foi a espada de Aron que a matou.

— Bem — eu disse —, era sobre isso que eu queria falar com você hoje. Será que, muito remotamente, há a possibilidade de existir uma arma que consiga matar alguém imortal?

— Não existem seres imortais — Lusitani respondeu. — Isso desestabilizaria o equilíbrio da natureza. Todas as criaturas têm seu ponto fraco. Basta descobrir qual é. Suponho que o de Króton seja tão improvável que ele pode ser denominado imortal, mas eu não acredito que isso seja verdade. Algo pode destruí-lo. Sei que você e seu irmão um dia serão capazes de trazer paz a um mundo sem esperança.

— Um dia... talvez — disse desiludida. — Algo que me diz que esse dia está muito longe de chegar.

Como em todos os lugares, na Ilha Baguroo comemora-se o

encerramento do ano com uma festa. Chama-se Lanuariis. Fora estranho não comemorar o Natal dias antes, mas nada que eu não pudesse superar. Uma árvore brega repleta de enfeites e pisca-piscas, meias novas e um tio gordo vestido de Papai Noel? O que há para sentir falta além de presentes e familiares? Após o Lanuariis recebemos a licença para visitarmos nossa casa em Manhattan, então provavelmente não sairíamos de lá de mãos vazias.

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A festa, porém, não me preocupava. Eu teria retornado para casa um dia antes se o dia de Lanuariis não coincidisse com o centésimo octogésimo sétimo aniversário de Rubi.

A Schola Sodales de Domino Coeli estava adornada com castiçais, lenços e fitas brancas, balões arredondados e iluminados, velas gigantescas e lanternas artesanais feitas de papel que sobrevoavam nossas cabeças. Estas últimas provavelmente sofreram alguma influência de um professor de Latim que sabe fazer as coisas levitarem. Tanta iluminação diversificada dava-se pela tradição da escola, que se baseava em não usar energia elétrica em tal data.

Assim, a instituição Domino Coeli ficou tão iluminada quanto o farol de um trem no fim do túnel. A decoração estava linda. Os insetos dourados de asas peroladas estavam percorrendo o ar, de um lado a outro, fugindo das fadas que gostavam de usá-los como presilhas. A mesa onde os alimentos salgados e doces estavam fazia meus olhos brilharem. A vontade de provar era maior do que a fome. Alba, que rodeava constantemente um bolo de três andares, parecia estar ansiosa para devorá-lo.

Atravessei a ponte de madeira que conectava o Bloco Alpha ao Bloco Beta, tentando ignorar os insetos que se alojavam em minhas roupas. Eu carregava comigo o presente de Rubi: uma caixa pequenina, mas escolhida de coração.

Avistei Rubi descendo as escadas com seu irmão Ônix e Lya, a irmã de Ian. Quando a vi, imediatamente a abracei. Ela estava carregando uma caixa comprida, onde uma adaga de bronze adornada com alguns rubis, desenhos e palavras em élfico estava depositada.

— Meu pai a fez para mim — ela disse alegremente. — Você gostou? — É linda — respondi sinceramente, observando os detalhes no cabo da

adaga. Os rubis combinavam com seus olhos. Abri a caixinha em minhas mãos e retirei de lá meu presente. — Uma vez você me disse que adoraria poder usar uns brincos humanos nas orelhas. Bem, agora você pode.

Coloquei brincos pequenos e brilhantes na parte pontuda de suas orelhas. Ela sorriu e perguntou milhares de vezes para o irmão se havia combinado com a roupa.

— Você está bonita, pirralha — ele respondeu. Depois se virou para mim. — Você também não está nada mal, Pippa.

— Obrigada — respondemos em uníssono.

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Com isso, Ônix rodopiou Lya em seus braços e retirou-se para dançar com ela. Rubi olhava para os lados procurando por Caleb, que estava vinte e cinco minutos atrasado.

— Você não deveria ter vindo sozinha — ela disse para se distrair da ansiedade. — Todo mundo deveria ter um par. Eu não concordo com os motivos de Ônix, mas você deveria ter aceitado vir com ele. Saber que você o beijou... Bem, você caiu um pouco no meu conceito depois disso, mas você é minha amiga e eu sempre respeitarei suas... más decisões.

— Não vai acontecer de novo — prometi — e você deveria se acalmar. Caleb estará aqui em breve. Não se preocupe.

— Soube que até mesmo Aron tem um par — ela continuou —, mas é um péssimo par!

Eu revirei os olhos. — Sempre achei que ele fosse vir com a Bina, mas ele a dispensou. Ele é

novo demais e não sabe como conversar com uma garota. Sinceramente, fiquei preocupada quando soube que ele convidou Alba para ser seu par.

— Tem certeza de que ele não sabe conversar com garotas? Achei que fosse uma missão impossível ela aceitar algum par.

O Lanuariis ocorreu de forma tranquila e festiva, pelo menos durante a maior parte da noite. A música estava alta e alegre e os brunneis comemoraram batendo seus bastões e lanças nos troncos e alvos da arena de treinamento. As fadas jogavam vôlei no ar; os faunos iniciaram um campeonato livre, usando os chifres para atacar e defender; a maioria das ninfas retirara-se para os lugares onde se sentiam mais à vontade, seja no lago, na floresta ou no ar; os elfos dançavam, comiam e conversavam animadamente, realizando atividades diversas.

Encontrei-me com Sophos perto da mesa de doces, onde ele estivera desde o início da festa. Eu me perguntava quantos furos no cinto ele havia mudado desde que começara a comer. Ástrid estava observando os cupcakes com as mãos para trás. Provavelmente derrubara ou destruíra algo mais cedo, então decidira prevenir-se dessa forma. Ela me cumprimentou com um abraço tão apertado que meus olhos saltaram das órbitas.

— Oi para você também, mentora — consegui dizer, após sobreviver ao estrangulamento. — Amanhã iniciarei meu treinamento com Lusitani — sussurrei para Sophos. — Ele me ensinará a dominar o ar, como lhe contei. E depois viajaremos para casa.

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O Leprechaun coçou a barba laranja, duvidando. — Você o convenceu? — ele perguntou quando Ástrid se afastou. — Acho

que subestimei suas capacidades de insistência. Ah, sempre funcionam... — Eu posso ser bem convincente. — Sorri. Mais tarde, quase no final da noite, cumprimos a última tradição. Cada

aluno apanhou uma lanterna de papel e todos se reuniram em volta da fogueira. Lusitani apontou para o céu um objeto comprido — que eu supus ser seu cetro — e evocou fogos de artifício diferenciados, que mudavam de cores e formas de acordo com seus desejos. Todos soltaram suas lanternas, que flutuaram iluminando a noite, até sumirem na escuridão. A minha agitava-se em minhas mãos como se tivesse vida própria. Quando a libertei, ela rapidamente voejou junto às outras, encerrando a tradição.

Tudo parecia bem, até que um soluço fez-se ouvir. Rubi estava chorando nos braços do irmão, reclamando de Keenath.

— Pippa, você pode vir aqui? — Ônix chamou. — Ela está molhando minha melhor camisa!

Corri até lá, abraçando-a. — Rubi. — Eu segurei seu rosto, secando suas lágrimas. — O que aconteceu? — Meu... pai — ela soluçou. — Ele descobriu sobre Caleb e o baniu para a

Vila dos Elfos. Ele nunca mais voltará a trabalhar aqui e está proibido de chegar perto de mim. Você pode fazer alguma coisa?

— Farei o possível — prometi. A partir daí, a noite virou um caos. Os brunneis começaram a brigar entre

si, os faunos irritaram-se por causa de seus chifres quebrados, Ástrid derrubou a mesa de doces, as ninfas correram das florestas e os soluços de Rubi ficaram cada vez mais altos. O tumulto estava tão exagerado que eu quase não percebi quando vários Canis Lupus adentraram o portão da escola, uivando e rosnando.

— A película de proteção foi rompida — alguém gritou. — A Zona Proibida está aberta! Corram!

— Peguem suas armas! — gritou um fauno de cabelos ruivos que tinha apenas um chifre.

Procurei por uma presilha dourada em meus cabelos, mas não havia nada lá. Spectro Lux não estava comigo.

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― Capítulo 2 ―

Tenho uma breve conversa com um livro de feitiços.

