Cristovam Buarque 2012 O Progresso Da Ideia de Progresso

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O Progresso da Ideia de ProgressoCristovam Buarque Maro 2012 1. A idia de progresso O conceito de progresso nasceu para indicar apenas movimento fsico, deslocamento de um corpo adiante, apegado etimologicamente palavra latina progredire. A idia de uma evoluo da sociedade, mesmo em estado-cidade, como na Grcia, era impossvel, pela falta de percepo das mudanas. Estava ausente o prprio sentimento de futuro, alm do dia a dia e das estaes do ano. A histria era apenas descrio de fatos do passado, no de mundos passados, de civilizaes superadas com uma evoluo para melhor. Quando, raramente, se imaginava mudanas, era com a viso de decadncia: o passado teria sido de ouro, o paraso perdido. Muitos, como Pitgoras, ou como os maias, viam a histria se repetindo em crculos. Ou, como Sneca, viam o mundo em um processo de degenerescncia. As descobertas cientficas no eram vistas como um avano do conhecimento, porque pareciam fatos isolados, at mesmo porque no eram aceitas como verdades universais das quais a humanidade ia se aproximando. Em determinados momentos, esses avanos eram considerados heresias, pagas com a vida, cujo exemplo Giordano Bruno, ou perda de liberdade, como no caso de Galileu. S com a Renascena e o Iluminismo, o conceito comeou a se aplicar tambm para indicar evoluo social, graas a autores como: Jean Bodin (15301596) e Francis Bacon (1561-1626). Voltaire, Rousseau, Montesquieu e os filsofos da Revoluo Francesa tinham conscincia de que a humanidade evolua, tinha um destino; mesmo assim com vises crticas desse avano e at mesmo apologia do mundo primitivo, da vida selvagem. O clssico livro de J. B. Bury, The Idea of Progress mostrou como o conceito de progresso foi surgindo vagarosamente como definio e crena no rumo social de uma humanidade que caminhava para o avano do conhecimento e a melhoria nas condies de vida da populao. Esse conceito, que ainda prevalece, de progresso como ideia de avano social pode ser ligada inicialmente ao Iluminismo. O Marqus de Condorcet (1743-1794), com seu livro Esboo de um quadro histrico dos progressos do Esprito Humano, determinou um ponto de ruptura na

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maneira como o processo histrico visto em seu rumo progressista. Hegel (1770-1831) foi alm e colocou a histria como um processo lgico de avano em direo ao aperfeioamento da humanidade. Mas a grande consolidao da ideia do progresso decorreu da Revoluo Industrial, com seus novos e surpreendentes produtos tecnolgicos; e da teoria da evoluo biolgica, graas a Darwin. Ao descobrir que o homem o resultado de uma evoluo biolgica, com um destino de aprimoramento, surge a ideia de que o conjunto dos seres humanos tambm evoluiria em direo a uma sociedade cada vez melhor; ao ter contato com os novos equipamentos o sentimento de progresso da humanidade se consolida de forma hegemnica. Alm do avano nas leis da fsica surgiram as mquinas. O progresso ficou visvel na velocidade dos trens, na instantaneidade do telgrafo, na produtividade dos novos teares e na fora da mquina a vapor. Os filsofos passaram a perceber a evoluo do conhecimento nas cincias que faziam avanar o conhecimento e nas tecnologias que melhoravam as condies de vida da populao. O sculo XIX foi o sculo da consolidao do progresso, e o sculo XX passou a ser o sculo da utopia, como ponto final inexorvel do progresso. Coprnico/Galileu/Newton/Darwin passaram a indicar um avano do homem na direo do conhecimento; Edson, Bell, Watt, passaram a indicar avano na tcnica; Locke, Vicco, Adam Smith, Marx, Stuart Mill, passaram a formular a idia de progresso como uma constatao. Progresso deixou definitivamente de ter significado de movimento fsico, passou a ser evoluo social e, em pouco tempo, chegou ao imaginrio social, no mais dos filsofos, expandindo um sentimento de otimismo por todo o mundo. Com sua consolidao, o progresso passou no apenas a ser entendido, mas tambm desejado e logo surgiriam as propostas de constru-lo. O prprio conceito de utopias evoluiu. As propostas existentes anteriormente eram localizadas no espao geogrfico; como descries de mundos em algum lugar ou em nenhum, como definiu Thomas Morus na sua Utopia. Com a aceitao hegemnica do progresso humano, a utopia passou a ser vista no tempo, no futuro e como tendncia inexorvel, uma certeza, em todas as partes do mundo, em um futuro no muito distante, no ano 2000. Os produtos tecnolgicos e a economia que eles permitiram, fizeram o progresso ser no apenas aceito, como tambm identificado por quatro vetores ligados entre si, com uma sinergia mtua. De um lado a ideia de que o progresso deveria ser construdo pela interveno do

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Estado, estrutura social em direo ao socialismo; ou pela evoluo natural de acordo com as leis do mercado, no capitalismo. Mas, com um ou outro desses dois sistemas, o progresso tinha a mesma convico e a mesma concepo: progresso passou a ser crena prxima de uma religio que unia: Democracia Poltica, Inovao Cientfico-tecnolgica, Crescimento Econmico e Justia Social. O primeiro progresso do progresso foi este avano no seu conceito e na sua aceitao.

