A Patrística e Santo Agostinho - .A história de vida de Santo Agostinho tornou-se quase um

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  • FILOSOFIA Captulo 07

    A Patrstica e Santo Agostinho

    A PATRSTICA 01

    SANTO AGOSTINHO E O PLATONISMO CRISTO 02

    EXERCCIOS DE FIXAO 12

    EXERCCIOS PROPOSTOS 13

    SEO ENEM 14

  • Santo Agostinho foi um dos principais expoentes da

    Filosofia no Perodo Medieval. Suas ideias serviram, e servem

    at hoje, como fundamentos importantes para o cristianismo.

    Para compreendermos melhor o pensamento e a Filosofia

    Crist de Santo Agostinho, necessrio entender o

    momento histrico em que ele viveu e tambm o movimento

    filosfico-teolgico, ocorrido entre os sculos III e VIII,

    denominado Patrstica, do qual Agostinho foi o principal

    representante.

    A PATRSTICA

    Os Padres da Igreja constituem um conjunto de pensadores do

    incio do cristianismo que se dedicavam a produzir textos com

    o objetivo de explicar a f por meio da razo.

    A Patrstica foi o perodo da histria ocidental marcado

    pela presena atuante dos chamados Padres da Igreja.

    A palavra patrstica origina-se de Pater (padre, pai), nome

    pelo qual esses homens eram chamados. Foram eles os

    responsveis pelo incio da estruturao teolgica do

    cristianismo, exercendo um papel fundamental na histria

    crist, j que foram os primeiros a se dedicarem a uma

    teorizao da f, ou seja, os primeiros que buscaram

    construir os argumentos racionais que sustentariam lgica

    e argumentativamente a f crist.

    A nova f, que j completava 100 anos, precisava ser

    defendida. No incio, com as primeiras comunidades, no era

    fundamentalmente necessria ao cristianismo uma defesa

    argumentativa de suas verdades, estruturada em princpios

    lgicos e inteligveis, uma vez que a doutrina crist baseava-

    se em princpios morais e em uma f inabalvel na salvao

    trazida pela morte de Cristo na cruz.

    Nos sculos II e III, essa necessidade tornou-se urgente,

    isso porque, por um lado, era necessrio defender a f

    contra os questionamentos dos pagos e de outras seitas

    religiosas, e, por outro, era preciso convencer os romanos,

    principalmente as autoridades, da pertinncia e da

    legitimidade da doutrina crist. Diante disso, os Padres da

    Igreja, dentre os quais Santo Agostinho, Justino (sculo II),

    Clemente de Alexandria (sculos II e III) e Orgenes

    (sculo III), inauguraram uma nova maneira de pensar o

    cristianismo e buscaram instrumentos para justificar a f

    e defender a doutrina crist. Para isso, utilizaram-se da

    filosofia grega e do pensamento helnico, formulando, ento,

    a Filosofia Patrstica.

    Santo Agostinho o principal pensador desse perodo,

    promovendo uma sntese genial e indita entre a doutrina

    crist e o pensamento de Plato. necessrio ressaltar

    que Santo Agostinho no platoniza o cristianismo, mas

    cristianiza Plato. O sistema filosfico platnico, pelo

    menos em suas bases fundamentais, utilizado por Santo

    Agostinho como ferramenta de justificao da f revelada.

    Porm, se houvesse algo conflitante entre Plato e a f

    crist, evidentemente a revelao, a Bblia Sagrada, a f,

    ocuparia lugar de destaque.

    Dessa forma, Santo Agostinho, contribuiu de forma

    decisiva para a aproximao entre a f crist e a filosofia

    grega, principalmente ao formular um conjunto de ideias

    crists, uma doutrina propriamente dita, com base no

    pensamento platnico. Por causa disso, podemos afirmar,

    com segurana, que Santo Agostinho foi o pensador mais

    destacado e importante desde Aristteles (sculo IV a.C.)

    at Santo Toms de Aquino (sculo XIII).

    A Patrstica e Santo Agostinho A

    Pg 01

  • SANTO AGOSTINHO E O PLATONISMO CRISTO

    Iluminura representando Santo Agostinho

    VidaA histria de vida de Santo Agostinho tornou-se quase um

    captulo parte na prpria histria do cristianismo e merece ateno especial em nossos estudos. Sua vida representa o itinerrio espiritual de um homem comum que se tornou um dos pensadores mais importantes da histria do Ocidente, mesmo experimentando cotidianamente toda a fraqueza de sua condio humana, tendo vencido suas limitaes e seus medos em busca de seu ideal de vida. Acompanhemos ento a sua histria.

    Uma me chora e reza pela converso do filho. As lgrimas abundantes de Mnica regaram o corao de seu primognito, que, aps anos de uma vida desregrada e entregue aos prazeres mundanos, finalmente se converte ao cristianismo, mudando definitivamente sua vida e a histria do pensamento ocidental, tornando-se o mais importante entre os Padres da Igreja, tanto que sua obra bibliogrfica, Confisses, o segundo livro mais publicado do Ocidente, ficando atrs somente da Bblia.

