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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Programa de Pós-Graduação em Letras GREVE DE PROFESSORES: uma análise de práticas discursivas de poder, manipulação e resistência Rosilene Maria Nascimento Belo Horizonte 2010

GREVE DE PROFESSORES: uma análise de práticas … · FICHA CATALOGRÁFICA Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Nascimento, Rosilene Maria

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Programa de Pós-Graduação em Letras

GREVE DE PROFESSORES: uma análise de práticas discursivas de poder,

manipulação e resistência

Rosilene Maria Nascimento

Belo Horizonte

2010

Rosilene Maria Nascimento

GREVE DE PROFESSORES: uma análise de práticas discursivas de poder,

manipulação e resistência

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Linguística e Língua Portuguesa. Orientador: Prof. Dr. Paulo Henrique Aguiar Mendes

Belo Horizonte 2010

FICHA CATALOGRÁFICA Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Nascimento, Rosilene Maria N244g Greve de professores: uma análise de práticas discursivas de poder,

manipulação e resistência / Rosilene Maria Nascimento. Belo Horizonte, 2010

127f. : Il. Orientador: Paulo Henrique Aguiar Mendes

Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Programa de Pós-Graduação em Letras.

Bibliografia. 1. Análise crítica do discurso. 2. Oratória política. 3. Professores - Greves.

4. Mídia (Publicidade). 5. Ideologia. I. Mendes, Paulo Henrique Aguiar. II. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós- Graduação em Letras. III. Título.

CDU: 800.855

Rosilene Maria Nascimento

Greve de professores: uma análise de práticas discursivas de poder, manipulação e resistência.

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Linguística e Língua Portuguesa.

Prof. Dr. Paulo Henrique Aguiar Mendes – PUC Minas Orientador

_______________________________________________________________

Prof. Dr. Hugo Mari – PUC Minas _______________________________________________________________

Prof. Dr. Cláudio Humberto Lessa – PBH

Belo Horizonte, ____de__________________de 2010.

Dedico este trabalho a primeira pessoa que me falou sobre organização coletiva de trabalhadores, meu pai.

(in memoriam 21/04/40 a 21/01/2010)

“Lembrá-lo não significa contar e recontar sua história (...). Significa fazê-lo participar da obra

contínua que se constrói em mim” (Henri J.M.Nouwen)

AGRADECIMENTOS

A minha mãe; que com toda doçura acolheu-me tantas vezes nesta árdua

empreitada.

Ao meu irmão, Rogério Luiz Nascimento; por não me deixar desistir das

corridas de rua; e, por ser o maior amigo do mundo!

Ao Sandoval Antônio dos Reis, meu companheiro, pela confiança, incentivo e

pelo respeito dedicado a mim e, sobretudo, a este trabalho.

Ao SindRede, que disponibilizou o material necessário a esta pesquisa,

sempre com total atenção e cuidado à mim dispensados.

Ao meu orientador, Professor Dr. Paulo Henrique Mendes Aguiar, meus

sinceros agradecimentos, por aceitar orientar este projeto de pesquisa, solidarizar-se

com a questão proposta, além de uma postura fraterna e tão respeitosa, em relação

a esta escrita.

Aos professores (as) do Curso de Mestrado em Letras; em especial, ao

Professor Dr. Hugo Mari, pela disponibilidade e abertura em acolher as nossas

questões.

Ao Professor Dr. Cláudio Humberto Lessa, que conjuga tão bem competência

e solidariedade e que aceitou, gentilmente, compor esta banca.

Às minhas irmãs Renata Nascimento Marques e Liliane Braga Nascimento

pelo amor, compreensão, amizade e confiança a mim dedicados.

Aos grandes amigos (as) de uma vida inteira; Adriana Resende, Adriane,

Daniela Scarpa e Luiz Adriano que acompanharam, pacientemente, todo esse

processo; e, certamente, me ajudaram a sustentar o meu propósito. Em especial,

aqueles que contribuíram com questões extremamente pertinentes a esta pesquisa:

Charles Moreira Cunha,Joaquim Ramos e Nilmara Braga.

A todos (as) colegas do Curso de Mestrado em Letras. Um agradecimento

especial à amiga Lígia Ribeiro, pela parceria de escrita e pela amizade construída.

RESUMO

Esta dissertação apresenta uma análise dos discursos entrevistos nas práticas discursivas entre o Sindicato

Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (SindUTE-MG) e Prefeitura Municipal de

Belo Horizonte (PBH), midiatizados pela imprensa escrita -, o jornal Estado de Minas (EM).

Foram analisados índices discursivos que pressupõem relações de confronto ideológico, poder

hegemônico, dominância e resistência. Estes índices permitiram-nos observar que o projeto

ideológico neoliberal é operacionalizado através dos discursos da PBH e do EM, que constituem

uma base hegemônica, naturalizando tal ideologia e fazendo-a progredir em muito dos seus

aspectos. Em relação ao jogo político e à orientação argumentativa, percebemos que os discursos dos

atores sociais assumem diferentes configurações semânticas que são limitadas pelo momento

histórico da enunciação; pelo lugar político-institucional que ocupam; pela posição identitária

(constituída por seus modelos pessoais e sociais) e pelo discurso do outro que atravessa o seu dizer - lugar

onde se instaura a polêmica; onde 'outros' sentidos são construídos. Tal procedimento se baseou na

abordagem dialógica bakhtiniana, por ocasião da apreensão da heterogeneidade discursiva; e do

referencial teórico-metodológico proposto pela Análise Crítica do Discurso (ACD), desenvolvida por

Fairclough (2001), que compreende o caso discursivo em três dimensões interligadas, mas

analiticamente separáveis: o texto; o discurso (que envolve práticas de produção e interpretação) e a

prática social. Além destes, utilizamos Dijk (2008) ao analisar práticas de dominação e

manipulação; e Thompson (2007) ao oferecer categorias analíticas de operacionalização ideológica.

Trata-se, pois, de uma pesquisa que pretende, através da análise, como propõe a ACD, desvelar

relações políticas de dominância e construções ideológicas, que se tornam, intencionalmente, opacas

nos discursos produzidos em situação de greve, fazendo circular imaginários que atendem a interesses

específicos.

Palavras-Chave: Análise Crítica do Discurso, discurso político, greve, mídia, ideologia, dominação

RÉSUMÉ

Ce mémoire présente une analyse des discours dans les pratiques discursives entrevu entre le

Syndicat Unique des Travailleurs de L'éducation de Minas Gerais (SindUTE-MG) et la Mairie

de Belo Horizonte (PBH), médiatisés par la presse écrite - le journal Estado de Minas (EM).

Les indices discursifs ont été analysés et ils supposent relations de la confrontation

idéologique, de la puissance hégémonique, de la domination et de la résistance. Ces indices

nous ont permis d’observer que le projet néolibéral idéologique est mis en œuvre par les

discours de PBH et EM, qui constituent une base hégémonique et qui font la naturalisation de

telle idéologie et son progrès dans de nombreux aspects. En ce qui concerne le jeu politique et

l'orientation argumentative, nous avons remarqué que le discours des acteurs sociaux

assument différentes configurations sémantiques qui sont limitées par le moment historique

de l'énonciation; par la place politique et institutionnelle qu'ils occupent; par la position de

l'identité (composée de leurs modèles personnelle et sociale) et par le discours d’autre qui

traverse votre mot à dire - où la controverse est établi et où «d'autres» significations sont

construites. Cette procédure a été basée sur une approche dialogique bakhtinienne, lors de la

saisie de l'hétérogénéité discursive, et le cadre théorique et méthodologique proposée par

Analyse Critique du Discours (ACD), développé par Fairclough (2001), qui comprend le cas

discursif dans les trois dimensions interdépendantes, mais analytiquement séparables: le texte,

le discours (ce qui implique des pratiques de production et d'interprétation) et la pratique

sociale. En plus ceux-ci, nous utilisons Dijk (2008) pour examiner les pratiques de domination

et de manipulation, et Thompson (2007) pour fournir des catégories analytiques du

fonctionnement idéologique. Il s’agit, par conséquent, d’une recherche qui vise, par l'analyse,

tel que proposé par l'ADC, révéler de relations politiques de domination et de constructions

idéologiques, qui deviennent, volontairement, opaques dans le discours produit en situation de

grève, en faisant circuler imaginaires qui répondent intérêts spécifiques.

Mots-clés: Analyse Critique du Discours, discours politique, grève, médias, idéologie,

domination.

LISTA DE QUADROS

Quadro 1 Memória e modelos___________________________________________47

Quadro 2 Ciclo de processamento da memória_____________________________48

Quadro 3 FDs distintas_________________________________________________66

Quadro 4 Cronologia da greve __________________________________________79

Quadro 5 Modos de operacionalização ideológica: a reificação _______________82

Quadro 6 Democratização discursiva_____________________________________85

Quadro 7 Comodificação nas notas oficiais________________________________88

Quadro 8 Práticas manipulativas ________________________________________99

LISTA DE ABREVIATURAS

abr. abril

ago. agosto

coord. coordenador

dez. dezembro

ed. edição

f. folhas

fev. fevereiro

jan. janeiro

jul. julho

jun. junho

mar. março

n. número

nov. novembro

org. organizador

out. outubro

p. página

set. setembro

v. volume

vs. versus

LISTA DE SIGLAS

ACD - Análise Crítica do Discurso

CGT - Central Geral de Trabalhadores

CUT - Central Única de Trabalhadores

EM - Jornal Estado de Minas

PBH - Prefeitura Municipal de Belo Horizonte

SindUTE-MG - Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais

USI - União Sindical Independente

FD - Formação Discursiva

LTM - Long Term Memory

STM - Short Term Memory

MLP - Memória de Longo Prazo

MCP - Memória de Curto Prazo

11

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................ 11 1.1 Justificativa da pesquisa ............................................................................................................... 13 1.2 Objetivos ........................................................................................................................................ 15 1.2.1 Objetivo geral............................................................................................................................... 15 1.2.2 Objetivos específicos.................................................................................................................... 15 2 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA....................... ................................................................. 16 2.1 Corpus e o objeto de estudo .......................................................................................................... 16 2.2 Panorama geral ............................................................................................................................. 18 2.2.1 A crise sindical e o projeto neoliberal......................................................................................... 18 3 ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DA PESQUISA................................................. 24 3.1 A contribuição de Bakhtin............................................................................................................ 25 3.1.1 O conceito de dialogismo............................................................................................................ 26 3.1.2 Polêmica, dialogismo velado, pluriacentuação.......................................................................... 28 3.1.3 O conceito de memória................................................................................................................ 30 3.2 Análise Crítica do Discurso .......................................................................................................... 32 3.2.1 História e objetivos da ACD........................................................................................................ 33 3.2.2 A proposta de Norman Fairclough............................................................................................. 36 3.2.2.1 O modelo tridimensional de Fairclough................................................................................ 37 3.2.2.1.1 Análise textual ...................................................................................................................... 38 3.2.2.1.1.1 Considerações preliminares da análise textual em relação à pesquisa......................... 39 3.2.2.1.2 Análise discursiva................................................................................................................. 40 3.2.2.1.2.1 Considerações preliminares da análise discursiva em relação à pesquisa ................... 41 3.2.2.1.3 Análise social......................................................................................................................... 45 3.2.2.1.3.1 Considerações preliminares da análise social em relação à pesquisa........................... 46 3.2.3 Cognição discursiva.................................................................................................................... 46 3.2.4 Ideologia, poder e dominância.................................................................................................... 49 3.3 Categorias de análise..................................................................................................................... 55 3.3.1 Fairclough................................................................................................................................... 55 3.3.2 Thompson.................................................................................................................................... 56 3.3.3 Dijk............................................................................................................................................... 57 4 A ANÁLISE ...................................................................................................................................... 59 4.1. Procedimentos metodológicos ..................................................................................................... 59 4.2 O discurso político: um tipo discursivo ....................................................................................... 61 4.2.1 Análise da prática discursiva: relação PBH x sindicato............................................................ 64 4.2.2 Modos de operacionalização ideológicos.................................................................................... 76 4.2.3 Práticas sociodiscursivas de manipulação e poder entre PBH x sindicato............................... 91 4.3 Discurso midiático sobre a especificidade da greve ................................................................. 103 4.3.1 Análise da prática discursiva no discurso do jornal EM ......................................................... 104 4.3.2 Modos de operacionalização ideológicos.................................................................................. 111 4.3.3 Considerações parciais.............................................................................................................. 115 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................................ 117 REFERÊNCIAS ................................................................................................................................ 120

11

1 INTRODUÇÃO

Esta dissertação apresenta como objeto de estudo o discurso entrevisto nas práticas

discursivas entre o Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais

(SindUTE-MG) e a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH) intermediados pela mídia

escrita, representada pelo jornal Estado de Minas. Trata-se de discursos que materializam

relações explícitas de um confronto ideológico e busca pelo poder, em que se inter-

relacionam, interdiscursivamente, PBH vs. SindUTE-MG, construindo e negociando sentidos,

que visam à captação e a aceitação da opinião pública. A mídia escrita, por sua vez,

mediando esse conflito congrega um conjunto de valores que podem desempenhar um papel

essencial ao dar ou não, sustentação ao aparato ideológico que permite o exercício e a

manutenção do poder, através do processo escolhido de representação dos acontecimentos em

análise.

Contextualizando o panorama histórico brasileiro no ano de 2001, cenário destas

práticas, pode-se indicar um período em que movimentos grevistas vivenciavam uma grande

crise, fruto de uma política econômica neoliberal, datada do início da década de 1990, que

inviabilizara a organização de trabalhadores. Os sindicatos, então, passam a ser vistos como

uma instituição enfraquecida e com baixa capacidade de resposta frente aos conflitos do

mundo do trabalho. Por outro lado, em Belo Horizonte, na tentativa de superar esta

incapacidade de ação e incitar uma reação dos outros movimentos sindicais, o SindUTE-MG

trava uma das maiores greves dos últimos 20 anos na educação brasileira. No entanto,

constata-se, através de registros e dados oficiais, que a partir desta greve o sindicato dos

professores não mais ousou nova empreitada, e, assim, seguiram-se reduções das taxas de

filiações, baixas de mobilizações e redução da militância sindical1.

Reconhecendo que as práticas sociais de deteriorização de movimentos democráticos

constitui-se não apenas na desqualificação do trabalho, como também na desqualificação do

próprio trabalhador, inibindo, em muito, a sua liberdade social e sua subjetividade, é que

fizemos a opção por este objeto; já que, para a Análise Crítica do Discurso (ACD), referencial

1 Não se trata de uma análise apocalíptica do sindicalismo, dados precisos são encontrados nos sites do SindUTE/MG e do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatistica e Estudos Socioeconômicos), atestando o desgaste sofrido pelo movimento sindical de professores nos últimos anos e sua incapacidade coletiva de organização.

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teórico e metodológico deste trabalho, é de extrema importância verificar e dar sentido às

mudanças que a sociedade vem sofrendo e que caracterizam práticas abusivas de poder e

dominação. Sendo função de seus analistas críticos “analisar e revelar o papel do discurso na

(re)produção da dominação.” (PEDRO, 1997, p. 25). Nesse sentido, que propomos para este

trabalho uma proposta analítica que se movimente entre o linguístico e o social. Não se trata

de fazer análise social de conteúdo, mas de estudar o funcionamento dos discursos; dessa

forma propomos uma análise do discurso, conforme propõe a ACD, onde o discurso é tratado

sob três perspectivas: “como texto dotado de forma linguística, como ‘prática discursiva’ por

meio da qual os textos são produzidos, distribuídos e consumidos, e como ‘ prática social’

que tem vários efeitos ideológicos, incluindo normatividade e hegemonia.” (HANKS, 2008,

p. 172). Para dar suporte a esta análise, a ACD dialoga com as demais ciências, tendo como

base teórica a linguística de Halliday, que propõe uma interlocução com a sociolinguística, a

Ciência Social Crítica e com as obras de Pêcheux, Foucault e Bakhtin, (PEDRO, 1997).

A pesquisa apresenta-se subdividida em 4 (quatro) capítulos. No primeiro,

apresentamos como justificativa da escolha do objeto de pesquisa, a importância de um estudo

sobre práticas discursivas de greve, em relação à dominação e a resistência; já que a greve é

considerada um dos maiores instrumentos de luta do trabalhador, responsável, por impactos

evidentes em vários momentos da história brasileira. Comprova-se essa afirmação, visto que

boa parte da liderança política do país, na atualidade, ter sido formada nas bases de

movimentos grevistas. (NORONHA, 2009).

O segundo capítulo constitui-se da apresentação da conjuntura sócio-histórica

brasileira da greve de 2001. Trata-se de uma breve reflexão sobre os últimos 20 anos do

cenário sindical, sua organização, formação e a construção da organização dos trabalhadores,

do ciclo das grandes greves ao período de estabilização de greves, fruto de uma política que

tende à fragmentação dos movimentos reivindicatórios no país. (NORONHA, 2009).

No terceiro capítulo, apresentamos os aspectos teóricos e metodológicos que

sustentam este trabalho; como as contribuições de Bakthin, que nos apresenta noções

operatórias para a análise dos discursos: a noção de dialogismo que atravessa toda análise,

dando-nos a consciência necessária de que não há discurso sem as relações históricas com

outros discursos, que os explicam, opondo-se ou apoiando-se, implicados uns nos outros. Esta

posição teórica auxilia-nos quando da apreensão das vozes que se apresentam nos discursos,

bem como as noções de monofonia e polifonia, que apontam para o reconhecimento da

orientação argumentativa dos discursos. Apresentamos, também, como base teórica, a

proposta de Norman Fairclough (2001), a Teoria Tridimensional Discursiva, como sendo uma

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abordagem da Análise Crítica do Discurso, que se baseia em uma percepção da linguagem

como parte irredutível da vida social e o discurso, como prática dessa sociedade, que mobiliza

os sentidos nela veiculados. Sentidos que muitas vezes servem para sustentar relações de

dominação e poder.

Para finalizar, apresentamos a análise dos discursos sob três óticas: a análise das

práticas discursivas, em que se relacionam a PBH e o sindicato, em que especificamos as

relações entre as estruturas sociais e hegemônicas que constituem e são constituídas pelos

discursos de greve. Em um segundo momento, através das categorias propostas por

Thompson (2007), analisamos os modos de operacionalização ideológicos investidos nestas

práticas; e, por último buscamos apreender, conforme Dijk (2008), traços discursivos que nos

permitem inferir um quadro de manipulação ideológica.

À mídia escrita, dedicamos o último item de análise deste trabalho, dada à importância

do tema. Orientamo-nos, conforme Fairclough, citado por Leal (2005), para quem a análise da

linguagem dos textos da mídia orais ou escritos deve focalizar como o mundo e os eventos

são representados, que identidades são construídas para as pessoas envolvidas e que relações

são estabelecidas. Neste sentido, observamos que escolhas são feitas pelo jornal Estado de

Minas ao representar professores, a greve e a escola pública, considerando que a publicação

de um jornal é uma indústria, um negócio e toda essa estrutura comercial tem efeito no que é

publicado e em como a informação é apresentada fazendo com que ela seja uma mediadora; e,

principalmente, propagadora de ideias. (LEAL, 2005). Dessa forma, a atenção a esse discurso

se faz necessária, pois imaginários sobre professores e sobre o seu legítimo direito de greve

estão sendo direcionados a uma grande parte da população, formando juízos de valor e

imaginários, seguindo pontos de vista de uma perspectiva particular.

1.1 Justificativa da pesquisa

A circunstância histórica da greve de 2001 nos mostra um mundo do trabalho em

crise: a baixa organização dos trabalhadores em favor da individualização das relações

sociais, a desregulamentação do trabalho, desemprego, insegurança e subcontratação.

(FERRAZ, 2006). A greve dos professores municipais, diante de todos os fatores que a

determinavam, insurge em um quadro como aquele, sustentando um movimento que durou

61 (sessenta e um) dias. No entanto, seguidos quase 10 (dez) anos, podemos observar que esta

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foi a última grande greve dos professores, seguida por longos anos de apatia geral dos

trabalhadores em educação do município de Belo Horizonte. Diz-se no movimento sindical,

usando seu jargão próprio, que esta greve ‘quebrou a espinha dorsal do trabalhador’. Assim,

esta greve específica torna-se o interesse desta pesquisa, na medida em que se pretende

compreender, através de uma análise descritivo-interpretativa, como práticas sociais

interferem na estrutura discursiva e a possibilidade que práticas discursivas possuem de

alterarem um quadro social.

Podemos afirmar que a greve é uma luta entre classes, por interesses que não são

correspondentes entre si; uma busca por poder social, que se constituindo por alianças,

agrupam-se em grupos hegemônicos de forma a captar a adesão da opinião pública; este é um

exercício geralmente indireto em que se age por meio da mente das pessoas, controlando as

necessárias informações ou opiniões de que precisam. (DIJK, 2008). A Prefeitura Municipal

de Belo Horizonte (PBH) e a mídia escrita compõem este quadro hegemônico da

circunstância em análise e assim discursivizam, de certo modo, a greve dos professores. São

discursos que investem fortemente em maneiras de culpabilizar e silenciar a voz do outro. O

sindicato, por sua vez, utiliza-se das estratégias de desconstrução do adversário, para atingir

seus objetivos. Todos articulam seus discursos na tentativa de controlar opiniões, apostando

na falta de conhecimento dos receptores do seu discurso.

Ao compreender o imaginário constituinte e condicionante da discursividade de uma

greve e sendo esta capaz de alterar significados sociais; esta pesquisa adquire a possibilidade

de contribuir para o entendimento mais amplo da discursividade que compõe os movimentos

político-reivindicatórios, ou seja, entender o como vem sendo dito, o porquê , para quem e

quem constrói estes ditos, possibilitando a criação de perspectivas para a organização futura

de movimentos sociais. O conhecimento de como imaginários de greve de professores e dos

professores, especificamente, vem se constituindo; auxilia, propriamente, a capacidade de

articulação dos projetos políticos de reivindicação e luta sindical, indicando alternativas de

posicionamentos discursivos para a construção de contradiscursos.

No geral, esta pesquisa se justifica pela possibilidade de indicar maneiras de

resistência à manipulação discursiva, na medida em que busca reconhecer como os grupos

hegemônicos se utilizam de práticas sócio-discursivas para tais fins. E se configura também,

como “uma condição para análise dos desafios e das mudanças sociais e históricas.” (DIJK,

15

2008, p. 43). Isto quer dizer que ao desautomatizar2 os discursos, detectamos e resistimos às

tentativas de manipulação: conhecemos os verdadeiros interesses, já que é intenção dos

grupos dominantes é a de assegurar que conhecimentos potencialmente críticos não sejam

adquiridos, ou que somente seja permitida a distribuição de conhecimentos parciais, que

atendam aos seus objetivos. (DIJK, 2008). Portanto, justifica-se a análise destes, a fim de

podermos, de algum modo, intervir nesses sentidos, que vêm sendo constituídos e reafirmados

ao longo dos anos, sobre greve e sobre os professores públicos de maneira geral.

1.2 Objetivos

1.2.1 Objetivo geral

Sob o enfoque da Análise do Discurso, pretende-se, então, analisar a construção,

reprodução de relações políticas no âmbito do discurso em torno de uma greve dos trabalhadores

em educação.

1.2.2 Objetivos específicos

1. Reconhecer, através da análise de microestruturas linguísticas, como os discursos

construídos nas práticas sociais desenvolvidas entre Estado-Sociedade-Sindicato e Mídia

materializam ou não os embates históricos já constituídos do seu interdiscurso;

2. Identificar, do ponto de vista da organização discursiva, quais seriam as estratégias

para construção dos efeitos de sentido desejados, entrevistas nas relações de poder e

de dominação envolvidas em uma greve;

3. Reconhecer traços e pistas que indiciam a diversidade de vozes que compõem a

materialidade linguística e histórica dos discursos analisados;

4. Interrogar-se sobre quais sentidos sobre greve e professores estão disponíveis para

identificação no discurso midiático;

2 Termo utilizado por Steinberger (2005, p. 67) em que sugere que: “numa análise dos discursos geopolíticos na

mídia, o alvo principal é a desautomatização das leituras que fazemos dos acontecimentos e a própria compreensão sobre as práticas sociais, onde e como tais leituras são produzidas em sociedade [...]”.

16

2 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

2.1 Corpus e o objeto de estudo

O material que servirá de fonte para a constituição do corpus desta pesquisa é

composto pelos discursos veiculados no período de agosto e setembro de 2001, em Belo

Horizonte-MG, durante a greve de professores municipais; sendo 07 (sete) boletins de greve

dirigidos aos professores e 09 (nove) cartas à população veiculadas pelo SINDUTE-MG; 06

(seis) notas oficiais publicadas pela Prefeitura de Belo Horizonte (doravante PBH) publicadas

no jornal Estado de Minas; e, 15 (quinze) reportagens do jornal Estado de Minas (EM) sobre a

greve dos professores municipais.

Sobre a relação PBH vs. sindicato, podemos dizer que esta se configura em função

das relações sociais, políticas e econômicas de uma greve que coloca em pauta o conflito

histórico capital vs. trabalho; e, instaura uma luta de interesses, em torno da busca pela

legitimação das identidades institucionais. Embora, a greve constitua-se em um regular

exercício de direito constitucionalmente atribuído, adquire a aparência de infração às regras

do jogo que regulam a ordem jurídica e política. Esta sensação que movimenta o imaginário

brasileiro vem sendo alimentada e reproduzida ao longo dos anos, o interesse pelo estudo de

como esse imaginário se consolida e de como a mídia escrita se comporta diante dessa

constituição, encontra, neste estudo, uma das problematizações que o justifica.

A greve é uma instância política de poder. E é Dijk (2008) quem nos dá a definição do

que isso representa. Resumidamente, poder social seria uma característica da relação entre

grupos, classes ou outras formações sociais e, apenas, manifesta-se na interação. Para que

haja uma relação de poder, um grupo através de suas ações reais ou potenciais deve controlar

o outro e para que este controle se efetive, precisa dispor de recursos socialmente disponíveis;

e , controlar, significa conhecer o controlado: suas vontades, preferências, crenças e valores

(para que o poder possa, se preciso, ser apenas pressuposto ou inferido); assim, práticas de

poder são, sobretudo, intencionais, sendo seu exercício estritamente ideológico e por esta

estrutura mantido e reestruturado. Em nossa análise, podemos ver que a greve coloca em cena

a luta hegemônica, a luta entre classes sociais (dominantes vs. dominados, prefeitura vs.

professores) em posições antagônicas; pode-se dizer que a instituição que mais impõe poder é

a do órgão governamental sobre os professores. No nosso caso em análise, é a PBH que

17

possui os recursos sociais: poder de negociar, o maior acesso à mídia e o de aplicar sanções e

retaliações aos grevistas (o corte de ponto, o corte de salários e as mais diversas punições). O

sindicato representa os professores, a força de trabalho, a parte dominada da relação que opta

pela greve quando as decisões da classe dominante fundam-se na exploração da sua força e

em práticas ilegítimas ou desiguais. É este o cenário onde o poder se instala, cuja análise

pretende desvelar. E, assim orientando-nos pela concepção teórica da Análise Crítica do

Discurso, buscamos compreender em que medida práticas discursivas reproduzem e mantêm

o exercício do poder. (WODAK, 1997a).

A conquista da instância cidadã3 significa para ambos, PBH e sindicato, a

consagração da instituição por eles representada. Esta composta pelos cidadãos que

participam, criticam e votam é um alvo de dominação; são estes que irão conferir à PBH ou

ao sindicato a legitimidade que tanto necessitam, filiando-se a um ou a outro discurso. A

mídia, aparentemente, também se encontra fora do poder dominante; e, igualmente, interessa-

se, sobremaneira, pela instância cidadã. Os atores da instância midiática têm, como denomina

Charaudeau (2006, p. 62), “o papel de informar, mas também buscam credibilidade, que lhe é

conferida pelos cidadãos”. Mais uma vez, é a instância cidadã que está em jogo. É ela o

centro dos interesses dos atores, nesta pesquisa analisados. E é por ela que eles farão todos os

esforços para captar e seduzir o seu assentimento e até mesmo manipular sua opinião (e

muitas podem ser as práticas discursivas para este fim).

Finalizando, podemos dizer que são objetivos desta pesquisa conhecer como,

discursivamente, a PBH estrutura-se para se manter em relação de poder, diante dos

professores e do sindicato que os representa; e, principalmente, como esta se articula para

manter a instância cidadã sob seu círculo de dominação. Em relação ao sindicato, intentamos

compreender a construção do seu discurso ideológico e suas estratégias persuasivas ante a sua

coletividade e à população que assiste ao movimento. E, mais precisamente, como organiza

seu contradiscurso de interposição, enfretamento e resistência em relação à PBH. E quanto à

Mídia e seu poder de fazer circular conhecimentos e opiniões, nosso papel de análise é o de

desvelar o formato que este jornal persegue na construção das imagens do professor de escola

pública, do seu sindicato e da greve de professores, com um movimento social específico.

Interessa-nos, propriamente, a análise desse jornal, dada a sua responsabilidade na construção

diária de modelos e estereótipos de quase cem mil pessoas na cidade de Belo Horizonte.

3 Termo utilizado por Charaudeau (2006, p. 59), que conforme o autor define-se diante da instancia política

“como o lugar em que a opinião se constrói fora do governo”: é o discurso da instância cidadã que interpela o poder do governo.

18

2.2 Panorama geral

2.2.1 A crise sindical e o projeto neoliberal

Neste capítulo, apresentamos sob quais circunstâncias político-históricas a greve

estudada se assenta, ou seja, como se configurava o cenário político-sindical brasileiro, em

um país governado por Fernando Henrique Cardoso (pós ditadura militar e impeachment de

Fernando Collor de Melo), em processo de construção democrática. Para elucidar esta

reflexão, antes de considerarmos o momento político da greve, buscamos, com o auxílio de

análises sociais que versam sobre o período, discorrer sobre as duas décadas que antecederam

o período em análise, pois argumentamos que marcos políticos e sociais interferem nas

práticas discursivas de uma sociedade; e, como pressupõe Fairclough (2001), dialeticamente,

práticas discursivas também podem alterar estruturas sociais e demarcá-las a longo ou médio

prazo. Em um segundo momento, refletindo sobre as condições sócio-históricas, intentamos

neste histórico, posicionar os atores sociais desta pesquisa em relação à posição institucional e

político-partidária à qual se filiam. Quando da análise, retornaremos a esta questão identitária,

já que, diante das práticas discursivas, buscaremos novamente situá-los de maneira a

identificar as identidades político-discursivas que estes sujeitos representam, e o que nos

interessa, propriamente, desvendar quais filiações ideológicas sustentam e compõem

identitariamente estes sujeitos.

O final da década de 1970 e início de 1980 representaram para o sindicalismo

brasileiro anos de eficiência e eficácia. Nesse período, Cardoso (2003) indica que cresce o

número de sindicatos em um cenário de quatro centrais sindicais: Central Única de

Trabalhadores (CUT), Central Geral de Trabalhadores (CGT), Confederação Geral dos

Trabalhadores (CGTB) e União Sindical Independente (USI), o que diz muito sobre a

capacidade de organização do trabalhador. As grandes e fortes greves dos anos 1978 e 1979,

basicamente no setor metalúrgico, levaram o movimento sindical ao então chamado de novo

sindicalismo. Este, não apenas representava trabalhadores em relação a questões salariais, mas

entrava em uma batalha social e política ao pressionar a ditadura militar com as lutas: pela

democratização do país, pela implementação da reforma agrária, posicionando-se contra o

pagamento da dívida externa, contra a intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI)

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na economia brasileira, etc. (CARDOSO, p. 2003). Nascida via imposto sindical, a CUT

torna-se a central que mais se beneficia do ambiente favorável à organização da classe

trabalhadora na década de 1980, encarnando um tipo específico de sindicalismo adversário

tanto do governo como do capital, consolida-se como amiga do trabalhador e inimiga dos

governos (BOITO, 1999). O ambiente daquela década apresenta baixos salários, altas taxas de

rotatividade e extensão da jornada que provocaram o fortalecimento dos sindicatos pelas

demandas de justiça e dignidade no trabalho, taxas crescentes de inflação forçaram greves

para indexação de salários; são estratégias do tudo ou nada que consolidam o poder sindical e

sua aceitação na sociedade, conforme Cardoso (2003), na constituição de 1988, os brasileiros,

em sua maioria, manifestaram-se favoráveis ao direito de greve, inclusive de bancos, dos

transportes, dos hospitais e educação. Apontando os sindicatos como as instituições mais

confiáveis do país.

Já a década de 1990 é considerada um período pouco favorável às greves e demais

movimentos sociais reivindicatórios. Na época da greve analisada, o então prefeito, Célio de

Castro, do antigo Partido Socialista Brasileiro (PSB), filia-se, neste mesmo ano, ao Partido

dos Trabalhadores (PT), o maior partido de esquerda do país na época. Apesar de ser um

governo considerado de esquerda, constatamos uma das maiores e mais difíceis greves

enfrentadas pelo Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais

(SindUTE-MG) em toda a sua história, contrariando todas as expectativas. Pressupomos que

nesta greve ambas as esquerdas, tanto a protagonizada pelo patrão quanto a sindical,

enfrentaram um grande marco político e econômico, que foi a implementação do projeto

neoliberal que atravancou toda a organização de trabalhadores daquele período. Esta

argumentação encontra conformidade em analistas sociais4 que admitem que o ciclo

excepcional das greves ocorridas neste período no Brasil vincula-se “às características da

transição democrática brasileira, à superação do modelo desenvolvimentista e a um ambiente

macroeconômico excepcionalmente instável.” (NORONHA, 2009, p. 120).

Nesta mesma década, a CGT, sob a liderança de Luís Antônio Medeiros, invoca o que

passa a ser chamado de sindicalismo de resultados, contando com o apoio do governo Collor e

financiamento de empresários vários (BOITO, 1999). Nesse momento, podemos começar a

verificar a instauração de um novo movimento na esquerda sindical que gira em torno de uma

provável conciliação com o neoliberalismo.

4 Podemos encontrar essa análise em Antunes (2005), Boito (1996), Ferraz (2006), Noronha (2009).

20

Assim, retomando a ideia de marcos políticos e econômicos e sobre o impacto destes

na vida do trabalhador, buscamos uma reflexão sobre a eficácia e os desdobramentos da

ideologia neoliberal no Brasil, que conforme Boito (1999), representa, essencialmente, um

liberalismo econômico que exalta o mercado, a concorrência e a liberdade de iniciativa

empresarial, rejeitando a intervenção do Estado na economia.

Nos governos neoliberais, há uma reformulação da intervenção estatal na economia,

salários são desindexados, a dívida externa estatizada, o câmbio e os juros são mantidos em

níveis elevados já que remuneram investimentos financeiros nacionais e estrangeiros. O

discurso neoliberal procura mostrar a superioridade do mercado frente à ação estatal. Boito

(1999) explica que esta teoria postula que ao possuir independência econômica, o sujeito

alcança a superioridade política e moral, já que a soberania do consumidor, inerente a um

ambiente de concorrência, permitiria o desenvolvimento moral e intelectual dos cidadãos,

através da liberdade de escolher o quê e onde comprar. Isto significa que a liberdade para o

consumo conferiria, no ponto de vista neoliberal, a autonomia cidadã. O que agrada muito

àqueles sujeitos que abrem mão do ideal de coletividade e solidariedade pelo ideal da

individualidade (talvez este seja, a nosso ver, o canto da sereia neoliberal).

