GUATARRI Caosmose Um Novo Paradigma Estetico

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    CA SMOUM NOVO PARADIGMA ESTTICO

    F I x GuattariTraduo Ana Lcia de Oliveira e Lcia Cludia Leo

    editorall34

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    Analista, Flix Guattari comea, no incio da dcada de 70, a interrogar o cartercientfico- ou estrutural- dos operadorespsicanalticos. Esta tarefa se realiza com odesenvolvimento de uma abordagem construtivista do Inconsciente, determinada, em primeira instncia - bom lembrar- pela descoberta freudiana dos processos de singularizao semitica que compem o clebre"processo primrio".Sendo o inconsciente menos teatro (antigo) do que usina (a da modernidade), necessrio experimentar Agenciamentos e dispositivos inditos de enunciao analtica. Talopo processual levar Guattari a elaboraruma modelizao transfonnacionalque ope programao psicanaltica do Outro umapragmtica ontolgica das multiplicidades,implantada no Dando- e no mais no sempre j-dado, ocultado, velado, esquecido ..Foi essa a grande lio do Anti-dipo, escrito com o filsofo Gilles Deleuze: uma revoluo copernicana, que procura considerar asubjetividade sob o ngulo de sua produo.E se a morte de Deus n o tivesse efeitoseno com a morte de dipo, enquanto representante da subjetividade capitalstica enaltecida pela psicanlise (a representao subjetiva infinita), enquanto efeito de uma reduo significante q ue estrutura o Inconscientecomo a linguagem do recalcado, que rebatea Lib ido - essa matria abstrata do possvel- s ob r e o "pequeno segredo sujo" estendido a todos (a interiorizao extrema da dvida infinita)?Segue-se o programa rigoroso de um psfreudismo que se dedica a conceber o trabalho analtico como uma verdadeira "heterognese", iniciando um procedimento autoenunciativo, produtor de novas "snteses".No cruzamento dos fatos de sentido, materiais e sociais, no rastro da inveno de novos universos de referncias, sua funo a

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    coleo TRANS

    Flix Guattari

    CAOSMOSEUm Novo Paradigma Esttico

    TraduoAna Lcia de Oliveira e Lcia Cludia Leo

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    EDITORA 34Editora 34 Ltda.Rua Hungria, 592 Jardim Europa CEP 01455-000So Paulo- SP Brasil Tel!Fax (11) 3816-6777 www.editora34.com.br

    Copyright Editora 34 Ltda., (edio brasileira), 1992Caosmose Colgio Internacional de Estudos FilosficosTransdisciplinares, Rio de Janeiro, 1992A FOTOCPIA DE QUALQUER FOLHA DESTE LIVRO ILEGAL, E CONFIGURA UMAAPROPRIAc;o INDEVJI)A DOS DIREITOS INTELECTUAIS F PATRIMONIAIS DO AUTOR.

    Capa, projeto grfico e editorao eletrnica:Bracher & Malta Produo GrficaTranscrio das fitas:Geraldo Ramos Ponte ]r.Reviso tcnica:Suely RolnikReviso:Maira Parula de Assis

    1" Edio- 1992 (4" Reimpresso- 2006)

    CIP- Brasil. Catalogao-na-Fonte(Sindicato Nacional dos Editores de Livros, R], Brasil)Guattari, Flix, 1930-1992

    G9S3c Caosmose: um novo paradigma esttico IFlix Guattari; traduo de Ana Lcia de Oliveirae Lcia Cludia Leo . - So Paulo: Ed. 34, 1992.208 p. (Coleo TRANS)ISBN 85-85490-01-2

    1. tica - Discursos, conferncias etc.2. Esttica -Discursos, conferncias etc. 3. Psicanlise-Filosofia. 4. Filosofia francesa I. Oliveira, AnaLcia de. 1!. Leo, Lcia Cludia. III. Ttulo.IV. Srie.

    92-0319 CDD- 194

    CAOSMOSEUm Novo Paradigma Esttico

    11Heterognese99A Caosmose Esquizo113Oralidade Maqunica e Ecologia do Virtual127O Novo Paradigma Esttico153Espao e Corporeidade169Restaurao da Cidade Subjetiva183

    Prticas Analticas e Prticas Sociais

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    Sobre as ripas da ponte, sobre os adros do barco, sobre o mar, como percurso do sol no cu e com o do barco, se esboa, se esboa e sedes-tri, com a mesma lentido, uma escritura, ilegvel e dilacerante de sombras, de arestas, de traos de luz entrecortada e refratada nos ngulos,nos tringulos de uma geometria fugaz que se escoa ao sabor da sombradas vagas do mar. Para em seguida, mais uma vez, incansavelmente, continuar a existir.

    Marguerite Duras (L'amant de la Chine du Nord, Gallimard,Paris, 1991, pp. 218-219)

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    Heterognese

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    1. DA PRODUO DE SUBJETIVIDADE

    Minhas atividades profissionais no campo da psicopatologia e da psicoterapia, assim como meus engajamentospoltico e cultural levaram-me a enfatizar cada vez mais asubjetividade enquanto produzi da po r instncias individuais,coletivas e institucionais.

    Considerar a subjetividade sob o ngulo da sua produo no implica absolutamente, a meu ver, voltar aos sistemas tradicionais de determinao do tipo infra-estruturamaterial - superestrutura ideolgica. Os diferentes registros semiticos que concorrem para o engendramento dasubjetividade no mantm relaes hierrquicas obrigatrias, fixadas definitivamente. Pode ocorrer, por exemplo,que a semiotizao econmica se torne dependente de fatores psicolgicos coletivos, como se pode constatar com a sensibilidade dos ndices da Bolsa em relao s flutuaes daopinio. A subjetividade, de fato, plural, polifnica, pararetomar uma expresso de Mikhail Bakhtine. E ela no conhece nenhuma instncia dominante de determinao queguie as outras instncias segundo uma causalidade unvoca.

    Pelo menos trs tipos de problemas nos incitam a ampliar a definio da subjetividade de modo a ultrapassar aoposio clssica entre sujeito individual e sociedade e, atravs disso, a rever os modelos de Inconsciente que existematualmente: a irrupo de fatores subjetivos no primeiro plano da atualidade histrica, o desenvolvimento macio deprodues maqu nicas de subjetividade e, em ltimo lugar,o recente dest aque de aspectos etolgicos e ecolgicos relativos subjetividade humana.

    Os fatores subjetivos sempre ocuparam um lugar importante ao longo da histria. Mas parece que esto na iminncia de desempenhar um papel preponderante, a partir do

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    momento em que foram assumidos pelos mass mdia de alcance mundial. Apresentaremos aqui sumariamente apenasdois exemplos. O imenso movimento desencadeado pelos estudantes chineses tinha, evidentemente, como objetivo palavras de ordem de democratizao poltica. Mas pareceigualmente indubitvel que as cargas afetivas contagiosasque trazia ultrapassavam as simples reivindicaes ideolgicas. todo um estilo de vida, toda uma concepo das relaes sociais (a partir das imagens veiculadas pelo Oeste),uma tica coletiva, que a posta em questo. E, afinal, ostanques no podero fazer nada contra isso! Como na Hungria ou na Polnia, a mutao existencial coletiva que tera ltima palavra! Porm os grandes movimentos de subjetivao no tendem necessariamente para um sentido emancipador. A imensa revoluo subjetiva que atravess a o povoiraniano h mais de dez anos se focalizou sobre arcasmosreligiosos e atitudes sociais globalmente conservadoras -em particular, a respeito da condio feminina (questosensvel na Frana, devido aos acontecimentos no Maghrebe s repercusses dessas atitudes repressoras em relao smulheres nos meios de imigrantes na Frana).

    No Leste, a queda da cortina de ferro no ocorreu pelapresso de insurreies armadas, mas pela cristalizao deum imenso desejo coletivo aniquilando o substrato mentaldo sistema totalitrio ps-stalinista. Fenmeno de uma extrema complexidade, j que mistura aspiraes emancipadoras e pulses retrgradas, conservadoras, at mesmo fascistas, de ordem nacionalista, tnica e religiosa. Como, nessatormenta, as populaes da Europa Central e dos pases doLeste superaro a amarga decepo que o Oeste capitalistalhes reservou at o presente? A Histria nos dir; uma Histria portadora talvez de surpresas ruins e posteriormente,por que no, de uma renovao das l utas sociais! Quo assassina, em comparao, ter sido a guerra do Golfo! Qua-I , Caosmose

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    se se poderia falar, a seu respeito, de genocdio, j que levou ao extermnio muito mais iraquianos do que as vtimasdas duas bombas de Hiroshima e de Nagasaki, em 1945.Mas com o distanciamento ficou ainda mais claro que o queestava em questo era essencialmente uma tentativa de domesticar a opinio rabe e de retomar as rdeas da opiniomundial: era preciso demonstrar que a via yankee de subjetivao podia ser imposta pela potncia da mdia combinada das armas.De um modo geral, pode-se dizer que a histria contempornea est cada vez mais dominada pelo aumento dereivindicaes de singularidade subjetiva- querelas lingsticas, reivindicaes autonomist as, questes nacionalsticas,nacionais que, em uma ambigidade total, exprimem por umlado uma reivindicao de tipo liberao nacional, mas que,por outro lado, se encarnam no que eu denominaria reterritorializaes conservado ras da subjetividade. Deve-se admitir que uma certa representao universalista da subjetividade, tal como pde ser encarnada pelo colonialismo capitalstico do Oeste e do Leste, faliu, sem que ainda se possaplenamente medir a amplido das conseqncias de um ta lfracasso. Atualmente v-se que a escalada do integrismo nospases rabes e muulmanos pode te r conseqncias incalculveis no apenas sobre as relaes internacionais, mas sobre a economia subjetiva de centenas de milhes de indivduos. toda a problemtica do desamparo, mas tambm daescalada de reivindicaes do Terceiro Mundo, dos pasesdo Sul, que se acha assim marcada po r um ponto de interrogao angustiante.A sociologia, as cincias econmicas, polticas e jurdicas parecem, no atual estado de coisas, insuficientementearmadas para dar conta de uma tal mistura de apego arcaizante s tradies culturais e entretanto de aspirao modernidade tecnolgica e cientfica, mistura que c a ractcrizaHeterognese 13

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    o coquetel subjetivo contemporn eo. A psicanlise tradicional, por sua vez, no est nem um pouco melhor situadapara enfrentar esses problemas, devido sua maneira dereduzir os fatos sociais a mecanismos psicolgicos. Nessascondies, parece indicado forjar uma concepo mais transversalista da subjetividade, que permita responder ao mesmo tempo a suas amarraes territorializadas idiossincrticas (Territrios existenciais) e a suas abertur as para sistemas de valor (Universos incorporais) com implicaes sociais e culturais.Devem-se tomar as produes semiticas dos mass mdia, da informtica, da telemtica, da robtica etc .. fora dasubjetividade psicolgica? Penso que no. Do mesmo modoque as mquinas sociais que podem ser classificadas na rubrica geral de Equipamentos Coletivos, as mquinas tecnolgicas de informao e de comunica o operam no ncleoda subjetividade humana, no apenas no seio das suas memrias, da sua inteligncia, mas tambm da sua sensibilidade, dos seus afetos, dos seus fantasmas inconscientes. Aconsiderao dessas dimenses maqunicas de subjetivaonos leva a insistir, em nossa tentativa de redefinio, na heterogeneidade dos componentes que concorrem para a produo de subjetividade, j que encontramos a: 1. componentes semiolgicos significantes que se manifestam atravs da famlia, da educao, do meio ambiente, da religio,da arte, do esporte; 2. elementos fabricados pela indstriados mdia, do cinema, etc. 3. dimenses semiolgicas asignificantes colocando em jogo mquinas informacionaisde signos, funcionando paralelamente ou independentemente, pelo fato de produzirem e veicularem significaese denotaes que escapam ento s axiomticas propriamente lingsticas.

