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Departamento de Engenharia Civil CARACTERIZAÇÃO DE EDIFÍCIOS ANTIGOS. EDIFÍCIOS “GAIOLEIROS” Hugo Miguel Castro Andrade Dissertação para obtenção do grau de Mestre em Engenharia Civil – Reabilitação de Edifícios Orientador Científico: Professor Doutor Fernando F.S. Pinho Co-orientador Científico: Professor Doutor Válter José da Guia Lúcio Júri Presidente: Professor Doutor João Rocha de Almeida Vogal: Professor Doutor Luís Canhoto Neves Março de 2011

CARACTERIZAÇÃO DE EDIFÍCIOS ANTIGOS. EDIFÍCIOS

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  • Departamento de Engenharia Civil

    CARACTERIZAO DE EDIFCIOS ANTIGOS. EDIFCIOS GAIOLEIROS

    Hugo Miguel Castro Andrade

    Dissertao para obteno do grau de Mestre em Engenharia Civil Reabilitao de Edifcios

    Orientador Cientfico: Professor Doutor Fernando F.S. Pinho

    Co-orientador Cientfico: Professor Doutor Vlter Jos da Guia Lcio

    Jri

    Presidente: Professor Doutor Joo Rocha de Almeida

    Vogal: Professor Doutor Lus Canhoto Neves

    Maro de 2011

  • AGRADECIMENTOS

    Gostaria de agradecer a todos os que contriburam para o desenvolvimento deste trabalho, em

    particular:

    Ao Professor Fernando Farinha da Silva Pinho, meu Orientador Cientfico, e ao Professor

    Vlter Jos da Guia Lcio, meu Co-orientador Cientfico, pela disponibilidade, orientao,

    apoio e incentivo ao longo deste trabalho, assim como todos os conselhos e ensinamentos

    partilhados.

    minha Famlia pelo apoio incondicional, confiana e grande amizade. Ao meu Pai e

    Daniela pela leitura e ajuda na correco do texto.

    Ao Engenheiro Bruno Pinto, Arquitecto David Santos e ao Sr. Clber pela possibilidade de

    realizao e explicaes nas visitas aos edifcios Gaioleiros em reabilitao.

    Aos meus colegas e amigos, Lus Barroso e Pedro Lagartixo parceiros durante grande parte do

    trabalho. Ao Fbio Valrio pelo companheirismo e a ajuda prestada na fase final do trabalho.

    Ao Centro de Informao Urbana de Lisboa pela disponibilizao de bibliografia e ao

    Arquivo Fotogrfico de Lisboa pela possibilidade de recolha de imagens.

    Empresa Pblica de Urbanizao de Lisboa, na pessoa da Dra. Maria Barros pela preciosa

    ajuda e disponibilidade para a realizao dos ensaios de macacos planos e ainda ao Arquitecto

    Joo Rego e ao Engenheiro Fernando Salgueiro que apoiaram essa realizao.

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    I

    Caracterizao de Edifcios Antigos.

    Edifcios Gaioleiros

    RESUMO

    Os edifcios Gaioleiros so uma tipologia construtiva caracterstica da expanso urbana de

    Lisboa ocorrida no ltimo quartel do sculo XIX e incio do sculo XX. Devido especulao

    imobiliria que ento se desencadeou, houve pouco cuidado na qualidade dos materiais e nas

    tcnicas construtivas adoptadas na construo destes edifcios, conferindo-lhes uma qualidade

    construtiva reduzida.

    Actualmente, os Gaioleiros ainda representam grande parte do parque edificado da cidade

    de Lisboa e, por conseguinte, fazem parte de um patrimnio que importante preservar. No

    entanto grande parte destas construes encontra-se em avanado estado de degradao e

    outras, apesar de aparentarem um bom estado de conservao, mantm a sua debilidade

    estrutural ou apresentam uma resistncia mais reduzida por terem sido alvo de inadequadas

    intervenes estruturais ao longo da sua vida.

    Nos ltimos anos, tem-se assistido a uma crescente preocupao em conservar e reabilitar

    esses edifcios como modo de preservar o patrimnio arquitectnico. Dessa forma a eficcia

    de intervenes de reabilitao nestas construes depender do conhecimento existente sobre

    esta tipologia de edifcios.

    Na caracterizao desta tipologia construtiva estudaram-se ao pormenor as caractersticas de

    concepo destes edifcios, verificando-se que existe grande homogeneidade em termos

    fsicos e construtivos. Foram consultados estudos realizados sobre este tema, com o intuito de

    se identificarem as tcnicas construtivas, as propriedades dos materiais e o seu

    comportamento estrutural. A pesquisa bibliogrfica foi complementada com observao de

    edifcios Gaioleiros existentes na cidade de Lisboa.

    Atravs deste estudo pretende-se obter uma descrio especfica das caractersticas desta

    tipologia construtiva que possa auxiliar as intervenes a realizar nestes edifcios.

    Palavras-chave: Edifcios antigos; Edifcios Gaioleiros; Caracterizao; Macacos planos

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    II

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    III

    Characterization of Ancient Buildings.

    Gaioleiro Buildings

    ABSTRACT

    The Gaioleiro" buildings are a typical constructive typology of the urban expansion that

    occurred in Lisbon in the last quarter of the nineteenth century and early twentieth century.

    Due to the speculation that was then unleashed, there was little care on the quality of materials

    and techniques adopted in the construction of these buildings, which resulted on a poor

    constructive quality.

    Currently, "Gaioleiro" buildings represent a great part of Lisbon buildings and they are part of

    a heritage which should be preserved. However most of these buildings are now in an

    advanced state of deterioration. Others appear to be in good condition but still maintain

    structural weakness or deficient resistance due to inadequate structural intervention

    throughout their life.

    In the last few years there has been an increasing concern to conserve and rehabilitate these

    buildings with the purpose to preserve architectural heritage. The effectiveness of

    rehabilitation interventions depends on the existing knowledge about this building typology.

    In the characterization study of this constructive typology, it was given attention to

    conception details and it was verified that there is great homogeneity in physical and

    constructive solutions. Several studies have been consulted on this issue in order to identify

    the construction techniques, material properties and structural behavior. The literature review

    was complemented by the observation of "Gaioleiro" buildings in the city of Lisbon.

    The purpose of this study is to obtain a specific description of the characteristics of this

    building typology that might help in future interventions in these buildings.

    Keywords: Ancient buildings, Gaioleiro buildings, Characterization, flat-jack method

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    IV

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    V

    SIMBOLOGIA

    Siglas

    AFL Arquivo Fotogrfico de Lisboa

    AML Arquivo Municipal de Lisboa

    ASTM American Society for Testing and Materials

    CML Cmara Municipal de Lisboa

    EPUL Empresa Pblica de Urbanizao de Lisboa

    FCT Faculdade de Cincias e Tecnologia

    GECoRPA Grmio das Empresas de Conservao e Restauro do Patrimnio Arquitectnico

    GPLR Gabinete Portugus de Leitura do Recife

    ICSUL Instituto de Cincias Socias da Universidade de Lisboa

    INE Instituto Nacional de Estatstica

    IST Instituto Superior Tcnico

    LNEC Laboratrio Nacional de Engenharia Civil

    MC Museu da Cidade

    RILEM Runion Internationale des Laboratoires et Experts des Matriaux, systmes de

    construction et ouvrages

    RSEU Regulamento de Salubridade das Edificaes Urbanas

    SPES Sociedade Portuguesa de Engenharia Ssmica

    Notaes escalares latinas

    A rea

    E Mdulo de Deformabilidade

    P Presso

    Q Carga

    SC Sobrecarga

    Tenso

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    VI

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    VII

    NDICE DO TEXTO

    CAPTULO I - INTRODUO

    1.1 Consideraes Iniciais ................................................................................................. 1

    1.2 Objectivos .................................................................................................................... 2

    1.3 Estrutura da dissertao ............................................................................................... 2

    CAPTULO II EDIFCIOS ANTIGOS. ENQUADRAMENTO DO TEMA

    2.1 Consideraes Gerais ................................................................................................... 5

    2.2 Evoluo da Estrutura Urbana ..................................................................................... 5

    2.3 Evoluo do Edificado ............................................................................................... 10

    2.3.1 Evoluo das tipologias construtivas em Portugal ............................................. 10

    2.4 Caracterizao Construtiva de Edifcios Antigos ...................................................... 19

    2.4.1 Fundaes ........................................................................................................... 19

    2.4.2 Pavimentos ......................................................................................................... 21

    2.4.3 Paredes ................................................................................................................ 23

    2.4.4 Cobertura ............................................................................................................ 26

    2.4.5 Escadas ............................................................................................................... 28

    2.4.6 Revestimentos e acabamentos ............................................................................ 29

    CAPTULO III - CARACTERIZAO HISTRICA DOS EDIFCIOS GAIOLEIROS"

    3.1 Consideraes Gerais ................................................................................................. 31

    3.2 Expanso urbana da cidade de Lisboa Envolvente Histrica ................................. 31

    3.2.1 O Plano ............................................................................................................... 31

    3.2.2 A Nova malha urbana. Novas avenidas e Bairros residenciais .......................... 32

    3.3 Crescimento Populacional em Lisboa ........................................................................ 42

    3.4 Urbanizao das novas zonas..................................................................................... 45

    3.4.1 Loteamento dos Quarteires ............................................................................... 45

    3.4.2 Edificao dos Bairros ........................................................................................ 47

    3.5 Enquadramento Legal ................................................................................................ 50

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    VIII

    3.5.1 Projecto do edifcio ............................................................................................. 51

    3.5.2 Construtores ........................................................................................................ 52

    3.5.3 Edifcio ................................................................................................................ 53

    CAPTULO IV - CARACTERIZAO GEOGRFICA DOS EDIFCIOS GAIOLEIROS

    4.1 Consideraes Gerais ................................................................................................. 55