Na política nacional, Fernando Collor de Melo implementa, a partir de 1990, o

processo político-econômico de abertura comercial e financeira, levada adiante por Itamar

Franco e potencializada por Fernando Henrique Cardoso, que fortaleceu ainda mais as

medidas baseadas na concepção teórica do neoliberalismo. A adoção de medidas baseadas

nessa fundamentação teve impactos muito fortes na realidade dos trabalhadores. Segundo

Cardoso (2003), práticas neoliberais no Brasil atuam sobre o trabalho da seguinte forma: os

sindicatos e a legislação trabalhista são considerados o entrave ao emprego; o desemprego é

visto como um efeito colateral; o trabalhador é pensado como indivíduo que investe em si

mesmo para maximizar retornos monetários do trabalho, ou seja, o desemprego ocorre em

função do não investimento profissional como outros o fizeram. O resultado, então, foi um

aumento brutal do desemprego, aumento da exclusão social, seguidas pela desregulamentação

de leis trabalhistas e flexibilização da utilização da força de trabalho; e, a principal medida

implementada por Collor, revogada por Itamar e reimplementada por Fernando Henrique: a

desindexação dos salários. (BOITO, 1999).

Em relação aos direitos do trabalhador, como ressalta Siqueira Neto (1996), no Brasil

as ideias que impulsionavam o debate sobre os direitos do trabalhador banalizavam a

negociação coletiva e o papel do Estado nas relações de trabalho. A justificativa para a

desregulamentação e flexibilização das normas trabalhistas se baseava numa suposta

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necessidade de adaptação do país à concorrência internacional, conseguida através da

facilidade de contratação e demissão de trabalhadores, isto é, da tão propalada flexibilidade.

Para ilustrar, como observa Alves (2009), no decorrer da década de 1990, três conjunturas da

economia brasileira denunciam a crise no mundo do trabalho:

a primeira, sob o governo Collor, é marcada pela intensa recessão (1990-1992); a segunda, sob o governo Itamar (1993-1994), e primeiros anos do governo Cardoso (1995-1996), é marcada por uma pequena retomada da atividade da economia sob os influxos positivos dos primeiros anos do Plano Real; e a terceira (1997-1999), nos últimos anos do primeiro mandato do governo Cardoso, e no primeiro ano de seu segundo mandato presidencial, é marcada pela crise da economia global, expondo, deste modo, as incertezas e vulnerabilidades da economia brasileira diante da conjuntura internacional. (ALVES, 2009, p.193).

E, finalizando, Cardoso (2003), assim resume os efeitos da década neoliberal para o

mundo do trabalho:

O desemprego aberto explode de 4% (1990) para 8% (1999). Este período caracteriza-se por uma reestruturação industrial mais ou menos profunda, baseada em novas tecnologias informacionais. [...] Com a consequente terceirização, a privatização de estatais, o crescimento do desemprego e do trabalho informal introduzindo a insegurança no trabalho, a estabilização da economia com o fim da inflação além do aprofundamento da democratização, o que reduziu o efeito expressivo dos discursos contestatórios – potencial político dos movimentos sociais –, limita-se, pois, a propensão dos trabalhadores à ação coletiva e o crescimento sindical. Assim os anos 1990 revertem todo o avanço da década de 1980. (CARDOSO, 2003, p.42).

Quanto ao movimento sindical, ao não impedir a destruição de 2 milhões de empregos,

a deterioração do serviço público e as privatizações, os sindicatos perdem, conforme Cardoso

(2003), a sua capacidade de luta. Instaura-se, a partir de então, uma crise nos movimentos

sindicais que pendem a um sindicalismo propositivo ou a um sindicalismo de oposição

(conforme modelo implementado na década de 1980). O primeiro apregoa que os movimentos

devem ir além da postura exclusivamente reivindicativa e de valorização da ação grevista na

tentativa de negociação e acordos, enquanto o segundo (que se posiciona radicalmente contra

o pagamento da dívida externa e privatizações, defendendo a reforma agrária, a estatização

dos sistemas financeiros, serviços de saúde, educação e transporte), configura-se em uma

tendência que busca extrair o máximo de vantagens durante o enfrentamento político de uma

greve, sem negociar direitos adquiridos do trabalhador; e, o SindUTE-MG não escapa a essa

realidade; vivendo uma crise interna, em que membros do sindicato, pertencentes à mesma

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corrente da esquerda que ocupa a gestão da PBH, rompem com a mesma, dando início a uma

crise que estoura alguns anos depois com a criação de um novo sindicato que representa os

professores municipais: o atual SindREDE5 .

Noronha (2009) ao analisar ciclos de greve no Brasil, atenta para o fato de corrermos o

risco de tratar das variáveis políticas, que giram em torno de uma greve, de forma

excessivamente genérica, destacando as greves, unicamente, como expressão de conflitos de

classe, no caso sindicato vs. Prefeitura de BH ou como uma expressão de conflitos político-

partidários (PSTU, PT, PCdoB, PSB-sindicato vs. PT-gestor). Embora essas explicações

possam ter validade, consideramos que é preciso analisar no quadro político-econômico e,

sobretudo, nas práticas discursivas da greve em análise, o comportamento discursivo dos

atores sociais que nos ofereçam um referencial em que possamos apreender quais outros

elementos influenciavam e ditavam as leis daquele movimento específico da greve.

Esclarecendo: a implementação de um projeto neoliberal, em nível federal, trouxe para aquele

momento, um sobredestinatário6, uma memória que exigia um diálogo, um enfrentamento,

uma voz onipresente que dialoga com os atores sociais desta pesquisa.

Podemos conceber que o projeto neoliberal alterou toda a agenda sindical, como já

apresentado acima, em um diálogo com autores que refletem sobre os ciclos de greve no

Brasil, e que esta política neoliberal alterou, sobretudo, a opinião pública, sendo este um fato

que pretendemos reconhecer e revelar. Se antes a população tinha apreço pelos movimentos

sindicais, aceitação e total confiança em suas lideranças; podemos dizer que tais "marcos"

mudaram, também, a tendência dessa opinião? Esclarecemos que não fizemos pesquisa de

opinião, verificamos essa tendência, através da análise das reportagens do jornal Estado de

Minas (capítulo 4) que, de certa forma, com o objetivo de ser aceito (pelos leitores),

apresenta-se de maneira a atender a opinião popular. Se os sindicatos advogam pela não

aceitação do desemprego, pela garantia de condições de trabalho, além da constante luta pelas

questões salariais. O que faz com que a população, não mais confie em movimentos sindicais

e tendencie ao formato político-ideológico que, justamente, exclui estas possibilidades? O que

faz a população optar por uma política que não lhe atende? Sabemos que o neoliberalismo é

contraditório com as necessidades do trabalhador. Então, como, mesmo contrariando

interesses sociais dos trabalhadores, consegue esta ideologia, difundir-se no meio operário e

5 Ver reportagem do jornal EM, em anexo, intitulada “Greve desencadeia crise interna no PT- 23 set. 2001” e “Guerra de estratégias- 21 set.2001”. Sobre o histórico, ver site oficial do Sindrede (www.redebh.com.br). 6 Como explica Charaudeau, sobredestinatário seria um “conceito introduzido por Bakhtin para designar uma terceira pessoa virtualmente presente na interação verbal”. (CHARAUDEAU, 2006b, p. 454).

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popular? (BOITO, 1996). Postas estas questões podemos dimensionar a força com que as

ideias neoliberais foram sendo difundidas, cabendo, pois, a esta análise desvendá-las.

Em relação às posições identitárias, que são constituídas em função das relações

sociais e políticas que organizam a vida em sociedade; podemos dizer, a princípio, que nesta

greve lidamos com relações complexas e paradoxais. Relações que se estabelecem pelo fato

de termos um enfrentamento entre duas classes sociais distintas (patrão vs. empregado) que

posiciona o PT, uma esquerda, que representa o empregador por um lado; e, por outro, temos

um sindicato que representa a classe trabalhadora, sendo esta uma outra esquerda (constituída

entre outros grupos, por partidos de esquerdistas: o próprio PT, PSTU, PCdoB, PSB). E,

ainda, como pano de fundo, assistimos à implantação do projeto neoliberal de política

econômica, que irá reposicionar essas duas esquerdas.

A análise desta greve nos convida a pensar sobre o que define ser ou não de esquerda,

considerando a instância enunciativa específica de uma greve; o que implica refletir sobre a

construção identitária dos sujeitos sociais implicados neste dispositivo. Tarefa que

pretendemos desvelar através da análise do corpus e dos procedimentos teóricos e

metodológicos que envolvem este trabalho, como apresentaremos a seguir.

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3 ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DA PESQUISA

A linguagem medeia práticas sociais e sua materialidade linguística e histórica carrega

uma diversidade de vozes, relações de poder e de dominação. (DIJK, 2008). Para desvendar

essa complexa materialidade precisamos de uma teoria que auxilie a construção da análise que

pretendemos tanto em relação aos aspectos sócio-históricos que constituem a circunstância

precisa da enunciação, quanto em relação à construção de um suporte conceitual linguístico-

discursivo que nos permita desvelar o que as palavras dizem. Resumindo, necessitamos de um

procedimento metodológico que opte por uma abordagem que integre tanto a análise

discursiva, quanto a análise social.

Assim, partimos de Mikhail Bakhtin, para quem as formas do signo sofrem o efeito da

organização social dos indivíduos e, também, das condições em que a interação acontece.

(BAKHTIN, 1988). Em Bakhtin, encontramos o princípio teórico fundamental em nossa

pesquisa: o dialogismo, que consiste no entendimento de uma pluraridade de vozes que ecoam

nos discursos. Referencial teórico que norteará toda a prática de análise que a partir de agora

apresentamos.

Apreender tal plurivocalidade, no caso, em discursos de greve, exige instrumentos

metodológicos que deem conta da orientação desses discursos. Segundo Dijk (2008),

Somente uma teoria cognitiva é capaz de mostrar essa interface entre o social e o pessoal, a saber: através das relações entre modelos mentais episódicos e outras representações pessoais, por um lado, e as representações políticas socialmente compartilhadas de grupos, por outro lado [...]. (DIJK, 2008, p. 231).

Em outras palavras, pode-se explicar o discurso apenas quando detalhamos a interface

sociocognitiva que o relaciona às representações socialmente compartilhadas que controlam

as ações, os processos e os sistemas interdiscursivos, através de uma investigação analítico-

discursiva que estabeleça relações fundamentais entre um triângulo de conceitos: discurso,

cognição e sociedade. (Fairclough, 2001).

Optamos pela Análise Crítica do Discurso, de agora em diante ACD7, como suporte

teórico-metodológico para este trabalho, porque se baseia em uma percepção da linguagem

como aspecto imprescindível da vida social, e por ser uma proposta que apresenta, a nosso

7 Termo abreviado como sugerido pelos trabalhos de Emília Pedro (1997).

25

ver, a capacidade de mapear a relação entre os recursos linguísticos usados pelos atores

sociais e os aspectos da prática social nos quais a interação discursiva se insere. Melhor

dizendo, a teoria da ACD procura estabelecer uma ligação entre a formação cognitiva e a

relação entre o social e o pessoal através de um estudo sobre os modelos mentais e

representações sociais. Procuramos analisar criticamente os boletins, cartas abertas, notas

oficiais e reportagens de greve, conforme o dispositivo da ACD que nos permite a

compreensão de como tais discursos se comportam e quais ideias veiculam; como

representam conflitos, que interesses são apresentados, quais práticas de persuasão e/ou

manipulação são usadas, etc., compondo uma circunstância enunciativa que nos obriga

aproximar prática textual, práticas discursivas e, sobretudo, a prática social.

A fim de situar a escolha da proposta teórico-metodológica, este capítulo se subdivide

em itens que destacam a contribuição bakhtiniana a este trabalho, um perfil histórico da ACD

apresentando o dispositivo analítico tridimensional desenvolvido por Fairclough (2001),

aliado aos conceitos caros à ACD, tais como cognição discursiva, ideologia, hegemonia,

abuso de poder e dominância, tratados em Dijk (2008). É a partir destes indicadores e dos,

também, propostos por Thompson (2007) que possui um diálogo produtivo com a ACD, que

serão analisadas, em capítulo particular, os discursos de greve. Dados os objetivos desta

pesquisa, nela não será possível utilizar, todas as categorias que compõem o dispositivo criado

por Mikhail Bakhtin, Fairclough (2001), Dijk (2008) e Thompson (2007); embora, algumas

destas estejam postas aqui, serão usadas somente aquelas que deem conta das necessidades

deste estudo.

3.1 A contribuição de Bakhtin

Em uma greve de professores da rede pública, além de uma pauta em que há predomínio

de demandas econômicas, há, sobretudo, uma luta política que vincula as ações coletivas dos

trabalhadores a convicções ideológicas da liderança sindical, em contraposição a convicções

ideológicas que sustentem o poder do governo. É através do discurso que estes atores

perseguem o convencimento, buscam agregar e incitar outros sujeitos a tomarem atitudes e a

se mobilizarem. Nesse sentido que a análise deste embate social e discursivo, como já

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dissemos, exige uma fundamentação que nos possibilite a compreensão das vozes que

compõem esse real. E, para tal, partimos da abordagem dialógica de Mikhail Bakhtin8, uma

teoria que nos apresenta noções operatórias para esta análise, em que ao entendermos o

funcionamento do discurso, buscamos captar como se constroem a polêmica aberta e velada, o

dialogismo velado e a pluriacentuação, como explicitaremos a seguir.

3.1.1 O conceito de dialogismo

Bakhtin inclui a multivocalidade como marca característica do discurso, para ele os

enunciados têm um percurso que faz com que carreguem memórias de vários outros discursos.

(FARACO, 2001). Todo discurso é, então, atravessado por outros uma vez que " toda a

enunciação, mesmo na forma imobilizada da escrita, é uma resposta a alguma coisa e é

construída como tal." (Bakhtin, 1988, p. 98). Assim, entendemos que o discurso é orientado

tanto em relação a um interlocutor, real ou potencial, quanto em relação a todos os enunciados

e discursos que o precedem. Em um recorte ainda maior, toda palavra dialoga com outras

palavras, constitui-se a partir de outras palavras e está rodeada de outras. Portanto, para

Bakhtin, todo enunciado é dialógico.

Ao se pensar em dialogismo, o primeiro conceito, segundo Fiorin (2006a), seria o fato

de que todo enunciado constitui-se a partir de outros e de que estes não se interrelacionam

harmoniosamente: são complexos, divergem-se e convergem-se, aceitam-se e recusam-se,

acordam e desacordam; e, por consequência, toda a linguagem assim, dessa forma, se faz

dialógica. Sobre o mesmo tema, Dahlet (1997), aponta três posicionamentos sobre o princípio

dialógico bakhtiniano: a sociabilidade como essência intersubjetiva; o signo como portador de

ação, isto significa que o signo é para agir; e, o sujeito como sendo feito daquilo que ele não é, ou

melhor, o sujeito não é a fonte primeira do seu discurso e o dizer do sujeito falante não se limita,

apenas, a uma soma de alterações socialmente definidas. Já em Bakhtin (1981), encontramos

uma sugestão de diferentes graus de dialogismo:

8 Cunha (2009, p. 27) citando Beth Brait (2006) justifica o uso desta expressão dizendo que “o conceito de

dialogismo, como se sabe, desempenha um papel fundamental no pensamento bakhtiniano, de modo que se pode falar de uma teoria dialógica do discurso”.

27

1. No primeiro, a palavra é orientada para a representação direta do objeto. Ela

“nomeia,comunica, enuncia, representa – que visa à interpretação direta do objeto.”

(BAKHTIN, 1981, p. 162). Fiorin (2006a, p. 19) observa ainda que o “real apresenta-

se para nós sempre semioticamente, ou seja, linguisticamente”. Aqui, podemos pensar

que, conhecemos um dado no mundo, através da linguagem e do ponto de vista que

ela aporta.

2. Fiorin (2006a, p. 33) destaca como sendo o segundo conceito de dialogismo, a

incorporação pelo enunciador da voz ou das vozes de outros no enunciado. Em

Problemas da poética de Dostoiévski, Bakhtin chama esse segundo tipo de discurso

representado e objetivado. “O discurso da personagem é elaborado precisamente

como discurso do outro [...] ou seja, é elaborado como objeto da intenção do autor e

nunca do ponto de vista de sua própria orientação objetiva.” (BAKHTIN, 1981, p.

162). Uma forma composicional que seriam as maneiras externas e visíveis de mostrar

outras vozes no texto.

3. No terceiro, o autor utiliza a palavra do outro para expressar suas próprias ideias; a

palavra do outro, mesmo permanecendo fora dos limites do discurso do autor, é

considerada por ele que a ela se refere. É a palavra bivocal cujo sentido se constrói

como efeito de dupla presença, em que não há separação muito nítida do enunciado

citante e do citado. “É o discurso orientado para o discurso do outro.” (BAKHTIN,

1981, p. 173).

Nessa perspectiva, podemos, primeiramente, falar de dialogismo como constitutivo da

linguagem e da linguagem como constituidora e constituída por sujeitos; daí, sujeitos

heterogêneos e complexos frutos de um dialogismo incessante9. Em Bakhtin (apud. LIMA,

2006, p. 31), “a vida é, por natureza dialógica, sendo impossível conceber o homem fora das

relações que o ligam ao outro. Essa relação funda a linguagem”. A linguagem não pode ser

pensada sem se pensar em interrelação, sem o outro, sem este atravessamento. Ressalta-se

aqui, que em relação à representação do discurso, como um grau do dialogismo, existem

9 Sobre o sujeito coletivo, é possível pensar, sob a ótica bakhtiniana, que “o que o signo reflete/refrata não é somente o sentido, mas o próprio sujeito em seus modos de inscrição na ordem histórica, já que um corpo, enquanto matéria simbólica, não possui existência própria fora de uma relação de interdependência com um corpo social.” (ZANDWAIS, 2005, p. 92).

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outras formas de apresentação do discurso alheio, os quais trataremos nesta pesquisa: o

discurso direto, discurso indireto, aspas e negação e, também, outras formas de expressão do

dialogismo em que não vemos demarcações nítidas entre as vozes por constituírem-se em

formas operacionais muito úteis à análise que pretendemos, sendo elas a polêmica aberta

velada, o dialogismo velado e a pluriacentuação, que explicitaremos a seguir.

3.1.2 Polêmica, dialogismo velado, pluriacentuação

É muito comum nos discursos políticos gerados em uma greve a seguinte questão:

mas, o que ele está dizendo?; ou melhor, ao lermos um boletim do sindicato, uma nota aberta

feita pelo governo ou uma carta à comunidade, podemos nos perguntar sobre a autoria

daquele discurso, já que, às vezes, percebemos características do discurso sindical e de

militância em um texto do patrão; e o contrário, um texto sindical apresentando análises que

seriam próprias do discurso do governo. A que atribuímos tal apropriação? Em Bakhtin

(1981), encontramos o conceito de polêmica aberta e velada. A primeira diz respeito ao

discurso refutável do outro, que é o seu objeto, trata-se do afrontamento de duas vozes que

polemizam abertamente entre si, cada uma delas defendendo uma ideia contrária à outra. Na

polêmica velada percebem-se, na construção discursiva, duas vozes em oposição, mas a

polêmica não se expressa abertamente, está orientada para um objeto habitual, nomeando-o,

representando-o, enunciando-o, e só, indiretamente, acatando o discurso do outro. (FIORIN,

2006a). Ou melhor, o discurso do autor é orientado para o objeto, mas é construído de modo

que suas afirmações não só assegurem seu sentido objetivo, mas também ataquem o discurso

alheio que trate do mesmo objeto. Esta polêmica se materializa por meio de evasivas,

ressalvas, concessões, numa tentativa de pressentir a palavra do outro e responder-lhe.

(BAKNTIN, 1981). A esse respeito, Maingueneau (1993)10 desenvolveu o conceito de

polêmica bakhtiniano associado ao de formação discursiva. Nesta pesquisa, utilizamos tal

formulação que será mais bem definida no capítulo destinado à análise, quando explicamos os

10 Maingueneau (1993) faz a partir de Bakhtin, uma inserção pela noção de polêmica, incorporando a ela o conceito de formações discursivas. E define a representação polêmica como uma tomada no sentido de oposição entre duas ou mais formações discursivas. Ou seja, trata-se de controvérsias explícitas entre formações discursivas que expressam seus antagonismos, podendo ser apreendidas em dois níveis, através do dialogismo constitutivo(define a possibilidade de uma formação discursiva no interior de um espaço discursivo, do qual o diálogo polêmico seria uma das modalidades e o dialogismo mostrado, que diz respeito à interdiscursividade.

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procedimentos metodológicos adotados neste estudo; não deixando de ressaltar que fazemos a

opção pelo uso do conceito em relação harmônica com a teoria bakhtiniana.

Por dialogismo velado, é possível compreendê-lo em Bakhtin (1981, p. 171) como um

diálogo entre pessoas no qual as réplicas do segundo interlocutor tenham sido suprimidas.

Apesar do segundo interlocutor não ser visível e de suas palavras estarem ausentes, estas

deixariam vestígios, determinando todas as palavras presentes do primeiro interlocutor, o

diálogo é tenso, pois cada uma de suas palavras reage ao interlocutor invisível, sugerindo a

palavra que não foi dita.

Assim, podemos nos utilizar dos termos polêmica aberta, velada e dialogismo velado

para identificarmos o atravessamento dos discursos de greve e como esses discursos

respondem entre si, e daí analisar os impactos dessa interrelação; ou melhor, analisar a

constituição dos sentidos e como os sujeitos desse discurso vão sendo constituídos e

constituintes, a partir de uma situação de greve.

Bakhtin, ao longo do desenvolvimento do conceito de dialogismo, nos conduz à

formulação de noções importantes para uma abordagem nesse nível de interpretação, sendo

elas:

a) a noção de compreensão responsiva, como tudo aquilo que fazemos através da

linguagem que não pode ser atribuída a um sujeito individual, isolado. Dahlet (1997)

explica o termo compreensão em Bakhtin como uma forma de diálogo,

exemplificando com o próprio autor: "compreender é opor à palavra do locutor uma

contra-palavra" (Bakhtin,1988, p. 132. Apud Dahlet, 1997); ou seja, o sujeito

compreende uma enunciação quando se orienta em relação a ela, quando a situa no

contexto, concorda com ela ou completa-a. (PEREIRA, 2000);

b) a noção de avaliação social (acento apreciativo), que diz respeito a uma condição

subjetiva, ocupa um papel central na transformação da significação em tema no

interior dos enunciados, o tema seria a enunciação em seu sentido completo, realizado,

único não reiterável, diferente a cada vez que realiza a enunciação, que inclui a

situação extraverbal que a produz. (PEREIRA, 2000). Assim, todas as palavras e

enunciados contemplam uma dimensão apreciativa, isto quer dizer que sem acento

apreciativo não há palavra. A apreciação resulta, pois, de um processo social, estando

relacionada a comunidades sociais e não apenas a indivíduos no âmbito da

enunciação; ou seja, o sujeito semantiza a língua no evento enunciativo. E, enfim, a

noção de significação objetiva (esse termo é fluido e empregado por outros adjetivos-

30

significação concreta, semântica ou ideológica) que acontece quando o enunciado

entra no horizonte social (imediato ou mais amplo) dos locutores, compreende os

elementos reiteráveis da comunicação, resultando no deslocamento de uma palavra

determinada de um contexto apreciativo a outro. Bakthin (1988, p. 135) afirma que “é

à apreciação que se deve o papel criativo nas mudanças de significação.” Além

disso, postula que “a significação da palavra se refere à realidade efetiva nas

condições reais da comunicação verbal [...]. A emoção, o juízo de valor, a expressão

são coisas alheias à palavra dentro da língua.” (1997, p. 310). E continua dizendo

que “a expressividade da palavra isolada não é, pois, propriedade da própria

palavra, enquanto unidade da língua, e não decorre diretamente de sua significação.”

(1997, p. 314). Distinguem-se unidades da língua e unidades da comunicação verbal;

a significação referindo-se às palavras e à oração; e, tema e o acento apreciativo ao

enunciado, que só é possível dentro de uma enunciação concreta. (PEREIRA, 2000, p.

203). Daí, nos utilizarmos desses conceitos, pois através do acento apreciativo

construído pelos atores sociais pesquisados, pretendemos compreender a circulação

dos temas e dos sentidos que são evocados em uma situação de enfrentamento e

conflito social: a greve dos professores.

3.1.3 O conceito de memória

A teoria bakhtiniana leva em conta a questão de um discurso poder ser tanto o lugar de

encontro de pontos de vista de locutores imediatos, como de visões de mundo, de orientações

teóricas, de tendências filosóficas, etc. (FIORIN, 2006a). E nossos enunciados emergem como

respostas ativas, da multidão de vozes interiorizadas, são as palavras que perderam as aspas. É

nesse aspecto, especificamente, que a abordagem bakhtiniana contribui para a reflexão sobre a

memória discursiva na constituição do discurso, na medida em que está intimamente ligada ao

já-dito no qual os falantes retomam as palavras. Nesse sentido, podemos dizer que estas vozes

estão em nossa memória discursiva como palavras de outrem e como tais são bivocalizadas

em nossos enunciados, “nossos enunciados expressam a um só tempo a palavra do outro e a

perspectiva com que a tomamos.” (FARACO, 2003, p. 82). O enunciado assim se apresenta

31

complexo e muito mais do que quando é entendido como um objeto que articula as intenções

de quem produz.

Na memória discursiva há um “agitado balaio de vozes sociais” que, nos termos de

Faraco (2003, p. 81), se configura em suas múltiplas relações de consonâncias e dissonâncias,

na constituição socioideológica dos discursos; assim, algumas vozes são mais autoritárias,

outras mais persuasivas; as primeiras interpelam e resistem à bivocalidade; a segunda transita,

é permeável. São inter-relações dialógicas que nos permitem, nesta pesquisa, analisar os

discursos que compõem a memória discursiva sobre uma greve de professores, quais vozes

são mais autoritárias ou persuasivas e que efeitos possuem nas práticas sociointerativas. A

teoria bakhtiniana admite que todo enunciado se dirija não somente a um destinatário

imediato, do qual espera uma compreensão responsiva, cuja presença é percebida, mais ou

menos conscientemente, e “o que espera é uma resposta, uma concordância, uma adesão,

uma objeção", (BAKHTIN, 1997, p. 291), mas o autor pressupõe um sobredestinatário. A

identidade deste varia: “ora é a igreja, ora o partido, ora a ciência, ora a correção política.”

(FIORIN, 2006a, p. 27). Este sobredestinatário, este terceiro acima de todos os outros

participantes, também se aloja e compõe a memória discursiva.

Vale dizer que essa discussão coloca em pauta a possibilidade de se pensar em sujeitos

determinados pelo social, pois, a teoria de Bakhtin, ao advogar sobre a heterogeneidade dos

enunciados (vozes sociais interiorizadas), estando em nossa memória discursiva como

palavras de outrem, e como tais bivocalizadas, pode sugerir que estas vozes sejam

incondicionalmente aceitas. No entanto, não é esta a proposta bakhtiniana e Faraco (2003)

afirma que o círculo de Bakhtin mantém um espaço teórico significativo para singularidade,

recusando qualquer forma de determinismo absoluto e,

o que sustenta esta alternativa teórica é a percepção que o universo socioideológico e o mundo interior não remetem a estruturas pesadamente monolíticas e centrípetas [...], mas a realidades múltiplas e centrífugas, e confrontando-se em uma intrincada rede de incontáveis entrechoques ocorrendo numa dinâmica inesgotável. (FARACO, 2003, p. 83).

É, justamente, dessa singularidade do sujeito, que observamos a real possibilidade de

interlocução entre Bakhtin e a Teoria da Cognição, em relação à percepção de uma memória

cognitiva, a que propõe a Análise Crítica do Discurso. Ainda, para entendimento das questões

que ora apresentamos sobre o funcionamento da memória sociocognitiva e a construção da

autoria nos discursos, utilizaremos, também, das leituras que fazem Authier-Revuz (1990) e

Fairclough (2001) do dialogismo bakhtiniano. Para estes autores, o discurso do outro pode

32

tanto se manifestar explicitamente, marcando a presença deste na própria cadeia discursiva-

heterogeneidade mostrada, quanto através da heterogeneidade não explicitamente mostrada-

constitutiva11, que significa não apresentar delimitação visível de fronteiras entre o sujeito do

discurso e a figura de um enunciador exterior ao seu discurso. (AUTHIER-REVUZ, 1990). E

que, ao não deixar marcas visíveis (palavras, enunciados) do outro, não pode ser apreendida

por uma abordagem linguística stricto sensu.

3.2 Análise Crítica do Discurso

Neste subcapítulo, desenvolveremos os conceitos que solidificam a Análise Crítica do

Discurso (ACD), do inglês critical discourse analysis12. Esta teoria pressupõe estabelecer

uma ponte que preencha a lacuna existente entre a dimensão social e as propriedades

linguísticas que na interação e na experiência cotidianas formam um todo unificado (DIJK,

2008). Trata-se de uma análise de discurso que se centra em focalizar duas categorias

funcionais que lhe são essenciais, sendo elas:

1. A focalização dos discursos em seu processo de produção, distribuição e consumo

textual, cuja natureza sociocognitiva, baseia-se nas estruturas e nas convenções sociais

já interiorizadas. Para tal, Fairclough (2001) apresenta a Concepção Tridimensional

Discursiva, que propõe uma análise textual e linguística detalhada na linguística, a

tradição macrossociológica de análise da prática social em relação às estruturas sociais

e a tradição interpretativa ou microssociológica de considerar a prática social como

alguma coisa que as pessoas produzem ativamente e entendem com base em

procedimentos do senso comum partilhados;

2. O desenvolvimento de alguns conceitos, como poder, controle e dominação; discurso

manipulador, cognição social, memória, modelos e representações

sociocompartilhadas. A fim de demandar dos textos investigados um número maior de

categorias analíticas que mostrem claramente a dominação e a hegemonia nos dados.

11 Termo utilizado por Authier-Revuz, J. Heterogeneidade(s) enunciativas(s). In: Cadernos de Estudos

Linguísticos. Campinas, (19), p. 25-42. jul./dez.1990. 12

Aqui traduzido pela expressão Análise Crítica do Discurso, a exemplo do livro organizado por Emília Pedro (1997), com o mesmo título.

33

3.2.1 História e objetivos da ACD

Na Universidade de East Anglia, Grã-Bretanha, na década de 1970, pesquisadores

desenvolvem um campo de estudos denominado linguística crítica, ao articular as teorias e os

métodos de análise textual da linguística sistêmica, de Halliday, com teorias sobre as

ideologias. Fairclough (2001) reitera que é desta década a forma de análise do discurso que

identifica o papel da linguagem na estruturação das relações de poder na sociedade; contudo,

registra que na década anterior, alguns movimentos consolidavam estudos sobre a importância

das mudanças sociais como perspectiva de análise, explicando que na França, Michel Pêcheux

e Jean Dubois desenvolveram uma abordagem da análise de discurso, tendo por base,

especialmente, o trabalho do linguista Zellig Harris e a reelaboração da teoria marxista sobre a

ideologia. E, comparando as duas vertentes, verifica que a primeira destaca a análise

linguística, porém, com pouca ênfase nos conceitos de ideologia e poder, e a segunda enfatiza

a perspectiva social, relegando a análise linguística. Ambas apresentam uma visão estática das

relações de poder, enfatizando o “papel desempenhado pelo amoldamento ideológico dos

textos linguísticos na reprodução das relações de poder existentes”, (FAIRCLOUGH, 2001,

p. 20). O fato é que as lutas e as transformações de poder não mereceram a atenção exigível,

considerando-se a linguagem em si e seu papel. Fairclough (2001, p. 20), com mais detalhes,

esclarece, ainda, que nos primeiros estudos da linguística crítica, a análise linguística e o

tratamento de textos linguísticos estão bem desenvolvidos, mas havia pouca teoria social, e os

conceitos de ideologia e poder eram usados com pouca discussão ou explicação; enquanto no

trabalho de Pêcheux a teoria social era mais sofisticada, a análise linguística era tratada em

termos semânticos muito estreitos:

Prestou-se pouca atenção à luta e à transformação nas relações de poder e ao papel da linguagem. Conferiu-se ênfase semelhante à descrição dos textos como produtos acabados e deu-se pouca atenção aos processos de produção e interpretação textual, ou às tensões que caracterizam tais processos. Como consequência, essas tentativas de síntese não são adequadas para investigar a linguagem dinamicamente em processos de mudança social e cultural. Fairclough (2001, p. 20).

Conforme Magalhães (2005), em 1979, Fowler, Kress, Hodge, e Trew publicaram

Language and Control, um livro que discute a relação entre o estudo do texto e os conceitos

de poder e ideologia e em 1980, Norman Fairclough, usa a expressão 'análise de discurso

crítica' que não pode ser considerada uma continuação da linguística crítica, já que a ACD

34

propõe, teórica e metodologicamente, um estudo de textos e eventos em diversas práticas

sociais em seu contexto sociohistórico. Surge, então, a Análise Crítica do Discurso (ACD),

com a publicação de Van Dijk da revista Discourse and Society. Entretanto, Magalhães julga

ser importante acrescentar publicações anteriores, como os livros: Language and power, de

Norman Fairclough, em 1989; Language, power and ideology, de Ruth Wodak, em 1989; e a

obra de Teun Van Dijk sobre racismo, Prejudice in discourse, em 1984. Obras que, segundo

Pedro (1997, p. 22), apresentam diferenças, mas comungam em aspectos fundamentais

permitindo falar de um projeto comum. Magalhães (2005) cita Fairclough, autor-referência

desta pesquisa, como sendo um importante teórico para a ACD, já que cria um método para o

estudo do discurso e esforça-se extraordinariamente para explicar por que cientistas sociais e

estudiosos da mídia precisam dos linguistas. E cita Van Dijk, outro autor-referência deste

trabalho, como aquele que tem, também, contribuído para o debate da ACD como organizador

de Discourse and Society, um importante periódico internacional da área.

A ACD, então, propõe-se a estudar a linguagem como prática social e, para isso,

considera o importante papel do contexto para atingir este objetivo. Esse tipo de análise se

interessa, sobretudo, pela relação que há entre a linguagem e o poder. É possível defini-la

como um viés que se ocupa, fundamentalmente, de análises que dão conta das relações de

dominação, discriminação, poder e controle, na forma como elas se manifestam através da

linguagem. (WODAK, 1997a). Nessa perspectiva, a linguagem é um meio de dominação e de

força social, servindo para legitimar as relações de poder estabelecidas institucionalmente. É

para atingir esse objetivo que a ACD recorre ao contexto social da enunciação em busca das

realizações do processo comunicativo e daquilo que o realiza dialeticamente, isto por

considerar os discursos como fatos históricos e, portanto, socialmente instituídos e

ideologicamente constituídos.

Para a ACD são necessárias as descrições e teorizações dos processos e das estruturas

sociais responsáveis pela produção de um texto “como uma descrição das estruturas sociais e

os processos nos quais os grupos ou indivíduos, como sujeitos históricos, criam sentidos em

sua interação com textos.” (WODAK, 2003, p. 19). Não obstante, a relação entre o texto e o

social não é vista de maneira determinista, e,

a ACD trata de evitar o postulado de uma simples relação determinista entre os textos e o social. Tendo em consideração as intuições de que o discurso se estrutura por dominação, [...] o complexo enfoque que defendem os proponentes [...] da ACD permite analisar as pressões provenientes de cima e as possibilidades de resistência às relações desiguais de poder que aparecem em forma de convenções sociais. (WODAK, 2003, p. 19-20, tradução nossa).

35

Devido aos diferentes enfoques seguidos por analistas críticos do discurso, aceita-se a

Análise Crítica do Discurso como um conjunto de procedimentos de pesquisa. Sendo assim,

trabalhar com a ACD implica considerá-la como uma perspectiva teórica que versa sobre a

linguagem.

