Droga não tem cor, não tem classe e não tem gênero O ... ?· Droga não tem cor, não tem classe…

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Droga no tem cor, no tem classe e no tem gnero

O estudo mostra que a utilizao de substncias psicoativas no est restrita a um grupo, e que qualquer um est sujeito dependncia qumica, demonstra tambm possibilidades de tratamen-to e os avanos conquistados com elas.

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11111 Faculdade de Psicologia, Centro de Cincias da Vida, Pontifcia Universidade Catlica de Campinas. Av. John Boyd Dunlop, s/n, Prdio Administrativo, Jd.Ipaussurama, 13060-904, Campinas, SP, Brasil. Correspondncia para/Correspondence to: N.Di M. SABINO. E-mail: .

22222 Faculdade de Cincias Farmacuticas, Centro de Cincias da Vida, Pontifcia Universidade Catlica de Campinas. Campinas, SP, Brasil.

Comunidades teraputicas como forma de tratamentopara a dependncia de substncias psicoativas

Therapeutic communities as an alternative to the psychoactivesubstances dependency treatment

Nathal Di Martino SABINO1

Slvia de Oliveira Santos CAZENAVE2

Resumo

No h um perfil determinado para o usurio de substncias psicoativas. Em diversas pesquisas de diferentes grupos estudados,seja pela faixa etria, gnero, nvel social, econmico ou cultural, h indicao que a utilizao de drogas no restrita a um nicopadro populacional. Este trabalho tem como objetivo, atravs de questionrios respondidos por dependentes em processo derecuperao, colher informaes tanto de sua vida pessoal quanto de sua dependncia a substncias psicoativas, principalmenteaquelas de sua preferncia, abordando como forma de tratamento as comunidades teraputicas. A Secretaria Nacional Antidrogasv as tais comunidades como mais uma abordagem teraputica utilizada atualmente para o uso abusivo de drogas, juntamentecom a psicoterapia analtica, terapia cognitivo-comportamental e preveno de recada, tornando a validao dessa metodologiaimportante no meio cientfico.

Palavras-chave: dependncia de substncias psicoativas; drogas ilcitas; comunidades teraputicas.

Abstract

There is no determined profile for the psychoactive substances users. In various researches of different studied groups whether theyre byage, gender, social, economy or cultural level, indicates that the use of drugs is not restrict to only one population pattern. Throughquestionnaires filled in by addicted patients in process of recovering, this work aimed at gathering information about their personallives, as their dependency of psychoactive substances, mainly those ones of their preference, dealing with Therapeutic Community, as away of treatment. The anti drugs national department see Therapeutic Community as one extra therapeutic approach used currently indrug abuse, together with analytic psychotherapy, cognitive-behaviorist therapy and relapse prevention, becoming important, then,the validation of this methodology in the scientific circle.

Key words: dependency of psycho active substances; drugs street; therapeutic community.

A problemtica do consumo de drogas estcentrada no fator da chamada dependncia. Seibel eToscano (2001, p.137), na obra Dependncia de drogas,atravs de longas discusses sobre todas as questes

envolvidas neste quadro, mostram que esta depen-dncia pode ocorrer quando o uso de algumasubstncia psicoativa abusivo, podendo ainda estarassociada a alteraes neurolgicas ou psiquitricas,

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j que a maioria das substncias provocam alteraesneuropsicolgicas funcionais na vigncia do uso,esquematizando, assim, a ampla variedade de questesenvolvidas nesse fenmeno. De acordo com o ConselhoRegional de Medicina do Estado de So Paulo emconjunto com a Associao Mdica Brasileira(CREMESP/AMB) (2003. p.14), A dependncia umarelao disfuncional entre um indivduo e seu modo deconsumir uma determinada substncia psicoativa,sendo vista como uma sndrome, determinada a partirde diversos fatores de risco, aparecendo em cadaindivduo de maneira distinta.

Segundo Silveira (1995), o dependente uma

pessoa que se encontra diante de uma realidade objetiva

ou subjetiva insuportvel, e no a conseguindo

modificar ou se esquivar, resta-lhe como nica

alternativa a alterao da percepo dessa realidade,

que feita pelo dependente atravs de substncias

psicoativas.

Por meio dessa abordagem, a dependncia pode

ser tratada de diversas maneiras; nesta pesquisa,

destacamos o tratamento em comunidades teraputi-

cas (CT), principalmente devido ao seu crescimento nos

ltimos anos.