    As correntes estruturalistas no deram sua autonomia,:;11;1 vspccificidade, a esse regime semitico a-significante,

    I I Caosmose

    ainda que certos autores como Julia Kristeva ou JacquesDerrida tenham esclarecido um pouco essa relativa autonomia desse tipo de componentes. Mas, em geral, as correntes estruturalistas rebateram a economia a-significante dal inguagem - o que chamo de mquinas de signos - sobrea economia lingstica, significacional, da lngua. Isso particularmente sensvel em Roland Barthes, que relaciona todos os elementos da linguagem, os segmentos da narratividade, s figuras de Expresso e confere semiologia lingstica um primado sobre todas as semiticas. Foi um graveerro, por parte da corrente estruturalista, pretender reunirtudo o que concerne psique sob o nico baluarte do significante lingstico!

    As transformaes tecnolgicas nos obrigam a considerar simultaneamente uma tendncia homogeneizaouniversalizante e reducionista da subjetividade e uma tendncia heterogentica, quer dizer, um reforo da heterogeneidade e da singularizao de seus componentes. assimque o "trabalho com o computador" conduz produo deimagens abrindo para Universos plsticos insuspeitadospenso, por exemplo, no trabalho de Matta com a palhetagrf ica- ou resoluo de problemas matemt icos que teri a sido propriamente inimaginvel at algumas dcadasatrs. Mas, ainda a, preciso evitar qualquer iluso progressista ou qualquer viso sistematicamente pessimista. Aprod'l'lo maquni ca de subjetividade pode trabalhar tantopara o melhor como para o pior. Existe uma atitude antimodernista que consiste em rejeitar maciamente as inovaes tecnolgicas, em particular as que esto ligadas revoluo informtica. Entretanto, tal evoluo maqunicano pode ser julgada nem positiva nem negativamente; tudodepende de como for sua articulao com os agenciamentos coletivos de enunciao. O melhor a criao, a inveno de novos Universos de referncia; o pior a mass-mi-

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    dializao embrutecedora, qual so condenados hoje emdia milhares de indivduos. As evolues tecnolgicas, conjugadas a experimentaes sociais desses novos domnios,so talvez capazes de nos fazer sair do perodo opressivoatual e de nos fazer entrar em uma era ps-mdia, caracterizada por uma reapropriao e uma re-singularizao dautilizao da mdia. (Acesso aos bancos de dados, s videotecas, interatividade entre os protagonistas etc .. )

    Nessa mesma via de uma compreenso polifnica e heterogentica da subjetividade, encontraremos o exame deaspectos etolgicos e ecolgicos. Daniel Stern, em The Impersonal World of the Infantl, explorou notavelmente asformaes subjetivas pr-verbais da criana. Ele mostra queno se trata absolutamente de "fases", no sentido freudiano, mas de nveis de subjetivao que se mantero paralelos ao longo da vida. Renuncia, assim, ao carter superestimado da psicognese dos complexos freudianos e que foramapresentados como "universais" estruturais da subjetividade. Por outro lado, valoriza o carter trans-subjetivo, desde o incio, das experincias precoces da criana, que nodissocia o sentimento de si do sentimento do outro. Umadialtica entre os "afetos partilhveis" e os "afetos nopartilhveis" estrutura, assim, as fases emergentes da subjetividade. Subjetividade em estado nascente que no cessaremos de encontrar no sonho, no delrio, na exaltao criadora, no sentimento amoroso ..A ecologia social e a ecologia mental encontraram lugares de explorao privilegiados nas experincias de Psicoterapia Institucional. Penso evidentemente na Clnica deLa Borde, onde trabalho h muito tempo, e onde tudo foipreparado para que os doentes psicticos vivam em um di -

    1 I l. S1nn, The Impersonal World of the Infant, Basic Book Inc.Puhli,lur., Nov;l York, 1985.

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    ma de atividade e de responsabilidade, no apenas com oobjetivo de desenvolver um ambiente de comunicao, mastambm para criar instncias locais de subjetivao coletiva. No se trata simplesmente, portanto, de uma remodelagem da subjetividade dos pacientes, tal como preexistia crise psictica, mas de uma produo sui generis. Por exemplo, certos doentes psicticos de origem agrcola, de meiopobre, sero levados a pratic ar artes plsticas, teatro, vdeo,msica, etc., quando esses eram antes Universos que lhes escapavam completamente.

    Em contrapartida, burocratas e intelectuais se sentiroatrados po r um trabalho material, na cozinha, no jardim,em cermica, no clube hpico. O que i mporta aqui n o unicamente o confronto com uma nova matria de expresso, a constituio de complexos de subjetivao: indivduogrupo-mquina-trocas mltiplas, que oferecem pessoa possibilidades diversificadas de recompor uma corporeidadeexistencial, de sair de seus impasses repetitivos e, de alguma forma, de se re-singularizar.

    Assim se operam transplantes de transferncia que noprocedem a partir de dimenses "j existentes" da subjetividade, cristalizadas em complexos estruturais, mas que procedem de uma criao e que, po r esse motivo, seriam antesda alada de uma espcie de paradigma esttico. Criam-senovas modalidades de subjetivao do mesmo modo que umartista plstico cria novas formas a partir da palheta de quedispe. Em um tal contexto, percebe-se que os componentes os mais heterogneos podem concorrer para a evoluopositiva de um doente: as relaes com o espao a rq li itctnico, as relaes econmicas, a co-gesto entre o doente cos responsveis pelos diferentes vetores de traLttlH'ttto, aapreenso de todas as ocasies de a b e r t t ~ r a p:tr;t o e:-.:tnior,a explorao processual das "singularid:Hks" dos :!contecimentos, enfim tudo aquilo que pode cottl rilntir p:tra : teria-

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    o de uma relao autntica com o outro. A cada um desses componentes da instituio de tratamento correspondeuma prtica necessria. Em outros termos, no se est maisdiante de uma subjetividade dada como um em si, mas facea processos de autonomizao, ou de autopoiese, em um sentido um pouco desviado do que Francisco Varela d a essetermo

    2 Consideremos agora um exemplo de explorao dos re

    cursos etolgicos e ecolgicos da psique no domnio daspsicoterapias familiares, muito particularmente no mbitoda corrente que, em torno de Mony Elkaim, tenta se liberta r da dominao das teorias sistemistas em curso nos pases anglo-saxnios e na Itlia3.

    A inventividade das curas de terapia familiar, tais como so aqui concebidas, tambm nos distancia de paradigmas cientificistas para nos aproximar de um paradigma tico-esttico. O terapeuta se engaja, corre riscos, no hesitaem considerar seus prprios fantasmas e em criar um clima paradoxal de autenticidad e existencial, acrescido entretanto de uma liberdade de jogo e de simulacro. Ressaltemos, a esse respeito, que a terapia familiar levada a pro-duzir subjetividade da maneira mais artificial possvel, emparticular durante a formao, quando os terapeutas serenem para improvisar cenas psicodramticas. A cena,aqui, implica uma mltipla superposio da enunciao:uma viso de si mesmo, enquanto encarnao concreta; umsujeito da enunciao que duplica o sujeito do enunciado ea distribuio dos papis; uma gesto coletiva do jogo; umainterlocuo com os comentadores dos acontecimentos; e,

    2 F. Varela, Autonomie et connaissance, Le Senil, Paris, 1989.3 M. Elkaim, Si tu m'aimes, ne m'aime pas, Le Senil, Paris, 1989.Fdi,:;jo brasileira: Se voc me ama, no me ame. Abordagem sistmica

    ,.,, f'simll'rapia familiar e conjugal, Papirus, Campinas, 1990.

    Caosmose

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    enfim, um olhar-vdeo que restitui em feedback o conjunto desses nveis superpostos.

    Esse tipo de performance favorece o abandono da atitude realista, que consistiria em apreende r as cenas vividascomo correspondentes a sistemas realmente encarnados nasestruturas familiares. Atravs desse aspecto t eatral de mltiplas facetas, apreende-se o carter artificial criacionista d aproduo de subjetividade. particularmente notvel quea instncia do olhar-vdeo habite a viso dos terapeutas.Mesmo se estes no manipulem efetivamente uma cmera,adquirem o hbito de observar certas manifestaes semiticas que escapam ao ol har comum. O face a face ldico comos pacientes, a acolhida imediata das singularidades desenvolvida por esse tipo de terapia, se diferencia da atitude dopsicanalista que esconde o rosto, ou mesmo da performancepsicodramt ica clssica.

    Quer nos voltemos para o lado da histria contempornea, para o lado das produ es semiticas maqunicas oupara o lado da etologia da infncia, da ecologia social e daecologia mental, encontraremos o mesmo questionamentoda individu ao subjetiva que subsiste certamente mas que trabalhada por Agenciamentos coletivos de enunciao.No ponto em que nos encontramos, a definio provisriamais englobante que eu proporia da subjetividade : "oconjunto das condies que torna possvel que instnciasindividuais e/ou coletivas estejam em posio de emergircomo territrio existencial auto-referencial, em adjacnciaou em relao de delimitao com uma alteridade ela mesma subjetiva".

    Assim, em certos contextos sociais e semiolgicos, asubjetividade se individua: uma pessoa, tida como responsvel po r si mesma, se posiciona em meio a relaes de alteridade regidas po r usos familiares, costumes locais, leis jurdicas .. Em outras condies, a subjetividade se faz coleti-

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    va, o que no significa que ela se torne por isso exclusivamente social. Com efeito, o termo "coletivo" deve ser entendido aqui no sentido de uma multiplicidade que se desenvolve para alm do indivduo, junto ao socius, assimcomo aqum da pessoa, junto a intensidades pr-verbais, derivando de uma lgica dos afetos mais do que de uma lgica de conjuntos bem circunscritos.As condies de produo evocadas nesse esboo deredefinio implicam, ento, conjuntamente, instncias humanas inter-subjetivas manifestadas pela linguagem e instncias sugestivas ou identificatrias concernentes etologia, interaes institucionais de diferentes naturezas, dispositivos maqunicos, tais como aqueles que recorrem ao trabalho com computador, Universos de referncia incorporais,tais como a q u e l e ~ relativos msica e s artes plsticas ..Essa parte no-humana pr-pessoal da subjetividade essencial, j que a partir dela que pode se desenvolver sua heterognese. Deleuze e Foucault foram condenados pelo fatode enfatizarem uma parte no-humana da subjetividade,como se assumissem posies anti-humanistas! A questono essa, mas a da apreenso da existncia de mquinasde subjetivao que no trabalham apenas no seio de "faculdades da alma", de relaes interpessoais ou nos complexosintra-familiares. A subjetividade no fabricada apenas atravs das fases psicogenticas da psicanlise ou dos "maternasdo Inconsciente", mas tambm nas grandes mquinas sociais,mass-mediticas, lingsticas, que no podem ser qualificadas de humanas. Assim, um certo equilbrio deve ser encontrado entre as descobertas estruturalistas, que certamenteno so negligenciveis, e sua gesto pragmtica, de maneiraa no naufragar no abandonismo social ps-moderno.