A ACD é uma forma de ciência crítica que foi concebida como ciência social destinada a identificar os problemas que as pessoas enfrentam em decorrência de formas particulares da vida social e destinada, igualmente, a desenvolver recursos de que as pessoas podem se valer a fim de abordar e superar esses problemas. (FAIRCLOUGH, 2003, p. 185).

Este caráter social da Análise Crítica do Discurso é confirmado por Wodak (2003) ao

afirmar que, ao se desenvolverem projetos com base nessa teoria, é de suma importância a

aplicação dos resultados a que se chega, seja em seminários para pessoas da mesma área ou

profissionais de outras áreas que se beneficiem com os resultados, seja em textos escritos em

que se exponham as constatações, posições e experiência ou como critérios para a elaboração

de livros didáticos. No caso desta pesquisa, seus resultados podem confirmar os propósitos

citados por Wodak(2003), o de permitir a reflexão/alteração dos discursos

produzidos/reproduzidos durante uma greve, pela mídia e pelos demais atores, embora este

não seja um objetivo explícito do presente trabalho; todavia, há de se considerar importante à

contribuição que ele possa dar a organização de trabalhadores em educação na cidade de Belo

Horizonte.

A ACD destaca a necessidade do trabalho interdisciplinar, objetivando-se uma

compreensão adequada do modo como a linguagem opera. Assim se poderá compreender a

manifestação da linguagem na organização das instituições sociais e no exercício do poder.

Esse tipo de análise busca uma teoria da linguagem que incorpore a dimensão do poder como

condição capital da vida social. Daí se justifica o esforço de estudiosos da ACD para

desenvolver uma teoria da linguagem que apresente essa dimensão como uma de suas

premissas fundamentais. “A ACD se interessa pelos modos em que se utilizam as formas

linguísticas em diversas expressões e manipulações do poder.” (WODAK, 2003, p. 31).

36

3.2.2 A proposta de Norman Fairclough

O foco analítico de Fairclough (2001) é o do discurso como prática social. Para tal,

apresenta a Análise Tridimensional do Discurso, Pagano e Magalhães (2005) entendem que

nesse modelo a análise textual está de acordo com a proposta de análise crítica do discurso,

como análise da organização dos textos, compreendendo dois tipos complementares de análise: a lingüística e a intertextual. Na análise lingüística, parte-se do pressuposto de que o texto se apropria seletivamente dos sistemas lingüísticos e, na análise intertextual, do pressuposto de que o texto se apropria seletivamente de ordens do discurso, entendidas como convenções particulares de práticas convencionalizadas. (PAGANO; MAGALHÃES, 2005 p.27).

A primeira, a linguística, propondo-se a análise não somente do material textual, mas

também, das opacidades textuais; enquanto a segunda, intertextual, vê esse texto como

escolha, uma prática social, que envolve uma complexa rede em uma dada ordem do discurso.

A vida é feita de práticas e o discurso é um dos elementos da prática social. Por prática social,

entende-se: atividade produtiva, meios de produção, relações sociais, identidades sociais,

valores culturais, consciência e semioses (produção de significados); por sua vez, em

conformidade com o autor, as práticas sociais que são construídas de maneira concreta, em

forma de redes, constituem uma ordem social. O aspecto semiótico de uma ordem social é o

que podemos chamar de uma ordem do discurso, ou seja, ordens do discurso seriam os

significados resultados das práticas sociais cotidianas. É em Foucault, que Fairclough (2001,

p. 62) busca a contribuição para sua concepção de ordem discursiva e poder na tentativa de

operacionalizar sua percepção em métodos reais de análise.

Nesta linha, podemos pensar que, em nossa pesquisa, durante uma greve, várias

práticas sociais se constituem, através de práticas de conflito entre classes sociais; que se

constroem identidades que se reafirmam e legitimam-se, através de ideologias, crenças,

conhecimentos, e etc. Em rede, estas práticas, interdependentes, constituem uma ordem social,

produzindo sentidos, que vão se estabelecendo em nossa sociedade, são ordens discursivas

sobre greve, que povoam os discursos que circulam e constituem vários outros, construindo

uma discursividade sobre greve, professores e movimentos reivindicatórios no geral. Assim,

circulando o discurso vai naturalizando ideias; como modo de prática política e ideológica, e

desse modo,

37

constitui , naturaliza , mantém e transforma os significados do mundo de posições diversas nas relações de poder [...] a prática discursiva recorre a convenções que naturalizam relações de poder e ideologias particulares e as próprias convenções. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 94).

Nesse sentido que o discurso é conceitualizado tanto como um modo de ação (como as

pessoas agem sobre o mundo e sobre as outras) e como um modo de representação, há uma

dialética entre ele e a estrutura social, que pode moldá-lo e restringi-lo, como também ser um

constitutivo dela. É uma prática de representação e de significação do mundo, constituindo e

construindo esse mundo em significados. Sua análise deve, portanto, envolver todo o processo

de produção, distribuição e consumo; esses processos são sociais, por isso exigem referência

aos ambientes políticos e institucionais particulares, nos quais o discurso é gerado. Trata-se,

pois, de uma prática de análise sociocognitiva, uma vez que se fundamenta em estruturas e

nas convenções sociais interiorizadas. Explicitaremos este modelo de análise a seguir.

3.2.2.1 O modelo tridimensional de Fairclough

Para entender o discurso, Fairclough (2001) sugere uma análise tridimensional,

explicando que qualquer evento ou exemplo de discurso pode ser considerado,

simultaneamente, um texto (dimensão textual e linguística), um exemplo de prática discursiva

(dimensão da produção e interpretação) e um exemplo de prática social, que seriam as

circunstâncias institucionais e organizacionais do evento comunicativo.

Em relação ao modelo tridimensional, deverão ser consideradas, nos termos de

Fairclough (2001, p. 100), três tradições analíticas, que serão mais bem detalhadas no

próximo item desta pesquisa: a tradição da análise textual e linguística detalhada na

linguística, a tradição macrossociológica e a tradição interpretativa ou microssociológica.

Importa ressaltar que o modelo tridimensional segue orientação de três perspectivas de análise

em relação: à mudança social, à perspectiva multifuncional, e à histórica. A primeira, para

avaliar as relações entre mudança discursiva e social e, também, para relacionar as

propriedades particularizadas de textos às propriedades sociais de eventos discursivos,

perceptíveis à análise de vocabulário, gramática, coesão e estrutura textual; a segunda, a

multifuncional, para averiguar as mudanças nas práticas discursivas que contribuem para

mudar o conhecimento, as relações e identidades sociais; esta perspectiva tem a ver com

38

aspectos relacionados à produção e interpretação textual, já que textos simultaneamente

representam à realidade, ordenam as relações sociais e estabelecem identidades, conforme

propõe a teoria sistêmica de Halliday. E, finalmente, a histórica, para discutir a “estruturação

ou os processos ‘articulatórios’ na construção de textos e na constituição a longo prazo de

‘ordens de discurso’”, (FAIRCLOUGH, 2001, p. 27, destaques do autor); que se relacionam à

análise das práticas discursivas modificadas em relação a mudanças sociais e por

consequência em relação a estruturas sociais.

3.2.2.1.1 Análise textual

A dimensão textual é baseada na tradição de análise textual e linguística, subdividida

em quatro itens de análise: estrutura textual, coesão, gramática e vocabulário. Sendo

elementos da análise textual:

a) A estrutura textual interacional; que descreve as características organizacionais gerais

sobre o funcionamento e o controle das interações, contemplando as funções

referencial e identitária da linguagem. Destacam-se: a polidez e o ethos; a análise do

primeiro busca determinar quais as estratégias de polidez são mais utilizadas no

corpus e o que isso sugere sobre as relações sociais entre os participantes. Em relação

ao ethos, busca-se reunir as características que contribuem para a construção das

identidades sociais.

b) A análise coesiva; que busca mostrar de que forma as orações e os períodos estão

interligados no texto.

c) A gramática; que trabalha com a concepção de transitividade, remetendo-se à função

ideacional da linguagem (verificar se tipos de processo ação/eventos e participantes

estão favorecidos no texto, que escolhas de vozes são feitas, se ativas ou passivas e

como se dá o processo de nominalização); o tema, ligado à função textual da

linguagem (observa se existe um padrão discernível na estrutura do tema do texto para

as escolhas temáticas das orações); e, modalidade, que diz respeito à função

interpessoal da linguagem (determina padrões por meio da modalidade, quanto ao grau

de afinidade expressa com proposições).

d) A análise de vocabulário se subdivide em análise do significado, criação de palavras e

metáfora. Quanto ao significado, busca-se enfatizar palavras que apresentam

39

significado cultural ou variável e como elas funcionam hegemonicamente em estado

de luta. Em relação à criação de palavras, contrastam-se as formas de lexicalização dos

sentidos com as formas de lexicalização desses mesmos sentidos em outros tipos de

textos, verificando-se a perspectiva interpretativa por trás dessa lexicalização. E, por

fim, a análise da metáfora pretende caracterizar aquelas utilizadas em contraste com

outras usadas para sentidos semelhantes em outro lugar, verificar que fatores (cultural,

ideológico, histórico, etc.) determinam a escolha dessa metáfora.

3.2.2.1.1.1 Considerações preliminares da análise textual em relação à pesquisa

Em relação à pesquisa, podemos explicitar aqui, como a análise textual proposta por

Fairclough (2001), pode nos contemplar. Por exemplo, em relação ao vocabulário, podemos

buscar no corpus: lexicalizações alternativas e sua significação tanto política quanto

ideológica nos discursos. “Os significados das palavras e a lexicalização de significados são

questões que são variáveis socialmente e socialmente contestadas, e facetas de processos

sociais e culturais mais amplos.” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 230). Perceber o uso de

metáforas, já que estas possuem implicações políticas e ideológicas em conflito com

metáforas alternativas, pois, conforme Fairclough (2001), a metáfora é escolhida para

significar coisas, então, constrói-se uma realidade de uma maneira específica, e não de outra.

E, esta, de tão naturalizada, pode causar difícil identificação.

Em gramática, podemos observar as escolhas das orações em termos de modelo e

estrutura, bem como o significado e a construção de identidades sociais, de relações sociais,

de crenças e conhecimentos. Um exemplo seriam as orações declarativas que podem ser tidas

como autoritárias. Ou a identificação do tema e do tópico, as relações entre as construções

ativas e passivas e a omissão do agente nas construções passivas. Quanto à transitividade,

podemos estabelecer que fatores sociais, culturais, ideológicos, políticos ou teóricos decidem

como um processo é significado num tipo de discurso particular (ou mesmo em diferentes

discursos) ou em um dado texto. Por exemplo, se há motivação para escolher a voz passiva, se

seu uso permite a omissão do agente por ser irrelevante, por ser evidente por si mesmo ou por

ser desconhecido, mas, também, a omissão pode ter razões políticas ou ideológicas, a fim de

ofuscar o agente, a causalidade e a responsabilidade.

40

Outra atenção, em relação à análise textual, seria a de observar como se estruturam as

regras de polidez. Não respeitar uma regra do discurso é se expor. Para Fairclough (2001),

todo indivíduo possui duas faces: a negativa e a positiva. A negativa corresponde ao território

de cada um, onde as pessoas não querem ser incomodadas, impedidas ou controladas por

outros; já a face positiva tem a ver com a imagem que passamos socialmente para as outras

pessoas; assim: quais imagens nossos atores sociais pretendem explicitar? E quais não

pretendem, mas que se apresentam? Já em relação ao ethos: “A imagem discursiva de si é [...]

ancorada em estereótipos, um arsenal de representações coletivas que determinam,

parcialmente, a apresentação de si e sua eficácia em uma determinada cultura.”

(CHARAUDEAU, 2006b, p. 221). O posicionamento de Fairclough (2001) é de que o ethos

pode ser considerado como parte de um processo mais amplo de modelagem em que o tempo

e o lugar de uma interação e seus participantes, são constituídos pela valorização de ligações

em certas direções intertextuais de preferência a uma e não a outras. Podemos nos perguntar

como o ethos de nossos atores é constituído nos discursos analisados?

Estas categorias permitirão descrever a significação ideológica intrínseca nos

discursos tanto da PBH, quanto do sindicato e da mídia em análise, uma vez que a escolha de

estratégias de composição estrutural do texto revela valores, crenças e conhecimentos

relacionados àquilo que é enunciado pelos sujeitos. A análise textual é, portanto, um dos

elementos constituintes que permitirão tecer as concepções de ideologia presentes nos

discursos investigados aqui.

3.2.2.1.2 Análise discursiva

Análise discursiva se refere à prática de produção, distribuição e consumo textuais e

está baseada na tradição interpretativa ou microssociológica de levar em conta a prática social

como algo que as pessoas, ativamente, produzem e apreendem com embasamento em

procedimentos compartilhados consensualmente. Trata-se, portanto, de uma análise chamada

de “interpretativa”, pois é uma dimensão que trabalha com a natureza da produção e

interpretação textual, (FAIRCLOUGH, 2001, p. 107), sendo elementos de análise:

41

a) A interdiscursividade e a intertextualidade manifesta, em relação à análise de

produção do texto; a primeira busca especificar os tipos de discurso13 que estão no

corpus sob análise e de que forma isso é feito. “É a amostra discursiva relativamente

convencional nas suas propriedades interdiscursivas ou relativamente inovadora?”

(Fairclough, 2001, p. 283). A percepção da intertextualidade manifesta faz-se diante

da observação de como outros textos estão se delineando na constituição dos textos

pesquisados, através de representação discursiva, ironia, negação pressuposição e

metadiscurso.

b) Em relação à distribuição do texto é necessário especificar como a distribuição dos

textos é feita através da descrição das séries de textos nas quais ou das quais é

transformada, ou seja, quais os tipos de transformações, quais as audiências

antecipadas pelo produtor?

c) A coerência textual e suas implicações interpretativas, quanto ao consumo do texto.

Especificam-se as práticas sociais de produção e consumo do texto, ligadas ao tipo de

discurso que a amostra representa. A produção é coletiva ou individual? Há diferentes

estágios de produção? “As pessoas do animador, autor e principal são as mesmas ou

diferentes?” (Fairclough, 2001, p. 285).

d) A análise da força dos enunciados, análise dos atos de fala, que se subdividem em

assertivos, comissivos, declarativos, expressivos e diretivos. Força está em contraste

com proposição, para Fairclough (2001), o componente proposicional, é parte do

significado ideacional, a força é o seu componente acional.

3.2.2.1.2.1 Considerações preliminares da análise discursiva em relação à pesquisa

Práticas sociais do mundo do trabalho se efetivam a partir das relações que ali são

estabelecidas: atividade produtiva, meios de produção, identidades sociais, valores, etc. Um

exemplo é a relação patrão vs. empregado, que deve ser estabelecida através de negociações;

no entanto, quando estas não são possíveis a greve se apresenta como uma estratégia para se

13 Usamos o termo ‘tipo de discurso’ conforme Maingueneau (2008, p. 16), que distingue grandes tipos de unidades, a primeira delas chamada unidade tópica territorial; que seriam espaços já pré-delineados pelas práticas verbais, tipos de discurso relacionados a certos setores de atividades da sociedade: discurso administrativo, publicitário, político, etc. Estes tipos englobariam gêneros de discurso, entendidos como dispositivos sócio-históricos de comunicação.

42

forçar um diálogo. A greve possui uma estrutura composicional particular socialmente aceita;

nela práticas discursivas se interrelacionam pertinentemente: passeatas, piquetes,

manifestações, panfletos, boletins, cartas, atas, propostas, planilhas, etc. Tratamos, nesta

pesquisa, de quatro gêneros textuais, cujo processo de produção, distribuição e consumo são

diferentes entre si: notas, boletins, cartas abertas e reportagens são gêneros particulares que

designam não só a área relevante de conhecimento, mas também o modo particular de como

ela é constituída - por exemplo, o discurso sindical/classista sobre a greve, o discurso do

patrão/PBH sobre a greve e o discurso jornalístico sobre a greve. Entretanto, embora possuam

o mundo das relações políticas de trabalho como uma área de conhecimento construída, os

pontos de vista são divergentes constituídos em seus discursos, a partir da sua posição, das

ordens discursivas as quais se recorrem, e do contexto situacional.

De outro modo, também, o discurso político de greve é só um modo particular de

construir o assunto política, ou seja, os gêneros analisados designam a política como uma área

de conhecimento, construída de uma perspectiva (de um modo particular) de sujeitos (atores

sociais) em estado de greve. Assim, as circunstâncias históricas da greve, em conjunto com

seus atores, vão produzir discursos sobre política, através das práticas sóciodiscursivas, do

modo como o a mídia, o sindicato em confronto com a prefeitura e vice-versa, representam e

ao mesmo tempo constituem e são constituídos por essa circunstância social.

Ao se posicionarem e representarem o mundo, os discursos são atravessados por

discursos anteriores, pontos de vistas, que o fazem um todo heterogêneo; a apreensão desse

outro se faz, através de dois conceitos funcionais de análise, considerados por Fairclough

(2001) como essenciais: a intertextualidade14, subdividida em categorias de análise, como: a

representação no discurso, a ironia, a negação, a pressuposição, o metadiscurso e a

interdiscursividade.

A primeira categoria seria a de representação no discurso, no lugar do termo discurso

relatado, também problematizado por Bakhtin; porque o que está representado não é apenas a

fala, mas também a escrita, e não somente aspectos gramaticais, mas sua organização

discursiva. Fairclough (2001, p.153) cita Bakhtin (1988, p. 119), para quem há uma relação

dinâmica entre as vozes do discurso representado e representador; considerando que há

diferenças naquilo que é citado, quando é citado, como e por que tal citação é feita assim;

14 Por intertextualidade manifesta, entende-se intertextualidade sequencial (em que diferentes textos ou tipos de discurso se alternam em um texto); intertextualidade encaixada (em que um texto ou tipo de discurso está claramente contido dentro da matriz de um outro, uma relação entre estilos) e a intertextualidade mista, em que textos ou tipos de discurso estão fundidos de forma mais complexa e menos facilmente separável. (FAIRCLOUGH, 2001).

43

pode-se pensar se a representação vai além do ideacional (conteúdo) para incluir aspectos do

estilo e contexto do representador. Na análise poderemos perceber como os discursos são

representados e quais efeitos essas representações possuem.

As pressuposições são também categorias de análise, pois ao serem tomadas pelo (a)

produtor (a) do texto como já estabelecidas ou dadas, se definem como uma forma de

incorporar textos de outros; ou seja, um alheio, que é contestado, que corresponde a uma

opinião geral (o que as pessoas tendem a dizer, experiência textual acumulada). Fairclough,

aqui, incorpora os trabalhos de Pêcheux, ao relacionar pressuposição a uma expressão pré-

construída que circula em uma forma já pronta. Podendo, também, ser ela interpretada em

termos de relações intertextuais com textos prévios do (a) produtor (a) do texto ou em textos

de outros. As pressuposições podem, também, possuir um caráter manipulador, sendo

extremamente importantes à nossa análise. Nesse viés, as frases negativas são frequentemente

usadas com finalidades polêmicas e carregam tipos especiais de pressuposição que também

funcionam intertextualmente, incorporando outros textos somente para contestá-los ou rejeitá-

los. E, ainda, nesse trabalho interdiscursivo, Fairclough (2001) cita a natureza intertextual da

ironia. Dizendo-nos que um enunciado irônico ecoa o enunciado de outro, também

pressupondo que o outro reconheça esse enunciado.

A intertextualidade se manifesta metadiscursivamente quando o (a) produtor (a) do

texto distingue níveis diferentes dentro de seu próprio texto e distancia a si próprio (a) de

alguns níveis do texto, tratando o nível distanciado como se fosse um outro texto, externo,

através de expressões evasivas, uma outra possibilidade é parafrasear ou reformular uma

expressão. O metadiscurso, estratégia que gera esse efeito, implica que o (a) falante esteja

situado acima ou fora de seu próprio discurso e esteja em uma posição de controlá-lo e

manipulá-lo. Uso próprio do discurso midiático, Romão e Tfouni (2004), atestam que o

discurso jornalístico adota estratégias retóricas com o objetivo de apresentar fatos como sendo

verdades objetivas, pela utilização de marcas formais bastante definidas, tais como

indeterminação do sujeito e apagamento do nome do autor. Assim, o discurso jornalístico

organiza direções de leitura, o distanciar-se é uma forma de fazer parecer uma informação

segura e confiável, tão proclamada pela imprensa. Segundo as autoras, tal distanciamento

cristaliza o dizer, instaurando uma ilusão de verdade absoluta. E o trabalho ideológico vai

sendo feito. Quando da análise apresentaremos, mais detidamente, essa discussão.

Quanto à interdiscursividade, podemos pensar que textos são produzidos através de

outros tipos de textos que relacionados uns aos outros, transformam-se por um processo de

cadeias intertextuais sequenciais ou sintagmáticas, como por exemplo: uma nota da PBH pode

44

transformar-se em uma reportagem do jornal Estado de Minas, ou em uma letra de música

feita pelo sindicato com o objetivo irônico de provocar o patrão. Estas cadeias contrastam

com as relações intertextuais paradigmáticas, discutidas sob o título de interdiscursividade,

isto significa que, conhecimentos sobre greve, em uma ordem societária, partilhados e aceitos

(um instrumento de reação dos trabalhadores, autorizado pelo Estado e institucionalizada pela

liberdade sindical), constituem os elementos dessa ordem discursiva, ou seja, constituem

sujeitos e efetivam suas posições; já que estes estão constantemente abertos para serem

redesenhados à medida que as ordens de discurso são desarticuladas e rearticuladas no curso

da luta hegemônica. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 159).

Em relação à análise da coerência, embora não apresentemos, nesta pesquisa, análise

de dados de interpretações de leitores dos discursos; partimos da análise sobre como os

produtores interpelam os sujeitos intérpretes. Buscamos, então, compreender como Mídia,

Sindicato e PBH postulam sujeitos intérpretes e implicitamente estabelecem as suas posições

interpretativas. Considerando, no entanto, que estes sujeitos intérpretes não são um todo

moldado, assujeitados,

são, é claro, mais do que sujeitos do discurso em processos de discurso particulares: eles são também sujeitos sociais, com experiências sociais particulares acumuladas e com recursos orientados variavelmente para múltiplas dimensões da vida social, e essas variáveis afetam os modos como vão interpretar textos particulares. (Fairclough, 2001, p.171).

E podemos, também, nos perguntar sobre quanto de trabalho inferencial nosso corpus

requer. Ou seja, observar se os discursos apresentam resistências uns aos outros. Nessa

orientação, podemos observar que tanto a PBH quanto sindicato e mídia, interpelam os

sujeitos intérpretes de seus discursos. O sindicato tem por função resistir à interpelação

proposta pela prefeitura e apresentar, o que para o sindicato, seriam as suas incoerências,

desarticulando esse discurso para apresentá-lo aos professores e à opinião pública. À

prefeitura, cabe desarticular o discurso sindical, acrescentando mais uma dimensão da

intertextualidade ao texto para sustentar sua interpretação (análise econômica, críticas

políticas ao sindicalismo partidário, etc.). E em relação à mídia, nesse sentido, podemos nos

perguntar sobre como ela interpela seu público intérprete, em função de uma ou outra

ideologia.

Em relação ao consumo textual, entendemos que os textos de greve são consumidos

diferentemente, e os sujeitos leitores, também, podem ocupar um conjunto de posições, e cada

uma dessas posições pode também ser ocupada de forma múltipla: receptores (aqueles para

45

quem os textos se dirigem), ouvintes ou leitores (aqueles para quem o texto não está dirigido

diretamente, mas são incluídos) e destinatários (aqueles que não são considerados leitores ou

ouvintes legítimos, contudo são reconhecidos como consumidores de fato). Nos textos em

análise, podemos pensar em quem são os destinatários? Quem são os sujeitos dos discursos,

que vozes são ouvidas nos textos representando os sujeitos? Casarim (2000) citando Bakhtin

aponta para a noção de enunciado dividido (nesta pesquisa, no capítulo de análise

explicaremos melhor este conceito), em que percebemos como um discurso pode estabelecer

confronto entre posições de sujeito diferentes. O enunciado dividido tem como principal

característica a não-comutabilidade de elementos, são discursos em confronto que vivem no

mesmo enunciado.

Já, em se tratando da força dos enunciados, podemos considerar este um aspecto

essencial à pesquisa, uma vez que muitas das vezes os discursos gerados em situação de

greve, tanto aqueles do patrão como os do sindicato, objetivam indiretamente mandar fazer.

Neste sentido, a escolha por certos atos de fala, pode facilitar tal intenção de efeito, ainda que

sejam instrumentos de efeitos garantidos pós-discurso, por várias razões, entre elas políticas e

ou ideológicas, tal intenção é geralmente omitida em texto. Tal intenção é construída

discursivamente de maneira que não seja explicitada tal intenção.

3.2.2.1.3 Análise social

A última categoria de análise de Fairclough (2001), em sua teoria tridimensional, seria

a análise social, cujo objetivo geral é o de especificar “a natureza da prática social da qual a

prática discursiva é uma parte, constituindo a base para explicar por que a prática

discursiva é como é; e os efeitos da prática discursiva sobre a prática social.”

(FAIRCLOUGH, 2001, p. 289). Essa é uma análise de tradição macrossociológica da prática

social em relação às estruturas sociais, de natureza interpretativa.

46

3.2.2.1.3.1 Considerações preliminares da análise social em relação à pesquisa

Ao proceder à análise social, que não será feita em item específico, mas durante todo o

processo de análise, já que, como Fairclough (2001, p. 100), ao tentarmos compreender como

os atores produzem seus mundos, veremos que suas práticas são moldadas por estruturas e

relações de poder. Assim, seus discursos são sempre investidos política e ideologicamente e

sua produção, consequentemente heterogênea e contraditória. No decorrer da investigação,

concomitante à análise textual e discursiva, faremos à análise social, nos termos de Fairclough

(2001). Para tal, desenvolvemos nos itens que se seguem a definição dos conceitos

necessários à ACD que dizem respeito à dimensão social de análise.

3.2.3 Cognição discursiva

Fairclough (2001) ao elaborar o processo de produção e interpretação, em uma

dimensão sociocognitivista, explica que ao processar um texto, intérpretes reduzem sua

ambivalência se utilizando do contexto textual aliado ao contexto de situação, e daí chegam à

interpretação da totalidade da prática social da qual o discurso faz parte. Mas é Dijk (2008)

quem revela como definimos a coerência local e global dos textos através de processamento

cognitivo, ao apresentar o estatuto da cognição política.

Vejamos, inicialmente, um enquadre teórico conceitual com as noções psicológicas

elementares, ao nosso estudo, apresentadas em Dijk (2008). Este quadro apresenta alguns

construtos que antecipam reflexões sobre a maneira como estruturamos mentalmente

conhecimentos, crenças, representações sobre situações, eventos, atores, grupos políticos e

construções sociais solidificadas em nossa sociedade.

47

Tópico Subdivisão Definição e Funcionamento

Short Term Memory (STM), também

chamada de memória de

trabalho.

Nesta memória STM acontece o processamento real de informações (como percepção, compreensão e produção discursiva, monitoramento da interação etc.), organizada em vários tipos de representações mentais, cada um com sua própria estrutura esquemática (compra em loja, participação em congressos) ou Scripts (categorias para as situações, eventos, ex: o conhecimento geral que as pessoas têm de políticos). Fazendo uso da informação (por exemplo, conhecimento) armazenada em LTM.

A memória episódica armazena as experiências pessoais que resultam do processamento (compreensão) em STM.

Memória

Long Term Memory (LTM)

A memória semântica ou social armazena informações mais gerais, abstratas e socialmente partilhadas.

Modelos mentais são subjetivos, formam a base cognitiva de todo discurso e interação individual, representando eventos específicos, tais como conhecimento e opinião. Corporificam tanto informações pessoais como sociais, servindo como o centro da interface entre o social e o individual.

Quadro 1: Memória e Modelos Fonte: Dijk (2008)

A partir do quadro compreendemos que a memória é uma estrutura mental abstrata

responsável pelos processos cognitivos e pelas representações sociais. Dijk (2008) faz uma

distinção entre short term memory (STM), onde ocorre o processamento real de informações

(como percepção, compreensão e produção discursiva, monitoramento da interação, etc.); e

long term memory (LTM) que armazena o conhecimento, por exemplo. Esta pode ser

episódica ou semântica, a primeira conhecida como memória de trabalho, armazena

definições práticas de atividades cotidianas e experiências pessoais, enquanto a segunda

armazena informações mais gerais, abstratas e socialmente partilhadas, também chamada de

memória social.

A informação em LTM se organiza em vários tipos de representações mentais, cada

uma com sua própria estrutura esquemática. Por exemplo, conhecimentos sociais gerais sobre

episódios convencionais (tais como, compras num supermercado ou participação em um

congresso acadêmico) podem ser organizados por “scripts”, consistindo de um número de

categorias fixas, por exemplo, categorias para as situações, eventos, ações e participantes

típicos de tais episódios.

As experiências pessoais são organizadas na memória episódica, armazenam os

conhecimentos em STM e são representadas em modelos mentais que também têm uma

estrutura esquemática. Os modelos representam eventos específicos, é a interpretação pessoal

de tal tipo de evento; são estes que definem a compreensão de todo o evento comunicativo. A

estas compreensões, Dijk (2008) define como sendo representadas pelo que ele chama de

modelos de contexto, os quais ao mesmo tempo, para os falantes, operam como seus -

dinamicamente mutáveis - planos para a fala. Os modelos funcionam como uma interpretação

individual de um discurso particular em uma situação específica. (Dijk, 2008). Assim,

48

podemos dizer que modelos são subjetivos. São eles que formam a base cognitiva de todo

discurso e interação individual. Isto é, tanto na produção quanto na compreensão, pessoas

constroem um modelo de um evento e definem a sua coerência local e global.

Para Dijk(2008) é importante ressaltar que modelos formam em princípio uma base

cognitiva. Entretanto, ao integrarem novas informações corporificam tanto informações

pessoais como sociais e, dessa forma, servem como o centro da interface entre o social e o

individual. Isto é, as representações sociais gerais e abstratas da memória social são em

primeiro lugar derivadas de nossas experiências pessoais e representadas em nossos modelos

episódicos; quando modelos são compartilhados, generalizados e socialmente normalizados,

eles constituem, então, a base da aprendizagem social e política experimentada. O ciclo

abaixo demonstra esse processo:

Quadro 2. Ciclo de processamento da memória

O ciclo nos mostra como incorporamos ideologias, conhecimentos, crenças e valores:

práticas discursivas que podem exercer controle, dominação e manipulação. O processo é

cíclico; quer dizer que quando confrontados com os eventos, os sujeitos acionam sua memória

social e pessoal; estes eventos são experimentados, interpretados e assumidos para si, daí são

representados e partilhados; quando generalizados, são, os modelos, normalizados e

arquivados na memória social. Neste momento, o processo se completa gerando modelos que

são compartilhados na sociedade. O processamento discursivo, então, pode ser entendido

através da relação entre as crenças partilhadas socialmente e as crenças pessoais (que são os

modelos), e, de outra relação entre essas representações sociais e pessoais com as estruturas

49

discursivas. (DIJK, 2008). Isto significa que crenças factuais compartilhadas de um grupo ou

cultura, verificadas pelos critérios de verdade (historicamente variável) daquele grupo ou

cultura, é que definem o conhecimento, que é uma estrutura mental organizada de crenças

factuais.

No caso das ideologias, Dijk (2008) explica que estas são, por definição, gerais e

abstratas, porque precisam se ajustar a muitas atitudes diferentes em domínios sociais

diferentes. Isto significa que fazer parte de uma ideologia exige do sujeito alguns critérios

como: pertencimento, atividades, propósitos, valores, posição e recursos. Há uma

identificação. Ninguém é pego por uma ideologia, sem se identificar e reconhecer-se como

tal. Os discursos ideológicos trazem em si conhecimentos e crenças, além de controles de

atitudes, que sugestionam alguma identificação do sujeito; espera-se que o sujeito ative seus

modelos mentais e assujeite-se, construindo a coerência global do texto. Em relação a esse

controle mental, vejamos no próximo item o que pode configurar-se como uma persuasão ou

manipulação discursiva, considerando sempre a perspectiva sociocognitva.

3.2.4 Ideologia, poder e dominância

Antes de desenvolvermos este item sobre a ideologia, podemos explicar por que

relacionamos ideologia a ordens do discurso e, posteriormente, o porquê da relação ideologia,

poder e dominância. A ACD define ideologia como sistemas sociocognitivos das

representações mentais socialmente partilhadas que controlam outras representações mentais e

os modelos mentais, (DIJK, 1996, p. 27, apud CHARAUDEAU, 2006b); e, Fairclough

(2001), ressalva que práticas são ideológicas à medida que incorporam significações que

contribuem para manter ou reestruturar as relações de poder. Já dissemos, no item 3.2, que

ordens do discurso têm primazia sobre as convenções discursivas particulares; então, localizar

ideologias nos eventos discursivos corresponde a uma análise simultânea entre ideologia e

ordens do discurso; pois, a ideologia, conforme Fairclough (2001), está nas estruturas e se

materializam em formas simbólicas; e estruturas nada mais são que ordens do discurso que

constituem resultados de eventos passados. Assim, ao estudarmos a ordens discursivas,

estamos também estudando como as ideologias, em rede, vão se configurando.

50

Gramsci, citado por Fairclough (2001), concebe o campo das ideologias em termos de

correntes ou formações conflitantes sobrepostas ou cruzadas – são complexos ideológicos que

são estruturados, reestruturados, articulados e rearticulados – esta concepção se harmoniza

com Fairclough (2001) em sua concepção de discurso: uma concepção dialética da relação

entre estruturas e eventos discursivos, considerando-se as estruturas (estruturas são ordens do

discurso que constituem o resultado de eventos passados) concebidas como configurações de

elementos mais ou menos instáveis e adotando uma concepção de textos que se centra sobre a

intertextualidade e sobre a maneira como articulam textos e convenções prévias. Fairclough

considera ordens do discurso como faceta discursiva do equilíbrio contraditório e instável que

constitui uma hegemonia; e a articulação e rearticulação de ordens do discurso, são

consequentemente um marco delimitador na luta hegemônica.

Sendo objetivo desta pesquisa investigar relações de poder que se estabelecem

discursivamente, precisamos compreender de que modo relações de poder se sustentam e se

reproduzem. Processos ideológicos são sistemas mentais complexos, que envolvem um

procedimento cognitivo de aquisição de modelos. Podemos pensar que são estes que

constituídos por formas simbólicas absorvem ideologias, mantendo ou reproduzindo relações

de poder. Mas, detalhadamente, como se dá este processo? A ideologia é sentido a serviço do

poder, conforme Thompson (2007), e isto significa que ao constituir sentidos através de certos

modos e estratégias de construção simbólica, em condições sócio-históricas específicas, as

ideologias operacionalizam-se e contribuem para manter relações de dominação. Podemos

entender, então, que além de um processo cognitivo social a ideologia se organiza a partir de

formas simbólicas. Na nossa análise se organiza, especificamente, através de notas, boletins e

reportagens sobre a greve.

Podemos pensar no poder societal entre classes (dos grupos ou das instituições) e este

processo ou exercício em relação ao discurso. Dijk (2008) para fazer esta ponte teórica entre o

nível macro e micro de análise retoma princípios fundamentais à ACD e formula a relação

ideológica nos termos da cognição social e considera a sociocognição “uma noção complexa

que necessita de uma teoria madura e interdisciplinar para capturar as implicações e

aplicações mais importantes desse conceito.” (DIJK, 2008).