Olhos alaranjados e vivos me encararam da escuridão. Três Canis Lupus

cercaram a área da fogueira, onde aparentemente apenas eu permanecera. Todos estavam correndo, esquivando-se para trás de árvores de troncos grossos ou adentrando apressadamente a instituição. Gritos apavorados cortavam o ar e morriam na Schola Sodales de Domino Coeli, onde os alunos se escondiam.

Sem outra opção além de correr, eu segui meu rumo entre as duas torres do Bloco Ômega. Eu precisava de um tempo para organizar a minha mente e pensar em algo para deter os lobos entorpecedores. Nenhum dos alunos foi alvo de suas ondas paralisantes, o que eu achei estranho, mas esse era o único lado positivo que eu conseguia enxergar ali.

— Subam! Rápido — gritou uma fada que sobrevoava as escadas. — Eles estão vindo!

— Alguém aí está hipnotizado? — perguntou um brunnei. As únicas respostas que ele recebeu foram gritos e conversas desordenadas

e assustadas. Lusitani alcançou o primeiro degrau e ordenou que todos os alunos subissem para seus quartos. Ergueu seu cetro e cerrou a passagem para a torre, convocando uma porta feita de pedras que nunca estivera ali.

— Você fica — ele disse quando tentei subir as escadas. — Vamos precisar de você lá fora. Aron está afastando os Canis Lupus com o grito de seu escudo, mas eles são muitos. Estão por toda parte.

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Passei a mão pelos cabelos novamente. — Mas eu não estou com a minha espada! — Francamente — ele respondeu. — Pessoas como eu e você não precisam

de espada. Venha rápido, vamos alcançar a arena. A arena de treinamento estava repleta de lobos por todo seu perímetro,

principalmente em torno do estrado alto onde Rubi, Aron, Ônix e Alba estavam. Não sei exatamente como chegamos ali tão rápido, mas tenho certeza de que não tínhamos passado por aquela multidão de animais ferozes. Minha última lembrança era o toque da mão de Lusitani em meu ombro e suas palavras: “Venha rápido...”.

E, de repente, estávamos em cima do estrado. Apoiei minhas costas nas de Aron, buscando algum apoio. Diante da

confusão que se instalara, eu ainda não decidira o que fazer. Atrás de nós havia uma caixa grande com o estoque de adagas e lanças da arena. Alba arremessava duas adagas de tempos em tempos, mas parecia nunca acertar seu alvo. Sua pontaria sempre me surpreendera, mas essa noite sua falta de precisão me preocupou.

Ela rodopiou uma adaga nas mãos e atirou na direção dos lobos, mas nenhum lamento fez-se ouvir.

— Tentador, não acha? — ela perguntou, sorrindo. — Não seria tão difícil empurrá-la daqui de cima se eu quisesse, seria?

— Não me provoque — desafiei de volta. — Clamabunt! — gritou Aron e o escudo obedeceu ao seu comando. Os

Canis Lupus que estavam na linha de frente se afastaram por algum tempo, mas logo se aproximaram novamente, arranhando o estrado. Os olhos fluorescentes e seus dentes afiados estavam à minha vista. Aos poucos os animais descobriram uma estratégia para nos alcançar. Eu convoquei o elemento Terra, fazendo com que o gramado criasse vida e agarrasse suas patas, mas eles sempre conseguiam fugir de qualquer lesão.

— Nada parece detê-los — observou Rubi, puxando mais uma vez a corda do arco.

— Parem de atirar — ordenou Lusitani. — Qualquer esforço é inútil. — Mas eles estão nos alcançando — contestou Aron. — Eu consigo afastá-

los, mas eles são imunes a qualquer outro ataque. Não sei por que isto está acontecendo.

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Lusitani afugentou os Canis Lupus usando o domínio do ar, mas os animais estavam retornando rapidamente.

— Isto está acontecendo porque eles não são reais — ele presumiu. Quando os lobos entorpecedores alcançaram o estrado, eu me vi caída de

costas, completamente tonta. Minha visão estava enevoada, permitindo-me apenas reconhecer duas esferas alaranjadas na escuridão. Eu ouvi um rosnado e senti a pata pesada do animal sobre o meu estômago.

— Da próxima vez será real — disse uma voz rouca e desconhecida acima de mim. — O seu novo inimigo está chegando.

Percebi que a voz vinha do lobo, mas ele não estava movimentando a mandíbula. Eu provavelmente estava tendo acesso à sua mente. Então, antes de eu apagar, senti suas garras cortarem meu braço.

A noite me engoliu profundamente por algum tempo. Não sei dizer exatamente se sonhei, porque não me lembro de estar consciente durante esse período. As cores retornaram aos poucos, assim como os rostos familiares que se assomaram ao meu redor. A imagem de vários lobos desaparecendo simplesmente no ar, como se nunca tivessem existido, veio à minha mente. Eu ainda não sabia se realmente havia visto essa cena ou se tudo não passava de uma ilusão das ondas entorpecentes dos Canis Lupus.

— Você está bem — a voz de Sophos me acalmou. — Eles não a machucaram de verdade.

— Todos estão em seus quartos descansando — disse Keenath, erguendo a minha cabeça. — Você também precisa repousar. Amanhã será um longo dia. Você vai para casa, lembra?

Olhei para meu braço direito, onde a roupa estava rasgada. — O ataque não passou de uma ilusão — explicou Lusitani —, exatamente

como em sua última visão. Króton está apenas brincando conosco. Apesar de lembrar-me do desaparecimento repentino dos lobos, um fato

ainda não havia me convencido. — Se tudo não passou de uma ilusão — ponderei —, então por que ainda

estou sangrando?

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As brasas ainda fumegavam na fogueira apagada, liberando uma fumaça

cinzenta ao céu. Não havia sequer uma ninfa ou espírito da natureza encarregado de filtrar e purificar o ar em torno do pátio. Lascas de madeira estavam espalhadas pela sala da lareira, onde os alunos haviam se refugiado. Nenhum dano fora feito pelos Canis Lupus, até mesmo porque não representavam um inimigo palpável. Todo prejuízo sofrido pelos bens da instituição foram decorrentes da confusão e fuga precipitada dos jovens. Felizmente, ninguém se machucara; as lanças e adagas atiradas por Alba permaneciam intocadas no chão da arena.

A madrugada estava fria e silenciosa. Os mentores e professores estavam ocupados demais atendendo às necessidades dos alunos alarmados para notar quem estava ou não respeitando o toque de recolher. Eu era incapaz de dormir antes de descobrir o que estava acontecendo. A ferida no meu braço fora enfaixada e banhada em sais e poções especiais, mas continuava doendo, impossibilitada de cicatrizar rapidamente.

— Eu não sou um elfo — protestara. — Não será tão fácil assim me curar em algumas horas. Mas será que, pelo amor do Senhor dos Céus, alguém pode me dizer o que está acontecendo? Por que Canis Lupus falsos invadiram a escola? E se eles não eram reais, por que um deles conseguiu me ferir?

Não houve resposta. E agora, com meus olhos fixos na fogueira, eu a acendi. O fogo começou fraco e escasso, mas quando Ônix se aproximou, um tempo mais tarde, as chamas subiam altas e intensas, lambendo o ar com suas línguas de fogo.

— Achei que eu seria o primeiro a escapar do quarto — ele disse, sentando-se sobre o banco ao meu lado. — Vejo que eu estava errado.

— As pessoas vivem me subestimando — respondi. — Eu tenho meus momentos. Espero que tenha vindo para me explicar o que está acontecendo. Se estiver aqui pelos motivos errados, como na maioria das vezes, eu espero que vá embora.

Ele riu. — Não estou aqui para elogiar e convencê-la com meus infalíveis

galanteios. Eu apenas vi uma oportunidade de sair sem ser percebido, e aproveitei. Afinal, você não aceitou meu convite para o Lanuariis.

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— E você convidou a Lya! — Sim, eu a convidei. Sei que você não gosta dela, mas isso não foi

nenhum tipo de vingança. Abaixei a cabeça, fitando as chamas. — Eu só... não queria ir com ninguém — murmurei. — Sente falta dele, não é? — De quem? — fingi ignorância. Embora tenha disfarçado, sabia muito bem sobre quem ele estava falando.

Há alguns meses Ian viajara com seu grupo de alunos. Ele os ensinava a usar o arco e flecha como métodos de ataque e proteção diante dos perigos cotidianos. O destino do passeio era um vale no lado norte da Ilha Baguroo, muito longe da Schola Sodales de Domino Coeli. Ele retornaria em poucos dias. Provavelmente, quando regressássemos a Aquarium, ele já estaria de volta.