    4.2 Localizao da Tipologia Construtiva ........................................................................ 55

    CAPTULO V - CARACTERIZAO CONSTRUTIVA DOS EDIFICIOS GAIOELIROS"

    5.1 Consideraes Gerais ................................................................................................. 61

    5.2 Descrio do edifcio .................................................................................................. 61

    5.2.1 Organizao funcional dos fogos ........................................................................ 62

    5.2.2 Fachada Principal ................................................................................................ 64

    5.2.3 Fachada Tardoz e Empenas ................................................................................. 65

    5.2.4 Zona interior do edifcio ..................................................................................... 66

    5.3 Caracterizao Construtiva dos Elementos Principais ............................................... 66

    5.3.1 Fundaes............................................................................................................ 66

    5.3.2 Paredes ................................................................................................................ 68

    5.3.3 Pavimentos .......................................................................................................... 72

    5.3.4 Estruturas de Cobertura ....................................................................................... 75

    5.3.5 Marquises e Terraos .......................................................................................... 76

    5.3.6 Escadas ................................................................................................................ 78

    5.3.7 Saguo ................................................................................................................. 80

    5.4 Caracterizao dos Revestimentos e Acabamentos .................................................... 81

    5.4.1 Revestimentos exteriores .................................................................................... 81

    5.4.2 Revestimentos interiores ..................................................................................... 82

    5.5 Caracterizao das Instalaes especiais .................................................................... 83

    5.5.1 Esgotos de guas pluviais e domsticas .............................................................. 83

    5.5.2 Elevador .............................................................................................................. 83

    5.6 Resumo da Caracterizao Construtiva ...................................................................... 84

    5.7 Caracterizao do comportamento Ssmico ............................................................... 86

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    IX

    5.7.1 Avaliao da vulnerabilidade ssmica ................................................................ 86

    5.7.2 Vulnerabilidade Ssmica dos edifcios de alvenaria ........................................... 87

    5.7.3 Vulnerabilidade Ssmica de Edifcios Gaioleiros ........................................... 89

    CAPTULO VI - CARACTERIZAO MECNICA DOS EDIFCIOS GAIOLEIROS"

    6.1 Consideraes Gerais ................................................................................................. 93

    6.2 Ensaio de Macacos Planos ......................................................................................... 94

    6.2.1 Ensaio de determinao in-situ do estado de tenso........................................... 94

    6.2.2 Ensaio de determinao das caractersticas de deformabilidade ........................ 96

    6.2.3 Hipteses e condicionantes ................................................................................. 97

    6.2.4 Normas ............................................................................................................... 97

    6.2.5 Equipamento ....................................................................................................... 98

    6.3 Descrio dos Ensaios efectuados ........................................................................... 102

    6.3.1 Estimativa do estado de tenso da parede ........................................................ 104

    6.3.2 Procedimento de ensaio .................................................................................... 107

    6.3.3 Resultados ......................................................................................................... 111

    6.3.4 Limitaes e condicionantes do ensaio realizado ............................................. 113

    6.3.5 Valores de referncia para caracterizao mecnica de paredes de alvenaria de pedra irregular ................................................................................................................. 114

    CAPTULO VII - COMENTRIOS FINAIS, CONCLUSES E DESENVOLVIMENTOS FUTUROS

    7.1 Comentrios finais e concluses .............................................................................. 117

    7.2 Objectivos alcanados .............................................................................................. 118

    7.3 Sugestes para desenvolvimentos futuros ............................................................... 119

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ............................................................................... 121

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    X

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    XI

    NDICE DE FIGURAS

    Figura 2.1 - Estrutura urbana de Lisboa no sculo XVII - Planta de Tinoco, 1650. ................. 6

    Figura 2.2 - Plantas de Lisboa no sculo XVIII e XIX .............................................................. 7

    Figura 2.3 - Lisboa durante a catstrofe 1755 (Gravura alem do sc. XVIII) .......................... 8

    Figura 2.4 - Projecto de reconstruo da Baixa Lisboeta .......................................................... 8

    Figura 2.5 - Planta Geral da Cidade de Lisboa (1903) de Frederico Ressano Garcia ................ 9

    Figura 2.6 - Evoluo das tipologias construtivas em Portugal ............................................... 12

    Figura 2.7 - Edifcio anterior ao terramoto de 1755 localizado no Bairro Alto em Lisboa ..... 14

    Figura 2.8 - Modelo esquemtico da gaiola pombalina............................................................ 16

    Figura 2.9 - Edifcio Pombalino localizado em Lisboa. ........................................................... 16

    Figura 2.10 - Edifcio Gaioleiro localizado na Av. da Repblica, em Lisboa.......................... 18

    Figura 2.11 - Representao esquemtica de tipos de fundao .............................................. 21

    Figura 2.12 - Representao esquemtica de estruturas de pavimentos. .................................. 22

    Figura 2.13 Representao esquemtica de pavimento em madeira com o espaamento

    igual espessura das vigas ....................................................................................................... 23

    Figura 2.14 - Representao esquemtica de uma parede de frontal........................................ 24

    Figura 2.15 - Representao esquemtica de uma parede de tabique. ..................................... 26

    Figura 2.16 - Representao esquemtica de uma estrutura de cobertura em madeira ............ 27

    Figura 2.17 - Escadas de edifcio Gaioleiro ............................................................................ 29

    Figura 3.1 - Planta de Lisboa 1863 ........................................................................................... 33

    Figura 3.2 - Projecto da Av. da liberdade, 1879 ....................................................................... 34

    Figura 3.3 - Projectos de construo de novos bairros ............................................................ 35

    Figura 3.4 - Ilustrao e fotografia da Avenida da Liberdade em Lisboa ................................ 36

    Figura 3.5 - Projecto de ligao da Avenida da liberdade ao Campo Grande, de Ressano

    Garcia........................................................................................................................................ 37

    Figura 3.6 - Planta de lotes vendidos e por vender entre a avenida Fontes Pereira de Melo e

    a avenida Ressano Garcia at Praa Mouzinho de Albuquerque, 1902 ................................ 38

    Figura 3.7 - Planta do traado da Av. da Liberdade, Parque da Liberdade, Av. das Picoas

    com ruas adjacentes em 1897 ................................................................................................... 39

    Figura 3.8 - Planta do traado da Avenida dos Anjos (Av. Almirante Reis) ........................... 40

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    XII

    Figura 3.9 - Fotografias e ilustrao da Av. da Repblica e Av. Fontes Pereira de Melo em

    Lisboa ........................................................................................................................................ 41

    Figura 3.10 - Av. Almirante Reis durante o sculo XX ............................................................ 41

    Figura 3.11 - Evoluo da taxa de crescimento populacional em Lisboa entre 1840 e 1930 ... 43

    Figura 3.12 - Evoluo do volume populacional da cidade de Lisboa entre 1864 e 1930 ....... 44

    Figura 3.13 - Evoluo do nmero de licenas de edificao e de prdios construdos na

    cidade de Lisboa........................................................................................................................ 45

    Figura 3.14 Exemplo de loteamento de um quarteiro .......................................................... 46

    Figura 3.15 Moradias construdas at 1930 nas novas zonas de expanso na cidade de

    Lisboa ........................................................................................................................................ 48

    Figura 3.16 - Palacetes construdas at 1930 nas novas zonas de expanso na cidade de

    Lisboa ........................................................................................................................................ 48

    Figura 3.17 - Prdios construdas at 1930 nas novas zonas de expanso na cidade de

    Lisboa ........................................................................................................................................ 49

    Figura 4.1 - Zonas de construo de edificado por poca de construo at 1945 ................... 56

    Figura 4.2 - Localizao das zonas dominantes de cada tipologia de edifcios na cidade de

    Lisboa ........................................................................................................................................ 57

    Figura 4.3 - Edifcios Gaioleiros localizados em Lisboa, no presente .................................. 59

    Figura 5.1 Plantas de edifcios Gaioleiros .......................................................................... 62

    Figura 5.2 Organizao funcional tpica de um edifcio "Gaioleiro" ..................................... 63

    Figura 5.3 Fachadas principais de edifcios Gaioleiros, localizados em Lisboa ................ 64

    Figura 5.4 - Marquises e escadas de servio localizadas na fachada tardoz de edifcios

    Gaioleiros ............................................................................................................................. 65

    Figura 5.5 trio de entrada de edifcios Gaioleiros ........................................................... 66

    Figura 5.6 Carta de tipos de solos do conselho de Lisboa e mapa de localizao de

    edifcios "Gaioleiros" ................................................................................................................ 67

    Figura 5.7 - Fundao de edifcio Gaioleiro em reablitao ................................................. 68

    Figura 5.8 - Tipos de paredes executados num edifcio gaioleiro e transio de espessura de

    parede em altura ........................................................................................................................ 69

    Figura 5.9 - Paredes exteriores de um edifcio gaioleiro, localizado na Av. da Repblica em

    Lisboa ........................................................................................................................................ 70

    Figura 5.10 - Parede de compartimentao em tijolo macio ................................................... 72

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    XIII

    Figura 5.11- Representao esquemtica de sistema de ligao entre pavimento e parede de

    apoio ......................................................................................................................................... 73

    Figura 5.12 - Pavimentos em madeira de edifcio Gaioleiro ................................................ 74

    Figura 5.13 - Tipos de estruturas de cobertura em edifcios Gaioleiros ............................... 75

    Figura 5.14 Representao esquemtica de sistemas de fixao de estruturas de

    cobertura. .................................................................................................................................. 76

    Figura 5.15 Pormenor das abobadilhas de tijolo macico e furado que apoiam em perfis

    metlicos I ................................................................................................................................ 77

    Figura 5.16 Marquises localizadas no tardoz e na empena de edifcios Gaioleiros .......... 78

    Figura 5.17 - Escadas interiores num edifcio Gaioleiro ...................................................... 78

    Figura 5.18 - Escadas de servio localizadas no tardoz de um edifcio Gaioleiro ................ 79