Fairclough (2001) associa relações de poder ao conceito de hegemonia, peça central da

análise que Gramsci (apud Fairclough, 2001:122) faz do capitalismo ocidental . Para

Fairclough, a produção, a distribuição e o consumo de textos são, na realidade, um dos

enfoques da luta hegemônica que contribui, em diferentes graus, para a reprodução ou a

51

transformação da ordem de discurso e das relações sociais e assimétricas existentes. A seguir,

estão relacionadas algumas concepções de hegemonia aceitas por Fairclough (2001):

a) é tanto liderança como exercício do poder em vários domínios de uma sociedade

(econômico, político, cultural e ideológico);

b) é, também, a manifestação do poder de uma das classes economicamente definidas

como fundamentais em aliança com outras forças sociais sobre a sociedade como um

todo, porém nunca alcançando, senão parcial e temporariamente, um equilíbrio

instável;

c) é, ainda, a construção de alianças e integração através de concessões (mais do que a

dominação de classes subalternas);

d) é, finalmente, um foco de luta constante sobre aspectos de maior volubilidade entre

classes (e blocos), a fim de construir, manter ou, mesmo, a fim de romper alianças e

relações de dominação e subordinação que assumem configurações econômicas,

políticas e ideológicas.

Ideologia, a partir dessa visão é “uma concepção do mundo que está implicitamente

manifesta na arte, no direito, na atividade econômica e nas manifestações da vida individual

e coletiva.” (GRAMSCI apud FAIRCLOUGH, 2001, p. 123). Embora a hegemonia pareça ser

a forma organizacional de poder predominante na sociedade contemporânea, não é a única.

Há também os resíduos de uma forma anteriormente mais evidente em que se atinge a

dominação pela imposição de regras, normas e convenções.

A ACD busca nos limites da sociologia e das Ciências políticas as principais

características do poder social e tenta sua reconstrução utilizando também de características

presentes em seu próprio sistema teórico. É Dijk (2008) quem desenvolve uma teoria própria

do poder e que se apresenta extremamente útil para a nossa pesquisa. Em resumo, esta teoria

caracteriza poder como uma propriedade das relações entre grupos, instituições ou

organizações sociais, resultando em diferentes centros de poder e grupos da elite que

controlam tais centros; o poder social é definido em termos do controle exercido por um

grupo ou organização ou seus integrantes, sobre as ações e ou as mentes de (membros de)

52

outro grupo, limitando dessa forma a liberdade de ação dos outros ou influenciando seus

conhecimentos, atitudes ou ideologias.

Entende-se que o poder quando usado como um exercício moral e legalmente

ilegítimo de controle sobre outros em benefício ou interesse próprio, caracteriza uma forma de

dominância. Este processo de poder se constitui pelo uso de estratégias cognitivas precisas

que afetam as cognições sociais de grupos. De um modo geral o que está envolvido aqui é a

manipulação de modelos mentais de eventos sociais15 através do uso de estruturas discursivas

específicas, como estruturas temáticas, manchetes, estilo, figuras retóricas, estratégias

semânticas, etc. (DIJK, 2008).

A manipulação é uma prática comunicativa e interacional na qual um manipulador

exerce controle sobre outras pessoas, normalmente contra a vontade e interesses delas. A

manipulação envolve não apenas poder, mas abuso de poder, dominação. Manipulação não é

persuasão, na persuasão os interlocutores são livres para acreditar ou agir como desejarem,

dependendo se eles aceitam ou não os argumentos do persuasor; já na manipulação aos

receptores é dado, tipicamente, um papel mais passivo: eles são vítimas da manipulação.

(WODAK, 1997a). Já que manipular pessoas envolve manipular crenças das pessoas,

conhecimentos e opiniões. Interessa-nos como o discurso se efetiva nesse papel manipulador.

Dijk (2008) desenvolve esta ideia quando afirma que o discurso, em geral, envolve o

processamento da informação na memória de curto prazo (MCP), resultando basicamente na

"compreensão" (de palavras, orações, sentenças, enunciados, e sinais não verbais). Esse

processo é estratégico no sentido de ser on-line, ser propositalmente direcionado, operar em

vários níveis da estrutura do discurso e ser hipotético: suposições e atalhos rápidos e

eficientes são feitos em vez de análises completas. Em nossa análise, como exemplo, a

observação das manchetes e dos títulos dos discursos de greve, pode sugerir atenção a uma

informação em vez de outra, o que pode conduzir o leitor a certa tendência ideológica.

No entanto, a maior parte de manipulação é direcionada para resultados mais estáveis

e, portanto, focada na memória de longo prazo (MLP)16, isto é, nos conhecimentos, atitudes e

ideologias; compreensões que são representadas em modelos mentais e estes formados,

15 “São relevantes para a discussão: (a) as relações entre as crenças partilhadas (representações políticas), por um lado, e as crenças pessoais (modelos), por outro, e (b) as relações dessas representações sociais e pessoais com as estruturas discursivas.” (DIJK, 2008, 88).

16 Também fazendo parte da MLP, no entanto, são as memórias pessoais que definem nossa história de vida e experiências, as representações que são tradicionalmente associadas à memória episódica, com modelos mentais específicos com suas próprias estruturas esquemáticas. (DIJK, 2008)

53

individualmente, restringem a liberdade de interpretação, (Dijk, 1998b). Influenciar atitudes é

considerada, em Dijk (2008), a forma de manipulação mais influente, porque uma atitude

geral socialmente compartilhada é mais estável que os modelos mentais (e opiniões)

específicos. A manipulação, assim, centraliza-se na formação ou na modificação das

representações mais gerais, socialmente compartilhadas, tais como atitudes e ideologias sobre

importantes questões sociais. Em relação à greve de professores, por exemplo, isso pode

acontecer ao associar greve à baderna, arruaça, desordem pública. Dijk (2008) cita Moscovici,

ao afirmar que a MLP armazena não apenas as experiências interpretadas subjetivamente

como os modelos mentais, mas também crenças compartilhadas socialmente de forma mais

estável, permanente e geral, chamadas de representações sociais,

A maior parte da interação e do discurso é assim produzida e compreendida em termos de modelos mentais que combinam crenças pessoais e sociais - de forma que explicam tanto a singularidade de toda produção discursiva e compreensão como a similaridade da nossa compreensão sobre um mesmo texto. (DIJK, 2008, p. 247).

O objetivo geral da manipulação discursiva é o controle das representações sociais

compartilhadas por grupos de pessoas, tendo em vista que essas crenças sociais, por sua vez,

controlam o que as pessoas fazem e dizem em muitas situações e durante um período

relativamente longo, a manipulação se centra na cognição social, em grupos de pessoas, e não

em indivíduos e seus modelos mentais particulares.

Essa "mediação mental" do poder também deixa espaço para graus variáveis de

liberdade e resistência. A greve é um bom exemplo disso na medida em que sujeitos são

posicionados ideologicamente, mas são também capazes de agir criticamente no sentido de

realizar suas próprias conexões entre as diversas práticas e ideologias a que são expostos. “O

equilíbrio entre sujeito-efeito ideológico e o sujeito agente ativo é uma variável que depende

das condições sociais, tal como a estabilidade relativa das relações de dominação.”

(FAIRCLOUGH, 2001, p. 121).

A greve é uma forma de resistência, um exercício de contrapoder, este evento subverte

a reprodução das relações de produção, que quando instaurada, embora autorizada pelo

Estado e institucionalizada pela liberdade sindical, coloca este mesmo Estado, que no caso é

patrão (uma luta entre Estado social e Estado de direito), em lugar vulnerável, menos

poderoso, e no mínimo em um desequilíbrio quando a relação entre classes é instaurado. A

prática da resistência desafia o discurso do opressor, não responde à mediação mental

pretendida pelo dominador; essas formas de contrapoder ou resistência vindas dos grupos

54

dominados apresentam, para Fairclough (2001), uma condição para a análise dos desafios e

das mudanças sociais e históricas. Nesse sentido, portanto, uma questão se impõe para esta

pesquisa: O discurso de manutenção e legitimação de poder oferece brechas para a

resistência? Se isto for verdade, e se for possível esta percepção, podemos através da análise

contribuir para esclarecer e evitar práticas de dominação e exploração.

Resumindo, podemos pensar a ideologia como sistemas sociocognitivos que controlam

outros (uma luta hegemônica pelo poder), entrecruzadas por estruturas discursivas. Nossa

análise deve ater-se às maneiras como o sentido17 serve para estabelecer e sustentar relações

de poder. Fairclough (2001) ressalva que os sentidos das palavras (conteúdo e não a forma)

são ideológicos. Não só eles, pois também o são a pressuposição, metáforas, coerência na

constituição ideológica dos sujeitos, convenções de polidez que implicam pressupostos

ideológicos sobre as identidades sociais e o estilo do texto que pode ser investido

ideologicamente. A ideologia, assim, através de certos modos e várias estratégias de

construção simbólica se operacionaliza através de estratégias típicas, tais como: legitimação,

dissimulação, unificação, fragmentação e reificação.

Enfim, poder social pode ser definido como o controle exercido por um grupo ou

organização ou seus integrantes, sobre as ações e ou as mentes de (membros de) outro grupo,

limitando dessa forma a liberdade de ação dos outros ou influenciando seus conhecimentos,

atitudes ou ideologias; e ainda, quando esse poder é exercido de maneira ilegítima, configura-

se uma forma de manipulação. Dijk (2008) adverte que, embora a manipulação seja

normalmente ideológica e discursos manipuladores frequentemente apresentem os padrões de

polarização ideológica em todos os níveis de análise, as estruturas discursivas e as estratégias

de manipulação não podem ser simplesmente reduzidas a qualquer outro discurso ideológico.

No entanto, há que se considerar que é preciso, dada à análise do contexto, observar que a

manipulação só acontece quando se confere alguma forma de desigualdade social.

Thompson(2007) 18 sugere a análise destas estratégias e indica que este exame alertar-nos

para algumas maneiras de como o sentido pode ser mobilizado no mundo social e como pode

17 O sentido é o das formas simbólicas. Por formas simbólicas se entende um amplo espectro de ações e falas, imagens e textos que são produzidos e estão inseridos em contextos sociais e circulando no mundo social. (Thompson, 2007). 18 Thompson (2007, p. 33), propõe um referencial metodológico que coloca em evidência o discurso; chamado Hermenêutica da Profundidade, seu objeto de análise é a construção simbólica significativa que exige uma interpretação. Considera os trabalhos dos filósofos hermeneutas do século XIX e XX – Dilthey, Heidegger, Gadamer e Ricoeur, de importância particular para seus objetivos teóricos. Esses pensadores lembram que o estudo das Formas Simbólicas é fundamentalmente e inevitavelmente um problema de compreensão e interpretação. Baseia-se na elucidação das maneiras como as formas simbólicas são interpretadas e compreendidas pelas pessoas que as produzem e as recebem no discurso de suas vidas cotidianas.

55

delimitar um raio de possibilidades para a operação da ideologia e também das categorias

manipulativas; sendo assim, no capítulo 4 destinado à análise, nosso estudo investigará sobre

as maneiras como o sentido é construído, nos discursos de greve e através de quais estratégias

é mobilizado para estabelecer e sustentar relações de dominação, sejam elas ideológicas e ou

de manipulação.

3.3 Categorias de análise

Apresentaremos a seguir categorias de análise com as quais trabalharemos, nesta

pesquisa. Como sugere Fairclough (2001), focalizaremos os discursos em seu processo de

produção, distribuição e consumo textual.

Para tal, seguiremos as orientações de Fairclough (2001), Thompson (2007) e Dijk

(2008), pois acreditamos que estes autores oferecem-nos referencial metodológico bastante

operacional para a análise que pretendemos.

3.3.1 Fairclough

Pautaremos nossa análise, pelas orientações de Fairclough (2001), em sua concepção

tridimensional de discurso, já apresentada no item 3.2.2. Seguiremos sua proposta de unir as

três tradições analíticas, e sendo assim, apresentaremos, primeiramente, uma análise dos

discursos de greve, considerando os três atores sociais: sindicato, PBH e mídia com base nas

tradições macrossociológica e interpretativa. A análise do processo de produção e

interpretação textual ressaltará a dimensão sociocognitiva, como específica do processo, que

se centraliza na interrelação entre os recursos dos membros que os participantes do discurso

têm interiorizado e trazem consigo para o processamento textual e o próprio texto. Na

abordagem interdiscursiva, observaremos os recursos disponíveis interiorizados, normas e

convenções como também ordens do discurso, que restringem a produção, distribuição e

consumo dos textos; bem como a natureza específica da prática social da qual fazem parte:

56

natureza dos processos discursivos em instâncias particulares e a natureza das práticas sócias

de que fazem parte.

Para tal, focalizaremos a interdiscursividade, os tipos de discurso, ou seja, se os

discursos são convencionais nas suas propriedades interdiscursivas ou relativamente

inovadores, (FAIRCLOUGH, 2001, p. 283); a intertextualidade manifesta, sobre quais outros

textos estão delineando a constituição dos discursos; a distribuição dos textos em cadeias

intertextuais, sobre a descrição das séries de textos nas quais ou das quais são transformadas.

E, posteriormente, faremos a análise textual e lingüística detalhada na linguística em conjunto

com análise da prática discursiva.

3.3.2 Thompson

A abordagem ideológica dos sentidos, proposta por Thompson (2007), caracteriza-se

produtivamente nesta análise por manter um claro diálogo com a ACD, em função do caráter

crítico a que se propõe o autor na análise dos discursos.

A proposta de Thompson (2007) pretende estudar as maneiras como o sentido serve

para estabelecer e sustentar relações ideológicas de poder. O sentido que interessa é o sentido

das formas simbólicas19 que estão inseridos em contextos sociais e circulando no mundo

social. A ideologia pode operar através de certos modos e algumas maneiras (de como os

modos podem estar ligados com vários estratégias de construção de construção simbólica) de

estar ligada a uma circunstância particular e à estratégia de construção simbólica. Assim, sua

orientação metodológica busca localizar as estratégias típicas da construção simbólica, ou

seja, dedica-se aos modos de operacionalização da ideologia, tais como: a legitimação, através

da racionalização, universalização e narrativização; a dissimulação, através do deslocamento,

eufemização e tropo (sinédoque, metonímia, metáfora); a unificação, através da

estandardização e simbolização da unidade; a fragmentação, através da diferenciação e do

19 Por formas simbólicas se entende um amplo espectro de ações e falas, imagens e textos que são produzidos PR sujeitos e reconhecidos por ele e outros como construtos significativos. Mas, podem também ser não-linguísticos (ex: uma imagem) – pode-se analisar o caráter significativo das formas simbólicas em 4 aspectos típicos: intencional, convencional, estrutural, referencial e um contextual, o qual indica que as FS estão sempre inseridas em contextos e processos socialmente estruturados. (THOMPSON, 2007).

57

expurgo do outro e por último a reificação, através do processo de naturalização,

nominalização e passivização.

Para Thompson (2007) o exame das estratégicas típicas de construção simbólica pode

alertar-nos para algumas maneiras como o sentido pode ser mobilizado no mundo social e

como pode delimitar um raio de possibilidades para a operação da ideologia; mas não pode

tomar o lugar de uma análise cuidadosa das maneiras como as formas simbólicas se

entrecruzam com relações de dominação em circunstâncias particulares e concretas.

3.3.3 Dijk

É objeto desta pesquisa reconhecer as práticas discursivas de poder que exercem

controle e dominação. Para tal, uma abordagem analítica é apropriada, segundo Dijk (2001),

porque a maior parte da manipulação desenvolve-se através da fala, escrita e mensagens

visuais. Assim, observaremos:

1. Discursos que possuem funções pragmáticas diretivas, tais como

comandos, ameaças, leis, regulamentos, instruções e, mais indiretamente, de

recomendações e conselhos, que configuram práticas de controle.

2. Mecanismos retóricos, por meios de repetição ou da argumentação e

meios retóricos que descrevem acontecimentos, ações ou situações futuras ou

eventuais (alertas, previsões, conselhos - que são, muitas das vezes, formas mais ou

menos confessas de censura).

3. A seleção de proposições sobre professores e ou sobre greve,

constituem na construção de modelos de eventos específicos.

4. O uso de determinado estilo e retórica, bem como lexicalizações

específicas.

5. Estratégias de generalizações,

6. Análise das manchetes, na constituição da manipulação.

7. Auto-apresentação positiva; outro - apresentação negativa;

Dijk (2008) adverte que embora a manipulação sociopolítica seja normalmente

ideológica, e discursos manipuladores frequentemente apresentem os padrões de polarização

ideológica em todos os níveis de análise, as estruturas discursivas e as estratégias de

58

manipulação não podem ser simplesmente reduzidas a qualquer outro discurso ideológico.

Assim há que se observar,

dada nossa análise dos contextos sociais e cognitivos do discurso manipulador, precisamos examinar as restrições específicas formuladas anteriormente, tais como a posição dominante do manipulador (por exemplo), a falta de conhecimento relevante dos receptores e a condição de que as consequências prováveis dos atos de manipulação sejam do interesse do grupo dominante e contra os interesses do grupo dominado, contribuindo assim para a (ilegítima) desigualdade social. (DIJK, 2008 p. 245).

59

4 A ANÁLISE

No capítulo anterior apresentamos o referencial teórico que sustenta essa pesquisa, são

princípios teóricos que nos permitem abordar o movimento dos atores sociais que

pesquisamos. Mas o que buscamos compreender? Queremos saber como, através das práticas

discursivas, em situação de greve, esses atores se posicionam e de quais recursos discursivos

se utilizam para concretizar seus planos de ação.

O fato de estarem em interação faz com que, estes sujeitos e suas pretensões, sejam

atravessados uns pelos outros, porque é este o princípio dialógico discursivo que

compreendemos. Muito dos seus discursos deixam de representar a sua única intenção; ou

seja, o seu discurso não é somente seu. Portanto, nesses discursos há conflitos e contradições

e vários outros ditos, que os demarcam e os definem. Nessa perspectiva, explicitaremos a

seguir os dispositivos metodológicos com os quais trabalharemos a fim de apreender esse

movimento discursivo.

4.1. Procedimentos metodológicos

A análise que propomos segue os critérios de análise propostos pela ACD, como já

explicitados no capítulo anterior, em especial, a análise tridimensional do discurso, proposta

por Fairclough (2001); o movimento de análise da operacionalização ideológica no discurso,

proposto por Thompson (2007); somadas às análises de práticas sociodiscursivas

manipuladoras, propostas por Dijk (2008).

Conforme Fairclough (2001), em termos de análise, fica difícil definir o que fazer

primeiro, se a análise textual, a discursiva ou a social; pois essas três dimensões vão sempre

estar superpostas na prática. Entretanto, o autor sugere que adotar uma sequência é sempre

útil para coordenar o resultado. Desse modo, explicitaremos abaixo, por que optamos por

subdividir as três dimensões textuais da análise da prática discursiva (produção, distribuição e

consumo), não descartando a análise linguística, nem a análise social; ou seja, procedendo,

concomitantemente, às outras dimensões analíticas.

60

Dedicaremos atenção, primeiramente, à análise das práticas discursivas, contemplando

aspectos da produção de textos, em circunstância específica de greve, em que se relacionam

PBH e sindicato; sendo que o nosso objetivo é especificar as relações e as estruturas sociais e

hegemônicas que constituem e são constituídas por esses discursos. Como procedimento

teórico-metodológico, a análise se dedicou a apreensão de categorias discursivas como a

polifonia e a monofonia, construindo uma base de análise que oriente a interpretação da

discursividade complexa que constitui os textos analisados: textos políticos que se indexam as

posições divergentes, indiciando sentidos inscritos em redes e que compõem a sua

interdiscursividade. E, por fim, consideramos o atravessamento ideológico dos sujeitos,

buscando uma compreensão de como estes se constituem discursivamente.

Quanto ao funcionamento ideológico das práticas discursivas, consideramos que as

ideologias implícitas nas práticas tornam-se eficazes quando naturalizadas, buscando, por

meio de um trabalho interpretativo descritivo (THOMPSON, 2007), compreender como tais

discursos são produzidos; ou seja, como é estruturado tal investimento ideológico e

hegemônico (FAIRCLOUGH, 2001). Sabemos que relações políticas discursivas se dão em

função de modelos mentais e sociais (ideologias são efeitos ‘aceitos’ e socialmente

compartilhados). Então, este é o trabalho de análise que pretendemos ao buscar a

compreensão de como ideologias naturalizam-se, sociocognitivamente, ao ponto de interferir

e influenciar o pensamento social e político, em termos de conhecimentos, atitudes, normas e

etc. Já em relação ao discurso jornalístico, como Thompson (2007), consideramos a ideologia

como sentido a serviço do poder, para apreendermos a sobrecarga ideológica pela qual

responde o jornal Estado de Minas ao noticiar a greve de professores. Interessa-nos,

especificamente, reconhecer os sentidos políticos que este jornal põe em circulação e à qual

projeto hegemônico esta mídia indexa.

Por fim, abordaremos a manipulação discursiva como uma estratégia potencialmente

ideológica que se instaura em contextos específicos, sofrendo também uma série de restrições.

Dessa forma, sustentados pela abordagem metodológica proposta por Dijk (2008), buscamos

a compreensão de como essas práticas se estabelecem em um estado democrático de direitos.

61

4.2 O discurso político: um tipo discursivo

Para a ACD, tanto os significados quanto as formas de discurso político provém de

modelos pessoais e sociais das representações políticas em geral, tais como os conhecimentos,

as atitudes e as ideologias, sendo que, em ambos os casos, adquirem a função de modelos de

contextos. Estes são as estruturas mentais20 que representam como os participantes

compreendem os eventos políticos específicos, o mundo político e também a situação da

comunicação política, respectivamente. Isto significa que não existe um formato de discurso

político, uma vez que é constituído a partir das situações; são as circunstâncias, que

demarcam a construção desses discursos através dos modelos cognitivos. Sendo assim, os

grupos políticos e instituições não são apenas sociopoliticamente definidos em termos de

conjuntos de atores, coletividades e suas interações, mas também sociocognitivamente, em

termos de seu conhecimento, suas atitudes, suas ideologias, suas normas e seus valores. O

discurso político, então, somente pode ser descrito e explicado de forma adequada quando

detalhamos a interface sociocognitiva que o relaciona às representações políticas socialmente

compartilhadas que controlam as ações, os processos e os sistemas políticos.

Segundo Dijk (2008), um estudo do discurso político é teórica e empiricamente

relevante apenas quando as estruturas discursivas podem ser relacionadas às propriedades das

estruturas e processos políticos. Por isso, o autor sugere que uma análise requeira uma

explicação do macronível político; e, para as estruturas discursivas, uma abordagem no

micronível de análise. Citando Merelman, sobre o que ele chama de cognição política:

O estudo da cognição política em grande parte trata das representações mentais que as pessoas compartilham enquanto atores políticos. Nosso conhecimento e opiniões sobre políticos, partidos ou presidentes são adquiridos, mudados ou confirmados pelas várias formas de fala e escrita durante nossa socialização, pela educação formal, pelo uso midiático e pela conversação. (MERELMAN, 1986, apud DIJK, 2008, p. 197).

Daí nossa convicção de que a formação de concepções sobre o evento greve, parte da

interrelação entre as representações sociocognitivas e socialmente partilhadas. Confirmando

este pressuposto, Dijk (2008) entende que a pesquisa sobre as representações do discurso

político deve focar sua análise, sobretudo, nas relações postas entre atores sociais, modelos

20 Estruturas mentais, modelos de eventos e modelos de contextos, conforme explicados no Capítulo 3.

62

cognitivos e modelos sociais compartilhados por uma coletividade que se encontra

socialmente estruturada, veiculados, sobretudo, pela mídia escrita. Neste sentido, justifica-se o

interesse desta pesquisa no estudo do comportamento de tal instância.

Já em relação aos gêneros dos discursos que circulam em uma instância política,

podemos dizer que é o contexto situacional da greve que restringe as atividades sócio-

linguageiras que ali ocorrem, pois os discursos políticos veiculados sofrem uma certa

orientação em sua organização e em sua estrutura linguística. Maingueneau (2008) explica

que alguns tipos de discursos, como o discurso político e o discurso da mídia, são

relacionados a certos setores de atividades da sociedade; e que esses tipos englobam gêneros

de discurso, entendidos como dispositivos sócio-históricos. Isto significa que boletins, cartas e

notas, gêneros com os quais trabalhamos nesta pesquisa, relacionam-se reciprocamente,

agrupando-se e construindo um tipo de discurso, que é o discurso político de greve. Da

mesma forma que as notícias dos jornais se relacionam, constituem-se em um gênero

específico, compondo o discurso midiático, que trataremos mais adiante nesse capítulo.

Os gêneros discursivos, portanto, se agrupam seguindo critérios, podendo subdividi-

los em: cartas e boletins que compõem o discurso político sindical, que foram assim

agrupados em função de serem produzidos a partir de um mesmo posicionamento (no interior

do mesmo campo político); e, notas oficiais que compõem o discurso político patronal, que

são produzidas a partir de outro posicionamento divergente ao primeiro. Trata-se de uma luta

ideológica de delimitação de um território simbólico, um posicionamento contra o outro; e

“os gêneros aí se agrupam, então, em dois níveis: o nível do posicionamento e o do campo ao

qual esse posicionamento concerne.” (MAINGUENEAU, 2008, p. 17). Assim, definimos o

estatuto de gêneros do discurso, com o qual trabalharemos nesta pesquisa. Notas, boletins e

cartas são gêneros discursivos que constituem um tipo de discurso: o político; da mesma

forma que as notícias de jornal EM, são gêneros que constituem um outro tipo discursivo: o

midiático.

No entanto, desdobrando ainda mais essa questão, entendemos que nossos atores, ao

enunciarem seus discursos, posicionamentos dentro de um determinando campo discursivo ao

serem constituídos, constituem-se, formados por vários outros posicionamentos. Posições

podem ser atravessadas por outras; ou seja, posicionamentos são construídos e atravessados

por uma heterogeneidade, que pode por vezes ser explicitada e por outras não, formando

opacidades, fissuras e não se mostrando nos discursos. Sabemos que estão lá, porque é desta

forma que o discurso se constrói; formado por outros e não existe sem essa constituição.

63

Nesse sentido que, quando constituímos o corpus com o qual trabalhamos nesta

pesquisa, ao definir alguns critérios que norteariam a organização daquele conjunto de textos,

preferimos, também, trabalhar com a hipótese não-tópica da organização textual proposta por

Maingueneau (2008); e introduzimos a noção de formação discursiva. Mesmo entendendo

que os gêneros estão agrupados em função de determinados posicionamentos, o que

Maingueneau (2002, p. 17) chama de ‘unidades territoriais’, pudemos verificar que, em

função da análise, deveríamos através de um projeto interpretativo, definir as fronteiras

discursivas que compunham tais gêneros. Daí, apreendermos, dentro dos textos em análise,

unidades como as econômico-neoliberais21, democráticas, autoritárias e populistas, que

atravessam os gêneros que compõem os discursos políticos de greve, são a essas unidades que

Maingueneau (2002, p. 19) atribui o conceito de ‘formações discursivas’. Sustentando essa

categoria operacional, Maingueneau (2008) esclarece que estas unidades não podem ser

delimitadas por outras fronteiras, a não ser aquelas que são estabelecidas pelo pesquisador,

sendo que devem ser, sobretudo, historicamente especificadas.

Explicitamos, enfim, que o nosso corpus de análise é constituído por gêneros

diferentes (cartas, boletins e notas oficiais) que demarcam posicionamentos também

diferentes (que cabem ao campo discursivo ao qual pertencem) sendo atravessados por outros

discursos (unidades), que governam o seu dizer. São estas, as formações discursivas que

demarcam sua onipresença no discurso do outro. Maingueneau (2008, p. 20) faz ainda uma

distinção entre formações discursivas unifocais e plurifocais, fazendo uma referência a

Bakhtin, quando da distinção entre discurso monológicos, estruturados por um ponto de vista

dominante, e polifônicos, em que confrontam-se pontos de vista divergentes.

Sendo assim, podemos indicar que a orientação que damos à nossa análise pauta-se

pela noção de formação discursiva. Isto significa que, na análise, apresentamos as duas

formações discursivas que se distinguem e os gêneros que se constituem em função de

posicionamentos divergentes, quando apresentamos o quadro 2. O fazemos mostrando que de

fato os dois discursos (o do sindicato e o da PBH) são regidos por um mesmo sistema de

regras, sendo nosso objetivo mostrar que, além da evidente diferença entre estes discursos,

estes se constituem e convergem para um mesmo sistema de construção. Já, quando

apresentamos o quadro 3, fazemos uma elaboração do que Maingueneau (2008) chama de

uma formação discursiva unifocal, tendendo ao discurso monológico e a formação discursiva

21 Entendido, nesse caso, como o discurso que traduz a política econômica restritiva neoliberal, que se propõe

reduzir a margem de manobra política e social do governo. (Boito, 2006).

64

plurifocal, tendendo à polifonia, em que analisamos os discursos, sob o viés das divergentes

vozes que os constituem, ao buscarmos a sua heterogeneidade constitutiva.

4.2.1 Análise da prática discursiva: relação PBH x sindicato

Como sabemos discursos são heterogêneos, formados por uma composição de várias

vozes e não somente a que define a sua posição. No entanto, tanto nas notas, quanto nos

boletins, em função das vozes que neles circulam, não podemos afirmar sem uma acurada

análise, se estes discursos são monofônicos ou polifônicos. Por que a necessidade dessa

distinção, nesta pesquisa? Porque reconhecer o funcionamento das vozes em um discurso nos

permite compreender como prefeitura e sindicato se articulam e fazem uso da sua

competência linguístico-discursiva para a finalidade que perseguem, no caso, captar e garantir

a adesão da população. Por isso, a seguir, realizaremos tal análise.

A polifonia se caracteriza por vozes polêmicas em um discurso, aquelas que corroem

continuamente tendências centralizadoras. (FARACO, 2003, p. 67). Mas o mais importante

nisso é saber que na polifonia não há síntese, não há superação dialética dos conflitos. A

polifonia é, também, dialógica, mas nem todo discurso, que é por si dialógico, pode ser

considerado polifônico. Há discursos dialógicos monofônicos em que os jogos de poder entre

vozes, que o constituem, buscam impor uma centralização, ou seja, possuem uma voz

autoritária que domina as outras. Com base em estudos feitos por Rechdan (2003):

na polifonia, o dialogismo se deixa ver ou entrever por meio de muitas vozes polêmicas; já, na monofonia, há apenas o dialogismo, que é constitutivo da linguagem, porque o diálogo é mascarado e somente uma voz se faz ouvir, pois as demais são abafadas. (RECHDAN, 2003, p. 03)

Nesse sentido, a análise que apresentaremos a partir de então, busca averiguar se as

notas oficiais divulgadas pela PBH em relação aos boletins do sindicato, em sua

heterogeneidade, apresentam-nos discursos monofônicos ou polifônicos; e assim entender

como são e a que servem estas vozes por eles veiculadas.

Para que fique claro o processo de análise, contemplando a abordagem da produção

textual, apresentaremos, primeiramente, recortes dos boletins do sindicato e das notas

veiculadas pela PBH, a fim de indicarmos as diferentes posições presentes nos dois discursos

65

em análise. Posteriormente, através de uma análise interdiscursiva e intertextual, avaliaremos

se os discursos, em sua heterogeneidade, apresentam uma voz dominante (sem polêmica) ou

não; neste caso, quais seriam as vozes e como elas se materializam. Tais formações

discursivas especificam as relações das estruturas sociais e hegemônicas que constituem esses

discursos22.

Por entender que a noção de Formação Discursiva (FD) é uma modalidade bastante

operacional para a nossa pesquisa, conforme já explicamos, e acreditando no diálogo

produtivo desta categoria operacional com a concepção do dialogismo bakhtiniano, somada à

influência do paradigma foucaultiano nos trabalhos de Fairclough (2001), é que fizemos a

opção pelo uso deste conceito. Já que, como constata Baronas,

Nos desenvolvimentos mais recentes da noção-conceito de formação discursiva é possível constatar que esse conceito, se por um lado se inscreve de vez no paradigma foucaultiano dos saberes discursivos, passa a dialogar menos tensivamente com outros teóricos do discurso tais como Mikail Bakhtin. (BARONAS, 2007, p. 11).

O corpus, em análise, caracteriza-se pela sua heterogeneidade e a heterogeneidade

textual pode ser recuperada a partir da diversidade de fontes na enunciação (mostrada) ou

através do interdiscurso23. Neste caso, a heterogeneidade é constatada pela recorrência de

temas (conhecimentos socialmente compartilhados ou construtos ideológicos), que permitem

interpretar outros discursos. Temas apreendidos configuram as FDs. Assim, conforme

Maingueneau (1993), um interdiscurso pode ser percebido através da recorrência de FDs; e,

um discurso, então, só é produzido mediante uma formação discursiva. Sobre a maneira como

buscaremos apreender as FDs, encontramos em Foucault (2008), a melhor definição:

No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições, funcionamentos, transformações) diremos por convenção, que se trata de uma formação discursiva. (FOUCAULT, 2008, p.43)

22 E assim explicitar o relacionamento da instância da prática social e discursiva com as ordens de discurso que

ela descreve e os efeitos de reprodução e transformação das ordens de discurso para as quais colaborou. 23 O interdiscurso consiste em um processo de reconfiguração incessante no qual uma formação discursiva é levada a incorporar elementos pré-construídos produzidos fora dela com eles provocando sua redefinição e redirecionamento, suscitando, igualmente, o chamamento de seus próprios elementos para organizar sua repetição, mas também, provocando, eventualmente, o apagamento, o esquecimento ou mesmo a denegação de determinados elementos. (Maingueneau, 1993, p. 113).

66

Assim, como o trabalho apresentado por Mayaffre (2007), que distingue FDs em

função de certa regularidade; através do quadro abaixo, queremos demonstrar que no domínio

dos discursos de greve dois tipos discursivos se distinguem para se afrontar: o discurso

sindical vs. o discurso da PBH. Trata-se de duas FDs bem estabelecidas por três razões: i) em

função do material linguístico utilizado, vocabulário, estruturas retóricas; ii) em função dos

traços típicos dos falares: governo vs. sindicato e as ocorrências discursivas que definem as

identidades sindicais vs. as identidades da PBH; iii) por que trazem um afrontamento de

classes e, consequentemente, uma clivagem ideológica forte, uma divisão social atestada entre

um sistema neoliberal e outro, que deseja extingui-lo (ou elite vs. proletariado).