No dia de sua partida, aproximadamente dez alunos menores que Aron aprontaram-se para partir com seu professor. Todos que conheciam Ian — ou seja, quase a escola inteira — reuniram-se no pátio para se despedirem dele. Eu tinha sido a última a me despedir. Quando me aproximei, seus olhos ficaram ambos verde-azulados, e eu o abracei.

— Faça uma boa viagem — desejei. — Vou sentir sua falta. Ian beijou minha testa suavemente enquanto eu me mantinha agarrada à

sua cintura. — Eu também — ele sussurrou. — Tente não se meter em encrencas. — Não prometo — eu respondi sorrindo enquanto ele se afastava. Ônix me observava com sua expressão cética. Eu e ele sabíamos que eu era

incapaz de esconder algo dele. Ele se tornara meu melhor amigo durante esses últimos meses e não tentava me beijar a algum tempo, com muito esforço. Bufando, ele recostou as mãos no tronco, apoiando-se nelas.

— Tenho uma visão diferente sobre Ian desde nossa última missão. Ele é um cara legal — ele admitiu. — Só escolheu a garota errada para se apaixonar.

Ergui a cabeça, encarando-o. — O que você quis dizer com isso? — Bem — ele piscou —, eu não diria que vocês sejam parecidos. Você tem

um lado mais selvagem que combina demais comigo. Às vezes, você adormece essa sua personalidade, o que te torna muito entediante. Você precisa admitir que

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se diverte bastante quando está comigo, justamente porque eu faço seu lado bom despertar.

— Você desperta o pior em mim — respondi, revirando os olhos. — É divertido, mas é o tipo de diversão que faz com que eu me arrependa depois.

— Certo — ele disse. — Agora que eu já ouvi você falar sobre como se sente e já dei conselhos, podemos pular até a parte em que eu a consolo e você me beija?

Eu ri, balançando a cabeça ao pensar na sua ousadia. Estava acostumada ao seu jeito.

— Obrigada por fingir que se importa — eu agradeci, beijando-o na bochecha.

— Não foi isso que eu quis dizer — ele murmurou enquanto eu me retirava para voltar ao quarto. — Mesmo assim, de nada.

O sono não demorou a vir quando eu deitei em minha cama, pedindo ao Senhor dos Céus para que esclarecesse as minhas dúvidas no dia seguinte, também para nos auxiliar e nos proteger diante das dificuldades futuras. Eu tinha certeza de que elas viriam, e não tardariam. Tinha esperanças de sonhar com a caixa de Króton, para descobrir seu segredo; no entanto, não me lembro de ter sonhado alguma coisa importante. Quando acordei, atrasada para a palestra de Keenath sobre a noite anterior, senti que precisava de mais horas de sono. Eu estava exausta.

— Levanta logo daí — insistiu Aron, puxando as cobertas de cima de mim. — Faça suas malas e vá para a sala da lareira. Keenath quer conversar com todos sobre ontem.

— Para que malas? Temos Vidulus — eu disse, virando-me para o outro lado na cama. — Eu já vou.

— Eu sou seu irmão. Você acha que me engana? Você só está enrolando. Saia já dessa cama e coloque uma roupa! Talvez Keenath explique o que você quer tanto saber sobre os Canis Lupus.

A sala da lareira estava tão lotada quanto no dia em que sortearam os nomes para a viagem à procura das relíquias de Pétrus Cornelius. Há alguns meses atrás ninguém ali fazia ideia de que o mago estivera próximo a nós o tempo todo, sendo o professor de Latim da escola. Não era a toa que todos o adoravam.

Rubi estava sentada na última fileira, mantendo a cabeça ainda baixa, tentando esconder as lágrimas. Passei por ela desejando abraçá-la, mas nada pude

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fazer. Provavelmente ela choraria ainda mais e acabaria interrompendo as palavras de seu pai, deixando-o furioso.

—... e agora — Keenath estava dizendo —, tudo que sabemos sobre o incidente da noite passada é que Króton provavelmente está tentando brincar conosco, comprometendo nossas mentes. Não vamos permitir que ele o faça, por isso já começamos uma pesquisa para descobrir o verdadeiro estado da Zona Proibida. Como os Canis Lupus não eram reais, acho que não temos motivos suficientes para nos preocupar.

Assim que pude acomodar-me em uma cadeira localizada na terceira fileira, levantei a mão.

— Não estamos abertos a perguntas ainda, senhorita Cury — censurou-me Siccus, o treinador físico da escola.

— Tanto faz — respondi, virando-me para Keenath em seguida. — Como você pode dizer que não temos motivos para preocupação? Que eu saiba, e julgue-me se eu estiver errada, nem todos os Canis Lupus eram falsos. Caso contrário — ergui-me da cadeira, expondo meu braço para que todos pudessem ver as bandagens que o enfaixavam —, como eu poderia estar realmente ferida?

— É possível que tenha se machucado durante a confusão, mas não se recorda — ele disse. — Afinal, você estava desmaiada quando tudo acabou.

Revirei os olhos. — Está dizendo que eu esbarrei em uma estátua e acidentalmente cortei

meu braço, coincidentemente com a marca de quatro grandes unhas afiadas? — perguntei, erguendo uma sobrancelha. Algumas risadas ecoaram entre os alunos, mas logo foram abafadas. — Está me chamando de mentirosa, diretor?

— Não responderei mais perguntas — Keenath decidiu. — Então terei de esperar um pouco mais para receber alguma resposta. Até

lá, pense em que desculpa você me dará quando for questionado sobre a injustiça que cometeu ontem. Pense no que dirá quando tiver de explicar por que um ótimo mentor foi expulso sem um motivo significante, e nos métodos que usou para abafar o caso.

— BASTA! — ele bradou. — Homens, levem-na daqui! Durante a minha saída, tudo ficou em silêncio, exceto pelo som dos meus

pés arrastando no chão. Um brunnei muito alto e forte agarrou meu braço esquerdo enquanto um fauno mal-humorado e atarracado segurava do outro lado, apertando dolorosamente a ferida feita pelo Canis Lupus na noite anterior.

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Você está me machucando! , eu tinha vontade de gritar. Entretanto, eu sabia que de nada adiantaria. Então, aceitando as consequências, mordi os lábios para aguentar a dor e permiti que me levassem.

Do lado de fora, após ultrapassarmos a porta dupla da sala da lareira, um homenzinho tão atarracado e mal-humorado quanto o fauno veio me receber. Os olhos sob as sobrancelhas alaranjadas censuravam a minha atitude.

— Sophos — eu disse. — Soltem-na, rapazes — ele ordenou aos homens. — O mago Pétrus

Cornelius a espera em sua sala. Tire as mãos da menina, brunnei. Ela é filha de Ryma Bleeds. Será que eu terei de chamar o próprio Pétrus para vir até aqui e transformá-lo em um pinico de barro?

Um pouco hesitante, o brunnei soltou meu braço. Esse ato fez com que eu caísse sentada, observando meus pés, que antes arrastavam no chão. Sophos me ajudou a levantar, cuidando para que não esbarrasse no ferimento. Ele não disse nada, apenas levou o cachimbo à boca e apontou na direção do prédio onde se localizavam as salas dos professores. Com um aceno de cabeça, caminhei cautelosamente até lá, enquanto os guardas se retiravam para o lado oposto.

O prédio permanecia vazio, diferentemente de como estava durante minha última visita. E, embora não houvesse ninguém, não estava totalmente silencioso. Um ruído vinha do final do corredor, parecendo um cochicho aborrecido. Havia papéis espalhados pelo chão e os painéis estavam vazios. Ultrapassei diversas salas fechadas, observando os detalhes marcados pela noite anterior. A flor amarela da professora Luna, que tinha o formato de uma estrela, estava morta no vaso em frente à porta de seu escritório.

Enquanto eu seguia, o ruído se aproximava. Era perceptível agora, e qualquer um que conhecesse Vultus saberia que ele estava reclamando baixinho no fim do corredor, expressando sua insatisfação através da porta escura de mogno.

— Malditos, malditos — resmungou, anunciando sua fúria aos insetos dourados que saíam voando pela fechadura grossa da porta. — Eu os odeio, todos vocês... precisam da senha, malditas criaturas de asas, e vocês sequer sabem falar!

Alguns dos insetos atravessaram o corredor, agitando freneticamente as asas peroladas. Encolhi-me na direção da parede para que eles pudessem passar. Quando alcancei a porta, Vultus franziu o cenho.

