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BRECHT, Bertolt - A Peça Didática de Baden-Baden Sobre o Acordo

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Baden Baden de Brecht

Text of BRECHT, Bertolt - A Peça Didática de Baden-Baden Sobre o Acordo

  • 186

    Vocs ouviroO relato do prirneiro vo sobre o oceano,Em maio de 1927. UIn jovemo realizou. Ele triunfouSobre a tempesrnde, o gelo e as guas vorazes.treranto,

    Que seu nome seja apagado; poisEle, que se orientou por sobre guas extraviadoras,Perdeu-se no pntano de nossas cidades.geloNo o venceram, mas seu semelhante

    venceu. Uma dcadaDe glria e de riqueza e o m.ise rve]Ensinou os carrascos de Hitleri\ pilotar bombardeiros nlOrtiferos. PorSeja apagado seu nome, MasLernbrern-se : nem a coragern nem o conhecinlento00$ motores e das cartas nuticas inscrevem oN"ta epopia.

    No caderno I dos Versucbc (Ensaios), () sobreoceano termina com o "'Relato do inatingvel", ondel no final: "Sem nos deixar esquecer o .Num.a nota de rodap no incio da Pea didticaden-Baden sobre o acordo. Brechr recomenda: "Nomeiro Ensaio) a colocao da palavra 'inatingvel'est correta. Deve-se corrigi-la para: ~O que ainda nofoi alcanado' H. De acordo com esta nota de Brechr, alinha em questo e o ttulo correspondente foram alte-rados. Portanto a nota de rodap da Pea did tica deBaden-Baclen pode ser dispensada.

    A pea didtica de Baden-Badensobre o acordo

    Das Badener Lchrst iick vorn Einverstindnis

    Escrito em 1929E"'. ""8 7 19')9 em Baden-Badcnstrera: s: (. .....

    Traduo: Fernando Peixoto

  • C ola boradores: S. Dudow, E. HaUptn1ann

    PERSONAGENS:O AVIADOROs TRS MEC~NICOSO LDER DO C O RO ( C H A NTRE)O NARRADORTRS PALHAOSo CORO

  • .. w.u.w ~

    191

    DO v oQUATRO i\.VIADORES rernpo ern que a

    manidadeComeava a se conhecer,Ns construmos avies,Com macieira, ferro e vidro,E atravessamos os ares voando;Por sinal, com uma velocidadeSuperiorenl mais do dobro do furaco.E na verdade nossos motores eramMais fortes que cem cavalos,masMenores que cada um deles.Durante mil anos tudo caiu de cima para baixo,Com exceo dos pssaros.Nem mesmo nas mais anrigas pedrasEncontramos qualquer testemunhoDe que algum homemTenha atravessado os ares voando.?vlas ns 110S erguemos.Prximo ao fim do segundo milnio de nossa eraErgueu-se nossaIngenuidade de a(),

    fundo de um estrado, cujo tamanho depende do nmeroparticijJanfes, cstd o Coro. Li esquerda, a orquestra; iim-

    111 esquerda, em, prinleiro Plt:U10, uma mesa, na qua] estoo regente dos msicos c dos cantores, o Lder do

    (cban Ire) e o Narrador. ()s canlores que in tcrp reIamQuatro itt'iadores Acidentados esto sentados nu m bancoescola, no primeiro plano ti direita. Para maior clareza de

    possiue] colocar, no estrado ou ao lado deste, os es-de li m avio.

  • iVIost rando o que possi velSem nos deix ar esq uece r:O q ue ainda no foi alc an ado .

    2

    A Q UEDA

    O LDER DO C ORO [ala aos Aciden tados - No voemagora ,J no ne cessri o que se tornem m ais velozes.O nvel do soloPara vocs, agora , sufic ienternen te ~1 1 to.BastaQ u e permaneam im veis,No m ais em cim a, sobre ns,No mais longe, a nossa f ren te ,No mais em sua carreira ,1-1a5 sim imveis,Digam-nos qu em so.