    Com seu conceito de consciente, Freud postulou a existncia de um continente escondido da psique, no interior doqual se representaria o essencial das opes pulsionais , afe-

    'l i Caosmosc

    tivas e cognitivas. Atualmente no se podem dissociar as teorias do inconsciente das prticas psicanalticas, psicoteraputicas, institucionais, literrias etc., que a elas se referem.O inconsciente se tornou uma instituio, um "equipamentocoletivo" compreendido em um sentido mais amplo. Encontramo-nos trajados de um inconsciente quando sonhamos, quando deliramos, quando fazemos um ato falho, umlapso .. Incontestavelmente as descobertas freudianas- queprefiro qualificar de invenes - enriqueceram os ngulossob os quais se pode atualmente abordar a psique. Portanto, no absolutamente em um sentido pejorativo que faloaqui de inveno! Assim como os cristos inventaram umanova frmul a de subjetivao, a cavalaria corts, e o romantismo, um novo amor, uma nova natureza, o bolchevismo,um novo sentimento de classe, as diversas seitas freudianassecretaram uma nova maneira de ressentir e mesmo de produzir a histeria, a neurose infantil, a psicose, a conflitualidade familiar, a leitura dos mitos, etc .. O prprio inconsciente freudiano evoluiu ao longo de sua histria, perdeu ariqueza efervescente e o inquietant e atesmo de suas origense se recentrou na anlise do eu, na adaptao sociedadeou na conformidade a uma ordem significante, em sua verso estruturalista.

    Na perspectiva que a minha e que consiste em fazertransitar as cincias humanas e as cincias sociais de paradigmas cientificistas para paradigmas tico-estticos, a questo no mais a de saber se o inconsciente freudiano ou oinconsciente lacaniano fornecem uma resposta cientfica aosproblemas da psique. Esses modelos s sero consideradosa ttulo de produo de subjetividade entre outros, inseparveis dos dispositivos tcnicos e institucionais que os promovem e de seu impacto sobre a psiquiatria, o ensino universitrio, os mass mdia .. De uma maneira mais geral, dever-se- admitir que cada indivduo, cada grupo social Vl' i

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    cuia seu prprio sistema de modelizao da subjetividade,quer dizer, uma certa cartografia feita de demarcaes cognitivas, mas tambm mticas, rituais, sintomatolgicas, apartir da qual ele se posiciona em relao aos seus afetos,suas angstias e tenta gerir suas inibies e suas pulses.

    Durante uma cura psicanaltica, somos confrontadoscom uma multiplicidade de cartografias: a do analista e ado analisando, mas tambm a cartografia familiar ambiente, a da vizinhana, etc. a interao dessas cartografiasque dar aos Agenciamentos de subjetivao seu regime.Mas no se poder dizer de nenhuma dessas cartografias -fantasmticas, delirantes ou t e ric as - que exprima umconhecimento cientfico da psique. Todas tm importnciana medida em que escoram um certo contexto, um certoquadro, uma armadura existencial da situao subjetiva.Assim nossa questo, hoje em dia, no apenas de ordemespeculativa, mas se coloca sob ngulos muito prticos:ser que os conceitos de inconsciente, que nos so propostos no "mercado" da psicanlise, convm s condies atuais de produo de subjetividade? Seria preciso transform-los, inventar outros? Logo, o problema da modelizao, mais exatamente da metamodelizao psicolgica, o de saber o que fazer com esses instrumentos de cartografia, com esses conceitos psicanalticos, sistemistas etc.Ser que so utilizados como grade de leitura global exclusiva com pretenso cientfica ou enquanto instrumentosparciais, em composio com outros, sendo o critrio ltimo o de ordem funcional?Que processos se desenrolam em uma conscincia como choque do inusitado? Como se operam as modificaesde um modo de pensamento, de uma aptido para apreender o mundo circundante em plena mutao? Como mudar:1s representaes desse mundo exterior, ele mesmo em pro' ( ' ' ; '>O de mudana? O inconsciente freudiano inseparvel

    Caosmose

    de uma sociedade presa ao seu passado, s suas tradiesfalocrticas, s suas invariantes subjetivas. As convulsescontemporneas exigem, sem dvida, uma modelizaomais voltada para o futuro e a emergncia de novas prticas sociais e estticas em todos os domnios. A desvalorizao do sentido da vida provoca o esfacelamento da imagemdo eu: suas representaes tornam-se confusas, contraditrias. Face a essas convulses, a melhor atitude consiste emvisar ao trabalho de cartografia e de modelizao psicolgica em uma relao dialtica com os interessados, os indivduos e os grupos concernidos, quer dizer, indo no sentido de uma co-gesto da produo de subjetividade, renunciando s atitudes de autoridade, de sugesto, que ocupamum lugar to destacado na psicanlise, a despeito de elapretender ter escapado disto.

    H muito tempo recusei o dualismo Consciente-Inconsciente das tpicas freudianas e todas as oposies maniquestas correlativas triangulao edipiana, ao complexo de castrao etc .. Optei por um inconsciente que superpe mltiplos estratos de subjetivaes, estratos heterogneos, deextenso e de consistncia maiores ou menores. Inconsciente, ento , mais "esquizo ", liberado dos grilhes familialistas,mais voltado para prxis atuais do que para fixaes e regresses em relao ao passado. Inconsciente de Fluxo e demquinas abstratas, mais do que inconsciente de estruturae de linguagem.

    Entretanto, no considero minhas "cartografi as esquizo-analticas" como doutrinas cientficas4 . Assim como umartista toma de seus predecessores e de seus cont empor neosos traos que lhe convm, convido meus leitores a pegar e arejeitar livremente meus conceitos. O importante nesse casono o resultado final mas o fato de o mtodo cartogrfico

    4 F. Guattari, Cartographies schizoanalytiques, Galile, Paris, I 9S9.

    Heterognese

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    multicomponencial coexistir corn o processo de subjetivao e de ser assim tornada possvel uma reapropriao, umaautopoiese, dos meios de produo da subjetividade.

    Que fique bem claro que no assimilo a psicose a umaobra de arte e o psicanalista, a um artista! Afirmo apenas queos registros existenciais aqui concernidos envolvem uma dimenso de autonomia de ordem esttica. Estamos diante deuma escolha tica crucial: ou se objetiva, se reifica, se "cientificiza" a subjetividade ou, ao contrrio, tenta-se apreendla em sua dimenso de criatividade processual. Kant enfatizara que o julgamento de gosto envolve a subjetividade e sua. d d "d . "5relao com outrem em uma certa atlt u e e esmteresse .Mas no basta designar essas categorias de liberdade e de desinteresse como dimenses essenciais da esttica inconsciente convm ainda considerar seu modo de insero ativo na'sique. Como certos segmentos semiticos adquirem sua au-tonomia comeam a trabalhar por sua prpria conta e a se-

    ' ' 1cretar novos campos de referncia? E a partir de uma ta rup-tura que uma singularizao existencial correlativa gnesede novos coeficientes de liberdade tornar-se- possvel. Umatal separao de um "objeto parcial" tico-esttico do campodas significaes dominantes corresponde ao mesmo tempo promoo de um desejo mutante e finalizao de um.certodesinteresse. Gos taria de fazer uma ponte entre o conceito deobjeto parcial ou de objeto "a", tal como foi teorizado porLacan, que representa a autonomizao de componc1:tes dasubjetividade inconsciente, e a autonomizao su bjctJva en-gendrada pelo objeto esttico. . . .Encontramos aqui a problemti ca de M1khad Bakbtme

    5 "Pode-se dizer que, entre as trs fontes de satish

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    engendra um certo modo de enunciao esttica. Na msica, por exemplo, onde- repete-nos Bakhtine- o isolamento e a inveno no podem ser relacionados axiologicamentecom o material: "No o som da acstica que se isola nemo nmero matemtico intervindo na composio que se inventa. o acontecimento da aspirao e a tenso valorizanteque so isolados e tornados irreversveis pel a inveno e,graas a isso, se eliminam po r eles mesmos sem obstculo eencontram um repouso em sua finalizao" 8.

    Na poesia, a subjetividade criadora, para se destacar,se autonomizar, se finalizar, apossar-se-, de preferncia:

    1) do lado sonoro da palavra, de seu aspecto musical;2) de suas significaes materiais com suas nuanas e

    variantes;3) de seus aspectos de ligao verbal;4) de seus aspectos entonativos emocionais e volitivos;5) do sentimento da atividade verbal do engendram ento

    ativo de um som significante que comporta elementos motores de articula o, de gesto, de mmica, sentimento de ummovimento no qual so arrastados o organismo inteiro, aatividade e a alma da palavra em sua unidade concreta.

    E, evidentemente, declara Bakhtine, esse ltimo aspecto que engloba os outros9.

    Essas anlises penetrantes podem conduzir a uma ampliao de nossa abordagem da subjetivao parcial. Encontramos igualmente em Bakhtine a idia de irreversibilidadedo objeto esttico e implicitamente de autopoiese, noes tonecessrias no campo da anlise das formaes do Inconsciente, da pedagogia, da psiquiatria, e mais geralmente no campo social devastado pela subjetividade capitalstica. N o ento apenas no quadro da msica e da poesia que vemos

    , ), ( l

    8 Idem, p. 74.9 Ibidem.

    ( :,tosmose

    funcionarem tais fragmentos destacados do contedo que, deum modo geral, incluo na categoria dos ritornelos existen-ciais. A polifonia dos modos de subjetivao corresponde, defato, a uma multiplicidade de maneiras de "marcar o tempo".Outros ritmos so assim levados a fazer cristalizar Agenciamentos existenciais, que eles encarnam e singularizam.

    Os casos mais simples de ritornelos de delimitao deTerritrios existenciais podem ser encontrados na etologiade numerosas espcies de pssaros cujas seqncias especficas de canto servem para a seduo de seu parceiro sexual,para o afastamento de intrusos, o aviso da chegada de predadores ..10 Trata -se, a cada vez, de definir um espao funcional bem-definido. Nas sociedades arcaicas, a partir deritmos, de cantos, de danas, de mscaras, de marcas nocorpo, no solo, nos Totens, por ocasio de rituais e atravsde referncias mticas que so circunscritos outros tipos deTerritrios existenciais coletivos11 . Encontramos esses tiposde ritornelos na Antigidade grega com os "nomos", queconstituam, de alguma forma, "indicativos sonoros", estandartes e selos para as corporaes profissionais.