— O que esses insetos fazem aqui? — perguntei.

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— O que você faz aqui? — ele perguntou zangado, mas sua expressão amenizou-se um pouco. — Ah, sim, sim. O mago maluco está esperando você, não é? Ele está em sua sala secreta. — A porta se abriu, revelando o interior da sala, repleto de livros poeirentos e um mapa envelhecido que estavam em cima de sua mesa. — Ora, entre. Entre logo!

Atravessei a porta. — Mas... e a senha? — perguntei. Vultus apenas bufou e seu rosto desapareceu. Alguns livros chamaram minha atenção. Observei a capa de um livro

quadrado e grosso, nomeado Feitiços extremamente difíceis – Volume I. Quando o abri e li o sumário, ergui as sobrancelhas ao notar o que estava escrito em um dos capítulos. Capítulo XXVI – Aprenda a dar nó no rabo de coelhos azuis de sete patas. Fechei o livro com uma gargalhada.

— Para que isto seria útil? — eu me perguntei. Eu não esperava nenhuma resposta. No entanto, uma voz respondeu: — Acha isso inútil? Talvez você não tenha notado o capítulo anterior.

Como se vingar de duendes negros que comeram seu bolo de aniversário.

— Bem, talvez isso seja mais conveniente que os coelhos — respondi, procurando de onde vinha a voz. Descobri facilmente que a voz não vinha da porta ou da sala secreta, então não poderia ser Vultus, muito menos Lusitani. As palavras vinham de um livro marrom preso com uma fita dourada que estava ao lado de Latim Básico I. Quando soprei o pó de sua capa, percebi que ela exibia uma boca pálida e um olho grande e arregalado. Derrubei o exemplar sobre a mesa, reprimindo um grito.

— Ei, calma aí! — o livro reclamou. Iluminius – O Livro da Luz e da Verdade, eu li. Escrito por Agro Lux Tempus.

— Oh, desculpe — pedi. — Mas quem é você? — Agro, o mago. Quem mais seria? — O escritor? — perguntei, surpresa. — Como você foi parar aí dentro? O olho arregalado na capa revirou como se estivesse cansado de responder

à mesma pergunta, ou, pelo menos, era isso que parecia. — O que posso dizer? — a boca pálida torceu-se aborrecida. — Digamos que

um feitiço deu errado. Mas você pode me ajudar a sair daqui, basta abrir o livro. Tudo que precisa fazer é cortar a fita dourada.

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— Nem pensar! — disse a voz de Lusitani surgindo da sala secreta. — Fique quieto aí e não incomode os visitantes, Agro! Quando ele escapa consegue ser tão irritante quanto Vultus. Venha, Pippa.

Acompanhei Lusitani no trajeto de volta à sua sala secreta, escondida atrás da parede de pedras. Agro, o mago do livro, ainda reclamava alto: “Ei, volte aqui! Não dê ouvidos a esse biruta!”. E até mesmo Vultus, quando ouviu seu mestre falando sobre ele, resmungou baixinho: “Eu ouvi isso, hein...”.

Quando atravessei a porta, os ruídos sumiram, restando apenas um gotejar suave. Um líquido vermelho-escuro pingava sobre um pó amarelo-esverdeado, provocando um fio de fumaça branca que subia e desaparecia misteriosamente. Notei, pela primeira vez, que havia estalactites brilhantes sobre nossas cabeças, dependuradas no teto.

— Não se preocupe — disse Lusitani bondosamente —, elas não caem a menos que eu queira.

Era evidente que o professor mudara desde que o conhecera. Os cabelos castanhos estavam mais curtos e uma barba-cerrada cobria seu rosto. Nessa ocasião ele até mesmo parecera encontrar algum censo de estilo, já que não estava usando uma túnica. Ele está usando calças!, pensei. E por cima delas usava uma espécie de casaco fino e comprido feito de couro, que estava aberto, ressaltando a camisa branca de linho em gola V. Era típico de elfos usar esse tipo de camisa, mas, normalmente, a cor escolhida era verde. Seu cetro estava pousado sobre um apoio de ferro em um canto da sala e seu colar preferido continuava em seu pescoço, brilhando em sua cor verde-azulada.

— Você está usando calças! — exclamei, revelando meus pensamentos. — Sim, eu estou. Querida, eu posso ler seus pensamentos tão bem quanto

Ian pode, e sei o que você pensa sobre as minhas túnicas. Preciso admitir que não eram nada casuais, mas eram práticas e confortáveis.

Sorri. — Bem, você ainda tem muito que melhorar. — Eu sabia que você diria isso — ele sorriu de volta, apanhando seu cetro.

— Hoje teremos nossa primeira aula sobre dominação do ar. Estou ciente de que precisa ser curta, já que você terá sua prova final de Astronomia. E depois viajará, eu acredito.

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— Como posso viajar com a confusão de ontem? — perguntei preocupada. — Precisamos saber o que está acontecendo. Nunca pensei que Keenath fosse tão cruel comigo...

— Não se preocupe, puella — ele apaziguou. — Keenath está exaltado, tão preocupado com o incidente de ontem quanto você. Ele não quis ser desagradável, apenas queria tranquilizar os alunos. Faça sua viagem, criança, e nós cuidaremos da situação. Estou preparando um remédio para acelerar a cicatrização dos arranhões no seu braço. — Ele apontou para o líquido gotejando sobre a areia. — Mais tarde vou aplicá-lo em você. Repito: Não se preocupe. Mas agora... que tal alguma companhia?

Erguendo seu cetro, Lusitani pronunciou uma palavra. Libertus, ele disse, então todos os insetos dourados presos em um baú antigo foram libertados, voando sem rumo pela sala em um frenético enxame brilhante. A pedra em seu pescoço começou a brilhar quando um vento inesperado e impetuoso tomou conta da sala. Quando o fogo ardeu na lareira e em todas as velas espalhadas sobre mesas e prateleiras, percebi que o talismã em meu pescoço faiscava e pulsava, como se ele fosse meu coração fora do corpo. Meus cabelos voaram junto ao vento, acumulando em frente ao meu rosto e cegando a minha visão. Quando tudo ficou calmo, segundos mais tarde, e eu finalmente pude olhar para a sala, ela não existia mais. Estávamos em um campo aberto, onde a brisa era leve e hortênsias decoravam a paisagem. O sol despontava em um céu com poucas nuvens.

— O que você fez? — perguntei surpresa. — Onde estamos? — Ora, o que você acha? — ele indagou de volta. — Não sei o que pensar. Isso é uma ilusão? É fascinante sua capacidade de

usar a magia como se fosse algo fácil. Não entendo o que você fez, muito menos como aconteceu. Você nos transportou ou ainda estamos em sua sala?

— Bem, eu não me lembro de termos saído de lá. — Ele não deu mais explicações, apenas virou-se para o prado e observou os insetos que circulavam no ar. — Eles se chamam volantis, você sabia? Suas asas batem tão rapidamente quanto as de um beija-flor e captam a essência do lugar em que vivem. Nem sempre são peroladas, mas elas se modificam quando os volantis vêm para cá na primavera. É a cor da atmosfera de Aquarium, pura e brilhante.

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Levantei o braço na direção do sol, que surgia em pequenos feixes detrás das árvores frondosas. Alguns dos insetos pousaram em meu braço, recolhendo suas asas. Seus distintos tons de dourado reluziam à luz solar. Quando eles tornaram a voar, Lusitani ergueu a mão no ar, movendo-a como se quisesse puxar uma pequena corda invisível.

— Vamos capturá-los — ele disse, apanhando um volantis que fora atraído para suas mãos. — Tudo que precisa fazer é imaginar linhas de ar que possam alcançá-los e trazê-los até você. É seu primeiro teste. Porém, antes de fazê-lo, quero que você feche os olhos e respire fundo, pelo menos três vezes. Reúna o máximo de ar que conseguir em seus pulmões.

Obedeci às instruções fielmente, respirando e expirando fundo algumas vezes. Quando o ar preencheu meus pulmões pela quinta vez, pude senti-lo dentro de todo meu ser, como se estivesse circulando por todas as artérias. De algum modo, sabia que precisava liberá-lo, não através da respiração, mas liberando-o para a natureza por meio de meus poderes. Era como se uma parte de mim estivesse gritando, desejando ser libertada.

No entanto, quando ergui minha mão para lançar a linha de ar, senti que ele irrompia de minhas narinas, esgotando meu domínio.