As informaes obtidas neste estudo foram

trabalhadas procurando dados que nos revelassem

alguns fatores como, por exemplo: detectar drogas

preferenciais, levantar motivos que levaram o paciente

a dar incio ao consumo de drogas e coletar o nmero

de internaes em CT e/ou outras instituies;

objetivando a compreenso sobre quem o paciente

que vai busca dessas instituies e como elas lidamcom o tratamento para a dependncia de substnciaspsicoativas.

De acordo com Pozas (1996), as CT foram criadas

em 1979 com o intuito de dar uma resposta aosproblemas provenientes da dependncia de drogas,possuindo assim um ambiente que necessariamente

livre das mesmas e uma forma de tratamento em que

o paciente tratado como o principal protagonista de

sua cura. Trata-se de um sistema estruturado, com limitesprecisos e funes bem delimitadas, regras claras e afetoscontrolados, atravs de normas, horrios eresponsabilidades. Toda estrutura para que o pacientese situe totalmente no tratamento, sendo assim, o

trabalho intenso, tanto pela equipe profissional, quantopelos pacientes.

Os objetivos das CT no so s os resultados dotratamento, mas tambm as conseqncias de umareabilitao social envolvendo interveno tambmem outros locais fora do espao da CT (Pozas, 1996).

Hoje, para conseguir lidar com a demanda depacientes que vo busca de CT, a Agncia Nacionalde Vigilncia Sanitria (ANVISA) e a Secretaria NacionalAntidrogas (SENAD) editaram uma resoluo que foicapaz de regulamentar o funcionamento de todas asCT existentes no pas (Agncia Nacional de VigilnciaSanitria, 2001).

De acordo com Serrat (2002, p.2), membro doconselho deliberativo da Federao Brasileira deComunidades Teraputicas (FEBRACT ) e responsvelpela definio do papel das CT atualmente no Brasil,o aumento significativo de CT uma resposta evoluo do consumo de drogas ilcitas por parte dosjovens e, ainda segundo o mesmo autor, quando osprincpios de recuperao, resgate da cidadania,reabilitao fsica e psicolgica e de reinsero socialso corretamente aplicados, os tratamentosapresentam resultados positivos importantes, sendoo objetivo agir nos fatores psicossociais do indivduo,ficando o tratamento medicamentoso por conta deoutros rgos, como hospitais e clnicas especializadas.

No Brasil, temos mais de 80 CT filiadas FEBRACT. Entretanto, a preocupao maior com asclandestinas, para as quais a ANVISA, atravs daresoluo RDC. no101 de 30 de maio de 2001, exigiu ofuncionamento atravs de regulamentao, normas efiscalizao a partir de 2003, o que as submete aosconselhos de entorpecentes estaduais, municipais e do

Distrito Federal e Vigilncia Sanitria.

Quanto eficincia das CT, de acordo com os

dados da FEBRACT, pode-se dizer que, em termos

estatsticos em nvel mundial, 30% a 35% das pessoas

que freqentaram CT deixaram definitivamente deconsumir drogas (Serrat, 2002).

Frente s novas diretrizes estabelecidas para aregulamentao das CT e visando conhecer o perfil depacientes usurios desse servio, nos propusemos aanalis-lo atravs de questionrios respondidos pelosprprios pacientes.

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Mtodo

O mtodo utilizado nesta pesquisa foi a anlisequalitativa das informaes; participaram cinqentapessoas de ambos os gneros, que responderam aoquestionrio voluntariamente, sabendo que oanonimato seria preservado e que estavam partici-pando de um evento realizado pela Febract; apenas26 desses questionrios puderam ser analisadosdevido ao fato de o restante no ter correspondidoaos objetivos da pesquisa, j que os participantes nose declararam como dependentes ou dependentesem recuperao de substncias psicoativas.

Quanto ao procedimento de coleta de dados,foram aplicados questionrios em encontros promo-vidos pela FEBRACT, em participantes que estavamatuando em CT do Estado de So Paulo e que sedispuseram a colaborar com esta pesquisa. Essequestionrio, elaborado pelas autoras e constitudo dedez questes referentes aos objetivos propostos, visoufornecer informaes gerais do paciente emrecuperao, os motivos que o levaram ao uso dedrogas, as substn-cias mais utilizadas e as preferenciais.