PBH

SINDICATO

i) “A prefeitura, no esforço para equilibrar suas contas conseguiu ser uma das raras capitais brasileiras a ver suas finanças saneadas. Para isso, tem racionalizado gastos e não abre mão do rigor no trato com dinheiro público (...)” . Informe publicitário, 05/08/01. Jornal EM. (Anexo1) ii) “A PBH, que tem negociado permanentemente, reafirma a necessidade de imediato retorno ao trabalho e comunica que tomará todas as medidas legais (...)”26/08/2002. (Anexo2) “determino ao município de Belo Horizonte, no caso de inadimplemento da obrigação que junte aos autos no prazo de sessenta dias, sindicância nomeando os professores ausentes de sala de aula desde o primeiro dia de greve (...)” DOM, 30/08/2001. (Anexo3) iii) “A Prefeitura de Belo Horizonte informa que: 1. Recorreu à justiça para desocupar sua sede, invadida na última quarta-feira por um grupo radical, ligado ao comando de greve (...) 2. Repudia com veemência a radicalização que vem ocorrendo nos últimos dias e tem certeza que tais atos não refletem o pensamento dos professores (...) a intransigência tem dificultado o entendimento e prejudicado o conjunto dos trabalhadores da educação e, principalmente, os alunos e suas famílias” 23/09/2001 Jornal EM. (Anexo5)

i) “Companheir@s, (...) mesmo que isso signifique a exploração cada vez mais intensa da nossa força de trabalho (...) bem como medidas que levam ao enfraquecimento da organização de trabalhadores (...), se essa administração dita democrática e popular não foi capaz de resiste aos encantos do neoliberalismo” 21/08/2001(Anexo9) “A política implementada por FHC tem tirado do povo o direito ao trabalho, à moradia, à terra, á saúde, à educação, para beneficiar o capitalismo financeiro, as multinacionais, os bancos, o FMI. Uma prática perversa que no município de BH encontra um agente à altura”, 22/08/2001(Anexo10) . ii) “ é preciso virar a mesa! Colocar o bloco na rua, a boca no trombone, mostrar a cara do movimento grevista da cidade (...) tirar a máscara de seriedade deste governo irresponsável e autoritário (...). Queremos propostas na mesa e o atendimento de nossas reivindicações” 17/08/2001(Anexo8) “(...) Reivindicamos o que nos é de direito. Essa tem sido a grande lição que damos todos os anos aos nossos alunos. (...) Com certeza, no seio de nossas lutas, estamos contribuindo na formação de sujeitos. Sujeitos que, de fato, transformarão essa história”. 22/08/2001 (Anexo10) iii) “ Diante de uma política perversa de retirada de direitos imposta por FHC e implementada pela administração Célio de Castro, nós Trabalhadores em Educação, estamos em greve” Esclarecimento dos Trabalhadores em Educação em greve à população de BH (05/08/2001) (Anexo13)

“ (...) governa para perpetuar no poder. Distribui a maior parte do bolo com aqueles que dão sustentação às atitudes arbitrárias e

autoritárias, com aqueles que reprimem e oprimem os trabalhadores que garantem a prestação de serviços para a população”. 21/08/01

(Anexo9)

Quadro 3: FDs distintas

A partir do quadro acima, podemos afirmar que PBH e sindicato indexam-se a FDs diferentes,

em:

i. A realidade lexical do discurso da PBH apresenta termos institucionais, vocabulário próprio da gestão econômica governamental (equilíbrio de contas, finanças saneadas, racionalização de gastos), recursos linguísticos que fazem

67

falar a voz da economia e da sua estabilização, contribuindo para um projeto argumentativo que se pretende mais racional, fundado no logos24; enquanto o discurso sindical apresenta em seu domínio lexical uma forte carga político-ideológica (exploração, força de trabalho, enfraquecimento da organização de trabalhadores, administração dita democrática e popular, encantos do neoliberalismo), termos que se vinculam semanticamente ao universo da luta entre classes sociais, ao trabalho, abuso de poder e opressão do trabalhador.

ii. Trechos que indicam o gerenciamento da PBH, como: comunica que tomará

todas as medidas legais e sindicância nomeando os professores ausentes indicam a constituição de deliberações, fundadas no propósito de constituição de um ethos25 discursivo institucional, definidor de uma identidade de autoritária; assim a PBH indicia uma identidade própria de um projeto político específico. O sindicato em: é preciso virar a mesa! Colocar o bloco na rua, a boca no trombone, mostrar a cara e em Colegas, não se deixe pisar; por sua vez, busca constituir através do efeito pathêmico um ethos discursivo fundado no falar popular; em seu projeto afetivo visa desconstruir sentidos que a PBH cria com a pressão e retaliação, instalando outra ordem de discurso, que busca a denuncia e desconstrução, propondo outra proposta de sociedade, que aponta para o que seu adversário, em busca de construção de sentidos contrários.

iii. Atesta-se uma divisão social entre governo e o trabalhador. A PBH em: A

Prefeitura de Belo Horizonte informa que: 1. Recorreu à justiça para desocupar sua sede; 2. [...] Repudia com veemência a radicalização, busca mascarar o verdadeiro debate que deve ser feito em situações de confronto político e se concentra somente sobre as modalidades e a realização de um programa de governo, sendo essencialmente pragmático, promovendo a satanização do sindicato, expulsando e negando a sua condição reivindicatória e a criminalização da greve26 – faz parte do jogo discursivo ideológico, sendo os professores, expulsos da legalidade – porque faz da greve um mal à educação e à sociedade. O sindicato, em: Diante de uma política perversa de retirada de direitos imposta por FHC, Distribui a maior parte do bolo com aqueles [...] que reprimem e oprimem os trabalhadores que garantem a prestação de serviços para a população, atualizando sentidos sobre a divisão do Estado (riqueza) vs. trabalhador (pobreza), apresenta claramente o confronto e a dificuldade de interlocução com o gestor – que temperam a divisão de classes. Um confronto aberto, exposto pelos sentidos mobilizados de indignação e revolta.

24 Como lembra Eggs (2005), o logos se remete ao próprio discurso e aos raciocínios empregados pelo orador para obter assentimento do auditório. 25Trata-se da construção de uma integridade discursiva, pela qual o orador busca parecer e ser percebido competente, razoável, sincero e solidário. (EGGS, 2005). 26 Esse movimento discursivo é afetado pela memória discursiva, que se remete a acontecimentos históricos de outras greves da década de 1990: metalúrgicos, Petrobrás, caminhoneiros e apontam o mesmo funcionamento ideológico – o de provocarem malefícios à sociedade – além de recolocarem o conflito como uma grande performance discursiva nacional (Boito,1999).

68

O discurso do governo associa-se a FD político econômico neoliberal, que busca

regularizar sentidos desvalorizantes sobre a organização dos trabalhadores: indicia o sindicato

como intransigente; desvincula a questão salarial, que seria a obrigação do estado, para outro

debate, outra instância; transfere para o jurídico, o lugar da legalidade, a resolução da greve,

através de práticas jurídicas de retaliação de direitos. O sindicato enuncia do lugar da

denúncia, filia-se a sentidos que invocam desigualdades e exploração e a FDs reivindicatórias

que abrigam ideais sociais, como o dos direitos trabalhistas, buscando incitar ações positivas

construtivas realizadas pelos seus filiados. Trata-se, pois, de FDs conflituosas, determinadas

pela dinâmica e tensa luta de classes, pelos interesses de grupos colocados socialmente em

posição de dominação e subordinação. Neste sentido, vemos claramente a formação de duas

FDs distintas entre si e que compõem a interdiscursividade do período em análise.

Vamos observar, para melhor definição desse quadro, como a FD na qual a prefeitura

se indexa se constitui a partir da heterogeneidade. Para tal, precisamos apresentar um novo

elemento histórico: a ocupação de um espaço que os professores fizeram no prédio da

prefeitura, em 19 de setembro, como uma forma de pressionar a negociação e dar vistas ao

movimento. Neste momento, a PBH solta a nota oficial abaixo, 01 (um) dia após a

desocupação. Esta nos servirá na análise, como exemplo de heterogeneidade discursiva:

1. A Prefeitura de Belo Horizonte informa que: 1. Recorreu à Justiça para desocupar sua sede, invadida na última quarta-feira por um grupo radical, ligado ao comando de greve. A desocupação deu-se na tarde de sábado, em cumprimento da decisão de reintegração de posse determinada pela Juíza da Primeira Vara da Fazenda Municipal. Assim, na segunda-feira, o prédio reabre e retoma seu funcionamento normal. 2. Repudia com veemência a radicalização que vem ocorrendo nos últimos dias e tem certeza que tais atos não refletem o pensamento dos professores municipais. O radicalismo e a intransigência têm dificultado o entendimento e prejudicado o conjunto dos trabalhadores da educação e, principalmente, os alunos e suas famílias. 3. Reafirma que o retorno imediato ao trabalho da pequena parcela dos professores, que ainda está paralisada, é fundamental para que o diálogo possa se estabelecer em busca de soluções que atendam aos interesses do conjunto da categoria. (Nota publicada no Jornal Estado de Minas, 23/09/2001). (Anexo5)

Ao atribuir ao grupo de professores o adjetivo radical e intransigente, em sua

estratégia argumentativa, a PBH invoca, de imediato, um interdiscurso que faz referência a

outras greves, na tentativa de associar grevistas e sindicato à confusão, baderna e ou a uma

organização extremista (dizeres que já foram construídos pela historicidade, inclusive em

referência ao Atentado de 11 de setembro às Torres Gêmeas em Nova York nos EUA), como

aqueles que são um empecilho à democracia, encaminhando a leitura a um julgamento final:

condenação à este grupo que não representa os professores. Recorre-se a essa FD oficial que

associa organização sindical ao radicalismo, como sendo aqueles que praticam atos escusos e

ações perigosas e desonestas. E, assim, silencia quaisquer vozes que tentem interferir em seu

69

projeto de criticar o movimento sindical, fazendo alavancar este sentido único: o de

descaracterizar a legitimidade do sindicato frente à população. Um conjunto de

encadeamentos discursivos conduzem para a construção da imagem que se pretende do

sindicato, ao afirmar que:

1.a “tem certeza que tais atos não refletem o pensamento dos professores municipais”

Neste caso, sugere que o movimento não é responsabilidade dos professores e sim de

um grupo pequeno que os lidera. Sugere que há um grupo dentro do sindicato que age contra

os professores e contra a população. Ao mesmo tempo, em que assume um lugar de suposta

neutralidade e isenção ao se fazer valer da voz jurídica, como em:

1.b “A desocupação deu-se na tarde de sábado, em cumprimento da decisão de

reintegração de posse determinada pela Juíza da Primeira Vara da Fazenda

Municipal”

Inscrevendo-se, então, como dissemos, em sentidos que remetem sindicalistas a

desordeiros, aqueles que infringem a lei. Fala-se, monologicamente, em prol da necessidade

da segurança, como em “Assim, na segunda-feira, o prédio reabre e retoma seu

funcionamento normal”, colocando em circulação o discurso dos cidadãos que precisam

utilizar prédios públicos; ou seja, daqueles que precisam e reclamam os serviços do Estado e a

segurança. Apagam-se vozes que poderiam destoar e desafinar o sentido pretendido. Ainda

que o movimento seja reconhecido politicamente, o que a nota faz aparecer é, apenas, o fato

de que o prédio público esteve ocupado por um pequeno grupo de rebeldes subversivos. Pode-

se verificar, a partir desta amostra, a presença de heterogeneidade através das vozes do

cidadão e da voz jurídica, no entanto, há uma única voz (inscrita pela voz da própria

instituição) que centraliza o discurso sem que haja polêmica; podemos entender que há única

voz apresentada.

O sindicato, em resposta à desocupação e alcançados os 56 dias de greve (o que

compreende um grande desgaste do movimento), publica uma carta aos professores, intitulada

“A luta também é sua!” (anexo 11) intencionando responder ao texto da PBH. Esta carta é

moldada pela nota anterior, pelas falas dos responsáveis pela PBH e pelo posicionamento de

professores que não assumiram a greve (por pressuposições ou antecipações daqueles que

previam o fim do movimento). É dessa historicidade que fala Fairclough (2001, p. 134), ao

70

indicar a relevância do conceito de intertextualidade para a análise do discurso; pois, o texto

ao retrabalhar textos passados, ajuda a fazer a história e contribui para processos de mudança

mais amplos. É essa a intenção da organização sindical com essa carta, restringir os possíveis

sentidos que a PBH faz circular a respeito do sindicato, da sua direção e contribuir para

processo de mudanças mais amplos27. Até mesmo no sentido de se construir greves futuras.

Na carta em análise, o título “A luta também é sua!” possui um formato exclamativo,

cuja força ilocucional é diretiva, direcionando-se àqueles que não estão em greve e impondo-

se pelo modo da súplica e do rogo, cujo valor incitativo, funciona ora como uma convocação,

ora como uma espécie de desabafo do comando de greve que assina a carta. Busca provocar

o efeito perlocucional de adesão. A intertextualidade manifesta-se28 através das orações

relatadas, direta e indiretamente, como no exemplo a seguir:

1. Quando Maurício Borges afirma que “se os professores saírem inteiros da greve, no ano

que vem farão outra greve”.

Neste caso, Maurício Borges, então secretário da administração da PBH, faz essa

afirmação em relação aos professores, em uma reportagem do jornal Estado de Minas. Este

trecho do texto está explicitamente marcado na carta do sindicato pelo uso das aspas. Este uso

demarca um limite evidente entre a voz de Maurício Borges e a voz do sindicato.

No exemplo 2, há outra incorporação textual explícita, em que as aspas desaparecem e

o discurso da PBH toma a forma de uma oração gramaticalmente subordinada à oração que

relata, uma relação marcada pela conjunção que:

2. “como dizem as notas oficiais da PBH, em que atribuem a alguns a responsabilidade

pelo nosso movimento”.

27 Daí a necessidade de juntar as duas teorias, conforme Fairclough (2001), o conceito de intertextualidade

aponta apara a produtividade dos textos, mas essa produtividade não está disponível para as pessoas, ela é socialmente limitada e restringida conforme as relações de poder. Isso significa que com a teoria das hegemonias é possível mapear as possibilidades e as limitações para os processos intertextuais dentro de hegemonias particulares (justifica-se aqui a Teoria de Mudança Social). 28 Por intertextualidade manifesta, entende-se intertextualidade sequencial (em que diferentes textos ou tipos de discurso se alternam em um texto); intertextualidade encaixada (em que um texto ou tipo de discurso está claramente contido dentro da matriz de um outro, uma relação entre estilos) e a intertextualidade mista, em que textos ou tipos de discurso estão fundidos de forma mais complexa e menos facilmente separável. (FAIRCLOUGH, 2001).

71

Primeiramente, chamamos a atenção para o fato de que ao relatar as falas, o sindicato

usa o verbo ‘dizer’ para a PBH, em contraposição ao ‘afirmar’ para Maurício Borges. Uma

escolha que merece nossa atenção, pois, conforme Fairclough (2001, p. 155) “a escolha do

verbo representador ou verbo do ato da fala, é sempre significativa”, ela, frequentemente,

marca a força ilocucionária do discurso representado (a natureza da ação realizada na

enunciação de uma forma particular); essa escolha torna-se uma forma de impor certa

interpretação para o discurso representado. A escolha do verbo afirmar (asserção) e de seu

tom grave, ressalta o peso e a importância que o sindicato dá à fala de Maurício Borges.

Fairclough (2001, p. 137), nos apresenta outra questão, a de que a “intertextualidade é uma

fonte de muita ambivalência nos textos". Isto quer dizer que: se o texto é composto por vários

outros discursos, isto significa que diferentes sentidos podem coexistir.

Fairclough (2001), então, atenta para a função do discurso representado no discurso

representador; e, explica que uma variável principal a respeito de como o discurso é

representado é se a representação vai além do ideacional ou conteúdo da mensagem. O grau

de manutenção do limite (no caso da representação direta e indireta) é parcialmente uma

questão de escolha e no nosso caso em análise: de escolha política. Podemos nos perguntar,

então, por que o comando de greve demarca a fala de Maurício Borges com aspas e não

delimita, da mesma forma, a fala da PBH de que exista um grupo radical? Quando

representada a fala da PBH por meio do discurso indireto, sugere-nos uma ambivalência sobre

o fato de as palavras reais serem atribuíveis à PBH ou ao sindicato, autor do texto. Podemos

nos perguntar sobre a sua autoria. De quem é essa voz, da PBH ou do grupo que a PBH

sugere como subversivos? E mais, podemos pressupor que o sindicato afirma que há, sim, de

fato, aqueles que são responsáveis pelo movimento. Vejamos o exemplo novamente, no

parágrafo como um todo.

3. “Aqueles que, apesar da assembleia, decidem não aderir a greve, comprometem com a sua

omissão a vida dos que estão na luta, como estamos presenciando agora. E ainda, fornecem

argumentos ao governo para dividir a nossa categoria para melhor atacá-la , como dizem as notas

oficiais da PBH, em que atribuem a alguns a responsabilidade pelo nosso movimento”.

A PBH em sua nota indica que há um grupo de radicais ligados ao comando de greve.

Quando o sindicato relata indiretamente a fala da PBH, abre espaço para a ambivalência de

sentidos e podemos interpretar que o sindicato admite que existam alguns responsáveis pelo

movimento, que são aqueles que comprometem com a sua omissão a vida dos que estão na

72

luta, pois estes, segundo o texto, fornecem argumentos ao governo para dividir a categoria.

Esta análise nos indica que o sindicato deixa entrever um dizer sobre o fracasso do

movimento. Indicia sentidos de que a greve é fraudada por aqueles que não participam. Há

uma cava, uma fissura no dizer sindical que indicia uma memória sobre a desconstrução da

greve, e que ao mesmo tempo instala um efeito de não greve: como se um outro disser se

instalasse no dizer do sindicato. Segundo Fairclough (2001), os elementos do texto podem ser

planejados para ser interpretados de diferentes modos, a representação discursiva sugere

ambigüidade sobre as vozes (uma possível fusão); é o que implica o discurso analisado. Nele,

o sindicato representa as recomendações da PBH como se elas fossem as suas próprias

recomendações, ao mesmo tempo em que traduz tal texto para sua própria linguagem.

Na análise da nota percebemos que, discursivamente, o texto da PBH é coeso, fechado

e formal, ela é incisiva ao definir um grupo radical, ligado ao comando de greve. Já o

sindicato ao fazer este relato, como num processo de tradução, faz mudanças que afastam da

terminologia legítima, aproximando-se da fala popular, própria do gênero boletim (panfleto-

folheto), nos termos do seu julgamento (não resta dúvida de que este é um trabalho ideológico

para se adotar os sentidos que sindicato quer fazer circular). Traduzir a linguagem de

documentos oficiais escritos em uma versão de fala popular é uma instância de uma tradução

mais geral da linguagem pública na linguagem privada; para Fairclough (2001, p. 144) é esta

um tipo de “mudança linguística que é ela própria parte da rearticulação da relação entre o

domínio publico dos eventos políticos e agentes sociais, e o domínio privado, o domínio do

mundo da vida cotidiana, da experiência comum”. Há, na carta em análise, pistas formais de

proposições tomadas como já dadas e, aqui nesta pesquisa, assumimos que as proposições

pressupostas29 são uma forma de incorporar os textos dos outros, textos que muitas vezes são

contestados. A partir desta concepção, pretendemos mostrar como este outro atravessa a voz

que enuncia na carta em uma relação tensa e de oposição30. Buscaremos compreender quais

outras vozes podemos ouvir no discurso apresentado pelo comando de greve, através da

captação das FDs; de outro modo, buscaremos nas frases negativas, quais são os pressupostos

29 As pressuposições são também categorias de análise, pois ao serem tomadas pelo (a) produtor (a) do texto como já estabelecidas ou dadas, definem-se como uma forma de incorporar textos de outros; ou seja, um alheio, que é contestado, que corresponde à uma opinião geral (o que as pessoas tendem a dizer, experiência textual acumulada). Fairclough (2001) aqui, incorpora Pêcheux, ao relacionar pressuposição a uma expressão 'pré-construída' que circula em uma forma já pronta. Podendo possuir caráter manipulador.

73

implícitos, os textos que povoam influenciando intertextualmente a construção do sujeito que

fala nesse discurso.

Nesse sentido, mostraremos como duas posições de sujeito se interrelacionam no

mesmo discurso. Fairclough (2001) ao falar dos sujeitos do discurso cita Gramsci para quem

os sujeitos são estruturados por diversas ideologias implícitas em sua prática que lhes atribui

um caráter estranhamente composto. Concebendo, aqui, os sujeitos como constituídos por

uma discursividade e como constituidores31, também, concordamos com Cazarin (2000, 177),

pois para pensarmos o que o sujeito diz: “o discurso não é fechado em si mesmo e nem é do

domínio exclusivo do locutor: aquilo que se diz significa em relação ao que não se diz, ao

lugar social do qual se diz, para quem se diz, em relação a outros discursos”. Assim, quando

vozes confrontam-se entre si, opondo-se em uma situação de luta, podemos falar em polifonia

e, com isso, observaremos como o sujeito se constitui polifonicamente através do que vamos

chamar de FD¹ (FD do sujeito sindical) e FD² (FD externa ao sujeito, politicamente

antagônica), e então poderemos observar quais os efeitos dessa contraditória constituição.

Dadas às circunstâncias político-ideológicas de uma greve, variadas conceitualizações,

concepções pré-construídas circulam sobre o tema. O que faremos, a partir da categoria de

análise proposta por Courtine (1981), é a apreensão de dois enunciados distintos, antagônicos

entre si; são discursos em confronto que convivem no mesmo enunciado. Fairclough (2001, p.

96) se soma a essa ideia ao sugerir que “contrariamente às abordagens baseadas em teorias

da adequação, onde se supõe uma relação única e constante de complementaridade entre os

elementos” (a que chamamos FDs), supõe que a relação entre diferentes elementos pode ser

ou tornar-se contraditória. Para ele, os limites entre os elementos podem ser linhas de tensão e

usa como exemplo as diversas posições de sujeito de um indivíduo nos diferentes ambientes e

atividades de uma instituição, em termos da dispersão do sujeito na formação de modalidades

enunciativas, citando Foucault. Afirma que os limites entre os ambientes e as práticas sejam

30 Apresentamos um funcionamento discursivo, já analisado por Cazarin (2000), são enunciados que se formam na tensão que liga os processos discursivos inerentes a duas FDs antagônicas, materializando linguisticamente essas contradições interdiscursivas, bem como as fronteiras entre esses domínios de saber. 31 Fairclough (2001) afirma que os sujeitos, mesmo sendo posicionados ideologicamente, têm capacidade de agir criativamente, no sentido de executar suas próprias conexões entre as diversas práticas e ideologias a que são expostos e, também, de reestruturar tanto as práticas quanto as estruturas posicionadoras. O equilíbrio entre o sujeito ‘efeito’ ideológico e o sujeito agente ativo é uma variável que depende das condições sociais, tal como a estabilidade relativa das relações de dominação. O autor considera que nem todo discurso é irremediavelmente ideológico. As ideologias caracterizam as sociedades que são estabelecidas numa relação de poder, de dominação. Assim, à medida que os seres humanos transcendem esse tipo de sociedade, transcendem também a ideologia.

74

tão naturalizados que essas posições de sujeito sejam vividas como complementares (é o caso

da PBH). Em diferentes circunstâncias sociais, os mesmos limites poderiam tornar-se foco de

contestação e luta, e as posições de sujeito e práticas discursivas associadas a eles poderiam

ser consideradas contraditórias.

No exame da relação em análise, lembrando que a carta “A luta também é sua”, de

26/09/2001, é destinada àqueles que não fazem a greve ou que estão pensando em voltar à

sala de aula, a posição do sujeito do discurso estabelece uma relação de confronto com o outro

discurso oriundo de uma outra forma-sujeito, de outra FD², a que chamamos de FD externa. É

uma relação que se marca pela tensão e pelo antagonismo; nela tem-se um sujeito (comando

de greve do sindicato) fiel à ideologia sindical, a sua FD¹, a que chamamos FD interna; mas

que se representa de forma distinta, nas diferentes formas de funcionamento discursivo,

evidenciando, assim a sua descontinuidade. Como categorias de análise, analisaremos quatro

frases negativas (que evidenciam o referido confronto), em três sentenças discursivas (sds)32

em que se fazem presente uma operação de negação do discurso do outro (FD externa), são

elas:

1. “A greve é um instrumento de luta legítimo dos trabalhadores. Não fazemos greve

porque queremos, mas porque é preciso. Uma greve é decidida democraticamente pela

categoria e todas as consequências, boas ou ruins, recaem inevitavelmente sobre todos nós.

Ninguém está fora disto”.

2. Aqueles que, apesar da assembleia, decidem não aderir a greve, comprometem com

a sua omissão a vida dos que estão na luta, como estamos presenciando agora.

3. Não aderir a greve é uma atitude individualista que compromete o destino de toda a

categoria, o salário futuro, a previdência, as condições de trabalho e de vida , de hoje e de

amanhã. Deixar que alguns lutem e se acomodar na posição individualista de resolver seus

problemas, expõe os companheiros lutadores, joga-os a mercê do corte de pagamento, da

reposição injusta, da repressão e de outras punições. Aqueles que não fazem a greve ou que

retornam antes do seu fim, não contribuem para a vitória ou contribuem pouco.

A operação de negação possibilita o aparecimento de certo enunciado próprio da FD¹

introduzido pelo Mas ou por uma Frase Afirmativa, este enunciado apresenta-se como uma

nova afirmação que busca desqualificar o discurso-outro. Este é o funcionamento do

32 Termo utilizado por Courtine (1981), também utilizado por Cazarin (2000).

75

‘enunciado dividido’ marcado, termo utilizado por Cazarin (2000) que assim o denomina pela

expressão: Não é X (Mas) ou é Y (onde X representa o discurso da FD externa e Y o discurso

da FD interna); sendo assim, temos:

a) Afirmações oriundas de FDs externas, introduzida pelo elemento de negação; em: 1.

Professores fazem greve porque querem (porque estão cansados, precisam relaxar, em

vão); 2. Professores não devem aderir a greve (há aqueles que vão à assembleia,

votam pela greve e não aderem a greve); 3. Professores devem retornar à sala de aula.

b) Afirmações oriundas da FD interna, introduzida por um mas ou por uma frase

afirmativa; em: 1. Professores fazem greve porque é preciso (a conjuntura econômica

exploradora exige um movimento da classe trabalhadora); 2. A omissão compromete

a vida de professores; 3. Professores devem permanecer até a vitória.

A proposição presente na frase afirmativa que vem após a negação apresenta-se como

um dado novo que busca desqualificar o discurso outro. Aqui está presente a heterogeneidade

discursiva mostrada marcada. O NÃO é uma marca de que no interdiscurso existe um

enunciado afirmativo próprio da FD², possível de ser recuperado através da categoria da

memória discursiva. O sujeito recupera no discurso, o discurso do outro, insere-o no seu de

forma negativa e apresenta o seu próprio, de sua FD; apresentando um jogo tenso entre

distintas posições de sujeito que colocam em confronto o discurso nas duas FDs. Pode-se

observar que a interlocução, neste caso, realiza-se em duas direções. De um lado, com

trabalhadores sindicalistas, de outro com a FD², mais precisamente com o adversário do

sujeito o discurso-outro, na negação-afirmação.

No item 2 e 3, quando o sujeito do discurso nega a FD², atestando a insuficiência dos

mesmos, a medida que julga também o contrapõe, apresentando o ponto de vista próprio da

FD¹ que o outro FD² busca desqualificar. Observe que em todas as ‘sds’ o efeito de sentido

produzido é o de crítica ao caráter restritivo do discurso-outro. Isto possibilita dizer que

embora o enunciado como um todo não seja rejeitado, ocorre a busca da desqualificação desse

discurso, dada a refutação da insuficiência do mesmo. Reveste-se, assim, o discurso do

sindicato, nesse funcionamento discursivo de características estritamente polêmicas que

marcam a tensão e o confronto entre FDs antagônicas.

Concluindo a análise interdiscursiva, percebemos como nossos atores negociam (de

diferentes modos) com a interdiscursividade, a partir de conceitos próprios ao dialogismo

bakhtiniano. Ou seja, podemos perceber que ao analisar as condições da prática discursiva de

76

greve: práticas sociais de desqualificação da greve, de desarticulação do trabalhador, etc., são

ligadas ao tipo de discurso que a amostra representa (isto é interdiscursividade); e a

constituição desse texto se mostra intertextualmente. Produto de interdiscursos, percebemos

que a PBH centraliza seu discurso sem que haja polêmicas, apagando-se vozes que poderiam

destoar do sentido desejado. Já o discurso sindical caracteriza-se ora pela polêmica ora pelo

dialogismo velado. O discurso sindical invoca FDs, que no lugar de uma ilusão de unidade

apontam para confronto e movimentação de brechas. Além de trazer, em seu texto, a incitação

à greve, o chamado a sair às ruas; também, instala a heterogeneidade, ao indiciar, o discurso

do outro, do fracasso da greve, da volta à sala de aula, da desobrigação com o movimento. Ao

deixar essa lacuna, o discurso sindical, abre-se para os diversos trabalhos interpretativos,

condiciona leitura divergente da intencional.

4.2.2 Modos de operacionalização ideológicos

O conceito de ideologia fundamentado em Dijk (2008), precisa ideologia como uma

estrutura cognitiva complexa que controla a formação, transformação e aplicação de outros

tipos de cognição social, tais como o conhecimento, as opiniões, posturas, e de representações

sociais. É dessa forma que introjetamos, cotidianamente, as normas, valores, conceitos,

conhecimentos e muitos dos preconceitos que circulam socialmente. Esta estrutura favorece a

percepção, interpretação e ação nas práticas sociais, que, de uma forma geral, beneficiam os

interesses do grupo tomado como um todo. Somando-se a esta definição mais específica,

Wodak (2003) vê na ideologia um importante aspecto da criação e manutenção de relações

desiguais de poder. Nessa mesma linha, Thompson (2007) possui uma visão de ideologia que

se harmoniza à de Fairclough (2001), ambos relacionam ideologia a investimentos em práticas

discursivas que contribuem para manter ou reestruturar as relações de poder. Thompson

(2007) assume que fenômenos ideológicos são fenômenos simbólicos significativos; são

ideológicos desde que eles sirvam em circunstâncias sócio-históricas específicas para

estabelecer e sustentar relações de poder sistematicamente assimétricas, as relações de

dominação33. Sob essa orientação definimos a posição sobre ideologia deste trabalho: como

33 Thompson (2007, p. 79), conceitualiza ideologia “em termos das maneiras como o sentido mobilizado pelas formas simbólicas, serve para estabelecer e sustentar relações de dominação”. Essa descrição de Thompson

77

uma estrutura sociocognitiva, responsável por mobilizar sentidos que reforçam pessoas e

grupos que ocupam posições de poder, e, como Thompson (2007), concebendo ideologia

como sentido a serviço do poder.

Entendemos que a prefeitura, em seu projeto hegemônico (próprio da circunstânca

instaurada), utiliza-se do que Fairclough (2001) chama de uma simulação estratégica para atingir

os efeitos pretendidos; isso quer dizer que a PBH investe-se ideologicamente na construção de

suas notas oficiais, elaborando a construção de significações que a sustentam na posição que

ocupa. No entanto, observar o funcionamento das ideologias exige que, muito antes da busca

por traços e pistas de um trabalho ideológico na materialidade da língua, reconheçamos que a

operação ideológica faz parte de uma análise mais ampla: a análise da prática social; e, esta

consiste em especificar as estruturas sociais (efetivamente interiorizadas: a relação capital x

trabalho, patrão x sindicato) e as relações hegemônicas34 que constituem a matriz de uma

instância particular. (FAIRCLOUGH, 2001). Nesse sentido, orientamos esta análise para que,

primeiramente, busquemos a compreensão da constituição do discurso da prefeitura em um

nível interdiscursivo, previsto nas notas oficiais publicadas. Posteriormente, nos dedicaremos

a análise de como o trabalho ideológico se vincula à materialidade linguística e às ordens

discursivas.

Como vimos ao analisarmos a monofonia e a polifonia, percebemos que discursos de

greve tendem a uma orientação acumulada e naturalizada. O discurso da PBH, por exemplo,

silencia outras vozes e encaminha sentidos de unidade e coesão. Naquela análise, a PBH se

utiliza das vozes que faz aparecer em seu texto, sem que haja polêmica, na construção do seu

projeto hegemônico de influência e persuasão; faz falar, predominantemente, uma única voz e

todas as outras contribuem para a orientação da argumentação, que se indexa a determinada

(2007) apóia-se na concepção latente de Marx. Não é essencial que as formas simbólicas sejam ideológicas. Elas podem ser errôneas e ilusórias: a ideologia pode operar através de ocultamento e do mascaramento de relações sociais, obscurecimento e da falsa interpretação. Mas essas são possibilidades contingentes e não características necessárias da ideologia como tal. Para Marx, segundo o autor, o critério para se sustentar relações de dominação é a relação de classes, são as relações de dominação e de subordinação de classe que constituem os eixos principais da desigualdade e exploração nas sociedades humanas em geral e nas capitalistas em particular. 34 Como conceito procedente dos estudos de Gramsci (Apud FAIRCLOUGH, 2001), hegemonia é liderança ou exercício do poder (mais alianças e integração através de concessões do que a dominação de classes subalternas) em vários domínios de uma sociedade (econômico, político, cultural e ideológico). Mas, também, a manifestação do poder de uma das classes economicamente definidas como fundamentais em aliança com outras forças sociais sobre a sociedade como um todo, porém nunca alcançando, senão parcial e temporariamente, um ‘equilíbrio instável’, contraditório de elementos, mais ou menos instáveis, que estão em articulação, desarticulação e rearticulação. E, finalmente, um foco de luta constante sobre aspectos de maior volubilidade entre classes (e blocos), a fim de construir, manter ou, mesmo, a fim de romper alianças e relações de dominação e subordinação que assumem configurações econômicas, políticas e ideológicas. Fairclough (2001, p. 122) adverte que a luta hegemônica se instala sob pontos de maior instabilidade entre classes e blocos para manter ou romper alianças e relações de dominação e subordinação.

78

ideologia, que pretende desconstruir a organização sindical; e, por fim, provocar o término da

greve e o retorno às aulas com o reconhecimento pela população de um ethos político-

administrativo coerente, democrático e confiável (mais adiante falaremos dessa relação

informação vs. persuasão). A respeito dessa organização discursiva da PBH, Fairclough

(2001, p. 96), indica que, em alguns casos, “os limites entre os ambientes e as práticas são

tão naturalizados que essas posições de sujeito são vividas como complementares”;

exatamente, o que nos mostrou a análise anterior.

O que apresentaremos no quadro abaixo seria um processo de desnaturalização; ou

seja, localizaremos nos textos da PBH, por meio de uma análise da interdiscursividade, que é

constituída de forma heterogênea, nos termos de Fairclough (2001), e por meio de elementos

de ordens do discurso, relações hegemônicas; ou melhor, as outras correntes, as formações

conflitantes, presentificadas no discurso. É justamente nesse quadro que há o investimento

ideológico: “quando são encontradas práticas discursivas contrastantes em um domínio

particular ou instituição, há probabilidade de que parte desse contraste seja ideológica.”

(FAIRCLOUGH, 2001, p. 117). Um exemplo disso são as presenças de ordens de discurso

democrática e autoritária que não se relacionam entre si, e, desse modo, ficam abertas; ou

seja, abrem o canal para os investimentos políticos e ideológicos. Esses investimentos seriam

as “construções ou significações da realidade - mundo físico, relações sociais, identidades

sociais -, que se fundamentam em diferentes dimensões das formas e dos sentidos das

práticas discursivas, colaborando para a produção, a reprodução ou a transformação das

relações de poder”. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 117). Essa hipótese pode ser também

explicada quando, por outro lado, considerando o processo de consumo textual,

compreendemos que a instância da interpretação é, também, outro lugar de investimento

ideológico. Nesse sentido, a compreensão de sentidos das notas requer intérpretes que sejam

capazes de estabelecer conexões coerentes entre seus elementos heterogêneos, pois, parte do

projeto hegemônico da PBH é, sem dúvida, a constituição de sujeitos intérpretes para quem

tais conexões são naturais e automáticas. Isto é, os textos estabelecem posições para os

sujeitos intérpretes que são ‘capazes’ de compreendê-los e ‘capazes’ de interpretá-los

(retornaremos a esta questão ao concluir parcialmente este item).

O quadro nos indica as formações que se cruzam nos discursos da PBH que é, nos

termos de Fairclough (2001), uma composição de elementos da ordem do discurso societária,

a que chamamos à atenção: o discurso populista, neoliberal, autoritário e democrático; que

contribuem para o investimento ideológico entre eles e para o assujeitamento das

interpretações pretendidas.