    Os AVIADORES ACIDENTADOS respondem - Ns p art ic ipamosdos t rabalhos dos nossos cam aradas.Nossos avies se t ornaram melhores,'Voam os cada vez m ais alto,O mar foi ven cido,E eis que as m ontanhas j fi caram ba ix as.Fomos dominados pela febreD o petrleo e da construo de c idades.Nossos pensamentos eram mquin as eLuta pela velocidade.Com a luta esqu ecemosO nosso nome e o n osso rosto,E com a pressa da partidaEsquec emos o objetiv o de nossa pa rt ida.Mas n s lhes im plo ra mos

    !92

    Que ve nham ao n osso encon t ro cQ u e nos dem gua) .E um travesseiro p ara apo iarmos nossa cabea)E que nos aj u de m , poisN 5.0 queremos morrer.

    o CORO dirigindo-se A'fultidio - Escutem: quat rohom ensPedem seu socor ro.ElesVoar am atravs dos ares eCa ram ao solo eNo querem morrer,Por isso pedem() seu socorro.Aqui ternosUm clice com gua cU Dl t ravesseiro,Mas digam-nosSe devemos ou no ajud -los.

    A l\1uLT1D.~O responde ao C oro - Sin1.O CORO yf ul tido - Ele s os a juda ran1?A Ivlu LT ID..O _ . N o.( ) NAR RADOR diri gindo-se lvfultido - Sob re est es co rpos,

    que j se esf ria m, investigaremos se o homem cos t urnaaj udar o ho mem.

    3

    IN Q URITO S PA R A SA BER SE O HO:vI EM AJ U DA O I,,{Oi\EM

    Primeiro Inqu rit o,O LDER DO CORO se adian ta - U n1 de n s atravessou o mar e

    Descobriu um novo contine nte.Mas m u itos depo is dele

    19 3

    ::::~: _ _ _ _ _ _ _ ~ ,. ""' ,.diJ .

  • L coris t rui ram grandes cidades comMuito esforo e intelignc ia.

    () CORO retruca - Nem por isso o po ficou mais barato.O L DER DO CORO - Um de ns construi u U111;} m quin .,

    Cujo v apor ac iona urna roda, e essa f o i.A. rne de muitas outras mquinas.Mas muitos trabalham nelasTodos os d ias.

    () CORO retruca - Nenl por isso o po ficou mais barato.() LDER DO C ORO - Muitos de ns med ir a rarn

    Sobre o rno v irnen t o d a T er ra ao redo r do SoL so breO int im o do hom em , as leisG er ais, a com posi o do ar,E so bre os peixes a b issais.E descobrirarnGrandes coisas.

    ( ) CORO retrllca- Nenl por isso o po fic ou rna is bar ato.Pelo contrrio,A m is r ia aumen tou em nossas cidades,E j h muito tempoNingum mais sabe o que u m horne rn .Por exemplo: enquanto vocs voavarn, rastejavaPelo cho algo semelhante a vocs ,No como UOl homem!

    O LDER DO C ORO dirigindo-se lVI ultid o - En r o , o ho-rnem ajuda o homem?

    A M u LTID.~O rcsbonde - N o.

    Segundo Luqucrito.

    O LDER DO CORO dirigindo-se fyf lllti do - ObSerVClTI estasimagens e depois digamQue o homem ajuda o hornern!

    194

    A presen tam-se i.in te fotog rafias que mostram corno, em nossapoctl, os hom ens so m assac rados pelos bo m eu s.

    A !v1ULTID.~O grita - O homem n o ajuda o hornern!

    T erceiro l nq ur r ito.

    O LDE R DO CORO dirigin do- se a l\:fult du - O bservem onosso n rn ero d e palhaos, no qualHomens ajudam uni homem!

