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DEMOCRACIA COMO “ÍDOLO”? ENSAIOS SOBRE UM · PDF filecaptada na obra de Galileu Galilei, ... Rev. Fac. Dir. Sul de Minas , Pouso Alegre, v. 29, n. 2: 129-150, jul./dez. 2013 Democracia

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  • Rev. Fac. Dir. Sul de Minas, Pouso Alegre, v. 29, n. 2: 129-150, jul./dez. 2013

    DEMOCRACIA COMO DOLO? ENSAIOS SOBRE UM PROJETO DE DEMOCRACIA POSSVEL

    DEMOCRACY AS AN IDOL? ESSAYS ABOUT A POSSIBLE DEMOCRACY PROJECT

    Emerson Ademir Borges de Oliveira*

    RESUMO

    A proposta visa analisar, a partir da concepo de Nietzsche, se existe um projeto de democracia realizvel ou se a democracia se encontra no plano do ideal dos dolos, sendo que seu conceito se oferece apenas como um horizonte inatingvel. A democracia, como hoje conhecida, e tambm como foi definida ao longo de vrios trabalhos notrios, seria meramen-te um espectro palpvel de um dolo democrtico ou essa realizao possvel a sua materializao em si? Noutras palavras, estamos sempre a buscar uma realizao impossvel de democracia ou a democracia deixa de ser um dolo para se apresentar numa forma falha e sensvel, mas, ainda sim, plena nesse prprio jeito de ser?

    Palavras-chave: Democracia; Reconstruo.

    ABSTRACT

    The proposal of this article is to analyse, from the Nietzsche s approach, if there is a realizable democracy project or whether democracy is an ideal from idols and its concept is offered only as an unattainable horizon. Democracy, as we know, as well as defined over several notorious works, would be only a palpable specter of a democratic idol or this possible rea-lization is its realy effectiveness? In other words, are we always searching an impossible realization of democracy or democracy ceases being an idol to be a sensitive and failed shape but also complete in its way?

    Keywords: Democracy; Reconstruction.

    INTRODUO

    Por muito tempo, fruto da filosofia antiga e, de certa forma, tambm da renascentista, a democracia foi erigida a um modelo de dolo, um regime per-feito que deveria ser seguido pelos modelos reais.

    * Mestre e Doutorando em Direito Constitucional pela Universidade de So Paulo. Membro colaborador da Comisso de Direito Constitucional da OAB/SP. Advogado e professor. Cor-respondncia para/Corresponde to: Avenida Jos de Grande, 180, Jardim Parati, Marlia/SP, 17519-470. E-mail: [email protected]

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    Emerson Ademir Borges de Oliveira

    O trabalho de Nietzsche, nessa seara, rompeu com a ideia dos dolos, entre eles a democracia, identificando como quimera a crena em tais tradies ou modelos perfeitos.

    Embora seu trabalho tenha sido de excelente grado nesse tocante, certo que Nietzsche um desconstrutivista. Por essa razo, cabe-nos analisar a questo da idolatria democrtica e, com base na genealogia nietzscheana, tentar construir um modelo realizvel de democracia.

    Nas atuais circunstncias institucionais, a identificao de um modelo de democracia que apresenta graves falhas e ranhuras imprescindvel para saber at que ponto se busca atingir um modelo democrtico, ou se a busca, na verda-de, representa uma iluso vivenciada em pleno seio da democracia.

    Na verdade, a crise institucional brasileira se deve em grande parte s frus-traes decorrentes de se perquirir um modelo inalcanvel e desafinado com a realidade democrtica nacional.

    E justamente na fuga de uma democracia idolatrada que se mostra pleno o caminho para superao dos fundamentos das insatisfaes populares, real-ando-se com mais profundidade os aspectos peculiares da democracia em processo brasileira. A prpria crise de representatividade um dos aspectos, como se ver, em que a perspectiva ideal apenas serve para agredir ainda mais a j combalida instituio da representao popular. Sem uma democracia possvel, o pas lutar eternamente para tentar remediar um ciclo infinito de crise, ata-cando suas consequncias, jamais as causas.

    O objetivo deste trabalho, para alm da desconstruo de Nietzsche, foi abordar, de maneira exemplar, alguns aspectos em que o dolo democracia no advoga em prol das nossas instituies. Menos, aqui, mais; certamente mais realista e factvel.

    EVOLUO FILOSFICA DO PENSAMENTO DEMOCRTICO E DESCONSTRUO NIETZSCHEANA

    Na histria da filosofia, os ps-modernos dedicaram-se a enfrentar algumas questes vangloriadas pelos renascentistas modernos, especialmente a ideia de antropocentrismo e a exacerbao da racionalidade1. Assim, os ps-modernos apresentavam uma crtica dplice, tanto ao humanismo quanto ao racionalismo.