As informaes colhidas das respostas aosquestionrios foram, a princpio, agrupadas emcategorias especficas e analisadas de forma compa-rativa atravs do software Statistical Package for SocialSciences (SPSS).

Resultados

Buscando compreender quem o pacienteque busca o tratamento das CT, encontramos que ognero dominante na pesquisa foi o masculino: 92,3%dos questionrios. A idade mdia foi de 36,7 anos. Amaioria dos participantes formada por solteiros e aminoria divide-se eqitativamente entre osparticipantes separados e os que moram junto como(a) companheiro(a).

O primeiro uso de drogas ilcitas ocorreu emmdia por volta dos 15,5 anos, sendo a menor idadeencontrada de seis anos e a maior de 32 anos,indicando nesta amostra que na fase da adolescnciaque geralmente ocorreu o primeiro contato com asdrogas. A primeira internao teve como mdia a idadede 28,8 anos (Figura1).

De acordo com a Figura 2, observamos que amdia de tempo em que os participantes se encontramsem fazer uso de nenhuma substncia psicoativa ilcita de 2,3 anos, tendo como perodo mnimo quatromeses e mximo oito anos.

O principal motivo que levou ao consumo dotxico foi a curiosidade dos participantes, seguido dainfluncia de amigos, sendo o menos relevante a buscade uma suposta desinibio (Figura 3).

As primeiras drogas usadas pelos participantesforam o lcool e a maconha; porm, as mais utilizadaspelos participantes, quando ainda eram consumidoresde drogas, foram: cocana (principalmente na forma depasta-base, conhecida popularmente como crack),lcool, maconha, solventes, LSD, chs de lrio ecogumelos, ecstasy, herona, anfetaminas, cigarro(tabaco), morfina, entre outras.

Figura 2. Tempo em que os participantes no fazem uso denenhuma substncia psicoativa ilcita.

Figura 1. Idade (anos) na qual se deu o primeiro uso de substnciaspsicoativas, em comparao com a idade em queocorreu a primeira internao do participante.

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Questionandos sobre as internaes, 50% dosparticipantes j passaram por outras alternativas derecuperao em instituies como clnicas especiali-zadas, hospitais psiquitricos, instituies religiosas etc,alm de outras comunidades teraputicas.

Discusso

Silveira (1995) alerta que a grande maioria dosusurios de drogas no e nunca vai ser dependentedo produto; na grande maioria das vezes, a droga procurada como fonte de prazer tanto pelo usuriocomo pelo dependente; o dependente de drogas um indivduo para quem a droga passou adesempenhar um papel central na sua organizao,na medida em que, atravs do prazer, ocupa lacunasimportantes, tornando-se assim indispensvel aofuncionamento psquico daquele indivduo, ou seja,um dependente, ao contrrio do usurio, no podeprescindir da sua droga.

O critrio utilizado pela CID-10 (ConselhoRegional de Medicina do Estado de So Paulo, 2003,p.10) para definir um quadro clnico comodependncia leva em conta os seguintes fatores: umforte desejo ou senso de compulso para consumir asubstncia; dificuldades de controlar o comporta-mento de consumir a substncia em termos de seu

incio, trmino e nveis de consumo; estado deabstinncia fisiolgico ao cessar ou reduzir o uso dasubstncia; evidncia de tolerncia de tal forma quedoses crescentes de substncia psicoativa sorequeridas para alcanar efeitos originalmenteproduzidos por doses mais baixas; abandonoprogressivo de prazeres e interesses alternativos emfavor do uso da substncia; e persistncia no uso dasubstncia, a despeito de evidncia clara deconseqncias manifestantemente nocivas.

Nesta pesquisa no nos cabe dizer qual o graude dependncia psicolgica e/ou fsica do pacienteem recuperao. Sabemos apenas que todos osparticipantes necessitaram de ajuda para conseguireminterromper o uso da droga que lhes causavadependncia. De acordo com Stahl (2002, p.490), esseestgio definido como um estado fisiolgico deneuroadaptao produzido pela administraorepetida da droga, necessitando da administrao paraprevenir o surgimento da sndrome de abstinncia e,ainda quando se pensa no fenmeno da dependnciade drogas, deve-se considerar que a exposio dosindivduos constante e de longo prazo. As dosesvariam de acordo com o usurio que procura obterum efeito agudo da substncia, relacionado ao seubem-estar. Em funo desse efeito desejado que ousurio de droga elege uma determinada substnciae uma via de introduo adequada para o tempo de

Figura 3. Motivo que levou o participante a usar a droga pela primeira vez.OBS: Nesta questo, os participantes tinham a liberdade de escolher mais de uma opo

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manifestao do efeito. Isso significa que quanto maior a necessidade, maior tambm a urgncia de usoda droga, ou seja, quanto maior a compulso, a via deadministrao escolhida ser aquela de maiorvelocidade de distribuio pelo organismo. Deve-seconsiderar ainda que, dependendo da via deintroduo, a droga poder ser administrada em maiorconcentrao, aumentando a intensidade do efeito ereforando a compulso (Cazenave, 1999).