2. A Crise da Ideia do progresso Em nome dessa religio do progresso, a humanidade fez grandes avanos. Em dois sculos foi possvel ampliar o conforto muito alm do que era imaginado pelos primeiros escritos de fico cientifica (gnero tambm produto do progresso); a esperana de vida foi ampliada; a sade foi conquistada; a dor quase abolida, em escala mundial; as comunicaes ficaram instantneas (pelo telgrafo) e tambm diretas (pelo telefone e a internet); a escravido foi praticamente abolida; e os direitos das minorias vm sendo ampliados com a reduo de todos os tipos de preconceitos; a mobilidade social avanou. O progresso conseguiu unificar o mundo, em um complexo global, dividido socialmente, mas integrado fsica, econmica, culturalmente. At mesmo a poltica, que continua nacional, conseguiu criar formas de integrao como Unio Europeia, Mercosul, Organizao dos Estados Africanos e muitas outras, alm de constantes Reunies de Cpula patrocinadas pela ONU. Enquanto a realidade evolua pelo progresso, o conceito de progresso tambm evoluiu, e passou a significar basicamente Crescimento Econmico, visto como o motor do progresso da civilizao em direo utopia. Os trs outros vetores foram subordinados, e progresso passou a3

ser medido e comparado de um ano a outro conforme a taxa de aumento da produo no perodo definido. O sucesso do progresso parecia haver matado todas as vises pessimistas para o futuro, caracterizadas pelo malthusianismo e outros pensadores que insistiam na viso da humanidade caminhando para a decadncia1. O avano deixou de ser visto como acmulo de bem estar, de conhecimento, e passou a ser visto com fluxo, anual. Embora o progresso fosse a vitria da evoluo histrica, contra a circularidade primitiva, por culpa da primazia do crescimento econmico sobre os demais trs vetores, ele terminou como circular, atualizado, do atual comparado com o anterior, sem necessidade de medir o acmulo. Se as indstrias que produzem armas crescem, mesmo em tempos de guerra, embora se reduza o patrimnio social e aumento drasticamente o nmero de mortos. Por isso a economia com armas cresce de um ano para outro, o progresso teria acontecido mesmo que todas as armas fossem destrudas ao longo do ano seguinte. No momento em que o progresso atingia a realizao plena de seus propsitos, ao ponto de comemorar-se o fim da histria, o progresso baseado no crescimento econmico comeou a mostrar suas limitaes. O primeiro sinal foi apresentado por um livro: Os limites ao Crescimento, publicado em 1972, escrito por Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jrgen Randers and William W. Behrens III, elaborado no MIT a pedido de uma entidade privada, o Clube de Roma. Nos ltimos 40 anos, as projees estatsticas do Relatrio do Clube de Roma foram sendo comprovadas, sobretudo no que se refere s mudanas climticas.

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O livro The Idea of Decline in Western History, Arthur Herman, mostra a viso pessimista que prevalece mesmo diante da primazia do otimismo progressista.

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A crise ecolgica apresentou uma nova varivel do progresso, desta vez uma varivel limitante, que quebra a sinergia entre os quatro vetores tradicionais. Essa nova varivel indica um sintoma da crise do prprio conceito de progresso e a constatao de que fica impossvel manter o casamento entre seus quatro vetores 2. Uma prova est nas interrelaes entre as crises que afloraram de maneira enftica a partir de 2008: a crise financeira, crise econmica, crise social e crise ecolgica. As sadas para essas crises se opem entre si, atravessando uma espcie de anti-sinergia. para retomar o Equilbrio Financeiro, o Crescimento Econmico tem de ser reduzido e Bem Estar Social comprometido; a retomada do Crescimento ameaa o Equilbrio Ecolgico; a elevao do Bem Estar Social ameaa o Equilbrio Financeiro. A prpria Democracia fica ameaada, porque ela no age positivamente na recuperao do equilbrio, uma vez que os eleitores so comprometidos com o local sem o sentimento planetrio e nem de longo prazo. Percebe-se uma contradio entre seus prprios objetivos. As consequncias dessas crises e a impossibilidade de enfrent-la separadamente esto nas caractersticas da sociedade global, construda pelo atual conceito de progresso, que ao lado de todas suas imensas conquistas materiais e sociais apresenta um conjunto de ameaas que caracterizam a face do mundo desenvolvido de hoje.

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Nestas ltimas dcadas, centenas ou mesmo milhares de livros surgiram em uma espcie de neomalthusianismo, do que exemplo o livro Dystopia: What is to be Done, de Garry Potter. O livro mostra diversas limitaes ao progresso em direo melhoria do mundo.

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1.

A catstrofe ecolgica induz mudanas climticas, provoca aquecimento global, com todas suas trgicas consequncias, como elevao do nvel do mar, desertificao inclusive, a destruio da biodiversidade pelo efeito estufa. 2. A desigualdade que divide o mu