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  • Novos estud. CeBRAP so PAuLo v37n01 143-159 JAN.ABR. 2018 143

    artigo

    ALFREDO VOLPI E A MODERNIZAO PRECRIA

    Carlos Pires*

    Resumo

    O presente artigo pretende investigar alguns trabalhos de

    Alfredo Volpi feitos durante a dcada de 1950 que se aproximam de maneira um tanto paradoxal das pinturas con-

    cretistas daquele momento. Esse grupo de quadros mais abstratos do pintor cifra na composio os embates que

    aconteciam em diferentes nveis naquele processo de modernizao precria que atravessava o pas e parece explici-

    tar, com certa malcia, alguns limites de certa racionalidade mtica que permeou parte da arte moderna tardia brasi-

    leira de carter construtivo.

    PALAvRAs-ChAve: construtivismo brasileiro; Alfredo Volpi; pintura

    brasileira; arte e sociedade; arte moderna brasileira.

    Alfredo volpi and the Precarious ModernizationAbstRAct

    This article aims to investigate some of Alfredo Volpis

    artworks from the 1950s that dialogue in a paradoxical way with Brazilian paintings at that time. This set of Volpis

    concrete artwork ciphers, in their compositions, tensions that occurred at different levels of that precarious moderniza-

    tion process, and seems to present, with cunning, the limits of a certain mythical rationality that traversed the late

    Brazilian constructive modern art.

    KeywoRds: Brazilian constructive art; Alfredo Volpi; Brazilian painting;

    art and society; Brazilian modern art.

    No comeo da dcada de 1940, Alfredo Volpi, prova-velmente atento a novos espaos abertos para sua profissionalizao (Arruda, 2015),1 limpa seu trabalho dos muitos elementos mobiliza-dos em sua ecltica formao (Pires, 2017).2 Passa a usar praticamente apenas a tmpera e a pintar exclusivamente em seu ateli, e no mais junto ao assunto, usando seus termos, como fazia na dcada ante-rior. Elimina, em boa medida, a figura humana e elementos da natu-reza e, progressivamente, promove uma interessante atenuao da perspectiva, ou, melhor, comea a trazer a composio do quadro para a superfcie, criando outras possibilidades espaciais onde promove relaes inusitadas entre figura e fundo.

    [*] Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de So Paulo, So Paulo, SP, Brasil. E-mail: pirescarlos @gmail.com.

    [1] Volpi premiado em 1941 no Servio do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional (SPHAN) por Mrio de Andrade, Bruno Giorgi e Srgio Milliet por um trabalho de temtica religiosa. Em 1944 realiza sua primeira individual na Galeria It, em que vende todos os quadros. Ele comea a participar sistematicamente de exposies ao longo da dcada de 1940, ou de fato se profissionaliza.

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    Neste comeo de dcada, realiza, com efeito, um movimento das formas para o plano refazendo a seu modo o percurso que cubistas e outros artistas do final do sculo xix e comeo do xx realizaram. Faz isso medida que comea tambm a ter mais contato com as pinturas modernas em funo das exposies que acontecem neste momento (Mamm, 2001, p. 26)3 e, importante salientar, a partir de um ponto de vista estabelecido em uma intensa produo de mais de duas dcadas

    de trabalho. Isso ao mesmo tempo em que desarma em seus quadros grande parte do lirismo/sentimentalismo, ou certo expressionis-mo, presente em seu meio de formao e, tambm, na sua produo at o comeo da dcada de 1940.4

    Certa simplificao, planificao e, em alguma medida, esfriamen-to conduzem sua pintura a uma direo intuitivamente afinada com correntes funcionalistas que comeam a ganhar espao na cultura do pas e que de qualquer maneira precisavam encontrar, ou mesmo forjar, razes e particularidades nacionais para se afirmarem naquele contexto. Volpi, que pintava desde o final da dcada de 1910, passou a ser considerado nesses meios um dos principais pintores brasileiros na segunda metade da dcada de 1940 e, principalmente, na de 1950 (Hoffmann, 2002; Arruda, 2015; Rosa, 2015).5

    Seu trabalho, no entanto, no perde vigor depois dessa consagrao pblica. Ao contrrio, ele realiza uma crtica reveladora das pinturas da-quele momento, antecipando e explicitando, em novos quadros que pro-duz com caractersticas mais abstratas, alguns limites de certa raciona-lidade mtica que permeou parte dessa arte moderna tardia brasileira de carter funcionalista (Brito, 1999; Arruda,2015).6 Essa crtica afirmativa e moderna que seu trabalho realiza o que procurarei demonstrar aqui.

    Em muitas das, digamos assim, pinturas concretas de Volpi h uma curiosa reintroduo dos fundos7 dos quadrosque tinham sido comprimidos na parte superior ao longo da dcada de 1940 ou mesmo desaparecido em trabalhos na dcada de 1950.