    Tr s palhaos de circo sobem ao estrado; u m dele,:, cha madoSr. Scbmitt , um gigan te . Eles falam em UOZ lJlu!fo alta.PRtM E IRO - U rna bela noite esta, 11.10 Sr . Sc h rn itt ?SEGUNDO - O que o senhor d iz da noite, senhor Schm itt ?SR. SCH~lITT - No acho bo n it a.PRI~IEIRO - O senhor no quer se sentar, senhor Schrnit t ?SEGUNDO - Aqui est urna cadeira , sen h o r Schrn itr. Po r que

    o senhor no respon de ?PRIM EIRO - Voc no est vendo ? O senhor Sc h mi tr q uer

    f ic ar o lh a ndo a lua.SEGU N DO - Me diz UlTIa co isa. Por q ue q U voc est sem -

    pre puxando o sa co do Sr. Schmitt? Isso incornodu o se-nhor Schmitt.PRI~fEIRO - Porque o senhor Schmitt muito fo r te . por

    isso que eu fico puxando o sac o dele.SEGUNDO - Eu tamb m.PRIMEIRO - Pea ao senhor Schrnitt para que se sente aqui

    conosco.

    SR. SCHMITT - Eu no me sinto bem hoje.PRIMEIRO - Ento o senhor t ern que se d istrair. sen ho r

    Schrnitt.SR. SCHMITT - Eu acho que eu no posso mais me distrair.

    Pausa.

    195

    --------------_........--_._ -, . ~.;;;.;

  • C orn o que est a minha cara?PRI MEIRO - R osada, sen ho r Schmitr, sem pre rosada.SR. SCHMITT - Olhem, pois eu pensei que estava plido.PRIMEIRO - Isso cur ioso. O sen h o r di z que pensou

    est av a p l ido? Olhando para o senhor ag ora, no possonegar que eu tamb m acho que o senhor est comrosto plido.

    S EG UNDO - J que o senhor est assim, sen ho r .Sc hrni rr , sefosse o sen h or, eu m e sen t av a.

    SR. SCH MITT - H oje cu no quero me sentar.PRL\'1EIRO - N o, no. N o sen t e, de maneira

    mel hor fic ar de p.SR. S CH:\UTT - Por que voc ac h a q u e eu de vo fi car de p?P RIM EIRO parti o Segundo - H o je ele n o pode se sen t ar,

    porque seno ele capaz de n o conseguir se levantarnunca mais.

    SR. S CHMITT - Meu Deus!PRI:iVfEIRO - Ouviu ? Ele m esmo j est en t endendo. Por isso

    o sr . Schmitt prefere fi c ar d e p .S R . SCH~nTT - Sabe, eu acho q ue o meu p esquerdo est me

    doendo um pouco.PRIM EIRO - Di muito?SR. SCH~fITT com dor - Con10?PRIN!EIRO - Di muito?SR. SCHMITT - Sim, di bastante. , .SEGUNDO - de ficar em p.SR. SCH~MITT - Bem, ser que eu devo nle sentar?PRI:\IEIRO - No, de jeito nenhum. Isso ns ternos que evitar.S EGUNDO - Se o seu p esque rdo est doendo, s tem um

    rem dio: fora com o p esquerdo.PRI1\lEIRO - E quanto mais rpido, melhor.SR. SCHMITT - Bem, se vocs acham. . ,SEGUNDO - Claro.

    196

    Serram-lh e () jJ esq uerd o.SR. S CH i\lIT T - U rna beng,tla, por favor.

    Do a ele um" beugalc1 .PRIMEIRO - E ago ra, est conseg u in do fica r de p, senhor

    Schmitt?SR. ScHMtTT - Sim, do lado esquerd,o. tvlas vo~e s tm que

    me d evolver o p. Eu no gos t ar ia de perd e- lo .PRI!'t-1EIRO - Pois no , se o senhor no con f ia, . .SEGU NDO - A gen te tambm podi a ir anda ndo. ' .SR. S CH i\HTT - N o , n o . .A go ra vocs t m que ficar aqui ,

    por q ue eu n o posso m ais andar sozinho.PRIM EIRO - Aqu i est o p.

    O senhor Scb mit t segura o p debaixo do b rao.SR. SCH i\-H TT --Ago ra, a m inha bengala caiu .S E GU N DO - Em cornpcnsa o, o senhor j t em o seu p de

    vo lta .