— Não se lastime — Lusitani me consolou —, você conseguirá. O Ar é o elemento mais difícil de ser controlado e dominado. Só precisa de um pouco mais de prática. Vamos lá, tente de novo.

Repetindo as instruções, respirei novamente até sentir que o ar se apoderava de mim, ou eu me apoderava dele. Quando levantei novamente a mão na direção de um volantis, consegui arrastá-lo no ar por pouquíssimo tempo, deixando-o escapar. Na terceira vez faltou-me ar e Lusitani fez-me reiniciar o processo. Na quarta tentativa usei as duas mãos para atrair os insetos, mas o desgaste fora três vezes maior. Em decorrência disso, precisei descansar na relva por algum tempo.

— Você consegue — o professor estimulou —, você sabe que sim. Eu disse que não seria fácil. Tente uma última vez. Vamos lá, você tem uma prova para fazer em meia hora.

— Eu não sou minha mãe — retruquei. — Não espere que eu seja perfeita, que consiga facilmente controlar tudo.

Ele tocou meu ombro.

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— Sua mãe nunca precisou aprender a fazer isso, mas sei que ela teria paciência. No entanto, sua vontade de aprender a faz tão persistente quanto ela. Você não demorará muito. O Ar não é fácil... e tolos são os que pensam o contrário.

Respirando fundo, levantei a mão pela última vez. Imaginei estar puxando uma linha quase invisível, presa a um dos volantis. Surpreendentemente, um fio de ar ficou aparente, então eu o puxei para mim, alternando as mãos.

— Vamos lá — eu disse quando o inseto estava no meio do trajeto. — Quase lá...

Quando o alcancei, Lusitani aproximou-se com um grande sorriso. Saltitei de alegria, ainda segurando o inseto. Mesmo sabendo que era apenas um pequeno passo, não conseguia deixar de comemorar.

— Eu sabia que conseguiria — parabenizou o mago. Ele o atraiu para si, envolvendo o minúsculo animal dourado em um

globo de ar, de onde fora incapaz de sair. Quando o volantis finalmente se rendeu e parou de agitar as asas, eu o observei mais atentamente. Assim, percebi que havia algo de errado com ele. Lusitani também percebeu, então capturou mais alguns deles para comprovar seus receios.

— Você viu? — ele perguntou. — As asas... Balancei a cabeça. Era visível que a extremidade das asas dos volantis

estavam enegrecendo, espalhando-se para todo o resto. Alguns deles não apresentavam sequer uma mancha, porém outros ficavam parcialmente negros, uns mais, outros menos.

— O que isso significa? — perguntei, lembrando que as asas captavam a essência do lugar onde ficavam. Isso significaria que a Ilha Baguroo estava se tornando

um lugar sombrio?, pensei. Lusitani suspirou. — Eu não sei o que significa — ele confessou —, mas não pode ser nada

bom.

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― Capítulo 3 ―

Recebo conselhos de um crânio impaciente.

Através da luneta dourada as estrelas tinham o dobro de seu tamanho

original, assim como seu brilho. Com o telescópio era possível reconhecer um planeta pequeno e azulado no céu, rodeado por uma névoa tênue, desde que se utilizasse uma lente de alta qualidade. A professora nos dissera que este orbe se chamava Zenius, e que acreditava que o Senhor dos Céus se abrigava lá quando era preciso vigiar suas criaturas.

A torre fora construída especialmente para o estudo de Astronomia. Era alta e ventava bastante àquela altura. Os tijolos eram retangulares e claros; havia poucas mesas, fazendo com que a maioria dos alunos ficasse de pé; lunetas, astrolábios e telescópios estavam sempre à nossa disposição; e, sem dúvida, a professora era muito simpática e exótica, sendo minha favorita.

Luna, além de ensinar Astronomia, era mãe de Rubi. Seus olhos eram lilases e possuía os cabelos brancos e brilhantes como a lua ou arroxeados, pois, dependendo de seu humor ou da luz do dia, seus fios mudavam de cor. Algumas vezes podiam ficar até mesmo escuros como a noite, refletindo as estrelas do céu. Sua túnica azul-marinha era repleta de astros, planetas e galáxias inteiras, que se movimentavam magicamente pelo tecido.

— Você já decidiu que astro irá estudar, minha querida? — ela perguntou, deslizando a mão suave sobre meu braço e me afastando da luneta. — Você está bem?

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— Meu braço ainda dói — respondi —, mas estou bem. Estou pensando em fazer uma avaliação sobre a lua.

A professora Luna franziu a testa. — Oh, Pippa, não pense pequeno! Se me permite um conselho... bem, eu

diria de qualquer maneira, independente da sua permissão... Faça sobre Zenius. Há muitas curiosidades sobre ele. Vá pegar sua prancheta.

Usávamos uma prancheta metálica com uma tela touch screen para anotar as informações obtidas. Essa era nossa tarefa para a prova final: escolher um astro e coletar o máximo de dados e curiosidades possíveis sobre ele.

Acima de uma mesa de pedra um holograma da galáxia mais próxima projetava-se dois metros em direção ao céu. As estrelas da imagem, se observadas de determinado ângulo, misturavam-se às da noite. Aproximei-me com a prancheta na mão esquerda e passei o dedo sobre Zenius, fazendo a ferida em meu braço esquerdo doer. Assim, diversas informações surgiram junto de sua figura e eu comecei a anotá-las, separando as inúteis das interessantes.

“Zenius é um planeta denso e rochoso, formado a partir de sedimentos de cor azulada, semelhantes ao Topázio Azul. Frequentemente descrito como um planeta relativamente pequeno, este orbe tem atraído a atenção de estudiosos elfos de Aquarium. Acredita-se que uma população escondida esteja pesquisando sobre Zenius, mas não se sabe onde habitam, apenas que são diferentes. (Os elfos

dourados!,pensei). Calcula-se que, de três em três anos, o sol alinha-se com este planeta, provocando raios luminosos que atingem um determinado ponto da dimensão de Aquarium. Isto ocorre durante o equinócio que marca o início do outono. (Uau, as estações são bem bagunçadas por aqui!)...”

— Rubi, minha querida — chamou Luna. — Sua avaliação sobre Órion deixa muito a desejar. Você sequer comentou sobre “As Três Marias”. — E, virando-se para Ônix, disse: — Filhinho, qual a principal função do astrolábio?

— Mãe! — ele a censurou. — Não me chame assim! Luna cruzou os braços, ignorando-o. — Então? — O astrolábio serve para medir a altura dos astros acima do horizonte —

ele respondeu entediado, revirando os olhos. — Muito bem, filhinho. Ganhou um ponto extra!

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Tanto Rubi quanto Ônix tinham expressões de aborrecimento. Era como se ambos pensassem “Para quê eu preciso disso? Quando, pelos sete infernos, eu vou usar isso em minha vida?”.

Consegui coletar diversas informações interessantes sobre Zenius, o que me rendeu uma boa nota na prova final. Rubi zangou-se com sua mãe antes de terminar sua avaliação e decidiu sair. Ônix esteve todo o tempo perto do holograma, paquerando a maioria das garotas que se aproximavam para aprender sobre os astros de sua escolha.

No final da aula, pouco tempo depois, a professora resolveu acender novamente o céu. Ela o manteve escuro como a noite para observarmos a galáxia pelo telescópio e, para isso, provavelmente usou algum feitiço de Lusitani. Seus cabelos arroxeados tornaram-se esbranquiçados e brilhantes quando o dia clareou novamente, afastando a noite.

— Bem — ela disse —, acho que podemos nos despedir agora. Continuarei mantendo em segredo essa pequena mágica feita com o céu, até mesmo porque as ninfas se zangam quando precisamos adiantar a noite ou atrasar o dia. Boas férias àqueles que irão à Vila dos Elfos encontrar suas famílias. Quanto aos outros que aqui ficarão, vejo vocês por aí. Boa noite... bom dia, sei lá.

Quando desci a escada em espiral e saí pela entrada da torre, Sophos e Aron me aguardavam, agitando meu certificado de aprovação no ar. “Foi por pouco!”, foi tudo em que eu consegui pensar. Vidulus, que permanecia fielmente aos pés do dono, parecia mais volumosa do que normalmente. Não sabia se era porque guardava nossas roupas e objetos ou se novamente cometera o erro de devorar as pílulas especiais de Sophos para “Manter o Estômago Cheio”.

— Vamos lá, crianças — Sophos chamou. — O Aquabus nos aguarda.