    1 Aps descrever seus mtodos, Descartes observa: Essas longas cadeias de razes simples e fceis, das quais usam os gemetras servir-se para atingir as suas mais difceis demonstraes deu-me azo a imaginar que todas as coisas que podem ser submetidas ao conhecimento dos homens seguem-se do mesmo modo, e que, desde que se possa evitar ter como verdadeira al-guma que no o seja e desde que se consiga conservar sempre a ordem necessria para fazer a deduo uma das outras, no existiro to distintas que no sejam alcanadas, nem to escon-didas que no sejam descobertas. Discurso sobre o mtodo. So Paulo: Hemus, [s.d.]. p. 40-41. A racionalidade que se ope fortemente ao esprito teolgico e metafsico pode ser facilmente captada na obra de Galileu Galilei, O ensaiador.

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    Democracia como dolo?

    Antes, os renascentistas modernos destituram a teoria do cosmos como um mundo perfeitamente delineado, criticando a religiosidade e apresentando o racionalismo como soluo para todo pensamento2. Mas, especialmente, em sua acidez crtica, conduzem o pensamento humanista para o pressuposto de que o ideal deve direcionar o real. Melhor dizendo, o real deve ser moldado para se transformar nos ideais superiores. Entre eles, a democracia.

    Em seu pice, Nietzsche rompe com a teoria grega do cosmos, que lana o homem a um espetculo passivo, e, ao mesmo tempo, com a racionalidade estri-ta dos modernos, que a tudo tenta impingir ordem e sentido. A desconstruo que o filsofo apresenta tornar-se-ia a marca registrada de sua genealogia3.

    A genealogia contrape-se ideia de theoria, formada esta por duas verten-tes: o divino que se busca encontrar e o instrumento utilizado para tentar encontr-lo theion e orao. A busca da essncia exprime-se na ontologia; a viso dessa essncia apreendida pela teoria do conhecimento.

    O materialismo de Nietzsche parte do pressuposto de que no existe nenhum ponto de vista que seja capaz de se abstrair do tecido de foras que constituem a realidade. Nesse ponto, muito relata sobre a impossibilidade de uma pseudoneu-tralidade metodolgica. Todo juzo sobre determinado objeto , em verdade, uma iluso causada pelas prprias concepes daquele que realiza tal juzo4.

    2 Esse pressuposto um pouco distinto em Kant, para quem os juzos de experincia devem se alinhar aos juzos considerados puros para a formao do verdadeiro conhecimento, o que lhe aproxima em muito da construo de Nietzsche, como veremos mais adiante. No se pode duvidar de que todos os nossos conhecimentos comeam com a experincia, porque, com efeito, como haveria de exercitar-se a faculdade de se conhecer, se no fosse pelos objetos que, excitando os nossos sentidos, de uma parte, produzem por si mesmos representaes, e, de outra parte, impulsionam a nossa inteligncia a compar-los entre si, a reuni-los ou separ-los, e deste modo elaborao da matria informe das impresses sensveis para esse conhecimen-to das coisas que se denomina experincia? No tempo, pois, nenhum conhecimento precede a experincia, todos comeam por ela. Mas se verdade que os conhecimentos derivam da ex-perincia, alguns h, no entanto, que no tm essa origem exclusiva, pois poderemos admitir que o nosso conhecimento emprico seja um composto daquilo que recebemos das impresses e daquilo que a nossa faculdade cognoscitiva lhe adiciona (estimulada somente pelas impres-ses dos sentidos); adiantamento que propriamente no distinguimos seno mediante uma longa prtica que nos habilite a separar esses dois elementos. KANT, Immanuel. Crtica da razo pura. So Paulo: Ediouro, [s.d.]. p. 21.

    3 Como ressalta no aforisma 112 de seu A gaia cincia: Chamamos explicao o que nos dis-tingue dos graus de conhecimento e de cincia mais antigos, mas isso no passa de descrio. Sabemos descrever melhor explicamos igualmente pouco como nossos predecessores. NIETZSCHE, Friedrich. A gaia cincia. 2. ed. So Paulo: Escala, [s.d.]. p. 140.

    4 Julgamentos, apreciaes da vida, pr ou contra, no podem, em ltima instncia, jamais ser verdadeiros: o nico valor que apresentam o de serem sintomas em si, esses sintomas no possam de tolices. necessrio, portanto, abrir os dedos para tentar tocar de leve essa finesse extraordinria de que o valor da vida no pode ser apreciado. Nem por um vivo, porque parte, at mesmo objeto do litgio, e no juiz; nem por um morto, por outra razo. NIETZSCHE, Friedrich. Crepsculo dos dolos. So Paulo: Escala, [s.d.]. p. 24.

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    Emerson Ademir Borges de Oliveira

    Isso conduz concluso de que nem existem juzos objetivos em si, como tambm no existem sujeitos realmente livres e autnomos no mundo das ideias, mas sim produtos histricos. Assim, todo fato, a partir do momento em que perpassa por um sujeito, no fato, mas interpretao.

    Como ressalta:

    Os sentidos, que por outro lado so to imorais... eles nos enganam a

    respeito do mundo verdadeiro. Moral: desprender-se da iluso dos sen-

    tidos, do devir, da histria, da mentira a histria no seno a f nos

    sentidos, a f na mentira. Moral: negar tudo o que acrescenta f nos

    sentidos, todo o resto da humanidade: tudo isso faz parte do povo. Ser

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