Dossie Bourdieu

  • View
    43

  • Download
    3

Embed Size (px)

Text of Dossie Bourdieu

  • soci61ogo Pensador mais citado no mundo em sua area, Pierre Bourdieu tem reunidos em Sabre a Estada os cursos que deu entre 1989 e 1992, nos quais repensa 0 papel do Estado e do indivfduo na sociedade LENEIDE DUARTE-PLON, DE PARIS

    A Franc;:a foi paralisada por varios dias em 1995, com greves de trabalhadores do setor publico, do setor privado, alem da de estudantes, que se opunham it reforma das aposentadorias, proposta pelo entao primeiro-ministro de direita, Alain Juppe.

    Na melhor tradic;:ao frances a do intelectual engajado, que remonta ao Sartre da revolta dos estudantes de maio de 1968 e ao Emile Zola do caso Dreyfus, 0 ja renomado soci610go Pierre Bourdieu (1930-2002), juntando a teoria it pnitica, participou ativamente do movimento social e levou pessoalmente sua so-lidariedade aos trabalhadores em greve.

    Em 1999, Bourdieu interpelou a social-democracia euro-peia, incapaz de se opor ao processo de destruic;:ao do Estado de bem-estar social. Hoje, provavelmente estaria ao lade dos "indignados" que protest am contra a submissao do campo

    politico ao poder das financ;:as. Autor de uma obra intelectual monumental, 0 professor do

    College de France - apice da carreira universitaria na Franc;:a - nasceu de pais camponeses e encarnou em sua vida pessoal a meritocracia da Republica Francesa, que 0 levou a cursar filo-sofia na prestigiosa Escola Normal Superior, tornar-se etn6logo e depois sOci610go.

    Ele e hoje 0 segundo intelectual frances mais citado no mundo, superado apenas por Michel Foucault e it frente de Jacques Derrida (terceiro lugar), segundo 0 Instituto de Informac;:ao Cientifica da Thomson Reuters, que faz 0 acompa-nhamento do numero de citac;:6es em publicac;:6es academicas.

    "Bourdieu atravessa as fronteiras das disciplinas e dos paises", diz 0 sOci610go Lolc Wacquant, professor na

    _ n"16(; 121

  • I DOSSIE I

    Universidade de California, em Berkeley, e que foi seu aluno em Paris.

    Hoje, os conceitos de habitus, repro-du

  • se resume a isso, ve-se que ele tenta su-perar a oposi~ao entre 0 Estado opressor (teoria marxista) eo Estado social (cor-rente social-democrata), para pensar sua ambiguidade fundamental.

    o fato de que ele tenha se dedicado a defesa do Estado social no fim de sua vida nao significa que tivesse esquecido as outras "fun~6es" do Estado. 0 Iivro todo e uma prova disso.

    Como Bourdieu veria, a atual cri-se europeia, que amea'ra a unidade do continente?

    Na realidade, essa crise nao e tao di-ferente da que ja se iniciara no final dos anos 1990, alguns anos depois de seu curso sobre 0 Estado. Dai a atualidade de seus escritos posteriores, sobretudo Contrafogos 2, cujo subtitulo e Para urn Movirnento Social Europeu - urn movi-mento de que sentimos enorme neces-sidade hoje, para articular as lutas na Espanha, em Portugal, na Grecia etc.

    o minimo que se pode dizer e que Bourdieu teve muito pouca audiencia e nao foi muito seguido pelas organiza-~6es socia is e sindicais francesas nesse projeto, com exce~ao da organiza~ao sindical SUD.

    Em sua crftica ao neoliberalismo, Bourdieu participou com os opera-rios das greves de 1995, nas fabricas de Paris. Hoje, 0 filosofo Alain Badiou se engaja na luta dos "sans-papiers", os trabalhadores ilegais, sem docu-mentos. 0 intelectual engajado e uma institui'r3.o tipicamente frances a?

    Existe uma especie de tradi~ao cri-tica no mundo intelectual frances que Bourdieu estudou juntamente com a ideia de autonomia do campo intelectuaL Ela te-ria se constituido com dificuldade, contra os poderes temporais, no fim do seculo 19.

    Uma das raz6es de seu engajamento a partir das greves de dezembro de 1995 - que ultrapassaram 0 mundo opera rio, pois englobaram tambem os estudantes, os assalariados do setor publico e, em menor escala, os do setor privado - era de que a autonomia do campo intelec-tual estava amea~ada havia varios anos pelo dominio da midia sobre os campos politico e academico.

    "A emancipa

  • I DOSSIE I INEDITO I

    o

    A crftica marxista torna-se falsa quando esquece de integrar na teoria aquilo contra 0 qual a teoria e construfda PI ERRE BOURDIEU

    Certos autores insistiram no fato de que 0 Parlamento, particularmente o Parlamento ingles, e uma inven

  • "Intelectuais ,.",

    sao como crian~as" Principal herdeiro de Bourdieu, Bernard Lahire critica a sociologia francesa atual por querer "enterrar" sua obra, diz que Max Weber nao teria espa

  • I DOSSIE I

    IIA sociologia atual recusa a volta ao subjetivismo e 0 estudo dos fen6menos de domina~ao e desigualdadell

    Infelizmente porque is so testemu-nha que as l6gicas da moda - 0 "novo" eo "ultrapasado", 0 "atual" e 0 "caduco" - estao no corayao desse universo, quan-do, na verdade, apenas as argumentayoes e provas empiric as deveriam ser levadas em considerayao.