    Esses novos fundos, no entanto, passam a ter uma funo distin-ta, assumem posio figuraltentaremos explicar isso nas compo-sies mais frente, e isso de maneira particular em cada composi-o. Mamm chama ateno para certo problema compositivo, nessa relao entre figura e fundo, em um quadro exposto em 1955 na 3 Bienal de So Paulo (Figura 2). O cata-vento, como foi chamado, que segundo o crtico inaugura sua fase concreta, apresenta certa frustrao (Naves, 2008)8 de uma dinmica mais plena da seriao na rotao dos elementos:

    Os ritmos no se transmitem por completo superfcie, porque Volpi mantm a distino entre figura e fundo mediante dois recursos: de um lado, a diferenciao de tons de rosa, desbotado dentro, mais intenso ao

    Para as transformaes do contexto cultural da dcada de 1940, ver Ar-ruda (2015). O termo modernidade precria foi tomado emprestado, um pouco modificado, do prefcio de Sr-gio Miceli para este livro.

    [2] Formao que se deu em um forte contexto de imigrao italiana em So Paulo nas primeiras dcadas do sculo XX (Pires, 2017).

    [3] Volpi no seu processo de for-mao tomou essa direo talvez, segundo Lorenzo Mamm (2001, p. 26), na busca de um caminho mais construtivo, dentro do campo da pintura moderna: possvel que a exposio de 1940 [que trouxe uma amostra significativa da pintura moderna] tenha contribudo para uma progressiva mudana de rumo []. O interesse pela simplificao popular da imagem, por exemplo, as-sume um carter mais construtivo.

    [4] A catalogao da obra de Volpi encontrou 254 trabalhos entre o fi-nal da dcada de 1910 e o final da de 1930 e 121 obras na dcada de 1940, o que j denota um empenho profis-sional do artista muito antes desta dcada. Provavelmente muita coisa foi perdida, chance que aumenta progressivamente em relao s ob-ras mais antigas.

    [5] A polmica relacionada di-viso da premiao de melhor pin-tor nacional com Di Cavalcanti na segunda Bienal, em 19531954, reveladora tanto em relao im-portncia de Volpi naquele contexto para os partidrios da abstraoe Mrio Pedrosa uma figura central aquiquanto sobre as tenses rela-cionadas ao primeiro modernismo e s disputas naquele momento de institucionalizao da arte moderna no pas (Hoffmann, 2002). Primeira exposio no recm-inaugurado Par-que do Ibirapuera, a segunda Bienal aconteceu dentro das comemora-es do quarto centenrio da cidade, momento-chave na afirmao de So Paulo em diversos planos em relao ao pas, afirmao que passava, entre outros aspectos, por uma arte moder-na com caractersticas construtivistas que rompe com a tradio e se projeta para um futuro moderno (Arruda, 2015). Em 1957, na primeira retros-pectiva de Volpi que Mrio Pedrosa organiza no Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro, acontece ao mesmo

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    Figura 1Alfredo Volpi. Sem ttulo.

    Tmpera sobre tela, 116 190 cm. Coleo Theon Spanudis. Incio da dcada de 1950.

    Figura 2Alfredo Volpi. Sem ttulo.

    Tmpera sobre tela, 73 50 cm. Coleo Tito Enrique da Silva Neto.

    Meados da dcada de 1950.

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    tempo um momento decisivo de con-sagrao do pintor talo-brasileiro e de questionamento do concretismo paulista, que provoca um rearranjo no campo dos partidrios da abstra-o que ir causar a separao dos, para citar o texto de Pedrosa da poca, paulistas e cariocas. Volpi, sem at onde se sabe tomar qualquer partido, foi um dos principais centros dessa disputa (Rosa, 2015).

    [6] Sobre a identificao dessa racionalidade particular, ver Brito (1999) e Arruda (2015).

    [7] Est entre aspas pois j na dca-da de 1940 os fundos eram realizados dentro da dinmica de justaposio das partes nos quadros ou, de certa maneira, como os outros elementos da composio.

    [8] Naves fala tambm em certa frustrao de uma dinmica formal em quadros desse perodo.

    redor da mancha; de outro, a aparente falta de relao entre a figurao e formato do suporte. O conjunto dos tringulos conserva, assim, a unidade orgnica de uma personagem que cumpre uma ao. Em seu contorno e movimento, no difere muito de algumas imagens de Virgem com Menino e anjos (Mamm, 2001, p. 33).

    Em meados da dcada de 1950, Volpi estava s voltas com certo enrijecimento da sua pintura por conta da excessiva frontalidade de suas fachadas, que passaram a organizar, em muitos momentos, toda a superfcie, na maior parte das vezes nos eixos vertical e horizontalainda que com certo desequilbrio, ou certa toro, habitual em sua pintura. O que parece mais significativo aqui que a mancha realizada pelos cata-ventos tem uma organizao particular: certa dualidade das formas soltas no espao nas pontas com os tringulos unidos pelas arestaso cata-vento propriamenteem contraposio s formas quadradas que acontecem com o encaixe de quatro tringulos pelos catetos. Isso no parece casual, pois quando os tringulos f