    Figura 5.19 - Sagues central e lateral em edifcios Gaioleiros............................................ 80

    Figura 5.20 - Revestimentos exteriores de edifcios Gaioleiros ........................................... 81

    Figura 5.21 - Tecto de edifcios Gaioleiros pintado e decorado com frisos ......................... 82

    Figura 5.22 - Canalizaes localizadas no saguo do edifcio ................................................. 83

    Figura 5.23 - Sistema de elevador de um edifcio Gaioleiro ................................................ 84

    Figura 5.24 - Rigidez dos pavimentos de madeira no seu plano .............................................. 90

    Figura 5.25 - Carta de vulnerabilidade ssmicados solos do conselho de Lisboa ................... 91

    Figura 6.1 Representao esquemtica das fases do ensaio de macacos planos simples ...... 95

    Figura 6.2 Representao esquemticas das fases do ensaio de determinao das

    caractersticas de deformabilidade............................................................................................ 96

    Figura 6.3 - Diferentes configuraes de macacos planos ....................................................... 98

    Figura 6.4 - Bomba hidrulica utilizada para injeco de presso nos macacos planos ........ 100

    Figura 6.5 - Deflctmetro utilizado para medio de deslocametos..................................... 101

    Figura 6.6 - Equipamento para execuo do rasgo e chapas de enchimento.......................... 101

    Figura 6.7 - Fachada principal e plantas do edifcio da rua dos Cordoeiros da Bica, n. 14 .. 102

    Figura 6.8 - Plantas dos quatro pisos do edifcio .................................................................... 104

    Figura 6.9 - Corte do edifcio com cotas associadas a cada piso............................................ 105

    Figura 6.10 - Fases do procedimento do ensaio simples de macacos planos (1 parte) ......... 105

    Figura 6.11 - Fases do procedimento do ensaio simples de macacos planos (2 parte) ......... 106

    Figura 6.12 - Fases do procedimento do ensaio simples de macacos planos (3 parte) ......... 106

    Figura 6.13 - Fases do procedimento do ensaio simples de macacos planos (4 parte) ......... 107

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    XIV

    Figura 6.14 - Andamento dos deslocamentos relativos entre pontos de referncia por cada

    alinhamento em funo da tenso instalada ............................................................................ 112

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    XV

    NDICE DE TABELAS Tabela 2.1 - Distribuio dos edifcios de Lisboa pelas principais tipologias construtivas ..... 12

    Tabela 3.1 - Nmero de habitantes na cidade de Lisboa entre 1890 e 1930 ............................ 44

    Tabela 4.1 - Evoluo dos efectivos residentes nas 3 zonas urbanas de Lisboa ..................... 56

    Tabela 4.2 - Estado de conservao dos edifcios, segundo a poca de construo em 2001 . 58

    Tabela 5.1 - Resumo da caracterizao dos elementos construtivos dos edifcios

    "Gaioleiros" .............................................................................................................................. 85

    Tabela 5.2 - Classificao de danos em edifcios de alvenaria e classes de vulnerabilidade ... 87

    Tabela 6.1 Valores complementares ao levantamento do edifcio (1 estimativa) .............. 105

    Tabela 6.2 Valores complementares ao levantamento do edifcio (2 estimativa) .............. 106

    Tabela 6.3 Deslocamentos relativos entre pontos dos alinhamentos do ensaio de macacos

    planos simples n. 1 ................................................................................................................ 111

    Tabela 6.4 - Valores de referncia de outros estudos executados em paredes de alvenaria de

    pedra em condies semelhantes ............................................................................................ 115

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    XVI

  • CCaappttuulloo II Introduo

    1

    1. CAPTULO I

    INTRODUO

    1.1 Consideraes Iniciais

    O presente estudo realizado no mbito da Dissertao de Mestrado em Engenharia Civil

    Reabilitao de Edifcios com o tema Caracterizao de edifcios antigos. Edifcios

    Gaioleiros. Este tema est associado a um grupo de trs dissertaes desenvolvidas pelo

    Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Cincias e Tecnologia da Universidade

    Nova de Lisboa, referentes caracterizao dos edifcios antigos de alvenaria existentes no

    parque habitacional de Portugal, designadamente, Edifcios Pr-Pombalinos, Pombalinos e

    Gaioleiros.

    Os grandes centros urbanos possuem actualmente um patrimnio edificado bastante

    envelhecido. Em 2001 estimava-se que a totalidade de edifcios anteriores a 1930 existentes

    na cidade de Lisboa era de cerca de 28000 [58].

    Este fenmeno tem implicaes directas na sociedade, pois no so criadas condies para a

    construo de novos edifcios, levando as populaes a viver cada vez mais longe do centro.

    O facto de muitos destes edifcios estarem devolutos contribui para a criao de zonas pouco

    atractivas. Outro problema do ponto de vista da segurana dos que habitam nestes edifcios

    o seu elevado estado de degradao, estando um nmero considervel em risco de colapso.

    Dessa forma, nos ltimos anos, tem-se assistido a uma crescente preocupao em conservar e

    reabilitar esses edifcios como modo a preservar o patrimnio arquitectnico que caracteriza o

    nosso pas e revitalizar o centro das cidades.

    Embora na prtica comum ainda se opte muitas vezes pela demolio e execuo de novos

    edifcios em detrimento da reabilitao e reutilizao dos mesmos, arquitectos e engenheiros

    so cada vez mais confrontados com a tarefa de analisar a viabilidade de recuperao destas

    estruturas. Contrariar a expanso urbana e dar preferncia reabilitao dos fogos existentes

    desenvolvendo assim uma politica de habitao sustentvel deve ser o objectivo. Assim torna-

    se indispensvel conhecer a fundo as tipologias construtivas destes edifcios, para poder

    intervir de forma responsvel.

  • CCaarraacctteerriizzaaoo ddee eeddiiffcciiooss aannttiiggooss.. EEddiiffcciiooss GGaaiioolleeiirrooss

    2

    1.2 Objectivos

    A presente dissertao teve como principal propsito a caracterizao de edifcios antigos, em

    particular a tipologia construtiva dos edifcios Gaioleiros, existente em quantidade

    significativa no parque habitacional da cidade de Lisboa.

    Como objectivo deste trabalho pretendeu-se caracterizar os edifcios antigos de forma geral, e

    os edifcios Gaioleiros, mais pormenorizadamente, em quatro vertentes: caracterizao

    histrica, caracterizao geogrfica, caracterizao construtiva e caracterizao mecnica.

    tambm pretendido com este trabalho desenvolver e aprofundar conhecimentos tericos e

    prticos sobre esta tipologia construtiva e ao mesmo tempo criar um documento que possa

    auxiliar os tcnicos no mbito da reabilitao ou recuperao deste tipo de construes

    antigas.

    1.3 Estrutura da Dissertao

    Esta dissertao est dividida em sete captulos, incluindo o presente, onde so apresentadas

    as consideraes iniciais e os objectivos deste trabalho.

    No Captulo II so descritas as solues construtivas das tipologias existentes no parque

    habitacional de Portugal e efectuada uma caracterizao geral dos elementos principais dos

    edifcios antigos de alvenaria desde o perodo anterior ao terramoto de 1755 at ao final dos

    anos 30 do sculo XX.

    No Captulo III apresentado o enquadramento histrico que levou ao aparecimento da

    tipologia dos edifcios Gaioleiros. feita uma descrio da expanso urbana da cidade de

    Lisboa, desde o plano transformao da nova malha urbana e do crescimento populacional

    ocorrido durante o perodo de implementao desta tipologia. tambm explicado o processo

    de urbanizao das novas zonas e por fim apresenta-se o enquadramento legal existente nessa

    poca ao nvel do projecto, construo e edifcios.

    No Captulo IV so localizadas as principais zonas de implantao desta tipologia na cidade

    de Lisboa e apresentam-se dados sobre o estado de conservao do edificado existente na

    cidade.

    No Captulo V so enumeradas as principais caractersticas dos edifcios Gaioleiros. So

    tambm referidos os princpios construtivos desta tipologia, apresentando-se uma descrio

    pormenorizada dos elementos principais, revestimentos e instalaes especiais. Neste captulo

  • CCaappttuulloo II Introduo

    3

    tambm efectuada uma explicao sobre a vulnerabilidade ssmica destes edifcios,

    enunciando os principais factores condicionantes para o seu comportamento estrutural.

    No captulo VI apresentada a caracterizao mecnica de paredes de alvenaria de pedra

    irregular a partir de valores de referncia obtidos a partir da pesquisa bibliogrfica de

    trabalhos desenvolvido anteriormente. ainda descrito o ensaio in-situ realizado numa parede

    de alvenaria de pedra para obteno do seu estado de tenso. apresentado o respectivo

    procedimento e os resultados alcanados.

    No Captulo VII resumem-se as principais concluses obtidas com este estudo, confrontando

    os objectivos propostos com os objectivos alcanados. So tambm referidas sugestes para

    possveis desenvolvimentos futuros.

    Todas as figuras sem referncia bibliogrfica foram obtidas pelo autor.

  • CCaarraacctteerriizzaaoo ddee eeddiiffcciiooss aannttiiggooss.. EEddiiffcciiooss GGaaiioolleeiirrooss

    4

  • Captulo II Caracterizao de edifcios antigos

    5

    2. CAPTULO II

    EDIFCIOS ANTIGOS Caracterizao geral

    2.1 Consideraes Gerais

    Neste captulo so apresentadas as solues construtivas dos edifcios antigos desde o perodo

    anterior ao terramoto de 1755 at ao declnio das construes em alvenaria, devido ao

    aparecimento do beto armado.

    No presente ainda subsistem na cidade de Lisboa muitos edifcios de vrios perodos da

    histria com diferentes caractersticas a nvel construtivo e estrutural. As diferentes solues

    construtivas esto directamente relacionadas com a poca de construo do edificado; dessa

    forma possvel fazer uma diviso das tipologias de edifcios segundo esse critrio.