    Mas cada um de ns conhece tais transposies de limiar subjetivo pela atuao de um mdulo temporal catalisador que nos mergulhar na tristeza ou, ento, em umclima de alegria e de animao. Com esse conceito de ritornelo, visamos no somente a tais afetos massivos, mas a ritorneios hipercomplexos, catalisando a entrada de Universos incorporais tais como o da msica ou o das matemticas e cristalizando Territ rios existenciais muito mais des-

    1 . Guattari, L'inconscient machinique, Editions Recherches, Paris, 1979.11 Ver o papel dos sonhos nas cartografias mticas entre os abor

    gines da Austrlia, cf. B. Glowczewski, Les rveurs du desert, Plon, Paris, 1989.

    Heterognese

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    territorializados. E no se trata, com isso, de universos dereferncia "em geral", mas de universos singulares, historicamente marcados no cruzamento de diversas linhas devirtualidade. Um ritornelo complexo- aqum dos da poesia e da msica - marca o cruzamento de modos heterogneos de subjetivao. Por um longo perodo, o tempo foiconsiderado uma categoria universal e unvoca, ao passoque, na realidade, sempre lidamos apenas com apreensesparticulares e multvocas. O tempo universal apenas umaprojeo hipottica dos modos de temporalizao concernentes a mdulos de intensidade - os ritornelos - queoperam ao mesmo tempo em registros biolgicos, scioculturais, maqunicos, csmicos etc ..

    Para ilustrar esse modo de produo de subjetividadepolifnica em que um ritornelo complexo representa umpapel preponderante, consideremos o exemplo da consumao televisiva. Quando olho para o aparelho de televiso, existo no cruzamento: 1. de uma fascinao perceptiva pelo foco luminoso do aparelho que confina ao hipnotismo12; 2. de uma relao de captura com o contedonarrativo da emisso, associada a uma vigilncia lateralacerca dos acontecimentos circundantes (a gua que ferveno fogo, um grito de criana, o telefone .. ); 3. de um mundo de fantasmas que habitam meu devaneio .. meu sentimento de identidade assim assediado por diferentes direes. O que faz com que, apesar da diversidade dos componentes de subjetivao que me atravessam, eu conserveum sentimento relativo de unicidade? Isso se deve a essaritornelizao que me fixa diante da tela, constituda, assim, como n existencial projetivo. Sou o que est diante

    l2 Sobre o tema do "retorno" hipnose e sugesto, cf. L. Chertoke I. Stengers, Le coeur et la raison. L 'hypnose en question de Lavoisier Lacan, Payot, Paris, 1989.

    Caosmose

    de mim. Minha identidade se tornou o speaker, o personagem que fala na televiso. Como Bakhtine, diria que o ritorneio no se apia nos elementos de formas, de matria,de significao comum, mas no destaque de um "motivo"(ou de leitmotiv) existencial se instaurando como "atrator"no seio do caos sensvel e significacional.

    Os diferentes compon entes mantm sua heterogeneidade, mas so entretanto captados por um ritornelo, que ganha o territrio existencial do eu. Com a identidade neurtica, acontece que o ritornelo se encarna em uma representao "endurecida", por exemplo, um ritual obsessivo. Se,por um motivo qualquer, essa mquina de subjetivao ameaada, ento toda a personalidade que pode implodir: o caso na psicose, em que os componentes parciais partem em linhas delirantes, alucinatrias etc.

    Com esse conceito difcil e paradoxal de ritornelo complexo, poder-se- referir um acontecimento interpretativo,em uma cura psicanaltica, no a universais ou a maternas,a estruturas preestabelecidas da subjetividade, mas ao queeu denominaria uma constelao de Universos de referncia. No se trata, ento, de Universos de referncia em geral, mas de domnios de entidades incorporais que se detectam ao mesmo tempo em que so produzidos, e que se encontram todo o tempo presentes, desde o instante em queos produzimos. Eis a o paradoxo prprio a esses Universos: eles so dados no instante criador, como hecceidade eescapam ao tempo discursivo; so como os focos de eternidade aninhados entre os instantes. Alm disso, implicam aconsiderao no somente dos elementos em situao (familiar, sexual, conflitiva), mas tambm a projeo de todasas linhas de virtualidade, que se abrem a partir do acontecimento de seu surgimento.

    Tomemos um exemplo simples: um paciente, no processo de cura, permanece bloqueado em seus problemas, em

    Heterognese 29

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    um impasse. Essa pessoa, um dia, faz a seguinte afirmao,sem lhe dar importncia: "tenho vontade de retomar minhasaulas de direo, pois no dirijo h anos"; ou ento, "tenhovontade de aprender a processar textos". Trata-se de acontecimentos menores que poderiam passar despercebidos emuma concepo tradicional da anlise. Mas no de todoinconcebvel que o que denomino uma tal singularidade setorne uma chave, desencadeando um ritornelo complexo,que no apenas modificar o comportamento imediato dopaciente, mas lhe abrir novos campos de virtualidade. Asaber, a retomada de contato com pessoas que perdera devista, a possibilidade de restabelecer a ligao com antigaspaisagens, de r econquistar uma segurana neurolgica. Aquiuma neutralidade rgida demais, uma no-interveno doterapeuta se tornaria negativa; pode ser necessrio, em taiscasos, agarrar as oportunidades, aquiescer, correr o risco dese enganar, de tentar a sorte, de dizer "sim, com efeito, essaexperincia talvez seja importante". Fazer funcionar o acontecimento como portador eventual de uma nova constelao de Universos de referncia: o que viso quando falo deuma interveno pragmtica voltada para a construo dasubjetividade, para a produo de campos de virtualidadese no apenas polarizada por uma hermenutica simblicadirigida para a infncia.

    Nessa concepo de anlise, o tempo deixa de ser vivido passivamente; ele agido, orientado, objeto de mutaesqualitativas. A anlise no mais interpretao transferencial de sintomas em funo de um contedo latente preexistente, mas inveno de novos focos catalticos suscetveis defazer bifurcar a existncia. Uma singularidade, uma ruptura de sentido, um corte, uma fragmentao, a separao deum contedo semitico - por exemplo, moda dadastaoll surrealista - podem originar focos mutantes de subjet ivao. Da mesma forma que a qumica teve que comear

    1.11 Caosmose

    a depurar misturas complexas para delas extrair matriasatmicas e moleculares homogneas e, a partir delas, com~ o r uma gama infinita de entidades qumicas que no exis~ I a ~ . anteriormente, a "extrao" e a "separao" de subJ e t i V I ~ ~ d e s estticas ou de objetos parciais, no sentido psic a n ~ h ~ I ~ o , tornam possveis uma imensa complexificao dasubjetividade, harmonias, polifonias, contrapontos, ritmose orquestraes existenciais inditos e inusitados.Complexificao desterritorializante essencialmenteprecria, porque constantemente ameaada de enfraquecin:ento reterritorializante, sobretudo no contexto contemporaneo onde o primado dos fluxos informativos engendradosma.quinicamente amea a conduzir a uma dissoluo gener a l ~ z a d a das antigas territorialidades existenciais. Nas primeiras fases das sociedades industriais, o "demonaco" ainda continuava a aflorar por toda parte, mas doravante 0 mistrio se t ~ r n o u uma mercadoria cada vez mais rara. Quebaste aqm evocar a busca desesperada de um Witkiewiz paraapreender uma ltima "estranheza do ser" que parecia literalmente escapar-lhe por entre os dedos.

    Nessas condies, cabe especialmente funo potica recompor universos de subjetivao artificialmente rarefeitos e re-singularizados. N o se trata, para ela de trans-. . 'mitir mensagens, de investir imagens como suporte de iden-tificao ou padres formais como esteio de procedimentode modelizao, mas de catalisar operadores existenciais suscetveis de adquirir consistncia e persistncia.

    Essa catlise potico-existencial, que encontraremos emoperao no seio de discursividades escriturais vocais mu-. . ' 'SICais ou plsticas, engaja quase sincronicamente a recris-talizao enunciativa do criador, do intrprete e do apreciador da obra de arte. Sua eficcia reside essencialmente em~ u a c.apacidade de promover rupturas ativas, processuais, norntenor de tecidos significacionais e denotativos semiotica-

    llcterognese .l i

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    mente estruturados, a partir dos quais ela colocar em funcionamento uma subjetividade da emergncia, no sentido deDaniel Stern.Quando ela se lana efetivamente em uma zona enunciativa dada - quer dizer, situada a partir de um ponto devista histrico e geopoltico -, uma tal funo analticopotica se instaura ento como foco mutante de auto-refe

    renciao e de auto-valorizao. por isso que deveremossempre consider-la sob dois ngulos: 1. enquanto rupturamolecular, imperceptvel bifurcao, suscetvel de desestabilizar a trama das redundncias dominantes, a organizaodo "j classificado" ou, se preferirmos, a ordem do clssico; e 2. enquanto seleo de alguns segmentos dessas mesmas cadeias de redundncia, para conferir-lhes essa funoexistencial a-significante que acabo de evocar, para "ritorneliz-las", para fazer delas fragmentos virulentos de enunciao parcial trabalhando como shifter de subjetivao.Pouco importa aqui a qualidade do material de base, comose v na msica repetitiva ou na dana Buto que, segundoMareei Duchamp, so inteiramente voltadas para "o olhador". O que importa, primordialmente, o mpeto rtmicomutante de uma temporalizao capaz de fazer unir os componentes heterogneos de um novo edifcio existencial.

    Para alm da funo potica, coloca-se a questo dosdispositivos de subjetivao. E, mais precisamente, o quedeve caracteriz-los para que saiam da serialidade -nosentido de Sartre- e entrem em processos de singularizao, que restituem existncia o que se poderia chamar desua auto-essencializao. Abordamos uma poca em que, esfumando-se os antagonismos da guerra friJ, aparecem maisdistintamente as ameaas principais que nossas sociedadesprodutivistas fazem pairar sobre a espcie hu1nana, cuja sobrevivncia nesse planeta est ameaada, n:lo ;1 penas pelasdegradaes ambientais mas tambm pela d q ~ < ' I H ' I T s c n c i a 32 Caosmose

    do tecido das solidariedades sociais e dos modos de vida psquicos que convm literalmente reinventar. A refundao dopoltico dever p assar pelas dimenses estticas e analticasque esto implicadas nas trs ecologias: do meio ambiente,do socius e da psique.N o se pode conceber resposta ao envenenamento daatmosfera e ao aquecimento do planeta, devidos ao efeito

    estufa, uma estabilizao demogrfica, sem uma mutaodas mentalidades, sem a promoo de uma nova arte deviver em sociedade. No se pode conceber disciplina internacional nesse domnio sem trazer uma soluo para osproblemas da fome no mundo, da hiperinflao no Terceiro Mundo. No se pode conceber uma recomposio coletiva do socius, correlativa a uma re-singularizao da subjetividade, a uma nova forma de conceber a democraciapoltica e econmica, respeitando as diferenas culturais,sem mltiplas revolues moleculares. N o se pode esperaruma melhoria das condies de vida da espcie humana semum esforo considervel de promoo da condi o feminina. O conjunto da diviso do trabalho, seus modos devalorizao e suas finalidades devem ser igualmente repensados. A produo pela produo, a obsesso pela taxa decrescimento, quer seja no mercado capitalista ou na economia planificada, conduzem a absurdidades monstruosas. Anica finalidade aceitvel das atividades humanas a produo de uma subjetividade que enriquea de modo contnuo sua relao com o mundo.