    O s dois riem ruidosamen te.SR. S CH MIT T - Ago r a cu n o posso fi car de p m esm o. E

    claro q ue agora a outra per n a tambm comea a doer.PRIMEIRO - Sen1 dvida .SR. SCHMITT - Eu no queria in cornod ar vocs mais do ~ue

    o necessrio, mas sem a bengala eu no posso me a r ran ja r .SEGUNDO - En1 vez de pega rrnos a bengala , far i arnos melhor

    ern serrar a o u t ra perna, que lhe di tanto.SR. SCHMITr - . Talvez melhore assim.Serram a outra perna. () sen ho r Scbmit t ca .SR. S CHMITT - Agora eu no consigo m ais me levantar.PRIMEIRO - Is so horrvel. E erajustarnente isso que ns

    quer iarnos evitar: que o senhor se sen t asse.SR . SCHMITT - ( ) qu?

    19 7

    _____________."";...-:>M

  • SEGlJ NDO - O senhor no corisegue 1.... mais se evanrar. senho' r

    Schrnitr.SR. SCHMITT-No me digam [SSO. is . i"

    < ",. so nle (OI.SEGUNDO - () que qur e'l' ,- d . cl'e nao evo mais . izer?SR. SCHl\HTT - Isso, , .SEGUNDO -- Que o senl . -~ . , .10r nao consegue 111alS se lcvan tar?SR. SCHMrrT - Voc n o pode caiar a boca?SEGUNDO _. No senhor S hmi '1

    , " . c 1mltt, 1V as eu posso desatarraxar,1 s~a orelha esqu~rda, para que assim o senhor no meOU.l quando eu disser que o senhor no consegue se Ic,_vanrar. c

    SR, SCHMITT - talvez seja melhor,Eles desatarra.'anz sita orelha esquerda.SR, SCH,MITT bara f) Primeiro .'.\ . '

    f ',' - [ ..gora eu 50 posso escutarvoce, () Segundo passa turra o outro lado. Por frvo 'orelha! Furioso. E por favor me dem tarnb '. r,.ld . ' .'....

  • 201

    %

    5

    A DELIBERi\f\OO AVIADOR ACIDENTADO - C amaradas . nos

    Vamos morrer.

    A RECUSA DA AJ UDA

    O CORO - Quer d izer ento que eles no devem ser ajudados .Rasgaremos o travesseiro cJogaren10s fora a gua.

    O Narrador rasga () tra vesseiro e joga fora a gua.A N1\.JLTID .~O l para si mesmo - Cerranlentevocs j obser-

    varamA a juda em m ais de um lugar,Sob diferentes formas. G erada por urn est ado de COisasQue ainda no consegu ilnos dispensar :A violncia.C ontudo, ns os aconselhamos a enfren t arA cruel realidadeCom urna crueldade ainda m aior. E ,Abandonando o estado de coisas que gera a necessid ade ,Abandonen1 a necessidade. PortantoNo contem com ajuda:Recusar a ajuda supe a violncia.Obter ajuda tambm supe a vio lncia.Enquanto a v iolnc ia impera, a ajuda,poder~ ser re~usad ..':Quando no mais imperar a viol ncia, a ajuda n ao maisser Necessria.Por isso, em vez de reclamar ajuda, preCISO abolir aviolncia.Ajuda e violncia constituem um todo ,E este todo que preciso rrnnsformar.

    4SEGlJN DO - Ento ponha o chapu. Grita. Ponha OSR . SClr ~nTT - N o co nsigo peg-lo.SEGUNDO - O senhor quer a bengala?SR. SCIL\HTT- Sim, por favor. Tenta pescar () clu/Ju com

    a bengala. Agora, a bengala c aiu e eu no consigo alcan-ar o chapu. Estou sen t indo muito frio.

    SEGUNDO - E se ns de satarrax ssemos a cabea?SR. S CH MITT- Bem, eu no sei . ..PRI MEIRO -.- C la ro . ..SR. SC H .\'1 1Tr - Realmen te, e u j n o sei m ais nada.SEG UNDO - Por isso l11e5n10.