    O conhecimento da cidade de Lisboa anterior ao terramoto muito escassa em comparao

    com perodos mais recentes. Apesar disso sabe-se que desde essa poca at meio do sculo

    XX ocorreu uma grande evoluo da malha urbana e tambm do edificado. Dentro deste

    perodo histrico so reconhecidas trs fases s quais esto associadas tipologias distintas:

    Edifcios pr-Pombalinos, Edifcios Pombalinos e Edifcios Gaioleiros.

    O elevado nmero de edifcios existentes no parque habitacional de Portugal e mais

    especificamente da cidade de Lisboa justificam uma caracterizao construtiva detalhada

    destas tipologias. Esta caracterizao feita de forma genrica para os edifcios antigos

    (edifcios de alvenaria).

    Esta caracterizao geral pretende enquadrar o tema desta dissertao.

    2.2 Evoluo da Estrutura Urbana

    O conhecimento da cidade antiga de Lisboa antes do terramoto de 1755 baseia-se, em

    grande medida, na interpretao de fontes escritas e tambm de fontes desenhadas, gravadas

    ou pintadas, uma vez que grande parte dos edifcios e das ruas nelas representadas j no

    existem [42].

    Tendo por base a observao da cartografia e iconografia disponvel no que se refere Lisboa

    anterior ao terramoto, pode-se verificar que a estrutura urbana da parte central da cidade se

    mantm quase inaltervel desde o sculo XVI (data das primeiras imagens disponveis da

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    6

    malha urbana da cidade de Lisboa), desenvolvendo-se entre as duas praas principais

    existentes que dividiam o estatuto de centros nevrlgicos: o Terreiro do Pao e a Praa do

    Rossio (a norte). Esta zona era caracterizada por um tecido muito denso e irregular,

    apresentando-se como uma malha urbana do tipo cidade muulmana, correspondendo a um

    conjunto de diferentes estruturas justapostas, com pouca organizao, onde se cruzavam

    espaos privados e pblicos sem continuidade de ruas, como se verifica na figura 2.1 [31].

    Figura 2.1 - Estrutura urbana de Lisboa no sculo XVII, 1650 adaptado de [AML]

    No entanto, a partir do sculo XVI, altura em que Lisboa era o principal centro martimo e

    comercial da Europa, verifica-se aquilo a que se pode chamar a emergncia do urbanismo

    moderno, iniciado na cidade e estendendo-se depois ao resto do pas. Nesta altura observa-se

    que a documentao passa a dar grande importncia ao espao pblico, designadamente no

    que respeita regulao e traado de ruas, utilizando um padro funcional e um interesse no

    controle e crescimento da estrutura urbana, ao contrrio do que tinha sido regra nos perodos

    anteriores. Este programa denunciava preocupaes funcionais inditas e pretendia responder

    ao crescente afluxo de bens e de gente cidade, cujo crescimento exponencial se inicia nesta

    poca. As zonas mais ocidentais Intra-Cerca Fernandina, Carmo e Chiado, comeam por

    apresentar uma estrutura urbana regular, acontecendo o mesmo nas zonas fora da cerca, como

    os bairros do Bairro Alto (figura 2.2 b)), Bica, Calada do Combro, Poo dos Negros,

    Madragoa, resultantes da expanso da cidade durante o sculo XVII, que apresentavam um

    loteamento regular, traados ortogonais das ruas e da forma dos quarteires, compostos

    geralmente por lotes estreitos e alongados.

  • Captulo II Caracterizao de edifcios antigos

    7

    Esta nova organizao da estrutura urbana aplicada contnua expanso da cidade at ao

    ano de 1755 [31] (figura 2.2 a)).

    a) Desenvolvimento de Lisboa antes de 1755 Limite da cidade no sculo XVIII [22]

    b) Estrutura urbana do Bairro Alto [37]

    Figura 2.2 - Plantas de Lisboa no sculo XVIII e XIX

    No dia 1 de Novembro de 1755, foi sentido em Lisboa um grande terramoto com intensidade

    estimada de 9 graus na Escala de Richter, ao qual se seguiu um tsunami que poder ter

    atingido a altura de 20 metros, submergindo grande parte do centro da cidade. Ainda como

    consequncia do sismo alastraram pela cidade diversos fogos que duraram vrios dias (figura

    2.3). Esta catstrofe, que foi considerada uma das mais mortferas da histria, fez cerca de

    20.000 vtimas mortais numa populao de cerca de 100.000 habitantes e destruiu quase por

    completo a cidade de Lisboa, onde cerca de 75% dos edifcios foram destrudos ou ficaram

    inabitveis [31].

    Aps o terramoto, a nova planificao da malha urbana foi uma das estratgias levadas a cabo

    pelo primeiro-ministro da poca, o Marqus de Pombal, que a projectou segundo os mais

    modernos princpios urbansticos e arquitectnicos, nascendo assim o plano pombalino. Para

    alm de um projecto de reconstruo para a cidade, este plano estava imerso numa nova ideia

    de urbanismo no qual o conceito de bem comum se tornava essencial [31, 49].

    a) b)

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    8

    Figura 2.3 - Lisboa durante a catstrofe de 1755 [MC]

    O grande projecto de aplicao deste plano aconteceu com a reconstruo da Baixa Lisboeta,

    onde aliada expanso necessria para suprir a falta de habitao criada pelo terramoto e

    necessidade de reconverso de dados sectores da cidade em estado urbano catico, se junta a

    necessidade de construir o edificado de modo mais seguro. Dessa forma surge uma estrutura

    urbana que ficou caracterizada pela coerncia, homogeneidade e equilbrio, assente numa

    "estrutura reticulada e regular do traado dos eixos virios, na proporo e no posicionamento

    relativo dos quarteires, e na uniformidade dos edifcios projectados quer em termos de

    alados quer em termos de compartimentao interior" [31], e construda utilizando modernas

    tcnicas de estrutura (gaiola pombalina) para mitigar consequncias de futuros desastres. Na

    figura 2.4 apresenta-se o projecto de reconstruo da zona da baixa pombalina.

    Figura 2.4 - Projecto de reconstruo da Baixa Lisboeta [MC]

  • Captulo II Caracterizao de edifcios antigos

    9

    O perodo de construo Pombalina prolonga-se at meados do sculo XIX, entrando-se ento

    numa poca de transio onde surge uma nova forma de construir.

    Com a passagem do tempo foi se esquecendo o terramoto ocorrido e as consequncias que

    este implicou na cidade. Dessa forma abriu-se caminho a uma nova tipologia construtiva

    denominada de Gaioleiros [31, 43]. A construo destes edifcios est associada ao prdio

    de rendimento e ficou ligado ao investimento de capital e especulao no sector imobilirio

    durante a grande expanso da cidade, com o aumento significativo da populao ocorrido a

    partir de 1870 em Lisboa.

    Em termos de estrutura urbana, a cidade viveu uma expanso comparvel reconstruo

    Pombalina ocorrida um sculo antes, com a criao de grandes reas urbanas nas zonas a

    norte da Baixa Pombalina e com o aumento da altura das construes. tambm

    desenvolvido um pensamento urbanstico que permitiu a Lisboa um crescimento organizado

    da cidade a partir do centro em direco s sadas da Capital [31] (figura 2.5).

    Apesar do plano urbanstico executado em Lisboa nessa altura ter sido considerado o mais

    importante gesto de desenho da cidade desde a Baixa Pombalina, a construo do edificado

    no acompanhou essa modernidade, tendo perdido qualidade em relao ao tipo de construo

    anterior, at ao aparecimento e generalizao do beto armado na indstria da construo.

    Figura 2.5 - Planta Geral da Cidade de Lisboa em 1903, de Frederico Ressano Garcia [12]

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    10

    2.3 Evoluo do Edificado

    2.3.1 Evoluo das tipologias construtivas em Portugal

    Em Lisboa coexistem hoje em dia diversas tipologias construtivas. A grande maioria desse

    edificado foi destruda pelo terramoto ocorrido em 1755 e pelas catstrofes que dele

    resultaram (tsunami e incndio) [1]. As restantes construes de pocas mais remotas foram

    sendo destrudas devido a catstrofes menores, ou mesmo pelo homem, restando muito pouca

    edificao anterior ao sculo XVIII. Desse edificado, a sua quase totalidade constituda por

    edifcios muito alterados e diversas vezes intervencionados, principalmente de carcter

    erudito ou monumental.

    Aps essa grave catstrofe, Lisboa passou por um perodo de construo de excepcional

    qualidade [4], em que o urbanismo estava sujeito a regras fixas baseadas numa direco

    planificada de ruas alinhadas e cujas opes arquitectnicas assentavam em regulamentos de

    construo, tendo em conta conceitos bsicos de resistncia s aces ssmicas. Iria assim

    nascer a Lisboa Pombalina que se encontra ainda representada por numerosos edifcios

    civis, religiosos e de habitao.

    No final da dcada de 1870, construtores preocupados essencialmente com o lucro e muito

    pouco com a qualidade da construo levam decadncia da qualidade na construo do

    perodo Pombalino. Originam-se assim os edifcios Gaioleiros, tambm designados por

    prdios de rendimento, uma vez que eram construdos com o intuito de serem vendidos ou

    alugados [4]. A grande concentrao destes edifcios surge nas reas de expanso urbana

    ocorrida neste perodo. Esta denominao pretende traduzir a simplificao e as enormes

    alteraes a nvel estrutural e construtivo que estes edifcios sofreram, onde se destaca a

    deturpao da gaiola original executada durante o perodo Pombalino. Para alm disso de

    referir ainda que a mo-de-obra e os materiais empregues neste tipo de edificado foram, na

    maioria dos casos, de qualidade inferior aos usados nos edifcios caractersticos do perodo

    anterior [43].