    Mas alem da ruptura com a "so-ciologia de Pierre Bourdieu", e preciso entender que a sociologia [atuall recu-sa 0 retorno ao subjetivismo, a uma sociologia que estuda os fen6menos de dominayao e desigualdade, que "ainda" fala de "classes sociais" ou dos efeitos - estatisticamente comprova-dos - da origem social e das posiyoes socioprofissionais sobre os comporta-mentos sociais, a uma sociologia que poe em evidencia os determinismos sociais etc.

    Quando se fala de Bourdieu, fala--se tambem de Durkheim, Max Weber, Marx, Mauss etc.

    Assim, por outro lado, se entender-mos "infiuencia" como 0 uso de concei-tos ou de modos de pensar atribuidos a tal sOciologia, entao essa infiuencia [de Bourdieul me parece cada vez mais fra-ca na Franya.

    No exterior, a situayao varia mui-to de urn pais para outro. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo, a obra de Bourdieu esta em fase de des-coberta progressiva. Mas a integralidade de seu trabalho ainda esta longe de ser universalmente traduzida elida; sera preciso tempo para isso.

    Pode-se considerar Bourdieu urn "intelectual total", rnesrno tendo criti-cado Sartre justarnente por isso?

    Ele se sentia ao mesmo tempo irri-tado e fascinado pela figura de Sartre. E impossivel que Bourdieu nao tenha pensado em Sartre quando se envolveu no debate publico a partir de 1995.

    Mas tambem era urn "intelectual total", como Sartre, embora de outra maneira: em seu desejo de cobrir uma gama extrema mente variada de proble-mas, dominios e dimensoes da vida so-cial. Sao raros aqueles que trabalharam ao longo da carreira sobre temas como esporte, politica, arte, literatura, cien-cia, moda, escola, direito, desigualda-des culturais, linguagem, filosofia etc.

    Esse era seu modo de encarnar a fi-gura do "intelectual total" - e isso em seu Esbor;:o de Autoanalise (Companhia das Letras).

    o que seu pensamento deve a ele? Eu me formei nos anos 1980 em urn

    contexto pedag6gico no qual todas as sOciologias (ou quase) estavam repre-sentadas: a de Bourdieu, mas tambem a de Alain Touraine e Erving Goffman, o estruturalismo de Levi-Strauss, assim como 0 marxismo etc.

    Sem duvida alguma, nao teria tido vontade de prosseguir na carreira se nao houvesse encontrado em Bourdieu uma sociologia ao mesmo tempo muito rica (que integra grande variedade de questoes e problemas filos6ficos,

  • Pierre Ve:dy/Getttyimages

    _ n"166 127

  • I DOSSIE I

    "Venho de um meio operario; sou um 'milagre social'

    (0 primeiro em min'ha familia a chegar a universidade)"

    situando Bourdieu, em minha opiniao, urn degrau acima de seus concorrentes it epoca) e muito sensivel.

    Uma sociologia que nao deixa nin-guem indiferente, que nao e consensual, que situa as rela~6es de domina~ao no

    cora~ao do mundo social. Eu admirava 0 lado combativo de

    Bourdieu, sua ironia, sua potencia cri-tica. Mas gostava tambem dessa forma de identifica~ao total com a sociologia

    CRONOLOGIA 1930 Nasce em Denguin, Fran~a,

    em lode agosto

    1951 Ingressa na Escola Normal Superior de Paris

    1954 Gradua-se em filosofia e as-sume a fun~ao de professor em Moulins

    1958 Assume 0 cargo de profes-sor-assistente na Faculdade de Letras de Argel, na Argelia; publica seu primeiro livro, Soci%gia da Arge/ia

    1960 Torna-se assistente de Raymond Aron, na Faculdade de Letras de Paris

    que se sente sob sua pluma. Pessoalmente, tenho 0 mesmo ti-

    po de rela~ao com a sociologia, que, para miin, nao e uma atividade como nenhuma outra. E, sob esse ponto de vista, Bourdieu foi urn grande exemplo paramim.

    o senhor cresceu em urn bairro openirio, Como suas origens sociais determinaram a escolha de seus

    1 962 Torna-se secretario-geral do Centro de Sociologia Europeia

    1 964 Ingressa na Escola Pratica de Altos Estudos, na Fran~a

    1968 Publica,juntamente com Passeron e Camboredon, Of[cio de Soci6/ogo (Vozes)

    objetos de estudo e de suas orienta-~6es teoricas?

    A determina~ao jamais e mecfllli-ca, mas e evidente que 0 sociologo faz pesquisa apoiando-se em suas proprias experiencias. Suas escolhas de tema ja-mais sao produtos do acaso.

    De fato, venho de urn meio ope-nhio e sou uma especie de "milagre social" (0 primeiro em minha familia a ter chegado it universidade). Isso me levou a me perguntar sobre as raz6es do fracasso escolar (e tambem do su-cesso, estatisticamente improvavel) nos meios populares.

    Eu queria compreender por que mi-nha irma ou me us primos sempre en-frentaram dificuldades na escola. Queria compreender tambem 0 que havia me conduzido a urn caminho tao incomum.

    Todas as minhas pesquisas (da analise das desigualdades escolares ao estudo da cria~ao litera ria de Kafka, passando pelo estudo das praticas cul-turais) respondem a "necessidades" inteiramente existenciais para mim. Estao, na verdade, no cruzamento en-tre quest6es tanto existenciais pessoais