    Desatarrax am-lbe a cabea . () sen hor Scbmit.t cai de cosias.SR. SH MITT - Es pere m ! Un1 de voc s prec isa pr a m o na

    minha t est a.PRIM EIRO .- Onde?SEGU NDO .- Um de vocs preci sa segurar minha m o.PRl.\1EIRO - Oride?SEGUNDO - O senho r ago ra se sente m ais aliv iado, senhor

    Schmitt?SR. SHMITT - N o. () problema que cu est ou deit ad o de

    costas sobre uma pedra.SEGUNDO - Ora, senhor Schrnit t , t ambm n o se pode ter

    tudo.

    Os dois riem ruidosamente , Fim do nmero dos palhao s.A I\1 ULTID.~O grita - O homem no ajuda o homem.O LDER DO CORO - DeVClTIOS rasgar o travesseiro?A Mur,TID.:\O - Sim.O LDER DO CORO - Devemos jogar fora a gua?A lvfuLTID.:\O - Sim.

    200

    .....~~~.;;.;...----------------------------- ---_._._- --

  • O s TRs iv1ECN ICOS A C ID E N TADOS - N s sabemos que Va- .mos morrer , ma s

    E voc, sabe?Oua, ento:Voc morrer de qualquer Jeit o.Sua vida arrancada .Seu mrito apagado.Voc morrer por si mesmo.Ningum olhar para voc.Finalmente, voc morrer .E assim tambm ns morreremos.

    6

    CON T EMPL A AO DOS MO RTOSO NARRADOR - Contemplern os m orros!

    lYfostram-se dez grandes fotografias de mor tos. Logo depois,diz o Narrador: "Segunda Conlempla o dos Nfo rfos" , 1110 5-tram-se mais uma v ez as mesmas fotografias.Depois de terem contemplado os mortos) os Acidentados co-meam a gritar:OS ACIDENTADOS -Ns no podemos morrer!

    7

    LEITURA DOS COMENTRIOSO CORO dirigindo- se aos A ciden tados - No podemos aju-

    d-los,Apenas urna indicao,A penas uma atitude,Podemos lhes dar.Morram, mas aprendam.Aprendam, mas no aprendam errado,

    202

    O s A C IDE N T A DOS - No nos resta mu ito tempo,N o pode mos ap render m ui to m ais.

    O CORO - Se vo cs t m pouco tem PO,T rn tempo o su fic iente,Porque f c il ap render o certo.

    O N arrado r destaca -se do Co ro co m u m liiro. /v proxima-sedos A cide n tados, sell t a-se c l trechos do comen t rio.O NARRADOR - 1. Quem arranca algo, seg ur ar algo. E a

    quem algo arrancado, tambm ele o seg urar. E quemsegu ra algo, de le algo ser arrancado.Aquele de n s que 1110 1're , abandona o q u ? N Cio abando-n a apenas a su a mesa ou a sua ca ma! A q uele d e ns quemorre, tambm sabe : aba ndono t udo () que exi ste e do umais do que tenho. Aquele de ns q ue morre, abandonaa ru a que conhece e tambm a q ue no conhece . As r i-quezas que possui c t amb m as que no possu . A pr-pria m isria. .A. su a prpria m o. Corno en to, quem noest iver exerc it ado nisso, poder lev anta r U111:l pedra?Con10 poder levanta r urna grande pedra ? Corno, quemno est iver exercitado no abandono} abando nar a suamesa? Ou como abandonar tudo aqu ilo que possu ct ambm o que n o possui? A rua que conhece e ta m -bm a que no conhece ? As riquezas que possui e t arn -b rn as que no possui? A prpria misria? A sua p r-pria mo?2. Quando o Pensador se viu numa violenta tempest ade,estava sentado num grande veculo e ocupava muito es-pao. A primeira co isa que fez foi sair do veculo, asegunda fo i tirar seu ca sac o, a terceira foi deit ar-se nocho. Assim ele venceu a tempestade reduzido sua n1C-nor dimenso.