    Os dispositivos de produo de subjetividade podemexistir em escala de megalpoles assim como em escala dosjogos de linguagem de um indivduo. Para apreender os recursos ntimos dessa produo- essas rupturas de sentidoautofundadoras de existncia-, a poesia, atualmente, talvez tenha mais a nos ensinar do que as cincias eu>n

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    formaes sociais podem proceder em grande escala, pormutao de subjetividade, como se v atualmente com asrevolues subjetivas que se passam no leste de um modomoderadamente conservador, ou nos pases do Oriente Mdio, infelizmente de um modo largamente reacionrio, atmesmo neofascista. Mas elas podem tambm se produzir emuma escala molecular- microfsica, no sentido de Fo ucault- , em uma atividade poltica, em uma cura analtica, na instalao de um dispositivo para mudar a vida da vizinhana, para mudar o modo de funcionamento de uma escola,de uma instituio psiquitrica.

    Tentei mostrar, ao longo dessa primeira parte, que asada do reducionismo estruturalista pede uma refundaoda problemtica da subjetividade. Subjetividade parcial, prpessoal, polifnica, coletiva e maqunica. Fund amentalmente, a questo da enunciao se encontra a descentrada emrelao da individuao humana. Ela se torna correlativano somente emergncia de uma lgica de intensidadesno-discursivas, mas igualmente a uma incorporao-aglomerao ptica, desses vetores de subjetividade parcial.

    Convm assim renunciar s pretenses habitualmenteuniversalistas das modelizaes psicolgicas. Os contedosditos cientficos das teorias psicanalticas ou sistemistas, assim como as modelizaes mitolgicas ou religiosas, ou ainda as modelizaes do delrio sistcm;)tico, valem essencialmente por sua funo existencializante, quer di1,er, de produo de subjetividade. Nessas condies, a atividade tericase reorientar para uma metamodelizailo capaz de abarcara diversidade dos sistemas de modelizailo. tsst respeito,convm, particularmente, situar a incid[ncia concreta dasubjetividade capitalstica atualmente, su hjt't iv dade do equi-34 Caosmose

    valer generalizado, no contexto de desenvolvimento contnuo dos mass mdia, dos Equipamento s Coletivos, da revoluo informtica que parece chamada a recobrir com suacinzenta monotonia os mnimos gestos, os ltimos recantosde mistrio do planeta.

    Proporemos ento operar um descentramento da questo do sujeito para a da subjetividade. O sujeito, tradicionalmente, foi concebido como essncia ltima da individuao, como pura apreenso pr-reflexiva, vazia, do mundo, como foco da sensibilidade, da expressividade, unificador dos estados de conscincia. Com a subjetividade, serdada, antes, nfase instncia fundadora da intencionalidade. Trata-se de tomar a relao entre o sujeito e o objetopelo meio, e de fazer passar ao primeiro plano a instnciaque se exprime (ou o Interpretante da trade de Pierce). Apartir da se recolocar a questo do Contedo. Este participa da subjetividade, dando consistncia qualidade ontolgica da Expresso. nessa reversibilidade do Contedo e da Expresso que reside o que chamo de funo existencializante. Partiremos, ento, de um primado da substncia enunciadora sobre o pa r Expresso e Contedo.Acreditei perceber uma alternativa vlida aos estruturalismos inspirados em Saussure, apoiand o-me na oposioExpresso/Contedo, tal como a concebeu Hjelmslev 13, querdizer, fundada precisamente em uma reversibilidade possvel entre a Expresso e o Contedo. Para alm de Hjelmslev,proponho considerar uma multiplicidade de instncias quese exprimem, quer sejam da ordem da Expresso ou do Contedo. Ao invs de tirar partido da oposio Expresso/Contedo, que em Hjelmslev duplica o pa r significante/signica-

    13 L. Hjelmslev, Prolgomlmes une torie du langage, Minuit, Paris, 1968; Le langage, Minuit, Paris, 1969; Essais linguistiques, Minuit,Paris, 1971; Nouveaux essais, Paris, PUF, 1985.

    I Icterognese 35

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    do de Saussure, tratar-se-ia de colocar em polifonia, em paralelo, uma multiplicidade de sistemas de expresso, ou doque chamaria agora de substncias de expresso.

    Minha dificuldade metodolgica deve-se ao fato de queo prprio Hjelmslev empregava a categoria de substncia emuma triparti o entre matria, substncia e forma de Expresso e de Contedo. Nele, a juno entre a Expresso e oContedo ocorria ao nvel da forma de expresso e da forma do contedo que identificava. Essa forma comum ou comutante um pouco misteriosa, mas se apresenta, em minha opinio, como uma intuio genial que levanta a questo da existncia de uma mquina formal, transversal a todamodalidade de Expresso como de Contedo. Haveria ento uma ponte, uma transversalidade entre a mquina de discursividade fonemtica e sintagmtica da Expresso, prpria linguagem, e o recorte das unidades semnticas do Contedo, por exemplo a maneira pela qual sero classificadasas cores, as categorias animais. Denomino essa forma comumde mquina desterritorializada, mquina abstrata. Essa noo de mquina semitica no foi inventada por mim: encontrei-a em Chomsky, que fala de mquina abstrata na raizda linguagem. S que esse conceito, essa oposio Expresso/Contedo, ou esse conceito chomskiano de mquina abstrata, ainda permanecem muito rebatidos sobre a linguagem.O objetivo seria re-situar a semiologia e as semiticas no quadro de uma concepo maqunica ampliada da forma, quenos afastaria de uma simples oposio lingstica Expresso/Contedo e nos permitiria integrar aos Agenciamentos enunciativos um nmero indefinido de substncias de Expressocomo as codificaes biolgicas ou as formas de organizao prprias ao socius.Nessa perspectiva, a questo da substncia enunciadora sairia da tripartio tal como a concebia Hjelmslev, entreJn;ltria/substncialforma, a forma se lanando como uma

    ' ,f , Caosmose

    rede sobre a matria para engendrar a substncia tanto deExpresso quant o de Contedo. Tratar-se-ia de fazer estilhaarde modo pluralista o conceito de substncia, de forma a promover a categoria de substncia de expresso, no apenas nosdomnios semi o gicos e semiticos mas tamb m nos domniosextralingsticos, no-humanos, biolgicos, tecnolgicos, estticos etc. Deste modo, o problema do Agenciamento de enunciao no seria mais especfico de um registro semitico, masatravessaria um conjunto de matrias expressivas heterogneas. Transversalidade, ento, entre substncias enunciadorasque podem ser, por um lado, de ordem expressiva lingstica, mas, por outro lado, de ordem maqunica, se desenvolvendo a partir de "matrias no-semioticamente formadas" 'para retomar uma outra expresso de Hjelmslev.

    A subjetividade maqunica, o agenciamento maqunico de subjetivao, aglomera essas diferentes enunciaesparciais e se instala de algum modo antes e ao lado da relao sujeito-objeto. Ela tem, alm disso, um carter coletivo, multicomponencial, uma multiplicidade maqunica. E,terceiro aspecto, comporta dimenses incorporais -o queconstitui talvez o lado mais problemtico da questo e ques abordado lateralmente por Noam Chomsky com suatentativa de retomada do conceito medieval de Universais.Retomemos esses trs pontos. As substncias expressivas lingsticas e no-lingsticas se instauram no cruzamento decadeias discursivas pertencentes a um mundo finito pr-formado (o mundo do grande Outro lacaniano) e de registrosincorporais com virtualidades criacionistas infinitas (j estas no tm nada a ver com os "maternas" lacanianos). nessa zona de interseo que o sujeito e o objet o se fundeme encontram seu fundamento. Trata-se de um dado com oqual os fenomenlogos estiveram s voltas, ao mostrar quea intencionalidade inseparvel de seu objeto e depende ento da ordem de um aqum da relao discursiva sujeito-

    I kterognese 37

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    objeto. Psiclogos enfatizara m as relaes de empatia e detransitivismo na infncia e na psicose. Mesmo Lacan, quan-do ainda influenciado pela fenomenologia, em suas primeiras obras, evocou a import ncia desse tipo de fenmeno. Deum modo geral, pode-se dizer que a psicanlise nasceu indoao encontro dessa fuso objeto-sujeito que vemos operan-do na sugesto, na hipnose, na histeria. O que originou aprtica e a teoria freudiana foi uma tentativa de leitura dotransitivismo subjetivo da histeria.

    Os antroplogos, alis, desde a poca de Lvy-Bruhl,Priezluski etc., mostraram que existia, nas sociedades arcaicas, o que denominavam uma "participao", uma subjetividade coletiva, investindo um certo tipo de objeto e se colocando em posio de foco existencial do grupo. Mas nas pesquisas sobre as novas formas de arte, como as de Deleuzesobre o cinema, veremos, por exemplo, imagens-movimentoou imagens-tempo se constiturem igualmente em germes deproduo de subjetividade. No se trata de uma imagem passivamente representativa, mas de um vetor de subjetivao.E eis-nos ento confrontados com um conhecimento ptico,no-discursivo, que se d como uma subjetividade em direo qual se vai, subjetividade absorvedora, dada de imediato em sua complexidade. Poder-se-ia atribuir a intuiodisso a Bergson, que esclareceu essa experincia no-discursiva da durao em oposio a um tempo recortado empresente, passado e futuro, segundo esquemas espaciais.

    Essa subjetividade ptic a, aqum da relao sujeito-objeto, continua, com efeito, se atualizando atravs de coordenadas energtico-espcio-temporais, no mundo da lnguagem e de mltiplas mediaes; mas o que importa, paracaptar o mvel da produo de subjetividade, apreender,atravs dela, a pseudodiscursividade, o desvio de discursividade, que se instaura no fundamento da relao sujeitoobjeto, digamos numa pseudomediao subjetiva.

    38 Caosmose

    Na raiz de todos os modos de subjetivao, essa subjetividade ptica ocul tada na subjetividade racionalista capitalstica, que tende a contorn-la sistematicamente. A cincia construda sobre uma tal colocao entre parntesesdesses fatores de subjetivao que s encontram o meio devir expresso colocando fora de significao certas cadeiasdiscursivas.

    O freudismo, embora impregnado de cientificismo, pode ser caracterizado, em suas primeiras etapas, como umarebelio contra o reducionismo positivista, que tendia adeixar de lado essas dimenses pticas. O sintoma, o lapso, o chiste, so concebidos a como objetos destacados quepermitem que um modo de subjetividade que perdeu suaconsistncia encontre a via de uma "passagem existncia".O sintoma funciona como ritornelo existencial a partir desua prpria repetitividade. O paradoxo consiste no fato deque a subjetividade ptica tende a ser constantemente evacuada das relaes de discursividade, mas esencialmentena subjetividade ptica que os operadores de discursividade se fundam. A funo existencial dos agenciamentos deenunciao consiste na utilizao de cadeias de discursividade para estabelecer um sistema de repetio, de insistncia intensiva, polarizado entre um Territrio existencial territorializado e Universos incorporais desterritorializados-duas funes metapsicolgicas que podemos qualificar deontogenticas.