    A partir de 1930, com o incio da era do beto armado, estes edifcios designados de

    Gaioleiros foram progressivamente substitudos por novas construes, onde as alvenarias e

    a madeira foram sendo, ao longo do tempo, substitudas pelo beto armado. Essa troca d-se

    primeiramente nos pavimentos, marquises e varandas dos edifcios conhecidos por edifcios

    de placa, entre 1930 e 1940, ocorrendo depois nas estruturas quase integralmente em beto

    armado a partir dos anos 50 at aos dias de hoje [31].

  • Captulo II Caracterizao de edifcios antigos

    11

    Em suma, ao longo dos sculos, as tipologias construtivas em Portugal sofreram uma

    acentuada evoluo verificada no aumento de porte dos edifcios e no progresso dos materiais

    utilizados na sua construo, progredindo dos materiais como o adobe e a taipa para a

    alvenaria e posteriormente para o beto armado.

    Pode estabelecer-se uma diviso ao nvel das tipologias dos edifcios, de acordo com as suas

    caractersticas estruturais, directamente relacionadas com a poca de construo, e com as

    tecnologias construtivas empregues [43].

    O edificado do parque habitacional de Lisboa pode ser dividido em diferentes tipologias,

    nomeadamente:

    i. Edifcios com estrutura de alvenaria anteriores a 1755

    ii. Edifcios com estrutura de alvenaria da poca pombalina e similares (1755 a 1880).

    iii. Edifcios com estrutura de alvenaria tipo Gaioleiro (1880 a 1930).

    iv. Edifcios com estrutura mista de alvenaria e beto (1930 a 1940).

    v. Edifcios com estrutura mista de beto e alvenaria (1940 a 1960).

    vi. Edifcios recentes de beto armado (> 1960).

    A figura 2.6 apresenta a evoluo destas tipologias de edifcios em Portugal desde um perodo

    muito anterior a 1755 at ao presente.

    Legenda: 1) e 2) Edifcios com estrutura de alvenaria anteriores a 1755; 3) Edifcios com

    estrutura de alvenaria da poca pombalina e similares; 4.) Edifcios com estrutura de alvenaria

    tipo Gaioleiro; 5), 6), 7) Edifcios com estruturas em beto armado.

    Figura 2.6 - Evoluo das tipologias construtivas em Portugal [19]

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    12

    de referir que, para este trabalho, so considerados como edifcios antigos aqueles que

    foram construdos at ao incio dos anos 40 do sculo XX, antes da introduo do beto

    armado na construo [2].

    Muitas destas tipologias antigas ainda existem nos dias de hoje, com maior ou menor

    expresso. Como exemplo, a tabela 2.1 apresenta a distribuio dos edifcios de alvenaria e

    beto armado actualmente existentes no parque habitacional de Lisboa pelas tipologias atrs

    referidas.

    Tabela 2.1 - Distribuio dos edifcios de Lisboa pelas principais tipologias construtivas [19]

    Tipologia Estrutural Quantidade %

    Anteriores a 1755, Pombalinos e "Gaioleiros" 28000 50

    Placa 11200 20

    Antigos de beto armado 13900 25

    Recentes de beto armado 3137 5

    Perante os valores apresentados na tabela, pode concluir-se que os edifcios considerados

    antigos constituem uma percentagem importante do parque edificado existente, representando

    cerca de 50% deste [19, 30]. portanto de vital importncia que se olhe para estas tipologias

    de forma especfica numa perspectiva de reabilitao.

    i. Edifcios com estrutura de alvenaria anteriores a 1755

    Como no existem, ou so muito escassos, os registos acerca do edificado de Lisboa anterior

    ao ano de 1755 e como aps o sismo de 1 de Novembro grande parte das construes

    existentes em Lisboa foram destrudas ou ficaram seriamente danificadas, no possvel

    estabelecer uma tipologia construtiva identificativa deste perodo da histria. Assim sendo,

    so considerados edifcios desta categoria, aqueles que resistiram total ou parcialmente ao

    terramoto e que se conservaram ao longo do tempo, no tendo obrigatoriamente uma

    caracterizao semelhante entre eles [43].

    Podemos identificar trs tipos de edifcios dentro desta tipologia construtiva:

    Edifcios de qualidade elevada, que apresentam paredes de alvenaria bem cuidada e pedra

    emparelhada (pelo menos nos cunhais) com elementos de travamento entre a fachada

  • Captulo II Caracterizao de edifcios antigos

    13

    principal e tardoz. Na figura 2.7 apresentado um edifcio da tipologia pr-pombalina

    localizado em Lisboa onde possvel identificar a pedra emparelhada no cunhal;

    Edifcios de qualidade inferior, que apresentam paredes de alvenaria pobres e mal

    conservadas, grande deformao e ausncia de elementos de travamento, com pavimentos que

    vencem vos pequenos e que so geralmente de madeira;

    Edifcios com andar de ressalto, que so constitudos por um rs-do-cho todo em alvenaria

    de pedra e pavimento em arco, que serve de suporte a um ou dois pisos com estrutura

    reticulada em madeira e com revestimento exterior das paredes em alvenaria mista.

    No geral estes edifcios tm 2 a 3 pisos, tendo no mximo 4 andares, com p direito muito

    reduzido, grande densidade de paredes e poucas aberturas para o exterior [43].

    Uma caracterstica particular desta tipologia construtiva a utilizao das fachadas em bico

    quando as guas da cobertura so executadas perpendicularmente fachada. Nos dias de hoje

    este tipo de fachadas ainda muito frequente na cidade de Lisboa [31].

    Estes edifcios localizam-se principalmente nos bairros histricos, como Alfama, Bairro Alto,

    Mouraria e Castelo.

    Figura 2.7 - Edifcio anterior ao terramoto de 1755 localizado no Bairro Alto em Lisboa [31]

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    14

    ii. Edifcios com estrutura de alvenaria da poca pombalina e similares (1755-1880)

    So considerados edifcios pombalinos os que foram construdos na Baixa de Lisboa aps o

    terramoto de 1755 [31, 43].

    As principais razes que levaram implementao da construo pombalina foram o caos

    urbanstico, resultado do crescimento do parque edificado antes do terramoto, e a necessidade

    de reconstruo rpida, mas suficientemente segura, das zonas destrudas pelo sismo [43].

    A identificao de um edifcio Pombalino feita essencialmente pela existncia da estrutura

    de gaiola, que consiste num sistema de prticos tridimensionais contraventados de madeira,

    perpendiculares entre si. Estes edifcios so geralmente constitudos por cinco pisos, com o

    rs-do-cho utilizado para comrcio e restantes andares para habitao [31] e tm como

    caractersticas identificativas.

    i. Um rs-do-cho amplo e rasgado para permitir a instalao de lojas ou armazns;

    ii. As escadas de acessos aos andares ocupam um espao muito mais importante que na

    tipologia construtiva anterior;

    iii. Aumento do p direito do rs-do-cho para 16 palmos, cerca de 3,70 metros;

    iv. Paredes de fachada principal com vrias e grandes janelas;

    v. Aproveitamento das guas furtadas e mansardas;

    vi. Existncia de paredes divisrias de tabique esbeltas com boa elasticidade e resistncia s

    aces verticais;

    vii. Todas as paredes exteriores que formam os vrios quarteires esto envolvidas pela

    gaiola tridimensional de madeira [31].

    A ideia de construo anti-ssmica numa estrutura de madeira derivou da experincia

    existente na construo naval. Tendo como base o excelente desempenho dos navios face s

    aces dinmicas transmitidas pelo mar, os engenheiros militares que intervinham no

    processo de reconstruo da Baixa estabeleceram uma analogia entre o comportamento das

    embarcaes e o comportamento de um edifcio durante um sismo [43].

    Tendo a madeira um excelente comportamento s aces horizontais e dissipao de cargas

    e sendo a alvenaria um material com boa resistncia ao fogo, a associao destes dois

    materiais foi inevitvel, concebendo-se assim as paredes resistentes mistas de alvenaria com

    gaiola de madeira incorporada, caractersticas desta poca. O conjunto de estrutura

    tridimensional de madeira embebida na alvenaria permite conjugar as melhores caractersticas

  • Captulo II Caracterizao de edifcios antigos

    15

    destes dois materiais, apresentando-se assim uma parede com boa capacidade de resistncia a

    esforos de compresso, traco e flexo, conjugada com uma boa resistncia ao fogo. A

    gaiola Pombalina foi concebida de modo a que, na eventualidade da ocorrncia de um sismo,

    a estrutura pudesse permanecer ntegra mesmo que houvesse desmoronamento da alvenaria,

    constituindo assim um elemento estrutural de grande robustez e com boa capacidade para

    suportar cargas verticais e horizontais [43].

    A gaiola assim formada por vrios elementos que interligam paredes interiores, exteriores,

    vigamentos de pavimentos e asnas de cobertura formando um sistema quase perfeito de

    solidarizao dos diferentes elementos estruturais, idntico s melhores solues actuais

    obtidas com beto armado. A armao de madeira utilizada constituda por um elevado

    nmero de peas verticais, horizontais e inclinadas, devidamente ligadas entre si, formando

    cruzes de Santo Andr. Assim "a capacidade resistente da gaiola aos sismos resulta dessa

    organizao do sistema de ligao entre os diferentes elementos e do rigor e detalhe

    construtivo na ligao da gaiola ao rs do cho, principalmente por meio de pernos metlicos

    chumbados s paredes e vigamentos que garantem fixaes eficazes e garantem a efectiva

    transmisso de foras entre os elementos estruturais, atravs dos pavimentos [31].

    Na estrutura tridimensional de madeira da gaiola, a caixa de escadas tem tambm uma

    importante contribuio para a resistncia s aces sismicas, sendo a sua concepo bastante

    compacta, com trs paredes paralelas em gaiola e solidamente travadas pelos degraus [43].