    Os A CIDENTADOS perguntam ao Narrador - E assim ele so-breviveu tempestade?

    O N ARRADOR - Reduzido sua menor dimenso, ele sobre-viveu tempestade.

    20 3

    -----------------------..:;...~~

  • ( ) s ""t\C IDE N T A DO S - Reduzido su a me nor di m ens o, elebreviveu te mpestade.

    O N ARRADOR - 3. Para aju d ar UITl homem a acei tar ao Pensador interv enien t e ped iu-lhe que se despoj assetodos os seus bens. D epois de ter aband onado tudoh

    r ,

    ornem 50 rest ava a v ida. Abandona m ais uma coi sa, dis-se- lh e o Pensador.4. Se o .Pensador ven ce u a tempest ade, ve n ceu -a porque conhecia a tempestade e estava de ac ordo com a tem-pes t ade' .Portan t o, se quiserem su pe rar a m orte, pre-ciso conhecer a m orte e est ar de acordo com a morte.Mas aquele que p rocura o acordo de ve r pref e rir apobreza. No deve estar p reso s coisas! A s coisas podemser ti r adas e a no h aver acordo. T arnb m no deveestar preso vida! A v id a pode ser tirada e a no h averaco rdo. T ambm no deve estar preso aos p ensam entos,porq ue tambm os pensamentos poder o ser tirados e atamb m no haver acordo.

    8

    o EXA M.E

    o C oro exam ina os Acide n tados em, presen a da i\1u ltid o.

    1O CORO - A que altura voaram?Os TRS .i\fECNICOS ACIDENTADOS - Voamos a urna altura

    extraordinria.O CORO - l\. que altura voaram?Os TRS ~1ECNICOS ACIDENTADOS - Subimos a quatro mil

    metros de altura.O CORO - A. que altura voaram?O s TRS MECNICOS ACIDENTADOS - Voamos a uma grande

    altura considervel.

    204

    o C O RO - A q ue altu r a voa rarn ?Os TRS :NIECi\N ICOS .l\ C IDE N T ADO S - E rguemo-nos UlTI pou -

    co ac ima do solo.O LDER DO CORO dirigindo-se ti Nful tid o - Eles se erg ue-

    ram U111 pouco ac irna do solo .O AVIADO R A C IDE N T ADO - Eu voei a \H11a altura extraord i-

    n ria.O CORO - E ele voou a urna altu ra ex t rao rdi n ria.

    2O C ORO - Foram en altec idos?O s TRs !'v1ECNfCOS A C JDENT:\DOS - N o f omos enaltecidos

    ti suficien te . .O C ORO - Fo ram enaltecidos?O s ~rRS :NIEC1\NICOS ACIDENTADOS - Fornos enaltec ido s.O C ORO - Foram enaltecidos?Os TR.s lVIEC.~NICOS A CI DEN T ADO S - Fon10S suf icenten1en -

    te en alt eci dos.O C O RO - Foram enaltecidos?Os TRS lvfEc. N IC05 ACIDENT/\DOS - Fornos muit issirno

    enaltecid os.O LDER DO CORO par ti Nfultido - Eles foram rnui t issimo

    enal tecidos.OAVI ADOR ACIDEN T A DO - Eu no f ui su fi ci en te men te enal -

    tecido.O CORO - E ele no fo i su f icie n te men te en'lltecido.

    3() CORO - Quem so voc s ?Os 'T RS 1tlECNICOS A CIDEN TADOS - Sor110 5 os q ue sobre-

    voaram o oceano.

    O CORO - Quem so vocs?Os TRS~'1EC~~NICOS ACIDENTADOS - 5 0 n105 algu n s de voc s.() C O RO - Quetn so vo cs?