    Os Universos de valor referencial do sua consistnciaprpria s mquinas de Expresso, articuladas em Phylummaqunicos. Os ritornelos complexos, para alm dos simples ritornelos de territorializao, declinam a consistnciasingular desses Universos. (Por exemplo, a apreenso pticadas ressonncias harmnicas, fundadas na gama diatnica,configura o "fundo" de consistncia da msica polifnica,ou ainda a apreenso da concatenao possvel dos nme-

    I eterognese 39

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    ros e dos algoritmos configura o "fundo" das idealidadesmatemticas.)

    A consistncia maqunica abstrata que se encontra dessa forma conferida aos Agenciamentos de enuncia o reside no escalonamento e na ordenao dos nveis parciais deterritorializao existencial. O ritornelo complexo funciona alm disso como interface entre registros atuali zados de

    ' 'discursividade e Universos de vi rtualidade no discursivos. o aspecto mais desterritorializado do ritornelo, sua dimenso de Universo de valor incorporai que assume o controledos aspectos mais territorializados atravs de um movimentode desterritorializao, desenvolvendo campos de possvel,tenses de valor, relaes de heterogeneidade, de alteridade, de devir outro. A diferena entre esses Universos devalor e as Idias platnicas que eles no tm carter de fixidez. Trata-se de constelaes de Universos, no interior dasquais um componente pode se afirmar sobre os outros emodificar a configurao referencial inicial e o modo devalorizao do minante. (Por exemplo, veremos afirmar-se,ao longo da Antigidade, o primado de uma mquina milita r baseada nas armas de ferro sobre a mquina de Estadodesptica, a mquina de escritura, a mquina religiosa etc.)A cristalizao de uma tal constelao poder ser "ultrapassada" ao longo da discursividade histrica, mas jamais apagada enquanto ruptura irreversvel da mem ria incorporaida subjetividade coletiva.

    Colocamo-nos, ento, aqu i totalmente fora da viso deum Ser que atravessaria, imutvel, a histria universal dascomposies ontolgicas. Existem constelaes incorporaissingulares que pertencem ao mesmo tempo histria natural e histria humana e simultaneamente lhes escapam pormilhares de linhas de fuga. A partir do morncnto em que hsurgimento de Universos matemticos, no se pode mais fazer com que essas mquinas abstratas que os suportam no

    Caosmose

    tenham j existido em toda parte e desde sempre e no seprojetem nos possveis po r vir. N o se pode mais fazer comque a msica polifnica no tenha sido inventada pela seqncia dos tempos passados e futuros. Essa a primeirabase de consistncia ontolgica dessa funo de subjetivao existencial que se situa na perspectiva de um certo criacionismo axiolgico.

    A segunda a da encarnao desses valores na irreversibilidade do ser a dos Territri os existenciais, que conferem seu selo de autopoiese, de singularizao, aos focos desubjetivao. Na lgica dos conjuntos discursivos que regemos domnios dos Fluxos e dos Phylum maqunicos h sempre separao entre os plos do sujeito e do objeto, h o quePierre Lvy denomina o estabelecimento de uma "cortina deferro" ontolgica14. A verdade de uma proposio responde ao princpio do terceiro excludo; cada objeto se apresentaem uma relao de oposio binria com um "fundo", aopasso que na lgica ptica no h mais referncia global extrnseca que se possa circunscrever. A relao objetai seencontra precarizada, assim como se encontram novamente questionadas as funes de subjetivao.

    O Universo incorporai no se apia em coordenadasbem-arrimadas no mundo, mas em ordenadas, em uma ordenao intensiva mais ou menos engatada nesses Territrios existenciais. Territrios que pretendem englobar em ummesmo movimento o conjunto da mundaneidade e que scontam, na verdade, com ritornelos derrisrios, indexandoseno sua vacuidade, ao menos o grau zero de sua intensidade ontolgica. Territrios, ento, jamais dados como objeto mas sempre como repetio intensiva, lancinante afirmao existencial. E, repito, essa operao se efetua atra-

    14 P. Lvy, Les technologies de l'inteligence, Dcouverte, Paris,1990. Ed. bras.: As tecnologias da inteligncia, Ed. 34, So Paulo, 1993.

    llcterognese 41

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    vs do emprstimo de cadeias semiticas destacadas e desviadas de sua vocao significacional ou de codificao.Aqui uma instncia expressiva se funda sobre uma relaomatria-forma, que extrai formas complexas a partir de umamatria catica.

    Mas voltemos lgica dos conjuntos discursivos: a doCapital, do Significante, do Ser com um S maisculo. OCa-pital o referente da equivalncia generalizada do trabalhoe dos bens; o Significante, o referente capitalstico das expresses semiolgicas, o grande redutor da polivocidade expressiva; e o Ser, o equivalente ontolgico , o fruto da reduo dapolivocidade ontolgica. O verdadeiro, o bom, o belo socategorias de "normatizao" dos processos que escapam lgica dos conjuntos circunscritos. So referentes vazios, quecriam o vazio, que instauram a transcendncia nas relaesde representao. A escolha do Capital, do Significante, doSer, participa de uma mesma opo tico-poltica. O Capita lesmaga sob sua bota todos os outros modos de valorizao.O Significante faz calar as virtualidades infinitas das lnguasmenores e das expresses parciai s. O Ser como um aprisionamento que nos torna cegos e insensveis riqueza e multivalncia dos Universos de valor que, ent retanto, p roliferamsob nossos olhos. Existe uma escolha tica em favor da riquezado possvel, uma tica e uma poltica do virtual que descorporifica, desterritorializa a contingncia, a causalidade linear,o peso dos es tados de coisas e das significaes que nos assediam. Uma escolha da processualidade, da irreversibilidadee da re-singularizao. Esse redesdobrame nto pode se operar em pequena escala,d: modo completamente cerceado, pobre at mesmo catastrfico, na neurose. Pode tomar de em-

    'prstimo referncias religiosas reativas; pode se anular no l-cool, na droga, na televiso, na cotidianeidade sem horizonte.Mas pode tambm tomar de emprstimo outros procedimentos, mais coletivos, mais sociais, mais polticos ..

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    Para questionar as oposies de tipo dualista ser/ente,sujeito/objeto, os sistemas de valorizao bipolar maniquestas, propus o conceito de intensidade ontolgica, que implicaum engajamento tico-esttico do agenciamento enunciativo,tanto nos registros atuais quanto nos virtuais. Mas um outro elemento da metamodelizao que proponho aqui reside no carter coletivo das multiplicidades maqunicas. N oexiste totalizao personolgica dos diferentes componen-tes de Expresso, totalizao fechada em si mesma dos Universos de referncia, nem nas cincias, nas artes e tampou-co na sociedade. H aglomerao de fatores heterogneosde subjetivao. Os segmentos maqunicos remetem a umamecanosfera destotalizada, desterritorializada, a um jogo infinito de interface, segundo a expresso de Pierre Lvy.

    N o existe, insisto, um Ser j a, instalado atravs datemporalidade. Esse questionamento de relaes duais, binrias, do tipo Ser/ente, consciente/inconsciente, implica oquestionamento do carter de linearidade semitica que parece sempre evidente. A expresso ptica no se instauraem uma relao de sucessividade discursiva, para colocaro objeto sob o fundo de um referente bem circunscrito. Estamos aqui em um registro de coexistncia, de cristalizaode intensidade. O tempo no existe como continente vazio(concepo que permanece na base do pensamento einsteiniano). As relaes de temporalizao so essencialmentede sincronia maqunica. H desdobramento de ordenadasaxiolgicas, sem que haja constituio de um referente exterior a esse desdobramento. Estamos aqui aqum da relao de linearidade "extensionalizante" entre um objeto esua mediao representativa no in terior de uma compleiomaqunica abstrata.

    Insisti, em terceiro lugar, no carter incorporai e virtual de uma parte essencial do "meio ambiente" dos agenciamentos de enunciao. Dir-se-ia que os universos de re-

    Heterognese 43

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    ferncia incorporais so in voce, segundo uma terminologia "terminista", nominalista, tornando as entidades semiticas tributrias de uma pura subjetividade, ou que eles soin res, no quadro de uma concepo realista do mundo,sendo a subjetividade apenas um artefato ilusrio? Talvezseja necessrio afirmar sincronicamente essas duas posies,instaurando-se o domnio das intensidades virtuais antes dasdistines entre a mquina semitica, o objeto referido e osujeito enunciador.Por no se ter visto que os segmentos maqunicos eramautopoiticos e ontogenticos, procedeu-se ininterrup tamente a redues universalistas quanto ao Significante e quanto racionalidade cientfica. As interfaces maqunicas soheterogenticas; elas interpelam a alteridade dos pontos devista que se pode ter sobre elas e, conseqentemente, sobreos sistemas de metamodelizao que permitem considerar,de um modo ou de outro, o carter fundamentalmente inacessvel de seus focos autopoiticos . preciso se afastar deuma referncia nica s mquinas tecnolgicas, ampliar oconceito de mquina, para posicionar essa adjacncia da mquina aos Universos de referncia incorporais (mquina musical, mquina matemtica .. ). As categorias de metamodelizao propostas aqu i - os Fluxos, os Phylum maqunicos,os Territrios existenciais, os Universos incorporais - stm interesse porque esto em grupo de qu;ltro e permitemque nos afastemos das descries ternrias que sempre sorebatidas sobre um dualismo. O quarto !Trino vale por umensimo termo, quer dizer, a abertura para ;J lllllltiplicidade. O que distingue uma m e ~ a m o d e l i z a o de uma modelizao , assim, o fato de ela dispor de um tcnno org;mizadordas aberturas possveis para o virtual c par;1 ;J proccssualidade criativa.

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    2. MQUINAS SEMITICAS E HETEROGNESE OUA HETEROGNESE MAQUNICA

    Embora seja comum tratar a mquina como um subconjunto da tcnica, penso h muito tempo que a problemtica das tcnicas que est na dependncia das questescolocadas pelas mquinas e no o inverso. A mquina tornar-se-ia prvia tcnica ao invs de ser a expresso desta.O maquinismo objeto de fascinao, s vezes de delrio.Sobre ele existe todo um "bestirio" histrico. Desde a origem da filosofia, a relao do homem com a mquina fontede indagaes. Aristteles considera que a teclme tem comomisso criar o que a natureza no pode realizar. Da ordemdo "saber" e no do "fazer", ela interpe, entre a naturezae a humanidade, uma espcie de mediao criativa cujo estatuto de "interseo" fonte de perptua ambigidade.