O mar que antes costumava ser tão azul e transparente, agora

apresentava uma cor mais escura, para não dizer que era impossível visualizar os peixes que navegavam pela superfície. Eu sabia que continuavam lá apenas observando as ondulações da água ou quando um deles resolvia saltar perto do Aquabus. O que está acontecendo?, pensei. O que há de tão diferente?

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Quando não estávamos fitando a paisagem através da janela, eu e Aron ríamos do modo como a fumaça do cachimbo de Sophos irritava a criatura ao lado dele, que fazia caretas muito divertidas.

— O que será que esse bicho é? — perguntou Aron. Eu observei o corpo rugoso do indivíduo, imaginando que tipo de mistura

se daria entre um réptil e um ser humano para originar tal monstruosidade. — Ele é horrível — sussurrei —, mas parece inofensivo. Talvez seja um...

crocodilo? — Talvez — concordou Aron. O ônibus aquático não demorou a chegar à plataforma principal,

passando pela Ilha Minimim e Ilha Deserta sem que ao menos percebêssemos. O homem-crocodilo sentado ao lado de Sophos começou a fungar acima dele, tentando fazê-lo perceber que deveria parar de fumar. No entanto, isso só fez nosso pequeno amigo aborrecer-se e comprovar nossas suspeitas de que a criatura era mesmo inofensiva.

— Um homem não pode fumar seu cachimbo em paz sem ser fungado por um brutamonte? — ele resmungou. — Ora, vire esse nariz rugoso para lá!

O homem-crocodilo levantou-se, magoado, e foi sentar-se em outro lugar, dizendo apenas:

— Você não é um homem. Quando o Aquabus estacionou sobre as águas ao chegar à plataforma,

descemos as escadas, agradecendo ao motorista. Desta vez, o ser que dirigiu o ônibus tinha ombros largos e apenas um olho. Sophos nos disse que se tratava de um ciclope.

Ao alcançar uma árvore de tronco largo no gramado próximo à estação, onde o piso apresentava diferentes desenhos quando se andava, Sophos abriu uma pequena abertura feita de cascas e encontrou um painel com diversos números. Ele digitou um código gigantesco que pareceu durar uma eternidade e disse:

— Estou abrindo uma passagem secreta, uma conexão entre Aquarium e sua casa. Sim, isso pode ser feito.

Então, sem hesitar, puxou o tronco, que se abriu como se fosse uma porta. Era como se sempre estivesse estado lá. Fiquei com dúvidas sérias sobre se todos nós caberíamos ali, mas quando uma pessoa entrava, desaparecia rapidamente. Entrei e me deparei com a escuridão, que durou alguns segundos.

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Quando uma luz acendeu, iluminando o corredor, eu soube que estava em frente à porta de casa.

Aron tocou a campainha. — É a nossa casa, seu burro! — eu disse a ele. — Não precisamos de

autorização para entrar. Abri a porta e encontrei minha família. Minha mãe estava na cozinha,

cuidando de algo em uma panela que cheirava muito bem. Amy brincava com uma pilha de pequenas panelas coloridas no chão, fingindo estar cozinhando também. Meu pai assistia ao jogo de futebol do seu time favorito.

Ao adentrarmos a sala, todos vieram nos receber com abraços e beijos. Amy correu até nós atrapalhadamente, agarrando nossas pernas. Uma mão rápida surgiu, retirando o certificado de nossas mãos. Era impressionante a rapidez de minha mãe para perceber as coisas.

— Vocês conseguiram! — ela parabenizou, beijando-nos a testa. — Vocês passaram de ano. Aron, que mandinga você andou praticando para ter notas tão altas? Isso não é sua cara... Céus, Pippa! O que houve com você esse ano?

Engoli em seco. — Eu... tive alguns probleminhas didáticos. — Aqui diz que... — minha mãe se calou, arregalando os olhos. — O que é

isso aqui? Que notas são essas? — Ela parou para respirar, provavelmente evitando gritar. No entanto, ela não conseguiu. No instante seguinte sua voz estava tão alta quanto à voz de Graciosa, a garota gigante da Ilha Magna. — COMO ASSIM VOCÊ QUASE REPROVOU EM LATIM? LATIM, MEU DEUS! E GANHOU TRÊS ADVERTÊNCIAS! TRÊS!

Três?, pensei. Esperava que fosse mais do que isso. Abaixei a cabeça e não precisei responder, pois a voz de meu pai soou a

tempo de me socorrer. — Não grite com a menina, Mary — ele disse, sentando-se novamente no

sofá para acompanhar o jogo. — Eu não estou conseguindo escutar a televisão. E lembre-se do que eu lhe disse. Eu já perdi a conta de quantas vezes fui expulso na época do colégio, e mesmo assim você nunca gritou comigo por causa disso.

— Tá, tá. Tanto faz — ela disse, sorrindo novamente. Minha mãe nunca conseguia ficar brava por muito tempo. — Eu só fico preocupada, Pippa. Eu quero que vocês se esforcem, aprendam, tornem-se pessoas melhores...

— Eu sei, mãe. Eu sei.

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— E o que é isso no seu braço? Você se machucou? Contei a ela sobre a invasão na escola e no modo como aquele lobo

pronunciou aquelas palavras, mas ela abafou a conversa, prometendo que falaríamos sobre isso mais tarde. Ela certamente odiava a ideia de preocupar meu pai com problemas que não pertenciam ao seu mundo.

No momento seguinte minha mãe já havia esquecido todo o problema com as minhas notas e estava agachada no chão, cumprimentando Sophos. Era uma cena extremamente estranha, além de ser muito engraçada também. Os dois eram amigos de muitos anos atrás, ou melhor, séculos atrás. A verdade era que eu não sabia ao certo quantos anos minha mãe tinha. Sophos a conhecera como uma deusa, e julgando o modo como seus olhos brilhavam de admiração e como estava sendo curiosamente gentil, ele ainda a via dessa maneira.

— Exspectata — minha mãe o saudou, levantando-se novamente. — Gratias agimus tibi — Sophos respondeu. Vidulus estava tímida,

esquivando-se entre as pernas do dono, mas este a puxou por uma das alças e a arrastou até os pés de minha mãe. — Esta aqui é minha nova companheira. Chama-se Vidulus. — A mala estremeceu desconfortavelmente e voou em direção à janela, onde desapareceu. — Bem, ela não é muito simpática. De qualquer forma, é bom vê-la novamente, Ryma.

— Igualmente, meu caro amigo. Ora, sua mala ambulante é uma gracinha. Como a conseguiu?

Sophos coçou a barba laranja com uma expressão apreensiva, como se a tivesse obtido ilegalmente.

— Um drow me presenteou com ela quando me ajudou a fugir da Ilha Central de Króton Bleeds. Ele disse que não havia nada de errado com ela, e veja só minha responsabilidade agora! Um conselho: nunca confie em um elfo negro. Eles raramente falam a verdade...

Após um almoço digno de uma família real, e depois de repetir o prato, assistimos ao final da partida de futebol com meu pai. Ele não se sentia à vontade com Sophos, mas até o placar final daquele jogo ambos estavam conversando, se divertindo e até mesmo dividindo o mesmo cachimbo.

Quando o jogador favorito de meu pai conquistou o touchdown necessário para o desempate do jogo, levando o time à vitória, todos comemoraram com gritos, palmas e assovios. Eu sabia que minha mãe não entendia nada de futebol,

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muito menos estava realmente assistindo à televisão. Mesmo assim, era ela quem mais berrava na sala.

— Au, au? — Amy perguntou. — Não — respondi —, Sherlock não veio com a gente. Não muito mais tarde, senti a consequência da noite mal dormida. O

cansaço era quase inevitável, assim como manter os olhos abertos. — Durma um pouco — minha mãe aconselhou, trazendo um travesseiro e

uma coberta amarela. — Nós vamos passear um pouco, talvez até visitar o Central Park. Levaremos Sophos, está bem? Ele quer conhecer a loja onde vendem aqueles cachimbos importados.

— Tudo bem — respondi, acomodando-me no sofá. Então, antes que eu pudesse ouvir a porta da sala bater, estava imersa em um lugar profundo e obscuro da minha consciência. Uma sala onde chamas ardiam em grandes tochas e onde uma caixa enorme continuava lacrada, escondendo seus segredos.