79

Econômico35 Populista Autoritário Democrático

05/08 Anexo1

Para isso, tem racionalizado gastos e não abre mão do rigor no trato com dinheiro público (...) A Prefeitura apela para o bom senso dos servidores.

Essa postura da PBH traz benefícios para toda a população

Fará o que for necessário para garantir os direitos da população e os serviços de que a cidade precisa.

reafirma que continua aberta à negociação

26/08 Anexo2

Estes ganhos foram garantidos apesar da crise econômica e das limitações impostas pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Reafirma a necessidade de imediato retorno ao trabalho e comunica que tomará todas as medidas legais para garantir os serviços de saúde e o retorno ás aulas

A Prefeitura, que tem negociado permanentemente

31/08 Anexo3

O Município de Belo Horizonte, por intermédio de sua Procuradoria Geral, notifica os professores municipais em greve.

Notifica os professores municipais em greve para que retornem de imediato ao trabalho em sala de aula.(...) que lhe enviem a relação nominal dos professores

17/09 Anexo4

A Prefeitura de Belo Horizonte vem negociando com os professores, desde o início do ano, índices de reposição salarial, na busca de evitar prejuízos para o semestre letivo. Com o objetivo de valorizar o profissional, a PBH apresentou, em julho, propostas de reajuste real que elevaria o piso salarial da categoria, atingindo R$1 mil em janeiro de 2004.(...) o comando de greve levou a categoria a deflagrar um movimento que prejudica os alunos da rede municipal de ensino.

Diante do exposto, não restou ao poder público outra alternativa que não encerrar as negociações, até que os professores retornem à salas de aula

23/09 Anexo5

à Justiça para desocupar sua sede, invadida na última quarta-feira por um grupo radical, ligado ao comando de greve(...) O radicalismo e a intransigência têm dificultado o entendimento e prejudicado o conjunto dos trabalhadores da educação e, principalmente, os alunos e suas famílias(...) e tem certeza que tais atos não refletem o pensamento dos professores municipais.

Reafirma que o retorno imediato ao trabalho da pequena parcela dos professores, que ainda está paralisada, é fundamental para que o diálogo possa se estabelecer em busca de soluções que atendam aos interesses do conjunto da categoria

26/09 Anexo6

A Prefeitura promoveu, nos últimos oito anos, uma política educacional que se expressa entre outras ações na construção e manutenção de escolas.

Este ano, a Prefeitura realizou desde maio, dezenas de reuniões com o Sind-Ute e apresentou propostas que procuravam contemplar as reivindicações dos educadores. (...)A intransigência da direção política do movimento, manifestada

reitera a necessidade da volta imediata ao trabalho da parcela de professores que ainda não retornou

A prefeitura continua confiando no estabelecimento de um efetivo dialogo com os professores

Quadro 4: Cronologia da Greve

35 Conforme nota anterior, o termo está entendido como o discurso que traduz a política econômica restritiva

neoliberal, que se propõe reduzir a margem de manobra política e social do governo (Boito,2006). Ao dar prosseguimento à leitura, veremos que todos os elementos acima compõem a proposta ideológica do discurso.

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Como vemos ao indicarmos a luta hegemônica projetada no discurso e as formações

ideológicas36 neoliberal, populista, democrática e autoritária, que compõem o quadro das

notas oficiais da PBH; percebemos que o investimento ideológico da PBH se inscreve

justamente em não deixar aparecer às outras vozes que ali gritam. A investida da PBH está em

desqualificar o movimento e seus representantes, incitando o refluxo de professores (a volta

para a escola), um projeto hegemônico claro de influência e persuasão, confirmado pelo

secretário da administração Maurício Borges da PBH:

“Se os professores saírem inteiros da greve, no ano que vem farão outra greve.” (Boletim do SindUTE, 26/09/2001).

Para consecução do seu projeto, a PBH precisa silenciar a voz autoritária (já que não

pode obrigar os professores a voltar a dar aulas), no entanto, é preciso fazê-lo. São os

mecanismos operacionais (que veremos, localizadamente, adiante) que farão este trabalho de

construção e significação da realidade pretendida. Um trabalho tão bem articulado traz à tona

como as ideologias são construídas de tal modo nas convenções, que fica quase imperceptível

aos sujeitos interpretantes, compreender que tais práticas possuem investimentos ideológicos

específicos. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 120). Para esta desconstrução e tornar perceptíveis

estes mecanismos, faremos uma breve descrição da estrutura argumentativa. Dividimos as

notas publicadas pela PBH, apenas para facilitar nossa análise, em três segmentos discursivos:

introdução, o desenvolvimento ou justificativa e a conclusão, em que a prefeitura declara a

sua intenção.

Ao introduzir a Nota a partir do enunciado “A PBH informa que:” seguem-se um ou

dois parágrafos em que a PBH constrói sua auto-imagem por um processo de auto-

valorização. Thompson (2007) caracteriza a legitimação como um modo de operacionalização

ideológico em que relações de dominação podem ser estabelecidas e sustentadas pelo fato de

serem representadas como legítimas, uma estratégia típica da legitimação é a racionalização,

através da qual o produtor constrói uma cadeia de raciocínio que procura defender ou

36 Entendemos formações ideológicas, conforme Brandão (1995, p. 47), como um elemento capaz de intervir como uma força em confronto com outras forças na conjuntura ideológica de uma formação social, em um determinado momento: “cada formação ideológica constitui um conjunto complexo de atitudes e de representações que não são nem ‘ individuais’ nem ‘universais’, mas se relacionam mais ou menos diretamente a posições de classe em conflito umas em relação às outras.”. Nesse sentido, a formação ideológica tem como um de seus componentes uma ou várias formações discursivas interligadas.

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justificar suas ações; na circunstância da greve, estas servem para sustentar o domínio da

prefeitura como se vê nesse trecho:

“conseguiu ser uma das raras capitais brasileiras a ver suas finanças saneadas. Para isso, tem racionalizado gastos e não abre mão do rigor no trato com dinheiro público. Essa postura da PBH traz benefícios para toda a população (...), o atendimento das reivindicações apresentadas por alguns setores inviabilizaria o orçamento da Prefeitura para atividades essenciais”. (Jornal Estado de Minas, 05/08/2001-Anexo 1).

Em um segundo momento, elege como adversário o sindicado e o encarrega da origem

do mal: a greve; atribuindo a uma pequena liderança o adjetivo radical, qualificando-os como

intransigentes e extremistas, na tentativa de associar greve e sindicato à confusão, à desordem:

um empecilho à democracia e ao diálogo, conduzindo a construção interpretativa a um

julgamento final: condenar este grupo que não representa os professores. Desse modo,

organiza um conjunto de encadeamentos discursivos que conduzem para construção da

imagem do sindicato que age contra a população, processo por Dijk (2008), denominado

polarização ideológica. Como em:

“(...) A paralisação dos serviços públicos prejudica a cidade e a população”. (Nota publicada no jornal EM, 05/08/2001-anexo1). “(...) o comando de greve levou a categoria a deflagrar um movimento que prejudica os alunos da rede municipal de ensino.Estado de Minas, (...) o comando de greve não aceitou a determinação da Secretaria Municipal”. (Jornal EM, 17/09/2001-anexo4). “(...) a radicalização que vem ocorrendo nos últimos dias e tem certeza que tais atos não refletem o pensamento dos professores”. (Jornal EM, 23/09/2001-anexo 5).

Através dessas construções a PBH, impõe-se e mantém-se em sua posição de poder,

articulando a estratégia que Thompson (2007) chama de fragmentação, onde as relações de

poder são mantidas pela PBH ao segmentar aqueles indivíduos e grupos que possam ser

capazes de se transformar num desafio real. Na verdade, o discurso sindical não é radical, a

estratégia de demonização do comando de greve, de expurgo ao sindicato, retratando-o como

artífice da desordem social, funciona simplesmente como uma maneira de desarticular a

organização coletiva dos professores, por um processo de enfatização das distinções e das

diferenças.

Ao concluir, convoca o leitor a reconhecer sua legitimidade, promovendo-se a si

mesmo, discursivamente, através de um ethos político-administrativo coerente, democrático e

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confiável, se organizando retoricamente de maneira a persuadir a população a dar-lhe o

crédito que supõe merecer; para tal, retoma argumentos ora racionais ora pathêmicos, como

em:

“comunica que tomará todas as medidas legais para garantir os serviços de saúde e o retorno ás aulas”. (Jornal EM, 05/08/2001- anexo 1) “A Prefeitura apela para o bom senso dos servidores” . (Jornal EM, 05/08/2001- anexo 1)

E ao convocar o retorno dos professores à sala de aula, dissimuladamente, já que

oculta; ou melhor, obscurece atos de fala mais diretivos (mais adiante falaremos de uma

tendência discursiva a que Fairclough chama de democratização); a PBH utiliza-se de outro

processo de construção ideológica denominado reificação (THOMPSON, 2007), em que

relações de dominação podem ser estabelecidas e sustentadas pela retratação de uma situação

transitória e histórica, como se estas fossem permanentes, natural e atemporal. Assim, tal

reificação pode ser vista nos seguintes exemplos:

Exemplos Estratégias A paralisação dos serviços públicos prejudica a cidade e a população A Prefeitura apela para o bom senso dos servidores, reafirma que continua aberta à negociação (05/08/2001- anexo1).

Naturalização: a divisão socialmente instituída do trabalho classe dominante vs. classe trabalhadora é retratada como uma resultante da falta de racionalidade por parte dos professores.

A Prefeitura, que tem negociado permanentemente, reafirma a necessidade de imediato retorno ao trabalho (26/08/2001- anexo2).

Passivização: apagam os atores e a ação e tendem a representar processos como coisas ou acontecimentos

(...) Repudia com veemência a radicalização que vem ocorrendo(...) o radicalismo e a intransigência tem dificultado(23/09/2001-anexo 5)

Nominalização:acontece quando sentenças ou parte delas descrições da ação ou dos participantes nela envolvidos são transformados em nomes, apagam-se os atores e a ação e tendem a representar processos como coisas ou acontecimentos. sujeito que produza essas coisas

Mesmo com o esforço da Prefeitura, surpreendentemente, todas as propostas foram rejeitadas pela direção do sindicato.Diante desde quadro, a Prefeitura reitera a necessidade da volta imediata ao trabalho (...) A prefeitura continua confiando no estabelecimento de um efetivo dialogo com os professores (26/09/2001-anexo 6)

Eternalização: fenômenos sócio-historicos são esvaziados de seu caráter histórico ao serem representados como permanentes imutáveis e recorrentes. Eles se cristalizam na vida social e seu caráter aparentemente a-histórico é reafirmado através de formas simbólicas que na sua construção e repetição eternalizam o contigente.

Quadro 5: Modo de operacionalização ideológico: a reificação Fonte: Thompson (2007)

A questão que nos chama atenção na análise desse quadro é o fato de que as ideologias

implícitas nas práticas discursivas tornam-se eficazes porque as estratégias permitem que um

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processo histórico, rico de sentidos e constituídos de sujeitos fique imperceptível à

interpretação. A greve é apresentada sim, mas como aquela que prejudica a população,

indicando professores e sindicato como sendo os causadores desse mal. Esse processo remete-

se a uma memória social sobre as greves em geral, capturando e reforçando status de senso

comum, repositório dos diversos efeitos de estratégias ideológicas (destacadas a seguir), como

as apresentadas nas notas oficiais.

Vamos entender melhor esse processo estratégico: a naturalização, como estratégia

operacional da ideologia, uma vez que se configura em um processo lento e contínuo,

conforme Thompson (2007). Ao observarmos os dizeres sobre a relação professor e trabalho

nas notas da PBH, percebemos que as notas movimentam sentidos que buscam desqualificar a

divisão socialmente instituída do trabalho: a relação PBH x professores (classe trabalhadora x

classe dominante), ao tratar a inserção do professor em um movimento reivindicatório como

uma ‘falta de bom senso’. Ao fazer um apelo ao bom senso (abordaremos esse aspecto ao

falarmos de manipulação discursiva), apaga-se o caráter político do exercício do direito

trabalhista (não reconhecendo o professor como uma categoria socioprofissional), sugerindo

que a greve, deva ser discutida e definida no âmbito da conduta ética. O apelo é feito à

capacidade virtuosa do professor, esvaziando, definitivamente, o caráter político de uma

greve, representativa dos direitos do trabalhador, que ao ser representada como uma atitude

radical e intransigente (buscando interdiscursivamente a memória social de outras greves, um

recurso em que se apela para imagens recorrentes, força um caráter aparentemente a-histórico

reafirmado através desse resgate pela memória que acaba por eternalizar seu contingente).

Elege-se e nominaliza um grupo, no lugar dos professores, como responsáveis pela greve e

isenta professores, não se referindo a estes como atores, não reconhecendo seu lugar,

apagando seus sentidos e sua voz, através de recursos gramaticais como a passivização; dando

evidência ao acontecimento greve, paralisação, ocupação e não aos sujeitos-atores sociais e

históricos.

São essas propriedades, aparentemente estáveis das ideologias, que em circunstâncias

particulares, como a greve, um fenômeno sócio-histórico, no nosso caso de análise, servem

para estabelecer e sustentar relações de dominação (THOMPSON, 2007); são estratégias que

de tão naturalizadas passam a serem vistas como uma dimensão da prática discursiva.

Retomando sentidos que são difundidos no mundo social: de que a ‘paralisação prejudica a

população’, ‘o sindicato é intransigente e radical’, ‘atendimento das reivindicações

inviabiliza o orçamento’, conseguem, assim, a partir dos anos, remodelar práticas discursivas

e cristalizar tais ideologias no imaginário social. Nas palavras de Fairclough (2001, p. 119) “é

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uma orientação acumulada e naturalizada que é construída nas normas e nas convenções,

como também um trabalho atual de naturalização [...] de tais orientações nos eventos

discursivos”.

Essa proposta da PBH de se apresentar sob essa organização constituiu (criou) um

discurso de poder político sem igual. Prova disto é o fato de que, seguidos quase 10 anos não

se fez outra greve de tamanho porte na rede municipal de ensino de Belo Horizonte. Os

efeitos37 obtidos desse discurso, somados a outros fatores político-históricos, provocaram uma

apatia geral na organização de trabalhadores em educação nos anos posteriores. Se a ação

objetivada era fazer calar a voz do movimento sindical o objetivo foi conseguido. Esta

rearticulação discursiva materializou o projeto hegemônico da PBH, constituindo uma forma

válida de discurso político, assegurando ao governo certa segurança de seu comportamento

político.

Vamos investigar mais um pouco, no quadro abaixo, centralizando nossa atenção em

um dos discursos que compõem a ordem discursiva a que a PBH se indexa: o discurso

democrático. Buscaremos mostrar como se dá o trabalho do investimento ideológico, o de

apresentar-se aparentemente democrático, diante de formações internamente conflitantes,

sobrepostas ou apagadas. O fato de encontrarmos de uma maneira contraditória nas mesmas

notas, elementos de ordens de discurso democráticas e autoritárias (conforme explicitamos no

quadro 1), possibilita-nos afirmar que o discurso da PBH é um discurso que tende a

estratégias democratizantes; ou seja, democrático é o efeito ideológico idealizado, investido

na constituição do discurso. Observemos no quadro sobre o trabalho ideológico, as

características dessa construção que, na maioria das vezes, é apresentada (considerando a

organização discursiva) na conclusão das notas oficiais; quando elementos assimétricos de

demarcação de poder são apagados ou substituídos por mecanismos encobertos de controle.

Em especial, chamamos a atenção para os atos de fala, aqui concebidos, conforme

Mari (1997), em função das condições estabelecidas em determinada interação verbal, que

regulam a ação dos agentes, dizendo respeito à convenção da situação de comunicação, ao

conteúdo informacional e à intenção que esses agentes têm de transformarem ou não um ato

em realidade. Apresentaremos os atos grifados, para uma análise posterior:

37 Efeitos ideológicos e hegemônicos particulares (sistemas de conhecimento e crença, relações sociais, identidades sociais). (Fairclough, 2001, p. 289-290).

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Eliminação de marcadores explícitos de poder Detentores de poder-sentinelas, mecanismos encobertos de controle

05/08 A prefeitura apela para o bom senso dos servidores, reafirma que continua aberta à negociação. (anexo1)

Substituição de um diretivo direto (imperativos), por forma mais indireta sensível à face.

26/08 A Prefeitura, que tem negociado permanentemente, reafirma a necessidade de imediato retorno ao trabalho (anexo2)

Simetria no direito de fazer certo tipo de exigência; substituída pela indireção.

31/08 Em razão da liminar judicial prolatada pelo MM. Juiz da Vara da Infância e da Juventude, o Município de Belo Horizonte, por intermédio de sua Procuradoria-Geral, notifica os professores municipais em greve para que retornem de imediato ao trabalho em sala de aula. (anexo3)

“Em razão da liminar”, “por intermédio de” são mecanismos encobertos de controle. Onde se busca uma isenção de responsabilidade, não tomando para si a autoria dos atos.

17/09 (...)todas as propostas da PBH foram rejeitadas, o comando de greve não aceitou a determinação(...)Diante do exposto, não restou ao poder público outra alternativa que não encerrar as negociações. (anexo4)

Pressuposição38: a PBH tenta estabelecer como dada uma proposição estabelecida por ela mesma durante o próprio texto.

23/09

(...)Reafirma que o retorno imediato ao trabalho da pequena parcela dos professores, que ainda está paralisada, é fundamental para que o diálogo possa se estabelecer em busca de soluções que atendam aos interesses do conjunto da categoria.(anexo5)

Substituição de atos diretos como: ordena-se e exige-se; por um ato cuja força se aproxima de um relato real sobre um estado de coisas, quase uma descrição, predição; em que o efeito intencionado é uma ordem.

26/09 i. Prezado(a) professor(a), ii.(...)Diante desde quadro, a Prefeitura reitera a necessidade da volta imediata ao trabalho da parcela de professores que ainda não retornou. Iii.(...)A prefeitura continua confiando no estabelecimento de um efetivo diálogo com os professores, este momento dificultado pelo radicalismo e intransigência da direção sindical. (anexo6)

i. Forma simétrica de tratamento: formato polido com que a PBH trata os professores; ii.Estabelece como dada uma pressuposição estabelecida por ela mesma; iii.Elege um causador do mal, isentando os professores; encobrindo a ordem de retorno às aulas.

Quadro 6: democratização discursiva.

Conforme Fairclough (2001), a democratização é uma tendência discursiva. Vemos

que as notas, conforme exposto no quadro, utilizam-se desta tendência que se configura em

uma mudança discursiva em progresso, já que segundo Fairclough, afeta a ordem societária

do discurso. O discurso que se pretende democrático não instaura hierarquias de poder e

38 Pressuposições são proposições que são tomadas pelo produtor do texto como já estabelecidas ou dadas. Em uma visão intertextual podemos assumir que as proposições pressupostas são uma forma de incorporar os textos de outros, uma forma de incorporar algo tomado como tácito pelo produtor do texto. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 156).

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preserva a garantia de tratamento em condições de igualdade. A democratização discursiva

seria uma espécie de “retirada de desigualdades e assimetrias dos direitos, das obrigações, e

do prestígio discursivo e linguístico dos grupos de pessoas.” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 248).

A PBH ao eliminar marcadores explícitos de poder e se utilizar de formas assimétricas, mais

indiretas e sensíveis à face, pretende aparentar um discurso democrático; e, em um trabalho

ideológico, na construção da coerência textual, requer intérpretes que sejam capazes de

reconhecer ali esse discurso (caracterizando parte do projeto hegemônico da PBH). No

entanto, conforme Fairclough (2001, p. 251), o que acontece é que marcadores explícitos se

tornam menos evidentes se transformando em marcadores encobertos de assimetria e de

poder. Quer dizer que é pura aparência, pois detentores de poder e sentinelas de vários tipos

estão simplesmente substituindo mecanismos explícitos de controle por mecanismos

encobertos, como nos exemplos explicitados nos quadros. Vejamos, como exemplos, a análise

dos atos:

i. “(...) reafirma que continua aberta à negociação”. π39: comissivo µ:desejo

ii. “(...) reafirma a necessidade de imediato retorno ao trabalho”. π: assertivo µ: afirmação iii. “(...) reafirma que o retorno imediato ao trabalho (...) é fundamental”. π: assertivo µ: afirmação iv. “(...) reitera a necessidade da volta imediata ao trabalho”. π: assertivo µ: afirmação

Retomando a definição anterior, sabemos que o ato de fala é definido em função das

condições estabelecidas em determinada interação verbal e dizem respeito: i). à convenção da

situação de comunicação, que no nosso caso são as notas oficiais como gêneros de discurso

institucionais, que têm por característica restringir economicamente o discurso, são portanto,

breves e diretas; ii) ao conteúdo informacional, nesse sentido os atos de fala são limitados, já

que notas objetivam uma informação, dizer ou declarar algo; iii) e, sobretudo, à intenção que

esses agentes têm de transformarem ou não um ato em realidade. Assim, o ato, compreendido

e executado, dependerá do contrato estabelecido entre os agentes, seus engajamentos na

situação e do desempenho realizado para a transformação do dizer linguístico em ato, isto é,

em ação factual. (MARI, 1997).

No caso dos exemplos de i. a iv, vemos que há uma preferência por determinados atos

de fala a outros em que se poderia obter um controle direto sobre a ação dos professores (por

exemplo: exige-se, obriga-se, determina-se). Opta-se por um uso de atos de fala menos tensos,

por meio de recomendações e conselhos, como é o caso do exemplo (i.), em que o ato possui a

39 O ponto e o modo são componentes da força ilocucional; (π ) símbolo que representa o ponto ilocucional de um ato de fala.( µ) símbolo que representa o modo de articulação desse ponto.

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força comissiva e um modo que alterna entre expectativa e desejo. Embora os atos ii. a iv.,

possuam uma força assertiva, funcionando como uma afirmação diante do que está constatado

pela PBH; indiretamente, o efeito pretendido objetiva a ordem ou o pedido. Isto quer dizer

que, mesmo diante de atos assertivos, o contexto nos indica que os mesmos, indiretamente,

possuem uma força diretiva, de ordem ou de pedido. É o interlocutor que fará essa definição a

partir da jogada ideológica na qual ele vai se inserir. Esta estruturação discursiva caracteriza

fortemente o jogo ideológico, cuja pretensão democratizante elimina atos diretos, que

indiretamente estão presentes, já que em função do poder institucional que a PBH possui, uma

recomendação, um desejo ou um conselho atingem a aquiescência dos interlocutores, tanto

quanto se houvesse sanções legais ou de outros tipos de sanção institucional.

Outro elemento das ordens discursivas divergentes, que compõem as notas da PBH,

que chamamos de discurso neoliberal, identifica-se com uma segunda tendência do mundo

moderno apontada por Fairclough, denominada comodificação. Esta se caracteriza no,

processo pelo qual os domínios e as instituições sociais, cujo propósito não seja produzir mercadorias no sentido econômico restrito de artigos para venda, vêm não obstante a ser organizados e definidos em termos de produção, distribuição e consumo de mercadorias. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 253).

Em termos de ordens do discurso, podemos entender a comodificação como a

colonização de ordens de discurso institucionais e mais largamente da ordem de discurso

societária por tipos de discurso associados à produção de mercadoria. A comodificação sugere

um aspecto discursivos de colonização pela economia: o discurso neoliberal (liberalizante de

mercados) é uma espécie de discurso comodificado, porque ajusta-se a uma visão

individualista, em que se supervaloriza o indivíduo em detrimento do grupo, da coletividade e

do estado social. Como em:

1. “O Município de Belo Horizonte, por intermédio de sua Procuradoria-Geral, notifica os professores municipais em greve para que retornem de imediato ao trabalho em sala de aula (...) no caso do inadimplemento da obrigação, que junte aos autos, no prazo de sessenta dias, sindicância nomeando os professores ausentes”. (Diário Oficial, 31/08/2001- anexo 3).

2. “Repudia com veemência a radicalização que vem ocorrendo nos últimos dias e tem certeza que tais atos não refletem o pensamento dos professores municipais. O radicalismo e a intransigência têm dificultado o entendimento e prejudicado o conjunto dos trabalhadores da educação e, principalmente, os alunos e suas famílias”. (Jornal Estado de Minas, 23/09/2001- anexo 5).

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Os dois exemplos demonstram tendências à individualização. No primeiro, a PBH

convoca professores em greve, independentemente, do uso legal do direito de greve de todo

trabalhador e ainda de organização sindical. Este ato marca uma visão individualista, não

considerando a construção de uma organização democrática de coletividade. No segundo,

promove essa mesma posição não-coletiva ao incitar o desacordo, a desunião do grupo,

jogando a categoria contra o comando de greve, sugerindo uma manipulação sobre os

professores pelo sindicato; e, no uso dos termos: ‘notifica’, ‘inadimplemento da obrigação’ e

‘sindicâncias’, faz destes usos lexicais a comodificação do conteúdo discursivo da PBH, no

sentido de que isso facilita a divisão e subjuga professores (em unidades descontínuas) que

são tratados como mercadorias disponíveis no mercado educacional.

Discursos comodificados são regidos pela influência da publicidade. Todas as notas da

PBH, sob esta influência, orientam-se sob a mescla de duas visées40: a da informação e a da

persuasão, ao mesmo tempo em que propõem informar algo à população, exercem certa

capacidade de captação do voto do eleitor, através da construção de sua auto-imagem,

conforme mostra o quadro abaixo. O importante é ressaltar, que em tendências comodificadas

a informação “pode ser expressamente estratégica e persuasiva sem que seja considerada

como um assunto importante.” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 263). Esta combinação torna-se

naturalizada; e, daí, investida ideologicamente, conforme podemos ver no quadro abaixo:

A informação e a persuasão 05/08 A Prefeitura, no esforço para equilibrar suas contas, conseguiu ser uma das raras capitais

brasileiras a ver suas finanças saneadas. Para isso, tem racionalizado gastos e não abre mão do rigor no trato com dinheiro público. (anexo1)

26/08 (...) os professores municipais tiveram expressivos ganhos reais nos salários. (...) 74% dos médicos municipais ganham acima de 1.940 reais mais os adicionais precisos em lei.(...) Todos estes ganhos foram garantidos apesar da crise econômica e das limitações impostas pela Lei de Responsabilidade Fiscal. (anexo2)

17/09 A Prefeitura de Belo Horizonte vem negociando com os professores, desde o início do ano, índices de reposição salarial, na busca de evitar prejuízos para o semestre letivo. Com o objetivo de valorizar o profissional, a PBH apresentou, em julho, propostas de reajuste real que elevaria o piso salarial (...).(anexo4)

23/09

Recorreu à Justiça para desocupar sua sede. (...). Assim, na segunda-feira, o prédio reabre e retoma seu funcionamento normal. (anexo5)

26/09 A Prefeitura promoveu, nos últimos oito anos, uma política educacional que se expressa entre outras ações na construção e manutenção de escolas na implantação a partir do estatuto dos servidores, do plano de Carreira da educação, na aprovação do Conselho municipal de educação, na aprovação de licença com vencimento como apoio para a maior qualificação dos professores, nas reposições de perdas salariais e no amplo debate pedagógico com os professores, alunos e comunidade escolar. (anexo6)

Quadro 7. Comodificação nas notas oficiais

40 Refere-se aos objetivos comunicativos a que se visa no ato de linguagem. (Charaudeau, 2006a).

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O que está em jogo, neste caso é a construção de imagens, como em Fairclough (2001,

p. 259). O discurso comodificado preocupa-se com os modos de se apresentar publicamente

as pessoas, as organizações, as mercadorias e a construção de identidades ou personalidades

para elas. A PBH, ao organizar as notas explicita sua imagem (o produto a ser vendido)

discursivamente de maneira a harmonizar com as imagens do produto e de seus consumidores

potenciais. Vende a sua imagem política e seu objetivo é eleger-se, captar o voto dos cidadãos

(como se fossem consumidores). A PBH, o voto e o eleitor são reunidos como co-

participantes em um estilo de vida; produtor, produto e consumidor em uma comunidade de

consumo que a publicidade constrói e simula. Aos destinatários do discurso (população e

professores) cabem as posições: a população, posicionada como eleitores poderosos (em

analogia ao consumidor do discurso publicitário); e os professores, posicionados ora como

população com o direito de voto, e, outrora, como trabalhadores sem poder (peça de

engrenagem da máquina pública).

Pragmaticamente, a combinação de informação e persuasão é evidente, ao inicializar

suas notas com o enunciado: “A Prefeitura de Belo Horizonte informa que [...]” o uso do

performativo capitaliza o significado. O componente proposicional que é parte do significado

ideacional, predica à PBH: a proposição poderia ser representada esquematicamente como ‘x

informa y a z’. As condições pragmáticas do uso deste verbo remete-nos ao contexto da

enunciação: a força que esse enunciado (seu componente acional) desempenha é de uma

asserção em que a PBH irá constatar sobre um estado de coisas; cujo modo informação,

representado diretamente pelo verbo performativo ‘informar’ somados às condições

preparatórias desse ato, ao papel social que a PBH ocupa, seu status e poder; pode garantir a

esse ato uma outra força indireta de declaração e alterar, a partir daí, um estado de coisas. De

outra forma, ao produzir uma notificação: a prefeitura pode estar apenas informando sobre

dados institucionais à população ou notificando, convocando e obrigando professores ao

retorno (e assim com uma força declarativa); mas ainda, pode provocar outro efeito

perlocucional, o de garantia do seu ethos político, quando intenciona auto-promover-se. Ou

seja, a posição sequencial (primeira oração) ao performativo, introduzida pela conjunção

‘que’ nos apresenta, aparentemente, um conteúdo informativo claro que indica os bons feitos

da PBH; além de acrescentar elementos que comprovam a eficiência da PBH no trato com a

gestão pública e solicita (bem intencionada) diante dos interesses da população. Informações

sobre gastos, salários, racionalização e crise, são alianças que fazem a conexão com sua auto-

valorização, cujo efeito é captar e seduzir o eleitor. Segundo Fairclough (2001, p. 263), essa

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mescla torna-se naturalizada, as distinções entre elas em ordens de discurso estão

desaparecendo e, como consequência, a natureza da informação está mudando radicalmente,

no mundo contemporâneo.

Para concluir, é impotante ressaltar neste momento que embora apresentemos

comodificação e democratização distintamente. Sabemos que uma implica a outra41, e a análise

das notas mostra essas relações. O formato polido com que a PBH trata os professores faz parte

do seu projeto hegemônico, mas também dá-se em favor dos 'consumidores' do seu discurso (a

população eleitoreira): por isso o poder da PBH não está expresso explicitamente, facilitado

através de substituições, ocultamento ou indireções; exemplos são as tensões mostradas na

análise. No entanto, podemos observar, que além do discurso da PBH apresentar uma

tendência à democratização e à comodificação, há uma fragmentação de ordens dos discurso.

Fairclough (2001, p. 271) entende por fragmentação uma espécie de colapso, uma perda de

eficácia, de ordens de discurso mais locais que as fazem permeáveis às tendências gerais:

como parte de um relaxamento genuíno nos apresenta elementos próprios dos discursos

autoritário e popular, ao mesmo tempo. Isto nos mostra que mesmo no caso de a PBH poder

buscar uma simulação de significados com base em um cálculo estratégico de efeitos

(personalização sintética)42, o uso de tecnologias é um risco. Pois, as diversas formações

travam um campo de lutas, em que tais simulações podem, também, serem traídas por outros

elementos que as desfaçam. O que não acontece com o discurso da PBH, já que os elementos são

investidos ao ponto de naturalizar-se e garantir-se uma prática discursiva em que os elementos

somam-se na sustentação dos efeitos pretendidos. A tendência interpretativa que assumimos

nesta pesquisa nos leva a entender que a PBH em seu projeto hegemônico, na construção de suas

notas, se utiliza de uma simulação estratégica para atingir os efeitos pretendidos. Ao analisarmos

a produção, a distribuição e o consumo dos textos de greve, o que fazemos na realidade, é

uma análise de como a luta hegemônica contribui para a reprodução da ordem de discurso e

das relações sociais e assimétricas existentes. A materialidade discursiva das notas apresentam

traços que funcionam como pistas para o nosso modelo de interpretação43, a partir desta

41 Os efeitos de sentido das tendências discursivas são produzidos à medida que elas interagem e se atravessam. Retoma-se aqui o conceito de ordens de discurso, caracterizadas como complexas, heterogêneas e contraditórias; da mesma forma, as tendências podem ter valores contrastantes e muito diferentes, dependendo das articulações a que se associam e estão abertas a diferentes investimentos políticos e ideológicos. (Fairclough, 2001).

42 A simulação de significados interpessoais provém da subordinação de todos os outros aspectos da prática e do sentido discursivos para alcançar objetivos estratégicos e instrumentais. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 265).

91

interpretação, o que buscamos, agora, é captar as formas simbólicas (à medida que

incorporam significações- efeitos)44, que funcionam como uma espécie de veículo dos

sentidos político-ideológicos.

4.2.3 Práticas sociodiscursivas de manipulação e poder entre PBH x sindicato

Ao entender e analisar a greve podemos dizer que se trata de um ambiente social, onde

práticas de poder e dominação são desenvolvidas. Assim, tanto sindicato como prefeitura

precisam satisfazer critérios pessoais e sociais que os permitam influenciar a opinião pública.

Os discursos veiculados em uma circunstância de greve são decisivos nas orientações tomadas

pelas instâncias envolvidas, visto que a opinião pública exerce o poder de pressão ao aderir

um ou outro discurso.

Nesse sentido, é natural aos discursos políticos de greve processos de persuasão. Os

atores sociais se utilizam de vários mecanismos discursivos para atingir seus objetivos, estes

mecanismos tanto fomentam o espírito crítico e a autonomia do outro, como também podem

evitar a reflexão e a criticidade da população, sendo esta usada como instrumento a serviço da

manipulação. Com isso, objetivos são escondidos ou apresentam-se de forma confusa para

não suscitar reflexão, desviando as atenções do próprio tema que se deveria debater, anulando

ao máximo a autonomia dos ouvintes e a sua capacidade de avaliação da situação.

Como já vimos no início deste capítulo, tanto PBH quanto o sindicato são instâncias

do discurso político que possuem, em função da instituição que representam poder social com

alta carga de influência política, no entanto é a PBH que possui mais acesso ao discurso

público, já que suas notas oficiais são publicadas em um jornal de grande circulação no

estado.

A hipótese desta pesquisa é a de que tanto as notas oficiais como as cartas abertas à

população empreendidas pelo sindicato oferecem estratégias discursivas que auxiliam a

formação e a concorrência da opinião pública. Nosso objeto de reflexão indaga sobre como os

43 Segundo Fairclough (2001, p. 273), cada interpretação implica um modelo particular de prática discursiva, em termos da luta hegemônica, implica-se uma visão da prática discursiva como articulação: a desarticulação de configurações existentes de tipos e elementos de discurso e a rearticulação de novas configurações, dando proeminência a interdiscursividade e intertextualidade. 44 Para Thompson (2007), o estudo da ideologia é o estudo de como o significado é construído e transmitido através de formas simbólicas de vários tipos.

92

discursos do patrão e do trabalhador utilizam dessas estratégias, tendendo à persuasão ou à

manipulação. Os pressupostos conceituais para a análise estão baseados nos trabalhos de

Dijk(2008); e, como metodologia utilizaremos procedimentos que auxiliam a interpretação

dos elementos retóricos de cada discurso para a apreensão de tais estratégias.

Dijk (2008) observa que as estruturas do discurso não são em si manipuladoras. Antes,

podemos definir por manipulação todas as formas de interação, comunicação ou outras

práticas sociais que servem apenas aos interesses de uma parte e são contra os interesses dos

receptores. São consideradas formas ilegítimas porque violam os direitos humanos ou sociais

dos que são manipulados e porque (re)produzem ou podem (re)reproduzir desigualdades. E

elas somente possuem tais funções ou efeitos em situações comunicativas específicas e na

maneira pelas quais estas são interpretadas pelos participantes em seus modelos de contexto.