    Enquanto as concepes "mecanicistas" da mquina esvaziam-na de tudo o que possa faz-la escapar a uma simples construo partes extra partes, as concepes vitalistasassimilam-na aos seres vivos, a no ser que sejam os seresvivos os assimilados mquina. A perspectiva cibernticaaberta por Norbert Wiener (Ciberntica e sociedade) considera os sistemas vivos como mquinas particulares dotadas do princpio de retroao. Por sua vez, concepes "sistemistas" mais recentes (Humberto Maturana e FranciscoVarela) desenvolvem o conceito de autopoiese (autoproduo), reservando-o s mquinas vivas. Uma moda filosfica, na trilha de Heidegger, atribui techne- em sua oposio tcnica moderna- uma misso de "desvelamentoda verdade" que vai "buscar o verdadeiro atravs do exato". Assim ela fixa a techne a uma base ontolgica -a um" d" d / drun , -comprometeu o seu carater e abertura pro-cessual. Atravs dessas posies tentaremos discernir limia-Heterogncse 45

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    res de intensidade ontolgica que nos permitem apreendero maquinismo como um todo em seus avatares tcnicos, sociais, semiticos, axiolgicos. Isso implica reconstruir umconceito de mquina que se desenvolve muito alm da mquina tcnica. Para cada tipo de mquina, colocaremos aquesto, no de sua autonomia vita l - no um animalmas de seu poder singular de enunciao: o que denominosua consistncia enunci ativa especfica.O primeiro tipo de mquina em que pensamos o dosdispositivos materiais. So fabricados pela mo do homem- ela mesma substituda por outras mquinas - e isso segundo concepes e planos que respon dem a objetivos de produo. Denomino essas diferentes etapas de esquemas diagramti cos finalizados. Atravs dessa montagem e dessa finalizao, se coloca de sada a necessidade de ampliar a delimitao da mquina stricto sensu ao conjunto funcional quea associa ao homem atravs de mltiplos componentes:

    - componentes materiais e energticos;-componentes semiticos diagramticos e algortmi-cos (planos, frmulas, equaes, clculos que participam dafabricao da mquina);-componentes sociais, relativos pesquisa, forma

    o, organizao do trabalho, ergonomia, circulaoe distribuio de bens e servios produzidos ..- componentes de rgo, de influxo, de humor docorpo humano;- informaes e representaes mentais individuais ecoletivas;

    -investimentos de "mquinas desejantes" produzindo uma subjetividade adjacente a esses componentes;-mquinas abstratas se instaurando transversalmente aos nveis maqunicos materiais, cognitivos, afetivos, sociais, anteriormente considerados.Quando falamos de mquinas abstratas, por "abstra-

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    to" podemos igualmente entender "extrato", no sentido deextrair. So montagens suscetveis de pr em relao todosos nveis heterogneos que atravessam e que acabamos deenumerar. A mquina abstrata lhes transversal. ela quelhes dar ou no uma existncia, uma eficincia, uma potncia de auto-afirmao ontolgica. Os diferentes componentes so levados, remanejados po r uma espcie de dinamismo. Um tal conjunto funcional ser doravante qualificado de Agenciamento maqunico. O termo Agenciamentono comporta nenhuma noo de ligao, de passagem, deanastomose entre seus componentes. um Agenciamento decampo de possveis, de virtuais tanto quanto de elementosconstitudos sem noo de relao genrica ou de espcie.Dentro desse quadro, os utenslios, os instrumentos, as ferramentas mais simples, as menores peas estruturadas deuma maquinaria adquiriro o estatuto de protomquina.

    Tomemos um exemplo. Se desconstruirmos um martelo, retirando-lhe seu cabo: sempre um martelo, mas em estado "mutilado". A "cabea" do martelo- outra metfora zoomrfica- pode ser reduzida por fuso. Ela transpor ento um limiar de consistncia formal onde perder suaforma; esta gestalt maqunica oper a, alis, tanto em um plano tecnolgico quanto em um nvel imag inrio (quando seevoca, por exemplo, a lembrana obsoleta da foice e do martelo). Conseqentemente, estamos apenas diante de umamassa metlica devolvida ao alisamento, desterritorializao, que precede sua entrada numa forma maqunica.Para ultrapassar esse tipo de experincia, similar quela dopedao de cera cartesiano, tentemos, inversamente, associaro martelo e o brao, o prego e a bigorna. Eles mantm entresi relaes de encadeamento sintagmticas. Sua "dana coletiva" poder mesmo ressuscitar a defunta corporao dosferreiros, a sinistra poca das antigas minas de ferro, os usosancestrais das rodas de ferro ..1-Ieterognese 47

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    Como enfatizou Leroi-Gourhan, o objeto tcnico no nada fora do conjunt o tcnico a que pertence. E acontece omesmo com as mquinas sofisticadas, tais como esses robsque em breve sero engendrados por outros robs. O gestohumano permanece adjacente sua gestao, espera da falha que requeir a sua interveno: esse resduo de um ato direto. Mas tudo isso no diz respeito a uma viso parcial, aum certo gosto por uma poca datada da fico cientfica? curioso observar que, para adquirir cada vez mais vida, asmquinas exigem, em troca, no percur so de seus phylum e-volutivos, cada vez mais vitalidade humana abstrata. Assima concepo por computador, os sistemas experts e a inteligncia artificial do, pelo menos, tanto a pensar quanto subtraem do pensamento o que constitui no fundo apenas esquemas inerciais. As formas de pensamento que trabalhamcom computador so de fato mutantes, concernem a outrasmsicas, a outros Universos de referncia 15 .

    Impossvel, ento, recusar ao pe nsamento humano suaparte na essncia do maquinismo. Mas at que ponto estepode ainda ser qualificado de humano? O pensamento tcnico-cientfico no da ordem de um certo tipo de maquinismo mental e semitico? Impe-se aqui estabelecer umadistino entre as semiologias produtoras de significaesmoeda corrente dos grupos sociais -, como a enunciao"humana" de gente que trabalha em torno da mquina, e,por outro lado, as semiticas a-significantes, que, independentemente da quantidade de significaes que veiculam,manipula m figuras de expresso que se poderia qualificar de"no-humanas"; so equaes e planos que enunciam a mquina e fazem-na agir de forma diagramti ca sobre os dis-

    15 P. Lvy, Pliss fractal. Idographie dynamique (miJioire d'habili-tation diriger des recherches en sciences de l'information 1'/ de /

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    tri, mas ela prpria est em uma relao de alteridade comoutras mquinas, atuais ou virtuais, enunciao "no-humana", diagrama prato-subjetivo.

    Essa reconverso ontolgica rompe o alcance totalizantedo conceito de Significante. Pois no so as mesmas entidades significantes que operam as diversas mutaes de referente ontolgico que nos fazem passar do Universo da qumicamolecular ao da qumica biolgica, ou do mundo da acstica ao das msicas polifnicas e harmnicas. Certamente , aslinhas de decifrao significante, compostas por figuras discretas, binarizveis, sintagmatizveis e paradigmatizveis, podem coincidir de um universo ao outro e dar a iluso de queuma mesma trama significante habita todos esses domnios.Mas o mesmo no ocorre com a textura desses universos dereferncia, que so marcados , a cada vez, com o selo da singularidade. Da acstica msica polifnica, as constelaesde intensidades expressivas divergem. Elas dizem respeito auma certa relao ptica, liberando consistncias ontolgicas irredutivelmente heterogneas. Descobrem-se assim tantos tipos de desterritorializao quantos traos de matr ia deexpresso. A articulao significante que os sobrepuja- emsua indiferente neutralidade- incapaz de se impor comorelao de imanncia com as intensidades maqunicas- querdizer, com o que constitui o ncleo no-discursivo e autoenunciador da mquina.

    As diversas modalidades da autopoiese maqunica escapam essencialmente med iao significante e no se submetem a nenhuma sintaxe geral dos procedimentos de desterritorializao. Nenhum par ser/ente, ser/nada, ser/outro,poder ocupar o lugar de binary digit ontolgico. As proposies maqunicas escapam aos jogos comuns da discursividade, s coordenadas estrutur ais de energia, de tempo ede espao.

    Entretanto, tampouco existe uma "transversalidade"

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    ontolgica. O que acontece em um nvel particular-csm ico no deixa de estar relacionado ao que acontece com osocius ou com a alma humana. Mas no segundo harmnicas universais de natureza platnica (O Sofista). A composio das intensidades desterritorializantes se encarna emmquinas abstratas. preciso considerar que existe umaessncia maqunica que ir se encarnar em uma mquinatcnica, mas igualmente no meio social, cognitivo, ligado aessa mquina- os conjuntos sociais so tambm mquinas, o corpo uma mquina, h mqu inas cientficas, tericas, informacionais. A mquina abstrata atravessa todosesses compon entes heterogneos, mas sobretudo ela os heterogeneza fora de qualquer trao unificador e segundo umprincpio de irreversibilidade, de singularidade e de necessidade. A esse respeito, o significante lacaniano fustigadopo r uma dupla carncia: abstrato demais, pelo fato detraduzibilizar sem o menor esforo as matrias de expresso heterogneas; ele perde a heterognese ontolgica, uniformiza e sintaxiza gratuitamente as diversas regies do sere, ao mesmo tempo, no suficientemente abstrato porque incapaz de dar conta da especificidade desses ncleos maqunicos autopoiticos ao s quais necessrio voltar agora.

    Francisco Varela caracteriza uma mquina como "oconjunto das inter-relaes de seus componentes independentemente de seus prprios componentes" 16. A organizao de uma mquina no tem, pois, nada a ver com a suamaterialidade. Ele distingue dois tipos de mquinas: as "alopoiticas", que produzem algo diferente delas mesmas, e as"autopoiticas", que engendram e especificam continuamente sua prpria organizao e seus prprios limites. Estasltimas realizam um processo incessante de substituio deseus component es porque esto submetidas a perturbaes

    16 Op. cit.

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    externas que devem constantemente compensar. De fato, aqualificao de autopoitica reservada por Varela ao domnio biolgico; dela so excludos os sistemas sociais, asmquinas tcnicas, os sistemas cristalinos e t c . - tal o sentido de sua distino entre alopoiese e autopoiese. Mas a autopoiese, que define unicamente entidades autnomas, individualizadas, unitrias e escapando s relaes de input eoutput, carece das caractersticas essenciais aos organismosvi;os, como o fato de que nascem, morrem e sobrevivematravs de phylum genticos.

    Parece-me, entretanto, que a autopoiese mereceria serrepensada em funo de entidades evolutivas, coletivas eque mantm diversos tipos de relaes de alteridade, ao invs de estarem implacavelmente encerradas nelas mesmas.Assim as instituies como as mquinas tcnicas que, aparentemente, derivam da alopoiese, consideradas no quadrodos Agenciamentos maqunicos que elas constituem com osseres humanos, tornam-se autopoiticas ipso facto. Considerar-se-, ento, a autopoiese sob o ngulo da ontognese e da filognese prprias a uma mecanosfera que se superpe biosfera.

    A evoluo filogentica do maquinismo se traduz, emum primeiro nvel, pelo fato de que as mquinas se apresentam por "geraes", recalcando umas s outras, medida que se tornam obsoletas. A filiao das geraes passadas prolongada para o futuro por linhas de virtualidade e por suas rvores de implicao. Mas no se trata a deuma causalidade histrica unvoca. As linhas evolutivas seapresentam em rizomas; as dataes no so sincrnicas masheterocrnicas. Exemplo: a "decolagem" industrial das mquinas a vapor que ocorreu sculos aps o imprio chinst-las utilizado como brinquedo de criana.