    Quando bem conservada, a gaiola relativamente duradoura. Mas, para tal, necessrio que a

    madeira se encontre bem seca e livre de ciclos de humedecimento e secagem que a possam

    apodrecer, e ainda de insectos e fungos que derivem dessas situaes, sendo que para tal o seu

    recobrimento completo com rebocos desempenha um papel fundamental [43]. A figura 2.8

    apresenta um modelo esquemtico da gaiola num edifcio Pombalino.

    Figura 2.8 - Modelo esquemtico da gaiola pombalina [64]

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    16

    Alm da elevada resistncia ao sismo conferida pela gaiola, a construo pombalina tem um

    outro aspecto notvel para a poca, nomeadamente a utilizao de uma srie de elementos

    normalizados que conferiam uma maior rapidez e grande economia s construes. Este facto

    tornou as construes repetitivas, inviabilizando qualquer tipo de excepes, mas desta forma

    assegurava-se que a qualidade e coerncia na construo era idntica em todos os edifcios.

    Um exemplo dessa normalizao pode ser identificado pelas fachadas de aspecto homogneo

    e simtrico, compostas por vrias janelas de forma igual existentes nos edifcios da Baixa

    Pombalina, como se mostra na figura 2.9.

    Figura 2.9 - Edifcio Pombalino localizado em Lisboa

    iii. Edifcios com estrutura de alvenaria tipo Gaioleiro (1880-1930)

    Ao longo do sculo XIX, surge um novo tipo de construo denominada por Gaioleiros. O

    termo Gaioleiro uma designao que comeou por ser dada aos construtores dessa poca e

    que acabou por designar os edifcios que estes construam. Essa a nica designao que

    existe da tipologia construtiva que se segue ao perodo pombalino at introduo do beto

    armado na dcada de 30 do sculo XX [4].

    Esta tipologia, associada ao aumento da procura do mercado imobilirio, caracteriza-se

    principalmente pela perda do rigor construtivo existente nos edifcios Pombalinos e pela

    decadncia da utilizao da gaiola Pombalina, para alm do uso de mo-de-obra e materiais

    de qualidade inferior pelos construtores, o que se revelou um erro grave, levando runa de

    alguns edifcios construdos de forma mais aligeirada [43].

  • Captulo II Caracterizao de edifcios antigos

    17

    Esta soluo construtiva deu origem a edifcios de qualidade muito inferior em comparao

    com os edifcios Pombalinos, sem continuidade estrutural e tridimensional e onde raramente

    existiam solues adequadas para as ligaes das paredes de fachada com as paredes

    ortogonais e com os pavimentos [31].

    Estes edifcios Gaioleiros possuem caractersticas fsicas e construtivas que permitem

    diferencia-los do restante patrimnio edificado lisboeta. Essas caractersticas podem ser

    resumidas em trs pontos essenciais:

    i. Uma maior liberdade formal do que no perodo pombalino, que se materializa em:

    a) Alongamento da proporo das janelas e recurso a grandes vos;

    b) Utilizao de janelas de formas variadas e cantarias de seces diversas;

    c) Utilizao de janelas de peito e de sacada dentro de um mesmo piso;

    d) Decorao das fachadas atravs de frisos, cimalhas e esculturas nos melhores

    edifcios;

    e) Composio da fachada atravs de trs zonas: soco, zona intermdia e sistema

    platibanda/telhado.

    ii. Uma organizao funcional muito marcada com alguns elementos distintivos em relao

    a outros perodos, nomeadamente:

    a) Varanda ou marquise metlica, na parte posterior do edifcio;

    b) Sagues ou passagens estreitas e profundas para entrada de luz e ar nas zonas

    interiores dos edifcios;

    c) Casas de banho, localizadas no tardoz;

    d) Corredor longitudinal de distribuio no fogo;

    e) Quintais nas traseiras do edifcio, que por vezes constituem amplas zonas verdes no

    interior dos quarteires.

    iii. Um sistema construtivo decadente ligado simplificao do processo pombalino,

    evidenciado pela utilizao de materiais de fraca qualidade e tambm por vrios factores

    que contriburam para a sua fragilidade estrutural, designadamente:

    a) Construo com pouca rigidez na articulao dos componentes que a constituem

    (comportamento deficiente s aces dinmicas);

    b) Fundaes pouco cuidadas face aos terrenos onde se situam;

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    18

    c) Paredes resistentes insuficientes e indevidamente contraventadas;

    d) Substituio das paredes interiores do sistema de gaiola pombalino por tabiques sem

    sistema de travamento;

    e) Empenas muito elevadas em altura e profundidade;

    f) Presena de elementos decorativos pesados nas fachadas [4].

    Na figura 2.10 identificado um edifcio Gaioleiro existente na avenida da Repblica

    em Lisboa.

    Figura 2.10 - Edifcio Gaioleiro localizado na Av. da Repblica, em Lisboa

  • Captulo II Caracterizao de edifcios antigos

    19

    2.4 Caracterizao Construtiva de Edifcios Antigos

    Definidos como edifcios antigos aqueles que foram construdos at ao incio dos anos 40 do

    sculo XX, antes da construo em beto armado, de referir que os edifcios, qualquer que

    seja a sua tipologia tm no mnimo 50 anos, apresentando tecnologias construtivas

    tradicionais e materiais que foram desaparecendo a partir dessa data [2].

    possvel verificar que ao longo dos sculos permanecem padres comuns na construo de

    edifcios, centrados no uso de um pequeno nmero de materiais dominantes naturais e pouco

    transformados.

    Neste trabalho, a caracterizao construtiva realizada em termos de elementos primrios dos

    edifcios. Consideram-se como elementos primrios do edifcio todos os elementos com

    funo estrutural ou com alguma contribuio para a definio da sua compartimentao.

    Optou-se por sistematizar estes elementos da seguinte forma: Fundaes, Pavimentos,

    Paredes, Cobertura, Escadas. Faz-se ainda a descrio dos revestimentos e acabamentos

    comuns nos edifcios antigos.

    2.4.1 Fundaes

    Nos edifcios antigos as fundaes so essencialmente de trs tipos: Fundaes directas

    constitudas pelo simples prolongamento at ao terreno, das prprias paredes resistentes, com

    a mesma largura ou com alargamento (em funo das caractersticas do terreno); Fundaes

    semi-directas, constitudas por poos de alvenaria de pedra, encimados por arcos de alvenaria

    de pedra ou tijolo; Fundaes indirectas, constitudas por estacarias de madeira, atravessando

    aterros e formaes recentes e atingindo estratos profundos de solo resistente [2].

    As fundaes destes edifcios so habitualmente constitudas por sapatas isoladas para pilares

    e contnuas para as paredes, com uma constituio semelhante das paredes resistentes do

    edifcio. No entanto, entre a fundao e as paredes resistentes, existem algumas diferenas

    relacionadas com a largura e a constituio das mesmas. Em termos de largura, as fundaes

    podem apresentar uma sobre-largura em relao s paredes, facto que se deve essencialmente

    menor resistncia mecnica do terreno que requer uma maior rea de contacto, devido ao

    facto de a construo das fundaes ser um trabalho ao qual esto associados maiores erros de

    execuo, os quais podem ser mais facilmente absorvidos com uma sobre largura da

    fundao. Em relao sua constituio, as fundaes so executadas com uma alvenaria

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    20

    mais pobre, visto que, sendo esta um elemento de transio entre as paredes (elemento mais

    resistente) e o solo (elemento menos resistente), apenas necessita de ter uma resistncia

    mecnica intermdia [2]. de referir que estas fundaes (com sobre-largura e constitudas

    por alvenaria mais pobre) s so aplicadas em situaes em que o solo de fundao tem uma

    resistncia inferior das paredes. Nos casos em que o terreno de fundao muito resistente

    (rochas granticas, calcrias e baslticas) esta sobre largura pode no existir, assim como a

    qualidade da alvenaria de fundao pode no se diferenciar da das paredes.

    Existe ainda a situao em que, apesar de o terreno ter uma resistncia mecnica suficiente, as

    camadas no se encontram prximas da superfcie. Nestas situaes necessrio aprofundar

    as escavaes alguns metros at existir contacto com essas camadas, podendo esta ser feita de

    trs maneiras distintas:

    i. Por projeco e execuo de caves, para que o pavimento interior esteja situado a uma

    cota que permita a execuo de fundaes directas;

    ii. Por escavao local do solo, de 3 em 3 metros, executando poos quadrangulares em

    alvenaria de boa qualidade, com cerca de 1 metro de lado, com altura suficiente para

    atingir as camadas resistentes do terreno. No topo destes poos so executados arcos,

    geralmente em tijolo macio ou pedra, sobre os quais so construdas as paredes

    resistentes do edifcio. Esta soluo evita uma escavao geral a grande profundidade,

    que para alm das razes econmicas tambm apresentava dificuldades tcnicas

    acrescidas;

    iii. Por cravao de estacas de madeira at cota de terreno resistente. Esta uma soluo

    que apresenta maiores limitaes, pois obriga existncia de camadas brandas e regulares

    que viabilizem a cravao, alm do facto das estacas terem uma resistncia mecnica

    inferior da alvenaria. Esta forma de fundao por estacas pode ser considerada mais

    uma tcnica de consolidao do terreno do que um sistema de fundao [2].

  • Captulo II Caracterizao de edifcios antigos

    21

    Os trs tipos de fundaes descritos esto representados na figura 2.11.

    a) Representao esquemtica de uma fundao directa corrente [2]

    b) Fundao semi-directa com arcos de alvenaria [2]

    c) Fundao em estacas de madeira [41]

    Figura 2.11 - Representao esquemtica de tipos de fundao

    2.4.2 Pavimentos

    Os pavimentos dos edifcios antigos tm constituies diferentes consoante so pavimentos

    trreos ou elevados. A constituio dos pavimentos trreos muito simples, geralmente

    baseada em terra batida ou enrocamento de pedra, sobre a qual se coloca uma camada de

    revestimento que pode ser em lajedo de pedra, ladrilhos, tijoleira cermica ou sobrados de

    madeira.