    ---------~.." .. ..-

  • O s TRES lvlEC..\NICOS A CIDENTADOS - N o somos ningu 'O LDER DO CORO para a l-r'!ulfido - Eles no so ningutil.O 1\ VIADOR l \ C IOE N T Ano - Eu sou Charles N ungesser. '() CORO - E ele CharlesN ungesser,

    4

    O CORO - Quem os espera?Os TRSl\lEC~NICOS ACIDENTADOS

    alm-mar.a CORO - Quem os esp era?Os TR S !vlECNlcosAcIDENTADOS - Nosso pai e nossa me

    nos esperam .() CORO - Quem os esp era?Os TRS l\'fEC NlCOS A CIDENTADOS - Ningum n os espera.O L DE R DO CORO irara ti i\tf u l fido - N ingum os espera.

    () CORO - Ento quem rn o r rer , se vocs morrerem ?Os Tn s 1\tfECNICOS A CIDENTADOS - Aqueles que

    enaltecidos demais.O CORO - Ento quem morrer, se vocs morrerem?Os TRS 1vlEcNlCos ACIDENTADOS - Aqueles que se ergue-

    ram um pouco acima do solo.e) CORO - Ento quem morrer, se vocs morrerem?Os TRs :NfECNICOS ACU)ENTADOS - Aqueles que ningum

    espera.

    O CORO - Ento quern morrer, se vocs rnor re rern?Os TRs 1vfECNICOS A CIDENTADOS - Ningu m.O CORO - Agora sabeis:

    NingumMorrer, se vocs morrerem.Agora eles atingiramSua menor dimenso.

    206

    o AVIADOR ACIDENTADO - NL1S eu. corn m eu vo ,Atingi minha maior dimens o .To alto quanto eu voei .Ningum voou.Eu no fui enaltec ido o bastante, euNo poderei ser enaltecido o bastante.No voei por nada nem por ningum.Voei por voar.Ningum me espera, euNo vo em sua direo, euVo para me afastar de vocs, eujamais morrerei.

    9

    ENALTECI MENTO E DESAPROPRIAOo Coao - Agora, mostrem

    O resultado de seu esforo.Pois sO resultado real.Entreguem, portanto, o motor,As asas e o trem de aterrissagern. TudoO que lhe permitiu voar, tudoO que construram.Abandonem- no!

    O AVIADOR ACIDENTADO Eu no o abandono.O que O avio sem o aviador?

    O LDER DO CORO - Tomem-no!

    O avio tirado dos Acidentados e le uad o para o outro cantodo estrado.O CORO, durante a desapropriao, enaltecc os il cidentados -

    Levantem-se, aviadores. Vocs transformaram as leis daT erra.

    207

  • iDurante mi l anos, tudo caiu de cirn b .a para aixo ,C om exceo dos pssaros.Nem mesmo nas mais antigas pedrasEn conr ram os qualquer testemunhoIDe que algum homemTenha atravessado os ares voando.Mas vocs se ergueramPrximo ao fim do segundo milnio de nossa era.

    Os 'r RF.:S ~IE~: ..\NICOS . A CIDENTADOS subitamen te apontampar o Aviador Acidentado - O que isso, olhem!

    O LDER DO CORO rapidatn ente para o Coro - Entoem o "To,t alrn ente irreconhc c iv el".

    O C ORO cercando o Auiador Acidellt,ulo - >T'o ( a l nH~ n te irre -conhecve1Est agora o seu rosto,Gerado entre ele e ns. Poi sAquele que de ns precisouE de quem ns necessitamos, esse alg unlFoi ele.

    O LDER DO CORO - Este homemTinha um cargoMesmo que usurpado.Arrancou de ns o que precisou eNos negou o que necessitvamos.Por isso seu rostoSe extingue com seu cargo :Ele s tinha um!

    Quatro participantes do Coro discutem por cima dele .PRIMEIRO - Se que ele existiu ...SEGUNDO - Existiu.PR1MEIRO - Ele era o qu?SEGUNDO - No era nirrgu rn.TERCEIRO - Se que ele era algum . ..QUARTO - No era ningum.

    208

    . . " 1 ";)t ER CEIRO - Como se t az ia para ve- o.Q UART O - Dando-lhe um a oc u pa o .OS QU ATRO - Quando ele cha mado, ele na sce .