Estar de volta àquele ambiente frio e úmido, repleto de silêncio e trevas, deveria me aterrorizar. Mas não. Minha ansiedade era tão presente quanto à escuridão. O que estaria dentro da caixa, afinal? A curiosidade matou o gato, pensei, mas o gato não tinha uma espada. Toquei meus cabelos à procura da presilha dourada, e ela estava lá dessa vez. Desde o incidente com os Canis Lupus eu havia decidido que não poderia afastar-me dela, pois a qualquer hora algo ruim poderia acontecer. Eu precisaria estar preparada nessas ocasiões.

No centro da sala havia uma mesa alta e estreita, coberta por um lenço branco. Aproximei-me dela com passos rápidos. Não queria que nada me impedisse de descobrir o que Króton escondia naquele lugar. De joelhos, segurei o pano e o retirei dali. Uma risada histérica surgiu diante de mim, fazendo com que eu caísse para trás. Um crânio estava pousado sobre a mesa, usando um lenço preto e branco na cabeça, onde havia diversos desenhos de caveiras. Também usava óculos escuros, o que o tornava uma figura reconhecível.

— Você é uma relíquia — eu disse, sentindo ainda meu coração pulsar ligeiramente por causa do susto. — Você era o melhor amigo de Pétrus Cornelius, e agora pertence ao Thunder.

— Caput! — ele gritou. Era um som agudo e irritante que ecoou por todo o recinto. — Parece que todos se esquecem do meu nome. Eu sou importante, eu digo a eles. Eles sequer se importam comigo. Esse tal de Thunder... Ahá, como se alguém pudesse mandar em mim! Esse moleque acha que eu pertenço a ele.

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— Claro que não — concordei —, você é super independente! Muito inteligente. Como amigo de um mago lendário, você deve saber de muitas coisas, não é? Tenho certeza de que você é um sábio.

— EX-AMIGO! — ele berrou outra vez. — Aquele mandingueiro mal-agradecido! Espero que um dia alguém diga a ele o quanto ele fica deselegante naquelas togas esquisitas. Ah, não vejo o dia!

Ergui o dedo, rindo baixinho. — Bem, eu disse a ele. Não são togas, chamam-se túnicas. De qualquer

forma, elas são terríveis, não são? Ele melhorou bastante desde que soube minha opinião.

— O quê? Você disse a ele? — O crânio deixou cair a mandíbula, incrédulo. — Garota, juro que a abraçaria agora se eu tivesse braços... ou ao menos um corpo. Você acaba de conquistar um fã! Aquele maldito mago do “Abracadabra” teve o que mereceu, a verdade precisava ser dita...

Observei a caixa perto da parede à minha direita, pensando no que dizer para que Caput me dissesse como abri-la.

— Vários lobos entorpecedores invadiram minha escola noite passada — contei —, mas a maioria deles não machucou ninguém. Eles eram apenas...

— Sem mortes? Que chatice! —... parte de uma ilusão feita por Króton para nos atingir — continuei. —

Exceto um, que parecia muito real. Ele saltou para cima de mim e se comunicou comigo. Eu podia ouvi-lo falar como se ele fosse humano. Acredito que tenha sido Thunder. Este Canis Lupus arranhou meu braço e deixou uma cicatriz gigantesca. — Mostrei a ele a ferida em meu braço direito — Vê? Está bem feio. Não está doendo agora, mas com certeza eu sentirei as consequências quando acordar.

— O que quer saber, exatamente? — inquiriu Caput. — Hum... Eu nunca vi o Senhor das Sombras realizar tal feito. Ele sempre

teve esse poder? — Não — admitiu o crânio. — Króton adquiriu essa habilidade graças ao

segredo escondido naquele caixote ali. Bem, eu estaria apontando para lá se tivesse dedos. Mas é claro que você sabe do que estou falando. Está de olho naquilo desde que chegou aqui. Agora, se você não se importa, olhe nos meus olhos e pergunte o que realmente quer saber.

— Você não... hã, sabe... Você não tem olhos.

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— Eu sei disso — ele abriu um sorriso amarelo e desdentado —, é por isso que uso esses óculos maneiros. Agora pergunte.

Respirei fundo e olhei para a caixa, curiosa para saber o que havia ali. — O que há na caixa? — Ora — Caput disse —, vá vê-la. Há um disco de proteção em cima dela,

que você deverá girar até que os pontos cardeais entalhados estejam alinhados com o desenho central. Não é tão difícil. Pouse a mão sobre a marca pintada na caixa e diga “aperire” três vezes. Króton não gostaria que os outros soubessem disso ainda, principalmente você, mas eu não dou a mínima!

Antes que ele terminasse de falar, eu já me levantara e estava a caminho do fim da sala, aproximando-me da caixa. Reconheci a maioria da decoração. Era ornamentada com pedras preciosas, diversos desenhos e algumas palavras escritas em uma língua diferente.

— Ouça meu conselho, garota — a voz de Caput soou atrás de mim. — Thunder não era o lobo que a machucou. As pessoas normalmente não são aquilo que as outras enxergam. Há muito mais para descobrir. E este segredo que está prestes a desvendar é muito complexo para se entender imediatamente. É algo poderoso, sem dúvida. Desfrute do prazer obtido ao saciar a curiosidade. Vá, abra a caixa.

Com a mão direita sobre o desenho, girei o disco e repeti a palavra “aperire” três vezes. A tampa se abriu facilmente. Quando ergui a cabeça para descobrir o que havia lá dentro, uma densa escuridão me envolveu. Ouvi a campainha soar e descobri que eu não estava mais sonhando, tampouco sabia o segredo de Króton.

Ding dong! Ding dong!

— Já vou — respondi mal-humorada, correndo para abrir a porta. Estava com raiva por acordar antes de desvendar o mistério. — Mãe? Você perdeu a chave?

Não houve resposta do outro lado. Girei a chave na fechadura e abri a porta, visualizando uma linda garota com uma embalagem de pizza em suas mãos. Usava um boné vermelho combinando com o uniforme, onde se lia ‘La Belle Pizzaria’.

— Olá — cumprimentou. — Sou Gia. Aqui está sua pizza de calabresa. — Pizza? — perguntei, erguendo uma das sobrancelhas. — Eu não pedi

nenhuma pizza. Talvez esteja havendo um engano...

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— Oh, mas seus pais já me pagaram — disse Gia. — Estranho que eles ainda não tenham chegado. Uma pizza grande e uma garrafa de refrigerante, é o que consta aqui.

Sorri disfarçadamente. Pizza era uma benção que não tínhamos em Aquarium.

— Bem, se eles já pagaram... — Apanhei a pizza e coloquei sobre a mesa. — Espere um pouco, vou pegar alguma gorjeta.

— Sem problemas, Pippa. Como ela sabe meu nome?, pensei, enquanto procurava alguma notas baixas

na bolsa de minha mãe. Quando retornei para entregar-lhe o dinheiro, joguei-o no corredor e fechei a porta o mais rápido possível. Gia certamente não era quem dizia ser. Arranquei Spectro Lux de meus cabelos com certa pressa e corri para trás do sofá. Minhas suspeitas foram confirmadas quando uma explosão ocorreu no corredor, destruindo a entrada.

O boné vermelho cortou o ar acima da minha cabeça, tão rápido quanto um disco de frisbee, e quebrou o vidro da janela. A garota entrou na sala, mas agora se parecia com alguém que eu conhecia. Seus cabelos negros e soltos estavam rebeldes, emoldurando seu rosto comprido. Seus olhos eram inconfundíveis, e expressavam tanta raiva que eu decidi voltar meu olhar para a lâmina da minha espada, que refletia minha expressão aterrorizada.

— Você esqueceu seu refrigerante! — gritou Grace, atirando a garrafa na direção do sofá, e por muito pouco não acertou minha cabeça. Através do reflexo de sua imagem em um dos vidros que sobraram na janela, pude vê-la se transformar. Sua pele mesclou-se a penas cinza e negras até que não se percebesse nenhum sinal de que um dia havia sido humana. Ela duplicara de tamanho. Agora possuía cabeça e asas de águia e o corpo de um leão, que agitava nervosamente o rabo. Suas patas dianteiras exibiam garras, tanto quanto nas traseiras, mas de dois animais diferentes. A garota se transformara em um furioso grifo.

Batendo suas asas, ela avançou na minha direção, independente dos objetos que caíam e quebravam à sua volta. Livros, copos, controle remoto e peças decorativas provocavam ruídos agonizantes quando atingiam o chão, pois cada som significava que Grace estava mais perto.