    No que diz respeito aos pavimentos elevados, estes so executados geralmente em madeira,

    sendo a soluo mais frequente e simples a concepo de um sistema de vigas paralelas

    colocadas a distncia varivel umas das outras e apoiadas nas paredes resistentes da estrutura.

    A construo de abbadas e arcos em alvenaria de pedra uma soluo aplicada em edifcios

    mais nobres e acontecia quando se pretendia evitar o contacto da madeira com zonas hmidas

    do terreno, ou quando era necessrio um vo de grandes dimenses para o qual o

    comprimento das vigas de madeira no era suficiente. Sobre os arcos e abbadas de alvenaria

    colocavam-se os revestimentos, que podiam ser executados de duas formas: criao de uma

    estrutura de madeira semelhante explicada anteriormente, que se apoiava nos elementos de

    alvenaria ou por enchimento dos arcos com entulho, areia argilosa, terra ou pedra solta, sobre

    o qual era colocada uma camada de argamassa que servia de base para o assentamento do

    a) b) c)

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    22

    soalho, dos lajedos de pedra ou dos revestimentos cermicos. So apresentadas representaes

    esquemticas destas duas solues na figura 2.12 a) e b). A primeira soluo apresenta

    vantagem ao nvel da leveza da estrutura; no entanto, o maior peso da segunda soluo pode

    ser um factor estabilizante da estrutura como acontece com as paredes resistentes destes

    edifcios [2].

    Nestas estruturas de arcos e abbadas dos pavimentos, como nas paredes, de registar a

    grande variabilidade na escolha dos materiais constituintes. Nos edifcios nobres, militares e

    religiosos, era costume utilizar-se pedra talhada; na generalidade dos edifcios os arcos e

    abbadas eram executados base de elementos cermicos, organizados em formas simtricas

    e com grande rigor geomtrico e estrutural. Existe ainda registo da utilizao de alvenaria de

    pedra irregular argamassada; no entanto, esta soluo apresentava limitaes relacionadas

    com a necessidade de utilizao de cofragens e cimbres muito complexos [2].

    a) Pavimento em arcos com estrutura de madeira

    b) Pavimento em arcos com enchimento

    Figura 2.12 - Representao esquemtica de estruturas de pavimentos [2]

    A espcie de madeira mais utilizada nos pavimentos era o castanho, de origem nacional, mas

    tambm frequente encontrar outras espcies de origem nacional como o choupo, o cedro ou

    o carvalho. Eram tambm utilizadas espcies oriundas da Europa Central e em alguns casos

    madeiras exticas provenientes do Brasil, ndia e colnias africanas. Estas madeiras eram

    utilizadas em edifcios de maior importncia. A estrutura de madeira era organizada de forma

    simples, colocando os vigamentos de forma paralela com afastamentos de 20 a 40cm entre

    eles, tendo como regra que o espaamento deveria ser igual espessura do vigamento

    colocado (figura 2.13). Esta regra, no entanto, foi perdendo aplicao com a utilizao de

    vigamentos cada vez mais estreitos. As estruturas dos pavimentos eram fixadas s paredes

    a) b)

  • Captulo II Caracterizao de edifcios antigos

    23

    resistentes dos edifcios por gatos metlicos ou atravs de encaixe das vigas em aberturas

    executadas nessas paredes. A utilizao de perfis redondos sem qualquer tipo de corte, assim

    como o encaixe simples dos vigamentos em aberturas nas paredes resistentes so exemplos da

    perda de exigncia na construo ocorrida na poca final do sculo XIX [2].

    Na zona superior, as vigas eram colocadas perpendicularmente as tbuas de soalho, enquanto

    na zona inferior era colocado um fasquiado em madeira sobre o qual se aplicava estuque.

    A partir do sculo XX surgem os pavimentos mistos, com estrutura metlica, constituda por

    perfis de ferro laminado e abobadilhas cermicas. Estes pavimentos eram colocados,

    sobretudo, nas zonas hmidas da habitao.

    Figura 2.13 Representao esquemtica de pavimento em madeira com espaamento igual

    espessura das vigas [2]

    2.4.3 Paredes

    As paredes caractersticas de edifcios antigos podem ser divididas em trs tipos: paredes de

    alvenaria, paredes de cantaria ou tabiques. As paredes de alvenaria e cantaria so utilizadas

    como paredes resistentes do edifcio enquanto os tabiques servem para definir a

    compartimentao interior.

    i. Paredes resistentes

    Apesar de todas as paredes num edifcio terem de cumprir certas exigncias estruturais,

    apenas algumas dessas apresentam segurana estrutural relevante. Dessa forma so

    consideradas paredes resistentes do edifcio, as que representam um papel predominante na

    sua resistncia s cargas verticais e horizontais que lhe so impostas (cargas de natureza

    gravtica, sismos e vento) [2]. Estas paredes resistentes so tambm designadas como paredes

    principais ou paredes-mestras.

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    24

    As paredes principais de edifcios antigos apresentam geralmente grande espessura e so

    constitudas por materiais heterogneos, de onde resultam elementos rgidos e pesados.

    Apesar da sua elevada espessura e peso, estas paredes tm uma resistncia a esforos de

    traco e corte muito baixa. A sua grande espessura justifica-se pela fora estabilizadora

    devida largura e peso da parede confere uma boa resistncia s foras horizontais

    deslizantes e derrubantes, reduzindo o risco de instabilidade por encurvadura. Outro factor a

    favor dessa elevada espessura tem a ver com o facto de existir uma maior proteco contra os

    agentes atmosfricos (vento e principalmente chuva) que tm maior dificuldade em penetrar

    em zonas interiores do edifcio [2].

    Como se referiu anteriormente, as paredes resistentes apresentam variaes, principalmente

    nos materiais da sua constituio, que dependiam da disponibilidade destes nas zonas de

    construo. A disponibilidade de matrias-primas levava a que as diferenas pudessem ser de

    cariz regional ou mesmo local. Essa influncia regional pode ser verificada na distribuio

    geogrfica das alvenarias de pedra onde so conhecidas as predominncias de pedras nas

    diferentes zonas do Pas (Granito em Trs-os-Montes, e Beiras, Calcrios na regio de Lisboa

    e zonas do Alentejo, etc.). A constituio destas paredes podia ser em pedra emparelhada,

    pedra talhada ou mistura de pedra irregular ligada por argamassa de cal e areia. Podiam ainda

    ser utilizadas peas de madeira como acontecia com as paredes de frontal do perodo

    Pombalino representada na figura 2.14.

    Figura 2.14 - Representao esquemtica de uma parede de frontal [2]

  • Captulo II Caracterizao de edifcios antigos

    25

    Nas zonas rurais, a sua constituio podia ainda ser em taipa ou adobe. A taipa consistia na

    colocao de terra hmida e pedras compactadas entre dois taipais de madeira que

    posteriormente eram retirados, formando uma parede constituda por esses materiais. O adobe

    consistia na execuo das paredes a partir de blocos de barro, moldados atravs de um

    processo artesanal e secos ao sol. Esta soluo era especialmente utilizada em regies a Sul do

    rio Tejo, mais secas e quentes.

    As paredes principais ou mestras nos edifcios antigos apresentam poucas variaes do ponto

    de vista construtivo ao longo dos sculos, assinalando-se apenas o facto de ocorrer uma

    sistemtica reduo da sua espessura ao longo do tempo. Esta situao deveu-se

    principalmente a duas causas essenciais: o progresso tcnico e cientfico, que permitiu um

    melhor domnio das cincias dos materiais, e a procura de aligeiramento das construes,

    reduzindo as quantidades de materiais para maior economia de quem constri. Esta situao

    culmina com a tipologia construtiva dos Gaioleiros, no final do sculo XIX e incio do

    sculo XX, onde se verifica uma elevada deteriorao das prticas construtivas no fabrico das

    paredes [2].

    ii. Paredes de compartimentao

    No edifcios antigos, as paredes desempenham quase sempre funes estruturais de relevo, j

    que a prpria arquitectura dos edifcios, a organizao dos espaos e as limitaes estruturais

    dos materiais disponveis fazem com que se mobilize a capacidade resistente da generalidade

    das paredes. Mesmo quando assim no o , as paredes de compartimentao tm, com

    frequncia, um papel importante no travamento geral das estruturas, fazendo-se atravs dessas

    paredes a interligao entre paredes resistentes, pavimentos e coberturas [2]. No entanto, no

    mbito deste trabalho, so consideradas paredes de compartimentao aquelas que foram

    concebidas para desempenhar o papel de elemento de separao de espaos interiores no

    edifcio, sem qualquer considerao pela sua possvel funo estrutural.

    Estas paredes apresentam tambm uma grande diversidade de solues, sendo identificvel

    um certo mbito regional ou local de certas solues, claramente associadas disponibilidade

    de determinados materiais, como so exemplos as construes de parede base de blocos de

    adobe e de taipa. No entanto existem solues utilizadas, com poucas variaes em todo o

    pas, podendo pois ser consideradas de mbito nacional, como o caso dos tabiques de

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    26

    madeira, obtidos pela pregagem de um fasquiado sobre tbuas colocadas ao alto, sendo o

    conjunto revestido com barro ou reboco de argamassa de cal e saibro [2] (figura 2.15).

    Os tabiques em madeira executados na poca pombalina eram paredes que apresentavam

    excelente desempenho, pois funcionavam interligadas com a gaiola pombalina e os

    pavimentos do edifcio. No entanto, a partir do final do sculo XIX, a madeira foi substituda

    por alvenaria de tijolo, mais econmica e mais fcil de executar, perdendo-se quase

    totalmente a sua contribuio para o travamento do edifcio e as ligaes entre paredes,

    pavimentos e coberturas.

