Droga não tem cor, não tem classe e não tem gênero O ... ?· Droga não tem cor, não tem classe…

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Droga no tem cor, no tem classe e no tem gnero

O estudo mostra que a utilizao de substncias psicoativas no est restrita a um grupo, e que qualquer um est sujeito dependncia qumica, demonstra tambm possibilidades de tratamen-to e os avanos conquistados com elas.

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Estudos de Psicologia I Campinas I 22(2) I 167-174 I abril - junho 2005

11111 Faculdade de Psicologia, Centro de Cincias da Vida, Pontifcia Universidade Catlica de Campinas. Av. John Boyd Dunlop, s/n, Prdio Administrativo, Jd.Ipaussurama, 13060-904, Campinas, SP, Brasil. Correspondncia para/Correspondence to: N.Di M. SABINO. E-mail: .

22222 Faculdade de Cincias Farmacuticas, Centro de Cincias da Vida, Pontifcia Universidade Catlica de Campinas. Campinas, SP, Brasil.

Comunidades teraputicas como forma de tratamentopara a dependncia de substncias psicoativas

Therapeutic communities as an alternative to the psychoactivesubstances dependency treatment

Nathal Di Martino SABINO1

Slvia de Oliveira Santos CAZENAVE2

Resumo

No h um perfil determinado para o usurio de substncias psicoativas. Em diversas pesquisas de diferentes grupos estudados,seja pela faixa etria, gnero, nvel social, econmico ou cultural, h indicao que a utilizao de drogas no restrita a um nicopadro populacional. Este trabalho tem como objetivo, atravs de questionrios respondidos por dependentes em processo derecuperao, colher informaes tanto de sua vida pessoal quanto de sua dependncia a substncias psicoativas, principalmenteaquelas de sua preferncia, abordando como forma de tratamento as comunidades teraputicas. A Secretaria Nacional Antidrogasv as tais comunidades como mais uma abordagem teraputica utilizada atualmente para o uso abusivo de drogas, juntamentecom a psicoterapia analtica, terapia cognitivo-comportamental e preveno de recada, tornando a validao dessa metodologiaimportante no meio cientfico.

Palavras-chave: dependncia de substncias psicoativas; drogas ilcitas; comunidades teraputicas.

Abstract

There is no determined profile for the psychoactive substances users. In various researches of different studied groups whether theyre byage, gender, social, economy or cultural level, indicates that the use of drugs is not restrict to only one population pattern. Throughquestionnaires filled in by addicted patients in process of recovering, this work aimed at gathering information about their personallives, as their dependency of psychoactive substances, mainly those ones of their preference, dealing with Therapeutic Community, as away of treatment. The anti drugs national department see Therapeutic Community as one extra therapeutic approach used currently indrug abuse, together with analytic psychotherapy, cognitive-behaviorist therapy and relapse prevention, becoming important, then,the validation of this methodology in the scientific circle.

Key words: dependency of psycho active substances; drugs street; therapeutic community.

A problemtica do consumo de drogas estcentrada no fator da chamada dependncia. Seibel eToscano (2001, p.137), na obra Dependncia de drogas,atravs de longas discusses sobre todas as questes

envolvidas neste quadro, mostram que esta depen-dncia pode ocorrer quando o uso de algumasubstncia psicoativa abusivo, podendo ainda estarassociada a alteraes neurolgicas ou psiquitricas,

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j que a maioria das substncias provocam alteraesneuropsicolgicas funcionais na vigncia do uso,esquematizando, assim, a ampla variedade de questesenvolvidas nesse fenmeno. De acordo com o ConselhoRegional de Medicina do Estado de So Paulo emconjunto com a Associao Mdica Brasileira(CREMESP/AMB) (2003. p.14), A dependncia umarelao disfuncional entre um indivduo e seu modo deconsumir uma determinada substncia psicoativa,sendo vista como uma sndrome, determinada a partirde diversos fatores de risco, aparecendo em cadaindivduo de maneira distinta.

Segundo Silveira (1995), o dependente uma

pessoa que se encontra diante de uma realidade objetiva

ou subjetiva insuportvel, e no a conseguindo

modificar ou se esquivar, resta-lhe como nica

alternativa a alterao da percepo dessa realidade,

que feita pelo dependente atravs de substncias

psicoativas.

Por meio dessa abordagem, a dependncia pode

ser tratada de diversas maneiras; nesta pesquisa,

destacamos o tratamento em comunidades teraputi-

cas (CT), principalmente devido ao seu crescimento nos

ltimos anos.