    Quando ele transformado, ele exi ste .Quem precisa dele , o co nhece .A quem ele til , o engrandece.

    SEGUNDO - E apesar disso ele no ningun1.O CORO junto com a Nfultido - Aquilo que aq u i Jaz sem

    cargoNo mais humano.Morra agora~ voc no-mais-humano!

    O AVIA DOR AcrDE NT ADO - E u no posso morrer .O s TRS tvl EC N ICO S ACIDE N TADOS - Voc se afastou do

    curso das g uas, homem.Voc no esteve no curso das guas, ho memVoc muito grande, voc" m u it o rico.Voc singula r demais.Por isso no pode morre r.

    O CORO - MasQuem no pode morrerTambm morre.Quem no sabe nadarTambm nada.

    10

    A EXPULSOUm de ns,Com rosto, figura e pensamento ,Perfeitamente igual a ns,Deve nOS deixar. Porque durante a noite passad aFoi marcado e,Desde hoje de manh, seu hlito est podre.Seu corpo se decompe. Seu rosto,

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  • HQ ue ~os e.rJ

    1fJml1iar, j se torna desconhecido

    on1em f a e~o ' .' E ." ' l: nasco, sperarnos

    Sua v.?z no lugar de sempre, Fale!Ele nao fala. Sua vozN.To sai. No tenha med ' ' , hA .. . o agora, ornem. Por rn,

    N~oralhvoc deve partir. V logo!1 ao o e para trs, vPara longe de ns.

    O cantor que interpreta o 1 dAuia or deixa o estrado.

    11

    o ACORDO

    O CORO dirisindo 1~ " M "" .'\ -se aos . reS 1 ecnicos A .id > , . 1 , ,voces q - d cu f ntados - Mas, _ ' ue estao e acordo COm o curso d "' ,, ,Nao voltem . Ih , ~ as COIsas," _ . .1 mergu ar no Nada.N ao se deixem dissolver como ' I

    , . o sa na gua Orra rro, ' - . O con-Ergam-se,Morram sua morte cornoTm realizado seu trabalhoRevolucionando uma revol~o.Morrendo, no se preocupem comA morte.Mas recebam de ns a tarefaDe reconstrur nosso avio.Comecem!A fim de VOarem para ns,~onde precisarmos de vocsE no momento t~ . .N

    ' em que . or necessa no. Poisos os

    Exortamos a marchar con ~ E"T . asco. ,conosco,ransformar no somente

    Um~ das leis da Terra, mas simA lei fundamental:

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    De acordo com a qual tudo sera transforn1 ,1(.1 C) ~O mundo e a hun1anidade ,Antes de tudo a desordemDas classes sociais; pois a hunlanidade se divide em duas:Explorao c ignorncia.

    ()s TRsNIEcNicos ACiDENTADOS - Estamos de .icordocorn a transformao.

    O CORO - E lhes pedimos:Transfonnen1 nosso motor e aperfeioern-no ,Faam aumentar a segurana e a velocidade,Mas no esqueam o objetivo na pressa da partida .

    Os TRS 1Y1ECNICOS ACiDENTADOS - Aperfeioarcrnos omotor, a segurana eA velocidade.

    O CORO - Ahandonen1 isso tudo!O LDER DO CORO - Avante!O CORO - Quando tiverem melhorado o Inundo,

    1Y1elhorem, ento, Inundo melhorado.A bandonem-no l

    O LDER 00 CORO - Avante!() CORO - Quando, ao melhorar mundo, tiverem comple-

    tado a verdade,Completem, ento, a verdade con1plecHb.Abandonem-na!

    O LDER DO CORO - Avante!O CORO - Quando, ao corn pletar a verdade, tiverem t rans-

    fonnado a humanidade,Transformem, en t o, a humanidade rr.msforrnada .,A bandonen1- n a!

    O LDER DO CORO - Avante!O CORO - Transformando o Inundo, transfOr01CI11-se!

    Abandonem a si mesmos!O LDER DO CORO - Avante!

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