Discursos sociopolíticos podem ser apenas persuasivos e não manipuladores. Para que haja a

manipulação algumas características contextuais devem ser observadas, tais como a posição

dominante do manipulador (por exemplo), a falta de conhecimento relevante dos receptores e

a condição de que as consequências prováveis dos atos de manipulação sejam do interesse do

grupo dominante e contra os interesses do grupo dominado, contribuindo assim para a

(ilegítima) desigualdade social. (DIJK, 2008).

O quadro enunciativo de uma greve se sustenta em três instâncias45: a prefeitura (a

instância política), em função da maior amplitude de recursos domina o sindicato (instância

adversária), sendo a adesão da população o epicentro da luta hegemônica travada entre eles,

tendo em vista que a pressão pública (instância cidadã) pode desconstruir qualquer

movimento grevista. Conforme Dijk (2008), para que o discurso manipulativo tenha sucesso,

três condições precisam ser atendidas. Assim vejamos estas relacionadas à trechos das notas:

1. É preciso que a população tenha ausência total ou parcial de conhecimentos

relevantes — de forma que nenhum contra-argumento possa ser formulado contra

afirmações falsas, incompletas ou tendenciosas. Vejamos os exemplos:

45 Charaudeau (2005, p. 55) afirma que “dadas a complexidade da estruturação do campo político, decorrente

dos múltiplos entrecruzamentos que se produzem entre os diferentes setores de atividade da prática social, e as diferentes situações de comunicação, convém distinguir três lugares de fabricação do discurso político: um lugar de governança, um lugar de opinião e um lugar de mediação. No primeiro desses lugares se encontra a instancia política e seu duplo antagonista a instância adversária; no segundo, encontra-se a instancia cidadã e, no terceiro, a instancia midiática”.

93

a) “Célio de Castro (prefeito) disse que a Prefeitura fez levantamentos criteriosos

e constatou que, do final de 1995 até agora os professores tiveram 180% de aumento,

enquanto a inflação, no mesmo período, foi de 65%.” (Reportagem do EM, 05/08/01- anexo 1).

b) “Essa postura da PBH traz benefícios para toda a população. Foi o que

permitiu a administração conceder reajustes acima da inflação desde 1995, para o

funcionalismo. Os professores municipais tiveram, de 1995 a 2001, reajuste salarial

de 207%, enquanto a inflação acumulada no mesmo período foi de 65%.” (Nota

Oficial publicada no EM, 05/08/2001). (anexo1)

2. E que posições sociais, profissões, status etc., induzam as pessoas a aceitar os

discursos, argumentos etc., das pessoas, grupos ou organizações da elite.

a) “e comunica que tomará todas as medidas legais para garantir os serviços de

saúde e o retorno ás aulas, assegurando o pagamento dos salários aos profissionais

em atividade.” (EM, 05/08/2001). (anexo1).

Pedro Demo (2000), afirma que as relações de poder são ambíguas e podemos

encontrar o poder que enobrece, mas é bem mais comum o poder dissimulado que se

aproveita da sombra para prosperar, e cita Foucault ao dizer que o poder se esgueira pelas

beiradas, busca não ser percebido para influir tanto mais, procura a obediência do outro sem

que este a perceba, inventa privilégio que a vítima pensa ser mérito e usa o melhor

conhecimento para imbecilizar. Podemos definir a manipulação, conforme examina Dijk

(2008), dentro de uma estrutura de triangulação, como uma abordagem que liga discurso,

cognição e sociedade. Isto significa que manipular pessoas envolve manipular suas mentes, ou

seja, as crenças das pessoas, tais como seus conhecimentos, suas opiniões e suas ideologias,

os quais, por sua vez, controlam suas ações. Há três formas de manipulação cognitiva, a

primeira delas seria através do processamento de informação a curto prazo. Todo discurso,

e o manipulador, em particular, envolve o processamento da informação na memória de curto prazo (MCP), resultando basicamente na "compreensão" (de palavras, orações, sentenças, enunciados, e sinais não verbais), por exemplo, em termos de "significados" ou "ações" preposicionais. Esse processo é estratégico no sentido de ser on-line, ser propositalmente direcionado, operar em vários níveis da estrutura do discurso e ser hipotético: suposições e atalhos rápidos e eficientes são feitos em vez de análises completas. (Dijk, 2008, p. 241).

Dessa forma, ao controlar algumas dessas estratégias parcialmente automatizadas de

compreensão do discurso, pode-se manipular compreensões, contribuindo para um

94

processamento mais detalhado e para uma melhor representação e lembrança, fazendo com

que os leitores prestem mais atenção em algumas partes da informação do que em outras.

Observe o título de uma das cartas veiculadas pelo sindicato:

1. “SANGUE A GENTE DOA. TRABALHO, NÃO! DOAÇÃO TEM LIMITE!”

(anexo15)

O título está impresso em negrito e em posição saliente, em fontes grandes. Esses

dispositivos, segundo Dijk (2008), atrairão mais atenção e, consequentemente, serão

processados como recursos extras de tempo ou memória, contribuindo para um

processamento mais detalhado e para uma melhor representação e lembrança. Podendo afetar

especificamente o gerenciamento da compreensão estratégica na MCP. Este não é um

processo apenas manipulativo, ocorre, como já vimos, com todo processamento discursivo. Já

a manipulação reside no fato de que, ao chamar a atenção para a determinada informação, a

intenção seja tendenciosa. Vejamos o segundo exemplo:

2. “A Prefeitura de Belo Horizonte, diante da paralisação de parte dos professores e médicos da rede municipal, informa à população que:” (anexo1).

O subtítulo é expresso em negrito e em posição saliente; o que chama a atenção é a

expressão ‘parte dos’. Nesse caso a PBH intenciona facilitar a informação que é compatível

com seu interesse e impede a compreensão da informação na qual não têm interesse. No

exemplo, a PBH deseja descaracterizar o movimento de greve como forte e unificado, fazendo

circular a ideia de que o movimento não teve adesão total de professores, sendo este pouco

significativo e de pouca importância. Há nesse caso um apelo manipulativo.

Outro formato de manipulação são aquelas direcionadas para resultados mais estáveis

focados na memória de longo prazo (MLP), nos conhecimentos, nas atitudes e nas ideologias,

fazendo parte dessa memória, estão as memórias pessoais, que definem nossa história,

associadas à memória episódica; a nossa memória para eventos comunicativos. Dijk (2008),

chama a atenção para o fato de que a compreensão não é meramente a associação de

significados com palavras, sentenças ou discursos,

95

mas a construção de modelos mentais na memória episódica, incluindo nossas próprias opiniões pessoais e emoções, associadas a um evento sobre o qual nós ouvimos ou lemos. E esse modelo mental que é a base para nossas memórias futuras, assim como a base de conhecimentos adicionais, tais como a aquisição do conhecimento, das atitudes e das ideologias baseada na experiência. (DIJK, 2008, p. 244)

Os discursos manipuladores agem no sentido de influenciar o receptor a compreender

um discurso como eles o veem. E algumas estratégias discursivas são direcionadas para

formar ou ativar tais modelos. Vejamos os exemplos 3 e 4:

3. “A paralisação dos serviços públicos prejudica a cidade e a população” (EM, 05/08/2001). (anexo1). 4. “Se ainda hoje permanecemos em greve, a responsabilidade é do Prefeito Célio

de Castro que insiste em não negociar seriamente conosco”. (Carta aberta do SindUTE

à população). (anexo12).

Em ambos os casos a estratégia é a culpabilização de acordo com interesses de quem

enuncia. De acordo com Dijk (2008), esta é uma das formas de manipulação por meio das

quais se influencia os modelos mentais individuais dos receptores. Tanto PBH quanto

sindicato atribuem ao outro a responsabilidade da greve. E, ainda, este tipo de discurso não

permite alternativa de interpretação, indica e condiciona o leitor à conclusão imposta pelo

enunciador. Essas são estratégias discursivas que tendem a influenciar a formação de modelos

mentais de contexto. Aqui entra a investida ideológica em modelos políticos individuais. Esta

ativação (de modelos) tende a ser automatizada e o controle sutil desses modelos nem são

notados pelos interlocutores (DIJK, 2008, p. 245).

Outra forma de manipulação são aquelas investidas nas crenças mais gerais e

abstratas, como conhecimento, atitudes e ideologias, conforme já vimos na análise de

operações ideológicas, são consideradas por Dijk (2008, p. 245) mais influentes “porque uma

atitude geral socialmente compartilhada é mais estável que os modelos mentais (e opiniões)

específicos de usuários individuais da língua. Influenciar atitudes implica influenciar grupos

inteiros e em muitas ocasiões”. Um exemplo é o de associar a ocupação que os professores

fizeram como ato político à violência e à delinquência. Interpretamos que ao se utilizar de

termos como ‘radicais’ e ‘intransigentes’ há uma jogada semântica no sentido de conduzir a

uma associação com os extremistas iraquianos, em razão da proximidade da data dos dois

eventos.

96

Se a manipulação pode concretamente afetar a formação ou mudança de modelos mentais singulares, o objetivo geral da manipulação discursiva é o controle das representações sociais compartilhadas por grupos de pessoas, tendo em vista que essas crenças sociais, por sua vez, controlam o que as pessoas fazem e dizem em muitas situações e durante um período relativamente longo. (DIJK, 2008, p. 247).

Podemos dizer que tanto PBH quanto Sindicato utilizam-se de estratégias discursivas

de persuasão, no entanto, manipulação pode não ser característica de ambos. Lembremos que

Thompson (2007) e Fairclough (2001) relacionam ideologia a investimentos em práticas

discursivas que contribuem para manter ou reestruturar as relações de poder. As ideologias

controlam as cognições sociais: o conhecimento, as opiniões, posturas e representações

sociais. Já manipulação são todas as formas de interação, inclusive as ideológicas, que servem

apenas aos interesses de uma parte e são contra os interesses dos receptores. Ou seja, podemos

nos vincular a esta ou aquela ideologia, o sujeito admite, mais ou menos conscientemente, a

aceitação através da formação de modelos. O processo manipulativo não. São consideradas

formas ilegítimas, porque violam os direitos humanos ou sociais dos que são manipulados e

porque (re)produzem ou podem (re)reproduzir desigualdades. Nesse sentido é que podemos

afirmar que toda prática manipulativa é, sobretudo, ideológica, mas, nem toda prática

ideológica é manipulativa.

Em relação às estratégias e operações, Dijk (2008) indica que a forte polarização entre

Nós (bons, inocentes) e Eles (malvados, culpados) é característica de uma estratégia de

manipulação designada generalização, na qual um exemplo concreto específico que tenha

gerado impacto nos modelos mentais das pessoas é generalizado para conhecimentos e

atitudes mais gerais, ou mesmo para ideologias fundamentais. Assim, a ocupação dos

professores à sede da PBH, é considerada pela Prefeitura como uma atitude radical, termo

usado em associação ao atentado de 11 de setembro nos EUA, em que esse termo foi muito

utilizado em consonância ao terrorismo, um evento muito emotivo com um forte impacto

sobre os modelos mentais das pessoas, sendo usado com o propósito de influenciar esses

modelos mentais. O importante nesse caso é que os interesses e benefícios da prefeitura que

detêm o controle do processo de manipulação, são ocultados, obscurecidos ou negados,

enquanto os benefícios alegados para a população são enfatizados, por exemplo, o prédio

público retoma o funcionamento que atende à população. Veja o exemplo:

97

5. “A Prefeitura de Belo Horizonte informa que: 1. Recorreu à Justiça para desocupar sua sede, invadida na última quarta-feira por um grupo radical, ligado ao comando de greve. A desocupação deu-se na tarde de sábado, em cumprimento da decisão de reintegração de posse determinada pela Juíza da Primeira Vara da Fazenda Municipal. Assim, na segunda-feira, o prédio reabre e retoma seu funcionamento normal”. (EM, 23/09/2001). (anexo5)

Esta é a condição cognitiva da manipulação, conforme Dijk (2008), as pessoas a serem

manipuladas são persuadidas a pensar que as ações políticas são produzidas para seu interesse

próprio, quando servem aos interesses dos manipuladores. Isto significa que o objetivo da

prefeitura não é, exclusivamente, o funcionamento do prédio para melhor atender a

população. O seu objetivo é, também, o de minar o movimento grevista, fazer circular

percepções sociais contrárias à greve, o de que a greve prejudica a população, com o objetivo

de ganhar o apoio da opinião pública e se auto- promover politicamente.

O sindicato, também, se apropria da polarização Nós vs. Eles como forma de

intervenção. Esta apropriação é uma espécie de investimento ideológico em práticas

discursivas, já que constitui em fazer circular outra imagem da prefeitura; este jogo contribui

para reestruturar as relações de poder. No entanto, há que se perceber que esta é antes de tudo

uma estratégia de intervenção. Fairclough (2001, p. 254) define as intervenções discursivas

como formas de tornar práticas linguísticas menos autoritárias ou discriminatórias, e uma

forma importante de intervenção é engajar-se em lutas de natureza mais hegemônica, como

faz o sindicato ao buscar desfazer o processo manipulativo. Dijk (2008) sugere que uma das

melhores formas de detectar e resistir às tentativas de manipulação é o conhecimento

específico sobre os verdadeiros interesses dos manipuladores. Assim, o sindicato responde:

6. “Neste momento, ao invés de dialogar conosco, dada a importância dos serviços que prestamos à cidade, a PBH usa da mentira para confundir a população e gerar dúvidas quanto à necessidade da nossa greve.” (Carta Aberta à população, carta n. 2). (anexo15).

Podemos atestar aqui que o discurso manipulativo não existe por si em função apenas

da sua estrutura argumentativa e estratégias específicas. O contexto determina a manipulação,

características sociais são imprescindíveis à análise desse discurso, como do discurso em

geral. Embora se utilizem da mesma estratégia discursiva, vemos que os discursos provocam

efeitos de sentido antagônicos, pois se filiam a diferentes formações e a interdiscursos

particulares.

98

Assim, vimos que a dimensão cognitiva da manipulação envolve processos

estratégicos de compreensão que afetam o processamento na MCP, a formação de modelos

mentais preferenciais na memória episódica e, mais fundamentalmente, a formação ou

mudança de representações sociais, tais como conhecimento, atitudes, ideologias, normas e

valores. Vimos também, que as estruturas do discurso não são em si manipuladoras; elas

somente possuem tais funções ou efeitos em situações comunicativas específicas e na maneira

pela qual estas são interpretadas pelos participantes em seus modelos de contexto. Em outras

palavras, o discurso é definido para ser, antes de tudo, manipulador, em termos de modelos de

contexto dos participantes. Analisa-se o discurso como manipulador em termos de suas

categorias de contexto antes que em termos de suas estruturas textuais.

Isto é, dada nossa análise dos contextos sociais e cognitivos do discurso manipulador, precisamos examinar as restrições específicas formuladas anteriormente, tais como a posição dominante do manipulador (por exemplo), a falta de conhecimento relevante dos receptores e a condição de que as consequências prováveis dos atos de manipulação sejam do interesse do grupo dominante e contra os interesses do grupo dominado, contribuindo assim para a (ilegítima) desigualdade social. (Dijk, 2008, p. 245).

Vimos também que, embora a manipulação sociopolítica seja normalmente ideológica

e discursos manipuladores frequentemente apresentem os padrões de polarização ideológica

em todos os níveis de análise, as estruturas discursivas e as estratégias de manipulação não

podem ser simplesmente reduzidas a qualquer outro discurso ideológico. De fato, talvez

tenhamos discursos sociopolíticos com investimentos ideológicos e não manipuladores.

Podemos avaliar que tanto o discurso manipulador como o discurso resistente (de

intervenção) oferecem caminhos argumentativos muito parecidos. Como podemos ver no

quadro abaixo, enquanto um discurso tenta, através de suas estratégias, manipular a opinião

pública a partir de um jogo discursivo; o outro tenta desconstruir essa manipulação.

Podemos ver isso no quadro abaixo em que apresentamos a estratégia global de auto-

apresentação positiva e outra-apresentação negativa, que é bastante comum nos relatos

tendenciosos dos fatos, em favor de interesse próprio do falante. Esta estratégia, conforme

Dijk (2008, p. 252) é usada nas estruturas de vários níveis do discurso estabelecem o quadro

ideológico da polarização, encontrada em todos os discursos ideológicos. Observemos como

as estruturas não são em si manipuladoras, e sim a situação comunicativa e os modelos

interpretativos que as denunciarão:

99

PBH SINDICATO ESTRATÉGIAS “A Prefeitura, no esforço

para equilibrar suas contas, conseguiu ser uma das raras capitais brasileiras a ver suas finanças saneadas. (...) reafirma que continua aberta à negociação” (05/08) (anexo1)

“A Prefeitura, que tem negociado permanentemente” (05/08)

A Prefeitura vem negociando com os professores, desde o início do ano,(17/09) (anexo4)

A prefeitura continua confiando no estabelecimento de um efetivo dialogo com os professores(26/09) (anexo 6)

Esclarecimento dos Trabalhadores em Educação, em greve, à população de BH (...) Esperamos que as negociações sejam sérias, com apresentações de propostas que atendam as nossas reivindicações. Esperamos responsabilidade do Prefeito Célio de Castro com a população de BH(Carta 01-anexo 13)

Auto-apresentação positiva; enquanto a PBH, se auto- apresenta supervalorizando sua administração; e, ainda, como uma instituição democrática. O sindicado auto-apresenta um ethos de seriedade e compromisso, enfatizando a posição de poder e superioridade da PBH nas negociações.

A PBH vem negociando com os professores, desde o início do ano, índices de reposição salarial, na busca de evitar prejuízos para o semestre letivo(...) desconsiderando as propostas(...), o comando de greve levou a categoria a deflagrar um movimento que prejudica os alunos da rede municipal de ensino.(17/09) (anexo 4)

Durante este período fizemos varias tentativas junto à PBH para evitar a paralisação das atividades nas escolas(.) ao invés de dialogar conosco, usa de mentiras para confundir a população. (carta 02- anexo 15)

Macroato de fala indicando Nossos "bons" atos e os "maus" atos dos Outros; A PBH aponta a polarização (Nós/abertos e generosos; Eles/mesquinhos e intransigentes). O sindicato aposta na descrença dos argumentos feitos pela PBH.

A paralisação dos serviços públicos prejudica a cidade e a população. O radicalismo e a intransigência têm dificultado o entendimento e prejudicado (...) os alunos e suas famílias. (23/09-anexo 5)

O estabelecimento de um efetivo diálogo (...) dificultado pelo radicalismo e intransigência da direção sindical (26/09) (anexo 6)

Um governo marcado pela truculência e desrespeito ao povo(...) arrebenta com os direitos conquistados em cima de muita luta da classe trabalhadora(...), que deixa a cidade sem educação e sem atendimento médico.(carta 07a -anexo 20)

Macroestruturas semânticas: seleção de tópicos enfatizando pontos negativos sobre Eles; A PBH reforça uma ideologia fundamental: sindicatos são intransigentes. O sindicato tenta desconstruir o ethos democrático da PBH.

Professores municipais tiveram, de 1995 a 2001, reajuste salarial de 207%, enquanto a inflação acumulada no mesmo período foi de 65%. (...) É preciso ressaltar que outros trabalhadores, tanto do setor público como da iniciativa privada, não tiveram igual tratamento.( 05/08) (anexo 1)

A PBH usa a mentira para confundir a população e gerar dúvidas quanto à necessidade da nossa greve (...) temos perdas que atinge 19% desde 1995.Observe a versão da PBH e leia no verso nossos argumentos(Carta2 -anexo 15)

Atos de fala locais de discurso estabelecendo e sustentando atos de fala globais. A PBH se sustenta em declarações improcedentes que podem convencer a população. O sindicato concentra em comprovar a falsidade das afirmações da PBH.

A intransigência da direção

política chegou ao extremo ( 26/09) (anexo 6)

Recorreu à Justiça para desocupar sua sede, invadida.Um grupo radical (26/09) (anexo 6)

Célio de Castro tem muitas caras. Quando mente à população sobre os salários dos professores é Pinocélio ou Celinóquio. Quando propõe uma política de reajuste salarial para 2004 e destrói a nossa previdência, fica parecido com um Tucano: o Celicano ou Tucanélio. (carta 07b -anexo 21)

Léxico: selecionar palavras negativas para Eles; ambos apelam para o discurso massivamente ideológico. A PBH indexa ao interdiscurso que se remete ao terrorismo; enquanto sindicato se remete à intertextualidade, associando o Prefeito ao Pinóquio- o maior mentiroso dos clássicos infantis.

A paralisação dos serviços públicos prejudica a cidade e a população. A Prefeitura apela para o bom senso dos servidores (05/08) (anexo 1)

Os trabalhadores em Educação repudiam a atitude arbitrária e autoritária (...) quando, no abuso do poder, tenta intimidar o nosso movimento. (carta 5- anexo 17)

Argumentação com emoção

Quadro 8: Práticas manipulativas

100

Diante do quadro ideológico (Nós x Eles), podemos perceber que a PBH ao enfatizar a

natureza maléfica da organização sindical (não dos professores), e enfatizar a sua natureza

democrática (através de uma auto-apresentação positiva), recorre à anuência da opinião

pública aliada ao espírito de cidadania e amor à cidade de BH. O objetivo é o de manipular a

população contra os professores, a greve e principalmente contra o sindicato. Quer dizer, faz

isso ao enfatizar a preocupação ‘Nossa’ com a família e com o aluno sem escola, contrastando

com os valores ‘radicais, extremistas’ atribuídos ao sindicato e aos professores (como se a

cidade de BH fosse sofrer um ataque e a ocupação do prédio seria o primeiro passo). A PBH,

em sua posição dominante diante da greve dos professores (é o patrão, detém o pagamento,

recorre ao poder judiciário), se concentra na desinformação da população, aproveitando da

sua autoridade para informar dados econômicos como salário dos servidores e níveis

orçamentários. E isso faz da população uma vítima crédula para aceitar tais crenças, quando

sua intenção política é a de manipular votos para futuras eleições. Essas características

presentes nas Notas Oficiais colocam a PBH em uma posição ilegítima (manipuladora), sair

desse lugar requer um exercício, realmente, legítimo e democrático.

É importante perceber que em todos os níveis de análise, a manipulação sociopolítica é

ideológica ao se utilizar da polarização (Nós/Eles), mas estas estruturas discursivas e as

estratégias de manipulação não podem ser reduzidas a qualquer discurso ideológico. Como

não existem estratégias discursivas só usadas para a manipulação, Dijk (2008, p. 255) explica

que em dada situação social, pode haver estratégias preferidas de manipulação, que ele chama

de protótipos manipuladores, sendo aquelas que persuadem as pessoas (enganadas) a fazer

algo: a falácia da autoridade, como em:

7. “Este ano, a Prefeitura realizou desde maio, dezenas de reuniões com o Sind-Ute”(Carta publicada pela PBH, 26/09/2001- anexo 6).

8. “ reajuste salarial de 207%, enquanto a inflação acumulada no mesmo período foi de 65%”. (nota oficial, publicada em 05/08/2001- anexo 1).

9. “72% dos professores recebem acima de 1.130 reais por mês”. (Nota oficial publicada em 05/08/2001-anexo 1)

O discurso sindical, por sua vez, é um discurso sociopolítico persuasivo, portanto

ideológico, com a mesma intenção manipuladora. Mas, em função de ocupar o lugar

enunciativo reivindicatório, as mesmas estruturas deste discurso podem ser usadas na

informação, na educação e em outras formas legítimas de comunicação. (DIJK, 2008, p. 255).

101

No quadro acima, verificamos que o discurso sindical funciona como uma contraposição ao

discurso da prefeitura, um contradiscurso, no sentido de conscientizar àqueles que são o alvo

do discurso manipulador. Utiliza-se, para tal, da polarização (Nós/ Eles), em cartas dirigidas à

população com o objetivo de desacreditar as crenças que a prefeitura faz veicular. É possível

observar que o sindicato serve-se, timidamente, da estratégia da auto-apresentação positiva,

faz muito pouco uso da construção de macroatos de fala selecionando seus bons atos, não

fazendo seleção de tópicos enfatizando pontos positivos, usa apenas uma das cartas para fazer

declarações que comprovam acusações. E utilizam-se com muita frequência das estratégias de

outro-apresentação negativa da PBH, com escolhas lexicais que demonstram explicitamente

sua filiação ao campo da oposição política.

Por fim, falta-nos observar como o recurso emotivo é investido ideologicamente nos dois

discursos. Os dois gêneros apresentam um eixo racional (uma ideologia particular), intencionando

a construção da própria legitimidade discursiva, e Thompson (2007) distingue o fundamento do

carisma, como uma das afirmações sob a qual o ato de legitimar-se, diante do outro, pode

estar baseado. O apelo às características de uma pessoa, o apelo às emoções, a busca pelo eixo

discursivo afetivo e passional, tornam-se uma forte estratégia manipulativa no discurso

ideológico persuasivo. A PBH após apresentar-se absolutamente disponível e solícita, justificando

a impossibilidade de oferecer aos professores o aumento salarial, faz um apelo ao ‘bom senso’

do professor. O bom senso é uma expressão que indexa-se a concepções e regras socialmente

partilhadas, é uma espécie de chamado à adequação. Mas adequação a qual realidade, a qual

modelo específico? A prefeitura faz, ao fazer o apelo, ouvir a voz da ideologia neoliberal, que

ela constrói em atos discursivos (seleção de proposições negativas sobre a greve, sobre a

racionalização de gastos, etc.), que se revela no macroato semântico de que movimentos

sociais impedem o desenvolvimento econômico (o modelo corrente no contexto analisado); e,

por isso o professor deve usar sua capacidade virtuosa e fazer a escolha correta. O apelo é

uma espécie de exigência, estratégia retórica, diante dos argumentos apresentados. Este apelo

é manipulativo, em relação ao interlocutor (o professor), porque escamoteia a real intenção da

PBH de fragmentar o movimento, minar a organização da greve, e convida à ideologia

liberalizante do cada um por si (atribui o desempenho a uma pessoa em particular –

desvencilhando-a da coletividade e do contexto político).

O sindicato também fazendo uso do recurso emotivo, busca emoções relevantes da

população (um chamado aos trabalhadores- arquivos da memória social) ao se valer do uso do

‘Nós’, que entendido como inclusivo (“nós, Trabalhadores em educação”; “ todos os

trabalhadores seremos”; “ queremos a liberdade do nosso povo”), evoca uma coletividade,

102

uma representação impessoal que alude à união, ao conjunto, identificando diferenças em

torno do mesmo discurso. O efeito de sentido do uso do pronome advém da polifonia: o

locutor pode ser tanto os professores membros do sindicato quanto um coletivo poderoso.

Zoppi (1997) investigou que,

o nós é inclusivo quando definido dialogicamente a partir de relação estabelecida entre o locutor e o grupo de alocutários, um nós sujeito universal de direitos que funciona discursivamente como categoria conceptual homogênea, que não permite operações de divisão interna (...)e estabelece uma imaginária relação de simetria [...]. Dessa maneira, instaura-se como referente discursivo da forma do NÓS inclusivo a representação de um todo coletivo, uniforme e totalizante. (ZOPPI, 1997, p. 102).

O uso inclusivo de um indeterminador (nós) pretende ora ser representado por todos os

que escrevem e ora por todos os que leem. O sindicato busca a capacidade de juntar gente, de

coletividade, de dividir a mesma ideologia. Ora através de um chamado caloroso ora através

do chamado à consciência trabalhadora, a estrutura do texto sindical, do ponto de vista

pathêmico, tenta uma similaridade aos carros de som e ao ardor do trabalhador inflamado. Daí

os textos hiperbólicos, as escolhas lexicais metafóricas, e etc. No entanto, através da análise

percebemos que o discurso sindical, enuncia do lugar da desarticulação do movimento

ideológico intencionado pela prefeitura, a sua escolha é a do contradiscurso, manifesta o

repúdio e denuncia a força manipulatória dos argumentos utilizados, classificando-os como

abuso de poder.

Concluindo, podemos afirmar que a prefeitura faz uso de estratégias sócio-políticas que

apelam para o uso da sua autoridade frente à instância cidadã, que não possui controle sobre as

informações veiculadas, em função do acesso a recursos midiáticos e do próprio jogo discursivo

de auto-valorização e associações a modelos sociais invertidos; o discurso sindical, também, se

concentrando nas características cognitivas e sociais da população, opta-se por um discurso

político ideológico persuasivo, em que se critica a posição de poder, superioridade e de acesso

à mídia que a PBH possui, indicando-o como falacioso. No entanto, em relação a essa

tentativa de contrapoder sindical, concluímos com Dijk (2008, p. 256) que “enquanto essas

pessoas não dominam o cenário principal dos meios de comunicação, ou as instituições e

organizações de elite, o problema dos contradiscursos é menos grave para os

manipuladores”.

103

4.3 Discurso midiático sobre a especificidade da greve

Sabemos que a mídia escrita divulga amplamente conhecimentos disseminados através

das matérias jornalísticas. Sob a égide de informar, esclarecer e explicar, sem qualquer forma

de parcimônia, acaba por categorizar, ordenar e hierarquizar o mundo relatado da maneira

como melhor lhe convém. (FLAUSINO, 2001, p. 105). Conforme Dijk (2008, p. 73), é

através dessa maneira de representar os acontecimentos que grupos poderosos se legitimam a

cada dia e com o passar do tempo de uma maneira ainda mais abrangente, a mídia jornalística

decide quais atores serão representados, o que será dito e como será dito algo a seu respeito.

Ouvimos sempre dizer que a mídia atende aos interesses de um grupo hegemônico e

que a mídia não é mesmo imparcial. O que podemos constatar através de pesquisas já

elaboradas nesse sentido, que em relação aos movimentos populares, a mídia escrita se abstém

de cobrir as atividades sociais e políticas desses movimentos. Arbex (2000) define o que seria

uma tendência no jornalismo em tempos de globalização:

a mídia brasileira é extremamente hostil aos movimentos populares em geral, [...] as megacorporações, capacitadas tecnologicamente a unificar a imagem do mundo por meio de satélites e canais de fibra óptica, passaram a apresentar o próprio mundo [...] como se fosse um grande show [...]. Essas midiáticas se tornaram essenciais ao funcionamento do capitalismo contemporâneo. Através de suas narrativas e explicações sobre os fatos do mundo, elas criam lógica e coerência onde não existem lógica e coerência alguma. (ARBEX, 2000, p. 45).

Em estudo sobre o discurso jornalístico, privatizações e protestos de rua, apresentado

por Leal (2005), percebeu-se que os efeitos de sentido apontados junto à opinião pública é a

de uma identidade negativa em relação a movimentos sociais organizados, apresentados, pela

mídia, como pessoas violentas e desordeiras. Além disso, este estudo destaca a falsidade dos

argumentos apresentados pelos textos jornalísticos e atesta que a imprensa se alia a interesses

hegemônicos que são assegurados na medida em que as manifestações sociais são silenciadas.

Em uma série de estudos de análise do discurso de notícias na imprensa, Dijk (2008, p.

75) examina como os grupos sociais subordinados (as minorias, os refugiados, os sem-teto e

os países do Terceiro Mundo) são representados nos textos noticiosos. Neste se percebeu que

esses grupos tendem a ter menos acesso aos meios de comunicação de massa dominantes, são

menos usados como fontes de notícia usuais e confiáveis; e, por fim, são descritos de forma

estereotipada e tidos como atrasados. Quando se refere ao discurso da mídia, Dijk (2008)

explica que ao contrário da crença popular e do senso comum entre os estudiosos, as notícias

104

da imprensa são as mais bem lembradas do que as de televisão. É nesse sentido que o estudo

sobre como são veiculadas representações sobre os professores em greve, interessa-nos

prontamente, dado o poder de influência persuasiva que o texto jornalístico possui na

constituição de modelos sociais e consequentemente de poder.

Vimos nos itens analisados anteriormente, nesta pesquisa, que na circunstância de

greve, a PBH tem mais acesso à mídia jornalística que o sindicato, em função da publicação

de suas notas no jornal, conseguindo assim atingir, sem dúvida, um maior número de pessoas.

O que propomos, neste item de análise, é perceber como o jornal Estado de Minas se

referencia à greve de professores: quem tem voz, como são tratadas as manifestações, como

escolhem o tópico das reportagens, as expressões em relação aos professores, o estilo de

descrever professores em greve e as implicações semânticas especiais relacionadas ao uso de

certas palavras.

4.3.1 Análise da prática discursiva no discurso do jornal EM

Analisaremos neste item o corpus composto por 28 (vinte e oito) reportagens do jornal

Estado de Minas, publicadas no período de 01 de agosto a 02 de Outubro de 2001. O jornal

Estado de Minas é editado pelos Diários Associados, desde 07/03/1928. Em site oficial

(www.em.com.br), afirmam ter estampado os fatos mais importantes que marcam a vida do

povo mineiro, ao longo dos anos de existência; dizem ser referência para a opinião pública de

Minas Gerais e caracterizam como sendo o seu diferencial: a credibilidade do seu conteúdo.

É importante dizer que este jornal apresenta uma tiragem de 119 mil exemplares aos

domingos e 73 mil em dias úteis. Possui cerca de vinte e nove cadernos que circulam em dias

alternados; e, embora, o caderno Política circule todos os dias, todas as reportagens sobre a

greve dos trabalhadores foram publicadas no Caderno Gerais que contempla, conforme site,

assuntos como educação, saúde, segurança pública, meio ambiente, lazer, carnaval, datas

religiosas, cultura popular, patrimônio artístico e religioso, administração pública, trânsito e

estradas, além de grandes reportagens e coberturas especiais. As colunas pautam temas do

cotidiano e abrem espaço para a participação da comunidade, sendo que uma delas lança olhar

cronista sobre a realidade. Podemos nos perguntar, de antemão, por que publicar reportagens

que tratam de relações político-sociais do mundo do trabalho ao lado de temas como carnaval,

trânsito ou lazer. Postar as reportagens sobre greve neste caderno sugere-nos uma tendência

105

do jornal a apagar ditos sobre o trabalho, organização de trabalhadores, garantias trabalhistas;

e, talvez, podemos interpretar como um silenciamento, como sugere Orlandi (1992), na

maioria das vezes, da voz dos sujeitos-trabalhadores, reféns do mundo do trabalho, nesse

caso, reféns da casualidade a que impõe este caderno Minas, do jornal EM. A princípio,

podemos dizer que esse movimento não é neutro e reclama uma interpretação, já que,

reportagens sobre greves deveriam ser publicadas em um caderno onde se discutem temas

políticos. Pois, o fato é que uma greve está diretamente orientada para a agenda político-

econômica; e seus dizeres são merecedores da atenção de todos.

Ao analisar como as práticas discursivas são construídas neste jornal, buscamos

compreender a partir de quais pontos de vista sua discursividade é constituída; ou melhor,

quais posicionamentos, em função da interdiscursividade na qual se inscreve, o jornal Estado

de Minas indicia ao se reportar à greve de professores. O discurso da mídia escrita, sem

precisarmos nos ater ao debate feito no capítulo anterior, pode revelar-se monofônico ou

polifônico. Vale lembrar, que este discurso é constituído, em grande parte, pela representação

de discursos de pessoas ou instituições: declarações de autoridades da PBH, de sindicalistas

ou de pais de alunos são utilizados como fontes de discurso. Mas, a imprensa também pode

exercer um controle sobre as vozes utilizadas em seus textos (ao tecer esses diversos

discursos), e, esse controle não é neutro; pelo contrário, favorece os pontos de vista e

formações presentes na interdiscursividade; são estas formações que pretendemos resgatar.

