Enciclopédia Einaudi - (1984b).pdf · Enciclopédia Einaudi volume 1 Memória - História Memória…

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  • Enciclopdia Einaudi volume 1

    Memria - Histria

    Memria (Jacques Le Goff) Coleco (Krzysztof Pomian) Fssil (Jacques Barrau) Documento /monumento (Jacques Le Goff ) Runa / restauro (Carlo Carena) Atlas (Ugo Tucci) Histria (Jacques Le Goff) Calendrio (Jacques Le Goff) Passado / presente (Jacques Le Goff ) Idades mticas (Jacques Le Goff) Progresso 1 reaco (Jacques Le Goff) Antigo /moderno (Jacques Le Goff) Decadncia (Jacques Le Goff) Escatologia (Jacques Le Goff)

    459 Plano da obra 460 Grfico

    IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA O 1984

  • Se se tentasse fazer o inventrio do contedo de todos os museus e de todas as coleces particulares, mencionando apenas uma vez cada categoria de objectos que a se encontram, um livro grosso no seria suficiente. S em Paris, existem, ao que parece, cento e cinquenta museus: existem museus de arte, evidentemente, mundialmente conhecidos, mas tambm os de l'Arme, de Ia Chasse et de Ia Nature, du Cinman, de la Contrefaon, de la Franc-Maonnerie, de 1'Histoire de France, de 1'Histoire Naturelle, ade l'Homme, des Lunettes et des Lorgnettes de jadis, de Ia Marine~, adu Phonographe, de Ia Parole et du Gesto, de la Serrurerie, de la Tablen, ades Techniquess, para citar apenas alguns. Quanto s coleces particulares, deparam-se-nos os objectos mais inesperados que, pela sua banalidade, pareceriam incapazes de suscitar o mnimo interesse. Enfim, pode-se constatar sem risco de errar que qualquer objecto natural de que os homens conhecem a existncia e qualquer artefacto, por mais fantasioso que seja, figura em alguma parte num museu ou numa coleco particular. Mas, como se pode ento caracterizar, em geral, e sem ceder 2s tentaes do inventrio, este universo composto de elementos to numerosos e heterclitos? O que tm de comum uns com os outros?

    As locomotivas e os vages reunidos num museu ferrovirio no transportam nem os viajantes nem as mercadorias. As espadas, os canhes e as espingardas depositadas num museu do exrcito no servem para matar. Os utenslios, os instrumentos e os fatos recolhidos numa coleco ou num museu de etnografia no participam nos trabalhos e nos dias das populaes rurais ou urbanas. E assim com cada coisa, que acaba neste mundo estranho, onde a utilidade parece banida para sempre. No se pode, com efeito, sem cometer um abuso de linguagem, alargar a noo de utilidade a ponto de a atribuir a objectos cuja nica funo a de se oferecerem ao olhar: s fechaduras e s chaves que no fecham nem abrem porta alguma; s mquinas que no produzem nada; aos relgios de que ningum espera a hora exacta. Ainda que na sua vida anterior tivessem um uso determinado, as peas de museu ou de coleco j no o tm. Assimilam-se assim a obras de arte que no tm uma finalidade utilitria, enquanto produtos para ornamentar as pessoas, os palcios, os templos, os apartamentos, os jardins, as ruas, as praas e os cemitrios. Todavia, no se pode dizer que as peas de coleco ou de museu estejam l para decorar. Porque decorar, dispondo quadros e esculturas, significa quebrar a monotonia das paredes vazias que j existem para torn-las

    jaranhaRef. ediesOriginalmente publicado em 1978, em italiano.Republicado em francs como "Entre le visible et l'invisible", in Collectionneurs, Amateurs et Curieux - Paris, Venise: XVIe-XVIIIe sicle. Paris, Gallimard, 1987.

    jimNoteAccepted set by jim

    jimNoteNone set by jim

  • agradveis. Pelo contrrio, nos museus e nas grandes coleces particulares levantam-se ou arranjam-se paredes para a dispor as obras. Quanto aos coleccionadores mais modestos, mandam construir vitrines, preparam lbuns ou libertam, de uma maneira ou de outra, locais onde seja possvel dispor os objectos. Tudo se passa como se no houvesse outra finalidade do que acumular os objectos para os expor ao olhar. Ainda que no tenham qualquer utilidade e nem sequer sirvam para decorar os interiores onde so expostos, as peas de coleco ou de museu so todavia rodeadas de cuidados. Para reduzir ao mnimo os efeitos corrosivos de factores fsico-qumicos, submetem-se a um controlo atento variveis tais como a luz, a humidade, a temperatura, a poluio do ar, etc. ; restauram-se sempre que possvel os objectos estragados; expem-se os objectos de modo a que apenas seja possvel v-los e no toc- -los. Mas o carcter precioso das peas de coleco ou de museu manifesta-se tambm na existncia de um mercado em que circulam, atingindo por vezes preos quase astronmicos. Quando um auto-retrato de Rembrandt foi vendido em 29 de Novembro de 1974 no Palcio Galliera, em Paris, pela soma de 1 100 570 francos, um dos jornalistas especializados achou esta soma absurdamente pequena [Melikian 19741. A par deste mercado oficial existe um outro, clandestino e alimentado pelos objectos roubados nas coleces particulares e nos museus. S em 1974 foram furtadas na Europa 4785 telas de grandes mestres. E no se roubam s obras-primas, mas tambm objectos que, embora sendo menos espectaculares, aos olhos dos coleccionadores possuem todavia um grande valor. O grande problema destes ltimos e dos conservadores de museus , assim, a proteco dos objectos contra o furto. Existe, para este fim, todo um sistema de vigilncia: a presena de um comissariado de polcia no Grand Palais em Paris, onde tm lugar as exposies das obras mais prestigiadas, pode simboliz-lo. Numa palavra, os coleccionadores e os conservadores dos museus comportam-se como os guardas, dos tesouros.