Quando ela subiu no sofá, peguei a garrafa de refrigerante e ergui a espada dourada, fincando em seu peito. O grifo grasnou, recuando e rasgando o

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estofamento enquanto despencava. Antes que ele pudesse levantar novamente, sacudi o refrigerante e abri-o, esguichando o líquido no chão da sala. Ao se apoiar nas patas, Grace escorregou e caiu. Isso me disponibilizou algum tempo para que eu pudesse sair de trás do sofá e avançar sobre o animal, apontando a espada para seu pescoço.

— Grace... o que faz aqui? Ela apenas guinchou, agitando furiosamente as asas. Aquilo

provavelmente significava “Ei, sua idiota! Ao menos tente me ameaçar e eu bicarei seu pé à noite!”.

— O gato roubou sua língua? — perguntei, provocando-a. Funcionou. Tentando se reerguer, o grifo feriu-se com a lâmina. Naquele momento percebeu que estava encurralado.

— Você não deveria ver aquilo — Grace respondeu. O som não vinha de seu bico, mas de minha própria consciência. Eu podia ouvir seus pensamentos. — Você não deveria abrir aquela caixa.

— Por que não? — perguntei, aproximando cada vez mais a lâmina de seu pescoço. — O que seu mestre esconde lá dentro? Vamos, diga-me.

Ela grasnou de fúria, encarando-me com seus olhos amarelos. — Meu mestre... Meu mestre tem a arma necessária para exterminar a

família Cury de uma vez por todas. Quando isso acontecer, finalmente, ele será o único e legítimo possuidor da dimensão de Aquarium. E você, queridinha, morrerá lentamente.

Sem que eu percebesse, Grace usou a pata traseira para me derrubar no chão e erguer-se, avançando sobre mim. Levantei-me tão rápido que ela não pôde me dominar. No entanto, eu precisava ser cautelosa, já que a ferida em meu braço direito tornava-me mais fraca. Transformando-se em humana novamente, Grace apanhou uma espada que aparentemente surgira de lugar nenhum. Ironicamente, o cabo de sua arma era coberto de penas.

Recuando para a cozinha, eu defendia seus ataques com Spectro Lux sempre que conseguia, ou simplesmente me desvencilhava com meu corpo, fazendo com que ela acertasse objetos ou rachasse a parede. Travamos uma longa batalha entre espadas perto do corredor largo que levava para os quartos da casa. Nossas lâminas retiniam, beijando-se, aço encontrando metal.

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Em certo momento meu braço ficou dolorido demais para investir contra Grace. Com isso, fiquei encurralada na parede com sua lâmina em minha garganta. Sorrindo maleficamente, ela sussurrou:

— Você se importaria de morrer agora? Engoli em seco. Bem, na verdade, eu planejava sair e comprar sorvete de

baunilha... mas o que seria mais importante do que morrer, não é mesmo? — Seu mestre certamente se importaria. Creio que ele queira derramar

meu sangue com suas próprias mãos — murmurei. — Além disso, sei que você não desobedeceria às ordens de Króton.

Isso a deixou ainda mais furiosa, se é que aquilo era possível. — Ninguém é capaz de me deter! Eu não obedeço a ninguém! Por acaso

sou um animal que precisa de amarras? “Sim, você é! Ou pelo menos era”, eu poderia responder, mas não via

possibilidades de escapar após isso. O minuto seguinte ocorreu de forma tão célere e inesperada que mal

pude registrar os fatos por inteiro. Só me lembro de ver minha mãe surgir por de trás da fumaça causada pela explosão no corredor, carregando consigo uma barra de ferro. Aron enterrou a lâmina de Crystallus nas costas de Grace, fazendo-a gritar. Invoquei Spectro Lux quando Grace soltou meu braço esquerdo. Quando a afastei com um golpe da lâmina, transformou-se novamente em grifo.

— Você rasgou meu sofá inteiro, sua galinha depenada! — minha mãe gritou, acertando-a repetidas vezes com a barra de ferro. Ela não é uma galinha, eu queria dizer, mas nada era mais interessante do que vê-la em ação. — Minhas almofadas indianas! O TECIDO ESTÁ ARRUINADO!

Grasnando melancolicamente, o animal levantou vôo e fugiu pela janela, quebrando os vidros restantes com suas asas frenéticas. Durante esse meio tempo, meu pai escondeu-se no corredor, Amy estava em seu colo, erguendo os braços e murmurando: “Cocoricó?” e Sophos ficou na mesma posição que chegara, fumando calmamente seu cachimbo. Para o Leprechaun, era como se nada estivesse acontecendo.

— Quem era a maluca? — ele perguntou, afastando o cachimbo. — Francamente, mãe! — critiquei. — Eu estava numa situação dificílima

entre a vida e a morte, e você aí praguejando por causa de umas almofadas! Ela franziu a testa.

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— Ué, filha, essas almofadas são a minha alma! E pare de reclamar, pois eu sei que a coloquei para correr. Ryma ainda presta para alguma coisa. Viu só como eu a espanquei?

— Foi demais, mãe! — Aron incentivou sem muito entusiasmo. — Mas, pelo amor do Senhor dos Céus, não faça isso na frente dos meus amigos.

Sophos ergueu o objeto escuro e entalhado com motivos irlandeses. — Vejam só meu cachimbo novo! Não é demais? — ele disse alegremente,

encerrando a conversa com uma pergunta que não foi respondida.

Através da fumaça cinzenta que ainda sobrevoava a sala, caminhamos

sobre as coisas quebradas no chão, tossindo até alcançar a janela. Eu era a mais tolerante ao cheiro de queimado que dominava o corredor. Era como se eu não me incomodasse com o aroma, talvez por ser uma Elemental tanto do fogo, como também dos outros três elementos da natureza. Era estranho perceber que eu sentia até mesmo prazer em aspirar aquele ar, como se estivesse sentindo o perfume de rosas.

Sophos também não parecia se incomodar muito. — Duende, você não está sentindo esse cheiro terrível? — meu pai

perguntou. Aron riu, sua cabeça enterrada na janela para buscar ar puro. — Ele não é um duende, pai. Ele é um Leprechaun. — Bem — respondeu Sophos —, eu realmente não dou a mínima. Saberia o

porquê se tivesse vivido em um esgoto por dezenas de anos. Digamos que esse odor é o menor de nossos problemas.

— Chega de falar sobre odores, vocês dois. Não podemos descer até que contratemos um mago para limpar este lugar. — Minha mãe alongou ainda mais o pescoço, competindo com Aron pelo ar. — Vejam só, a Callaina está vindo com uma mensagem. Boa menina, boa menina.

Callaina voava alguns metros à frente da nossa janela. Ela foi recebida com um abraço afável de minha mãe, que tratou de retirar a carta presa à pata da

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Amat. Por sua vez, a pequena égua alada relinchou, trotando sobre o parapeito da janela.

— Notícias sobre o que? — minha mãe perguntou. Ela ainda possuía a capacidade de ouvir os animais. — Ah, urgentes, entendo. O início de uma nova o que? — Mas, pelo visto, essa capacidade estava um pouco fraca devido ao desuso. Apanhando a carta, ela a abriu e leu: — Santíssima Ryma... Ah, sou eu! Eu, Keenath

Sagittarius, venho por meio desta carta dizer que precisamos reunir forças. O mal está se

erguendo em todos os cantos da ilha, expandindo-se para cada área protegida da nossa

dimensão. Peça para que seus filhos retornem com Sophos imediatamente. A situação está

crítica. Venha o mais rápido possível. Assinado, diretor da Schola Sodales de Domino

Coeli.

— Senhor dos Céus! — exclamou Sophos, visivelmente apavorado. — O que houve? — perguntei. — O que diz aí? — Vocês precisam voltar para Aquarium, filha. E precisa ser

imediatamente. É complicado explicar de uma maneira agradável. Bem, tudo que posso dizer é que as sombras estão tomando conta da ilha... e que estamos oficialmente em guerra.

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A pós derrotar centenas de demônios de lava e enfrentar o temível Thunder, os irmãos Cury terão de encarar desafios ainda maiores. Os indícios de uma guerra iminente podem ser notados em toda a Cadeia de Ilhas e, desta vez, não somente um, mas dois adversários funestos aguardam por eles. Será que Króton, o poderoso Senhor das Sombras, finalmente será derrotado? Conheça o final inesquecível da épica jornada de Pippa, Eron e seus amigos.

Este é o terceiro e último volume da trilogia A Cadeia de Ilhas de Króton Bleeds.