    De fato, esses rizomas evolutivos atravessam em blocosas civilizaes tcnicas. Uma mutao tecnolgica pode co-

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    nhecer perodos de longa estagnao ou de regresso, mas noh exemplo de que ela no "recomece" em uma poca ulterior. Isso particularmente claro com as inovaes tecnolgicas militares que pontuam freqentemente grandes seqncias histricas s quais atribuem uma marca de irreversibilidade, fazendo desaparecer imprios em benefcio de novasconfiguraes geopolticas. Mas, repito, isso j era verdadeiroquanto aos instrumentos, aos utenslios e s ferramentas asmais modestas, que no escap am a essa filognese. Poder-seia, por exemplo, consagrar uma exposio evoluo do martelo desde a idade da pedra e conjecturar sobre o que ele serforado a se tornar no contexto de novos materiais e de novastecnologias. O martelo que hoje se compra no supermercadose acha, de algum modo, "destacado" de uma linha filogentica de prolongamentos virtuais indefinidos.

    no cruzamento de universos maqunicos heterogneos, de dimenses diferentes, de textura ontolgica estranha, com inovaes radicais, sinais de maquinismos ancestrais outrora esquecidos e depois reativados, que se singulariza o movimento da histria. A mquina neoltica associa, entre outros componentes, a mquina da lngua falada,as mquinas de pedra talhada, as mquinas agrrias fundadas na seleo dos gros e uma prato-economia alde ... Amquina escriturai s ver sua emergncia com o nascimentodas megamquinas urbanas (Lewis Mumford), correlativas implantao dos imprios arcaicos. Paralelamente, grandes mquinas nmades se constituiro tendo como base oconluio entre a mquina metalrgica e novas mquinas deguerra. Quanto s grandes mquin as capitalsticas, seus maquinismos de base foram proliferantes: mquinas de Estado urbano, depois real, mquinas comerciais, bancrias,mquinas de navegao, mquinas religiosas monotestas,mquinas musicais e plsticas desterritorializadas, lll

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    A questo da reprodutibilidade da mquina em um plano ontogentico mais complexa. A manuteno do estadode funcionamento de uma mquina nunca ocor re sem falhasdurante seu perodo de vida presumido, sua identidade funcional nunca absolutamente garantida. O desgaste, a precariedade, as panes, a entropia, assim como seu funcionamento normal, lhe impem uma certa renovao de seuscomponentes materiais, energticos e infor macionais, essesltimos podendo dissipar-se no "rudo". Paralelamente, amanuteno da consistncia do agenciamento maqunicoexige que seja tambm renovada a parte de gesto e de inteligncia humana que entra em sua composio.

    A alteridade homem/mquina est ento inextricavelmente ligada a uma alteridade mquina/mquina que ocorreem relaes de complementaridadeou relaes agnicas (entremquinas de guerra) ou ainda em relaes de peas ou dedispositivos. De fato, o desgaste, o acidente, a morte e a ressurreio de uma mquina em um novo "exemplar" ou emum novo modelo fazem parte de seu destino e podem passarao primeiro plano de sua essncia em certas mquinas estticas (as "compresses" de Csar, as "metamecnicas", as mquinas happening, as mquinas delirantes de Jean Tinguely).

    A reprodutibilidade da mquina no ento uma purarepetio programada. Suas escanses de ruptura e de indiferenciao, que separam um modelo de qualquer suporte,introduzem sua parte de diferenas tanto ontogenticas quanto filogenticas. durante essas fases de passagem ao estado de diagrama, de mquina abstrata desencarnada, que os"suplementos de alma" do ncleo maqunico tm sua diferena atestada em relao a simples aglomerados materiais.Um amontoado de pedras no uma mquin;l, ao passo queuma parede j uma protomquina esttica, nwnifestandopolaridades virtuais, um dentro e um fora, um alto e um baixo, uma direita e uma esquerda ..

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    Essas virtualidades diagramticas fazem-nos sair da caracterizao da autopoiese maqunica por Varela em termosde individuao unitria, sem input nem output, e nos levam a enfatizar um maquinismo mais coletivo, sem unidadedelimitada e cuja autonomia se adapta a diversos suportesde alteridade. A reprodutibilidade da mquina tcnica, diferentemente da dos seres vivos, no repousa em seqnciasde codificao perfeitamente circunscritas em um genomaterritorializado. Cada mquina tecnolgica tem seus planosde concepo e de montagem mas, por um lado, estes mantm sua distncia em relao a ela e, por outro lado, so remetidos de uma mquina outra de modo a constituir umrizoma diagramtico que tende a cobrir globalmente a mecanosfera. As relaes das mquinas tecnolgicas entre si eos ajustes de suas peas respectivas pressupem uma serializao formal e uma certa diminuio de sua singularidade - mais forte do que a das mquinas vivas - correlativas a uma distncia tomada entre a mquina manifestada nas coordenadas energtico-espcio-temporais e a mquina diagramtica que se desenvolve em coordenadas maisnumerosas e mais desterritorializadas.

    Essa distncia desterritorializante e essa perda de singularidade devem ser relacionadas a um alisamento completo das matrias constitutivas da mquina tcnica. Certamente as asperezas singulares prprias a essas matrias no podem nunca ser completamente abolidas, mas elas s deveminterferir no "jogo" da mquina se a forem requisitadas porseu funcionamento diagramtico. Examinemos, a partir deum dispositivo maqunico aparentemente simples- o parformado por uma fechadura e sua chave -, esses dois aspectos de desvio maqunico e de alisamento. Dois tipos deforma, com texturas ontolgicas heterogneas, se encontramaqui colocados em funcionamento:

    - formas materializadas, contingentes, concretas, dis-

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    eretas, cuja singularidade est encerrada nela mesma, encarnadas respectivamente no perfil pf da fechadura e no perfilF da chave. pf e F nunca coincidem totalmente. Elas evoluem ao longo do tempo devido ao desgaste e oxidao.Mas ambas so obrigadas a permanecer no quadro de umdesvio padro, para alm do qual a chave deixaria de seroperacional;

    - formas "formais", diagramticas, subsumidas po resse desvio padro, que se apresentam como um continuumincluindo toda a gama dos perfis F , pf compatveis com oacionar efetivo da fechadura.Logo se constata que o efeito, a passagem ao ato possvel, deve ser inteiramente assinalado do lado do segundotipo de forma. Embora se escalonando em um desvio padroo mais restrito possvel, essas formas diagramticas se apresentam em nmero infinito. De fato, trata-se de uma integral das formas F , pf_

    Essa forma integral infinitria duplica e alisa as formascontingentes pf e pc, que s valem maquinicamente na medida em que elas lhes pertenam. Um ponto assim estabelecido "por cima" das formas concretas autorizadas. essaoperao que qualifico de alisamento desterritorializado eque concerne tanto normalizao das matrias constitutivas da mquina quanto sua qualificao "digital" e funcional. Um minrio de ferro que no houvesse sido suficientemente laminado, desterritorializado, apresentaria rugosidades de triturao dos minerais de origem que falseariamos perfis ideais da chave e da fechadura. O alisamento domaterial deve retirar-lhe os aspectos de singularidade excessivos e fazer com que ele se comporte de forma a moldar fielmente as impresses formais que lhe so extrnsecas. Acrescentemos que essa modelagem, nisso compar;vcl fotografia, no deve ser evanescente demais, e dcvl conservar umaconsistncia prpria suficiente. A tamblll st encontra um

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    fenmeno de desvio padro, pondo em jogo uma consistncia diagramtica terica. Uma chave de chumbo ou de ourocorreria o risco de se entortar dentro de uma fechadura deao. Uma chave levada ao estado lquido ou ao estado gasoso perde logo sua eficincia pragmtica e sai do campo damquina tcnica.Esse fenmeno de frontei ra formal ser encontrado emtodos os nveis das relaes intramquinas e das relaesintermquinas, particularmente com a existncia de peassobressalentes. Os componente s da mquina tcnica so assim como as peas de uma moeda formal, o que reveladode modo ainda mais evidente desde sua concepo e sua confeco auxiliadas por computador.Essas formas maqunicas, esses alisamentos de matria,de desvio padro entre as peas, de ajustes funcionais, tenderiam a fazer pensar que a forma prima sobre a consistncia e sobre as singularidades materiais, parecendo a reprodutibilidade da mquina tecnolgica impor que cada um deseus elementos se insira em uma definio preestabelecidade ordem diagramtica.Charles Sanders Pierce, que qualificava o diagrama de"cone de relao " e que o assimilava funo dos algoritmos, dele nos props uma viso ampliada que convm ainda, na presente perspectiva, transformar. O diagrama, comefeito, concebido a como uma mquina autopoitica, oque no apenas lhe confere uma consistncia funcional euma consistncia material mas lhe impe tambm o desdobramento de seus diversos registros de alteridade, que ofazem escapar a uma identidad e restrita a simples relaesestruturais.A prato-subjetividade da mquina se instaura em universos de virtualidade que ultrapassam sua territor ia I lhdtexistencial em todos os sentidos. Assim, recusanw 11o.s :1postular uma subjetividade intrnseca semiotiz:t

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    mtica, por exemplo, uma subjetividade "aninhada" nas cadeias significantes em razo do clebre princpio lacaniano:"u m significante representa o sujeito para um outro significante". No existe, para os diversos registros de mquina, uma subjetividade unvoca base de ciso, de falta e desutura, mas modos ontologicamente heterogneos de subjetividade, constelaes de universos de referncia incorporais que assumem uma posio de enunciadores parciais emdomnios de alteridade mltiplos, que seriam melhor denominados domnios de alterificao.

    J encontramos alguns desses registros de alteridademaqunica:-a alteridade de proximidad e entre mquinas diferen-tes e entre peas da mesma mquina;- a alteridade de consistncia material interna;- a alteridade de consistncia formal diagramtica;- a a lteridade de phylum evolutivo;- a alteridade agnica entre mquinas de guerra, emcujo prolongamen to poder-se-ia associar a alteridade "autoagnica" das mquinas desejantes que tendem a seu prpriocolapso, sua prpria abolio.Uma outra forma de alter idade s foi abordada muitoindiretamente; poder-se-ia cham-la de alteridade de escala, ou alteridade fractal, que estabelece um jogo de corres

    pondncia sistmica en tre mquinas de diferentes nveis 17.Entretanto, no estamos preparando um quadro universal das formas de alteridade maqunicas pois, na verdade, suas modalidades ontolgicas so infinitas. Elas se or-17 Leibniz, em sua preocupao de tornar h o i i H l g t ~ n c o s o infini

    tamente grande e o infinitamente pequeno, csti111a tJIIt' ;1 lll;quina viva,que ele assimila a uma mquina divina, continLJ;l ;1 sn IILtJlina em suasmenores partes, at o infinito (o que no seria o c1so

  • 8/2/2019 GUATARRI Caosmose Um Novo Paradigma Estetico

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    construd