    Algo pulsava no peito daquele inquieto homem. Nada, at a sua converso, fora capaz de preencher o grande vazio interior de uma alma procura de algo que os olhos no veem e que s o corao poderia sentir. Aquele homem era Aurelius Augustinus. Nascido em 13 de novembro de 354, na pequena cidade de Tagaste, provncia romana da Numdia, ao norte da frica, onde hoje se localiza a Arglia, Aurelius Augustinus, desde muito novo, mostrou inteligncia e perspiccia de pensamento notveis. Durante a infncia,

    estudou em sua cidade natal e na cidade vizinha, Madaura. Seu pai, Patrcio, homem de hbitos rudes, vida simples e entregue ao alcoolismo, ainda pago (converteu-se ao cristianismo no momento de sua morte), empenhou-se em enviar o filho, to logo este terminasse seus primeiros estudos, cidade de Cartago, onde teria a oportunidade de receber uma educao liberal e trilhar a carreira do magistrio ou da magistratura. No tendo condies financeiras para custear os estudos do filho, j que vivia de modo modesto e sem muitas reservas, o pai valeu-se da amizade de Romariano, amigo rico e bem-sucedido, que o ajudou na ida de Augustinus a Cartago para cumprir seus estudos superiores.

    MARROCOS

    OCEANOATLNTICO

    ARGLIA

    Argel

    Rabat

    NGERMALI

    MAURITNIA

    Mar Mediterrneo

    N

    Em Cartago, Agostinho estudou Literatura, Filosofia e Retrica. Apesar de sua inteligncia e de sua capacidade intelectual, no se mostrou um bom aluno, no tendo se afeioado ao grego, lngua fundamental para a leitura dos clssicos, afirmando que detestava tal idioma. Devido a isso, sua educao se deu quase totalmente em latim, o que lhe trouxe muitos arrependimentos futuros, pois isso o afastou quase que por completo da leitura dos pensadores helnicos, da exegese e da teologia. Mais velho, porm, buscou reparar tal falha.

    Devido aos seus estudos e sua cultura, Agostinho afastava-se da leitura da Bblia, insistentemente oferecida a ele por sua me, por consider-la uma leitura indigna de homens cultos, chegando mesmo a afirmar que se tratava de uma obra simplria e mal-escrita. A Filosofia entrou em sua vida com a leitura do livro Hortncio, de Ccero1 (106-43 a.C.), no qual o autor afirmava, com um estilo elegante de escrita, que a Filosofia seria o caminho para se

    1 Marco Tlio Ccero foi poltico, orador e autor de prosa filosfica. Quando, em Roma, Jlio Csar chegou ao poder, Ccero se retirou da vida poltica e se exilou, produzindo, nesse perodo, a maior parte de seus escritos sobre Retrica e Filosofia. Por opor-se ao controle de Marco Antnio, aps a morte de Csar, no ano 43 a.C., foi assassinado por ordem de Otaviano, filho adotivo de Csar. Nesse livro, em dilogo, do qual hoje se conhecem apenas fragmentos, Ccero respondia s dificuldades de Hortncio com a Filosofia.

    Pg 02

  • FILO

    SOFI

    A

    alcanar a felicidade. Agostinho se viu encantado com tal

    novidade e logo se apaixonou por essa via do saber. A obra

    ciceriana, de tendncia tipicamente helenstica, fez Agostinho

    entender a Filosofia como sabedoria e arte de viver, capaz

    de trazer a paz de esprito pela presena da felicidade:

    Na verdade, aquele livro mudou meus sentimentos e

    tornou at diferentes minhas preces [...] e diferentes meus

    votos e meus desejos. De repente, toda esperana humana

    tornou-se-me vil e eu proclamava a sabedoria imortal com

    incrvel ardor de esprito.

    AGOSTINHO. Confisses. Traduo de J. Oliveira Santos e A.

    Ambrsio de Pina. So Paulo:

    Nova Cultural, 2000. Livro III, 4, 8.

    Apesar de seu desprezo intelectual pela Bblia Sagrada,

    Agostinho, de um modo ou de outro, teve contato com tal

    leitura, seja em pequenos fragmentos ou em partes contadas

    por outros, mas principalmente pelo testemunho forte e

    insistente de sua me, crist convicta e fervorosa. Dessa

    maneira, a semente de Cristo foi plantada em seu interior,

    e nada que no trouxesse o nome de Cristo lhe confortava

    a mente e a alma. Assim, ele prprio afirma:

    Esse nome [...] meu corao ainda tenro havia bebido

    piamente junto com o leite materno e o conservava

    profundamente esculpido. E tudo o que estivesse sem

    esse nome, por mais que fosse literariamente lmpido e

    verdadeiro, no me conquistava de todo.

    AGOSTINHO. Confisses. Traduo de J. Oliveira Santos e A.

    Ambrsio de Pina. So Paulo:

    Nova Cultural, 2000. Livro III, 4, 8.

    Vale lembrar que, apesar de trazer em seu interior esse

    desejo pelo nome de Cristo, a ponto de fazer tal afirmao,

    Agostinho ainda no havia se convertido de fato. Esse

    momento foi como uma preanunciao, um desejo ou uma

    busca por algo que ele ainda no conhecia pessoalmente,

    mas percebia, de alguma maneira, j existir dentro de si

    mesmo. Mais tarde, aps sua converso, ele reconheceria

    que esse impulso, esse amor, esse desejo em seu interior,

    era o desejo pelo prprio Cristo.

    Antes de se aproxim