Segundo a CID-10, encontramos dentro dadependncia dois fenmenos tambm muitoimportantes: a tolerncia (necessidade de quantida-des aumentadas da substncia para atingir intoxicaoou efeito desejado) e a abstinncia (sndrome queocorre quando se interrompe o uso do txico,causando malefcios que tendem a levar o dependentea querer voltar a consumir a droga).

As drogas utilizadas pelos participantes podemser classificadas em trs grupos: estimulantes:estimulam a atividade mental (anfetaminas, cocana,crack, ecstasy, nicotina); depressores: deprimem aatividade cerebral, fazendo-os agir de maneiramais lenta (lcool, pio, morfina, herona); ealucingenos/perturbadores: alteram o funciona-mento cerebral, geralmente produzindo alucinaese delrios (LSD, maconha).

Os resultados desta pesquisa indicaram que as

drogas mais utilizadas pelos participantes deste estudo

foram a cocana e o lcool; correspondendo perfeita-

mente aos resultados dos casos triados entre 1991 e1994 pelo Programa de Orientao e Assistncia aDependentes (PROAD), nos quais as drogas maisutilizadas foram a cocana (principalmente na formade crack) e o lcool (Silveira, 1996).

Sobre o efeito da droga, Kalina e Kovadloff

(1988, p.22) nos dizem que o dependente sempre

dominado por angstias e temores cuja intensidade

os transforma em sentimentos inteiramente insuport-

veis para seu ego e, sob o efeito da droga, a sensao

de fragilidade substituda por um sentimento de

extraordinria consistncia e fora: a iluso de ter

conseguido superar o fracasso do ego.

Notamos que grande parte dos participantes

fez uso de drogas lcitas como o lcool e o cigarro, que

tambm possuem um alto potencial de abuso,

juntamente com outras. Porm, essas no so tratadasde maneira to profunda, devido sua questopoliticamente determinada.

O incio do uso do txico, de acordo com estapesquisa, ocorreu em grande parte por curiosidade,sendo seguida de uma possvel influncia de amigosque estimularam o uso de drogas, j que tambmpudemos concluir que foi na adolescncia o primeirocontato com a mesma. Essa poca, segundo Bee (1997,p.375), quase por definio, uma poca de transio,uma poca em que existem mudanas significativasem quase todos os aspectos da criana e nos seusestudos sobre substncias psicoativas nesse perododa vida, o autor nos diz que adolescentes que abusamde substncias so altamente propensos a tervivenciado problemas de comportamento em idadesanteriores, a ter tido registros deficientes na escola,uma rejeio anterior por parte dos companheiros,negligncia em suas casas, ou uma combinao detodos esses problemas, em anos iniciais de suas vidas.

Percebemos que grande parte dos participantesfez o primeiro uso por curiosidade e vontade de sedesinibir; com o efeito dessas substncias sobre oorganismo, foram mais bem-recebidos pelo grupo aoqual pertenciam ou queriam pertencer, elevando assimsua auto-estima. A dissertao de mestrado de Oliveira(1997) apresentou os mesmos resultados, provandoque os motivos sociais de incentivo ao incio do usode psicoativos, h sete anos, continuam sendo osmesmos nos dias de hoje.

Os participantes desta pesquisa so pessoasque estavam atuando como profissionais (semnenhuma formao especfica na rea), auxiliando nasatividades da CT. O nmero de questionrios aplicadosdeve-se ao pequeno acesso permitido nas prpriasCT, e serviu como entrada preliminar para outrosprojetos.