As informaes obtidas neste estudo foram

trabalhadas procurando dados que nos revelassem

alguns fatores como, por exemplo: detectar drogas

preferenciais, levantar motivos que levaram o paciente

a dar incio ao consumo de drogas e coletar o nmero

de internaes em CT e/ou outras instituies;

objetivando a compreenso sobre quem o paciente

que vai busca dessas instituies e como elas lidamcom o tratamento para a dependncia de substnciaspsicoativas.

De acordo com Pozas (1996), as CT foram criadas

em 1979 com o intuito de dar uma resposta aosproblemas provenientes da dependncia de drogas,possuindo assim um ambiente que necessariamente

livre das mesmas e uma forma de tratamento em que

o paciente tratado como o principal protagonista de

sua cura. Trata-se de um sistema estruturado, com limitesprecisos e funes bem delimitadas, regras claras e afetoscontrolados, atravs de normas, horrios eresponsabilidades. Toda estrutura para que o pacientese situe totalmente no tratamento, sendo assim, o

trabalho intenso, tanto pela equipe profissional, quantopelos pacientes.

Os objetivos das CT no so s os resultados dotratamento, mas tambm as conseqncias de umareabilitao social envolvendo interveno tambmem outros locais fora do espao da CT (Pozas, 1996).

Hoje, para conseguir lidar com a demanda depacientes que vo busca de CT, a Agncia Nacionalde Vigilncia Sanitria (ANVISA) e a Secretaria NacionalAntidrogas (SENAD) editaram uma resoluo que foicapaz de regulamentar o funcionamento de todas asCT existentes no pas (Agncia Nacional de VigilnciaSanitria, 2001).

De acordo com Serrat (2002, p.2), membro doconselho deliberativo da Federao Brasileira deComunidades Teraputicas (FEBRACT ) e responsvelpela definio do papel das CT atualmente no Brasil,o aumento significativo de CT uma resposta evoluo do consumo de drogas ilcitas por parte dosjovens e, ainda segundo o mesmo autor, quando osprincpios de recuperao, resgate da cidadania,reabilitao fsica e psicolgica e de reinsero socialso corretamente aplicados, os tratamentosapresentam resultados positivos importantes, sendoo objetivo agir nos fatores psicossociais do indivduo,ficando o tratamento medicamentoso por conta deoutros rgos, como hospitais e clnicas especializadas.

No Brasil, temos mais de 80 CT filiadas FEBRACT. Entretanto, a preocupao maior com asclandestinas, para as quais a ANVISA, atravs daresoluo RDC. no101 de 30 de maio de 2001, exigiu ofuncionamento atravs de regulamentao, normas efiscalizao a partir de 2003, o que as submete aosconselhos de entorpecentes estaduais, municipais e do

Distrito Federal e Vigilncia Sanitria.

Quanto eficincia das CT, de acordo com os

dados da FEBRACT, pode-se dizer que, em termos

estatsticos em nvel mundial, 30% a 35% das pessoas

que freqentaram CT deixaram definitivamente deconsumir drogas (Serrat, 2002).

Frente s novas diretrizes estabelecidas para aregulamentao das CT e visando conhecer o perfil depacientes usurios desse servio, nos propusemos aanalis-lo atravs de questionrios respondidos pelosprprios pacientes.

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Mtodo

O mtodo utilizado nesta pesquisa foi a anlisequalitativa das informaes; participaram cinqentapessoas de ambos os gneros, que responderam aoquestionrio voluntariamente, sabendo que oanonimato seria preservado e que estavam partici-pando de um evento realizado pela Febract; apenas26 desses questionrios puderam ser analisadosdevido ao fato de o restante no ter correspondidoaos objetivos da pesquisa, j que os participantes nose declararam como dependentes ou dependentesem recuperao de substncias psicoativas.

Quanto ao procedimento de coleta de dados,foram aplicados questionrios em encontros promo-vidos pela FEBRACT, em participantes que estavamatuando em CT do Estado de So Paulo e que sedispuseram a colaborar com esta pesquisa. Essequestionrio, elaborado pelas autoras e constitudo dedez questes referentes aos objetivos propostos, visoufornecer informaes gerais do paciente emrecuperao, os motivos que o levaram ao uso dedrogas, as substn-cias mais utilizadas e as preferenciais.

As informaes colhidas das respostas aosquestionrios foram, a princpio, agrupadas emcategorias especficas e analisadas de forma compa-rativa atravs do software Statistical Package for SocialSciences (SPSS).

Resultados

Buscando compreender quem o pacienteque busca o tratamento das CT, encontramos que ognero dominante na pesquisa foi o masculino: 92,3%dos questionrios. A idade mdia foi de 36,7 anos. Amaioria dos participantes formada por solteiros e aminoria divide-se eqitativamente entre osparticipantes separados e os que moram junto como(a) companheiro(a).

O primeiro uso de drogas ilcitas ocorreu emmdia por volta dos 15,5 anos, sendo a menor ida