    Sendo assim, pode parecer surpreendente que estes tesouros, ao contrrio dos que repousam nos cofres fortes e nas casas-fortes blindadas dos bancos, estejam visveis. Mais surpreendente ainda o facto de os proprietrios a maior parte das vezes no tirarem proveito destes tesouros. Claro que se conhecem coleces acumuladas com um fim claramente especulativo. E tambm verdade que muitas vezes as coleces particulares se dispersam depois da morte daqueles que as constituram, trazendo dinheiro aos seus herdeiros. Todavia, nem sempre assim: podem citar-se dezenas de coleces transformadas em museus, por exemplo os museus CognacqlJay, Jacquemart- -Andr e Nissim de Camondo em Paris; o Museu Ariana em Genebra, os museus Lazare Galdiano em Madrid e Frederico Mars em Barcelona, a Fundao Peggy Guggenheim em Veneza, a Gardner House em Boston ou a Frick Collection em Nova Iorque. Portanto, impossvel reduzir a formao de uma coleco particular ao puro e simples entesouramento e isto ainda mais evidente quando se trata de museus. De facto, os objectos que possuem so, em geral, inalienveis; no se tenta vend-los mesmo em caso de grandes dificuldades financeiras. A nica excepo conhecida no sculo ( a venda dos quadros do Museu Ermitage, em Leninegrado, pelo governo sovitico,

  • entre 1929 e 1937 [Mercillon e Grgory 19751. Mesmo os museus que se reservam o direito de vender certas peas que possuem, como o Museum of Modern Art de Nova Iorque, fazem-no apenas para comprar outras e alargar assim o leque de estilos e de tendncias que a esto representadas. No se contentando em manter os objectos fora da circulao por um tempo limitado, como fazem todos os colecionadores particulares, o museu esfora-se por ret-los para sempre.

    O mundo das coleces particulares e o dos museus parecem completamente diferentes. Apesar das poucas observaes feitas, ainda que provisrias, pode-se j entrever a unidade, salientar o elemento comum a todos estes objectos, to numerosos e heterclitos, que so acumulados pelas pessoas privadas e pelos estabelecimentos pblicos. portanto possvel circunscrever a instituio de que nos ocupamos: uma coleco, isto , qualquer conjunto de objectos naturais ou artificiais, mantidos temporria ou definitivamente fora do circuito das actividades econmicas, sujeitos a uma proteco especial num local fechado preparado para esse fim, e expostos ao olhar do pblico. evidente que esta definio tem um carcter rigorosamente descritivo, e tambm evidente que as condies que um conjunto de objectos deve satisfazer para que seja possvel consider-lo uma coleco excluem, por um lado, todas as exposies que so apenas momentos do processo da circulao ou da produo dos bens materiais, e, por outro, todas as acumulaes de objectos formadas por acaso e tambm aqueles que no esto expostos ao olhar (como os tesouros escondidos), qualquer que seja o seu carcter. Vice-versa, estas condies so satisfeitas no s pelos museus e pelas coleces particulares, mas tambm pela maior parte das bibliotecas e dos arquivos. Todavia, necessrio lembrar, de uma vez por todas, que os arquivos se devem distinguir dos depsitos de actos oficiais, inseridos, estes ltimos, no circuito das actividades econmicas ou administrativas. Mas exactamente assim que os definem os especialistas, que vm neles uma instituio destinada a pr em segurana, recolher, classificar, conservar, guardar e tornar acessveis os documentos que, tendo perdido a sua antiga utilfdade quotidiana e considerados por isso suprjfluos nas reparties e nos depsitos, merecem todavia ser preservados [Buchalski, Konarsky e Wolff 19521. O caso das bibliotecas mais complicado. Acontece de facto que os livros so tratados enquanto objectos, isto , que se coleccionam as belas encadernaes, as obras ilustradas, etc. Neste caso, o problema no existe, como no existe quando uma biblioteca desempenha a funo de arquivo ou quando contm apenas obras de entretenimento. Existem todavia bibliotecas que recolhem unicamente livros de onde se extraem as informaes necessrias ao exerccio das actividades econmicas; estas bibliotecas no podem ento ser assimiladas 2s coleces.

    Voltar-se- a falar das bibliotecas e dos arquivos, e tambm do problema posto pela coexistncia nas nossas sociedades de dois tipos de coleces: a coleco particular e o museu. Para superar a fase da descrio, que permitiu definir a coleco mas que parece no levar mais longe, preciso comear por evidenciar um paradoxo contido implicitamente na prpria definio. O paradoxo o seguinte: por um lado, as peas de