Frente ao quadro atual de consumo de drogas,ocorre uma ampliao do nmero de instituiesvoltadas para o tratamento da dependncia. Existematualmente trs modelos teraputicos: internaohospitalar, que de curta durao e, s vezes, utilizam--se medicamentos, alimentao balanceada e repouso;clnicas especializadas e/ou particulares, nas quais otratamento feito a mdio ou a longo prazo,atendendo na maioria das vezes pacientes de alto

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poder aquisitivo; e as CT, que apresentam uma amplaflexibilidade a fim de adaptar-se a vrias culturas e nveissociais, trabalhando basicamente em trs linhas deatuao: espiritual (trabalha-se com religiosidade e apoiode ex-internos), cientfica (psiclogos, mdicos,assistentes sociais e voluntrios de diversas reas) emista (unio das duas citadas anteriormente).

O objetivo dessas instituies o de promoveruma transformao da personalidade do indivduo, umamadurecimento pessoal e favorecer sua reinsero sociedade. Para isso, criam-se novos valores comoespiritualidade, responsabilidade, solidariedade,honestidade e amor.

As CT so um modelo de tratamento residencialutilizado durante muito tempo para pacientes compatologias psiquitricas crnicas. Seu funciona-mento fundamentado na premissa de que, quando no se possvel promover mudanas no indivduo dependente,passa a ser necessrio alterar a sua condio, seu meioambiente e remov-lo da situao onde o consumoocorre. O processo teraputico focaliza intervenespessoais e sociais, atribuindo funes, direitos eresponsabilidades ao indivduo dependente emambiente seguro em relao ao consumo de drogas.

As caractersticas dessa abordagem detratamento, segundo o Instituto Nacional sobre Abuso

de Drogas dos Estados Unidos (NIDA), Lavara (2004), so

ambientes residenciais, livres de substncias txicas,

que usam como modelo hierrquico etapas de

tratamento que refletem nveis cada vez maiores de

responsabilidade social e pessoal. utilizada a influncia

de companheiros para ajudar cada pessoa a aprender e

assimilar as normas sociais e desenvolver habilidades

cada vez mais eficazes.

De acordo com Kalina e Kovadloff (1988), o termo

comunidade teraputica foi primeiro usado por

Maxwell Jones, que dirigia o hospital Dingleton, na

Esccia. O Dr. Jones era um psiquiatra preocupado com

o fato de que a psiquiatria tradicional parecia no estar

ajudando os pacientes. Para solucionar esse problema,

convidou vrios profissionais distintos para o que

chamou de reunio mundial, visando investigar como

falar diretamente com seus pacientes em seu prprio

nvel, procurando assim desmistificar a imagem

autoritria do hospital, insistindo bastante na idia de

auto-ajuda, de ajuda mtua, de que todos deveriamtrabalhar juntos para ajudarem a si mesmos e aosdemais.

Segundo Baukeland (1995), a viso bsica ehumanitria das CT a de que todos podem crescer e,para isso, precisam da ajuda dos outros companheiros,j que os residentes so vistos como capazes de possuirresponsabilidade e, frente a isso, podem confrontar umao outro para a obteno de maior honestidade ematuridade.

Poulopoulos (1995) diz que as CT querem darao indivduo o direito reabilitao, em oposio sidias de marginalizao dadas queles queconsomem drogas ilcitas.

A Senad diz que, na etapa de recuperao, necessrio que a CT se constitua em instrumento capazde romper o vicioso crculo consumo/tratamento paragrande parte dos envolvidos, tratando de formadefinitiva e evitando reincidncia na dependncia depsicoativos.

Kalina e Kovadloff (1988) definem que oselementos centrais das CT so: 1) A CT um elementosocial. Esse sistema social deve facilitar uma aprendiza-gem que, em si mesmo, teraputica; 2) O sistema uma ordem organizada atravs das normas deconvivncia e do enquadramento de tarefas; 3) O enqua-dramento e a normatividade baseiam-se no conceitoda abstinncia das drogas, enquanto se realiza oaprendizado; 4) O trabalho concreto na instituio abase da disciplina institucional e de uma educao naco-responsabilidade; 5) A CT tem hierarquias de acordocom as conquistas que cada residente tenha feito e noconhecimento de si mesmo, no trabalho sobre os outrose nas lideranas positivas que possa ir progressivamenteassumindo; 6) As mudanas na instituio seconcretizam atravs da mobilidade social, que implicaa transmisso de tarefas e de responsabilidadescrescentes na CT hierrquica; 7) A CT uma sistemticade grupo, onde cada um dos grupos responde adiferentes necessidades dos residentes. Alguns seguemos alinhamentos tpicos dos grupos teraputicos. Outrostero como funo atacar os comportamentos negativospara a sobrevivncia do grupo e procuraro reforar asconquistas positivas e a estrutura grupal; 8) A

possibilidade de mudana mediatiza-se atravs da

funo de sustentao que tem a instituio; 9) A forateraputica por excelncia o grupo de pares, a mudana