    Figura 2.15 - Representao esquemtica de uma parede de tabique [2]

    2.4.4 Cobertura

    As estruturas de cobertura, tal como acontece com os pavimentos, apresentam um grande

    nmero de solues no que se refere a geometria, forma estrutural e materiais estruturais. No

    que se refere forma, as coberturas de edifcios antigos podem ter formato inclinado

    (coberturas inclinadas), curvo (abbadas e cpulas) ou plano (coberturas em terrao), tendo as

    coberturas inclinadas uma predominncia em relao s outras duas solues [2]. Em relao

    s coberturas curvas, estas baseiam-se nas formas estruturais anteriormente mencionadas e

    correspondem geralmente a pequenas zonas de construo, sendo frequentes em edifcios de

    arquitectura religiosa.

  • Captulo II Caracterizao de edifcios antigos

    27

    Nas coberturas em terrao, a utilizao de pedra e tijolo (em arcos e abbadas) predomina em

    relao s estruturas em madeira, visto que nesta situao as dificuldades de assegurar a

    estanquidade das coberturas superior s estruturas inclinadas e portanto necessrio um

    material com melhor comportamento em contacto com a gua. A estrutura destes terraos era

    semelhante dos pavimentos, descrita anteriormente, onde era feito o enchimento e

    nivelamento da estrutura em arco e abbada, que posteriormente recebia as camadas de

    impermeabilizao, proteco mecnica e camada de acabamento.

    Nas coberturas inclinadas acontece o contrrio, sendo predominante a utilizao de estrutura

    em madeira com revestimento em telha cermica. Nesta situao, a estrutura em madeira

    apresenta uma inclinao que varia segundo a localizao do edifcio e com o tipo de

    utilizao, apresentando sempre suficiente estanquidade entrada de gua, j que a prpria

    inclinao favorece essa ocorrncia. Este tipo de cobertura tambm bastante mais aligeirada

    que a cobertura em pedra, o que beneficia o edifcio. A configurao e constituio da

    estrutura em madeira varivel consoante a dimenso do edifcio, a pendente da cobertura e a

    possibilidade de aproveitamento dos stos em gua-furtada ou mansarda. A estrutura em

    gua-furtada tinha uma concepo mais simples, enquanto as mansardas permitiam um

    melhor aproveitamento do espao da cobertura. Apesar das diferentes concepes em ambos

    os casos a estrutura da cobertura pode resumir-se a um conjunto de vigas paralelas que

    vencem os vos disponveis e uma estrutura composta por madres, varas e ripado, que

    suportam o telhado dos edifcios que podem ser revestidos a telha cermica do tipo canudo,

    lusa ou Marselha.

    Consoante a importncia do edifcio, sua dimenso ou dignidade, as coberturas tornam-se

    mais complexas [2]. Na figura 2.16 apresenta-se uma estrutura de cobertura inclinada tpica

    de edifcios antigos.

    Figura 2.16 - Representao esquemtica de uma estrutura de cobertura em madeira [2]

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    28

    2.4.5 Escadas

    As escadas nos edifcios antigos so geralmente de madeira. Tambm podem existir, em casos

    menos comuns escadas, em pedra ou em estrutura metlica.

    As escadas das zonas interiores do edifcio so tipicamente em estrutura de madeira.

    A partir do sculo XVII observa-se uma evoluo ntida da importncia das escadas, com um

    aumento do espao ocupado por este elemento. Nos edifcios mais antigos, as escadas eram

    geralmente de tiro, num lance nico entre andares e de reduzida largura (inferior a 1m), com

    uma inclinao muito acentuada e localizadas, normalmente, junto a uma das empenas do

    edifcio. Estas escadas eram muito pouco confortveis, onde os espelhos podiam chegar a ter

    0,20m, e a sua execuo era apenas possvel em edifcios com ps direitos muito reduzidos

    [2]. Por vezes era aproveitado o declive das ruas para a execuo de escadas independentes de

    acesso aos pisos ou fogos de habitao, existindo nesses casos duas entradas para o edifcio.

    Com o aumento do p direito dos compartimentos, associado salubridade das habitaes e

    com a conscincia da importncia do conforto das escadas, estes elementos ganharam

    importncia e dimenso. A partir do sculo XVIII vulgarizam-se as escadas com dois lanos

    de degraus e patamares intermdios, com larguras ultrapassando um metro. A localizao

    tpica da escada foi tambm deslocada, situando-se prximo do centro do edifcio. Esta

    localizao justificava-se pela generalizao dos edifcios em lotes de frente larga, com dois

    fogos por piso e pela procura de uma simetria estrutural vantajosa para os edifcios, por

    exemplo, em relao resistncia aco dos sismos.

    As escadas de pedra eram utilizadas frequentemente em zonas exteriores dos edifcios ou em

    zonas que tivessem contacto com o exterior (piso trreo) de forma a evitar problemas

    relacionados com a humidade.

    As escadas metlicas so utilizadas no final do sculo XIX, normalmente atravs de estruturas

    de forma simples constitudas por colunas cilndricas, vigas I ou T e degraus de chapa xadrez.

    Habitualmente tratam-se de escadas de servio, localizadas geralmente no tardoz dos

    edifcios.

    Na figura 2.17 so identificados dois tipos de escadas existentes em edifcios antigos. No

    primeiro caso apresentada uma escada interior em madeira e no segundo caso uma escada

    metlica exterior ao edifcio.

  • Captulo II Caracterizao de edifcios antigos

    29

    a) Escada interior em madeira; b) Escada exteriores metlicas

    Figura 2.17 - Escadas de edifcio Gaioleiro [30]

    2.4.6 Revestimentos e acabamentos

    Os revestimentos das paredes exteriores nos edifcios antigos so geralmente em reboco de

    argamassa de areia e cal area com acabamento em caiao branca ou em outras cores. Outra

    soluo utilizada para os revestimentos exteriores era o azulejo que tanto funcionava como

    elemento decorativo como servia de camada de desgaste da parede. Esta soluo tambm era

    utilizada em zonas interiores do edifcio, principalmente nas cozinhas e casas de banho (zonas

    hmidas). Nos edifcios Gaioleiros eram utilizados vrios elementos de cantaria com funo

    decorativa no revestimento das fachadas.

    Nas paredes interiores e tectos, o principal revestimento utilizado nos edifcios antigos era o

    estuque que, para alm de econmico, permitia imitar, atravs da sua pintura, acabamentos em

    pedra natural ou madeiras nobres.

    a) b)

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    30

  • CCaappttuulloo IIIIII Caracterizao Histrica de edifcios Gaioleiros

    31

    3. CAPTULO III

    EDIFCIOS GAIOLEIROS Caracterizao Histrica

    3.1 Consideraes Gerais

    Neste captulo feita a caracterizao histrica da tipologia construtiva dos edifcios

    Gaioleiros.

    O perodo decorrido entre o ltimo quartel do sculo XIX e os primeiros 30 anos do sculo

    XX foi uma poca de grandes transformaes na cidade de Lisboa. A expanso urbana da

    cidade para Norte e Poente e o crescimento populacional vivido durante esse perodo

    associado a condicionantes econmicas e financeiras dessa poca levaram ao aparecimento de

    uma nova forma de construir, rpida, barata e com retorno garantido. Estas condies, no

    entanto, implicaram uma perda de qualidade construtiva que ficou associada a esta tipologia.

    Essas modificaes na malha urbana e na construo dos edifcios verificam-se na

    urbanizao das novas zonas de expanso onde possvel diferenciar as reas mais ou menos

    nobres. As zonas onde o processo de urbanizao foi executado pela Repartio Tcnica e

    pela Cmara Municipal apresentavam uma melhor qualidade construtiva e uma coerncia

    urbanstica que no foi cumprida nas zonas secundrias deixadas iniciativa privada, que

    condicionou toda a programao das envolvncias dessas zonas.

    As transformaes ocorridas modificaram tambm os instrumentos legais vigentes nesse

    perodo ao nvel da construo civil.

    3.2 Expanso Urbana da Cidade de Lisboa. Envolvente Histrica

    3.2.1 O Plano

    A ideia de expanso da cidade de Lisboa para Norte aparece pela primeira vez com o desenho

    da Baixa Pombalina. Antes do terramoto de 1755, a expanso da cidade organizava-se a partir

    de eixos paralelos ao rio. Ao contrrio do que sucedera at esse trgico acontecimento, no

    novo plano desenvolvido por Manuel da Maia, Eugnio dos Santos e Carlos Mardel so

    adoptados como eixos principais as ruas perpendiculares ao rio, ligando o antigo Terreiro do

    Passo ao Rossio. Esta inverso do sentido da circulao no interior da cidade pode ser

    considerada como a gnese do seu futuro crescimento [4].

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    32

    Nos ltimos vinte anos do sculo XIX e no primeiro quartel do sculo XX, Lisboa viveu uma

    expanso urbanstica s comparvel com a reconstruo da Baixa Pombalina no perodo aps

    o terramoto de 1755, sendo que esse crescimento confirmaria o sentido de expanso da

    cidade. A abertura da avenida da Liberdade e a edificao das novas zonas a Norte da cidade

    obedeceu a um plano elaborado por Ressano Garcia que marcou a histria e a configurao de

    Lisboa.

    Este plano derivou de um pensamento estratgico e um planeamento consistente que

    ocorreram numa altura chave do desenvolvimento urbano da capital. No final do sculo XIX,

    as grandes obras urbanas levadas a cabo em Paris serviram de modelo ao crescimento de

    vrias importantes cidades Europeias, entre elas Lisboa, que se renovou sempre imagem das

    avenidas Parisienses. No entanto, pode dizer-se que a semelhana entre a renovao radical

    ocorrida na capital francesa e o que aconteceu em Lisboa se limita tipologia e imagem das

    avenidas, com arruamentos largos, incluindo neles separadores centrais ocupados com

    canteiros e rvores. O que sucede em Lisboa, s superficialmente se assemelha a Paris, pois

    enquanto em Paris se assiste a uma renovao urbana profunda, em Lisboa o plano a executar

    mais um instrume