Sabemos que a interdiscursividade é constatada pela recorrência de temas que

circulam nos textos que nos permitem interpretar outros discursos, segundo Fairclough

(2001); no entanto, como já explicamos, em relação à sociocognição, o interdiscurso só é

significado a partir de um processo interpretativo, que se configura na construção de modelos

mentais e sociais, que compartilhamos e que possuem uma inscrição histórica. Assim sendo,

a interpretação de textos jornalísticos pela população, faz circular imaginários que

coletivamente são construídos ao longo dos tempos, indexados a posições ideológicas várias;

inclusive àquelas que estruturam as instituições noticiosas, que estão posicionadas política e

economicamente nas sociedades, conforme Arbex (2001). Com base nessas considerações,

analisaremos a heterogeneidade que engendra as reportagens do jornal Estado de Minas. Para

tal, pretendemos pensar um pouco sobre as questões: Como o discurso jornalístico apresenta

professores em greve? Qual relação entre o discurso jornalístico e a FD dominante? Existe

apenas uma FD disponível para o discurso jornalístico ou há mais de uma?

Em relação à greve, no início deste capítulo, sobre os boletins do sindicato e notas

oficiais da PBH, apresentamos no Quadro 2 que duas formações poderiam ser claramente

106

demarcadas, ambas com uma forte carga político-ideológica. Aquela na qual a PBH se indexa,

indiciando uma identidade própria ligada ao projeto político neoliberal, que vê nos direitos

trabalhistas empecilho para o crescimento econômico; e, a outra indexada ao sindicato,

vincula-se, semanticamente, ao universo da luta entre classes sociais atualizando sentidos

sobre divisão do trabalho e má distribuição de renda. Trata-se de formações conflituosas,

determinadas pela dinâmica e tensa luta de classes, pelos interesses de grupos colocados

socialmente em posição de dominação e subordinação. Neste momento, torna-se importante

relacionar tais formações, pois são elas que compõem a memória discursiva constitutiva da

circunstância enunciativa em análise e o texto jornalístico apresenta explicitamente essa

intertextualidade; ou seja, demarca claramente através do discurso direto ou indireto os dois

posicionamentos, um jogo de enfrentamento sobre o mesmo objeto. Fairclough (2001) sugere

que a análise da mídia escrita deve ressaltar os elementos e as linhas diversas (frequentemente

contraditórias) que contribuem para compor os textos do jornal, reconhecendo, assim, qual

interdiscursividade é instada a dizer sobre a greve e sobre os professores.

A mídia escrita aposta na construção de sua credibilidade, a partir da isenção de

opiniões; ou seja, afirmam que as notícias de jornal não explicitam, na maioria das vezes, a

autoria; e, isto garante a ideia de credibilidade, já que para os jornais não se pode relacionar

credibilidade a uma mera opinião pessoal. Assim, não sabemos, talvez, o que defendem os

jornais escritos; ou melhor, a voz do jornal, aparentemente, não sinalizaria dizeres?(ver site

oficial dos Diários Associados). Fairclough (2001, p. 137), contrariando essa ideia, afirma que

os “textos diferem na medida em que seus elementos heterogêneos são integrados, na medida

em que sua heterogeneidade é evidente”, o texto pode estar separado do resto do outro texto

por aspas e estar integrado estrutural e estilisticamente, os textos podem ou não recorrer ao

tom predominante do texto circundante e podem ou não ser fundidos por suposições do

segundo plano. Textos possuem uma “superfície textual desigual e ‘acidentada’, ou

relativamente regular.” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 137).

Tendo a convicção de que o interdiscurso sustenta os processos de significação e o

gesto de leitura e interpretação, sendo necessariamente remetido às formações que estão ali

configuradas, é impossível pensarmos que um discurso não sinaliza dizeres. Qualquer dito,

mais especificamente, os dizeres sobre greve se inscrevem em conjunturas sócio-históricas e é

impossível não significá-los. Vejamos o texto produzido pelo jornal, aos 49 (quarenta e nove)

dias da greve, em 18/09/2001(anexo 28).

107

O título da matéria enuncia “Eu quero estudar” o primeiro parágrafo traz a voz de

dois personagens: a filha, apresentada através do discurso indireto (exemplo1); e, em seguida,

o pai, que faz um pedido ao prefeito, através do discurso direto (exemplo 2):

1. A estudante Rachel Lopes Martins implora por aulas. O apelo da estudante pelo direito à educação pública e gratuita, garantida em lei, é endossado pelo pai[...].

2. “As crianças não conseguem estudar por causa da greve e estão perdendo o brilho no olhar. Estou pedindo pelo amor de Deus para que o prefeito cumpra com o seu dever e honre a confiança nele depositada por meio do voto. Será que ele vai negociar ou esperar até que estoure uma guerra, como aconteceu com os perueiros?”. A partir daí, no segundo e terceiro parágrafos, sem atribuir a fala a ninguém o sujeito

desse discurso privilegia uma sequência sobre a greve de professores, formulando algumas considerações teóricas sobre a greve no país. Têm-se os seguintes recortes, todos predicando sobre a greve dos professores:

a. A greve dos professores municipais da capital completa amanhã 50

dias. A situação se repete a cada ano. b. Os professores lutam [...] a Prefeitura trancafia [...] e os pais de

alunos se descabelam. c. Porém, desta vez, o movimento registrou um componente inédito em

todo o País: deixou a esfera meramente trabalhista e foi parar na Justiça comum. d. O juiz [...] saiu em defesa dos 200 mil alunos sem aula. e. Com a decisão judicial, o foco da greve foi deslocado para os

principais interessados: os estudantes. Conclui-se a reportagem, dando voz ao procurador de Justiça. Este em discurso direto,

afirma: 3. “O que está em discussão é o acesso das crianças à Educação. Não

interessa se a paralisação é justa, se o sindicato é o responsável pela deflagração da greve ou se os cofres do Município têm fundos suficientes [...] Mas vai sobrar para quem? Para os alunos. A reposição das aulas não recupera o conteúdo perdido e quem passou fome durante a greve não vai comer a merenda duas vezes”, critica o procurador. Primeiramente, quanto ao título, analisando-o, pragmaticamente, verificamos que

trata-se de um ato de fala comissivo, cujo modo podemos alternar entre o desejo ou

expectativa. O que nos chama a atenção neste ato, dadas às condições contextuais sob as quais

ele se inscreve; é o fato de que quando a aluna enuncia “Eu quero estudar”, em relação às

condições preparatórias, o seu alocutário, imediatamente, é posicionado. E este não é o leitor

do jornal Estado de Minas: é o professor. A posição hierárquica, no momento da greve, é

108

invertida. A aluna está no controle, a força do enunciado é de uma ordem. Isto significa que

indiretamente, a força deste ato é diretiva, a aluna não pede, ela exige; um dizer condenatório

e humilhante para aquele ao qual se dirige. Em uma perspectiva intertextual, o mesmo ato

sugere uma interpretação baseada no conceito de pressuposição: se ela quer (deseja, anseia ou

pede para) estudar, é porque alguém não deixa. Quem não deixa? Segundo Fairclough (2001,

p. 156) a “proposição pressuposta pode ser tomada como algo tomado como tácito pelo

produtor do texto”. Nesse sentido, considerando as contribuições que a Teoria dos Atos de

Fala traz para a ACD, podemos analisar que o Jornal Estado de Minas, com esse título,

pressupõe, acessando a memória discursiva na qual se indexa, no dizer de Fairclough (2001),

em termos das relações intertextuais com textos prévios, uma formação discursiva específica

de que o professor é o único responsável pela condição na qual se encontra a escola no país,

sendo ele que, em greve, impossibilita a educação escolar aos alunos e possibilita que crianças

percam o brilho no olhar (dizer do pai da aluna). O desenvolvimento do texto indica,

explicitamente, a posição conformada ideologicamente a que tal discurso remete-se,

retomando dizeres sobre greve e professores já construídos, fazendo circular imaginários que

desqualificam o professor em situação de greve. Retomemos os enunciados acima. No

enunciado (a), o sujeito do jornal EM enuncia que a greve dos professores se repete a cada

ano, esvaziando o seu sentido político e não fazendo o debate sobre o real sentido das greves;

ou seja, discutir sobre o que faz a educação pública precisar estar a cada ano em greve. Em (d)

e (e), o jornal EM, invoca a voz da lei, o Ministério Público, traz à tona, a autoridade do juiz,

para atestar que há os únicos prejudicados: os estudantes , que são, também, os principais

interessados . Reafirmando sua posição política, o sujeito enuncia, em (c), que a questão da

greve não deve ser tratada no âmbito político-trabalhista, mas como uma questão de justiça

comum; ou seja, para este sujeito a greve não se relaciona ao mundo do trabalho, usa o

advérbio ‘meramente’, “indicador da modalidade de atitude atitudinal”, conforme Koch

(1987, p. 192), que se constitui como desqualificador do enunciado, destituindo a greve de sua

representação legalizada de direito; e, recolocando-a sob as bases de um direito comum, lugar

onde questões que dizem respeito à civilidade, regras sociais de uma boa convivência em

sociedade são tratados.

Finalizando o 3º parágrafo, o sujeito desse discurso convoca e faz ouvir, mais uma

vez, a voz da autoridade numa perseguição à construção da legitimidade da sua fala, quando o

procurador de Justiça, assentado em uma suposta ordem, retoma, fazendo circular

significações resgatadas da memória social de que a paralisação não é justa, de que o

109

sindicato é o responsável pela deflagração da greve, e, ainda, de que a greve é responsável

pela fome da população.

Entendemos que, o funcionamento discursivo dessa exposição jornalística silencia

qualquer ação positiva construtiva que os professores estejam realizando. Trata-se de uma

negociação com a mesma FD, na qual a PBH se inscreve e que podemos considerar oficial

diante do que estes atores nos demonstram.

Podemos avaliar que, apesar das vozes da aluna, do pai e do procurador de Justiça, o

jornal Estado de Minas faz falar uma única voz que domina e nos remete a uma consciência

social sobre greve e trabalhadores, que desqualifica o movimento sindical e a organização

coletiva dos professores, conduzindo a um percurso interpretativo que culpabiliza professores

e a greve, o que antecipa um julgamento e condena aqueles que em uso de um direito

constitucional, atravancam a construção da sociedade.

Finalizando este item, chamamos a atenção para a natureza intertextual desse discurso,

quando o jornal Estado de Minas, enunciador do texto, incorpora outros textos sem que estes

estejam sugeridos. Em relação ao título, quando a aluna diz “eu quero estudar” (sabemos que

a aluna é a enunciadora, já que há uma foto da aluna ao lado do pai, na cabeça do texto), o

nosso percurso interpretativo explicita outros textos que o jornal Estado de Minas resgata na

historicidade, como por exemplo, outros noticiários que tratam de adolescentes que não se

interessam por escolas ou sobre uma aprendizagem que não lhes é atrativa, etc. Este processo

é, então, chamado de intertextualidade constitutiva, citado em Fairclough (2001, p. 136) 46

como uma configuração de convenções discursivas que entram em sua produção. Diante

disso, podemos ver que os textos possuem níveis de heterogeneidade e sua complexidade

advém das suas relações intertextuais e interdiscursivas, onde os textos buscam significados.

No entanto, gostaríamos de convocar o leitor para uma observação bem mais modesta e que

diz respeito a como o professor é representado em outros exemplos.

É preciso compreender um outro aspecto sobre a greve de 2001. Esta foi uma greve

que teve, a princípio, a companhia de outros setores dos serviços municipais, a saúde inicia,

conjuntamente, um processo de paralisações parciais; mas são os médicos, em especial, que

paralisam as atividades por mais tempo. Mais tarde, com paralisações isoladas, a

administração, cultura e transporte, além das regionais de governo e fiscalização. Isso ao

mesmo tempo em que a PBH proíbe a livre circulação de perueiros. No corpus de

46 Fairclough expõe os conceitos heterogeneidade mostrada e constitutiva, citando os termos utilizados por Authier-Revuz (1982) e Maingueneau (1987); justificando sua preferência pelo termo ordem do discurso.

110

reportagens analisadas, em muitas delas, não se fazia referência unicamente, aos professores;

como todo o serviço público insurgiu em movimentos reivindicatórios (uma estratégia da

organização sindical, no período), às vezes em uma mesma reportagem tratava-se de todos os

servidores em greve. No entanto, podemos perceber que há uma representação para

professores e outras para as outras categorias, Fairclough (2001) usa o termo representação de

discurso em lugar do termo tradicional discurso relatado, porque capta melhor a ideia de que

quando se relata, escolhe-se representá-lo de um modo ou de outro; e:

o que está representado não é apenas a fala, mas também a escrita, e não somente seus aspectos gramaticais, mas também sua organização discursiva, assim como vários outros aspectos do evento discursivo, suas circunstâncias, o tom no qual as coisas foram ditas, etc. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 153).

Então, observemos os recortes de outras reportagens que cobrem o período; como tal

representação é feita, em referência a professores e aos médicos:

4. “O secretário municipal de Coordenação de Administração de Recursos Humanos, Reinaldo Melgaço, disse que o processo de negociação foi interrompido pelos professores quando eles decidiram pela paralisação. Portanto, eles é que têm que restabelecer as negociações. Quanto aos médicos, eles questionam pendências e vamos fazer uma reunião para acertar tudo. Se houver débito, a Prefeitura vai pagar, compromete-se.” (EM, 05/08/2001- anexo 23).

5. “Professores - Querem19% de reposição salarial mais 22% de aumento real, num total de 41% de reajuste.(...) Médicos e dentistas - Reivindicam 27,78% de reajuste”. (EM, 18/08/2001-anexo28).

6. “Greve causa o drama da fome”; “Médicos sem negociação” . Títulos de reportagens, 1ª sobre professores, 2ª sobre os médicos. (EM, 17/08/2001-anexo27). Vejamos o modo que, como no exemplo 4, Melgaço se refere aos professores,

indiciando uma resistência que não é apresentada em relação aos médicos. Fairclough (2001,

p. 153) sugere que devemos atentar para o fato de a representação ir além do ideacional ou

conteúdo da mensagem para incluir aspectos do estilo e do contexto dos enunciados

representados. A nosso ver, avaliamos que a escolha pelo discurso direto não é neutra; basta

observar as 28 (vinte e oito) reportagens extraídas para análise que a preferência do jornal é

pelo recurso indireto de representação. Há um interesse em apresentar a indisposição da PBH

com a greve de professores e demarcar a disponibilidade da mesma para com os médicos.

O exemplo 5 pode reforçar nossa interpretação, vejamos as escolhas lexicais do jornal

para referir-se às aspirações salariais de ambos: em relação aos professores há uma gradação

111

hiperbólica (querem isso, mais isso, num total disso!), quase um desabafo do jornal,

indiciando sentidos que sugerem o absurdo da exigência do professor. Enquanto, médicos e

dentistas reivindicam; escolhe-se um verbo cujo campo semântico aciona o campo do direito

garantido ao trabalhador, legal e justo.

Por fim, os títulos mais que explícitos das duas reportagens reafirmam o

posicionamento do jornal Estado de Minas sobre a responsabilidade do professor, que não é

com o ensino, mas com a garantia da erradicação da fome no país; discurso poderoso que

alfineta a capacidade de organização e de luta do professor, enganando a opinião pública,

construindo equívocos sobre a real intenção de uma greve, fazendo circular sentidos que

apregoam ideologias que destituem o professor do seu lugar socioprofissional.

4.3.2 Modos de operacionalização ideológicos

Uma questão em relação às greves se revela do seguinte modo: embora tenha

realmente acontecido uma manifestação, uma passeata, uma assembleia, etc., não é todo

evento que a mídia considera importante para figurar como notícia. Para que um

acontecimento venha a ser noticiado, é preciso que ele se adéque aos critérios de seleção de

um determinado jornal. E tal seleção e transformação do evento em notícia dar-se-á de

acordo com uma série de valores que aquela mídia apregoa. Dijk (2008, p. 98-103) explica

que, em relação à visibilidade de movimentos sociais na mídia, dado ao seu limitado poder

social e econômico, os grupos e organizações minoritários carecem de formas mais usuais de

acesso à mídia organizada. E, ainda, enfatiza a relação entre as elites da imprensa de um lado

e as elites políticas do outro.

Como vimos na análise anterior, o jornal Estado de Minas tende à mesma orientação

ideológica que observamos no discurso da PBH; o caminho é o mesmo: silencia vozes e

encaminha sentidos de unidade e coesão. Podemos dizer que, da mesma forma, a mídia

pretende, também, um projeto hegemônico de influência e persuasão; indexando-se a uma

ideologia que definimos por oficial, já que é esta que sabemos constituir os modelos sociais

sobre greve e professores. Se o discurso jornalístico pretende-se convincente, isto quer dizer

que a mídia precisa investir para que suas construções da realidade se fundamentem

discursivamente. Romão (2007) indica que o sujeito do discurso midiático constrói um

pretenso relato fotográfico da realidade, ancorado em uma posição de autoridade de poder

112

dizer. Enuncia o papel de ditar certezas totalidades, exatidão, neutralidade, e, assim,

inscrevem-se efeitos de estabilidade para o que se mostra caótico, contraditório e conflituoso

na realidade, cristalizando apenas um modo de dizer. Desse modo, o discurso jornalístico

assenta uma suposta ordem, organização, certificação, sobre ela fazendo circular relatos e

histórias, que muitas vezes, são tão bem inventados, que até parecem verdade. Essa

naturalização de sentidos conta, como já vimos, com um poderoso investimento ideológico e,

logicamente, com uma instância interpretativa, que ao mobilizar modelos cognitivos, seja

capaz de estabelecer conexões: compreendê-los e interpretá-los. Este é o objeto de trabalho

do jornalismo, a aceitação da significação da realidade; e mais, a não percepção de que esta

realidade é construída. É o que Fairclough (2001, p. 120) sugere ao dizer que o trabalho seja

articulado para que as ideologias fiquem imperceptíveis.

Em Thompson (2007), vemos que as regularidades nos relatos da mídia são

construídas pela instância ideológica dos sentidos que se incumbe de fazer parecer que esse é

o único modo de dizer. No entanto, é possível demarcar essa construção; ou melhor, desnudar

o discurso ideológico. Observaremos alguns exemplos de títulos das reportagens para

perceber melhor essa construção. Antes, cabe-nos explicar o porquê de escolhermos os títulos

para a análise. Primeiro, porque conforme Miquelletti (2007) título, sobretítulo e subtítulo

são uma das primeiras estratégias de atração do público leitor e que é a partir deles que os

jornais trabalham na tentativa de persuadir o leitor, cujo olhar está facilitado pela posição que

ocupam na página. Segundo, a escolha diz respeito ao jogo entre o tempo e a captação da

memória na projeção das reportagens, principalmente nos títulos e subtítulos, já que os

modelos de contexto político são ativados através dessa forma de informação:

Uma categoria de contexto importante que controla essa seleção é a ideologia política do falante e dos receptores [...] as específicas estruturas semânticas construídas dessa forma podem influenciar os modelos “preferidos” dos receptores que não possuem fontes alternativas de conhecimento. (Dijk, 2008, p. 227).

Vejamos os exemplos de títulos, aos quais pretendemos compreender os efeitos de

sentido produzidos:

a. Segundo semestre começa sem aulas - EM, 02/08/2001- anexo 22. b. Prefeitura não vai pagar dias parados- EM, 03/08/2001- anexo 23 c. Professores municipais admitem radicalização- EM, 07/08/2001 - anexo 24 d. Servidores deixam Prefeitura à deriva- EM, 15/08/2001- anexo 26 e. Greve causa o drama da fome- EM, 17/08/2001- anexo 27 f. Ameaça de prejuízo milionário- EM, 29/08/2001- anexo 28 g. Nova batalha para acordo- EM, 11/09/2001- anexo 31 h. Professor ocupa PBH para pressionar Célio- EM, 20/09/2001- anexo32

113

i. Célio arma reação- EM, 21/09/2001- anexo 33 j. Professor resiste à desocupação- EM, 22/09/2001- anexo 34 k. Manifestantes irritados chutam carros oficiais- EM, 23/09/2001- anexo 34 l. Novo tormento para alunos- EM, 02/10/2001- anexo35

A seleção dos títulos foi feita em função daqueles que nos chamaram mais a atenção,

devido à relação semântica que possuem entre si, no sentido de que invocam uma outro-

apresentação negativa da greve e do professor; nota-se que apresentamos os títulos seguindo a

cronologia da greve, que começa em 01/08/2001 e termina em 29/09/2001. Os significados

estão explícitos, isto significa que foram selecionados e por isso aparecem detalhados.

Sabemos que cognitivamente, conforme Dijk (2008), a respeito dos modelos cognitivos, a

interpretação desses títulos varia, em parte, em função das estruturas e das opiniões dos

modelos de eventos que têm uma base pessoal e outra social. No entanto, entendemos que

uma mídia que se diz imparcial e zelosa pelos modelos que faz circular, deveria estar atenta a

uma lexicalização específica que não fira a imagem de nenhum profissional. Percebemos mais

uma vez que há uma regularidade nos relatos do jornal Estado de Minas a respeito dos

professores, e esta regularidade é construída ideologicamente, fazendo circular sentidos que

promovem as ações nocivas aos trabalhadores em educação e aos movimentos sociais em

geral.

Observamos que os títulos enunciados são investidos ideologicamente por um modo

de operação que Thompson (2007, p. 87) define por reificação: que consiste em relações de

dominação que são sustentadas pela retratação de uma situação transitória como se essa fosse

permanente, natural e atemporal. Um exemplo disso é a publicação da reportagem, em

18/08/2001, cujo título é ‘Escassez de professor é crônica’, esta reportagem inicia-se com o

seguinte enunciado: “Além das greves periódicas, a rede municipal de ensino enfrenta [...]”.

Assim, uma greve que é um momento político-histórico, que funciona, justamente,

como uma espécie de dispositivo que corta a sequência temporalizada do mundo do trabalho e

intervém com uma outra lógica temporal, no sentido de desfazer determinado ritmo

sequencializado (BOITO, 1999). Desse modo, a greve é tratada pelo jornal como um

acontecimento quase natural, rotineiro. Essa orientação ideológica envolve a eliminação do

caráter sócio-histórico dos fenômenos; esta é uma estratégia chamada de naturalização

presente nos exemplos a) e l), ao banalizar o sentido da greve e tratá-la como algo recorrente

ou permanente, o que é, também, semelhante a outra estratégia chamada eternalização.

Uma segunda estratégia ideológica nesse processo de banalização da greve é a

nominalização, que consiste em transformar processos e atividades em estados e objetos; e,

114

ações concretas em abstratas. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 227). Através da nominalização

omite-se o agente e abre-se o investimento ideológico por fazê-lo. Por exemplo, em (f) e (g),

transformam uma ação ilegal, que seria a condenação do sindicato ao pagamento de uma

multa, em função da manutenção da greve e uma negociação conseguida aos 50 (cinquenta)

dias de paralisação, em categorias abstratas. Apagam os atores e tendem a representar

acontecimentos como se acontecessem fora da presença de um sujeito.

Um segundo modo, através do qual a ideologia pode operar é a fragmentação, nesse

sentido o Jornal atende muito bem aos interesses da PBH, pois, através de suas reportagens

desconstruindo a credibilidade da greve e da organização sindical, bem como através de

estratégias como o expurgo do outro, isto é, envolve a construção de um inimigo, em que

professores são tratados como malvados (ao disseminarem a fome das crianças), perigosos (ao

chutarem os carros) e ameaçadores (ao ocuparem o prédio público); a greve e os professores

são tratados como um desafio, uma ameaça, em que é preciso se armar para contra-atacar. É

uma guerra, como sugere o exemplo (i). Observemos outros trechos retirados das reportagens

em que estes sentidos, em relação aos professores e à greve são mobilizados:

7. “A disputa entre professores e Prefeitura deixa, diariamente, cerca de 156 mil alunos sem merenda escolar. [...] O risco de acidentes domésticos aumenta, assim como a exposição dos menores à violência nas ruas. (...)“Quem depende da merenda não está comendo, a falta de aulas aumenta a violência doméstica e pode até mesmo levar à desestruturação familiar, principalmente entre as camadas mais carentes da população(...)”. (EM, 17/08/2001- anexo 27).

8. “A população já está sendo punida ao ficar sem aulas para suas crianças”. (EM, 18/08/2001- anexo 28).

9. “Eles saíram em passeata até a porta da Prefeitura, num ato que terminou após as 19h, provocando um engarrafamento no centro”. (EM, 05/09/2001-anexo 29).

10. “Grevistas radicalizam e invadem o saguão para exigir [...]”. (EM, 20/09/2001- anexo 37).

11. “[...] aumentando o clima de tensão entre o comando de greve e o poder público. (EM, 21/09/2001- anexo 33). Estas estratégias estabelecem o quadrado ideológico usual da polarização de um grupo

discursivo, no sentido de desenfatizar as coisas boas e enfatizar as más que tal grupo faz,

encontradas em todo discurso ideológico. (DIJK, 2008, p. 253). Podemos dizer que os textos

jornalísticos produzidos pelo jornal Estado de Minas sobre a greve de professores são

115

fundamentalmente ideológicos. Isto é, fazem isso, como vimos em todos os exemplos, ao

banalizar a greve, descaracterizando-a do seu valor político-histórico e ao construir a imagem

do professor que o desqualifica e o destitui de sua categoria socioprofissional,

responsabilizando-o por questões que não dizem respeito à sua profissionalidade.

4.3.3 Considerações parciais

Podemos dizer que o jornal Estado de Minas indicia, através de suas práticas

discursivas, ideologias que coadunam com o poder político da PBH em relação à greve de

2001. De outro modo, podemos dizer que o jornal Estado de Minas se filia aos dizeres que

conservam e reproduzem o poder da PBH em relação à organização dos seus professores, à

medida que faz circular imaginários que depõem contra movimentos sociais. Ainda, em

relação aos professores, percebemos que este jornal mantém um total silenciamento a respeito

das condições de trabalho dos professores no atual sistema de educação pública. Enfim, com

base na análise, podemos afirmar que o discurso jornalístico filia-se à formação discursiva

dominante, na qual se diz sobre trabalho, mas não é permitido enunciar sobre desigualdades e

direitos.

Embora concordemos com Charaudeau (2006c), quando este autor afirma que a

própria instância midiática é manipulada por uma pressão interna e outra externa. A primeira

por fatores que dizem respeito à instituição e a segunda por elementos que restringem e

limitam sua ação: “a atualidade, o poder político e a concorrência.” (CHARAUDEAU,

2006c, p. 257). Entendemos que o jornal Estado de Minas, possui um modelo de prática

social que serve apenas aos interesses de um grupo determinado; ou seja, em situação de

greve em que dois grupos se polarizam, vemos, claramente, o interesse do jornal em isentar

uma instância: a do governo. Nesse sentido, podemos considerar seu discurso manipulador,

primeiro, porque viola o direito do cidadão leitor de obter uma informação isenta (pela qual

ele paga) aliando-se aos interesses da prefeitura, contra os interesses do grupo dominado,

contribuindo assim para a (ilegítima) desigualdade social. (DIJK, 2008). Segundo, baseando-

nos em Dijk (2008), porque o jornal se utiliza da posição dominante (pelo fato de ser o maior

jornal do estado), não tendo outra instância midiática que o desestabilize ou aponte

irregularidades no seu modelo de informação. E, por último, porque apostando na falta de

conhecimento dos leitores; faz circular imaginários que depõem contra a imagem do professor

116

e da educação pública, como vimos, utilizando-se do seu texto de reportagem como forma de

automatizar a compreensão dos discursos, manipulando compreensões, influenciando o leitor

a compreender o seu discurso como o jornal o vê, através de estratégias de culpabilização do

professor e da greve, associando-os a imagens negativas, sobre sua profissão e sua

organização política.

117

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O quadro histórico da greve já garante, antecipadamente, uma parte da significação, no

dizer de Charaudeau (2006a), trata-se de um contrato organizado e regulado, definindo os

enunciados que poderiam ser produzidos e o tipo de interpretação a ser feita; vemos, em

relação à PBH e ao sindicato, o uso de gêneros textuais que caracterizavam-se,

semelhantemente, por uma apresentação de projetos ideais de sociedade, visando a influência

e a captação da opinião pública, através de estratégias argumentativas que giram em torno da

auto-apresentação positiva em detrimento de uma outro-apresentação negativa. No entanto,

foram as escolhas discursivas feitas pelos atores e a indexação destes a uma determinada

ideologia que, ao longo da greve, nos permitiram algumas conclusões sobre as

intencionalidades ocupadas.

Em primeiro lugar, definimos o pensamento neoliberal, a partir das categorias

analíticas propostas por Thompson (2007), como um projeto ideológico e hegemônico,

operacionalizado durante a greve, através dos discursos da PBH e da mídia escrita,

naturalizando-se e progredindo em muito dos seus aspectos, conseguindo difundir-se entre a

população, o que garantiu a sustentação dos seus efeitos. Este pensamento caracteriza-se

como uma espécie de sobredestinatário, nos termos bakhtinianos, como possuindo uma

identidade concreta variável (BAKHTIN, 1997 p. 356), uma espécie de julgamento da

consciência humana( dizendo à sociedade o que dentro de sua lógica é certo ou errado); e que

perpassa a memória dos três atores sociais, que a partir daí se relacionam.

A PBH, ocupando o lugar da governança, manisfesta-se discursivamente, através de

notas oficiais, já ocupando a sua posição de autoridade. Em todas as notas, se auto-promove e

busca legitimar-se ao justificar suas decisões e ações, compartilhando com a opinião pública

(seu principal foco) o ideário neoliberal ( que garante à PBH a sua força argumentativa); nesse

sentido a PBH, como a mídia escrita, interpela o sujeito leitor conduzindo a sua interpretação.

Para este fim, estratégias variadas são usadas, entre elas a centralização de polemicidade de

seus discursos, apagando as vozes que poderiam destoar do sentido almejado; a eleição do

adversário como a fonte do mal; a tendência discursiva à democratização, à colonização e etc.

Utiliza-se de recursos manipulativos, aproveitando-se da falta de conhecimento relevante dos

receptores, sustentando uma relação de abuso e dominação. Fairclough (2008, p. 264) chama

esse uso de “tecnologização do discurso”, que se configura em um conjunto de técnicas que

118

são usadas estrategicamente para ter efeitos particulares sobre o público. Percebemos, através

da análise, que há um investimento da PBH em tratar especificamente seus discursos nesta

situação enunciativa, numa tentativa de controle sobre os modelos pessoais e sociais da vida

em sociedade.

A mídia, que também centra-se na opinião pública, aqui representada pelo jornal

Estado de Minas, alia-se à PBH, ao não dar visibilidade ao movimento dos educadores, a

começar pelo caderno do jornal onde publica as reportagens (caderno Cidades, no lugar do

caderno Política). Filia-se a dizeres que reproduzem o poder da PBH em relação à

organização política dos professores, culpabilizando-os pela greve e disponibilizando

imaginários de que greve é a responsável pela precarização da escola pública, apontando a

greve como um privilégio do trabalhador e associando-se a ideia de que direitos sociais são

um direito burguês, em um projeto claro que defende o antiestatismo neoliberal; já que um

dos arranjos desse é o de desobrigar o Estado das suas funções, a fim de favorecer a livre

economia e as privatizações.

O sindicato, ao se instaurar como instância adversária, propõe seu projeto ideológico

de sociedade ideal, focalizando-se, principalmente, em direção ao discurso da PBH, com o

objetivo de desautorizar e deslegitimá-la do lugar que ocupa, utilizando-se das estratégias de

polarização ideológica, uma construção argumentativa, como já dito, semelhante à utilizada

pela instância da governança. No entanto, este discurso indexa-se a uma FD que representa

uma fidelidade irrestrita a um projeto de esquerda antineoliberal, anti-imperialista, em que

não se aceita o sistema político centrado no capital e suas organizações econômicas,

(CÂMARA NETO; VERNENGO, 2005); projeto que faz um movimento contrário às

aspirações de uma sociedade que tende ao consumo, à economia aberta e ao individualismo,

em detrimento da coletividade e solidariedade.

Observamos que as estratégias discursivas, nesse cenário, são usadas com objetivos de

dominação e manutenção de lugares sócio-políticos ocupados. No jogo político as estratégias

de polarização ideológica ‘Nós vs. Eles’ e o projeto racionalizante no qual se indexam, são

recursos utilizados em todos os discursos analisados e que garantem sua força argumentativa.

Isto significa que o discurso político se constitui pela busca de legitimação, através da

construção de imagens de lealdade e ideais de verdade. Quem confere esta legitimidade é a

instância cidadã. Por isso, este passa a ser o grande alvo intencionado pelos atores sociais: são

visadas de sedução e captação dessa opinião. A mídia, travestindo-se de seu papel de

neutralidade e de veículo de informação, rende-se aos apelos neoliberais, fazendo circular

determinados imaginários sobre os professores e a greve. E, em acordo com a PBH, juntas

119

obtêm o recursos necessários para captarem para o seu lado esta opinião. Instância que o

sindicato pouco focaliza e atinge, em função das faltas de recurso material e de coexistência

entre projetos racionais-ideacionais (o projeto sindical é antagônico às aspirações sociais).

Chegamos, pois, ao final deste trabalho, apontando algumas questões; os movimentos

reivindicatórios de trabalhadores bem como as instâncias que o representam, têm, a partir

desta análise, uma questão a ser pensada, dados os desafios da modernidade: a instância

cidadã deve ser o foco; ou seja, o destinatário do seu discurso; pois a opinião pública pode

favorecer as ações coletivas, tornando categorias de trabalhadores mais propensas a promover

e/ou aderirem às greves. Nesse sentido, é preciso que os movimentos reivindicativos atentem

e observem o comportamento e os imaginários que circulam no interior de grupos sociais.

Pois, percebemos que, apesar das atividades propostas de visibilidade do movimento de

greve: passeatas, ocupações, vigília, panfletagem, atos públicos e etc., a PBH apresenta uma

articulação discursiva mais fechada, aliada à mídia escrita, provocando um desvio de

interpretações favoráveis à organização coletiva. Um cuidado que o discurso da governança

possui com a centralidade de vozes e um maior investimento na condensação de seus

discursos.

Enfim, o que fizemos em nossa análise foi uma desnaturalização das práticas

discursivas de greve, em que mostramos a indexação da PBH e do jornal Estado de Minas a

formações discursivas neoliberais. Evidenciamos como o discurso sindical, também, negocia

com esta FD dominante, e que ao deixar marcas em seu discurso abre brechas interpretativas,

o que pode caracterizar uma falta de coesão discursiva e uma possibilidade de não apreensão e

captação do outro à sua leitura. Assim, esta pesquisa, aponta para um modo da prática social

revelada no discurso. Isso posto, implica a relação entre a estrutura social e o discurso, uma

como causa ou efeito da outra. Podendo constatar que, nesse sentido, como entende

Fairclough (2001), o interdiscurso precede ao discurso e dialeticamente, ao desenrolar da

trama, como a própria história. Assim, encerramos esta análise, cujo objetivo proposto pela

ACD, que é o de revelar práticas de dominação e apontar alternativas para práticas

emancipatórias, parece-nos alcançado. Encerramos com um pensamento de VanDijk que

traduz toda a trajetória conferida a essa pesquisa:

Pensamos que a análise do discurso deve ter uma dimensão social. Assim , na escolha de suas orientações , de seus assuntos, de seus problemas e de suas publicações, a análise do discurso deve participar ativamente, de forma acadêmica, que é a sua, dos debates sociais e fazer pesquisas úteis àqueles que mais precisam. (DIJK, 1996, p. 27, apud CHARAUDEAU, 2006, p. 269).

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