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precisa da interao entre os residentes. O viciadorecuperado integrado equipe mdica funciona comoum modelo de papel til em todo o projeto teraputico(obs.: esses formam os participantes desta pesquisa); 10)A famlia est continuamente envolvida, de modo geral,em trs nveis: participando da reunio semanal deterapia e da reunio mensal multifamiliar e, quandobons nveis de recuperao so alcanados, ajudandoem projetos preventivos ou integrando a associao depais, com a finalidade de trabalhar socialmente no temada toxicomania e 11) A CT fracassar em seus propsitosse o residente no for reconhecido em sua singularidadeno apenas por meio de um ato teraputico individual,mas fundamentalmente atravs de uma escutainstitucional de sua histria de vida.

Um outro aspecto que deve ser ressaltado aabertura das CT para outros grupos de ajuda, comoAlcolicos Annimos (AA), Narcticos Annimos (NA)e Amor Exigente; o que possibilita aos internos, atravsdas partilhas de sentimentos e situaes, conheceremas experincias pelas quais os companheiros jpassaram, o que de grande valia, alm do carinho doacolhimento que os participantes desse grupo recebeme tambm propiciam para os outros. Dessa maneira,Fracasso (2002) diz que cada um se torna terapeuta desi mesmo e dos outros do grupo.

Segundo Serrat (2002), a CT um programa muitobom, haja vista sua aplicao no mundo todo.

Porm, essa metodologia de tratamento para adependncia de substncias psicoativas ainda requerdiversos estudos para averiguar se o isolamento domundo em que havia o convvio com a droga no podeocasionar, no momento de sada da CT, uma recadadevida desadaptao social, j que a abstinnciaocorreu em um ambiente de privao tanto dasubstncia quanto do grupo social.

Devido s CT se basearem principalmente naajuda mtua, ou seja, novos pacientes geralmente somais auxiliados por pacientes que j conseguirammanter um determinado perodo sem utilizarsubstncias psicoativas ilcitas, essa abordagem se tornaquestionvel, pois no sabemos at quando a ajuda deum profissional especializado pode ser substituda porum outro interno, j que alguns casos exigem umaateno direcionada e especfica. Ressaltando tambmque este fato no ocorre em todas as instituies

denominadas comunidades teraputicas, e tambm noso todas que aplicam esta total substituio, j quemuitas instituies possuem uma equipemultiprofissional.

As CT tambm devem atentar para seu objetivode atender pacientes dependentes de substnciaspsicoativas que almejam uma recuperao, poisalgumas vezes encontramos pacientes usuriosocasionais (no-dependentes), internaes indiscrimi-nadas, pacientes com outros diagnsticos psiquitricosassociados dependncia - o que requer umtratamento mais especfico - e tambm internaesutilizadas pela famlia do paciente com carter punitivo.

As CT devem, seguindo as normas definidaspela Febract, definir critrios de admisso, assim comocritrios de alta, atentando tambm para oprocedimento de reinsero social do paciente.

Para um tratamento vlido, os dependentes desubstncias psicoativas devem, primeiramente,acreditar que a recuperao possvel, e para issodevem contar com a experincia daqueles queestudam para lidar com essa problemtica, para daremapoio e sada para que os fteis momentos de duraodo efeito de uma droga no se sobreponham quelesde sobriedade.

Concluso

A dependncia de drogas o desejocompulsivo de obteno da substncia, a qualquercusto, sendo uma necessidade tanto biolgica (devido neuroadaptao) quanto psicolgica.

A CT a forma de tratamento utilizada pelosparticipantes, tratando-se, portanto, de umametodologia de internao em que o paciente oprincipal responsvel pelo seu tratamento; sendoauxiliado, porm, por companheiros do grupo, assimcomo por alguns profissionais da rea da sade. Oprocesso teraputico focaliza intervenes sociais,atribuindo funes, direitos e responsabilidades aosindivduos em tratamento.

Referncias

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Recebido para publicao em 8 de setembro de 2004 e aceito em13 de abril de 2005.

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